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Oh, oh, o gigante acordou! Brasil, junho de 2013: conceptualizações e metáforas das manifestações
Ariadne Domingues Almeida
Ariadne Domingues Almeida
Oh, oh, o gigante acordou! Brasil, junho de 2013: conceptualizações e metáforas das manifestações
Oh! Oh! The giant has awaken! Brazil, June 2013: concepts and metaphors of the street marches
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 38, núm. 2, pp. 139-152, 2016
Universidade Estadual de Maringá
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Resumo: Apresentam-se resultados de um estudo cujo principal objetivo foi examinar o processo de conceptualização das manifestações brasileiras de 2013 e dos seus agentes sociais. Como norte teórico-metodológico, seguiram-se os pressupostos da Linguística Cognitiva, baseando-se em autores como Lakoff e Johnson (1980), Kövecses (2009), Grady (1997), entre outros. O corpus examinado foi constituído por postagens feitas no Facebook, coletadas em junho de 2013. Após a análise qualitativa dos dados, concluiu-se que as manifestações, por exemplo, podem ser conceptualizadas, por meio do mecanismo da metáfora, como guerra.

Palavras-chave:semântica cognitivasemântica cognitiva, conceptualização conceptualização, metáforas metáforas, manifestações manifestações, Brasil Brasil.

Abstract: Results are presented featuring a study on the process of the conceptualization of the 2013 street manifestations in Brazil and their social agents. Cognitive Linguistics, based on Lakoff and Johnson (1980), Kövecses (2009), Grady (1997) and others, foregrounds the theoretical-methodological basis of current research. Corpus comprised postings on Facebook retrieved in June 2013. Qualitative data analysis showed that the street manifestations may be conceptualized as war through the metaphor’s mechanism.

Keywords: cognitive semantics, conceptualization, metaphors, street manifestations, Brazil.

Carátula del artículo

Oh, oh, o gigante acordou! Brasil, junho de 2013: conceptualizações e metáforas das manifestações

Oh! Oh! The giant has awaken! Brazil, June 2013: concepts and metaphors of the street marches

Ariadne Domingues Almeida
Universidade Federal da Bahia, Brasil
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 38, núm. 2, pp. 139-152, 2016
Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 14 Outubro 2014

Aprovação: 28 Setembro 2015

Introdução

O estudo, cujos resultados ora são apresentados, procurou compreender como manifestações ocorridas no Brasil, em 2013, e como os seus agentes foram conceptualizados em postagens feitas no Facebook. O trabalho realizado justificou-se por enfocar a conceptualização de acontecimentos do cotidiano da sociedade brasileira; assim, justificou-se pelas reflexões que promoveu para quem o escreveu e pelas possíveis reflexões acerca da conceptualização que podem ser suscitadas a partir da sua leitura; além disso, o estudo empreendido encontrou justificativa pela contribuição que pode oferecer para o entendimento do modo como as pessoas usam metáforas quando conceptualizam fatos vivenciados on-line. O estudo não partiu de hipóteses predefinidas, mas considerou a necessidade de responder às seguintes questões: 1) Como as manifestações brasileiras de 2013 e seus agentes foram conceptualizados no corpus analisado? 2) Quais metáforas alicerçaram essas conceptualizações? 3) Quais outros mecanismos associavam-se às metáforas para a conceptualização

desses eventos sociais? Para responder a esses questionamentos, foi constituído um corpus formado por postagens feitas no Facebook no mês de junho daquele ano. Em relação aos aspectos metodológicos, foi utilizada, para a realização do estudo, uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, documental, exploratória e descritivo-interpretativa.

Para alcançar o objetivo de compreender a conceptualização das manifestações brasileiras de 2013 e dos seus agentes, com base nas premissas da semântica cognitiva, o texto, que ora se inicia, divide-se em: Brevíssima contextualização histórica dos estudos sobre a metáfora; A metáfora no âmbito dos estudos cognitivos: algumas considerações, que, por sua vez, se subdividem em: Metonímia e metáfora; Esquemas imagéticos e metáforas; Vivência e experiência: manifestações brasileiras de 2013, que, por sua parte, compartimenta-se em: Sociedades, manifestações e redes sociais: tempos e espaços entrecruzados; Observações metodológicas; Conceptualizações das manifestações brasileiras e dos seus agentes: análise dos dados, que, também, se acha subdividido em: Brasil é gigante; Nação é pessoa; Nação é família; Manifestações são guerras; Seres humanos são animais/policiais são animais; Manifestantes são animais. Essas seções são seguidas pelas Considerações finais e pelas Referências. Todas as partes do texto acham-se conectadas com a finalidade de oferecer ao seu leitor uma argumentação plausível relativamente ao fenômeno da conceptualização que, aqui, se acha em destaque.

Brevíssima contextualização histórica dos estudos sobre a metáfora

Se, por um lado, o primeiro registro de uma reflexão ocidental acerca da metáfora foi feito na Antiguidade Clássica por Aristóteles, que a definiu de modo amplo e, pelo que preleciona Eco (2013), como forma de conhecimento, por outro, a história do pensamento acerca desse fenômeno no mesmo Ocidente foi marcada por descontinuidades, como salientam Pelosi, Lenz, e Farias (2009). Ao longo do desenvolvimento dos estudos linguísticos, o fenômeno em pauta foi compreendido, basicamente, como uma questão típica de textos literários, como recurso estilístico de poetas e de prosadores e, ainda que tenha conhecido no findar dos Oitocentos e nos primórdios dos Novecentos um maior interesse por parte de pesquisadores da linguagem, apenas há pouco mais de 30 anos, particularmente a partir das reflexões de Lakoff e Johnson (2002), perpetuadas no livro hoje já clássico no âmbito dos estudos cognitivos – Metaphors we live by, traduzido para o português com o título Metáforas da vida Cotidiana –, passou a ocupar lugar de destaque na agenda dos estudos linguísticos. Ao acentuarem que a metáfora não é apenas um caso de linguagem extraordinária, literária, mas também de linguagem ordinária, cotidiana, uma vez que se realiza no dia a dia das sociedades, Lakoff e Johnson (1980) despertaram um novo interesse pelo fenômeno, de sorte que se tornou um tema proeminente, inclusive não só entre linguistas, mas também entre estudiosos de outras áreas do saber.

Desde a publicação de Metaphors we live by, trinta e cinco anos passaram-se e, a partir desse marco inicial, Lakoff como também Johnson buscaram vencer a dicotomia mente e corpo, de modo que procuraram demonstrar a existência de uma mente corporificada, que os seres humanos podem utilizar padrões inferenciais localizados em áreas sensório-motoras do cérebro para construírem raciocínio abstrato. Mas por outro lado, com o passar desse tempo, a Teoria da Metáfora Conceptual (doravante TMC) não conseguiu vencer o antagonismo entre sociedade e indivíduo, nem a dicotomia competência e performance (Schröder, 2011). No âmbito da TCM, perspectivas diversas foram instauradas e se de início foi particularmente enfatizado o papel da experiência corpórea no processo de formação do significado, no devir das reflexões sobre a metáfora, com destaque para os estudos de Kövecses (2009), sentiu-se a necessidade de se repensar o papel de aspectos sociais e culturais imbricados nos processos de mapeamentos metafóricos. A inserção dessas questões ressaltou o valor da noção de contexto na elaboração do significado. Além disso, pesquisadores como Cameron e Deignan (2009) acentuaram a interconexão entre linguagem e metáfora, o que de alguma maneira foi deixado de lado em pesquisas precursoras sobre o fenômeno. Atualmente, realizam-se, portanto, estudos que buscam desbaratar as relações entre linguagem, corpo humano – aparato cognitivo e sensório-motor – em interconexão com o mundo circundante, focando a interação entre elementos físicos e culturais, de modo a conceber a metáfora como fenômeno holístico.

Em síntese, do século XX aos primórdios do XXI, o processamento metafórico foi alvo de estudos, e propostas teóricas surgiram desde a TMC clássica à hipótese da metáfora primária de Grady (1997), à mesclagem de Fauconnier e Turner (2002), ao modelo da semiótica cognitiva de Brandt e Brandt (2005), entre outros, de sorte que esse fenômeno já estudado desde a Antiguidade foi revisitado, relido e consequentemente reinterpretado em diferentes espaços acadêmicos.

