Literatura

As Cartas Chilenas e as Cartas Marruecas: entre o apelo iluminista e a tradição ibérica

Cartas Chilenas and Cartas Marruecas: between the enlightenment appeal and the iberian tradition

Marcelo Fernando de Lima
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Brasil
Naira de Almeida Nascimento
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Brasil

As Cartas Chilenas e as Cartas Marruecas: entre o apelo iluminista e a tradição ibérica

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 39, núm. 3, pp. 291-301, 2017

Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 03 Abril 2016

Aprovação: 23 Novembro 2016

Resumo: Publicadas em volume somente em 1845, as Cartas chilenas circularam por meio de versões manuscritas em 1789, meses antes do episódio da Conjuração Mineira, que levaria Tomás Antônio Gonzaga primeiro à prisão e, anos depois, ao degredo em Moçambique. As Cartas Marruecas saíram no mesmo ano de 1789, ainda incompletas, no Correo de Madri, já postumamente, tendo seu autor, José de Cadalso, falecido durante o serviço militar em consequência de um bombardeio britânico no sul do seu país, em 1782. Ambos os textos participam de uma linhagem literária epistolar disseminada durante o século XVIII conhecida também como as Cartas pseudo-orientalizantes, que tem seu principal marco nas Cartas Persas, de Montesquieu. O artigo, seguindo o curso das leituras de ordem histórica atribuídas aos dois textos, procura perceber que, apesar da inspiração iluminista, tanto Cadalso como Gonzaga cederam às implicações socioculturais vivenciadas no espaço ibérico em finais do Antigo Regime.

Palavras-chave: Tomás Antônio Gonzaga, José de Cadalso, Iluminismo.

Abstract: Cartas Chilenas, published in book in 1845, was known by readers only in manuscripts in 1789, some months before the episode of Conjuração Mineira, which was the main reason for the incarceration of Thomás Antônio Gonzaga and his banishment to Mozambique. On the other hand, an incomplete version of Cartas Marruecas was published in 1789 in Correo de Madri, after the death of the author José de Cadalso, who passed away during his period in the Army, as a consequence of a British attack in the south of Spain in 1782. Both of the texts belong to an epistolary literary tradition, whose first important work was the Persian Letters, written by Montesquieu. By following the chronological order of both texts, the aim of this essay is to demonstrate that, despite their inspiration in the French Enlightenment, either Cadalso or Gonzaga were more influenced by social and cultural features experienced in the Iberian Peninsula at the end of the Old Regime.

Keywords: Tomás Antônio Gonzaga, José de Cadalso, Enlightenment.

Introdução

No bojo do apelo vivido pela temática das viagens e pela ascensão do gênero filosófico, floresce ao longo do século XVIII uma pródiga tradição literária epistolar a que se convencionalizou denominar de Cartas pseudo-orientalizantes. A tradução das Mil e uma noites por Antoine Galland, logo no início do século, que muito favoreceu a construção e a difusão do imaginário europeu acerca do Oriente, assim como a publicação do diário da viagem de Montaigne à Itália, em 1774, e das viagens de circunavegação de Louis Antoine de Bougainville (1767) e de James Cook (1769-1770) parecem ter estimulado, ao mesmo tempo em que propiciavam uma reflexão sobre a matéria, o gosto pelo desconhecido e pelo exótico. Com certeza, essa produção dialoga bem com o subgênero nascente epistolar, que deve a Montesquieu e às Cartas persas (1721) seu melhor paradigma. Embora o filósofo francês já se colocasse como um continuador da linhagem, provavelmente iniciada por Charles Dufresny, com Amusements sérieux et comiques d´un Siamois, em 1707, secundada ainda por Jean-Baptiste de Boyer, o marquês de Argens, em 1739, com As cartas chinesas, e, por último, com As cartas chinas[1], que adotaram o título definitivo de O cidadão do mundo (1762), do escritor inglês-irlandês Oliver Goldsmith.

Em comum, esses volumes têm por temática as simuladas viagens de seus protagonistas, em geral, neófitos viajantes orientais, por países europeus, denunciando a seus interlocutores radicados no país de origem a surpresa diante dos modus vivendi dos povos europeus. Trata-se, na verdade, de uma sátira que visa à crítica e à correção das instituições e dos hábitos nacionais, construída por uma pretensa visão externa, causando maior impacto e estranhamento ao leitor.

Tanto as Cartas Marruecas, obra do espanhol José de Cadalso, como as Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, participam dessa tradição. Tendo vindo a público no mesmo ano de 1789, antecedendo em poucos meses a Revolução Francesa, ambos os textos são influenciados pelo modelo epistolar satírico, compartilhando alguns pressupostos filosóficos da Ilustração, mas também criando um acento próprio que correspondia, em parte, aos desdobramentos históricos das nações ibéricas em finais do século XVIII.

José de Cadalso e as Cartas Marruecas

José de Cadalso y Vázquez nasceu em 1741 no sul da Espanha, na cidade litorânea de Cádiz. Pertencente à nobreza regional, torna-se órfão da mãe com dois anos e o pai, dedicado ao comércio ultramarino, só o conheceria 13 anos depois. A formação escolar deve-a ao tio jesuíta, completando-a, em seguida, no colégio da ordem, na cidade de Paris, dirigido então por um amigo de Voltaire. Após a estada na França, permanece dois anos na Inglaterra e retorna a Madrid mais uma vez sob os cuidados dos jesuítas, desta vez no Real Seminário dos Nobres. A feição cosmopolita que imprimirá a sua obra já se expressa no retorno:

[...] Entré en un país que era totalmente extraño para mí, aunque era mi patria. Lengua, costumbres, traje: todo era nuevo para un muchacho que había salido niño de España y volvía a ella con todo el desenfreno de un francés y toda la aspereza de un inglés (Cadalso apud Sebold, 2014, p. 20).

A fim de demover o filho da ideia de tornar-se jesuíta, o pai patrocina-lhe uma segunda viagem que, além dos países onde havia vivido, incluía a Alemanha, a Itália e os Países Baixos. O contato com as novas ideias por meio dos livros de Voltaire, Rousseau, Diderot, Bacon, Locke e Newton, dentre outros, mostrariam em breve sua fermentação. A morte repentina do pai deixa-o, contudo, quase na miséria. Com 21 anos ingressa no Regimento de Cavalaria como cadete até chegar a coronel, um mês antes de sua morte. Vale registrar, contudo, que o posto de capitão é conquistado pela aquisição de uma companhia com o que lhe restou da herança. Toma o hábito de Santiago poucos anos depois, após prévia pesquisa real acerca da origem fidalga de sua família.

