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Es kommt net raus: redes sociais, manutenção linguística e identidades dos falantes de Hunsrückisch de Santa Maria do Herval-RS
Es kommt net raus – The role of social networks, language maintenance and identity construction of Hunsrückisch speakers in Santa Maria do Herval, Brazil
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 38, núm. 2, pp. 161-168, 2016
Universidade Estadual de Maringá



Recepção: 15 Abril 2015

Aprovação: 03 Julho 2015

Resumo: Após mais de 190 anos de imigração, em algumas regiões do sul do Brasil, principalmente em pequenas cidades e áreas rurais, os moradores ainda têm línguas de imigração como língua materna. Este estudo foi desenvolvido numa pequena cidade situada ao pé da serra gaúcha, com cerca de 6.000 habitantes, cuja população, em sua maioria, é bilíngue português e Hunsrückisch, uma variedade desprestigiada do alemão. O objetivo deste trabalho é analisar o papel das redes sociais no processo de manutenção ou substituição da língua materna minoritária e as questões de identidade decorrentes dele. O relativo abandono a que a comunidade esteve submetida há até pouco tempo parece haver contribuído para sua organização multiplex, o que levou à manutenção linguística. Com a crescente urbanização, o acesso amplo aos meios de comunicação – televisão, telefone e internet –, essa realidade tende a mudar, transformando a cultura eminentemente rural em urbana, o que também impactará fortemente a língua falada ali.

Palavras-chave: redes sociais, identidade, manutenção linguística, Hunsrückisch.

Abstract: People in some regions in southern Brazil still speak Hunsrückisch as their mother tongue after more than 190 years from the start of German immigration in the country. Current study, developed in a small town (~6000 inhabitants) in the highlands of the state of Rio Grande do Sul, southern Brazil, with a bilingual population speaking Portuguese and Hunsrückisch, an underrated variety of the German language. The role of social networks in the process of the maintenance/substitution of Hunsrückisch and parallel identity issues are investigated. Results showed that the relative isolation experienced by communities in recent years could have contributed towards a multiplex organization, favouring the maintenance of Hunsrückisch. Increasing urbanization and intensified access to the social media (television, telephone and internet) will likely change the traditional pattern. The highly rural culture will develop into a variety of urban culture which, in turn, will deeply affect spoken Hunsrückisch.

Keywords: social networks, identity, language maintenance, Hunsrückisch.

Introdução: a realidade sociolinguística do Brasil

No documentário Walachai (Selonk & Zilles, 2009), o octogenário Paulo Morschel tenta dizer que, naquele dia da entrevista, estava completando seus 80 anos. Por repetidas vezes, tenta dizer que aquele dia é o seu ‘aniversário’, palavra que, como ele acaba dizendo, ‘não sai’ (em Hunsrückisch: Es kommt net raus). Para quem desconhece esses contextos, pode parecer difícil de acreditar que, no século XXI, a cerca de 70 km da capital do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, haja comunidades inteiras que ainda tenham o Hunsrückisch, uma variedade desprestigiada do alemão, como sua língua materna. Mas é fato recorrente, no Brasil, que as pessoas não tenham o português como sua língua materna.

Santa Maria do Herval, nossa comunidade de estudo, é vizinha de Walachai, localidade sobre a qual Rejane Zilles produziu o documentário referido anteriormente. A diretora do filme refere-se à região como ‘Um pedaço do Brasil ainda desconhecido pelos próprios brasileiros’. O isolamento em que muitas dessas comunidades viveram até há pouco tempo fez com que a variedade trazida por seus antepassados se mantivesse ao longo das gerações. Entretanto, a urbanização, o acesso facilitado aos meios de comunicação (rádio e televisão, e agora a internet) tendem a impactar cada vez mais e alterar hábitos linguísticos e culturais. É disso que vamos tratar neste estudo.

O mito de que no Brasil se fala somente uma língua sempre esteve presente no discurso das mais variadas instâncias, de modo especial na educação e na política. Entretanto, sabe-se que se falam ainda cerca de 250 línguas no país, entre as indígenas, de imigração, de sinais, crioulas e afro-brasileiras, além de variedades do português. Segundo informação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN, 2015), grande parte dos brasileiros desconhece esse patrimônio cultural, acostumada a ver o Brasil como um país monolíngue.