No Brasil, a metáfora em perspectiva cognitiva atraiu o interesse de pesquisadores, desde os primórdios da década de 1990, embora apenas nos anos 2000, precisamente em 2002, tenha acontecido o primeiro evento que a teve como alvo dos debates – I Congresso Internacional sobre a Metáfora na Linguagem e no Pensamento. Depois desse encontro inicial, em 2005, foi feita a sua segunda edição; já em 2008, em Fortaleza, a terceira (Lenz; Pelosi; Farias, 2010); em 2011, no Rio Grande do Sul, a quarta, e, finalmente, em 2015, acontecerá a sua quinta e mais recente edição, em Minas Gerais.

A metáfora encontra-se, hoje, no centro dos holofotes; é efervescente a produção brasileira que a tem como objeto central de estudo. No Diretório dos Grupos de Pesquisas no Brasil do CNPq, localizam-se 23 grupos que trabalham com ‘metáfora’, embora esse número caia para 1, se a busca for feita pelo sintagma ‘metáfora conceptual’. No Banco de Teses Brasileiras, BDTD, por sua parte, identificam-se 500 registros de estudos sobre ‘metáfora’ e 107 sobre ‘metáfora conceptual’, já no Banco de Teses da Capes, acham-se 283 trabalhos que focam a ‘metáfora’, mas apenas 18 enfocam a ‘metáfora conceptual’. Na Plataforma Lattes, há 2.643 pesquisadores doutores que tratam da ‘metáfora’ e 124 da ‘metáfora conceptual’. No www.google.com.br, identificam-se 2.740.000 resultados para ‘metáfora’ e aproximadamente 635.000 para ‘metáfora conceptual’[1] Os números são, portanto, reveladores do interesse acerca desse fenômeno nos espaços de pesquisa brasileiros.

A metáfora no âmbito dos estudos cognitivos: algumas considerações

Segundo Lakoff e Johnson (2002, p. 47-48), “A essência da metáfora é compreender e experienciar uma coisa em termos de outra”. A metáfora é, portanto, um mecanismo atrelado à conceptualização de experiências vivenciadas pelos seres humanos. Há várias bases físicas e culturais possíveis para a metáfora e, inclusive, nenhuma metáfora pode ser compreendida, ou até mesmo representada de forma adequada, independentemente de sua base experiencial (Lakoff & Johnson, 2002).

A metáfora conceptual pode ser definida, como destaca Ibarretxe-Antuñano (2009), como o conjunto de correspondências conceptuais sistemáticas entre dois domínios conceptuais diferentes, em que propriedades do domínio-fonte são transferidas ao alvo. No paradigma cognitivo, entende-se a metáfora como uma propriedade dos conceitos, um mecanismo para entendê-los mais facilmente, não apenas com um propósito artístico, mas como uma ferramenta utilizada sem esforço no cotidiano, por qualquer pessoa, um processo inevitável do pensamento e do raciocínio humanos.

A metáfora, consoante Kövecses (2009), forma-se por componentes que interagem entre si: 1) base experiencial, 2) domínio-fonte; 3) domínio-alvo; 4) relação entre a fonte e o alvo; 5) expressões linguísticas metafóricas; 6) mapeamentos; 7) desdobramentos; 8) mesclagem; 9) atualizações não linguísticas e 10) modelos culturais [2]. Todos esses aspectos interconectam-se na variação metafórica. Algumas metáforas parecem ser universais ou potencialmente universais, as de nível genérico, enquanto as de nível específico tendem a ser diferentes de uma língua para outra. As metáforas variam de uma cultura para outra e em uma mesma cultura, nas dimensões social, regional, étnica, estilística, subcultural, diacrônica e individual; variam, enfim, devido a duas classes: experiências diferenciais e preferências cognitivas diferenciais ou estilos (Kövecses, 2009).

As metáforas são, conforme Lakoff e Johnson (2002), estruturais, orientacionais e ontológicas. No primeiro caso, um conceito será metaforicamente estruturado em termos de outro. No segundo, há organização de um sistema de conceitos em relação a outro, em termos orientacionais, e, no terceiro, acham-se as metáforas decorrentes da capacidade humana de identificar experiências, eventos, ações, atividades, estados, emoções, ideias etc., em termos de entidades e substâncias (Lakoff & Johnson, 2002). Em 2003, eles asseguraram que as metáforas são simultaneamente estruturais, ontológicas e algumas são, ainda, orientacionais (Zountouriadou, 2010). Com base em Grady (1997), eles postularam que as metáforas são primárias e complexas; as primeiras são adquiridas automática e inconscientemente pelos seres humanos, são aprendidas e, agrupadas, formam as complexas, construídas pela integração daquelas (Lakoff & Johnson, 1999).

Lakoff e Johnson (2002), como já salientando, puseram em destaque o fato de ser o pensamento metafórico, de ser o sistema conceptual humano estruturado e definido através de metáforas, que passaram a ser entendidas como um modo de conceptualização. E, por ser também uma questão de linguagem ordinária, comum, cotidiana, a metáfora acha-se em diferentes domínios discursivos – religioso, científico, educacional, jornalístico, jurídico, médico, administrativo, artístico etc. – e é empregada pelos seres humanos em variados gêneros textuais que produzem. Assim, se por um lado, a metáfora conceptual ocorre nas profundezas dos cérebros humanos, por outro, as expressões metafóricas, a ponta do iceberg, formam o conjunto de apreensão imediata. A metáfora linguística – expressão metafórica – origina-se da metáfora conceptual, por sua parte, gerada a partir de experiências do ser humano com o seu corpo em relação ao meio físico, psíquico e cultural onde vive.

Metonímia e metáfora

No âmbito da Linguística Cognitiva, a metonímia é entendida como um mecanismo cognitivo; pode ser definida, cognitivamente, como um tipo de referência indireta pelo qual se faz alusão a uma entidade implícita através de outra explícita (Cuenca & Hilferty, 1999); não se limita a ter meramente função referencial, uma vez que contribui para a compreensão humana e exerce papel cognitivo. A metonímia distingue-se da metáfora, porque, na primeira, o mapeamento ocorre no nível do mesmo domínio cognitivo, o ponto de referência e a zona ativa, enquanto o mapeamento da segunda ocorre entre diferentes domínios conceptuais. Metáfora e metonímia são dois fenômenos distintos que, geralmente, se acham em interação e podem até mesmo coexistir; tal coexistência é uma instanciação simultânea (Barcelona, 2003). No processamento metafórico, ocorre encaixado um processamento metonímico, pois, quando domínios conceituais são integrados, não há, necessariamente, uma integração entre todos os elementos dos domínios fonte e alvo, mas sim de elementos mapeados dentro de cada domínio. Assim, há, por meio de recursão, mapeamentos metonímicos dos quais emerge a metáfora por meio de uma interação.

Esquemas imagéticos e metáforas

Os esquemas imagéticos são abstratos e genéricos, são padrões dinâmicos que emergem da atividade sensório-motora do ser humano e da sua percepção dos eventos quotidianos; fundamentam-se, portanto, na experiência mais comum e geral, e alguns na experiência imediata do corpo. Esses esquemas permitem aos humanos armazenarem e organizarem conhecimentos e ideias, ligando o concreto ao abstrato; os mais comuns atrelam-se a experiências de percurso-trajeto-meta; continente-conteúdo; parte-todo; ligação; centro-periferia; em cima-embaixo; frente-trás. Diferentes áreas da experiência hominal são metaforicamente estruturadas por esquemas imagéticos (Lakoff, 1987). Esses esquemas possuem, em síntese, uma função dupla, pois são conceitos entendidos com uma estrutura própria e utilizados metaforicamente para estruturar outros conceitos. Lakoff (1987) considera-os estruturas cognitivas pré-linguísticas universais e as metáforas conceptuais que a eles se acham associadas talvez possam ser partilhadas entre distintas comunidades sociais ou mesmo entre diferentes culturas (Kövecses, 2009).

Vivência e experiência: manifestações brasileiras de 2013

Apresentadas as premissas teóricas que nortearam o desenvolvimento do estudo cujos resultados são aqui expostos, passamos a inserir os acontecimentos e os agentes que nele se envolveram em sua ecologia[3], o que é feito, considerando a importância dos conceitos de mente corpórea e de realismo corporificado para a Linguística Cognitiva. Além disso, na sequência, procuramos dialogar com sociólogos contemporâneos, nomeadamente com Bauman (2007) e com Castells (2013), pois esses autores, em seus atuais estudos, refletiram sobre as manifestações globais que têm ocorrido mais recentemente, e, ao fazer isto, atendemos, também, a um dos pressupostos da Linguística Cognitiva que prima pela interdisciplinaridade. As linhas que se seguem, ainda, colaboram, de alguma maneira, para a compreensão dos Modelos Cognitivos Idealizados das manifestações de 2013, entendidos, aqui, esses Modelos como conhecimentos que são elaborados socialmente e disponíveis culturalmente. Seguem-se, enfim, alguns comentários breves sobre a ecologia dessas manifestações.

