Linguística
A categoria de aspecto em algumas línguas indígenas do Brasil
The category of aspect in some native languages of Brazil
A categoria de aspecto em algumas línguas indígenas do Brasil
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 39, núm. 2, pp. 117-128, 2017
Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 01 Março 2016
Aprovação: 06 Maio 2016
Resumo: O objetivo do artigo é analisar, com base no modelo da Gramática Discursivo-Funcional, GDF (Hengeveld e Mackenzie, 2008), as noções de aspecto nas línguas indígenas das famílias Aruak (Kinikinau), Jê (Parkatejê, Xerente e Xavante), Guató (Guató), Tupi-Guarani (Asurini), Boróro (Boróro), Karib (Ikpeng), Pano (Katukina, Matis e Shanenawa) e Ofayé (Ofayé), considerando-se o princípio de ordenação das categorias de tempo, aspecto e modo (TAM) com relação ao predicado da oração, bem como as relações semânticas de escopo entre tais categorias gramaticais quanto aos níveis e às camadas da GDF. Como resultados, verificamos que o aspecto qualitativo (perfectivo, imperfectivo etc.) tende a se posicionar mais próximo ao verbo, justamente por alterar a constituição temporal interna do estado de coisas, ao passo que o aspecto quantitativo (habitual, por exemplo) e o tempo tendem a se posicionar um pouco mais distantes do predicado, pelo fato de funcionarem como modificadores do estado de coisas como um todo. Já as noções de modo tendem a se colocar mais distantes do verbo, por não afetarem diretamente o seu estatuto. Comprovamos ainda que a distribuição das categorias TAM tende a respeitar a ordenação e as relações de escopo entre elas, como diz Hengeveld (2011): (modo(tempo(aspecto(predicado+argumentos)))).
Palavras-chave: aspecto, línguas indígenas, GDF, hierarquias implicacionais.
Abstract: The aim of the paper is to analyze, from the Functional Discourse Grammar perspective, FDG (Hengeveld and Mackenzie, 2008), the notions of aspect in the indigenous languages of the families Arawak (Kinikinau), Jê (Parkatejê, Xerente and Xavante), Guató (Guató) Tupi-Guarani (Asurini) Boróro (Boróro) Karib (Ikpeng), Pano (Katukina, Matis and Shanenawa) and Ofayé (Ofayé), taking into account the ordering of the categories of tense, aspect and mood (TAM) with respect to the predicate and the semantic scope relations among these grammatical categories according to the levels and layers of the FDG. As a result, we found that the qualitative aspect (perfective, imperfective and so on) tends to be placed closer to the verb, by affecting the internal temporal constitution of the state-of-affairs, while the quantitative aspect (habitual) and tense tend to stand farther from the predicate, by modifying the state-of-affairs as a whole. The mood notions tend to be placed more distant from the verb, since they not directly affect the verb. We also verified that the distribution of TAM categories respects, in general, the ordering and the scope relations among them, as proposed by Hengeveld (2011) in: (mood(tense(aspect(predicate+arguments)))).
Keywords: aspect, indigenous languages, FDG, implicational hierarchies.
Introdução
O objetivo deste artigo é analisar, sob a perspectiva teórica da Gramática Discursivo-Funcional, GDF (Hengeveld e Mackenzie, 2008), que faz distinção entre níveis e camadas de organização hierárquica da linguagem, a categoria de aspecto em algumas línguas indígenas do Brasil, levando-se em consideração tanto o princípio de ordenação das categorias de tempo, aspecto e modo com relação ao verbo da sentença quanto as relações semânticas de escopo entre essas categorias em relação aos níveis e às camadas da GDF, como se observa no exemplo (1) extraído da língua Matis (Ferreira, 2001, p. 65):
(1) pi -an -e -k
defecar -HAB -N.PASS -DECL
‘Defecava constantemente’
No exemplo (1), a ordem dos marcadores de tempo, aspecto e modo com relação ao predicado da oração (o verbo) segue o padrão de ordenação a seguir: aspecto habitual>tempo não-passado> ilocução declarativa, fato que é resultado, segundo Hengeveld (2011), das diferenças de escopo entre essas categorias: nesse caso, o aspecto habitual, que especifica a estrutura temporal interna do evento, está dentro do escopo da marcação de tempo não-passado, que, por sua vez, é responsável por especificar a constituição temporal externa do evento. Ambos, aspecto habitual e tempo não-passado, estão dentro do escopo da categoria de ilocução declarativa, que indica a intenção comunicativa do falante e qualifica o conteúdo da mensagem como um todo, conforme segue: declaro que alguém defecava constantemente. As relações de escopo entre as categorias de tempo, aspecto e modo (ilocução) são dadas em (2):
(2) (ilocução declarativa (não-passado (habitual (predicado+argumentos))) .
Segundo Hengeveld (2011), a relação de escopo em (2) não é absoluta, pois pode variar em algumas línguas, mas é, em geral, a ordem mais esperada para a organização das categorias TAM com relação ao predicado. Trata-se de uma proposta de ordenação que se baseia em Bybee (1985), que verificou a existência de uma ordem de preferência das categorias de voz, pessoa, aspecto, tempo, modalidade, modo e pessoa com relação à raiz verbal em termos de relevância, e na proposta de classificação das categorias gramaticais de Foley e Van Valin (1984), que também propõem uma ordenação similar.
