Agraciamento da Grande Medalha da Inconfidência a João Stédile sob a perspectiva da Linguística Sistêmico-funcional
Awarding the Inconfidencia Great Medal to João Pedro Stédile from the perspective of Systemic Functional Linguistics
Agraciamento da Grande Medalha da Inconfidência a João Stédile sob a perspectiva da Linguística Sistêmico-funcional
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 38, núm. 2, pp. 169-182, 2016
Universidade Estadual de Maringá
Recepção: 23 Setembro 2015
Aprovação: 10 Novembro 2015
Resumo: Este artigo visa a apresentar uma análise de seis textos que tratam da repercussão do recebimento da Grande Medalha da Inconfidência por João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Sem-Terra, em cerimônia pública, que ocorreu em 21 de abril de 2015, em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Para tanto, utilizou-se o sistema sociossemântico desenvolvido a partir da Linguística Sistêmico-funcional de Halliday e Matthiessen (2004). Os textos do corpus foram analisados e classificados dentro de quatro grandes grupos (materiais, mentais, relacionais e verbais), de acordo com a classificação cognitivo-funcional de Lavid, Arús, e Zamorano-Mansilla (2010). Dos resultados dessa análise, pode-se verificar que os autores utilizaram, de forma semelhante, o processo material como o mais frequente; que os sites que, em tese, possuem um público mais escolarizado utilizaram com maior frequência processos mentais; que autores mais bem definidos ideologicamente adotam uma rígida postura, ou positivas ou negativas, e, raramente, utilizam da voz de terceiros, para indicar seus posicionamentos. Assim, ficou nítida a influência do contexto de cultura (onde se inclui a ideologia) de cada um dos autores dos textos nas escolhas linguísticas de cada um, observadas sob a perspectiva da metafunção ideacional, e analisadas por meio do sistema da transitividade dos processos oracionais.
Palavras-chave: linguística, análise do discurso, transitividade.
Abstract: Six texts on the awarding of the Inconfidencia Great Medal to João Pedro Stédile, the coordinator of the Landless Peasants' Movement (MST), in a public ceremony on April 21st, 2015, in Belo Horizonte, Minas Gerais State, Brazil, are analyzed. The socio-semantic system developed from Halliday and Matthiessen's Systemic Functional Linguistics (2004) was employed. Corpus of texts was discussed and classified into four major groups (material, mental, relational and verbal), according to the cognitive-functional classification by Lavid, Arús and Zamorano-Mansilla (2010). Results revealed that the authors of the texts employed in precisely the same way the material process; that sites which, in theory, have a more educated public used oftener mental processes; that ideologically well-defined authors adopted an inflexible positive or negative stance, and rarely used the third-party voice to foreground their position. The influence of the cultural context (which includes the ideology) of the authors of the texts is evident from their choice of language. The above has also been observed from the perspective of ideational metafunction and analysed by the transitivity system of clausal processes.
Keywords: linguistics, discourse analysis, transitivity.
Introdução
Anualmente, durante as comemorações da Semana da Independência, o governo do Estado de Minas Gerais realiza uma solenidade pública para agraciar autoridades políticas e judiciárias, além de personalidades da sociedade civil, que, na análise de uma comissão especialmente designada para esse fim, contribuíram destacadamente para o desenvolvimento cultural, econômico e social desse Estado e do Brasil.
Nesse contexto, este artigo visa a apresentar, principalmente, uma análise, sob a perspectiva da gramática sistêmico-funcional hallidayana, de seis textos que abordam a receptividade em relação ao agraciamento da Grande Medalha da Inconfidência a João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), pelo governador do Estado de Minas Gerais, Fernando Pimentel, do Partido dos Trabalhadores, em cerimônia ocorrida em 21 de abril de 2015.
Dessa forma, examinam-se os propósitos e as escolhas particulares de uso da linguagem que seis autores utilizaram a fim de comentar esse agraciamento a Stédile, pois, de acordo com a gramática sistêmico-funcional, a ideologia de cada indivíduo manifesta-se diretamente nas escolhas linguísticas de cada um. Assim, as escolhas e as seleções dos quatro processos deverão ser muito diferentes de acordo com o contexto de cultura e de situação em que cada autor está inserido.
Nessa análise, baseada na gramática sistêmico-funcional, espera-se que o processo material seja o mais frequente, pois o aspecto material expressa as ações que, realizadas no mundo físico, são mais fáceis de se descreverem e de se entenderem. Também é previsível que os processos mentais sejam mais frequentes em sites cujo público seja mais escolarizado.
Ainda se prevê que os autores mais bem definidos ideologicamente realizem majoritariamente suas referências ao agraciado, quer positivas, quer negativas, conforme sua adesão às ideias de Stédile, e utilizem, de forma dominante, a própria voz e não a de terceiros quando se utilizarem os processos verbais.
Essa medalha concedida a João Pedro Stédile foi criada pela Lei nº 882 (1952), por Juscelino Kubitschek de Oliveira, e regulamentada, pela última vez, pelo Decreto no 38.690 (1997). Ela é o segundo maior grau de quatro possíveis honrarias (Grande Colar da Medalha da Inconfidência, Grande Medalha da Inconfidência, Medalha de Honra da Inconfidência e Medalha da Inconfidência), que objetivam conferir ao agraciado, pessoa física ou jurídica, o reconhecimento do Poder Público Estadual a sua meritória e destacada contribuição para o desenvolvimento cultural, econômico e social do Estado de Minas Gerais e do país.
A incongruência e a incompatibilidade, em tese, da metodologia adotada pelo MST para concretizar seus objetivos, baseada em ações de tomada de propriedade (invasões de terras), e do objetivo previsto na legislação de concessão da Grande Medalha da Inconfidência geraram, no noticiário on-line, impresso e televisivo, críticas favoráveis e contrárias ao recebimento dessa honraria pelo mencionado líder do MST.
A fim de realizar a análise linguística de matérias jornalísticas escritas que abordam esse evento, sob o enfoque da gramática sistêmico-funcional hallidayana, foram selecionados seis textos para compor o corpus deste trabalho. O primeiro texto analisado é o de um agraciado com a mesma medalha, em uma cerimônia ocorrida há 33 anos que, além de encaminhar ao Cerimonial de Governadoria do Estado uma carta de reprovação ao ato de concessão da medalha a João Pedro Stédile, devolveu a sua medalha. A seguir, foram analisados dois outros textos, também oriundos do ambiente virtual, que reprovam o agraciamento a João Pedro Stédile, e três textos que aprovam essa outorga pelo governador mineiro.
Dessa forma, esta pesquisa, fundamentando-se na gramática sistêmico-funcional e na sua concepção da língua como atividade social, avalia os processos verbais e a participação do agraciado nesses processos. Para isso, partiu-se da análise dos processos oracionais para a análise dos textos, conforme prescrito por Halliday, quando cada categoria foi nomeada nas orações para, depois, ter seu funcionamento analisado em cada texto. Para a identificação e classificação dos processos e dos seus elementos constitutivos, não foi utilizado nenhum software especializado. Os dados obtidos foram sistematizados no aplicativo Excel da Microsoft cujas tabelas e gráficos são apresentados durante a discussão dos dados.