Contando com alguns pontos próximos à biografia do neoclássico Basílio da Gama, nascido no mesmo ano que ele, Cadalso, também formado por jesuítas, se volta contra eles e se aproxima do governo de tendência iluminista do todo poderoso conde de Aranda, presidente do Conselho de Castilha. A repreensão, contudo, merecida pela sátira que escreveu parodiando elegantes damas da sociedade madrilenha leva a seu desterro na cidade de Zaragoza, estada proveitosa, segundo ele, para a leitura e a escrita. É provável que date dessa época a Defensa de la nación española contra la carta persiana LXXVIII de Montesquieu, um diálogo com o texto francês anterior à composição das Cartas Marruecas. Antes de retornar a Madri, serviu no quartel de uma, segundo ele mesmo, deprimente aldeia aragonesa. É Russell Sebold quem aponta a dialética que marcaria a vida de Cadalso:

[...] cuando está en Madrid o cuando enfoca la naturaleza desde el punto de vista de los madrileños, la añora con toda la sensibilidad de un Rousseau; pero cuando su carrera le obliga a rusticar durante un período prolongado, nuestro petimetre se horroriza de esa primitiva vida de aldea (Sebold, 2014, p. 27).

Recorde-se também o rendimento significativo alcançado pela dicotomia campo-cidade no gênero pastoril, reativado pela poesia neoclássica, assim como a exortação à vida simples, defendida pela vertente iluminista rousseauniana.

Sua vida em Madri alternou entre anos de extrema privação e os momentos que circulava entre a alta nobreza, como testemunha a troca de correspondência regular com a condessa de Osuna, no mesmo período em que Goya pintava quadros para ela. Dividido nos anos seguintes entre a capital e as aldeias onde presta serviço, Cadalso vem a morrer em consequência de uma ferida provocada por granada na defesa da cidade de Gibraltar, no extremo sul do país, sem ver publicadas as duas obras pelas quais demonstrava predileção: Noches lúgubres e Cartas Marruecas.

Em 1789, saem pelo Correo de Madrid as 50 cartas do total das 90 que compõem o conjunto das Cartas Marruecas. O livro só seria publicado, na íntegra, quatro anos mais tarde, em 1893. Ambas as iniciativas já não alcançaram o autor em vida, que teria requerido em 1774 uma licença para publicação de manuscrito de sua autoria, a qual se supõe corresponder àquela obra. Apesar de ser apontada pela crítica como uma das mais expressivas obras espanholas do séc. XVIII e de assinalar o início de uma temática fulcral naquela literatura, ou seja, o ‘tema de España’, que se fortaleceria anos mais tarde com José de Larra, com os regeneracionistas e, posteriormente, com a Geração de 98, não há registro da sua edição em língua portuguesa.

As Cartas Marruecas fazem parte daqueles textos que se distinguiram, sobretudo, por uma difusão oral e manuscrita, se considerarmos as variantes apógrafas que circularam na época. O trabalho de fixação do texto ainda é objeto de discussão, como comprovam os estudos de Emilio Martínez Mata (2015) e de Russell P. Sebold[2], por exemplo. Dentro desse quadro de circulação de que as cartas foram objeto, ressalta-se a forte contestação recebida pelo autor, particularmente, em razão de seu caráter combativo e crítico em relação ao país natal. Seguindo o modelo das cartas pseudo-orientalizantes do século XVIII, Cadalso elege Marrocos como o ponto de partida do jogo perspectivista que predomina nessa tradição literária. Tal como a opção pela Pérsia-Irã, pela Turquia ou pela China, nas obras antecedentes, busca-se criar um olhar sob a perspectiva estrangeira em relação às práticas culturais europeias. Não se trata apenas da construção de outro pelas fronteiras políticas, culturais e religiosas, mas também sobre quem prevalece uma impressão mistificadora e absolutamente estereotipada. No caso de Marrocos, verifica-se tudo isso, e ainda um pouco mais[3].

O substrato histórico do livro consistiu na viagem do embaixador do Marrocos Sidi Hamet al Ghazalli, conhecido como El Gazel, à Espanha, em 1766, ou seja, cerca de dez anos antes da escrita do texto. A nomeação do protagonista como Gazel corrobora a referência. O aproveitamento de um episódio diplomático que teria causado certa curiosidade nos círculos espanhóis da época transforma-se na proposta de Cadalso para compor uma obra nos moldes das Cartas persas, que, com segurança, era conhecida por ele. Diferentemente, contudo, da distante Pérsia buscada pelo imaginário francês de Montesquieu, o Marrocos se reveste de significados que perpassam a história espanhola com maior complexidade.

A fim de recordar esse histórico, é preciso que se atente também para a questão religiosa então em vigor na Espanha. Embora com feição distinta do que ocorrera no século XVI, a Inquisição vigora e se impõe na época da escrita e da publicação das cartas, sendo extinta no país apenas em 1834. Em virtude dos acontecimentos na França em 1789, verifica-se inclusive o seu recrudescimento em relação ao período anterior como forma de controle ideológico e repressivo à difusão de ideias libertárias.

Esse contexto de extrema violência, já superado na época pela Europa além dos Pirineus, retoma no espaço ibérico um passado entrelaçado às guerras cruzadísticas, que vigoraram desde o século XI com o objetivo inicial de libertar a Terra Santa da influência turca. A Inquisição, que tem seu epicentro na Espanha, surge como corolário de antigas disputas e ódios culturais como é o caso das cruzadas, que fixaram no elemento muçulmano seu principal adversário. As cruzadas nos países ibéricos são contemporâneas ao período da Reconquista. Tendo sido ocupada pelos muçulmanos no século VIII, quando esses derrotaram os povos visigodos, a Península Ibérica inicia o movimento de retomada das terras sob a liderança cristã, que só se completaria no século XV, com a conquista de Granada. A fatia que mais tempo esteve sob o jugo muçulmano, ou seja, a Andaluzia, terra natal de Cadalso, patenteia em sua arquitetura e nas demais vertentes da memória cultural os traços fortemente islâmicos. A ocupação conseguiu manter por muito tempo uma administração que convivia de forma pacífica com as demais culturas ibéricas, ao passo que os relatos da guerra santa incitavam contra a perversidade e o perfil diabólico do adversário religioso. A consolidação da Espanha, por meio da união dos reis católicos, Fernando e Isabel, também toma forma com a expulsão dos mouros.

Enfim, a história ibérica e, sobretudo, da Espanha está imbricada numa relação ambígua com esse outro muçulmano, que, no tempo da ocupação, era vinculada aos povos do norte da África, uma vez que a ocupação propriamente árabe era numericamente muito inferior. O outro personifica assim tanto o voraz inimigo das guerras das cruzadas como também o irmão, que dividia pacificamente com ele um espaço comum durante vários séculos.