Na região Sul do Brasil, registram-se diversos contextos de contato linguístico – indígena, de fronteira e de imigração – com um forte fluxo de imigração europeia. São alemães, italianos, poloneses, espanhóis, entre outros povos menos numerosos, que, a partir do século XIX, vieram em busca de novas oportunidades. Neste estudo, destaca-se uma comunidade de descendentes de alemães, Santa Maria do Herval, uma pequena cidade situada ao pé da serra gaúcha. No censo de 2010, registrou 6.295 habitantes (4362 residentes na área urbana, e 1691 na rural). Sua população, em sua maioria, é bilíngue em português e Hunsrückisch.

A imigração alemã começou no Brasil no século XIX. O primeiro grupo chegou em 1824 e se estabeleceu no vale do rio dos Sinos. A maioria desses imigrantes era constituída de colonos e artesãos, que não tinham terra suficiente para viver e trabalhar na Alemanha. As terras que faltavam em seu país eram abundantes no Brasil. Para cá, trouxeram seu conhecimento e sua experiência, o que ajudou a desenvolver a indústria da região, dando lugar a vários municípios muito prósperos. Trouxeram com eles também seus costumes, suas tradições, sua comida, os quais, em maior ou menor grau, ainda se mantêm e ajudam a impulsionar o turismo e a economia da região.

Quanto à língua, o Hunsrückisch começou a ser falado aqui na primeira metade do século XIX, com o povoamento de áreas florestais no Estado do Rio Grande do Sul. Ela se desenvolveu em meio a uma série de contatos interdialetais, uma vez que as famílias imigradas vinham de diferentes partes da Alemanha. Sofreu também grande influência do português, língua oficial ensinada nas escolas. Para Altenhofen (2008), o isolamento de muitos anos, devido, em parte, à forma de ocupação do espaço geográfico e social e às dificuldades de comunicação em grandes áreas predominantemente germanófonas, garantiu por muito tempo a preservação da língua, apesar da pressão de assimilação e aculturação ao novo meio, levada a cabo, sobretudo, durante o período de nacionalização do Estado Novo, em decorrência também dos conflitos acentuados pela Segunda Guerra Mundial. O forte processo de lusitanização – potencializado a partir do Estado Novo, quando as línguas dos imigrantes foram proibidas, as escolas fechadas e as bibliotecas, destruídas – além do uso restrito primordialmente à oralidade, levaram a um desenvolvimento diferenciado dessa língua de imigração de base francônio-renana e francônio-moselana.

Por um lado, surpreende que o Hunsrückisch tenha se mantido por gerações, mas observa-se que já não é falado nas grandes cidades, como, por exemplo, São Leopoldo, Estado do Rio Grande do Sul, onde aportaram os primeiros imigrantes alemães em 1824; a germanidade, nas áreas urbanas dessas cidades fundadas por imigrantes alemães, entretanto, ainda pode ser percebida nos nomes de ruas, nos sobrenomes dos moradores, nos estabelecimentos comerciais, e umas poucas palavras conhecidas de quase toda a população, carregadas, todavia, de juízos de valor, usadas, por exemplo, em piadas. Devido às facilidades de mobilidade, há, inclusive, falantes no mundo acadêmico que ainda falam o idioma, mas já não o ensinam a seus filhos, uma das condições para que uma língua se mantenha (Terborg & García Landa, 2011).

Se nos centros maiores fundados por imigrantes alemães já não se fala a língua alemã[1], isso não se pode dizer de algumas cidades menores, onde a maioria da população continua sendo bilíngue português-Hunsrückisch. Ainda que, como vimos anteriormente, a maioria da população viva na área urbana, esta cidade pode ser classificada como rurbana (Bortoni-Ricardo, 2005), em função de ser um núcleo semirrural, submetido à influência urbana, pela mídia, pela tecnologia agropecuária, pelas atuais facilidades de acesso a centros maiores, como a capital Porto Alegre, por exemplo (os últimos dois quilômetros de estrada de chão que a ligam à BR-116 foram asfaltados há cerca de cinco anos).