Assim, com base no princípio de ordenação em (2) e nos preceitos teóricos da GDF, o nosso propósito é verificar em que medida a proposta de Hengeveld (2011) é adequada para explicar a ocorrência das categorias de tempo, aspecto e modo nas línguas indígenas Kinikinau (Aruak), Parkatejê, Xerente, Xavante (Jê), Guató (Guató), Asurini (Tupi-Guarani), Boróro (Boróro), Ikpeng (Karib), Katukina (Pano), Matis (Pano), Shanenawa (Pano) e Ofayé (Ofayé), bem como investigar a presença de hierarquias implicacionais (que refletem as propriedades universais das línguas) entre as categorias TAM quanto às camadas da GDF.
De posse da proposta de Hengeveld (2011), esperamos ser possível estabelecer uma correlação entre as categorias de tempo, aspecto e modo e as camadas do Nível Representacional (conteúdo proposicional, episódio, estado de coisas, propriedade configuracional) com relação ao predicado, como instrumento para comprovar a existência de uma organização hierárquica dessas categorias quanto ao verbo e o fato de que essas relações de escopo estão relacionadas às diferentes camadas em que operam.
Para cumprir esses objetivos, o artigo encontra-se organizado como segue: inicialmente, trazemos uma breve apresentação da GDF; em seguida, apresentamos uma discussão sobre as categorias de tempo e aspecto nos estudos linguísticos; a seção seguinte traz a metodologia e a amostra de línguas indígenas; na sequência, apresentamos a análise da categoria de aspecto em sua relação com a categoria de tempo (e modo) nas línguas indígenas da amostra. Por fim, apresentamos as considerações finais e as referências bibliográficas.
A Gramática Discursivo-Funcional
Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008), a GDF é definida pelas seguintes características: (i) é uma teoria que busca modelar a competência gramatical de usuários das línguas; (ii) assume o ato discursivo, não a oração, como unidade básica de análise; (iii) a GDF interage sistematicamente com os componentes conceitual, contextual e de expressão, que antes não tinham sido contemplados na Gramática Funcional (GF, doravante) de Simon Dik; (iv) a organização hierárquica da GDF é descendente (parte das intenções comunicativas), ao passo que a da GF é ascendente, e, por fim, (v) a GDF inclui as representações morfossintáticas e fonológicas como parte da estrutura subjacente.
Para Hengeveld e Mackenzie (2008), a GDF é uma teoria que busca entender como as unidades linguísticas são estruturadas em termos do mundo que elas descrevem e das funções comunicativas que elas expressam na língua. Com base nesses aspectos, diz-se, então, que a GDF inicia-se com a formulação da intenção do falante, passando pela codificação morfossintática e fonológica, até chegar à realização da expressão linguística propriamente dita, enquanto a GF de Dik inicia-se com a seleção de itens lexicais para, em seguida, expandir gradualmente a estrutura subjacente da oração para outras camadas.
A operação de formulação, segundo Hengeveld e Mackenzie (2008), está relacionada à especificação das configurações pragmáticas e semânticas de uma língua, independentemente da expressão de tais configurações, ao passo que a operação de codificação está preocupada com as formas morfossintáticas e fonológicas que essas configurações pragmáticas e semânticas podem acarretar em uma dada língua. Para os autores, essa distinção entre formulação e codificação é importante, uma vez que a GDF busca desenvolver um arcabouço teórico que possibilite uma descrição sistemática de um maior número possível de línguas naturais (Hengeveld e Mackenzie, 2008).
Por ser um modelo hierárquico, a GDF é estruturada em quatro níveis de organização, e cada um deles é concebido como um módulo separado e internamente organizado em camadas de complexidade linguística. Outro aspecto inovador da GDF é o reconhecimento de um componente contextual e um componente cognitivo, que contêm elementos essenciais do contexto e da cognição, respectivamente, considerados relevantes para os demais módulos da gramática[1]. O componente gramatical (que engloba os quatro níveis de organização da linguagem) é conectado ao componente conceitual, ao contextual e de expressão.
Para a GDF, a pragmática governa a semântica, a pragmática e a semântica governam a morfossintaxe e, juntas, a pragmática, a semântica e a morfossintaxe governam a fonologia. Essa mudança, conforme Hengeveld e Mackenzie (2008, p. 1), é motivada pelo postulado de que a “[...] eficiência de um modelo de gramática é tanto maior quanto mais se aproximar do processamento cognitivo”. Embora a GDF não seja um modelo de processamento de linguagem, estudos psicolinguísticos demonstram que a produção linguística é um processo descendente, que parte do componente cognitivo em direção ao componente de expressão.
O Nível Interpessoal
O Nível Interpessoal (NI) lida com os aspectos formais de uma unidade linguística que reflete seu papel na interação entre falante e ouvinte. Segundo Hengeveld e Mackenzie, as unidades discursivas relevantes desse nível são hierarquicamente organizadas em camadas:
(3) (M1:[(A1:[(F1)(P1)S(P2)A(C1:[(T1){Ф}...(T1+N){Ф} (R1){Ф}](C1){Ф})](A1)...(A1+N){Ф}] (M1))
O movimento é a camada mais elevada do NI e descreve o segmento de discurso que é considerado relevante no processo de interação. Um movimento, por sua vez, é constituído de um ou mais atos discursivos temporalmente ordenados que, juntos, formam o núcleo (simples ou complexo). Cada ato discursivo (A) se organiza com base em um esquema ilocucionário (ILL), que contém dois participantes (P), o Falante e o Ouvinte (S, A), e o conteúdo comunicado como seus argumentos. O conteúdo comunicado apresenta um número variável de subatos atributivos (A) e referenciais (R), aos quais funções pragmáticas são atribuídas.
Para a GDF, o movimento é o veículo utilizado para a expressão de intenções comunicativas do falante e pode ser classificado em: iniciação (pergunta), reação (resposta) e avaliação. Além dos casos de implicaturas, essas intenções podem ser: convite, informação, questionamento, ameaça, advertência, recomendação etc. Já a ilocução indica o propósito de nossos atos verbais, e os participantes representam o falante e o ouvinte, enquanto o conteúdo comunicado apresenta a totalidade do que o falante deseja evocar durante a interação.