A proximidade, todavia, não se apresenta apenas no passado. Numa leitura atual da obra, não se pode desprezar a presença política espanhola no norte da África até os dias de hoje, como é o caso de Ceuta e Melila, dois entraves no território marroquino, decorrente do período em que o país africano funcionou como Protetorado Espanhol, entre 1912 e 1956. As reivindicações marroquinas de integração das cidades autônomas vêm ainda esbarrando na resistência espanhola.

A retomada histórica serve para ilustrar como a escolha de Marrocos reverbera implicações ideológicas mais profundas que acabam criando outro dinamismo na leitura das Cartas Marruecas. Diferente também do estrangeiro exótico e distante da Pérsia de Montesquieu, o marroquino é para o espanhol uma figura muito mais viva e passível de reações ambíguas. Registram-se inclusive no tempo em que Cadalso viveu a ocorrência de cercos marroquinos em Ceuta. As palavras de Gazel na primeira carta reforçam a ideia: “Procuraré despojarme de muchas preocupaciones que tenemos los moros contra los cristianos, y particularmente contra los españoles.” (Cadalso, 2014, p. 154). Por fim, o próprio autor morreria em decorrência de ferimento sofrido em Gilbraltar, em face da África, numa iniciativa espanhola de recuperar o entrave da possessão britânica.

Toda essa complexidade é, contudo, amenizada pela introdução do texto, cujo narrador alega ironicamente a opção pelo país a norte da África em função da pouca disposição e da rara tradição das viagens entre os espanhóis: “Esta ficción no es tan natural en España, por ser menor el número de viajeros a quienes atribuir semejante obra. Sería increíble el título de Cartas persianas, turcas o chinesas, escritas de este lado de los Pirineos” (Cadalso, 2014, p. 144). Nesse ponto, inclusive, o autor aproveita o claro parentesco da obra com a tradição crítica epistolar para insinuar a condição singular dos países do sul da Europa e desde já para lançar suas estocadas aos costumes nacionais pouco afeitos ao trato com o exterior.

Valendo-se do expediente, presente já em Cervantes, do manuscrito caído nas mãos do editor, Cadalso introduz o conjunto composto por cartas trocadas entre o mouro Gazel Ben-Aly e seu amigo e mestre Ben-Beley acerca dos costumes espanhóis. As cartas são motivadas pelo estranhamento de Gazel diante das práticas desconhecidas em sua terra. O esclarecimento e os conselhos vêm por meio de Ben-Beley, residente no Marrocos, e de Nuño, um amigo espanhol que procura introduzir Gazel na sociedade espanhola.

A disposição do viajante é a de conhecer profundamente o país. Para isso o ajuda o saber livresco; estuda a história desde os primeiros povos, concluindo pelo seu caráter sangrento. Por meio dos livros e da experiência empírica, Gazel conclui o que vem a ser tônica da obra, ou seja, a reflexão sobre as causas da decadência espanhola. Dentre elas, contam-se os altos custos devido às guerras, às monarquias de Carlos V, Filipe II e da Casa de Austria, a política de emigração e o atraso nas Ciências. A ironia fica por conta de Gazel:

De esta relación inferirás, como yo: primero, que esta Península no ha gozado una paz que pueda llamarse tal en cerca de dos mil años, y que por consiguiente es maravilla que aún tengan hierba los campos y aguas sus fuentes [...]; segundo, que habiendo sido la religión motivo de tantas guerras contra los descendientes de Tarif, no es mucho que sea objeto de todas sus acciones; tercero, que la continuación de estar con las armas en la mano les haya hecho mirar con desprecio el comercio e industria mecánica; cuarto, que de esto mismo nazca lo mucho que cada noble en España se envanece de su nobleza; quinto, que los muchos caudales adquiridos rápidamente en las Indias distraen a muchos de cultivar las artes mecánicas en la Península y de aumentar su población (Cadalso, 2014, p. 160).

Apesar de preconizar reiteradamente o pensamento ilustrado em voga sobre o ‘homem de bem’, que se pauta pelo espírito imparcial e que se coloca acima das diferenças religiosas, sociais e culturais, o texto das cartas não deixa de incorrer na visão estereotipada do mouro, conforme atesta Maurizio Fabbri:

[...] Cadalso, quien se esforzó por quitarse de encima prejuicios y malentendidos de tipo cultural y racial, ha preferido volver a presentar la tópica imagen del moro propenso al énfasis, al ornato, emocional y exótico, un poco extravagante y extrovertido en sus manifestaciones, tal como de los romances había llegado al Setecientos (Fabbri, 2015, p. 128).

Também o nacionalismo acaba por trair o ideal cosmopolita, defendido pelo espírito iluminista. É a voz do soldado que se descortina nos ensinamentos de Nuño a Gazel quem sai em defesa da memória de Hernán Cortéz, acusado já na época por várias potências europeias pela violência utilizada nas colônias que conduziu à dizimação das populações nativas americanas. Nas várias páginas em que se alonga sobre o assunto, Nuño defende em Cortéz o papel de soldado e de súdito da coroa espanhola, representando, por sua bravura, o exemplo de herói por excelência. Por outro, denuncia a hipocrisia dos povos europeus que, disseminando um discurso libertário, viviam da escravidão africana:

[...] los pueblos que tanto vocean la crueldad de los españoles en América, son precisamente los mismos que van a las costas de África, compran animales racionales de ambos sexos a sus padres, hermanos, amigos o guerreros felices, sin más derecho que ser los compradores blancos y los compradores negros; los embarcan como brutos, los llevan millares de leguas desnudos, hambrientos y sedientos; los desembarcan en América; los venden en público mercado como jumentos [...] y con el producto de esta venta imprimen libros llenos de elegantes invectivas, retóricos insultos y elocuentes injurias contra Hernán Cortés por lo que hizo (Cadalso, 2014, p. 182).

Conforme sustenta Maurizio Fabbri, o modelo em curso nos países europeus não parece satisfazer a Cadalso, que retroage ao passado na busca dos rumos acertados para a nação espanhola:

Por lo tanto, aunque también manifieste admiración por naciones como Inglaterra y Francia y por sus seguros progresos en la ciencia y la técnica, Cadalso es de la opinión de que España tiene que buscar en sí misma la fuerza necesaria para renovarse y debe hallar en su historia los modelos con que compararse. Para Cadalso no parecen existir dudas sobre el ejemplo a seguir: es el que ofrece la España de los Reyes Católicos. En aquella época la institución monárquica gozó del mayor consenso; cultura y lengua se afianzaban en el mundo; la tensión espiritual y el amor por la patria eran muy elevados; las costumbres austeras; la economía floreciente y la propia nobleza era bien digna de sus blasones (Fabbri, 2015, p. 135).