Que fatores contribuíram para que algumas dessas cidades mantivessem a língua? Partindo dessa pergunta, propomo-nos, neste trabalho, a analisar o papel das redes sociais no processo de manutenção ou substituição da língua materna minoritária e nas questões de identidade decorrentes desse processo.

Este trabalho se encontra dividido, além desta introdução, em quatro partes: a primeira é a fundamentação teórica, que trata das redes sociais e da sua relação com a manutenção linguística e a formação identitária. Em seguida, descreve-se a forma de geração dos dados e os participantes deste estudo; por fim, apresentam-se e discutem-se os resultados, e encerra-se com as considerações finais.

Redes sociais, manutenção linguística e constituição identitária

O que faz com que, apesar de toda pressão pela homogeneização, própria do mundo globalizado, as línguas minoritárias se mantenham ao longo de gerações, como é o caso do Hunsrückisch? Bortoni-Ricardo (2005, p. 84) afirma que intriga o fato de que variedades linguísticas desprestigiadas se conservem em comunidades urbanas, “[...] apesar da ubíqua e permanente influência da norma padrão”. Para a autora, esse fenômeno é comum inclusive em países onde a alfabetização é universal há décadas, observando-se a coexistência de variedades linguísticas étnicas e/ou sociais com a variedade de prestígio. A explicação para esse fenômeno pode ser buscada no estudo das redes (networks) da antropologia social. Por rede social entendemos aqui, tal como Gal (1978), o conjunto de pessoas com que um indivíduo fala num determinado decurso de tempo.

Foi a partir da década de 1950 que o paradigma do estudo de redes com objetivos analíticos, segundo Bortoni-Ricardo (2005, p. 84), se desenvolveu na antropologia para se “[...] conseguir maior força explanatória na análise das interações”. O interesse desses estudos não são apenas as características das pessoas envolvidas na rede, mas a natureza dos vínculos presentes nas relações de umas com as outras, sendo possível, desse modo, explicar seu comportamento (Milroy, 1987, 2001). Na análise de redes sociais, as relações dos indivíduos de determinado grupo social podem apresentar duas naturezas distintas: densas e multiplex, ou esparsas e uniplex.

Um vínculo é uniplex quando a relação dos indivíduos está restrita a uma capacidade – médico-paciente, empregado-patrão, professor-aluno etc.; no caso de vínculo multiplex, a relação é múltipla – os indivíduos são, ao mesmo tempo, vizinhos, parentes, colegas de trabalho, frequentam a mesma igreja etc. A multiplexidade e alta densidade costumam coocorrer e são próprias de comunidades tradicionais, isoladas. Sistemas urbanos, a seu turno, caracterizam-se pela uniplexidade e densidade baixa.

Bortoni-Ricardo (2005) faz referência ao estudo clássico de Elizabeth Bott para mostrar a diferença básica entre redes de alta e baixa densidade, quando foram analisados os papéis conjugais de vinte famílias londrinas. O estudo em questão mostrou que certos tipos de redes funcionam como um mecanismo de reforço normativo. Quando as redes apresentam um alto grau de densidade,

[...] seus membros atingem grande consenso normativo e exercem consistente pressão informal uns sobre os outros visando à conformação às normas consensuais. Por outro lado, quando a rede apresenta ‘tessitura frouxa’, há maior probabilidade de ocorrer uma variação nas normas (Bortoni-Ricardo, 2005, p. 85, grifo da autora).

Uma comunidade, portanto, constituída de redes multiplex, vai se mostrar menos aberta a mudanças e à inovação. Romaine (1996) menciona que aqueles que se movem em redes densas, que indicam a força de sua vinculação com a comunidade local, tendem a usar mais formas de fala local e não padrão. Por outro lado, indivíduos de uma sociedade uniplex, com tessituras mais abertas e menos vinculadas ao local, apresentam um comportamento linguístico mais direcionado à norma padrão.

As mudanças linguísticas tendem a ocorrer mais comumente em sociedades cujas redes são construídas com laços soltos, esparsos e se estendem por meio deles, ao passo que redes com tessitura miúda ajudam a reforçar a língua e os costumes tradicionais, que se mantêm pela ausência de mobilidade geográfica e social, o que podemos observar em nossa comunidade de estudo. Romaine (1996) vê uma clara relação entre rede e classe social, na medida em que os falantes de classe média tendem a construir redes menos estáveis, mais soltas que a classe operária.