América do Sul, Brasil, junho de 2013, parecia ser apenas mais um mês de comemorações: São João, São Pedro, Copa das Confederações. No entanto, manifestações começaram a eclodir em diferentes áreas do território nacional. A princípio, tratava-se de protestos em São Paulo contra o aumento de passagens de ônibus, contudo manifestações dessa natureza surgiram, também, em outras cidades. Pareciam corriqueiras, porque esse tipo de evento é recorrente nos estados da União, dado que o sistema de transportes urbanos do país é, em geral, precário e a população vive insatisfeita devido ao massacre diário ao qual é submetida em pontos de coletivos, no uso de ônibus ou até mesmo de veículos clandestinos abarrotados ou nas raras redes superlotadas de metrô; rouba-se tempo de vida e, ainda, cobra-se caro por esse tempo roubado. Além de ruins e de insuficientes, o preço dos transportes é incompatível com o salário mínimo de R$ 724,00 (setecentos e vinte e quatro) reais[4]. Assim, a população paga caro por um sistema de transportes sem a devida qualidade e, ainda, vive atormentada pelo fantasma da violência que explode não só nos centros urbanos, mas também em regiões interioranas, antes consideradas refúgios da vida caótica desses grandes espaços da chamada urbanidade.

Eis um quadro propício ao exercício da cidadania; eis o que aconteceu, muito porque, no devir do processo de massificação dos protestos, ações de violência policial contra manifestantes conferiram-lhes novas fisionomias, de sorte que esses eventos passaram a ser aderidos paulatinamente pela população em geral, abrangendo, inclusive, diferentes classes sociais, grupos profissionais, pessoas de idades e gêneros distintos. O quadro inicial, limitado a poucos espaços e reivindicações, foi tornando-se mais dinâmico e generalizado em todas as regiões do país, com pontos de pauta diversos, pois protestos corriqueiros contra o valor das passagens deram lugar a uma onda de manifestações que visavam a pleitear melhor sistema de saúde, educação, segurança, além de conclamar o fim da corrupção, do desperdício do dinheiro público e ainda a votação da PEC 37 [5]. O Gigante acordou era o que cantava o Brasil, obviamente, com as exceções cabíveis a um país com mais de 201 milhões de habitantes. A imagem do brasileiro sempre foi construída com base em um estereótipo de ser esse povo festeiro, despreocupado com questões sociais, despolitizado, desarticulado, que só se interessa pela dupla samba e futebol. Mas os últimos episódios podem oferecer uma amostra de anseios dessa população que vão muito além da folia do seu carnaval e do seu samba. Como afirma Castells (2013, p. 178),

[...] Um grito de indignação contra o aumento do preço dos transportes que se difundiu pelas redes sociais e foi se transformando no projeto de esperança de uma vida melhor, por meio da ocupação das ruas em manifestações que reuniram multidões em mais de 350 cidades [...]

foi o que aconteceu no Brasil em 2013.

Sociedades, manifestações e redes sociais: tempos e espaços entrecruzados

Protestos foram vistos e vivenciados nos últimos tempos em várias regiões do globo. Apesar de suas idiossincrasias, havia algo comum a todos. Neste sentido, Bauman (2013) afirma ser o divórcio entre poder e política, o que ele já discute em Tempos Líquidos (2007), essa origem comum. Essa dupla, poder – capacidade de fazer coisas – e política – a de decidir o que se fará –, esteve, na maior parte do tempo da modernidade, unida nas mãos dos governos ou das instituições políticas, entretanto, hoje, o poder está sendo globalizado, mas não a política. Enquanto aquele se evapora para o ciberespaço, aquela se encontra, como antes, presa ao chão. Para Bauman (2013), ir às ruas reivindicar é um modo de gerar às cegas alternativas para a realização de urgências sociais, porque, com o divórcio entre poder e política, ocorre uma crise de confiança e quem protesta não se coloca contra um partido, porque o que se verifica é a desconfiança no sistema político. Por outro lado, as mídias sociais desempenharam papel fundamental nas manifestações, de modo que funcionaram como uma ferramenta para organizá-las, divulgá-las, discuti-las, enfim para debater fatos por diferentes olhares dissociados algumas vezes de mídias de massa. Como afirma Castells (2013), cidadãos passaram a ter um novo instrumento de informação, auto-organização e automobilização antes inexistente, as redes sociais, e se anteriormente iam às manifestações pensadas por partidos e sindicatos, atualmente, a capacidade de organização é espontânea e o mundo virtual acaba indo ao espaço físico, ruas e praças. Hoje, sociedades são capazes de se organizarem, debaterem e intervirem no espaço público. Sobre isso fala Castells (2013, p. 7-8):

[...] Começou nas redes sociais da internet, já que estas são espaços de autonomia, muito além do controle de governos e empresas – que, ao longo da história, haviam monopolizado os canais de comunicação como alicerces do seu poder. Compartilhando dores e esperanças no livre espaço político da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se [...] Da segurança do ciberespaço, pessoas de todas as idades e condições passaram a ocupar o espaço público, num encontro às cegas entre si e com o destino que desejavam forjar, ao reivindicar seu direito de fazer história – sua história –, numa manifestação da autoconsciência que sempre caracterizou os grandes movimentos sociais.

O espaço público dos movimentos sociais pode ser hoje elaborado como um híbrido entre redes sociais e espaço urbano: conectado o ciberespaço com o urbano, ocorre uma interação que cria, tecnológica e culturalmente, comunidades instantâneas e transformadoras (Castells, 2013).

Observações metodológicas

Feitas algumas considerações atinentes ao contexto social em que ocorreram as manifestações, aqui, postas em destaque, passamos a tecer considerações concernentes a questões metodológicas que guiaram a confecção do estudo que, por sua parte, possui natureza qualitativa, hermenêutica, e procura, com base em corpus formado por postagens feitas no Facebook, em junho de 2013, analisar expressões metafóricas associadas à conceptualização das manifestações de 2013 e dos seus agentes. Vale observarmos que o estudo considerou o conhecimento enciclopédico como parte do saber humano e inseparável do linguístico, de modo que contou, inclusive, com ferramentas como Wikipédia e Dicionário Informal para acessar saberes construídos que, por sua vez, fazem parte dos diferentes Modelos Cognitivos Idealizados, elaborados sobre as manifestações e seus agentes. Depois de formado o corpus, examinaram-se dados alcançados a partir da leitura de todas as postagens coletadas, considerando-se os seguintes passos: 1) numeraram-se os exemplos em ordem crescente e em algarismo arábico; 2) colocaram-se entre aspas simples as partes dos exemplos que documentam expressões metafóricas; 3) entre parênteses, inseriu-se a abreviatura FB que se desdobra em Facebook, seguida de uma vírgula, de outra abreviatura cuja finalidade é possibilitar que o pesquisador identifique a postagem, além de proteger a identidade da pessoa que a fez. Depois, incluiu-se outra vírgula, a data da postagem e, em alguns casos, foi colocada mais uma vírgula e o horário da postagem. Conservou-se a ortografia das postagens, mesmo quando ocorriam nos textos equívocos relativos ao uso da escrita mais monitorada do português. Também, foram mantidas a pontuação e a acentuação, bem como os espaçamentos atinentes às suas respectivas digitações originais.

Conceptualizações das manifestações brasileiras e dos seus agentes: análise dos dados

Após terem sido expostos aspectos metodológicos que nortearam o desenvolvimento do estudo, aduzem-se, a seguir, as análises realizadas, levando em consideração que, se como assevera Castells (2013, p. 10), ainda “É cedo demais para construir uma interpretação sistemática, acadêmica, desses movimentos [...]”, de algum modo, podemos, como ele próprio tenta no plano sociológico, procurar compreendê-los. Aqui, como já foi informado, buscamos entender, ao menos em parte, como se deu a conceptualização das manifestações brasileiras e de seus agentes.