O espírito nacionalista frente ao olhar das outras nações europeias já se havia denunciado quando a carta LXXVIII das Cartas persas motiva Cadalso a escrever uma contestação às ideias veiculadas em Montesquieu acerca do caráter espanhol. Os ibéricos, na opinião do narrador francês, aparentam gravidade, mas lhes falta profundidade; são orgulhosos de suas origens, sobretudo aqueles que se creem cristãos velhos; odeiam o trabalho, em especial as ocupações manuais; são passionais e ciumentos no amor, e bárbaros com seus semelhantes. Mas é em relação à cultura livresca que o ataque se mostra mais feroz: “Observa uma de suas bibliotecas, romances de um lado e os livros escolásticos de outro; dirias que as partes foram ordenadas e o conjunto organizado por algum inimigo secreto da razão humana” (Montesquieu, 1960, p. 188). Segundo o narrador, um livro apenas da literatura espanhola se salva: Dom Quixote, “[...] aquele que permitiu ver o ridículo de todos os outros.” (Montesquieu, 1960, p. 188).

Cadalso, por sua vez, procura reverter essa visão tendenciosa e limitada da cultura do seu país, mas é claro que toda essa disputa arranha a ideia de homem de bem, imparcial e cosmopolita, divulgado pelos pensadores ilustrados. Russell Sebold reconhece esse pendor nacionalista das Cartas Marruecas, mas também crê que as preocupações levantadas por Cadalso teriam eco nas gerações literárias dos séculos seguintes:

Las Cartas Marruecas son la confesión espontánea y contradictoria de un patriota y militar que ha fracasado al intentar servir a su patria en la calidad de crítico ilustrado. El sentimentalismo nacionalista de Cadalso ha vencido a su intelectualismo cosmopolita. Como crítico es un fracasado, pero sólo en el nivel de las reformas prácticas. Más cerca de nosotros la generación del 98 fracasó en el mismo sentido. Sin embargo, las Cartas Marruecas son un enorme éxito como documento humano, y por sus formas expresivas, por su manera de enfrentarse con el famoso problema de España, por su cálido atractivo para el lector, se anticipan a los ensayos de Mariano José de Larra, Joaquín Costa, Ángel Ganivet y Miguel de Unamuno (Sebold, 2014, p. 58).

Buscando uma síntese, Francisco Javier Rodríguez Barranco resume o período vivido por Cadalso em meio às contradições políticas e culturais que vigoravam na Espanha para entender as dissonâncias das cartas, que é forçoso admitir, deram azo a interpretações bastante variadas:

Hijo de su tiempo, dentro de un siglo que busca su propia identidad, encajonado entre los epígonos del barroco y los arrebatos del romanticismo, a caballo entre el absolutismo y las grandes revoluciones de la modernidad (independencia de los Estados Unidos de América, Revolución Francesa, emancipación de las colonias españolas), que permitieron a grandes extensiones del planeta evolucionar desde el poder omnímodo del monarca hasta el parlamentarismo de la República, miembro, pues de una centuria marcada por el despotismo ilustrado, lo cual encierra en sí mismo una contradicción flagrante, José Cadalso (1741-1782) fue una persona intrínsecamente contradictoria, lo que nos permite justificar el título de este ensayo y de este epígrafe, y probablemente la mayor de las contradicciones fue su empeño en mantenerse como un militar ilustrado, porque si bien la lanza nunca empañó la pluma, en opinión de don Quijote, como es sobradamente conocido, lo cierto es que las Fuerzas Armadas españolas, con algunas excepciones, por supuesto, no se han caracterizado precisamente por su amor al saber (Barranco, 2013, p. 2).

Tomás Antônio Gonzaga e As Cartas Chilenas

Mais conhecido do público brasileiro, Tomás Antônio Gonzaga é rememorado, sobretudo, pela obra Marília de Dirceu, que, de acordo com uma acepção bastante difundida pelo público, teria como fonte de inspiração a história amorosa vivida pelo autor com Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, sua noiva na época em que foi detido em virtude da participação no episódio histórico da Conjuração Mineira, transformando-se assim no Romeu e Julieta nacional.

Nascido três anos após José de Cadalso, em 1744, no norte de Portugal, tem em comum com ele a orfandade materna precoce. A formação junto aos jesuítas, no caso de Gonzaga, na Bahia, também aproxima os escritores. A morte da mãe provoca a mudança juntamente com o pai, magistrado brasileiro, para a colônia; primeiro para Pernambuco, depois, para a Bahia. Em 1761, retorna a Portugal para seguir o curso de Direito, em Coimbra. Já diplomado, escreve o Tratado de Direito Natural, uma peça que, segundo seus críticos, transita entre as doutrinas jusnaturalistas modernas e o desejo de atender às prerrogativas portuguesas do Despotismo Esclarecido, da centralização pombalina (Grinberg, 1997). A composição do tratado atenderia à pretensão de Gonzaga de disputar uma vaga como lente da Universidade de Coimbra. Com a Viradeira, contudo, que destronaria o Marquês de Pombal, Gonzaga opta pela magistratura, tendo exercido o cargo de juiz de fora na região lusitana do Alentejo; após, nomeado, em 1782, para a função de Ouvidor dos Defuntos e Ausentes, na cidade brasileira de Vila Rica. Ao ser desvelada a Conjuração Mineira, em 1789, o poeta fica detido por três anos na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, quando sua pena de morte é comutada para exílio em Moçambique, colônia portuguesa na época, onde reconstrói a vida enquanto advogado, ao lado da filha de um comerciante escravista, sobrevivendo até cerca de 1810.

Até o estudo conclusivo de Rodrigues Lapa, em 1958, a discussão sobre a autoria das Cartas chilenas esteve envolta em polêmicas e incertezas. Como ocorrido com as Cartas Marruecas, verifica-se, tendo em conta o número de apógrafos existentes, uma significativa circulação do material entre o público local anterior à saída em volume, o que só aconteceria, ainda que de maneira incompleta, em 1845. De qualquer forma, é sabido que o texto foi difundido em 1789, meses antes da Conjuração Mineira[4], figurando como uma clara sátira ao governador das Minas Gerais, por meio do personagem Fanfarão Minésio.