O paradigma de redes sociais, portanto, parece se mostrar bastante útil para o estudo de mudança linguística. Esse paradigma se aplica tanto a contextos multilíngues quanto monolíngues. Romaine (1996, p. 106) afirma que compreender a estrutura das redes sociais de uma comunidade bilíngue “[...] equivale a esclarecer el proceso de cambio de lengua que se está produciendo en ella”.

Há alguns estudos que investigaram as redes sociais de moradores de comunidades falantes de línguas de imigração. No caso do contato do Hunsrückisch com o português, destaca-se o trabalho de Altenhofen (1990), cuja comunidade de estudo foi Harmonia, Estado do Rio Grande do Sul, e o de Lara (2013), que se focou na comunidade de Glória, no município de Estrela, Estado do Rio Grande do Sul.

Altenhofen (1990) estudou o papel do português e o significado de sua aprendizagem, como segunda língua, nas relações sociais dos membros daquela comunidade. Ao analisar as redes sociais do grupo investigado, caracterizou-o como

[...] um sistema com uma rede de comunicação de alta densidade e altamente multiplexo, um sistema bastante uniforme, com elevados índices de bilinguismo, aumentando a coesão do grupo, um sistema situado num meio eminentemente rural (Altenhofen, 1990, p. 209).

Lara (2013), ao investigar os fatores linguísticos e extralinguísticos que condicionam a realização das plosivas bilabiais, olhou também para as redes sociais de seus informantes. Na análise das redes de seus informantes, a autora constatou que o vozeamento/desvozeamento das plosivas bilabiais já não é difundido dos mais velhos aos mais jovens. Os mais jovens deslocam-se para outras localidades para trabalhar, o que acaba requerendo as interações em português, afastando-os do Hunsrückisch. Nesse sentido, as práticas em que o bilinguismo é requerido são mais comuns para os mais velhos, dados que vêm ao encontro dos nossos, como veremos adiante.

Na sequência, vamos conhecer a forma de geração dos dados e os participantes de nosso estudo.

Metodologia

Este estudo é parte de um projeto maior, ‘Contextos multilíngues e multiculturais no Brasil e Alemanha: letramentos e práticas’. A pesquisa é de natureza etnográfica, com observação participante e entrevistas realizadas pela autora em Santa Maria do Herval, no Estado do Rio Grande do Sul, cidade de pequeno porte, com pouco mais de 4.000 habitantes, vivendo na zona urbana. Escolhemos esta cidade porque tínhamos conhecimento de que, inclusive hoje em dia, a maioria da população adulta ainda é bilíngue português-Hunsrückisch. No âmbito do projeto, queremos ver como e em que língua os estudantes e professores brasileiros interagem com seus parceiros da Alemanha.

Com a anuência da escola em que se realizou a pesquisa e da professora de 5a série, acompanhamos as aulas de uma turma dessa professora, auxiliando-a no planejamento e desenvolvimento de projetos de ensino, em que os gêneros de texto eram a base do seu trabalho[2]. Além disso, fizemos visitas a cinco famílias a fim de compreender melhor a comunidade a que pertencem esses alunos, sua história familiar, e sua relação com a língua e as trajetórias de letramento dos pais.

Os dados do trabalho apresentado aqui foram coletados por esta investigadora nas casas de cinco estudantes, por meio de entrevistas semiestruturadas. Em cada casa, em primeiro lugar, sempre tivemos uma conversa informal e, quando percebíamos que os participantes se sentiam mais à vontade, começávamos a entrevista, que era gravada em áudio, com sua autorização.

Os pais investigados têm entre 30 e 35 anos, origem rural e, pelas entrevistas, tivemos a percepção de que sua infância foi de privações e dificuldades, mas, ao mesmo tempo, de liberdade e felicidade, que os filhos, nos seus 11 ou 12 anos, já não experimentam, apesar das facilidades, como escola fundamental completa próxima de casa, além de acesso à internet, telefone celular e, acima de tudo, sem precisar trabalhar como eles fizeram. À exceção de uma das mães, que tem formação superior, os demais não chegaram a concluir o ensino fundamental. O trabalho de todos eles já não é no campo, exercem todos funções assalariadas em fábricas de calçados, construção civil ou estabelecimentos comerciais.