Brasil é gigante

A nação brasileira foi conceptualizada por diferentes pessoas como um gigante; inclusive, a metáfora conceptual BRASIL É GIGANTE[6] interconecta-se à NAÇÃO É SER VIVO. Provavelmente, se fosse feito um levantamento estatístico das expressões metafóricas constantes de domínios discursivos e de gêneros textuais diversos que trataram das manifestações, essa metáfora seria arrolada entre as mais recorrentes:

(1) ‘O GIGANTE ACORDOU!’ [...] (FB, EA, 21.06.13, grifo nosso).

(2) ‘Brasil acordou’ , Aqui em brasilia começou a invasao dos manifestantes no palacio de BRASILIA o vandalismo esta enorme, ‘O brasil acordou , #OgiganteAcordou’ (FB, CM/FA, 20.06.13, 19:28, grifos nossos).

(3) [...] ‘Já perdi amigos, parentes e outros familiares para o gigante racista que não quer dormir!’ (FB, AS, 21.06.13, grifo nosso).

(4) Esta ótima....só não aqueles que se ‘infiltram para detonar td o q vem pela frente’...mas o importante que o ‘Giganteacordouuu’!!! (FB, NF/FA, 21.06.13, 13:13, grifos nossos).

(5) Tem q protestar,. Não adianta ficar parado esperando ‘o governo comer nosso dinheiro’..é isso aí.#‘OGigantaAcordou’ #VamoBrasil (FB, JN/FA, 20.06.13, 22:59, grifos nossos).

O Brasil foi conceptualizado como gigante, que, por sua parte, já foi conceptualizado como humano ou humanoide. Sendo o Brasil um gigante e sendo este último humano ou humanoide, o país ‘acorda’, ‘não quer dormir’, ‘é racista’, possui vontades e comportamentos. De uma parte, projetam-se vertentes do conhecimento enciclopédico acerca dos gigantes, domínio-fonte, no Brasil, alvo que passa a ser conceptualizado como poderoso, forte, resistente para ‘protestar’ (5) sobre os seus direitos, para ‘invadir’ (2), ‘infiltrar’ (4), ‘detonar’ (4) espaços em busca de uma transformação social. De outra parte, por sabermos que gigantes, também, são conceptualizados como seres ignorantes, perigosos, realizam-se projeções desses saberes, no alvo, originando realizações como (3). É possível detectarmos, ademais, a metonímia, pois, quando falamos, tomamos a parte da população pelo seu todo; assim sendo, ocorre metonímia em (1), (2), (3), (4) e (5). Afinal, nem toda a população foi às ruas manifestar-se, a exemplo dos policiais que lá estavam com fins profissionais. Além do já expresso, há uma expressão metafórica associada a GOVERNO É SER VIVO, decorrente da personificação do governo, em (5) e ainda neste exemplo, nem todas as vertentes do conhecimento do domínio-fonte são projetadas no alvo, mapeia-se, apenas, a ação de comer; ocorre, ainda em (5), a metonímia INSTITUIÇÃO PELOS RESPONSÁVEIS (políticos por governo). Em (01), (02), (04) e (05), ocorre uma metáfora orientacional que se liga a BOM É PARA CIMA, pois, ao ser conceptualizado como quem acorda, o Brasil fica em verticalidade.

Nação é pessoa

A metáfora NAÇÃO É PESSOA, documentada no corpus examinado, também, atualiza-se por expressões metafóricas em outras línguas ocidentais. Relativamente ao espaço norte-americano, Lakoff (2007, p. 11) informa:

[...] Há uma metáfora muito frequente que se aprende nas turmas de Relações Internacionais [...]. É conhecida como a metáfora do ator racional. Constitui a base da maior parte da teoria das relações internacionais. E, por sua parte, incorpora outra metáfora: cada nação é uma pessoa. Portanto, há ‘Estados golfos’, ‘nações amigas’ etc. E há um interesse nacional [7] (grifos do autor).

Em (6), localizamos a existência dessa metáfora, também, em português:

(6) em sintese, argumentos para Dilma levar a seus ministros hj e decidir reconhecer erros e ‘reencaminhar a nacao por trilhas menos enlameadas’ (FB, MM, 21.06.13, grifo nosso).

De início, poderíamos pensar que, em (6), se acha a metáfora NAÇÃO É VEÍCULO. Mas o que ocorre, de fato, é uma interconexão entre as metáforas NAÇÃO É PESSOA e VIDA É VIAGEM, que juntas constituem um complexo metafórico no caso em tela. O domínio-alvo é nação, enquanto o fonte é pessoa; ocorre, assim, uma personificação, decorrente da estratégia usada para conceptualizar a nação. Em (6), as projeções do domínio-fonte no alvo ocorrem no sentido de mapear conhecimentos acerca da capacidade humana de locomoção que, inclusive, se associa à VIDA É VIAGEM, que, por sua vez, se atrela ao esquema imagético ORIGEM-PERCURSO-META; assim sendo, homens e mulheres precisam saber escolher bem os seus trajetos. Aqui, o Brasil foi concebido como um ser que segue um direcionamento ruim, que fez um percurso inadequado, dado que seguiu por um trajeto sujo de lama. Dessa forma, é o país entendido como quem precisa de outro que o ajude a andar por caminhos melhores. É possível falarmos, consequentemente, em (6), de metáfora orientacional, posto que, conceptualizada como pessoa, a nação possui um ORIGEM-PERCURSO-META e posiciona-se TRÁS-FRENTE. Além do mais, subjacente à metáfora NAÇÃO É PESSOA, mais geral e que ocorre em outros espaços ocidentais, há BRASIL É PESSOA:

(7) [...] ‘o Brasil começou a acordar e perceber que se unirmos’, podemos ser ouvidos e tentar fazer algumas mudanças neste país [...] (FB, AJ/FA, 20.06.13, às 19:49, grifo nosso).

(8) Muitoo Bom.. o ‘Brasil acordou!’ (FB, MA/FA, 20.06.13, 19:41, grifo nosso).

Nesses casos de personificação, em consequência de metáfora ontológica, o domínio-alvo é o Brasil, enquanto o fonte é o ser humano. Aqui, projetam-se conhecimentos acerca do estado de sono dos humanos, compreendido como a suspensão temporária das suas atividades perceptivo-sensoriais e motoras voluntárias. Quando se dorme, ignora-se o que ocorre no mundo, mas, ao acordar-se, passa-se ao campo das interações, pode-se perceber, agir, transformar a realidade. Se o Brasil dormia, ele estava em estado de sono e, ao despertar, passou desse estado ao de vigília e, assim, restabeleceu-se a sua energia física, psíquica e intelectual para tentar modificar o quadro de injustiças e corrupções. Em (7) e em (8), ocorre, ademais, a metáfora orientacional BOM É PARA CIMA, o que concluímos com base na experiência dos seres humanos de avaliar positivamente o ato de ‘acordar’, pois, assim, podem interagir com o outro, podem construir novas realidades, modificar espaços etc. Quando se diz, em (8), que o Brasil acordou, fez-se uma conceptualização metonímica, pois se trata de uma PARTE POR SEU TODO. O apoio às manifestações não foi total, embora generalizado; quando assim se conceptualizou o Brasil, mostrou-se uma adesão irrestrita aos protestos, criou-se uma realidade unificada em busca de reorganização do espaço, como vimos em (7). Já no mesmo (7), não é feita a mesma metonímia, pois o Brasil começa a acordar, logo o processo é paulatino, todavia, ainda que haja diferenças no âmbito do processo de conceptualização entre (7) e (8), a mesma metáfora conceptual, BRASIL É PESSOA, está subjacente às expressões ali identificadas, assim como ocorre em (9):

(9) [...] enquanto o ‘Brasil pede, melhorias na saúde, na educação, o fim da corrupção, da farra com o dinheiro público’, a gente vê uma completa regressão por parte de algumas pessoas, é como se ‘caminhássemos na contra mão da história’. [...] (FB, JM, 28.06.13, grifos nossos).

Mais uma vez, o Brasil foi personificado, projetaram-se do domínio-fonte conhecimentos a propósito da experiência humana de falar, ou melhor, de tentar alcançar objetivos por meio de interações verbais, ou seja, de pedir. Mais uma vez, o país foi conceptualizado como alguém necessitado; se antes a urgência era de acordar para passar à interação (7 e 8), em (9), já em estado de vigília, ele, agora, em ação ‘pede’, e se ‘pede’ não ordena, roga, e, assim, encontra-se em situação inferior. Sobre (9) é possível pensarmos, ademais, em questões metonímicas, pois se pede saúde, educação, fim da corrupção, do desperdício de dinheiro público e não estádios de futebol ou viagens de parlamentares em jatos da FAB etc. Há, ainda, a presença do esquema imagético ORIGEM-PERCURSO-META, FRENTE-TRÁS, pois o Brasil, em (9), retrocede, caminha na contramão da história o que está no âmago da metáfora VIDA É VIAGEM, mais geral e interligada à personificação. Ainda no plano das metáforas ontológicas, especificamente, das personificações, achamos:

(10) [...] ‘o Brasil parece que esqueceu o que são manifestações públicas de protesto. [...] Esperemos que seja algo que ajude o Brasil a se desamarrar’. (FB, CV, 06.13, grifo nosso).