Também o sentido ideológico do texto constituiu matéria de disputas entre variadas leituras, alternando entre as interpretações românticas e positivistas que, popularmente, dominam até nossos dias. Se à mirada romântica interessava ler os acontecimentos de 1789 como um grito revolucionário dos inconfidentes e, por consequência, as Cartas Chilenas no bojo das reações antilusitanas, a perspectiva positivista acentuou o caráter satírico do texto como uma denúncia fiel do contexto social e dos desmandos do governador Cunha Meneses.

Opondo-se a essas vertentes, destacam-se importantes estudos que atentam para o caráter conservador das posições defendidas na voz de Critilo, o narrador das cartas. Dentre eles, contam-se os trabalhos de Ronald Polito e de Joaci Furtado. A contrapor-se ao herói de corte romântico, Tomás Antônio Gonzaga surge como a voz defensora dos valores nobiliárquicos frente à permissividade com que Menezes conduzia o governo de Vila Rica. Já Rodrigues Lapa aludia, na década de 50, para o conflito de base entre a toga e a espada como a possível causa para o ataque nas cartas (Lapa, 1958, p. 177-200). É Joaci Furtado quem atenta para os intrincados domínios que envolviam a leitura do texto:

[...] desde 1845 até 1989, ela [recepção das Cartas Chilenas] teve de se haver com duas biografias: a do satirista e a da nação brasileira. A primeira porque é na trajetória pessoal sobretudo de Gonzaga – mas também na de Cláudio ou Alvarenga, entre outros candidatos à sua autoria – que se buscou encaixar a obra contra Fanfarrão Minésio, como se entre a vida do autor e o conteúdo da sátira houvesse relação necessária, direta e indissolúvel, em que é possível resgatar não só os menores movimentos cotidianos do escritor como a mais profunda intimidade de seu caráter. A biografia da nação é o segundo e não menos importante contexto que a sátira refletiria, pois esta se constituiria num dos lances da Inconfidência Mineira – cujos motivos, princípios, anseios ou manobras estariam registrados nos versos de Critilo (este mesmo muitas vezes tido como conjurado). (Furtado, 1997, p. 213-214).

Apesar de ter vivido em Portugal até 1782, é provável que Gonzaga não tivesse conhecimento das Cartas Marruecas, que, apesar de concluídas, segundo algumas fontes críticas, em 1774, só saíram no Correo de Madrid em 1789, ano fatídico para o conjurado. Quanto ao volume, publicado em 1793, encontraria o poeta já em terras moçambicanas.

Ainda que conte com bases luso-brasileiras, as relações das Cartas chilenas com a terra e a cultura espanhola são evidentes. Do ponto de vista ficcional, é na Espanha que se encontra Doroteu, o destinatário das cartas de Critilo, também ele natural do país. A própria inspiração do nome do autor das cartas, Critilo, aponta para um marco do barroco espanhol, El Criticón, de Baltasar Gracián[5], que circulou em Portugal numa edição em língua portuguesa. Segundo João de Castro Osório, a razão da escolha deve residir nos desdobramentos do personagem:

Critilo é o sábio, o prudente, o culto, o varão ‘muito pessoa’ de todo o ‘Críticon’ [sic], e é também, como aparece no princípio, o perseguido pela autoridade discricionária de um governo colonial e de quantos o rodeiam e incensam a sua soberba e tirania (Osório apud Furtado, 1997, p. 165, grifos do autor).

Outro elo verificável é a presença cervantina. Alexandre Eulálio alude inclusive à cadeia de significados estabelecida entre “[...] Quixote-Salamanca-a nossa Chile [...]”, a prolongar a fictícia hispanidade do texto (Eulalio, 1983, p. 22). O certo é que o personagem de Cervantes constitui referência modelar tanto no texto de Cadalso como de Gonzaga. Além desses, as Cartas chilenas fazem ainda referência às bodas do futuro rei D. João VI com a infanta espanhola Carlota Joaquina, numa união das casas ibéricas.

Se não se pode falar num mútuo conhecimento dos textos, bastante contemporâneos, a base comum de ambos, ou seja, as Cartas persas, é clara no caso de Cadalso e bem plausível no caso de Gonzaga[6], que, assim como os mineiros árcades, tinha contato com a obra dos enciclopedistas e até possuíam volumes deles em suas bibliotecas. Além do modelo formal, Gonzaga compartilhava com Montesquieu a função de magistrado, que possibilitava a ambos a visão dos interstícios do sistema judicial.

Distinguindo-se, porém, tanto do texto do francês como do espanhol, o formato elegido por Gonzaga é dos poemas decassílabos brancos e não da prosa didática, como ocorre nos demais. É ainda Donaldo Schuler quem recorda o prestígio do verso numa época que ainda lutava contra o preconceito da prosa (Schuler, 2001, p. 231). É de supor que isso fosse ainda mais evidente na condição periférica da colônia brasileira, tendo também em vista as principais produções literárias do século XVIII no país, tais como os épicos O Uruguai, Caramuru e Vila Rica.

As críticas que, em Cadalso, são normalmente dirigidas aos costumes espanhóis, aqui tomam corpo no ataque mais direto a uma personagem, Fanfarrão Minésio, e a seus acólitos. Critilo narra ao amigo Doroteu, residente na Espanha, as peripécias vistas e vividas em sua viagem por terras chilenas. Nele predomina, como ocorre no modelo satírico analisado, o caráter disforme do personagem, ‘pintado’ por Critilo:

Tem pesado semblante, a cor é baça,

O corpo de estatura um tanto esbelta,

Feições compridas, e olhadura feia,

Tem grossas sobrancelhas, testa curta,

Nariz direito, e grande; fala pouco

Em rouco baixo som de mau falsete;

Sem ser velho, já tem cabelo ruço;

E cobre este defeito, e fria calva

À força do polvilho, que lhe deita

Ainda me parece, que o estou vendo

No gordo rocinante escarranchado!

As longas calças pelo embigo atadas,

Amarelo colete, e sobre tudo

Vestida uma vermelha, e justa farda:

De cada bolso da fardeta pendem

Listradas pontas de dois brancos lenços;

Na cabeça vazia se atravessa

Um chapéu desmarcado; nem sei, como

Sustenta a pobre só do laço o peso.

(Gonzaga, 1995, p. 52-53).

A descrição segue após uma ambientação que tende a provocar os domínios do fantástico. Apesar de assegurar a Doroteu a veracidade de sua história, opondo-se à matéria de sonho e de delírio conotada à “[...] novela” (Gonzaga, 1995, p. 52), Critilo evoca um clima semelhante àquele experimentado diante dos primeiros cronistas das viagens ultramarinas, em que “[...] barbados monos [...]” servem às mesas, grandes peixes suspendem navios com suas barbatanas, incultos gentios de beiços furados ou ainda de pais assassinados por seus filhos (Gonzaga, 1995, p. 51), talvez na tentativa de construir no leitor a impressão de estranheza diante da distante e incivilizada terra.