Para investigar o papel das redes sociais na manutenção do uso do Hunsrückisch na cidade, as entrevistas giraram em torno do papel da língua alemã nas suas vidas, nas esferas sociais em que se fala a dita língua na comunidade, e sobre as pessoas com que se relacionam em diferentes domínios: a família, os vizinhos, o trabalho.

Resultados e discussão

No ponto de ônibus, nos estabelecimentos comerciais ou andando nas ruas de Santa Maria do Herval, é fácil ouvir as pessoas interagindo em Hunsrückisch. Até mesmo no intervalo das aulas, professores interagem entre si nessa língua. A manutenção da língua na comunidade parece estar ligada a uma solidariedade étnica: mesmo passados quase 190 anos da chegada dos imigrantes alemães que se estabeleceram nessa região, eles se identificam como alemães (ainda que tenham consciência de que são também brasileiros), sendo a língua o fator determinante para essa identificação, como mostra a fala de Rosália:

D: E como é que tu sabe quando é que tu pode falar alemão e quando tu pode falar português?

R: Ahh, isso a gente já vê nas pessoas, sabe? A gente conhece, daí…

D: Ah tá, tu vai identificando…

R: Percebe logo quando a pessoa é alemão ou não.

A fala de Rosália remete ao círculo de amigos, ao ‘quem se relaciona com quem’ (Bortoni-Ricardo, 2011) em Santa Maria do Herval. Ela sabe a quem pode se dirigir em alemão (‘a gente conhece’). Ainda assim, eles se ajudam entre si, alimentam representações a respeito do que seja ser um alemão/brasileiro dessa região. Se são movidos por essas representações, isso não significa que não queiram se assimilar. Altenhofen (2004) mostra que afirmações do tipo ‘eles teimam em manter a língua’, ‘não querem se assimilar’, ‘não querem aprender português’ em relação às minorias não passam de mitos, carregados de preconceitos.

O isolamento a que estiveram submetidos até há cerca de duas décadas, quando passaram, por exemplo, a ter a primeira escola secundária no município, contribuiu para que seus costumes e sua língua se mantivessem ao longo das gerações. Em 1989, o prefeito do município baixou um decreto municipal que proibia o uso de alemão nas salas de aula do município (Altenhofen, 2004), atitude que se alinha a outras tentativas brasileiras de silenciar as minorias linguísticas[3]. Hoje, todavia, o cenário é outro: os adultos têm a consciência de que a língua é um capital cultural que eles detêm. Essa atitude positiva em relação à língua, entretanto, é contraditória, uma vez que falam pouco (ou nenhum) alemão com os filhos, de modo especial com o segundo deles, como se ouve de uma das mães:

Sim, o Nelson já aprendeu a falar o alemão, né. Ele até fala bonito assim, eu gosto de ouvir ele falar, mas ele fala pouco. Quando ele conversa com as avós ele fala alemão. Só que a Edna (filha caçula, uns 4 anos) agora é mais difícil. Não sei por que a gente não faz a mesma coisa que a gente fez...(Rosana).

Rosana demonstra ter uma atitude positiva em relação ao bilinguismo do filho (‘até fala bonito’). O uso do operador argumentativo ‘até’ dá a entender que, pelo pouco que se fala alemão em casa, surpreende o fato de Nélson falar o alemão ‘bonito’. Os pais estiveram na escola nos anos 80, quando o alemão foi proibido durante as aulas. Hoje, trinta anos depois, embora ainda falem e reconheçam a importância da manutenção da língua, transmitindo-a aos filhos, percebem que necessitam de uma política linguística doméstica para que isso se efetive, como afirma Isaura:

Tem uma época que eles não queriam mais falar alemão. Daí eu falai pro meu marido: Oh, a gente tem que começar a falar mais alemão com elas, porque elas […] daí, agora, a gente fala bastante alemão. E elas respondem em português, mas a gente se entende.

Tem uns pais que são alemão e que nem ensinam mais as crianças falar alemão mais. Mas os jovens, hoje em dia, quando elas tão sozinha assim, fora da companhia dos pais, eu acho que eles falam mais português.