Em (10), projetaram-se no domínio-alvo, Brasil, conhecimentos sobre o esquecimento humano, que, apesar de receber algumas vezes avaliações sociais positivas, entendido nesses casos particulares como uma necessidade da espécie, é, em geral, visto negativamente, porque se trata da perda da memória, compreendida socialmente como um descuidar, um desprezar, um não levar algo em consideração, de modo a ignorá-lo. Ainda em (10), há a metonímia PARTE PELO TODO. Afinal, não se sabe quem esqueceu as manifestações do passado e mesmo que alguém as tenha esquecido, esse alguém é, apenas, uma parte de um todo. O Brasil tem um passado ditatorial, no qual pessoas foram duramente reprimidas, massacradas, de sorte que, no contexto atual, se o país esqueceu as manifestações do passado, não aprendeu com a sua história. A saliência do esquecimento do conceito de manifestações, metafórica e metonimicamente interconectadas, atrela-se a questões ideológicas relativamente à construção de uma realidade na qual o Brasil passou a ser visto como um país sem memória, ainda que, no texto, esse vazio seja atenuado, dado que não se afirmou que o país perdeu a memória, mas que parece tê-la perdido, e, se parece, é provável, não é fato.

Além de tudo, ao personificar o país, em (10), selecionaram-se saberes sobre a interação humana, no caso específico, da sua ausência pelo fato de estar o país amarrado, impossibilitado, por isso, de interagir. Indivíduos podem ser impedidos de interação, ou porque se encontram em cárcere, ou por serem vítimas de sistemas políticos, ou de sequestradores, ou de outras entidades ora não mencionadas. Mais uma vez, o Brasil foi conceptualizado como alguém fragilizado em situação de vulnerabilidade, que necessitava de ajuda, pois se achava preso, impossibilitado de mover-se. No entanto, o Brasil que aparece amarrado não se encontra totalmente em uma posição de passividade, porque pode, se desejar, se desamarrar (‘Esperemos que seja algo que ajude o Brasil a se desamarrar’); assim sendo, ele pode participar do processo de soltar suas amarras. Em (10), há, ainda, o esquema imagético do RECIPIENTE, porque alguém que se encontra amarrado acha-se preso em um dado espaço, com orientação dentro para fora. Outro caso de personificação do Brasil ocorre em (11):

(11) Oh ‘Brasil’... Eu pra rua por você , Protesto por ti , levo ‘bomba de gás’ por ti , ‘desmaio’ por ti , ‘sangro’ por ti , ‘guerreio’ por você .. E ‘você , oque tem feito’ .(FB, FR, 21.06.13, grifos nossos).

Conceptualizado, mais uma vez, como pessoa, projetaram-se no domínio-alvo, conhecimentos a propósito do fonte, mais especificamente, da interação humana, ou melhor, da falta desta, agora, não por causa das amarras como em (10), mas por consequência da apatia, da insensibilidade e da indiferença do Brasil para com o outro. Em (11), há um caso complexo de metonímia: o Brasil é o todo, mas uma parte desse todo se projetou para fora dele (esquema imagético DENTRO-FORA), cobrou uma atitude de outras partes; personificando o todo, mas da perspectiva desse outro, ele se colocou para fora desse todo, sendo aquele que cobrava a posição do todo, do qual ele, também, é parte, então, ele é outro que não é parte do Brasil.

Nação é família

Lakoff (2007, p. 26), ao recobrar o trabalho de um de seus alunos, afirma:

[...] Nós, os americanos, temos a família como metáfora da nação. Assim, temos Pais Fundadores, Filhas da Revolução Americana, ‘mandamos nossos filhos’ à guerra. É esta uma metáfora natural, porque, geralmente, concebemos os grandes grupos sociais como as nações, em termos de pequenos grupos como as famílias e as comunidades [8] (grifos nossos)

A metáfora NAÇÃO É FAMÍLIA, apontada por Lakoff (2007), além do inglês, registra-se, também, no português, e, atrelada ao espaço sociopolítico brasileiro, deu vazão à metáfora BRASIL É FAMÍLIA, subjacente àquela mais geral (NAÇÃO É FAMÍLIA):

(12) O cartaz mais lindo que vi [...]: ‘o Brasil alterou seu estado de ‘deitado eternamente em berço esplendido’ para ‘ verás que um filho teu não foge à luta’’ (FB, CA, 28.06.13, grifos nossos)

Em (12), ocorre uma interconexão de metáforas pelo esquema imagético de LIGAÇÃO. Nesse caso, projetamos saberes acerca da procriação e dos laços familiares do ser humano, domínio-fonte, no domínio-alvo, o Brasil, e, assim, pudemos personificá-lo e ele pôde reproduzir-se, ter filhos e, ao tê-los, se tornou progenitor, constituiu uma família. Para além da relação familiar apontada, percebemos que, em (12), ao alterar o seu estado de pai a filho que, por sua parte, protege o pai que se tornou seu filho, após a transformação (‘o Brasil alterou seu estado de ‘deitado eternamente em berço esplêndido’ para ‘verás que um filho teu não foge à luta’’), pai e filho são conceptualizados como a mesma pessoa, ainda que tenha ocorrido mudança de estado por parte do pai que passou a filho; o pai passando a filho ou o filho sendo fruto da transformação do pai são concebidos como um único ser; assim, pai e filho são a mesma pessoa. Aqui, provavelmente, há projeções inconscientes de conhecimentos religiosos.

Por outro lado, o Brasil, personificado, mais uma vez, acha-se na posição de deitado, sem ação, e quem se movimenta, quem procura a mudança são os seus filhos, os manifestantes, que, em última instância, são o próprio Brasil, outra vez, conectado pelos esquemas imagéticos de LIGAÇÃO e PARTE-TODO. Esse processo metafórico foi elaborado pela projeção do saber do Hino Nacional Brasileiro, portanto oriundo dos saberes que acabam sendo projetados no alvo, no novo conceito formado pelas várias projeções presentes em (12). Assim, saberes criam a intertextualidade partilhada nessa postagem. Aqui, devido à recorrência ao Hino, fizeram-se presentes, também, os esquemas imagéticos do RECIPIENTE: ‘deitado eternamente em berço esplêndido’ e de ORIGEM-PERCURSO-META: ‘verás que um filho seu não foge à luta’. Por fim, toda a postagem é permeada pela metáfora conceptual MANIFESTAÇÕES SÃO GUERRAS, que dialoga, simbioticamente, com todas as metáforas constates dessa postagem.

Manifestações são guerras

O Modelo Cognitivo Idealizado (MCI) da guerra é producente para a conceptualização das manifestações, assim como também o é para conceptualizar outros domínios da experiência; assim, os domínios-alvo futebol, crise econômica (Silva, 2009), debate político (Zountouriadou, 2010), entre outros, são conceptualizados por mapeamentos do domínio-fonte guerra, assim como o domínio do conhecimento da guerra, também, é projetado, em termos lakoff-johnsianos, no das discussões, como já pontuado no livro Metáforas da vida cotidiana (Lakoff & Johnson, 2002).

As manifestações realizaram-se em campos de batalhas; os manifestantes são opositores, vitoriosos ou perdedores; o cenário é de guerra. Esperam-se resultados como a possibilidade de reequilíbrio por meio do desequilíbrio causado por tais episódios. Assim, no tocante à conceptualização desses eventos, observamos expressões metafóricas que permitem entrever a metáfora MANIFESTAÇÕES SÃO GUERRAS. Mas apenas uma parcela da rede do conceito de guerra conceptualiza e, ainda assim, parcialmente as manifestações, uma vez que outros MCIs são acessados para conceptualizá-las. A metáfora estrutural MANIFESTAÇÕES SÃO GUERRAS é altamente produtiva, como mostra outro exemplo:

(13) ‘A cidade amanheceu com nuances cinza. Havia resquícios de energia bélica no ar. [...] É sabido que, no dia seguinte à guerra, contam-se os corpos ilesos e feridos. Mas também é quando os sobreviventes levantam-se ainda mais fortes e despertos. Apesar dos abalos físicos e psicológicos, é preciso continuar marchando por dias melhores, por dias de paz... Presto minha solidariedade e meu apoio a todos aqueles que lutam com honra e concórdia!’ (FB, AD, 21.06.13, grifos nossos).