O modelo exemplar de governo a que alude Critilo parece ter lugar a muitas léguas dali, precisamente em solo europeu:

São estes, louco Chefe, os sãos exemplos, / Que na Europa te dão os homens grandes? / Os mesmos Reis não honram aos Vassalos? / Deixam de ser por isso uns bons Monarcas? (Gonzaga, 1995, p. 63),

ao passo que o reino do Chile mais se aproxima do ambiente rústico dos primeiros habitantes:

Ajuntavam-se os Grandes desta terra / À noite em casa do benigno Chefe, / Que o Governo largou. Aqui alegres / Com ele se entretinham largas horas: / Depostos os melindres da grandeza, / Fazia a humanidade os seus deveres / No jogo, e na conversa deleitosa (Gonzaga, 1995, p. 59).

Contudo, assim como já se apresentava em Marília de Dirceu, e de resto em toda a produção árcade, a ‘aurea mediocritas’ marca seu lugar (“E colchas matizadas não se encontram / Na casa mal provida de um Poeta” [Gonzaga, 1995, p. 66]), valendo-se de uma lógica oposição ao luxo desnecessário e desprezível, que caracteriza a vida de Fanfarrão Minésio, não somente como crítica à vida desbaratada do governante, mas como afirmação de um dos critérios da escola de época.

A tônica das cartas recai nos desmandos e arbitrariedades do antagonista. Inábil, corrupto, tirano, vingativo, enfim, ao chefe do governo nada é poupado na pena de Critilo. A construção da cadeia, que, segundo ele, se justifica apenas para encarcerar escravos fugidos (Gonzaga, 1989, p. 86), constitui a obra apoteótica de Fanfarrão. Para sua administração é convocado o Tenente, outro personagem que surge sob as tintas do modelo satírico da distorção:

É de marca maior que a mediana, / Mas não passa a gigante, tem uns ombros / Que o pescoço algum tanto lhe sufocam. / O seu cachaço é gordo, o ventre inchado, / A cara circular, os olhos fundos, / De gênio soberbão, grosseiro trato, / Assopra de contínuo e fala muito (Gonzaga, 1989, p. 98).

Se a crítica serve à correção moral, o modelo impresso pelo texto, assim como no caso de Cadalso, está no passado luso-brasileiro. Para Joaci Furtado, se o ataque e a exigência de governadores virtuosos pressupõe uma filiação de Gonzaga à crítica reformista do Estado absolutista português, iniciada com Antônio Vieira e que culmina com Verney e Pombal, “[...]os referenciais teóricos do poeta situam-se no passado”, revelando uma nostalgia de fundo pessimista (Furtado, 1997, p. 77).

Ao lado dos traços herdados do espírito iluminista, como também daqueles remanescentes da poética clássica, afiguram-se dados que enformam um discurso bastante conservador, se levarmos em conta o contexto de ordem mais libertária que subjaz à tradição da prosa epistolar da época. Atrás do verniz da ilustração, a fala de Critilo pressupõe a manutenção do status quo, debilitado apenas pela ingenuidade do monarca em nomear um representante que não está a sua altura. As cartas não questionam os princípios políticos nem os religiosos, como acontece, por exemplo, com As cartas persas, de base anticlerical, cuja edição ocorre anonimamente em Amsterdã a fim de fugir à perseguição política que se justificaria pelos ataques no texto. Assim, para Ronald Polito:

[...] não é possível desconsiderar o abismo que separa as proposições absolutistas que garantem os princípios racionais de conhecimento da realidade social e política, daquelas que invalidam esses mesmos princípios, como é o pensamento de Gonzaga, fundando a sociedade e a política num pressuposto estritamente teológico (Polito apud Furtado, 1997, p. 81).

Ainda que Rodrigues Lapa evidencie um desprezo por vezes nas cartas em relação a figuras religiosas, acaba por concluir também em favor do caráter devoto de seu autor: “[...] o autor das Cartas Chilenas encarava superiormente as coisas da religião, que por vezes – ele o acentua – servia de capa aos perversos” (Lapa, 1958, p. 24).

Matildes Demétrio dos Santos caminha em sentido próximo a Furtado e Polito, ao afirmar que:

Atado à coroa ultramarina, o Brasil setecentista vivia o regime do padroado. Antônio Gonzaga denuncia, com furor, a tirania do governador nomeado e satiriza, sem piedade, os atos ostensivos da ‘brejeira família do palácio’, mas não golpeia a estrutura governamental imposta pela metrópole colonialista. Publicamente, rejeita os privilégios fundados na casta e no nascimento e aponta para uma ordem politicamente justa para todos os homens de bem, pedindo apenas a atenção do monarca na escolha dos futuros dignatários que deveriam ser leais e obedientes (Santos, 1999, p. 94, grifos do autor).

Considerações finais

Claramente influenciadas pelo modelo das cartas pseudo-orientalizantes, as Cartas Marruecas e as Cartas chilenas acabam por se conformarem aos apelos das culturas ibéricas, e incorporam elementos alheios, por exemplo, às Cartas persas, tais como a defesa do catolicismo e do absolutismo político.

As Cartas Marruecas atestam tal influência não apenas pela estrutura geral, mas também pelo diálogo estabelecido entre os diferentes remetentes, responsável pela construção de um perspectivismo tido como uma das principais inovações do sub-gênero. Na leitura de Sebold, contudo, tal perspectivismo perde seu espaço face à forte identificação de uma voz autoral com a personagem de Nuño, considerado por parte da crítica como um alterego de Cadalso.

Nuño no es meramente portavoz de Cadalso. Nuño es todo lo que significa el término alter ego que he usado […] Leyendo las Cartas Marruecas, ningún lector que conozca la vida de Cadalso dejará de sentirse en la magnética compañía de su autor (Cadalso, 2014, p. 53).

Opinião compartilhada por John Hughes, ainda que por outras vias:

De ninguna manera semeja Nuño un imparcial ‘hombre de bien’. Parece más bien un español patriota ocupado siempre en preparar obras destinadas a ‘perpetuar la memoria de los héroes’, como su ‘historia heroica’, o a ‘corregir las costumbres de nuestros contemporáneos’ [...] (Hughes, 1969, p. 33, grifos do autor).

Os princípios iluministas parecem por vezes contestados até mesmo pelo viajante Gazel:

¿Qué se han hecho esas ventajas tan jactadas por ti y por tus semejantes? Concédote cierta ilustración aparente que ha despojado a nuestro siglo de la austeridad y rigor de los pasados; pero ¿sabes de qué sirve esta mutación, este oropel que brilla en toda Europa y deslumbra a los menos cuerdos? Creo firmemente que no sirve más que de confundir el orden respectivo, establecido para el bien de cada estado particular (Cadalso, 2014, p. 162).