Após debates ideológicos e legais, em 29 de abril de 2015, por meio de um projeto de resolução, a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais sustou os efeitos do ato do Governador Fernando Pimentel, que tinha concedido a João Pedro Stédile a Grande Medalha da Inconfidência, com base no art. 1º da Lei n.º 882 (1952), devido à ausência dos requisitos ao galardão do beneficiário, no que se refere à destacada contribuição ao desenvolvimento cultural, econômico e social do Estado de Minas Gerais e do país. Assim, o líder do MST deve devolver a medalha, e o Assessor do Cerimonial da Governadoria do Estado de Minas Gerais deve retirar o nome de João Pedro Stédile do rol dos agraciados.
Inicialmente, este trabalho apresenta uma revisão dos principais tópicos, referentes à gramática sistêmico-funcional, desenvolvidos na análise crítica dos textos. Nessa seção, indica-se, na introdução da análise de cada um dos seis textos selecionados, o contexto (de situação e de cultura) que reflete as influências desse contexto em cada autor. A seguir, apresentam-se tabelas e gráficos que materializam a quantificação absoluta e percentual dos principais componentes analisados sob a perspectiva hallidayana. Por fim, detalhada análise qualitativa desses dados é disponibilizada, interligando os conceitos teóricos às constatações linguísticas depreendidas.
Fundamentação teórica
Na perspectiva sistêmico-funcional, a língua é concebida como um sistema semogenético, ou seja, um sistema capaz de criar significado (Halliday, 2009 apud Golçalves Segundo, 2011). Além disso, ela é vista como um potencial de significado de caráter aberto e dinâmico, atuando como recurso tanto para a reflexão quanto para a ação (Matthiessen, 2009 apud Golçalves Segundo, 2011). A linguística (ou gramática) sistêmico-funcional (SFL ou SFG) de Halliday é sistêmica porque vê a língua como redes de sistemas linguísticos, das quais se serve para construir significados, fazer coisas no mundo. Cada sistema é um conjunto de alternativas possíveis que podem ser semânticas, léxico-gramaticais ou fonológicas e grafológicas. Ela é funcional porque explica as estruturas gramaticais em relação ao significado e às funções que a linguagem desempenha em textos (Fuzer, 2014).
Devido a essa característica funcional, a gramática sistêmica procura dar conta de como a linguagem é usada, uma vez que qualquer enunciado está inserido em um contexto de uso. Para ela, na língua, não existe arbitrariedade, pois a língua evolui para satisfazer as necessidades dos usuários que dela se apropriam, tanto que delineia, desse modo, um sistema natural adequado à realidade circundante e no qual tudo pode ser atrelado e explicado de acordo com a produção dos falantes. Dessa forma, a gramática sistêmico-funcional apresenta uma teoria da linguagem baseada no propósito e na escolha. Em outras palavras, a SFG é preocupada com o que os falantes estão fazendo quando eles usam a linguagem e por que, em ocasiões particulares de utilização, que preparam as suas declarações na forma como eles fazem. Isso está em contraste com outros modelos de gramática, como o da gramática gerativa de Chomsky, que, como Fowler afirma, “[...] não está interessada no papel da linguagem no uso real” (Hart, 2014, p. 20).
Nesse sentido, também a abordagem funcionalista e a abordagem tradicional distinguem-se objetivamente. A perspectiva funcional para estudos linguísticos diferencia-se da perspectiva tradicional, na medida em que esta última vê a linguagem como desvinculada do uso e do contexto. A normatização e a padronização descontextualizadas retiram da língua a sua característica social, complexa e dinâmica da linguagem, que, então, é vista como um objeto externo a seus falantes, uma entidade com vida própria que está alheia aos que, de fato, fazem uso dela. Os funcionalistas, por outro lado, assumem a postura de que a gramática não é um sistema autônomo bem como não pode ser entendida separadamente de fatores, tais como comunicação, cultura, interação. A gramática funcional, embora analise a estrutura gramatical, inclui na análise toda a situação comunicativa: o propósito do evento de fala, seus participantes e seu contexto discursivo.
Desse modo, cada texto tem um propósito comunicativo específico, diretamente relacionado ao contexto de produção (quem produz), de consumo (para quem) e de circulação (como e onde é veiculado para chegar ao objetivo pretendido). Por ser essencialmente interativo, o texto precisa ser analisado a partir do propósito e do processo de criação. Como unidade do processo semântico, o texto pode mostrar padrões de relação com a situação, os quais constituem, então, o registro. Todo uso linguístico, presente nos textos, está sempre imerso num contexto específico, que é determinado por meio de uma relação sistemática entre o meio social e a organização funcional da linguagem.
O potencial de significação é definido por Halliday em dois níveis contextuais: de cultura e de situação. O contexto de situação é o ambiente imediato em que o texto está, de fato, funcionando. Por causa dessa relação dialética entre texto e contexto, os leitores podem prever o que está por vir no texto. Dependendo do contexto de situação em que esses enunciados foram usados, diferentes leituras são possíveis. Para se entender adequadamente um texto, o conhecimento do contexto pode não ser suficiente. Por isso, é necessário considerar ainda informações relacionadas com a história cultural dos interactantes e dos tipos de práticas em que estão engajados. O contexto de cultura relaciona-se, assim, ao ambiente sociocultural mais amplo, que inclui a ideologia, as convenções sociais e as instituições. De acordo com essa perspectiva, grupos de pessoas que usam a linguagem para propósitos semelhantes desenvolvem, através do tempo, tipos comuns de textos escritos e falados, ou seja, gêneros que alcançam objetivos comuns (Fuzer, 2014).
O contexto de situação é descrito por Halliday por meio de um modelo conceitual formado por três variáveis: campo, relações e modo. O campo remete à atividade que está sendo realizada pelos participantes, à natureza da ação social que está ocorrendo, com objetivo específico. As relações envolvem os participantes, a natureza dos papéis que desempenham, o grau de controle de um participante sobre o outro, a relação entre eles (hierárquica ou não) e a distância social ou o grau de formalidade (mínima, média ou máxima), dependendo da frequência com que interagem. O modo refere-se à função que a linguagem exerce e ao veículo utilizado naquela situação ou, ainda, ao que os participantes esperam que a linguagem faça por eles em determinada situação, ou seja, trata do papel da linguagem (constitutivo ou auxiliar/suplementar), do compartilhamento entre os participantes (dialógico ou monológico), do canal (gráfico ou fônico) e do meio (oral com ou sem contato visual, escrito e/ou não verbal) (Fuzer, 2014).
Na gramática sistêmico-funcional, Halliday procura descrever os sistemas de opções abertas a um falante nas três funções (ideacional, interpessoal e textual) de linguagem que ele identifica. Na análise crítica do discurso, os pesquisadores procuram interpretar as funções ideológicas dessas escolhas. Por conta disso, a linguagem é concebida para fornecer um sistema de recursos semióticos que existe como um potencial significado. O sistema está organizado em estratos em diferentes níveis de abstração que estão ligados por meio da realização. Significados potenciais são realizados por meio de escolhas em cada nível do sistema. Os três estratos são semântica (significado), léxico-gramática (codificação - tanto formulação e ordenação) e fonologia (som) (Hart, 2014).
