Linguistica
O homem na linguagem: o entrelaçamento língua e cultura na aquisição da linguagem numa perspectiva enunciativa aquisicional
Man in the language: the intertwining language and culture in the acquisition language in enunciatively perspective acquisition
O homem na linguagem: o entrelaçamento língua e cultura na aquisição da linguagem numa perspectiva enunciativa aquisicional
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 39, núm. 4, pp. 381-386, 2017
Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 09 Maio 2016
Aprovação: 03 Junho 2016
Resumo: O tema central deste artigo é a vivência da tríade homem, linguagem e cultura manifestada na experiência de aquisição da linguagem pela criança. Para tanto, a discussão pauta-se em princípios advindos dos trabalhos de Émile Benveniste e filia-se a uma abordagem enunciativa aquisicional da linguagem da criança, a qual aponta para o fato de que a criança, em sua experiência de aquisição da linguagem, acessa valores culturais revelados no simbólico da língua e mobiliza-os sempre na dependência do aqui-agora por ela vivenciado em suas enunciações.
Palavras-chave: criança, valores culturais, valores simbólicos.
Abstract: man, language and culture manifested in the child's language acquisition experience. Therefore, the discussion agenda on the principles arising from Émile Benveniste’s work and is affiliated to an enunciatively acquisition approach to child language, and points to the fact that children in their language acquisition experience, access cultural values revealed in the symbolic language and mobilizes them always depending on the here and now for it experienced in their enunciations.
Keywords: children, cultural values, symbolic values.
Introdução
Neste artigo, temos o objetivo de refletir acerca da relação homem, linguagem e cultura manifestada na experiência de aquisição da linguagem vivida pela criança. Tal reflexão é derivada de pesquisas anteriormente realizadas (Diedrich, 2015)e apresentadas em nossa tese de doutorado[1]. Ao contrário do que fazemos na tese, não trazemos aqui análise de dados de fala da criança, uma vez que nosso propósito se volta, neste momento, aos princípios teóricos que fundamentam a relação proposta entre a tríade apresentada e a experiência da criança na linguagem. Fazemos isso a partir de princípios advindos da obra de Émile Benveniste, linguista que ficou conhecido pelos seus trabalhos na área da enunciação. Temos clareza de que Benveniste não se ocupou, em seus estudos, do tema da aquisição da linguagem; no entanto, os princípios por ele apresentados acerca da relação homem, linguagem e cultura iluminam nosso empenho pelo assunto da aquisição da linguagem. Nosso estudo é derivado, principalmente, do interesse e da agregação que temos em relação às pesquisas de Silva (2009), autora que tem se dedicado a investigar a linguagem da criança numa perspectiva enunciativa aquisicional. Assim, Silva (2009) destaca a relação de reciprocidade entre homem e sociedade, sendo a linguagem a mediação entre homem e sociedade, homem e cultura, homem e homem. A intersubjetividade é a condição necessária para a criança apreender a estrutura linguística e sociocultural, sendo a aquisição da linguagem vista num “[...] quadro de singularidade [...]” (Silva, 2009, p. 143), no qual está implicada a relação do sujeito com o ‘outro’ e com a língua a cada ato enunciativo.
A leitura atual da obra de Émile Benveniste, tanto na França como no Brasil, tem dado destaque à figura do ‘homem’, segundo o qual é possível afirmar que o trabalho do linguista vai além do estudo das marcas linguísticas, possibilitando entrever uma antropologia da linguagem. Dessons (2006), ao apresentar sua crítica à forma como o trabalho de Benveniste tem sido recebido por alguns pesquisadores na atualidade, afirma que, muitas vezes, ao abordar-se a obra benvenistiana, se reduz a teoria à análise das marcas formais da enunciação, ignorando-se a concepção original apresentada por Benveniste sobre as relações entre a linguagem e o homem.
Teixeira (2012) reconhece na obra benvenistiana a expressão da necessidade de reunir os conhecimentos sobre o homem numa mesma ciência, para a qual a linguística tem muito a contribuir. A partir dessa leitura da autora da obra do linguista, vemos a possibilidade de encontrarmos, nos princípios de Benveniste, base para discutirmos o conceito de homem a partir da sua experiência na linguagem. Detemo-nos, assim, no fato de que, na constituição da tríade homem-linguagem-cultura, encontramos o homem na vivência de experiências derivadas da apropriação da língua, nas quais a enunciação assume seu papel na experiência do homem na linguagem. Concebemos enunciação com base em uma das definições apresentadas na obra benvenistiana: “A enunciação é este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização” (Benveniste, 1970-1989, p. 82). Em nosso artigo, a enunciação é vista a partir dos conceitos de subjetividade e intersubjetividade, abordagem que coloca o homem na língua, ou seja, o locutor e sua relação com a língua tornam-se objeto de investigação.