Cenário, agentes, ações e energias das manifestações, em (13), são apreendidos por meio do conhecimento das guerras. Não o das experienciações diretas; afinal, poucos são os humanos que, hoje, as vivenciam, mas através do que foi armazenado na cultura ocidental acerca desses fenômenos sociais e/ou do que se assiste/se vivencia nos noticiários das TVs e nas postagens da internet, da experiência atual do outro, a partir da qual realizamos uma experiência sensorial por meio de imagens, sons – relatos – e o que mais nos é apresentado através dos veículos de comunicação de massa. Essa metáfora MANIFESTAÇÕES SÃO GUERRAS entrelaça-se a CIDADÃOS SÃO GUERREIROS:

(14) Policiais imbecis. [...] Será que eles e suas famílias têm direito à um atendimento digno nos hospitais? Será que eles tiveram e seus filhos têm escola de qualidade? Será que seus familiares e eles mesmo têm segurança nas ruas? Então imbecis, a ‘luta é de vocês também... a luta é do povo brasileiro e vocês fazem parte desse grupo’ (FB, FD/AC, 20.06.13, grifos nossos).

Em (14), policiais são adversários, mas não, propriamente, a serem vencidos, não são conceptualizados como inimigos, pois, ao mesmo tempo em que são opositores, fazem parte, de alguma maneira, do conjunto formado pelos seus oponentes, quando a eles são ligados pela mesma sorte, pela nacionalidade e por direitos que deveriam ser comuns a todos os lados do campo de batalha, a todo povo brasileiro. Nessa conceptualização, encontramos, pois, os esquemas imagéticos de LIGAÇÃO, de PARTE-TODO. Já em (15):

(15) Um dos textos mais lúcidos que já li sobre as manifestações [...] BRASÍLIA - Condenados pelo Supremo têm mandato de ‘deputado’ e, não bastasse, viram ‘membros da Comissão de Constituição e Justiça’. [...] É por essas e outras que a ‘irritação popular explode sem líderes, partidos, organicidade’. Graças à internet e à exaustão pelo que está aí. A primeira ‘batalha’ foi ganha com o recuo dos governos do PT, do PSDB e do PMDB no preço das passagens. Mas, claro, a ‘guerra’ continua (FB, S/I, 20.06.13, grifos nossos).

Batalhas são entendidas como eventos particulares de uma guerra que é contínua e interrupta até que se rendam ou se vençam os opositores, no caso, deputados, governos do PT, PSDB, PMDB. O esquema imagético do CONTÊINER é parte da conceptualização do corpo popular que explode sem ajuda de nenhum agente externo. Conceptualizamos a sociedade como uma pessoa, logo, como um ser possuidor de um corpo, que, por sua parte, é concebido como um RECIPIENTE; por seu turno, a irritação é conceptualizada como líquido inflamável constante desse corpo, RECIPIENTE/CONTENTOR que explode; ocorre, assim, uma extrapolação dos limites/fronteiras da sociedade que se coloca em movimento. Já em (16), foram projetados no domínio-alvo conhecimentos acerca do fonte, as ações de guerra: organização e reorganização de estratégias, objetivos, foco nos inimigos, fortalecimento dos seus agentes. Para isso, foram acessados os esquemas imagéticos de EQUILÍBRIO e de FORÇA:

(16) [...] temos que ‘reorganizar aluta, rever prioridades,’ Quero sim que o ‘movimento se fortaleça, mas temo que ele perca a força se a luta não tiver foco...’ (FB, EL/FA, 21.06.13, 12:38, grifos nossos).

Enquanto em (17), projetaram-se conhecimentos acerca das mazelas da guerra e dos seus horrores no domínio-alvo (manifestações):

(17) Gente, sinto muito. Demorei para postar isso, ‘mas não vou mais às ruas. Podem pensar o que quiserem, mas eu não vou me arriscar, me expor a um pequeno grupo de marginais infiltrados juntos às pessoas de Bem. Vi coisas terríveis, de gente oportunista. Parabéns a todos os meus compatriotas que lutam por melhorias. Ouvi alguns dizerem que esse movimento é acéfalo, mas prefiro me referir a multicéfalo [...]’ (FB, LG, 22.06.13, grifo nosso).

As manifestações, assim como as batalhas, são espaços que representam perigo aos seus agentes, risco às suas respectivas integridades físicas. Além dos policiais, há outros inimigos no campo de batalhas: os marginais, os desconhecidos, os que depredam o patrimônio público, os que agridem manifestantes, além dos políticos, metonimicamente, conceptualizados como corruptos, mas estes últimos não vão às ruas, não vão à guerra, portanto constituem um capítulo à parte. Os perigos são proporcionados pelos opositores, parte do mesmo povo, aparentemente, parte de um mesmo lado, mas essa outra parcela é constituída pelos degradados que dividem os agentes da guerra em três: os representantes do estado, a população em geral e os marginais infiltrados; três agentes, portanto, fazem parte de um todo, o povo brasileiro, aqui, metonimicamente entrelaçado. O subgrupo formado pela população é conceptualizado, através da metáfora MANIFESTANTES SÃO GUERREIROS, como ocorre em (18):

(18) ‘O gigante acordou; facebook virou campo de batalhas; e os feridos com as pedradas se retiram p tratar os machucados...’ (com medicos brasileiros, de preferencia, por favor) (FB, DS, 28.06.13, grifo nosso).

Em (18), o espaço da guerra foi virtualizado, saem-se das ruas. Projetaram-se, ainda, no domínio-alvo, conhecimentos do fonte, particularmente, saberes sobre as sequelas das guerras; durante o confronto, fazem-se vítimas, e estas, machucadas e feridas, precisam de médicos, precisam se retirar do espaço concreto para refugiarem-se no mundo das virtualidades, mas, no caso em tela, para travarem novas guerras, com os seus novos oponentes, aqueles que seriam os agentes da cura; os novos vilões: os médicos brasileiros. Para compreendermos os sentidos construídos nessa postagem, é necessário conhecimento a respeito de conflitos recentes entre médicos, Governo Federal e parte da população. A metáfora da guerra é sistemática e, ao conceptualizarmos as manifestações em termos da guerra, focamos certos conhecimentos de um domínio e obliteramos outros. Nesse sentido, prelecionam Lakoff & Johnson (2002, p. 53):

[...] a própria sistematicidade que nos permite compreender um aspecto de um conceito em termos de outro [...] necessariamente encobrirá outros aspectos desse conceito. Ao nos permitir focalizar um aspecto determinado de um conceito [...] um conceito metafórico pode nos impedir de focalizar outros aspectos desse mesmo conceito que sejam inconsistentes com essa metáfora.

Se, por uma parte, quando conceptualizamos as manifestações em termos de guerra, rejeitamos certos aspectos em detrimento de outros, por outra, podemos selecionar outros conceitos para conceptualizarmos as manifestações, de tal modo que elegemos outros MCIs, como o da doença, o da costura, o do show, ainda que, na amostra examinada, a metáfora mais produtiva seja MANIFESTAÇÕES SÃO GUERRAS. Assim, por serem as metáforas uma complexa rede de estratégias para que possamos conceptualizar as nossas experiências físicas e culturais, para além de as manifestações serem conceptualizadas em termos de guerra, o complexo metafórico é constituído, entre outras, pela metáfora estrutural MANIFESTAÇÕES SÃO TRANSAÇÕES COMERCIAIS:

(19) Só tenho do dos ‘comerciantes’ que tem ‘vossas empresas destruídas por vândalos’ [...] Se fosse sem esta ‘violência’ diga se feita ‘por uma minoria’ acredito q (FB, JE/FA, 20.06.13, 21:34, grifos nossos).