Para Francisco Javier Rodríguez Barranco, o que se divisa em Cadalso é a ambiguidade resultante da sua educação e da história pessoal numa época de reformas profundas:

[...] las Cartas Marruecas más que ‘ambiguas’ son, utilizando un término grato a Cadalso, ‘problemáticas’ en el sentido de que reflejan el pensamiento de un hombre turbado hasta lo más profundo de su ánimo por inquietudes de orden moral, político y cultural; que advierte tal vez con mayor intensidad que otros contemporáneos suyos, la decadencia de una época a la que está ligado por educación e historia personal; que ve consumirse antiguos y básicos valores -como por ejemplo la cultura cristiana y tradicional- sin ser definitivamente reemplazados por otros; que es consciente de las aportaciones positivas de las nuevas filosofías, pero suficientemente escéptico para no creerlas resolutivas y que, finalmente, observa el mundo circundante, afectado ya por vastos cambios ideológicos y sociales y ya en fase pre-revolucionaria, a través de la lente de la moralidad y del raciocinio teñido de pesimismo, buscando por cualquier parte, como redivivo Diógenes, virtud, amistad, bondad, verdad (Fabbri, 2015, p. 139, grifos do autor).

John Hughes é ainda mais radical em sua leitura. Para o crítico, Cadalso nada tinha de ilustrado e a história que pretende escrever não é a satírica, mas a trágica, da qual ele mesmo seria o herói. A análise prende-se aos modelos utilizados por Cadalso que, na aparência, são aparentados ao século das luzes, mas que, no fundo, revelam a narrativa de um homem de armas pronto a se oferecer por sua pátria. O crítico hispanista atenta ainda que a temática que poderia causar maior resistência ao público espanhol, como o harém existente nas Cartas persas, é banido nas Cartas Marruecas (Hughes, 1969, p. 77). O assunto serve, contudo, para que o narrador critique o tipo conquistador nacional e os costumes, em que a poligamia, apesar de moralmente prescrita, é seguida por muitos:

[...] yo, sin ser moro ni tener serrallo, ni aguantar los quebraderos de cabeza que acarrea el gobierno de tantas hembras, puedo jurarte que entre las que me llevo de asalto, las que desean capitular, y las que se me entregan sin auantar sitio, salgo a outras tantas por día como tú tienes por toda tu vida entera y verdadera (Cadalso, 2014, p. 190).

Também nas Cartas chilenas, apesar das influências do pensamento iluminista, o saldo mais claro fica por conta da reivindicação da ordem tradicional. Algumas leituras insistem até mesmo na ideia de que o ataque de Critilo visa ao descrédito causado pelo empoderamento de uma classe que contraria os interesses da antiga fidalguia e dos valores estabelecidos. Conforme atenta ainda Matildes Santos:

A tendência do intelectual ilustrado é a identificação com o tipo considerado ideal pela elite ideológica da Ilustração: o homem de alma nobre, culto; educado e sábio. Os outros homens, a arraia-miúda, são descritos com grosseria, sem nenhum respeito, desprezíveis como os insetos repelentes e aves de rapina [...] (Santos, 1999, p. 95).

Mesmo o Tratado do direito Natural, escrito sob a influência dos novos ares revolucionários, conclui pela defesa do poder conservador. Segundo a análise empreendida por Keila Grinberg: “Manter o funcionamento da sociedade baseado em Deus e no poder divino do monarca; este era o propósito, neste livro, do futuro inconfidente Tomás Antonio Gonzaga” (Grinberg, 1997, p. 47).

Há de se considerar, contudo, o lapso temporal de cerca de 15 anos entre a composição do tratado e das cartas, assim como o gênero diferenciado. Ao que indica a biografia do poeta, o tratado foi inicialmente escrito para atender aos requisitos do concurso para lente na Universidade de Coimbra, onde havia estudado anteriormente, evidenciando, portanto, razões pragmáticas. Guinberg defende inclusive a pretensão do bacharel nessa época em se lançar como o autor do primeiro livro contendo disposições sobre a matéria em língua portuguesa (Grinberg, 1997, p. 43). Contudo, a aproximação justifica como forma de evidenciar o discurso do ‘homem da lei’, que já naquele caso, adaptava as discussões em voga para prestar melhor defesa do discurso centralizador, num texto dedicado ao Marquês de Pombal.

A conclusão, a que se chega é que, se o direito natural assume em toda a Europa nos séculos XVII e XVIII uma função renovadora e revolucionária, em Portugal de fins do século XVIII ele é utilizado por Tomás Antonio Gonzaga como elemento de conservação do poder real (Guinberg, 1997, p. 57).

Paiva e Queiroz vão mais adiante quando, após uma abordagem histórica das Cartas Chilenas, contextualizam os pressupostos defendidos pelos inconfidentes:

Valorizando o bom uso, criticando o descrédito ao formalismo por parte dos ‘Donos do poder’, reafirmando os ideais da sociedade escravista, Critilo professava o ideal político reformista para restabelecer a ordem nas sociedades lusas, mas não subvertia a efígie do soberano. [...] Com base no formalismo dos letrados mineiros a Conjuração Mineira não seria um movimento separatista, pois visava a instauração de uma res publica – entendida como qualquer forma de governo – que restaurasse a ordem social e econômica para o progresso d’el Rey (Paiva & Queiroz, 2005, p. 632-633, grifos do autor).

Em suma, as leituras mais contemporâneas das Cartas chilenas vêm atentando, ao contrário do apelo revolucionário que se aderiu ao texto, para o seu caráter conservador, patente tanto no ataque aos segmentos menos nobres da sociedade mineira, como na nostalgia do passado enquanto a época de ‘ouro’, vertente reforçada pela leitura de seu Tratado do Direito Natural.

O estudo comparativo dos textos de Cadalso e Gonzaga, além de permitir uma aproximação a uma crítica que leve mais em conta o gênero literário satírico a que ambos se filiam[7], também possibilita considerar alguns condicionamentos históricos que tocaram de perto os países ibéricos e que parecem ter exercido sua influência no desvio programático em relação aos pressupostos iluministas pelos quais o movimento se tornou célebre. Além disso, a eleição de seus interlocutores, Marrocos, no caso de Cadalso, e Chile, no caso de Gonzaga, podem funcionar muito mais como elementos problematizadores, tendo em conta também as leituras contemporâneas, que propriamente estratégias narrativas em que se primava apenas pela evocação do locus distante e exótico.