O subato atributivo do conteúdo comunicado representa a tentativa do falante de evocar uma propriedade. Ao proferir, por exemplo, a frase ‘Está nevando’, o falante evoca somente uma propriedade meteorológica sem fazer menção a nenhum referente. O subato referencial, por outro lado, ocorre quando o falante evoca um referente: mulher, casa, gato etc.
O Nível Representacional
O Nível Representacional (NR) trata dos aspectos formais da unidade linguística que reflete seu papel no estabelecimento de uma relação com o mundo real ou imaginário que ela descreve. Por isso, as categorias representacionais referem-se à designação e não à evocação (que ocorre no NI). O Nível Representacional cuida apenas da semântica de uma unidade linguística. As unidades semânticas do Nível Representacional são organizadas como:
(4) (p1:[(ep1:[(e1:[(f1):[(f2)n(x1)Ф (x1+n)Ф](f1))(f1+n)(e1)Ф]) (e1+n){Ф}](ep1)) (ep1+n){Ф}](p1))
As unidades linguísticas do NR são descritas em termos do tipo de entidade que elas designam. Para a GDF, o conteúdo proposicional (constructo mental, crença, desejo) é a camada mais alta do Nível Representacional. Organizados, assim, de forma hierárquica, os conteúdos proposicionais (p) apresentam episódios (ep), que podem ser constituídos por um ou mais estados-de-coisas dispostos numa sequência tematicamente coerente, apresentando, sempre, uma unidade temporal (t), locativa (l) e uma consequente manutenção dos indivíduos (x) envolvidos. Na GDF, os estados-de-coisas são caracterizados por uma ou mais propriedades (f1), que podem conter descrições de indivíduos (x) e outras propriedades (f2).
O Nível Morfossintático e o Nível Fonológico
Para Hengeveld e Mackenzie (2008), quanto mais se adentrar, em direção top-down (descendente), aos demais níveis do modelo da GDF (níveis morfossintático e fonológico), mais (trans)linguisticamente específicos os níveis se tornarão, uma vez que é no Nível Morfossintático que as representações interpessoais e representacionais são codificadas morfossintaticamente. Nesse nível de análise, sintagmas adposicionais, por exemplo, são relevantes somente para algumas línguas, mas não para outras. Algumas línguas são do tipo morfológico isolante e outras do tipo aglutinante. No Nível Morfossintático, a unidade linguística é analisada em termos de sua composição morfossintática (constituintes morfológicos e sintáticos), começando da camada mais alta para a mais baixa, como segue: expressões linguísticas (Le), orações (Cl), sintagmas de vários tipos (Xp) e palavras de vários tipos (Xw). Além disso, segundo Hengeveld e Mackenzie, é possível distinguir, dentro da camada da palavra, morfemas de vários tipos (Xs) e afixos (Aff).
O modo como as categorias verbais são ordenadas em relação à raiz do verbo ilustra, por exemplo, como as hierarquias implicativas de caráter tipológico podem explicar a ordenação de categorias como aspecto, tempo, modalidade, modo, negação, pessoa, evidencialidade e ilocução nas línguas, em especial, para mostrar como essas mesmas categorias podem ser expressas entre línguas morfossintaticamente distintas.
Já o Nível Fonológico contém tanto a representação segmental quanto a representação suprassegmental de um enunciado. Para Hengeveld e Mackenzie (2008), nesse nível de organização da GDF, a expressão linguística é analisada em termos de suas unidades fonológicas, tais como o enunciado (U), que é a camada mais alta, a frase intonacional (IP), a frase fonológica (PP) e a palavra fonológica (PW), além das camadas pé (F) e sílaba (S).
A categoria de aspecto e sua relação com a categoria de tempo na literatura
As categorias de tempo e aspecto são, geralmente, descritas na literatura linguística como categorias interdependentes tanto do ponto de vista funcional quanto do ponto vista de formal, fatores que as levam a ser classificadas como categorias complexas. Nesse contexto, o que explicaria essa relação de interdependência é o fato de a categoria de tempo ser definida na literatura como uma categoria dêitica que relaciona o tempo do evento ao momento da enunciação, a partir do qual as demais instâncias temporais são diferenciadas, enquanto a categoria de aspecto é definida como uma categoria não dêitica (Almeida, 2008; Lyons, 1977), que está mais associada à “[...] representação espacial do processo[...]” (Castilho, 1968, p. 14) em termos de duração/desenvolvimento, frequência etc. Trata-se, pois, de uma categoria gramatical que está relacionada à realização, ao modo como se produz uma ação, ou à constituição temporal interna dos eventos (Hengeveld & Mackenzie, 2008; Trask, 2006).
Em algumas línguas indígenas, como a língua Asurini do Xingu, as noções de tempo e aspecto são marcadas por meio de um único morfema, também conhecido nessas línguas como morfema cumulativo. Em Asurini, emprega-se o sufixo {-ame} para indicar o “[...] aspecto de tempo passado próximo [...]” (Pereira, 2009, p. 236), ou seja, os falantes utilizam um único morfema para expressar tempo e aspecto em um mesmo enunciado. No caso, o sufixo {-ame} é usado para indicar uma ação verbal que foi concluída há pouco tempo do momento de fala.