Essa é uma metáfora pouco utilizada; há apenas um registro no corpus, e relaciona-se à conceptualização de situações específicas, pontuais, das manifestações; assim sendo, a situação vivenciada acerca da destruição de empresas faz com que se acesse o conhecimento enciclopédico sobre o comércio e são projetados saberes desse domínio-fonte no alvo, as manifestações, mas não é projetado todo e qualquer saber relativo ao comércio (fonte), mas aquele atinente às receitas alcançadas. Vivemos em uma cultura capitalista que precisa produzir, consumir e gerar rendimentos para possibilitar que o gigante continue de pé, firme e forte; entretanto, não são projetados os ganhos, o que ratifica a conceptualização do movimento como algo que não produzirá capital, desenvolvimento, riquezas, portanto o evento é tido como algo improdutivo, porque não tirará o país dos seus problemas. Aqui não há propriamente um processo de conceptualização de um domínio mais concreto em termos de um mais abstrato; afinal, as transações comerciais são mais abstratas do que as manifestações. Talvez se possa dizer que há um processo de metaforização que vai do conhecido ao desconhecido, do experienciado ao não experienciado e pouco visível na sociedade brasileira, desde que o sistema ditatorial oprimiu as vozes opositivas e suas manifestações mais corpulentas. Também faz-se presente, nessa postagem, a metáfora MANIFESTANTES SÃO MARGINAIS. A conceptualização de grupos sociais infiltrados como manifestantes liga-se a ideologias obscuras que pretendiam enfraquecer o movimento, tirar-lhe a chancela, a legitimidade, ainda que, em (19), ocorra uma modalização.

Outras metáforas estruturais, documentadas uma única vez, mas que fazem parte do complexo metafórico criativo são: MANIFESTAÇÕES SÃO VÍRUS; MANIFESTAÇÕES SÃO COLCHAS DE RETALHO e MANIFESTAÇÕES SÃO ESPETÁCULOS. Neste contexto, parecem estar interconectadas às metáforas: MANIFESTAÇÕES SÃO SERES VIVOS ou MANIFESTAÇÕES SÃO BENS CULTURAIS. Essas são frutos de uma reflexão sobre a história dos protestos:

(20) Já se pode traçar um breve histórico das manifestações: a) elas tiveram origem em ações de jovens de movimentos e partidos de esquerda; [...] f) ‘essa mudança da imprensa - mais a ação das redes sociais - levou outros segmentos a serem solidários com os reprimidos pela polícia; g)as manifestações então crescem, obrigando a imprensa a mudar de vez o tom de sua cobertura; começa, então, o processo virótico... as manifestações crescem e se transformam em colchas de retalhos que incluem até inclinações fascistas e desejo de golpe (um horror!); i) segmentos despolitizados e eivados de preconceitos em relação à política e às pautas da esquerda desejam dar o tom das manifestações; j) aparecem bandidos e arruaceiros produzindo violências; e patriotas tardios que querem fazer das manifestação uma marcha udenista. As manifestações viraram então esse espetáculo para as tevês e para o FaceBook, em que se apresenta uma extensa agenda de insatisfações. Eis o breve histórico de manifestações que, agora, querem expurgar aqueles que lhes deram origem: movimentos e partidos de esquerda!’ (FB, JW/AS, 21.06.13, grifos nossos).

Conceptualizadas como seres vivos, as manifestações são vírus e, assim sendo, experienciam vivências físicas, depois mudam de natureza e transformam-se em bens culturais, em colchas de retalhos e em espetáculos, e, ao final, transfiguram-se em seres humanos, voltando ao estágio de seres vivos conscientes de suas ações. Ao conceptualizarmos as manifestações como vírus, não projetamos todo conhecimento do domínio-fonte no alvo; a parte mapeada do conceito de vírus é a que diz respeito à sua rápida propagação, o que se associa ao esquema imagético ORIGEM-PERCURSO-META. Também, neste caso, há uma conceptualização negativa que nos faz remontar a Lakoff (2007) quando trata do conceito marco.

Sobre a metáfora MANIFESTAÇÕES SÃO COLCHAS DE RETALHO, o nosso conhecimento enciclopédico nos diz que uma colcha de retalhos se faz com restos, pedaços de panos não utilizados, remete-nos, assim, à pobreza e, ainda que atualmente a reciclagem seja valorizada e que sempre tenha havido certa apreciação social positiva por colhas de retalhos, ao menos para algumas células sociais, até bem pouco tempo, de um modo geral, esse tipo de colcha era visto como recurso de necessitados, de quem não conseguia ter acesso a bens de consumo imediato. Ao que nos parece, são os saberes atinentes às dificuldades que levam os seres humanos a fazerem esse tipo de colchas, que são projetadas no domínio-alvo e não aqueles relativos às avaliações estéticas positivas.

MANIFESTAÇÕES SÃO ESPETÁCULOS é outra metáfora presente em (21). O que é um espetáculo? Concebemo-lo em termos genéricos, em termos de algo que chama a nossa atenção, visando à diversão. Por fim, em (21), as manifestações são personificadas e, assim, querem expurgar, ou seja, livrar-se da sujeira, do pai, daquele de quem descendem; aqui, há construções atreladas a ideologias que buscam conduzir o conceito de manifestação para um dado espaço categorial.

Seres humanos são animais/policiais são animais

Se, por um lado, a nação e o Brasil, constituintes de um todo, são conceptualizados como pessoas, humanizando-os (NAÇÃO/BRASIL SÃO PESSOAS), por outro, pessoas são conceptualizadas como animais (PESSOAS/POLICIAIS SÃO ANIMAIS). Em nossa sociedade, as pessoas enxergam-se superiores aos outros animais, devido à chamada racionalidade, capacidade tida como exclusiva dos seres humanos, de modo que homens e mulheres comportam-se como senhores de outros animais, dominando-os, controlando-os, matando-os, agindo no mundo, de forma a realizar ações para transformá-los em seres subordinados e subservientes. Assim, quando um ser humano tem um comportamento não considerado racional, ele pode ser conceptualizado como um animal. Na geração desses conceitos, estão as avaliações sobre a vida dos animais, do que o humano valoriza e despreza em cada um, das conceptualizações humanas em relação à vida desses outros seres, e não características próprias deles (Lakoff & Turner, 1989). Nas manifestações, agentes sociais são assim conceptualizados:

(21) Reportagem da Record mostrando a estupidez da ‘polícia’ contra manifestantes ‘pacificamente’ sentados [...] Os ‘animais’ passam com o carro em alta velocidade e ‘atiraa bombas de efeito moral no grupo’. E ficarão impunes? (FB, AC, 20.06.13, grifos nossos).

Em (21), os policiais são conceptualizados como animais, mas, na sequência textual, voltam a assumir sua posição humana. No caso em tela, projetaram-se, no alvo, preconceitos construídos pelos humanos, conceberam-se os policiais como animais, porque se acredita serem os animais ignorantes, gorsseiros, mas obviamente essas não são características desses seres. Além disso, há, em (21), as metonímias TODO PELA PARTE e INSTITUIÇÃO PELOS RESPONSÁVEIS, ligadas à conceptualização de policiais como animais, justificadas pelas bases experenciais das manifestações; toda a corporação (agentes e institutição) acaba assim conceptualizada. Trata-se de um intrincado jogo de conceptualizações dinâmicas e interconectadas, por isso, aqui também, faz-se presente a metáfora MANIFESTAÇÕES SÃO GUERRAS. Por sua parte, (22) apresenta a mesma metáfora POLICIAIS SÃO ANIMAIS, entretanto, agora, conceptualizaram-se policiais como uma espécie de animais, trazendo outra metáfora subjacente àquela: POLICIAIS SÃO RATOS. São conhecimentos sobre ratos, domínio-fonte, projetados no alvo (policiais):

(22) A ‘polícia’ quis evitar que a a manifestação [...] Parabéns aos heróis que ainda enfrentam os ‘ratos’ e seu vandalismo. [...] (FB, SO, 20.06.13, grifo nosso).

Saberes construídos pela ciência e pela cultura humanas ao longo dos tempos acerca da relação entre homens e ratos, a exemplo do fato de se acreditar que esses animais são “[...] responsáveis pela destruição de grandes quantidades de alimento e pela transmissão de diversas doenças, como a peste bubônica [...]” (Grande Dicionário Houaiss Beta da Língua Portuguesa, 2013), assim como a existência de avaliações hominais em relação à vida, ao comportamento desses animais, como a percepção de serem eles sujos, oportunistas, trapaceiros etc., possibilitaram a conceptualização dos policiais como ratos, porque são projetados, no alvo, estereótipos construídos sobre esses bichos. Afinal, são eles muito mal vistos pela sociedade (Dicionário Informal, 2013). Mais uma vez, ocorre a metonímia PARTE PELO TODO, INSTITUIÇÃO PELOS RESPONSÁVEIS. Nesses casos, há metáforas estruturais e metonímias, as fontes e alvos são concretos, já em (24), pode ocorrer um caso de abstração do alvo:

(23) Eu fui e ‘vi os agentes da repressão’ fumegarem em minha cara seu ‘gás anti-cidadania. Bestas-feras.’(FB, MC, 21.06.13, grifo nosso).