Ou seja, com uma maior influência dos meios de comunicação nos hábitos da comunidade, com as crianças mais conectadas com uma realidade externa (a maioria delas tem um perfil no Facebook), com a mobilidade facilitada, com as crianças construindo redes sociais tendendo ao modelo uniplex, há uma possibilidade de que, quando chegarem à idade adulta, não transmitam a língua de seus antepassados a seus filhos. No ambiente escolar, por exemplo, no acompanhamento às aulas, raríssimas vezes vimos as crianças interagindo em alemão. Entretanto, entre os professores, nos intervalos das aulas, na sala dos professores, a alternância de códigos é frequente.

Como a cidade é pequena, a maioria das pessoas se conhece, e os relacionamentos ainda acabam sendo multiplex: as crianças são vizinhas, colegas de aula, primas (mas sonham em sair do local, coisa que seus pais não fizeram); os pais são vizinhos, parentes; as mulheres, colegas de trabalho na fábrica de calçados; os homens, companheiros no jogo de futebol de fim de semana. Além disso, vão à mesma praia (Curumim) nas férias e frequentam a mesma igreja católica. Mesmo com maiores facilidades na mobilidade, proporcionada pelo asfaltamento, há cerca de dois anos, da estrada que liga a cidade à rodovia federal que leva à capital, Porto Alegre, não é comum que viajem para fora do estado. Entre os homens, isso até é um pouco mais frequente, em função de alguns serem motoristas e, por essa razão, deslocam-se a trabalho, mas o mais comum é sair da cidade para ir à praia nas férias, como se disse, em companhia de outros familiares. Do mesmo modo, como nasceram na região, os casamentos aconteceram com pessoas da redondeza, e todos acabaram ficando por ali. Assim, são raras as famílias que recebem visitas de longe.

Nesse contexto de redes densas, a alternância de códigos é inconsciente, tanto que, no trabalho da fábrica, segundo Sônia, “[...] às vezes eles [os colegas que não falam alemão] ficam bravos que a gente fica falando. A gente fala alemão sem a gente se tocar né que tem alguém junto que não se lembra”.

Se, por um lado, a urbanização, decorrente da globalização, mudou os hábitos (entre eles, os linguísticos) da comunidade, por outro lado, melhorou a qualidade de vida das pessoas, que tiveram uma infância muito pobre, sem oferta de escola básica completa, tendo de trabalhar desde muito cedo, primeiro ajudando os pais nos trabalhos da roça, depois nas fábricas de calçado:

Meu Deus, muita diferença! É que a gente quase não tinha nada de… de estudo. Elas têm mais apoio agora, a gente não podia estudar. Quando eu completei quatorze anos já tinha que trabalhar, com nove ano tinha que trabalhar já. Daí trabalhava ali no posto, depois… [fica emocionada e começa a chorar] Não podia, a mãe não deixava eu…(Isaura)[4].

As histórias de vida lembradas durante as entrevistas levam a um tempo de trabalho duro, de negações, de perdas, mas é lembrado também o empreendedorismo das mulheres:

A minha mãe se judiava, assim, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Se judiava na roça, queria dar pros filhos. Meu pai assim não foi muito de comprar as coisas pras crianças ou em casa. Sempre foi minha mãe. Sempre, sempre. Ela tirava aquele queijo dela, que ela fazia na roça, ela vendia e comprava as coisas pra nós. Meu pai não comprou nem uma calcinha, muito menos uma meia. Ele não era disso. A minha mãe é uma guerreira (Sônia).

A mudança da comunidade de rural para urbana trouxe, portanto, facilidades que há três décadas eram impensáveis. A industrialização e a urbanização do município encurtaram distâncias, comprimiram espaço e tempo, mudaram hábitos familiares (por exemplo, Sônia afirma que a “[...] mãe não faz mais queijo porque é mais vantagem vender leite para a ‘Piá’ [empresa de laticínios] porque ela tem muito trabalho na roça)”. Percebe-se, pois, a assimilação de um estilo de vida urbano pela comunidade.