A vivência da tríade homem-linguagem-cultura na experiência da criança na linguagem
Benveniste explora as concepções de língua, linguagem e cultura em praticamente toda a sua obra, contemplada nos dois volumes de Problemas de Linguística Geral, levando-nos a entender a relação entre essas concepções como uma das problemáticas apresentadas pelo linguista. Em nosso trabalho, os termos língua e linguagem são entendidos da seguinte forma: a língua é um sistema organizado em níveis e unidades, integrados pela forma e pelo sentido. O sistema da língua é interpretante dos demais sistemas semiológicos. Já a linguagem é constitutiva da natureza humana, tornando o homem único entre os animais. Por isso, não é um instrumento fabricado pelo homem, mas uma faculdade simbólica atrelada à função de significar. Sabemos que muitos outros conceitos marcam os textos do autor, mas nos concentraremos, inicialmente, nessa primeira problemática e procuraremos ver como ela se manifesta ao longo da obra benvenistiana, numa relação de complementaridade e continuidade do ponto de vista que sustenta a ideia de que o homem constitui-se na linguagem e de que, nessa constituição, língua e cultura encontram-se entrelaçadas.
Em publicação no Journal de Psychologie, em 1954, intitulada ‘Tendências recentes em linguística geral’, Benveniste (1954-2005, p. 13) discorre sobre o que a linguística tem feito e se pergunta: “Será possível destacar, no aparato da cultura, estruturas formais do tipo das que Lévi-Strauss introduziu nos sistemas de parentesco?” Numa referência ao trabalho Estruturas elementares de parentesco, do antropólogo Lévi-Strauss, o autor questiona-se acerca da possibilidade de trabalhar-se com estruturas formais no âmbito da cultura e, em seguida, afirma que esse é o problema do futuro. Com essa certeza, o autor vislumbra uma busca futura de compreensão dos processos de significação, tanto na língua como fora dela. Vê tais processos como resultantes de um funcionamento inconsciente, o que os aproxima das estruturas dos comportamentos. Entende, portanto, que psicólogos, sociólogos e linguistas associariam com vantagem os seus esforços numa pesquisa dessa natureza.
A afirmação do linguista nos motiva a olhar a linguagem no seio da vida social. E, para isso, o texto de 1954 é bastante direcionador, pois nele encontramos a crítica do linguista às aplicações da lógica simbólica na linguística, uma vez que, nessa aplicação, em geral, recusa-se a linguagem ‘ordinária’, considerada incerta e flutuante. Para Benveniste (1954-2005), trata-se justamente desta ‘linguagem ordinária’ o objeto de estudos da linguística. O autor destaca, ainda, o fato de a língua conter nela impressa a cultura, a qual, segundo ele, tem se revelado limitada aos estudos do léxico e que poderia e deveria ser melhor explorada. Afinal, a linguagem é um fato humano, uma vez que ela “[...] é, no homem, o ponto de interação da vida mental e da vida cultural e ao mesmo tempo o instrumento dessa interação” (Benveniste, 1954-2005, p. 17). A partir dessa relação, vislumbra outra linguística a estabelecer-se sobre o trinômio língua, cultura, personalidade. Sem dúvida, trata-se de um linguista com pensamento extremamente avançado para seu tempo, uma vez que hoje ainda estamos buscando essa linguística.
Para Benveniste, portanto, o papel do linguista deve dar conta da língua enquanto realidade humana. E essa realidade não é una, ela se constitui na vivência humana de um universo de realidades cindidas, marcado por hiatos, sendo que o primeiro deles diz respeito à relação entre natureza e cultura. Entendemos essa realidade da seguinte forma: o ser humano, ao nascer, vive sua primeira cisão: nasce na natureza, cumprindo uma função biológica, mas se constitui homem na cultura que o envolve, conforme depreendemos do seguinte raciocínio:
Chamo cultura ao ‘meio humano’, tudo o que, do outro lado do cumprimento das funções biológicas, dá à vida e à atividade humanas forma, sentido e contéudo. A cultura é inerente à sociedade dos homens, qualquer que seja o nível de civilização (Benveniste, 1963-2005, p. 31-32, grifo do autor).