Besta-fera, de um lado, pode ser compreendido como animal feroz (Aulete Digital, 2013), por outro, como um ser mitológico, um centauro ou o próprio Diabo (Wikipédia, 2013); assim sendo, podem ser projetados no alvo ou a vertente do conhecimento acerca de animais ferozes ou de seres mitológicos. No primeiro caso, trata-se de dois domínios da experiência, tidos como concretos; no segundo, todavia, o alvo é concreto, o fonte é abstrato; aqui também, há a metonímia PARTE PELO TODO.

Manifestantes são animais

Além dos policiais, os manifestantes são conceptualizados como animais:

(24) [...] Eu não vou pra rua ‘servir de boiada’. [...] gente desinformada que quer fazer revolução inspirado numa propaganda de tv do gigante da Johnnie Walker[...] (FB, BA, 22.06.13, grifo nosso).

Em (24), a metáfora conceptual MANIFESTANTES SÃO ANIMAIS pressupõe SERES HUMANOS SÃO ANIMAIS, mais geral, e que pode servir para explicar por qual razão dois grupos humanos opostos na experiência vivenciada durante os protestos de junho de 2013 puderam ser conceptualizados como animais; isso ocorre porque se projetaram, para cada um desses grupos, apenas vertentes do conhecimento humano sobre os animais e não o todo, processo metonímico, portanto. Daí, policiais podem ser bestas-feras e ratos, enquanto manifestantes, podem ser bois. No processo metafórico, o que se projetaram foram as avaliações, decorrentes da interação humana com os animais; são essas avaliações e não as características dos animais, projetadas no alvo (seres humanos), como já dissemos. Em (24), projetaram-se conhecimentos sobre o domínio-alvo, os bois, no alvo, os manifestantes. A nossa experiência cultural e física com a manada nos ensinou que os bois foram subjugados, de selvagens passaram ao estado de servos, de modo que podem ser laçados, conduzidos, encurralados pelos vaqueiros e ainda podem ser mortos e, depois disso, servirem de alimento para esses mesmos vaqueiros e para outros tantos homens que deles se servem não só da sua carne, mas do leite da sua fêmea e também do couro de toda sua espécie. Logo, não é à toa que a projeção metafórica associou à boiada os manifestantes que, supostamente, serviram ao propósito escuso de alguém. Outra metáfora, que conceptualiza os agentes envolvidos no processo, é MANIFESTANTES SÃO HERÓIS:

(25) [...] Parabéns aos ‘heróis’ que ainda enfrentam os ratos e seu vandalismo. [...] (FB, SO, 06.13, grifo nosso).

Em (25), já discutido e ora retomado (cf. 23), projetaram-se conhecimentos socioculturais construídos no devir do tempo acerca do domínio-fonte (heróis), no domínio-alvo (manifestantes). Para a cultura ocidental, os heróis são tidos como racionais, corajosos, tenazes, abnegados, magnânimos e seus valores morais são solidificados, fortificados. Foram conceptualizados, portanto, pelo menos, dois diferentes tipos de manifestantes; há, pois, uma pluralidade associada a uma complexa rede conceptual advinda da metaforização.

Conclusão

A conceptualização das manifestações e de seus agentes é um fenômeno multidimensional, complexo, que não se fecha em si. Para entender o movimento histórico das manifestações, situado em uma cultura constituída por seres humanos com mentes corporificadas e manifestado linguisticamente, é necessário refletir sobre metáforas conceptuais construídas on-line, advindas de outras metáforas já existentes em nosso cérebro coletivo, formadas por nossas experiências socioculturais, constituídas no devir da história humana; é a relação da história no seu fazer-se e da história feita no seu constituir-se. História da língua, história do Brasil, história do homem fazendo-se on-line. Aqui, buscamos explicações sugestivas e plausíveis, mas não definitivas, de como ocorre a conceptualização através de interconexões entre metáforas, metonímias, esquemas imagéticos, domínios cognitivos idealizados e experiências físicas e culturais.

Material suplementar
Referências
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Notas
Notas
1 Os números apresentados referem-se ao período de confecção deste estudo, entre janeiro e maio de 2014, de modo que já podem se encontrar defasados, uma vez que as atualizações são constantes. Além disso, os dados aqui aduzidos referem-se a um estudo que se desenvolve sobre a história da semântica cognitiva no Brasil.
2 Apesar de os conceitos básicos da linguística cognitiva acharem-se expressos em diferentes textos introdutórios dessa área, como os seus manuais, consideramos pertinente apresentar, a seguir, brevemente, algumas concepções com as quais trabalhamos quando desenvolvemos estudos em semântica cognitiva. Assim, a metáfora conceitual consiste na interação entre dois domínios (o fonte e o alvo), em que um domínio é entendido em termos de outro. O domínio-fonte é bem estruturado, geralmente, mais físico, mais concreto, serve como ponto de partida para a metáfora, por oferecer ao processo metafórico uma espécie de esquema conceptual básico, a partir do qual o alvo poderá ser compreendido. As projeções entre domínios são associações sistemáticas entre elementos do domínio-fonte e do alvo e essas associações resultam em um conjunto de inferências. Os mapeamentos são correspondências básicas ou essenciais entre os domínios fonte e alvo, enquanto os acarretamentos são mapeamentos adicionais, uma vez que os domínios fontes mapeiam ideias para o alvo que vão além das correspondências básicas. Já Blend ou mesclagem são constructos conceptuais novos em relação aos domínios fonte e o alvo, originam-se do resultado da união de um domínio-fonte com um alvo. Modelos Culturais, por sua parte, operam no pensamento e são convergências ou produtos de metáforas conceptuais.
3 Conforme Capra (2006), no âmbito da nova compreensão da realidade, verificamos uma visão ecológica em um sentido que vai muito além das preocupações imediatas com a proteção ambiental. "A ecologia profunda não separa seres humanos - ou qualquer outra coisa - do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes" (Capra, 2006, p. 26).
4 Na época das manifestações, o salário mínimo era de R$ 678,00 (seiscentos e setenta e oito reais).
5 A PEC 37 - Proposta de Emenda à Constituição 37/11 - foi pensada pelo deputado Lourival Mendes (PTdoB-MA), visava a atribuir às polícias Federal e Civil a competência para a investigação criminal. Essa PEC foi rejeitada por 430 votos a 9 e 2 abstenções (Triboli, 2013).
6 Essa metáfora deve pelo menos remontar ao século XIX; a conceptualização do Brasil como gigante já se documenta inclusive no Hino Nacional (Gigante pela própria natureza, És belo, és forte, impávido colosso, E o teu futuro espelha essa grandeza). Porém, para delimitar a origem dessa metáfora, seria preciso proceder a um estudo diacrônico que foge aos objetivos iniciais deste estudo. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/hino.htm. Além disso, podemos pensar que BRASIL É GIGANTE seria uma instanciação de NAÇÃO É PESSOA, mas é preciso, neste caso, ter em mente que o gigante não necessariamente é humano, uma vez que pode ser categorizado como humanoide. Daí, não estabelecermos essa relação entre BRASIL É GIGANTE e NAÇÃO É UMA PESSOA.
7 Em espanhol, lemos: Hay una metáfora muy frecuente que se aprende en las clases de Relaciones Internacionales [...]. Se la conoce como la metáfora del actor racional. Constituye la base de la mayor parte de la teoría de las relaciones internacionales. Y, a su vez, incorpora otra metáfora: la de que cada nación es una persona. Por tanto, hay ‘Estados golfos’, ‘naciones amigas’, etc. Y hay un interés nacional (Tradução nossa).
8 Em espanhol, lemos: “Nosotros, los americanos, tenemos todos a la familia como metáfora de la nación. Así, tenemos Padres Fundadores, Hijas de la Revolución Americana, ‘mandamos a nuestros hijos’ a la guerra. Es ésta una metáfora natural, porque generalmente concebimos los grandes grupos sociales, como las naciones, en términos de pequenos grupos, como las familias y las comunidades” (Tradução nossa).
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ariadnealmeida@uol.com.br

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