Se, por um lado, se pode antever uma mudança no perfil sociolinguístico do município, ocasionado, em parte, pela mudança na configuração das redes sociais dos moradores (a industrialização atraiu, por exemplo, pessoas de outros municípios, de outras etnias, o que vem a alterar o ‘rosto’ da cidade), por outro lado, as fábricas deram novas oportunidades aos moradores, como avalia Isaura:

Desde que nós fomo trabalhar na fábrica e… eu melhorei agora minha vida desde que as criança são maior, né, porque quando elas eram pequena, quando eu casei, quando eu engravidei eu tinha 18 ano, era pobre, tinha um casinha bem pequena. Daí a gente foi trabalhando, trabalhando e fazendo serão pra conseguir alguma coisa, e, ahnnn, eu acho que os calçado e o emprego do meu marido que agora melhorou bastante, né, que ele pegou um emprego bom.

Os pais têm acompanhado mudanças muito rápidas, uma vez que os filhos já nasceram nelas. Ao mesmo tempo em que essas mudanças representam oportunidades, elas também assustam, porque os pais observam que o que os alegrava já não alegra os filhos, os valores que eles cultivavam já não são importantes para os filhos. Hoje eles vivem numa sociedade mais competitiva, que cria necessidades que não tiveram quando crianças, o que os assusta, como afirma Sônia:

[...] a modernidade, todo mundo quer. Se um tem, todo mundo quer e também manda hoje uma criança na escola, numa festa ou na missa com uma roupa que não tá na moda o pessoal aponta o dedo. Eles são rejeitados.

A ‘modernidade’ também preocupa Isaura:

Mas tem muitos que, nem computador eles têm, notebook, eu tô com medo de comprar. Vai que eu não podia comprar? Eu ainda tô com medo, não tô preparada pra comprar um notebook ou um computador pra elas, por causa que eles iam olhar coisa que tava escondida assim…

A globalização, portanto, homogeneíza, muda hábitos, aproxima pessoas de países diferentes, mas distancia familiares, torna as redes sociais mais esparsas; melhora o poder aquisitivo das pessoas, mas assusta, porque cria novas necessidades, novos valores.

Os avós têm dificuldades com o português, compreendem, mas nem sempre falam, vivenciaram casamentos intraétnicos e intrarreligiosos, frequentaram apenas os primeiros anos de escola, nunca precisaram usar o que aprenderam, uma vez que suas atividades restringiam-se à roça. Os pais falam as duas línguas, alternam entre uma e outra, nem percebem quando alternam o código. A maioria não chegou a completar a escola, mas precisou da escolaridade para o trabalho da fábrica. Tentaram falar alemão com os filhos, principalmente porque eles teriam de se entender com os avós. Entretanto, com o trabalho na fábrica, os filhos tiveram de ir à creche, cujos professores nem sempre falam alemão (fazem parte do grupo que vêm de fora). E os filhos? Falam predominantemente português, ainda entendem alemão, mas nem sempre o falam. Estudam alemão padrão na escola (onde também têm contato com o inglês e o espanhol), pensam em continuar os estudos, desejam roupas e calçados de marca, querem se parecer com os personagens que a mídia divulga, personagens globais.

Ao que tudo indica, dificilmente passarão pelo constrangimento que seus avós passam para dizer algo em português e terão de confessar ‘Es kommt net raus’. Sônia, falando de seus pais, comenta:

Meu pai ele fala o português, ele se vira em falar o português, mas não sabe falar direito. A minha mãe sabe só que também fala pouco assim. Fala muito só o alemão. Ela só fala com quem não sabe falar realmente.

O pai André diz ainda às vezes titubear ao falar:

É que às vezes tem uma palavra, tu tem ela na cabeça só que tu sabe ela em alemão e aí não sai em português. [...] Parece que as palavra não vêm, aí vem justamente na língua que tu não quer.

Mas, como se pode observar, o que acontece com André não é uma deficiência linguística, é seu bilinguismo, que o faz pensar nas duas línguas, pois, para um significado, ele tem dois significantes, ainda que ele não se dê conta disso e pense que ele tem dificuldade com o português. Todo bilíngue passa por esse tipo de situação, em função de, em alguns domínios, o falante ser melhor na língua A que na língua B.