A cultura, assim, é vista como inteiramente simbólica, definida por representações complexas determinadas por valores como tradição, religião, leis, política, ética, artes: “[...] tudo isso que o homem, onde quer que nasça, será impregnado no mais profundo da sua consciência, e que dirigirá o seu comportamento em todas as formas da sua atividade” (Benveniste, 1963-2005, p. 32). Entre o homem, a língua e a cultura há um vínculo que se mantém no simbolismo articulador entre essas entidades, uma vez que a linguagem “[...] manifesta e transmite [...]” a cultura e “[...] pela língua, o homem assimila a cultura, a perpetua ou a transforma” (Benveniste, 1963-2005, p. 32). Eis o entrelaçamento língua e cultura, constitutivo da inserção do homem na linguagem.
Acerca dessa relação, também em Comunicação animal e linguagem humana, Benveniste (1952-2005) traz questões capazes de iluminar a relação linguagem e cultura, uma vez que nos leva a entender que, pela intervenção de um aparelho vocal, a linguagem humana manifesta-se em voz, o que a diferencia de todas as demais expressões dos animais. A voz humana permite, portanto, a realização vocal da língua como um dos aspectos da enunciação, contribuindo, dessa forma, para a entrada do homem na cultura. Além disso, o diálogo é a condição da linguagem humana; em sua ocorrência, a referência à experiência objetiva e a reação à manifestação misturam-se livremente, na vida em sociedade. Vemos em Benveniste (1952-2005, p. 65) que “[...] o caráter da linguagem é o de propiciar um substituto da experiência que seja adequado para ser transmitido sem fim no tempo e no espaço, o que é típico do nosso simbolismo e o fundamento da tradição”. Por fundamento da tradição, alcançamos o homem na cultura, uma vez que a tradição é a história da cultura marcada na linguagem. E isso acontece no seio da sociedade, uma vez que a sociedade é a condição para a existência da linguagem.
Em texto de 1958, Da subjetividade na linguagem (1958-2005), o autor condena a comparação da linguagem com um instrumento, afirmando que tal comparação deve ser vista com desconfiança, uma vez que a ideia de instrumento opõe o homem e a natureza. Entretanto, a linguagem está na natureza do homem, que não a fabricou, ao contrário do que fez com instrumentos, como arco e flecha. Para o linguista, é ingênua a ideia de um período original na história do homem, no qual o homem encontraria outro homem e, assim, descobririam a linguagem. Trata-se, segundo o autor, de pura ficção, pois,
Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca inventando-a. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do outro. É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria definição do homem (Benveniste, 1958-2005, p. 285).
O homem, dessa forma, define-se pela linguagem, uma vez que “[...] é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como ‘sujeito’; porque só a linguagem fundamenta na realidade, na sua realidade que é a do ser, o conceito de ‘ego’” (Benveniste, 1958-2005, p. 286, grifo do autor). Portanto, toda existência humana se dá na cultura. E, aqui, encontra-se o princípio defendido quando nos voltamos para a questão do entrelaçamento língua e cultura: toda a existência do homem se dá na cultura, constitutiva e constituinte na e pela linguagem.
Em Estruturalismo e Linguística, Benveniste (1968b-1989) diz que o aprendizado de uma língua, por parte da criança, não é resultado de uma faculdade natural, pois, na verdade, o que uma criança aprende quando aprende uma língua é o ‘mundo dos homens’. E por mundo dos homens o linguista entende todos os dados que a linguagem traduz, e isso se dá no seio da cultura: quando o homem enuncia, o faz de forma a imprimir à sua língua valores culturais. Assim, “[...] o que a criança adquire, aprendendo, como se diz, a falar, é o mundo no qual ela vive na realidade, que a linguagem lhe dá e sobre o qual ela aprende a agir” (Benveniste, 1968b-1989, p. 24). Podemos dizer, então, com base nessa afirmação, que a linguagem dá à criança um mundo. Se temos convicção disso, assumimos mais um hiato vivido pelo homem: para assumir sua existência no mundo, ele precisa apreender esse mundo via linguagem. Para tanto, desloca-se na cultura, já que a apreensão de uma língua não é faculdade natural. E é nesse mundo dado que o homem aprenderá a agir, a partir do acesso garantido pela língua convertida em discurso. Conversão da língua em discurso funciona, para o homem, como espaço de passagem no universo marcado por hiatos: o universo da linguagem e da cultura.