A íntima relação que se verifica, muitas vezes, entre aspecto e tempo em termos de definição e expressão nas línguas é o que justifica, segundo Comrie (1976), a existência de poucos estudos sobre essas categorias semânticas em uma perspectiva tipológica. Segundo Souza e Pereira (2015, p. 232), é exatamente por conta das sobreposições funcionais entre aspecto e tempo nas línguas naturais que se torna “[...] difícil estabelecer parâmetros formais e funcionais adequados para analisar essas categorias, que podem variar entre as línguas em relação ao modo como são codificadas morfossintaticamente [...]” nas gramáticas.
De acordo com Costa (2002), essa intrínseca relação entre as categorias de tempo e aspecto e a consequente dificuldade de analisá-las que verificamos tanto em português como em outras línguas se deve ao fato de essas noções semânticas serem definidas como categorias temporais, uma vez que é a partir do tempo físico, tomado como ponto de referência, que as distinções semânticas de tempo interno e tempo externo são, muitas vezes, realizadas.
A definição apresentada por Castilho (1968, 2002), de que aspecto é resultado da relação entre o processo e o estado expressos pelo verbo, também dialoga com a proposta de Comrie (1976), para quem o aspecto diz respeito à constituição temporal interna de uma situação, e com a proposta de Travaglia (1981, p. 53), para quem o aspecto é considerado
“[...] uma categoria verbal do tempo, não dêitica, através da qual se marca a duração da situação e/ou suas fases, sendo que estas podem ser consideradas sob diferentes pontos de vista, a saber: o do desenvolvimento, o do completamento e o da realização da situação”.
Já Boland (2006) define o aspecto como sendo as diferentes maneiras ou perspectivas pelas quais se pode observar o tempo, caracterização esta também presente em Comrie (1976).
Essas conceituações de aspecto coincidem, de certa forma, com a definição de Ilari e Basso (2014); no entanto, os autores fazem distinção entre aspecto propriamente dito e acionalidade. Em outros termos, Ilari e Basso dizem que, além da sobreposição existente entre tempo e aspecto, há ainda, segundo os autores, outra distinção que precisa ser levada em consideração, que diz respeito ao fato de que as noções aspectuais podem ser expressas gramaticalmente (como morfemas) e lexicalmente (por meio de configurações sintáticas ou lexicais), a que os autores chamam de acionalidade. Ambas, o aspecto propriamente dito e a acionalidade, “[...] não têm nada a ver com as circunstâncias da fala; não são categorias dêiticas, e sim conceituais [...]” (Ilari e Basso, 2014, p. 170); no entanto, possuem estatutos distintos. No restante, a definição geral de aspecto proposta pelos autores é semelhante a dos demais autores: “[...] uma afirmação de caráter metafórico segundo a qual o estudo do aspecto e das classes acionais trata do processo expresso pelo verbo em sua dimensão espacial [...]” (Ilari e Basso, 2014, p. 170).
Os tipos aspectuais mais frequentes nas línguas, segundo Castilho (1968, 2002) e Travaglia (1981), são: (i) perfectivo (expressa uma ação completamente acabada ou finalizada), (ii) imperfectivo (indica que o processo verbal é incompleto, inacabado), (iii) inceptivo (indica o início de uma ação), (iv) terminativo (indica o término de uma ação), (v) iterativo (indica a repetição de uma ação, quer imperfeita, quer perfeita), (vi) durativo (expressa uma ação em curso, com duração), (vii) frustrativo (indica que uma ação foi quase concluída), e (viii) prospectivo (indica uma ação que está por vir, ligada ao tempo futuro).
As categorias de tempo, aspecto e modo e os níveis da GDF
Na GDF de Hengeveld e Mackenzie (2008), as distinções entre tempo, aspecto e modo, incluindo outras categorias, são captadas pela organização hierárquica do modelo teórico, que postula a existência de níveis e camadas de organização da linguagem. Em outros termos, para Hengeveld (2011), Dall’Aglio-Hattnher e Hengeveld (2016) e Hengeveld e Mackenzie (2008), o funcionamento distinto de tempo, aspecto e modo se dá pela ordenação e pelas diferenças de escopo dessas categorias em relação aos níveis e às camadas de organização da GDF, conforme se vê, de forma esquemática, na Tabela 1.
De acordo com Hengeveld (2011) e Dall’Aglio-Hattnher e Hengeveld (2016), tempo, aspecto e modo não são categorias uniformes no que diz respeito a sua aplicação às camadas de organização da GDF, mas podem ser agrupadas em diferentes subcategorias a depender das suas relações semânticas de escopo. Conforme os autores, o aspecto pode ser subdividido em duas categorias, sendo a primeira voltada para o aspecto quantitativo (como o habitual), que quantifica o estado de coisas como um todo, e a segunda voltada para o aspecto qualitativo (como o imperfectivo), que afeta a constituição temporal interna de um estado de coisas. O tempo, por sua vez, é dividido em noções de tempo absoluto (presente, passado e futuro), que localizam (uma série de) estado de coisas no tempo com relação ao momento de fala, e em noções de tempo relativo (tais como anterior e posterior), as quais localizam um estado de coisas no tempo a partir do tempo de outro estado de coisas.
Já o modo é dividido, conforme Dall’Aglio-Hattnher e Hengeveld (2016), em: ilocução (no Nível Interpessoal, que indica a intenção comunicativa do falante), modalidade epistêmica subjetiva (Nível Representacional, que indica a atitude do falante com relação ao conteúdo da proposição), modalidade epistêmica objetiva (Nível Representacional, que caracteriza o episódio (ou episódios) em termos da (im)possibilidade de sua ocorrência em vista do que se sabe sobre o mundo), modalidade orientada para o evento (Nível Representacional, que caracteriza um estado de coisas em termos de sua viabilidade ou conveniência) e a modalidade orientada para o participante (Nível Representacional, que indica habilidade). Nesse caso, para os autores, a categoria de modo opera tanto nas camadas do nível interpessoal quanto nas camadas do nível representacional, o que explica, na maioria das vezes, a confusão que se faz com as informações referentes a modo/modalidade na literatura, ora sendo tratada como atitude do falante, ora como força ilocucionária.