Conclusão

Os dados de que dispomos nos indicam que a passagem da comunidade de rural a urbana causou impactos nos hábitos, na cultura e na língua. Ainda que, até aqui, ‘orientação para a identidade’ tenha sido predominante, começa-se a perceber a ‘orientação para o prestígio’ (Labov, 1966, apud Bortoni-Ricardo, 2011), em direção ao português. Os moradores ainda se veem como ‘alemães’, mas os mais jovens já preferem o português para seus fins comunicativos, e os pais também já não se esforçam para falar em alemão com os filhos (principalmente, a partir do segundo). As facilidades de acesso a mídias diversas (televisão, celular, por exemplo), a mobilidade sendo viabilizada pela ligação da cidade à BR 116 com rodovia asfaltada, bem como as mudanças ocasionadas pelas novas relações de trabalho, em que o português é a língua de interação, auxiliam na mudança do valor social de cada uma das línguas em contato na cidade.

Nesse sentido, as facilidades comunicativas da vida urbana, as redes de tessitura miúda, associadas à preservação da linguagem minoritária e não padrão, vão dando lugar às redes abertas, caracterizadas pela preferência pela linguagem culturalmente dominante. Embora a variedade local ainda seja a língua do lar e da vizinhança e funcione como um importante marcador da cultura e identidade locais, o português, gradativamente, vai entrando em domínios que antes eram preferencialmente do alemão (como o familiar ou da vizinhança, a roda de amigos, por exemplo)[5].

Para nossa comunidade em estudo, podemos pensar em um continuum: em uma ponta, a geração mais velha, proveniente de uma comunidade mais rural, com redes mais isoladas e, portanto, multiplex. Na outra ponta, a geração mais jovem, vivendo em uma comunidade cada vez mais urbanizada, com redes uniplex, integradas, transcendendo os limites da cidade, do estado, e até mesmo do país (em função da internet). Mas há ainda a questão da identidade local, por meio da qual o bilinguismo da comunidade estará assegurado enquanto o dialeto local mantiver seu valor como um símbolo de distinção e identificação dos falantes com seus pares.

Talvez possamos arriscar prever que, com a cidade se desenvolvendo no curso em que está, os adolescentes de hoje, ainda em alguma medida bilíngues, quando adultos, do mesmo modo que o avô hoje se esforça para falar português, eles se deparem com a dúvida para dizer algo em alemão e, em vez de dizer ‘Es kommt net raus’ (como o avô de hoje), venham a dizer: ‘Puxa, não sai, não consigo dizer isso em alemão’.

Referências

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Gal, S. (1978). Peasant men can’t get wives: language change and sex roles in a bilingual community. Language in Society, 7(1), 1-17.

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Selonk, A. (Produtor), & Zilles, R. (Diretor, Produtor). (2009). Walachai. [Filme-Documentário, DVD]. Porto Alegre, RS: Okna Produções.

Terborg, R., & García Landa, L. (2011). Las pressiones que causan el desplazamiento-mantenimiento de las lenguas indígenas. La presentación de um modelo y su aplicación. In R. Terborg, & L. García Landa (Orgs.), Muerte y vitalidad de las lenguas indígenas y las presiones sobre sus hablantes (p. 29-61). Cidade do México, México: UNAM, CELE.

Notas

[1] Neste trabalho, usamos língua alemã e Hunsrückisch como sinônimos.
[2] O projeto foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética da Unisinos, conforme Resolução n.° 175/2011 de 19/11;2011.
[3] No Brasil, houve dois momentos históricos em que se pretendeu silenciar as minorias, impondo o português como língua única. O primeiro deles, com o Marquês de Pombal, em 1758, quando, numa ação contra o uso da língua geral, proibiu o uso de qualquer língua que não fosse o português. O segundo foi com Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, quando implementou, em 1938, a política de nacionalização do ensino, que ocasionou o fechamento de escolas e proibiu o uso das línguas dos imigrantes, principalmente alemão e italiano (Altenhofen, 2004).
[4] Nas transcrições, optamos por fazê-las mais próximas à norma padrão, uma vez que nos interessava o conteúdo.
[5] Hoje, junho de 2015, três anos após a inserção na comunidade, os alunos e seus pais, que participam desta pesquisa, também já têm perfil no Facebook. Contrariamente ao que diz Isaura na entrevista, a modernidade parece já estar se tornando familiar.

Autor notes

doroteafk@unisinos.br



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