Acerca do acesso ao mundo, via linguagem, encontramos raciocínios de Benveniste apresentados em 1963, no texto Vista d’olhos sobre o desenvolvimento da linguística, no qual afirma: “Aquele que fala faz renascer pelo seu discurso o acontecimento e a sua experiência do acontecimento. Aquele que o ouve apreende primeiro o discurso e através desse discurso, o acontecimento reproduzido” (Benveniste, 1963-2005, p. 26).
Eis aí para o autor a dupla função do ato de discurso: para o locutor, trata-se da representação da realidade; para o ouvinte, a recriação da realidade. Essa dupla função constitui a linguagem como fundamento da comunicação intersubjetiva. Têm-se indivíduo e sociedade como termos complementares, ou seja, graças à língua, a sociedade é possível e também o indivíduo, pois “O despertar da consciência na criança coincide sempre com a aprendizagem da linguagem, que a introduz pouco a pouco como indivíduo na sociedade” (Benveniste, 1963-2005, p. 27). Vemos aqui o aspecto vocal como elemento mediador entre aquele que fala e aquele que ouve. Nessa mediação, são mobilizados os valores culturais que a linguagem traduz, os quais são evocados na relação entre ‘eu’ e ‘tu’. É a intersubjetividade constitutiva da vocalização que permite aos homens fundamentarem-se na linguagem.
Esse fenômeno só se realiza por meio da faculdade de simbolizar, considerada inerente à condição humana. Pensar na linguagem implica, portanto, pensar na sua faculdade simbolizante no seio da sociedade. Em Estrutura da língua e estrutura da sociedade, Benveniste (1968a-1989) reafirma que não encontramos jamais linguagem separada de sociedade, apesar de essas entidades apresentarem estruturas diferentes. Nesse processo, a sociedade torna-se significante na e pela língua. Para tanto, a língua deve manter-se capaz de registrar, de designar e orientar as mudanças que caracterizam o interpretado, ou seja, a sociedade. Lembramos que, conforme Benveniste, a significância da língua se dá em relação a todos os demais sistemas significantes que constituem a cultura humana e que toda criança apreende, com a língua, os rudimentos da cultura.
É justamente a faculdade simbolizante que distingue o homem do animal e é a fonte comum do pensamento, da linguagem e da sociedade. Esse aparato simbólico possibilita a relação entre o homem e o mundo, entre os homens, estabelecendo-se, dessa forma, por meio da linguagem, a estrutura social:
[...] a linguagem se realiza sempre dentro de uma ‘língua’, de uma estrutura linguística definida e particular, inseparável de uma sociedade definida e particular. Língua e sociedade não se concebem uma sem a outra. Uma e outra são ‘dadas’. Mas também uma e outra são ‘aprendidas’ pelo ser humano, que não lhes possui o conhecimento inato (Benveniste, 1963-2005, p. 31, grifo do autor).
Com base nesse princípio, entendemos que há, portanto, uma experiência de aquisição da linguagem vivida pela criança, “[...] uma experiência que vai a par, na criança, com a formação do símbolo e a construção do objeto” (Benveniste, 1963-2005, p. 31). E, nessa formação, é reconhecido o papel do adulto, uma vez que é no mundo do adulto, na sociedade dos homens que a criança viverá sua experiência na linguagem.
Essa experiência é marcada pelo simbólico da linguagem, por meio do qual a cultura deixa seus traços impressos na língua, da qual cada homem se apropria para viver suas experiências de significação com outros via discurso. Por isso, a interpretação do sentido se dá sempre no seio de uma cultura, a partir dos traços reveladores de valores impressos na língua, os quais podemos resgatar a partir da observação dos diferentes empregos possíveis da língua e que revelam a relação da língua com os esquemas sociais, ou seja, relações entre sistema interpretante, a língua, e sistema interpretado, a cultura e seus esquemas sociais.
Essas relações levam a criança a ter consciência do meio social onde está mergulhada e o simbolismo moldará pouco a pouco, por intermédio da linguagem, o seu papel. A criança se desloca na cultura via linguagem, conforme vimos em Benveniste (1963-2005, p. 31, grifo do autor): “À medida que se torna capaz de operações intelectuais mais complexas, integra-se na ‘cultura’ que a rodeia”. Essa integração se constitui na tríade homem-linguagem-cultura, a qual permite que a criança viva a experiência da aquisição da linguagem, modificando sua relação com a língua e com o outro.