Corpus e metodologia
O material de investigação é composto por um conjunto de 12 línguas indígenas, distribuídas entre as principais famílias linguísticas, com vistas a atender à diversidade linguístico-cultural das línguas indígenas existentes no Brasil, incluindo as línguas sem classificação em famílias linguísticas. Vale destacar que não utilizamos o critério da proporcionalidade entre o número de línguas de cada família e tronco linguístico para organizar a amostra, pois esse procedimento demandaria a análise de um número maior de línguas e isso fugiria aos propósitos deste estudo. Nesse sentido, além de contemplar a diversidade linguístico-cultural das línguas indígenas do Brasil, buscamos como critério selecionar apenas gramáticas de línguas que apresentassem informações (mais ou menos) detalhadas sobre as categorias de tempo, aspecto e modo, haja vista que nem todas as descrições trazem referências diretas dessas categorias, o que inviabiliza o nosso trabalho.
Os dados sobre aspecto e tempo analisados aqui são de fonte secundária, ou seja, são coletados em dissertações, teses e gramáticas descritivas de línguas indígenas disponíveis em arquivo pdf ou em bibliotecas virtuais. Não houve, portanto, pesquisa de campo. Cabe ressaltar ainda que as glosas originais dos dados das gramáticas nem sempre são mantidas, uma vez que os dados coletados nesses materiais são reinterpretados à luz da GDF.
A amostra de línguas indígenas desta pesquisa é composta como segue (Tabela 2):

É importante que se diga também que a análise apresentada neste estudo tem como foco a categoria de aspecto, porém, como almejamos analisar as relações semânticas de escopo entre tempo, aspecto e modo com relação aos níveis e às camadas da GDF, como propõe Hengeveld (2011), as categorias de tempo e modo são também consideradas.
Hengeveld (2004) destaca que uma das maneiras mais eficientes de analisar dados de várias línguas é por meio do uso de hierarquias implicacionais. Essas hierarquias, descobertas a partir do método tipológico, refletem, conforme o autor, os universais linguísticos, e, por isso, também servem para estudar o desenvolvimento diacrônico das línguas, o processo de aquisição de uma língua, os fenômenos relacionados com o contato entre as línguas e a distribuição de fenômenos linguísticos dentro de uma única língua etc., (Hengeveld, 2004).
Os universais linguísticos, segundo Hengeveld (2004), são expressos na forma de implicações universais que, normalmente, são unilaterais. Essas implicações podem ser observadas tanto no modo como as línguas formulam as informações semânticas e pragmáticas quanto no modo como essas línguas codificam morfossintaticamente essas informações. As diferenças e semelhanças entre as línguas são decorrentes dessas operações de formulação e codificação, das quais surgem as implicações, como se verifica em (5):
(5) A < B < C
Em termos dos tipos de aspecto que as línguas podem manifestar, essa implicação universal define as seguintes combinações possíveis de formas aspectuais, em (6):
(6) Asp.A < Asp.B < Asp.C
i. + + +
ii. + + -
iii. + – –
iv. – – –
v. – + +(*)
vi. – – +(*)
Assim, pela hierarquia acima, nota-se, conforme Hengeveld, que a presença do aspecto C (Asp.C) em uma determinada língua implica também a ocorrência do aspecto B (Asp.B) e, consequentemente, a presença do aspecto A (Asp.A), situação que aparece representada em (i). Seguindo a lógica da hierarquização proposta em (6), qualquer combinação que elucide o contrário, como as combinações em (v) e (vi), representadas com o asterisco, é considerada inoperante ou improvável de ocorrer em uma língua. No entanto, segundo Hengeveld, é possível que somente uma das propriedades (no caso, o aspecto A) esteja presente na língua, sem necessitar da presença de B (aspecto B) ou da presença de C (aspecto C), tal como se observa em (ii), (iii) e (iv). Nessa análise, as únicas combinações que realmente não são esperadas em uma língua são aquelas que propõem a ausência de A e presença de B e C, pois, segundo Hengeveld, essas configurações violam a hierarquia.
De acordo com Hengeveld (2004), as hierarquias, muitas vezes, podem indicar restrições cognitivas (processamento, capacidade linguística etc.) dos usuários das línguas.
Discussão e análise: o aspecto nas línguas indígenas da amostra
As relações semânticas de escopo entre tempo, aspecto e modo
Os dados analisados na pesquisa mostram que a distribuição das categorias de tempo, aspecto e modo, nas línguas indígenas da amostra, tende a respeitar o princípio de ordenação dessas categorias gramaticais e as relações semânticas de escopo entre elas com relação ao predicado verbal da oração, tal como propõe Hengeveld (2011) em (7):
(7) (modo (tempo (aspecto (predicado+ argumentos))))
A diferença é que, no tocante às línguas indígenas analisadas, a ordenação das categorias TAM pode ocorrer de forma espelhada, assim como se observa em (8):
(8) (modo (tempo (aspecto (predicado+ argumentos) aspecto) tempo) modo)
Nas línguas indígenas da amostra, verificamos que a tendência é a de que as categorias de tempo, aspecto e modo se posicionem à direita do predicado verbal, como se vê em (9); no entanto, há casos em que tais categorias são alocadas à esquerda do verbo, como em (10):
(9) Matis (Ferreira, 2005, p. 139)
mɨʂte -kuke -do -e -k
lenha queimar -INCEP -PRES -DECL
‘A lenha começa a queimar’
(10) Parkatejê (Ferreira, 2003, p. 121)
I- tE kurmɘâ tkrE
1-ERG PERF cavar
‘Eu já cavei’ (ou Acabei de cavar)
Em (9), os sufixos {-do}, {-e} e {-k} indicam, respectivamente, as noções de aspecto inceptivo, tempo presente e modo declarativo. Trata-se de uma ordenação em que se observa uma relação de escopo entre essas categorias, no qual o aspecto inceptivo está sob o escopo do tempo presente, que, por sua vez, está sob o escopo da marcação do modo declarativo, o que mostra que a proposta de ordenação de Hengeveld (2011) se aplica aos dados em análise. Mesmo nos casos em que não se verifica a expressão de todas as categorias gramaticais em uma mesma sentença, como em (10), a tendência de ordenação listada por Hengeveld se aplica, uma vez que, no caso do exemplo (10), o aspecto perfectivo é o que se coloca mais próximo do núcleo verbal, o que significa dizer que, se houvesse um marcador de tempo ou de modo, muito provavelmente esses marcadores ocupariam posições subsequentes na sentença.