Essas metafunções, na gramática sistêmico-funcional hallidayana, são as manifestações, no sistema linguístico, dos propósitos que estão subjacentes a todos os usos da língua: compreender o meio (ideacional), relacionar-se com os outros (interpessoal) e organizar a informação (textual). Cada uma das metafunções relaciona-se a uma variável do contexto de situação. Em cada metafunção, o foco de análise difere, porque o sistema de realização léxico-gramatical é diferente. Halliday e Matthiessen (2004) esclarecem que a chave para a interpretação funcional da estrutura gramatical é a multifuncionalidade: os componentes linguísticos de uma mesma oração podem ser interpretados sob diferentes enfoques. Cada componente corresponde a três tipos de coisas, que, ao mesmo tempo, estão sistematicamente relacionados, a ponto de um mesmo item gramatical representá-los.
Na perspectiva da metafunção interpessoal, como ocorre em todas as metafunções, há vários sistemas. O principal desses sistemas a ser examinado é o Modo, que é o recurso gramatical para expressar a interação entre os participantes de um evento comunicativo, considerando-se as funções dos elementos que constituem a oração (sujeito, finito, complemento, predicador ou adjunto). Nas análises, explicitam-se informações relativas ao tempo (presente, passado, futuro) quando ocorre o evento, à modalidade (probabilidade, usualidade, obrigação, inclinação) e à polaridade (positiva ou negativa). Nesse sistema, a oração é vista como troca de informações, de bens ou de serviços.
Na metafunção textual, a oração é vista como mensagem e consiste de um Tema acompanhado de um Rema, sempre nessa ordem. O que quer que seja escolhido como Tema aparece no início da oração. O Tema é o elemento que serve como ponto de partida da mensagem, é o que localiza e orienta a oração dentro do seu contexto. Assim, a variável contextual Modo tende a determinar as formas de coesão (elipse, referência, substituição), os padrões de voz e tema (voz ativa e passiva), as formas dêiticas (exofóricas, referenciais) e a continuidade léxico-lógica (repetição).
A metafunção ideacional é realizada por duas funções distintas: experiencial e lógica (Halliday & Matthiessen, 2004). A função experiencial é responsável pela construção de um modelo de representação de mundo em que sua unidade de análise é a oração. A função lógica é responsável pelas combinações de grupos lexicais e oracionais em que sua unidade de análise é o complexo oracional. Quando se analisa a oração, o sistema relevante considerado é conhecido como transitividade, que dá conta da construção da experiência em termos de configuração de processos, de participantes e de circunstâncias. A transitividade é o sistema relevante quando se pensa na construção da experiência, no uso da língua em seu aspecto de reflexão. Nesse sistema, a oração é vista como representação.
Assim, a oração é a unidade central de análise, que, prototipicamente, possui um grupo verbal e, pelo menos, um grupo nominal, e os aspectos léxico-gramaticais são capazes de representar experiências por meio da linguagem. Os significados experienciais relacionam-se com o que se faz no mundo - o campo. Dessa forma, ocorrem inter-relações entre os estratos da linguagem envolvidos no processo de representações de experiências: a variável contextual, a metafunção e o sistema léxico-gramatical.
Na perspectiva tradicional, a transitividade refere-se à relação dos verbos com os seus complementos. Já, na gramática sistêmico-funcional, a transitividade é um sistema de descrição de toda a oração, que se compõe de processos, de participantes e de eventuais circunstâncias. Assim, transitividade, na SFG, é um sistema de relação entre componentes que formam uma figura que é constituída de um processo e de participantes (quem faz o quê) e, eventualmente, de circunstâncias associadas ao processo (onde, quando, como, por que etc.). A configuração processo + participantes constitui o “[...] centro experiencial da oração” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 176).
Processos representam eventos que constituem experiências, atividades humanas realizadas no mundo, representam aspectos do mundo físico, mental e social. Como os processos são realizados tipicamente por verbos, a ideia de mudança perpassa a noção de processo. Devido ao fato de a transitividade ser um sistema da oração “[...] que afeta não apenas o verbo que serve como processo, mas também os participantes e as circunstâncias [...]” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 181), dependendo do tipo de processo, os participantes recebem diferentes denominações.
Para este estudo, adota-se a classificação cognitivo-funcional dos processos, de acordo com Lavid, Arús, e Zamorano-Mansilla (2010), em quatro grandes grupos: materiais, mentais, relacionais e verbais.
As orações em que se desdobram processos materiais são definidas como orações de ‘fazer e acontecer’, porque estabelecem uma quantidade de mudança no fluxo de eventos. Quando envolvem dois participantes, as orações materiais denominam-se transitivas; quando envolvem apenas um participante, denominam-se intransitivas ou ainda podem ser classificadas como ergativas. Os participantes são tipicamente realizados por grupos nominais que fornecem informação sobre pessoas, lugares, coisas e ideias envolvidas no processo de uma oração.
Nas orações materiais, o participante pode ser ator (participante que pratica a ação, inerente às orações tanto transitivas quanto intransitivas), meta (participante que recebe o impacto da ação (é afetado pelo processo), inerente apenas às orações transitivas), escopo (participante que não é afetado pelo desempenho do processo material), beneficiário (participante que se beneficia de um processo, não necessariamente associado ao recebimento de coisas positivas) e atributo que constitui uma característica atribuída a um dos participantes da oração. Embora seja típico em orações relacionais, em algumas vezes, o atributo pode figurar em orações materiais, nas quais pode ser classificado de duas formas: resultativo (serve para construir um estado qualitativo resultante do ator ou da meta depois que o processo se completou) ou descritivo (serve para especificar o estado em que se encontra o ator ou a meta quando toma parte no processo). O beneficiário pode ser classificado como recebedor (quando recebe bens materiais, transferidos pelo ator) ou cliente (quando recebe serviços, prestados pelo ator). Os processos materiais normalmente têm um ator, mas, às vezes, principalmente em estruturas passivas, ele não ocupa o lugar do sujeito ou não está explicitado na oração. Nesse caso, o participante ao qual o processo é dirigido é ainda classificado como meta, uma vez que sua relação semântica com o processo não mudou.
As orações mentais constituem-se de processos que se referem à experiência do mundo no nível da consciência. Processos mentais podem indicar afeição, cognição, percepção, desejo. As orações mentais mudam a percepção que se tem da realidade (e não as ações da realidade - as orações materiais é que mudam a realidade). Servem, assim, para construir o fluxo de consciência do falante ou do escritor. Nas orações mentais, os participantes são tipicamente humanos ou coletivos humanos que sentem, pensam, percebem, desejam. Por isso, a função léxico-gramatical que desempenham na oração é denominada experienciador. O participante do processo que se refere ao que é sentido, pensado percebido ou desejado denomina-se fenômeno. Tipicamente, o fenômeno pode ser realizado por grupos nominais. Processos mentais podem projetar orações que serão classificadas como hiperfenômeno. Nesse caso, o fenômeno é realizado por outra oração.