É curioso que tanto as leituras críticas referentes às Cartas Marruecas como às Cartas chilenas atentem para um olhar predominante que se volta para o passado, revelando um desejo de restauração. Para Cadalso, o período dourado reporta-se ao século XVI, auge do domínio espanhol na expansão ultramarina e de grande influência na política espanhola, época pródiga também nas expressões culturais do barroco. Já no caso de Gonzaga, o ouro também tinge a representação literária, ainda que num plano mais literal. Vivia-se já a fase de decadência da exploração aurífera das Minas Gerais. Com ele, o poeta também evoca um mundo com regras claras que se diluía.

Talvez os escritores, em meio aos ventos próximos da Revolução, que colocariam abaixo as bases do Antigo Regime, pressentissem a irrupção de uma época pouco auspiciosa aos países ibéricos no concerto das nações.

Referências

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Cadalso, J. (2014). Las cartas marruecas y noches lúgubres. Madri, ES: Cátedra.

Eulalio, A. (1983). O pobre, porque é pobre, pague tudo. (Carta VIII, 255). In R. Schwarz (Org.), Os pobres na literatura brasileira (p. 21-25). São Paulo, SP: Brasiliense.

Fabbri, M. (2015). Don José Cadalso relator de las Cartas Marruecas. Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. Recuperado de http://www.cervantesvirtual.com/nd/ark:/59851/bmcgm855

Furtado, J. F. (1997). Uma república de leitores. História e memória na recepção das Cartas Chilenas (1845-1989). São Paulo, SP: Hucitec.

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Grinberg, K. (1997). Interpretação e direito natural: análise do tratado de direito natural de Tomás Antonio Gonzaga. Revista de História Regional, 2(1), 43-68.

Guaraldo, L. (2011). Delacroix no Marrocos e a inversão do exótico. Projeto História, 1(42), p. 95-109.

Hughes, J. B. (1969). José Cadalso y las Cartas Marruecas. Madri, ES: Tecnos.

Lapa, M. R. (1958). As Cartas Chilenas. Um problema histórico e filológico. Rio de Janeiro, RJ: Instituto Nacional do Livro.

Mata, E. M. (2015). El texto de Las cartas marruecas de José de Cadalso. In Actas del XIII Congreso de Asociación Internacional de Hispanistas (p. 28-39). Recuperado de http://cvc.cervantes.es/literatura/aih/pdf/13/aih_13_2_006.pdf

Montesquieu, B. (1960). Cartas persas (Mário Barreto, trad.). Belo Horizonte, MG: Livraria Itatiaia.

Paiva, A. T. & Queiroz, J. M. (2005). Viva o rei, morte ao mau governo: As Cartas Chilenas e a política reformista do império ultramarino português. In Anais do V Congresso de Letras da UNEC (p. 623-636). Caratinga, MG.

Pécora, A. (1999). Documentação histórica e literatura. Revista USP, 1(40), 150-157.

Santos, M. D. (1999). Literatura e história: Cartas persas e chilenas. Veredas. Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, 1(2), 85-96.

Schuler, D. (2001). Um lírico subserviente. In Na conquista do Brasil (p. 223-228). São Paulo, SP: Ateliê Editorial.

Sebold, R. P. (2014). Introdução. In J. Cadalso. Cartas Marruecas y noches lúgubres (11a ed., p. 13-125). Madri, ES: Cátedra.

Notas

[1] O termo chinoiserie denomina no século XVIII essa tendência orientalizante nos países europeus que evidenciaria reflexos na literatura.
[2] Responsável pelos estudos críticos da edição utilizada nesse trabalho, pela Cátedra, de Madri.
[3] Participando de uma expedição diplomática ao país africano, o pintor Delacroix recorda a hostilidade vivenciada em seus passeios: “Sou escoltado, cada vez que saio, por um enorme bando de curiosos que não me poupam as injúrias de cachorro, de infiel, etc., que se empurram para acercar-se de mim e fazer um gesto de desprezo diante de meu próprio nariz. Você não pode imaginar ‘a gana de ver’ que eu tenho para se (sic) expor a todas essas misérias” (Guaraldo, 2011, p. 105, grifos do autor).
[4] Para Rodrigues Lapa, referindo-se ao ordenamento das cartas: “O certo é que esta vacilação na ordem dos seus elementos é mais uma prova de que as Cartas foram escritas e lançadas uma a uma, e o trabalho de recolha não se fez uniformemente, nem o próprio autor teve tempo para isso, por ter sido preso na altura em que se dedicava a essa tarefa, segundo os dizeres à margem da mesma Carta VII, no MS. B.” (Lapa, 1958, p. 109).
[5] Ordenado pela mesma companhia responsável pela formação de Cadalso e de Gonzaga, a Companhia de Jesus, Baltasar Gracián (1601-1658) teria influenciado Voltaire. Nessa obra, El criticón, o autor desenvolve uma alegoria da vida humana, por meio da dicotomia entre dois personagens: o ingênuo Andrenio, de temperamento impulsivo, e o experiente e prudente Critilo, ambos em busca da Felicidade-Felisina. Vale acrescentar a dívida do literato Cadalso con Gracián, no que respeita à visão pessimista do mundo e ao tema do desengano.
[6] Para Donaldo Schuler: “As Cartas chilenas aludem às Cartas Persas já no título. A estrutura narrativa reforça a alusão: desordens causadas pela ausência de quem governa; nas Cartas chilenas, o rei de Portugal.” (Schuler, 2001, p. 230). É certo que a relação só mais contemporaneamente é referida. Ela não se efetiva, por exemplo, no cuidadoso estudo de Rodrigues Lapa. Pode-se aventar que as leituras articuladas ao contexto histórico colonial e que prevaleceram nas diferentes vertentes prescindiram do vínculo. Ultimamente, contudo, parece haver uma preocupação no caminho solicitado por Alcir Pécora e na esteira do que já fizera João Adolfo Hansen em relação a Gregório de Matos e Guerra, ou seja, o de se atentar para o gênero da sátira no século XVIII. Nesse sentido, uma leitura atenta à tradição das obras epistolares do século XVIII com intenções corretivas pode ser recuperada.
[7] Alcir Pécora, em artigo sobre As cartas chilenas, aposta na necessidade do seu estudo enquanto peça do gênero epistolar satírico, defendendo nessa mirada não a refutação do histórico mas a sua inclusão de fato: “O que tem de convenção e artifício é exatamente o mesmo que tem de produto histórico; o que significa enquanto ato de criação implica objeto ou efeito criado, de tal modo que seu aspecto mais formal e interno é ainda designação da história.” (Pécora, 1999, p. 157).

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