Os exemplos em (11a, b, c) são ilustrativos de outras possibilidades de marcação e ordenação das informações semânticas de tempo, aspecto e modo nas línguas indígenas:
(11) a. Matis (Ferreira, 2001, p. 65)
dunu -Ø pe -an -e -k
cobra -ABS morder -HAB -N.PASS -DECL
‘A cobra sempre morde’
b. Kinikinau (Souza, 2008, p. 86)
yuho -x-o -pe -ti -mo mboynu
falar-CT-IND-2SG.OBJ-IMPERF-FUT 1SG.SUJ.irmão
‘Meu irmão vai falar com você/falará’
c. Ofayé (Silva, 2012, p. 97)
ta SeRo -ko k«t«E h«ntE
1SG comer -HAB dia todo
‘Eu como todo dia.’
(lit. eu me alimento todo dia)
Aplicando a classificação proposta em (8) às categorias gramaticais presentes em (11a, b, c), chega-se à seguinte hierarquia de relações semânticas de escopo (em 12a, b, c):
(12)a. Raiz -1 -2 -3
pe -an -e -k
Aspecto quantitativo Ì Tempo (não-passado) Ì Ilocução (Declarativa)
b. Raiz -1 -2 -3
yuho -o -ti -mo
Modo (Indicativo) Ì Aspecto imperfectivo Ì Tempo futuro
c. Raiz -1 -2
SeRo -ko k«t«E h«ntE
Aspecto habitual Ì Tempo presente
Diferentemente do que propõem Hengeveld (2011) e Bybee (1985) com relação à ordenação das categorias de TAM, a hierarquia vista em (12b) mostra que, em algumas línguas, como a língua Kinikinau, a marcação de modo pode aparecer antes das marcações de aspecto e tempo, diferenciando-se parcialmente da proposta inicial dos autores. Entretanto, verificamos que, nas línguas analisadas, essa oscilação de ordenação é pouco expressiva. Mesmo na língua Kinikinau, essa ordenação é bastante variável, podendo o modo aparecer antes ou depois do predicado, e, em alguns casos, até mesmo ao final da oração; no entanto, o fato de a ordenação da categoria de modo ser mais flexível nas línguas não chega a invalidar a proposta de Hengeveld, uma vez que as categorias de tempo e aspecto tendem a apresentar um padrão de ordenação e um sistema de codificação morfossintática mais fixos.
Em (11a, c), os marcadores de aspecto habitual (quantitativo) funcionam como um operador na camada do estado de coisas do Nível Representacional, escopando o evento como um todo. Nos exemplos (10) e (11b), encontramos duas construções em que o aspecto qualitativo, representado pelo aspecto perfectivo e o aspecto imperfectivo, respectivamente, também funcionam como um operador, porém, nesse caso, esses marcadores operam na camada da propriedade configuracional, modificando apenas a estrutura temporal interna do estado de coisas.
Os exemplos, a seguir, ilustram os demais tipos de aspecto (e suas relações semânticas de escopo com as categorias de tempo e modo) encontrados nas línguas indígenas da amostra:
- Durativo: marcado por meio do sufixo {-ti}
(13) Kinikinau (Souza, 2008, p. 103)
ni -k -o -ti
comer -CT -IND -DUR/IMPERF
‘Ele está comendo’
- Inceptivo: marcado por meio do sufixo {-do}
(14) Matis (Ferreira, 2005, p. 139)
mɨʂte -kuke -do -e -k
lenha queimar -INCEP -PRES -DECL
‘A lenha começa a queimar’
- Prospectivo: marcado por meio do sufixo {-tí}
(15) Guató (Palacio, 1984, p. 82)
n -ótö -tí -he
IND -falar -PROSP -2sg
‘Você vai falar/está para falar’
- Frustrativo: marcado pelo sufixo {-kuan}
(16) Shanenawa (Candido, 2004, p.155)
ɾunu nawa naka -kuan -a
cobra homem morder -FRUST -PASS
‘A cobra quase mordeu o homem’
- Terminativo: marcado pelo sufixo {-maj godö}
(17) Boróro (Camargos, 2010, p. 81)
e nudö -re -maj godö
3PL dormir -IND -TERM
‘Eles acabaram de dormir’
Em (13), o sufixo {-ti} marca o aspecto durativo na língua Kinikinau, que é também classificado como aspecto imperfectivo por se tratar de uma ação incompleta, motivo pelo qual funciona como operador na camada da propriedade configuracional. Os exemplos (14), (15) e (17) constituem, respectivamente, casos de aspecto inceptivo, prospectivo e terminativo, classificados também como aspecto qualitativo, por alterar apenas a estrutura temporal interna do estado de coisas. Por essa razão, tais usos são definidos como pertencendo à camada da propriedade configuracional. No entanto, no exemplo (16), o aspecto frustrativo atua como um operador na camada da propriedade lexical porque afeta o significado lexical do verbo, e não o evento. Nesse caso, o sufixo {-kuan} funciona como um operador aspectual na camada da propriedade lexical, em que {-kuan} modifica o significado lexical (semântico) do verbo naka (morder): ‘a cobra quase mordeu o homem’. O uso desse operador aspectual indica que a ação de ‘morder o homem’ foi quase realizada/concluída.