Os processos relacionais são comumente usados para representar seres no mundo em termos de suas características e identidades. Ajudam na criação e na descrição de personagens e de cenários em textos narrativos, contribuem na definição de coisas, estruturando conceitos. Há processos que servem, basicamente, para estabelecer uma relação entre duas entidades diferentes, constituindo uma oração relacional. Nas orações relacionais existenciais, há apenas um participante (o existente); nas relacionais possessivas, os participantes são o possuidor e o possuído; nas relacionais circunstanciais, há portador circunstancial e atributo circunstancial; nas relacionais intensivas atributivas, os participantes são o portador e o atributo e, nas relacionais identificativas, valor e ocorrência.
As orações verbais têm como núcleo os processos do dizer. Contribuem para variados tipos de discurso, por sua característica de fala: ajudam na criação do texto narrativo, a fim de tornar possível a existência de passagens dialógicas; permitem ao jornalista, em reportagens, atribuir informações a fontes exteriores; desempenham um relevante papel nos trabalhos acadêmicos, citando e relatando pontos de vista e argumentos expressos por outros pesquisadores. Os participantes das orações verbais são, tipicamente, dizente (é o próprio falante, que pode ser humano ou uma fonte simbólica), verbiagem (assunto do que é dito), locução (o que é dito), receptor (é o participante a quem é dirigida a mensagem) e alvo (é a entidade atingida pelo processo de dizer). Nesse caso, o dizente age verbalmente sobre outro participante.
Quando se examina a dimensão de representação do discurso, está-se preocupado com as escolhas feitas na função de representações, que se serve principalmente do sistema de transitividade. Em Linguística Crítica, os praticantes estão ocupados principalmente com padrões ideológicos de representação que resultam de escolhas de transitividade nos discursos de direito e de ordem (Hart, 2014).
Há um número de diferentes dimensões do discurso em que a ideologia pode esconder-se. Dessa forma, existe um potencial ideológico de representação linguística que diz respeito à representação do social, dos atores, das situações e dos eventos. No entanto, expressões linguísticas não correspondem diretamente às realidades que descrevem. Em vez disso, a gramática da representação, localizada na função ideacional da linguagem, gera um produto linguístico que mais reflete uma visão particular sobre a realidade que pode, assim, ser ideologicamente infundido (Hart, 2014).
Análise crítica dos textos
Como todo texto está inserido em um contexto (de situação e de cultura), de modo que ele reflete as influências desse contexto, as variáveis de cada uma dessas esferas são indicadas em relação aos seis artigos selecionados.
Inicialmente, apresenta-se um perfil do agraciado com a Grande Medalha da Inconfidência, centro da análise crítica desses seis textos. João Pedro Stédile, nascido em Lagoa Vermelha, em 25 de dezembro de 1953, é um economista e ativista social brasileiro. É graduado em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México. Marxista por formação, Stédile é um dos maiores defensores da reforma agrária. Filho de pequenos agricultores da província italiana de Trento, reside hoje em São Paulo. É membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), do qual é também um dos fundadores. Participa, desde 1979, das atividades da luta pela reforma agrária no país pelo MST e pela Via Campesina. Stédile defende a ditadura do proletariado, a insubordinação legal e a luta armada. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que tem em Stédile um líder, é acusado por seus detratores de não ter como meta principal o bem-estar dos camponeses, e sim utilizar a reforma agrária apenas como pretexto para promover uma revolução socialista.
Utilização dos processos oracionais
A seguir, apresentam-se 4 tabelas e 6 gráficos que sintetizam a escolha do uso dos processos oracionais em cada um dos textos selecionados. Como os textos selecionados apresentam diferente número de processos oracionais, indicam-se os dados de duas formas: absoluta e percentual. As Tabelas 1 e 2 demonstram, respectivamente, a frequência absoluta e percentual da utilização dos processos oracionais por texto.


Os mesmos dados dos seis textos, para uma comparação mais nítida entre as escolhas pelos processos oracionais, são apresentados na Figura 1.

Sob o foco do percentual de escolha de utilização de cada um dos processos pelos seis autores, os mesmos dados são demonstrados na Figura 2.
Como o aspecto material expressa as ações que, realizadas no mundo físico, são mais fáceis de se descreverem e de se entenderem, ele é a escolha mais frequente nos seis textos analisados.
Devido, em tese, ao público-alvo do site Terra e da Revista Veja ser mais escolarizado ou intelectual, os autores escolhem processos mentais mais frequentemente que os autores dos demais sites escolhidos.

Nesse sentido, também observa-se que o texto do site Conversa Afiada faz pouco a escolha por processos verbais, pois ele opta por não utilizar a opinião alheia como suporte de credibilidade como os demais autores realizam, pois essa conduta, influenciada pela ideologia muito bem definida do autor em relação ao tema, não necessita de mediadores a fim de posicionar-se como é, prototipicamente, a função principal dos processos verbais em textos jornalísticos e acadêmicos.
A fim de detalhar os tipos preferenciais de escolhas em relação aos processos relacionais e mentais, apresentam-se a Tabela 3 e as Figuras 3 e 4 e a Tabela 4 e as Figuras 5 e 6, respectivamente.



Observa-se que o texto dos sites Terra (2015), Estado de Minas (2015) e Conversa Afiada (2015) utiliza todos os tipos de processo relacional e que o texto dos sites Veja (2015), O Tempo (2015) e Brasil 247 (2015) não usa todos esses processos.
A escolha pelos tipos de processos relacionais, genericamente, é semelhante nos seis textos. Destaca-se o uso exclusivo do processo relacional possessivo no texto do site O Tempo (exemplos ‘a’ e ‘b’). O uso de processo relacional intensivo atributivo e intensivo identificativo (exemplos ‘c’ a ‘f’) como mais frequente é justificado devido à escolha dos autores de comparar virtudes (‘c’ e ‘d’) e defeitos (‘e’, e ‘f’), dependendo do ponto de vista ideológico, principalmente em relação a Stédile. Abaixo, apresentam-se alguns exemplos:
a) Afirmou que não ‘haverá’ efeito prático no projeto;
b) A ABCZ chamou Stédile de um ‘antirrepublicano’ que ‘tem’ um histórico de desprezo ao Poder Judiciário e à legislação do Brasil;
c) Bueno ‘classificou’ Stédile como ‘invasor de propriedades alheias, de incentivador da desobediência civil, da liderança de insurrectos e como comandante de um exército ilegal e nocivo à segurança nacional’;
d) Se ele possuir alguma notoriedade em seu saber, ela o ‘é’ criminal;
e) Todas elas ‘são’ legítimas;
f) O critério ‘é’ do mérito, e não político.


Observa-se que o texto dos sites Terra e Veja utiliza todos os tipos de processo mental e que os textos favoráveis (Conversa Afiada, O Tempo, Brasil 247) ao agraciamento a Stédile usam apenas um ou dois desses processos.

A escolha dos tipos de processos mentais pelos autores é, genericamente, semelhante, excetuando o site Brasil 247 que, quando optou por utilizar o processo mental, o processo escolhido foi exclusivamente o emotivo, o que está perfeitamente justificado de acordo com o contexto de cultura e de situação em que está inserida essa empresa.
A maior frequência de processo cognitivo nos cinco sites é absolutamente previsível, devido ao objetivo dos autores dos textos de trazer o que é pensado por eles e não ao que seus sentidos remetem sobre o objeto de análise.
Devido ao objetivo do texto de convencer o leitor e de demonstrar seu posicionamento, é essencial usar, com parcimônia, processos emotivos. Por isso, nos seis textos, há escolha na sua utilização. De acordo com uma maior ou menor adesão ideológica, a frequência dessa escolha é maior ou menor.
Observa-se, ainda, que apenas, nos textos desfavoráveis (sites) Terra, Veja e Estado de Minas) ao recebimento da medalha por João Pedro Stédile, a escolha de processos desiderativos é realizada.
Análise do foco ideológico textual em relação a Stédile
A seguir, são apresentadas, por texto, a somatória dos elementos constitutivos utilizados em cada um dos quatro processos oracionais e a análise detalhada da participação de Stédile nos casos em que ele é identificado.
Texto do site Terra - Juiz devolve Medalha da Inconfidência por causa de Stédile (Terra, 2015)
O texto deste site é formado por duas partes: o primeiro terço é uma introdução de um jornalista do site Terra não identificado, e os outros dois terços são a apresentação, na íntegra, de uma carta de autoria de Mozard Hamilton Bueno ao Chefe do Cerimonial da Medalha da Inconfidência. Mozard, que recebeu a mesma comenda há 33 anos e, hoje, tem 74 anos, é juiz federal aposentado, mas foi Diretor do Colégio Tiradentes da Polícia Militar em Barbacena, em Minas Gerais, durante sete anos, período em que conseguiu transformar a instituição em modelo para o restante do estado. Só dentro da própria Polícia Militar somou 28 anos de trabalho, tempo interrompido apenas quando, em 1985, foi aprovado no concurso para magistratura em Rondônia onde atuou por dez anos até aposentar-se e mudar-se para a capital federal.
Aqui, Stédile é mencionado 14 vezes, compondo 7 tipos diferentes de componentes oracionais. Nos processos mentais, ele aparece em 5 fenômenos; nos processos materiais, 1 vez é ator, 3 vezes é beneficiário e há uma ocorrência dele em termo circunstancial; nos processos relacionais, 2 vezes aparece como valor e 1 vez como portador; nos processos verbais, aparece numa locução. Observa-se que uma mesma referência participa de processos distintos.
Nos processos oracionais, quando Stédile possui participação ativa (ator), sempre uma ação ou uma característica negativa é relacionada a ele:
a) ‘Esse cidadão’ fez o que por Minas?;
b) Dividi-la com ‘quem’ nada fez em prol do Brasil, da ordem pública e muito menos por Minas Gerais;
c) Eu te pergunto, ‘esse cidadão’ fez o que por Minas Gerais?
Quando assume uma participação passiva, também está relacionado a aspectos pejorativos:
a) ‘Stédile’, de quem ouço falar como invasor de propriedades alheias, de incentivador da desobediência civil, da liderança de insurrectos e como comandante de um exército ilegal e nocivo à segurança nacional;
b) O magistrado se indignou com a homenagem ‘ao líder do MST’;
c) A homenagem feita igualmente a ‘João Pedro Stédile’, líder do Movimento Sem Terra (MST);
d) Bueno classificou ‘Stédile’ como ‘invasor de propriedades alheias, de incentivador da desobediência civil, da liderança de insurrectos e como comandante de um exército ilegal e nocivo à segurança nacional’.
e) Não me julgo superior a esse senhor ‘Stédile’ (2 vezes);
f) Assisto no noticiário haver Vossa Excelência conferido igual comenda a um tal ‘Stédile’;
g) Minas Gerais onde é ‘ilustre desconhecido’.
Stédile compõe um termo circunstancial, mas é a causa de um precedente agraciado devolver a medalha:
a) Juiz devolve Medalha da Inconfidência por causa de ‘Stédile’.
Texto do site Veja - Mineiros reagem indignados ao insulto do governador Pimentel - que resolveu esquartejar a memória e a dignidade de Tiradentes — e exigem que ele casse a medalha concedida a Stédile (Veja, 2015)
O autor deste texto é José Reinaldo Azevedo e Silva (nascido em Dois Córregos, em 19 de agosto de 1961), que é um jornalista político brasileiro, de orientação política conservadora ou, segundo ele próprio declara, inserido no campo da direita liberal e democrática. Foi redator-chefe das revistas Primeira Leitura e Bravo!, editor-adjunto de política da Folha de S. Paulo, coordenador de política da sucursal de Brasília do mesmo jornal e redator-chefe do jornal Diário do Grande ABC, de Santo André, entre 1991 e 1993. Foi articulista da revista Veja até 7 de outubro de 2009, quando escreveu seu último artigo para a revista. Hoje, mantém um blog hospedado no site da Veja com cerca de 150.000 acessos diários. É também colunista no Jornal Folha de São Paulo e radialista na rádio Jovem Pan, em que faz intervenções no Jornal da Manhã e comanda o programa ‘Os Pingos Nos Is’. No Twitter, é seguido por aproximadamente 170 mil pessoas. Azevedo formou-se em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi trotskista durante a ditadura militar no Brasil. É mencionado entre os militantes da Liberdade e Luta (Libelu), tendo participado da militância esquerdista na clandestinidade quando jovem. Já adulto, tornou-se um crítico do comunismo e das ideias socialistas. É crítico de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores.
Quando se analisa, neste texto, a referência direta a Stédile, vê-se que ela é consignada 9 vezes, compondo 3 tipos diferentes de componentes oracionais. Nos processos mentais e verbais, ele não aparece; nos processos materiais, 1 vez é ator, 7 vezes é beneficiário; nos processos relacionais, 1 vez aparece como possuidor. Observa-se que uma mesma referência participa de processos distintos.
Nos processos oracionais, quando Stédile possui participação ativa (ator e possuidor), há uma ação, ou uma característica negativa é relacionada a ele:
a) ‘Um homem’ que nutre notório desprezo pela democracia;
b) Se ‘ele’, o ‘Sr. João Pedro Stédile’, possuir alguma notoriedade em seu saber, ela é criminal;
c) Diante da decisão de o governo do estado de outorgar Comenda ‘a quem’ comanda ações reprováveis de movimentos à margem da lei;
Quando Stédile é o beneficiário, também está relacionado a aspectos pejorativos:
a) Ele casse a medalha concedida a ‘Stédile’;
b) Entregou a Grande Medalha da Inconfidência a ‘João Pedro Stédile’, o chefão do MST;
c) Ato que condecorou ‘um homem’ que nutre notório desprezo pela democracia;
d) Critiquei aqui a condecoração a ‘Stédile’;
e) A reação à absurda homenagem, feita por Pimentel, a ‘Stédile’;
f) É evidente que a medalha concedida a ‘Stédile’ tem que ser cassada.
Também, nos processos mentais, a referência a Stédile não é positiva:
a) Minas não pode condecorar um ‘homem’ que, abertamente, não reconhece os fundamentos do Estado de Direito, sobre os quais se sustenta o próprio ente que ‘o’ condecorou.