Os dados mostram ainda que, em geral, a categoria de aspecto está sob o escopo da categoria de tempo, conforme se observa nos exemplos (11a), (11b), (14) e (16), confirmando, dessa forma, a previsão de Bybee (1985) e Hengeveld (2011) de que as categorias gramaticais que afetam diretamente o predicado ou o estado de coisas (EsCo) tendem a se posicionar o mais próximo possível do núcleo verbal, que é o que acontece com o aspecto, que fica sob o escopo da categoria de tempo, pelo fato de aspecto ser menos gramaticalizado (Bybee, 1985) que tempo, que, por sua vez, é menos gramaticalizado que modo/modalidade. Isso explica, portanto, o fato de essas categorias operarem em diferentes camadas de organização da GDF.
A Tabela 3, abaixo, mostra quais são os tipos de aspecto que atuam nas camadas de organização do Nível Representacional da GDF e quais são as suas funções:

A Tabela 3 mostra que, mesmo no interior de uma mesma categoria gramatical, como é o caso do aspecto, há relações semânticas de escopo entre os tipos aspectuais, assim como ressaltam Hengeveld (2011), Dall’Aglio-Hattnher e Hengeveld (2016). No caso das línguas indígenas analisadas neste estudo, identificamos uma situação um pouco diferente daquela proposta pelos autores, que diz respeito à existência de um tipo de aspecto, o frustrativo, que opera na camada propriedade lexical do Nível Representacional, não prevista por Hengeveld e Hengeveld e Dall’Aglio-Hattnher, e que afeta diretamente o significado lexical do verbo. Sendo assim, com a análise que aqui se propõe, teríamos noções aspectuais atuando não em apenas duas camadas do Nível Representacional, mas em três camadas, quais sejam: propriedade lexical, propriedade configuracional e estado de coisas, o que demonstra que os tipos aspectuais que operam na camada da propriedade lexical estão sob o escopo dos tipos aspectuais que operam na camada da propriedade configuracional, que, por seu turno, estão sob o escopo dos tipos aspectuais que operam na camada do estado de coisas.
Distribuição dos tipos de aspecto nas línguas indígenas da amostra
A Tabela 4 mostra a distribuição de todos os tipos de aspecto encontrados na amostra de línguas indígenas, organizados na forma de hierarquia implicacional.
Os dados listados na Tabela 4, atinentes à ocorrência dos tipos de aspecto nas línguas indígenas da amostra e suas relações de implicação, mostram que nem todas as línguas indígenas analisadas apresentam todas as distinções aspectuais aqui tratadas, com destaque para a língua Katukina, que marca apenas os aspectos perfectivo, imperfectivo e durativo. Pelo menos é o que se pode dizer a partir dos dados, pois não há outras informações na descrição de Anjos (2011) sobre a existência de outros tipos aspectuais em Katukina. É uma situação diferente da que ocorre com Matis e Shanenawa, que apresentam todos os tipos de aspectos discutidos neste estudo. Além disso, a Tabela 4 mostra que há uma relação de implicação entre os tipos de aspectos, de forma que a presença de um tipo de aspecto, como o aspecto durativo, implica também a presença do aspecto perfectivo e a presença do aspecto imperfectivo, mas a presença do aspecto imperfectivo não implica, obrigatoriamente, a presença de qualquer outro tipo de aspecto, uma vez que pode existir alguma língua com apenas um tipo de aspecto.
A Tabela 4 indica que o aspecto prospectivo e o aspecto terminativo são os menos produtivos nas línguas da amostra, fato que os coloca como dois tipos aspectuais relativamente restritos quanto à manifestação nas línguas, ao passo que o aspecto perfectivo e o aspecto imperfectivo se colocam como os mais produtivos e extremamente propensos a ocorrerem nas línguas, tendo em vista o seu caráter mais genérico de qualificação.
A distribuição de tipos de aspecto, listada na Tabela 5, determina a seguinte hierarquia implicacional entre todos os tipos aspectuais verificados nas línguas sob análise, em que a presença de um tipo de aspecto pressupõe a existência de outros tipos de aspecto:


Com relação ao Tabela 5, podemos verificar, por exemplo, que os aspectos prospectivo e terminativo só ocorrerão nas línguas indígenas da amostra se os aspectos inceptivo, frustrativo, durativo, habitual, perfectivo e imperfectivo também estiverem presentes nas línguas; caso contrário, a ausência de um desses tipos aspectuais, como os aspectos perfectivo e imperfectivo, impossibilitaria a ocorrência dos demais tipos. É esse tipo de relação de implicação atinente à ocorrência dos tipos de aspecto que aponta para a existência de uma hierarquia implicacional de manifestação das noções aspectuais nas línguas indígenas analisadas. No Tabela 5, a menção à abreviação ‘vs’ indica que os tipos de aspectos que se encontram em um mesmo ponto da escala hierárquica mantêm entre si algum tipo de oposição funcional, ou seja, eles possuem um mesmo grau de impacto na escala implicativa, mas se opõem em termos funcionais, pois o aspecto durativo, a título de ilustração, indica uma ação em curso ou em desenvolvimento, enquanto o aspecto habitual indica a repetição de uma ação (evento) por um dado período de tempo. Nesse caso, há uma relação de oposição entre esses tipos de aspecto, mas ambos implicam, igualmente, a existência dos demais tipos aspectuais, como os aspectos perfectivo e imperfectivo.