Stédile compõe um termo circunstancial, que é relacionado diretamente a um contexto de ação prejudicial ao povo de Minas Gerais:
a) Ao homenagear ‘Stédile’, o Governador Fernando Pimentel dá um tapa na cara dos brasileiros – e dos mineiros em particular – que lutam para ganhar a vida honestamente, respeitando as leis do país, democraticamente pactuadas.
Texto do site Estado de Minas - Medalha da Inconfidência concedida a líder do MST causa revolta em Minas (Em, 2015)
O Jornal on-line estadodeminas.com é um jornal brasileiro, que pertence ao Grupo Diários Associados e foi fundado em 7 de março de 1928, e é um dos mais importantes jornais impressos do Estado de Minas Gerais, também conhecido como o grande jornal dos mineiros. Seu principal concorrente é o jornal O Tempo. Os dois jornais editam os tabloides Super Notícia e Aqui BH, que também mantêm concorrência, principalmente na região metropolitana de Belo Horizonte. O Estado de Minas circula diariamente com seus cadernos fixos: Política, Opinião, Nacional, Internacional, Economia, Gerais, EM Cultura e Economia.
O texto publicado no site Estado de Minas é assinado por Juliana Cipriani e Flávia Ayer. Em 7 de novembro de 2011, Flávia Ayer recebeu uma condecoração como vencedora do prêmio Allianz de jornalismo, que foi fruto de uma série de reportagens intitulada ‘Rios de Minas: um milagre ameaçado’. Para colher dados para a reportagem, a jornalista e equipe percorreram, de barco, 42 municípios pelas maiores bacias hidrográficas mineiras. Essas reportagens revelaram um cenário de agressões ao meio ambiente, leitos secos, poluição e uso abusivo dos recursos hídricos, um quadro muitas vezes distante das ações do governo e da maior parte da população.
Nesse texto de autoria de Juliana Cipriani e Flávia Ayer, publicado no site O Estado de Minas, Stédile é nomeado 26 vezes, participando de 10 tipos diferentes de componentes oracionais. Nos processos mentais, ele aparece em 1 fenômeno e em 2 hiperfenômenos; nos processos materiais, 4 vezes é ator, 8 vezes é beneficiário e há uma ocorrência dele como meta; nos processos relacionais, 1 vez aparece como possuidor e outra como possuído, além de 3 vezes como portador; nos processos verbais, aparece duas vezes como dizente e em 3 locuções.
Diferentemente dos artigos jornalísticos, publicados no site Terra, Veja, Conversa Afiada, que apresentam, radicalmente, um posicionamento favorável ou desfavorável a Stédile, nesse texto, existem referências positivas e negativas a Stédile. Por meio do processo verbal, as autoras reproduzem a argumentação do líder do Partido dos Trabalhadores na Assembleia Legislativa de Minas Gerais que caracteriza Stédile como aliado (receptor), como um brasileiro de reconhecimento (valor), como grande liderança social (receptor de atributo originado pelo Papa Francisco).
Diferentemente, na introdução do artigo e na reprodução de argumentação do líder da oposição ao governo do petista Fernando Pimentel (deputado Gustavo Correa, do DEM), só há referências negativas quando Stédile é mencionado, independentemente de a participação ser ativa ou passiva:
a) Medalha da Inconfidência concedida a ‘líder do MST’ causa revolta em Minas;
b) Deputados entram com requerimento para tirar a honraria concedida ao ‘líder do MST, João Pedro Stédile’;
c) A insatisfação com a homenagem concedida pelo governo mineiro ‘ao líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile’;
d) Apresentou nessa quarta-feira (22) requerimento para tirar ‘dele’ a honraria;
e) Acho que a medalha deveria ser dada a alguém que prestou serviço ao estado, até um gari merece. Não ‘um baderneiro, incentivador da desobediência civil, que invade propriedades produtivas, laboratórios’;
f) Não me julgo superior a ‘esse senhor Stédile’;
g) Revoltado com o fato de ‘Stédile’ ter sido condecorado;
h) ‘Stédile’ foi chamado por diversas vezes de bandido em plenário pela oposição;
i) Disse que a decisão de homenagear o ‘líder do MST’ foi de Pimentel
j) A reportagem tentou contato, por telefone e e-mail com ‘Stédile’, mas não teve retorno;
k) ‘Stédile’ demonstra rebeldia, uma pessoa ‘que’ prega invasões e destruição de laboratórios e campos de pesquisa ‘não é um benfeitor’;
l) Os parlamentares alegam que ‘ele’ não se enquadra nos requisitos da legislação que define a honraria;
m) A rigor, até se ‘ele, o senhor João Pedro Stédile’, possuir alguma notoriedade em seu saber, ela o é criminal, diz a justificativa;
n) ‘Alguém’ que prega uma guerra dentro do Brasil não deve receber medalha, afirmou.
Listam-se, a seguir, exemplos oracionais nos quais Stédile recebe adjetivação positiva:
a) Segundo ele, que reclamou da tentativa de ‘desmedalhização’ ‘do aliado’, os homenageados são escolhidos por um conselho composto por representantes do Executivo, Legislativo e da sociedade civil;
b) ‘Ele’ é um brasileiro de reconhecimento;
c) Durante um congresso de movimentos sociais no Vaticano, o ‘Stédile’ foi aclamado pelo Papa Francisco como uma grande liderança social, afirmou Durval.
d) O petista disse que é bom ter combatentes ‘como ele’ homenageados em vez de ‘autoridades vazias’.
Texto do site Conversa Afiada - A medalha da Inconfidência e a insatisfação da elite mineira (Conversa Afiada, 2015)
Conforme consta da ementa do próprio site, o Conversa Afiada pretende levar informação de qualidade e opinião enérgica. Acredita ser um espaço jornalístico com uma linguagem nova e ter uma vocação para a polêmica. Ele preserva duas marcas de seu nome principal, Paulo Henrique Amorim: jornalismo de qualidade, com credibilidade. O Conversa Afiada quer ser o que a imprensa tradicional brasileira não é. O Conversa Afiada combate o que chama de PIG: o Partido da Imprensa Golpista. Com uma equipe enxuta, o Conversa Afiada é o principal produto de uma empresa comercial lucrativa, que oferece aos anunciantes retorno como nenhum outro site político independente da blogosfera brasileira. O Conversa Afiada começou em 2006, no portal IG. Antes, já tinha vida própria no UOL, na estação UOL NEWS, desde 2000. Paulo Henrique Amorim é um pioneiro da internet brasileira: desde 1999, no ZAZ e, depois, no Terra, ele oferece produtos jornalísticos. Possui uma pequena equipe, composta por Geórgia Pinheiro (Diretora Executiva), Andréa Nogueira (Diretora administrativa), João de Andrade Neto (Editor) e Alisson Matos (Editor). Entretanto, o texto selecionado pertence a Welinton Sandro de Abreu, que nasceu em 19 de julho de 1976, em Betim. Ele é filiado ao Partido Socialista Brasileiro. Em 2013, assumiu a vaga de suplente de vereador em Betim. Apresentou artigos que foram publicados em jornais, como Betim on-line.
No texto de Sandro de Abreu, Stédile é mencionado 8 vezes, compondo 4 tipos diferentes de componentes oracionais. Nos processos mentais e verbais, ele não aparece; nos processos materiais, 1 vez é meta, 5 vezes é beneficiário e há uma ocorrência dele em termo circunstancial; nos processos relacionais, 1 vez aparece como valor. Todas as menções a Stédile são positivas, tanto nas participações ativas (‘h’) quanto nas passivas (‘a’ a ‘g’):
a) A indignação de políticos conservadores e de parte do empresariado mineiro com a medalha da inconfidência concedida ao ‘líder do MST, João Pedro Stédile’, escancara o que está posto no Brasil neste momento: a elite não aceita mais o povo no Poder;
b) Mas o ‘Stédile’ não pode ganhar. O ‘grande jornal dos mineiros’ chegou a colocar como intertítulo da matéria sobre o evento: ‘bandido’;
c) Alguns homenageados mais conservadores já anunciaram que irão devolver suas medalhas e o PSDB protocolou Projeto de Resolução na Assembleia Legislativa para cassar a medalha de ‘Stédile’;
d) Para continuar o lamento sobre a medalha concedida a um ‘líder de movimento popular’;
e) Então é isso, a aristocracia pode receber, o ‘rebelde’ não;
f) Mas ‘um homem do povo, um rebelde’ não pode receber a medalha que lembra justamente a conjuração e a rebeldia dos mineiros;
g) Mas além da medalha a ‘Stédile’, a cerimônia dos Inconfidentes promovida pelo governo petista, em Ouro Preto, no último dia 21, trouxe mais uma novidade: a praça foi aberta ao povo após 12 anos de cerimônias fechadas;
h) Stédile é povo.
Texto do site O Tempo - Medalha a Stédile gera guerra na ALMG e crítica do setor rural (O Tempo, 2015)
O Jornal on-line O Tempo de Betim e de Contagem é um jornal diário de Minas Gerais, sediado em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Concorre diretamente com o Estado de Minas. É de propriedade da Sempre Editora, integrante do grupo SADA (transporte e logística, concessionárias automobilísticas, metalurgia, editorial e outros), cujo presidente é Vittorio Medioli, ex-deputado federal pelo PV e ex-membro do PSDB.
Diferentemente dos artigos jornalísticos, publicados nos sites Terra, Veja, Conversa Afiada, que apresentam, radicalmente, um posicionamento favorável ou desfavorável a Stédile, mas semelhantemente ao seu concorrente O Estado de Minas, neste texto, realiza-se referência a Stédile, positiva e negativamente. Nesse texto, Stédile é citado 9 vezes, compondo 4 tipos diferentes de componentes oracionais. Nos processos mentais e relacionais, ele não aparece; nos processos materiais, 2 vezes é ator, 5 vezes é beneficiário; nos processos verbais, aparece 1 vez como receptor e 1 vez numa verbiagem.
Quando a voz do autor é própria, Stédile recebe apenas menções positivas, independentemente de a participação ser ativa ou passiva:
a) Medalha a ‘Stédile’ gera guerra na ALMG e crítica do setor rural;
b) A medalha entregue pelo governo de Minas ao ‘coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile’, gerou uma guerra entre governistas e oposicionistas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e recebeu críticas de entidades ligadas ao setor rural no país;
c) Destacado pelo Palácio Tiradentes para falar sobre o ‘caso’, o secretário de Governo, Odair Cunha (PT), reagiu às críticas.
Quando é negativo, utiliza o processo verbal, com a voz de terceiros, a fim de demonstrar que não é sua opinião:
a) Além da disputa política na ALMG, a medalha a ‘Stédile’ gerou notas de repúdio assinadas pela Sociedade Rural Brasileira (SRB) e pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), sediada em Uberlândia;
b) A ABCZ chamou ‘Stédile’ de ‘um antirrepublicano’ ‘que’ ‘tem um histórico de desprezo ao Poder Judiciário e à legislação do Brasil’;
c) Ontem, os deputados estaduais de oposição ao governo Fernando Pimentel protocolaram um projeto de resolução que susta os efeitos do ato que concedeu a Grande Medalha da Inconfidência a ‘Stédile’;
d) Segundo os parlamentares, ‘o ato assinado pelo governador fere de morte o disposto nos dois artigos, por mais que se busque enquadrar o ‘agraciado’ em um dos atributos condicionantes exigidos pelos textos legais’.
Texto do site Brasil 247 - Stédile é o Tiradentes da atualidade, dizem pesquisadores (Brasil 247, 2015)
O Brasil 247 foi o primeiro jornal brasileiro desenvolvido para o iPad, para outros tablets e para smartphones. No mundo, foi o segundo, atrás apenas do The Daily, mas foi o primeiro com uma experiência aberta e gratuita. Conforme consta em seu site, sua visão é de que o mundo caminha para um modelo de informação plural, colaborativa, on-line e gratuita. Lançado oficialmente em 13 de março de 2011, o Brasil 247 é, hoje, uma plataforma digital completa, com um dos sites de informação mais acessados do país e aplicativos de sucesso nas tecnologias iOs e Android. O idealizador do projeto, Leonardo Attuch, já trabalhou em várias redações, como Correio Braziliense, Veja, Exame, Estado de Minas, Isto é Dinheiro. Hoje, além de editor-responsável pelo Brasil 247, é colunista da Isto é e do jornal Metro. Luis Mauro Queiroz, jornalista político em Minas Gerais, é repórter responsável pela página Minas 247. Esse jornal on-line constantemente publica artigos contra o posicionamento ideológico da revista Veja, e a maioria das notícias de capa relaciona-se positivamente a realizações do Partido dos Trabalhadores e de seus integrantes.
Nesse texto, Stédile é referenciado 25 vezes, compondo 9 tipos diferentes de componentes oracionais. Nos processos mentais, ele não aparece; nos processos materiais, 6 vezes é ator, 6 vezes é beneficiário; nos processos relacionais, 3 vezes aparece como valor, 1 vez numa ocorrência e 2 vezes como portador; nos processos verbais, aparece 1 vez como dizente, 2 vezes como receptor, 2 vezes em locução e 2 vezes em atributos.
Fatores positivos são atribuídos a Stédile quando ele é referenciado, tanto nas participações ativas (‘a’ a ‘f’) quanto nas passivas (‘g’ a ‘m’):
a) ‘Stédile’ é o Tiradentes da atualidade, dizem pesquisadores;
b) ‘Stédile’ foi a melhor expressão do pensamento de Tiradentes, e do simbolismo de sua luta contra a tirania da colônia portuguesa – hoje revisitada no imperialismo estadunidense, afirmam (3 vezes);
c) O Sr. ‘Stédile’ tem, no último período, viajado o Brasil como um dos principais expoentes da luta antiimperialista, em defesa das riquezas nacionais, como o Pré-Sal e a Petrobras.
d) Também se ‘destaca’, com seu ‘exército’, na linha de frente contra as tentativas de golpe institucional, preservando os valores da democracia e da república.
e) ‘Dialoga’ amplamente com setores organizados da sociedade, que vão da Igreja a movimentos sociais, da juventude a sindicatos e partidos.
f) ‘Tem encabeçado’ iniciativas de moralização da política, como a reforma do sistema eleitoral, através de plebiscito popular, cuja principal bandeira é o fim do financiamento privado das campanhas.