A Tabela 6 exibe as configurações possíveis de marcação de aspecto - atestadas e não atestadas - nas línguas indígenas da amostra, previstas pela hierarquia implicacional apresentada no Tabela 4, que aponta os aspectos perfectivo e imperfectivo como macrotipos de aspecto, a partir dos quais os demais tipos aspectuais são subespecificados.
A Tabela 6 mostra que há línguas que apresentam todos os tipos de aspecto, como a língua Xerente, e outras que apresentam apenas três ou quatro tipos de aspecto, tais como Katukina e Ikpeng; no entanto, elas sempre mantêm uma relação de implicação no que se refere à ocorrência dos tipos de aspecto, a exemplo do que apresentamos em (6) e no Tabela 4. Mais especificamente, a Tabela 6 demonstra que dificilmente encontraremos línguas que apresentem os aspectos durativo, habitual, frustrativo, inceptivo, terminativo e prospectivo e não contenham os aspectos perfectivo e imperfectivo. Essa configuração, como se vê na Tabela 2, não é esperada e violaria a proposta de hierarquia elucidada por Hengeveld (2004). Os dados analisados comprovam a manutenção dessa hierarquia, tanto que não identificamos língua indígena alguma que apresentasse as três últimas configurações da tabela 6.
Em suma, pode-se verificar que a tabela 6 e a hierarquia implicacional expressa no Tabela 4 mostram que quanto mais casas são preenchidas à direita, mais difícil será encontrar línguas indígenas que apresentem tais configurações aspectuais, haja vista que o mais corriqueiro é encontrar línguas que apresentem quatro ou cinco tipos de aspecto (como perfectivo, imperfectivo, durativo, habitual e frustrativo). Tais configurações são, portanto, mais restritas ou pouco frequentes nas línguas. Já as configurações que se colocam mais à direita da tabela tendem a ser mais frequentes e produtivas nas línguas (pelo menos, na amostra analisada).

Considerações finais
O nosso objetivo foi analisar o aspecto nas línguas indígenas das famílias Aruak (Kinikinau), Jê (Parkatejê, Xerente e Xavante), Guató (Guató), Tupi-Guarani (Asurini), Boróro (Boróro), Karib (Ikpeng), Pano (Katukina, Matis e Shanenawa) e Ofayé (Ofayé), com base na perspectiva teórica tipológico-funcional da Gramática Discursivo-Funcional de Hengeveld e Mackenzie (2008), considerando-se o princípio de ordenação das categorias TAM com relação ao predicado verbal da oração, as relações semânticas de escopo entre tais categorias gramaticais e as suas formas de codificação morfossintática nas línguas indígenas sob estudo.
Vimos que, na literatura linguística, a categoria de aspecto é, em geral, definida como uma categoria não dêitica, ou seja, ela está mais associada à representação espacial do processo (Castilho, 2002). Em outras palavras, pode-se dizer que a categoria de aspecto é mais específica que a de tempo, que se define a partir do momento de fala, enquanto o aspecto está relacionado à frequência e ao modo como se processa uma ação.
Verificamos que as categorias TAM são categorias gramaticais que se organizam nas línguas de modo hierárquico, no sentido de que uma categoria está sob o escopo semântico de outra (Hengeveld e Mackenzie, 2008) e operam em diferentes camadas da GDF.
A exemplo dessas implicações, observamos ainda que os aspectos perfectivo e imperfectivo constituem macrotipos de aspectos, a partir dos quais as demais noções aspectuais são subespecificadas, mantendo-se entre elas uma relação de implicação.
Verificamos que tempo, aspecto e modo são categorias gramaticais que se organizam nas línguas de modo hierárquico, no sentido de que uma categoria está sob o escopo semântico de outra (Hengeveld e Mackenzie (2008) e operam em diferentes camadas da GDF. Constatamos que o aspecto qualitativo (perfectivo, imperfectivo etc.) tende a se colocar mais próximo do predicado verbal, por alterar o seu estatuto semântico, isto é, a constituição temporal interna do estado de coisas, ao passo que o aspecto quantitativo (habitual) e o tempo tendem a se posicionar um pouco mais distantes do predicado, por funcionarem como modificadores do estado de coisas como um todo. Já as noções de modo tendem a se colocar mais distantes do verbo, por não afetarem diretamente o seu estatuto semântico.
Em suma, foi possível comprovar, ainda que de forma parcial, pelo fato de as categorias TAM nem sempre serem descritas ao mesmo tempo em um mesmo contexto sintático, que a distribuição delas nas línguas analisadas tende a respeitar o princípio de ordenação e as relações de escopo entre tais categorias, conforme propõe Hengeveld (2011): (modo (tempo (aspecto (predicado+ argumentos) aspecto) tempo) modo).
Abreviaturas
CT = consoante temática; DECL = declarativo; IND = indicativo; DUR = durativo; ERG = ergativo; ABS = absolutivo; FUT = futuro; HAB = habitual; FRUST = frustrativo; IMPERF = imperfectivo; INCEP = inceptivo; N.PASS = não-passado; OBJ = objeto direto; PASS = passado; PL = plural; PERF = perfectivo; PRES = presente; PROSP = prospectivo; SG = singular; SUJ = sujeito; TERM = terminativo.
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Notas
Autor notes
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