g) Comentam as críticas feitas ao governador Fernando Pimentel por ter concedido ao ‘líder do Movimento Sem Terra, João Pedro Stédile’, a Grande Medalha da Inconfidência (2 vezes)
h) Causou grande repercussão na Assembleia Legislativa mineira e nas altas rodas empresariais a condecoração dada a ‘João Pedro Stédile, do MST (2 vezes)’.
i) A celeuma em torno da medalha de ‘Stédile’ diz mais sobre a conjuntura nacional atual do que da pretensa mácula à história da Inconfidência Mineira (2 vezes);
j) O Tiradentes da atualidade é ‘Stédile!’, afirma.
k) ‘O principal representante do MST’ recebeu das mãos de Pimentel a Grande Medalha da Inconfidência.
l) Por ter dado a vida por dedicação a diversos temas de interesse público – e não só a reforma agrária – ‘foi recebido’ por diversos chefes de Estado, lideranças políticas nacionais e internacionais e até pelo Papa Francisco, que convidou ‘Stédile’ para coordenar uma conferência mundial de lideranças populares em 2014.
m) O Tiradentes da atualidade é ‘Stédile’!
Quando a referência a Stédile, sempre passiva, é negativa, utiliza o processo verbal, com a voz de terceiros, a fim de demonstrar que não é sua opinião:
a) Alegaram alguns que o ‘agraciado’ não prestou nenhum serviço relevante à coletividade;
b) Líderes da oposição na ALMG ainda acusaram ‘Stédile’ de crimes contra o patrimônio e ameaçaram cassar os efeitos da honraria através de decreto legislativo.
Conclusão
Este artigo pretendeu analisar, sob a perspectiva da linguística sistêmico-funcional, as escolhas dos processos pelos autores e a participação de João Pedro Stédile como participante da oração em cada um dos seis textos que trata da repercussão positiva ou negativa do recebimento da Grande Medalha da Inconfidência por esse líder do MST, em cerimônia pública, que aconteceu em 21 de abril de 2015, em Belo Horizonte.
Para isso, inicialmente, apresentaram-se os principais fundamentos da gramática sistêmico-funcional hallidayana. Quando se analisa a oração, o sistema relevante considerado é conhecido como ‘transitividade’, que dá conta da construção da experiência em termos de configuração de processos, de participantes e de circunstâncias. Nesse sistema, ‘a oração é vista como representação’.
A fim de delinear o contexto de situação e de cultura de onde os textos emergem, apresentou-se pequena bibliografia do autor e dos sites por que os textos foram divulgados, antes da análise propriamente dita dos seis textos. Nesse sentido, como cada texto tem um propósito comunicativo específico, diretamente relacionado ao contexto de produção (quem produz), de consumo (para quem) e de circulação (como e onde é veiculado para chegar ao objetivo pretendido), por ser essencialmente interativo, o texto precisa ser analisado a partir do propósito e do processo de criação.
Da análise detalhada da composição dos processos oracionais, em cada um dos seis textos, realizada anteriorme em ‘Utilização dos processos oracionais’, resultou o seguinte:
a) os autores utilizaram, de forma semelhante, o processo material como o mais frequente, pois o aspecto material expressa as ações que, realizadas no mundo físico, são mais fáceis de se descreverem e de se entenderem;
b) observou-se que os sites que, em tese, possuem um público mais escolarizado utilizaram com maior frequência processos mentais, destacando-se que os sites Terra e Veja utilizaram percentualmente (do maior para menor uso) processos cognitivos, emotivos desiderativos e perceptivos;
c) dentre os autores mais bem definidos ideologicamente, todas as referências ao agraciado são ou positivas ou negativas e, raramente, utilizam da voz de terceiros por meio de processos verbais;
d) as escolhas e as seleções dos quatro processos são muito diferentes de acordo com o contexto de cultura e de situação em que o autor está inserido.
e) A fim de facilitar a identificação dos textos, na conclusão da análise da participação do agraciado na oração (em ‘Análise do foco ideológico textual em relação a Stédile’), os textos serão identificados da seguinte forma:
(1) texto do site Terra - Juiz devolve Medalha da Inconfidência por causa de Stédile; (2) texto do site Veja - Mineiros reagem indignados ao insulto do governador Pimentel - que resolveu esquartejar a memória e a dignidade de Tiradentes — e exigem que ele casse a medalha concedida a Stédile; (3) texto do site Estado de Minas - Medalha da Inconfidência concedida a líder do MST causa revolta em Minas; (4) texto do site Conversa Afiada - A medalha da Inconfidência e a insatisfação da elite mineira; (5) texto do site O Tempo - Medalha a Stédile gera guerra na ALMG e crítica do setor rural; (6) texto do site Brasil 247 - Stédile é o Tiradentes da atualidade, dizem pesquisadores.
Em (1) e (2), todas as indicações referentes a Stédile são negativas, o que é esperado se se considerar o contexto de cultura e de situação em que os autores estão inseridos. De forma análoga, mas com a apresentação de referências todas positivas, em (4), Stédile só recebe referências positivas, pois o autor do texto é um membro do Partido Socialista Brasileiro que interpreta todas as ações de Stédile apenas pela sua perspectiva.
Em (6), toda menção positiva a Stédile possui a voz do autor, tanto naquelas em que o agraciado possui ação ativa quanto naquelas em que é um ente passivo. Na única vez em que há indicação de aspectos negativos a Stédile, ele ocupa uma posição passiva, e o autor utiliza o processo verbal, com a voz de terceiros, a fim de demonstrar que não é sua opinião (ou é de autor indefinido (alegaram alguns) ou é de líderes da oposição na ALMG).
A posição ideológica oposta, revelada pelo contexto geral (de cultura e de situação) de (1) e (2) em relação a (4) e (6), foi materializada linguisticamente, como comprovado pela análise da gramática sistêmico-funcional.
Em (3) e (5), que são veículos de comunicação concorrentes em Minas Gerais, ficou nítida a manifestação ideológica, após a análise pela SFG, de cada jornal eletrônico, pois, embora, em cada texto, haja fatores favoráveis e contrários ao agraciamento de Stédile e a Stédile como indivíduo, ambos utilizaram o mesmo recurso linguístico para realizar a enunciação das características opostas que cada autor delineia como majoritárias, isto é, sempre que, em (3), desejava indicar aspectos positivos a Stédile e que, em (5), desejava salientar aspectos negativos a Stédile, utilizaram a voz de terceiros por meio do processo verbal.
Assim, por meio da análise crítica desse corpus sobre o agraciamento de João Pedro Stédile com a Grande Medalha da Inconfidência, em 21 de abril de 2015, ficou nítida a influência do contexto de cultura e de situação (onde se inclui a ideologia) sob cada um dos autores dos textos nas escolhas linguísticas de cada um, observadas a partir da análise sob a perspectiva do sistema de transitividade dos processos oracionais, de acordo com a gramática sistêmico-funcional de Halliday. Dessa forma, o ensinamento de Hart (2014, p. 21) de que a gramática da representação, localizada na função ideacional da linguagem, revela um produto linguístico que mais reflete uma visão particular sobre a realidade que pode, assim, ser ideologicamente infundido materializa-se nos textos analisados.
Referências
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