Relacionamos essa realidade ao que Flores e Surreaux (2012, p. 94) denominam de “[...] necessidade de falar à sua maneira [...]” a língua que se constitui como sua língua materna. Encontramos referência a essa questão também em Últimas Aulas no Collège de France, quando o linguista, referindo-se à relação existente entre fala e escrita, afirma:
O locutor deve tomar consciência de que, quando fala, coloca em ação uma ‘língua’ que o outro também possui e maneja; que cada um fala, mas que cada um, ao falar e ao falar diferentemente com uma voz diferente, entonações diferentes, circunstâncias diferentes, usa a mesma ‘língua’ (Benveniste, 2014, p. 130, grifo do autor).
Portanto, na ‘emissão’ e na ‘percepção’ do discurso do outro, a criança se apropria da língua e por essa apropriação sempre singular se historiciza na linguagem.
Essa singularidade da enunciação impõe ao discurso uma sintaxe enunciativa particular que afeta a língua como um todo e que nos faz olhar para a relação forma-sentido na sintagmatização do discurso, uma vez que todos os níveis linguísticos comparecem imbricados na enunciação.
Lembramos o raciocínio benvenistiano apresentado em Estruturalismo e linguística (1968b-1989, p. 20-21), segundo o qual a criança, ao aprender uma língua, aprende o mundo do homem: “A apropriação da linguagem pelo homem é a apropriação da linguagem pelo conjunto de dados que se considera que ela traduz.” Sendo assim, se objetivamos entender a apropriação da linguagem pela criança, precisamos explicitar o conjunto de dados que essa experiência traduz, os quais se confundem com a constituição do homem no meio cultural de que faz parte, caracterizado pelo conjunto de valores que se articulam e se dão a conhecer no simbólico da linguagem, realizando-se, assim, a tríade homem-linguagem-cultura. Esse princípio nos leva a refletir acerca da noção de ‘semantismo social’, conforme discorre Benveniste (1968a-1989) em Estrutura da língua e estrutura da sociedade. O autor, ao discutir as relações entre língua e sociedade, afirma que “[...] a língua interpreta a sociedade. A sociedade torna-se significante na e pela língua, a sociedade é o interpretado por excelência” (Benveniste, 1968a-1989, p. 98). A partir dessa ideia, entendemos que toda a organização da vida em sociedade, para ser compreendida, precisa do seu interpretante, que é a língua. Assim, o ‘semantismo social’ está relacionado aos valores culturais impressos na realização da língua na enunciação. Ao falar, portanto, o homem não apenas mobiliza formas e sentidos particulares explicitados na língua da qual se apropria, ele vai além, mobiliza valores sociais, capazes de revelar muito acerca da sua história construída no seio de uma sociedade e da experiência por ele vivida no mundo que o cerca.
O conceito de cultura está relacionado ao sistema de valores, uma vez que na experiência da criança na linguagem ela entra no mundo do outro, o mundo do adulto, sai da liberdade da pura natureza para experenciar os limites simbólicos da cultura que a cerca.
Ao se valer de determinados ‘arranjos’ em suas enunciações, o locutor marca sentidos que estão relacionados às suas emoções, às relações familiares, aos elementos de ordem social, por exemplo. Na relação com o outro, a criança está sempre mobilizando sentidos particulares que encontram eco na cultura que a cerca. Para isso, o simbólico da língua é o elemento que restringe a mobilização do vocal na enunciação pela criança: ela não apenas ‘brinca’ com a emissão fônica, mas se marca no discurso fazendo a passagem de locutor a sujeito.
Essa realidade é vivida pela criança desde que sua existência se confirma no mundo dos homens e a ela os adultos passam a se dirigir: a cada ato enunciativo, os valores culturais mencionados são revelados à criança e passam a constituir também a sua experiência na cultura. Ficam, portanto, questionamentos que movem nosso espírito investigativo e que certamente não serão respondidos aqui, mas que suscitam novas reflexões: Que rudimentos da cultura manifestam-se na experiência da linguagem da criança? De que forma atuam como ‘inculcação’ para o dizer da criança?
Considerações finais
Com esse percurso teórico, chegamos ao grande movimento de síntese que caracteriza a experiência da linguagem vivida pela criança como uma experiência de aquisição da linguagem: na experiência de aquisição da linguagem, a criança, por estar imersa em esquemas culturais, instaura-se, por meio da emissão e da percepção de arranjos linguísticos, no aparelho formal da língua, para se singularizar como sujeito da/na linguagem. Essa experiência revela o semantismo social incorporado ao vocal e evocado a cada relação de interpretância da língua em relação aos demais sistemas: a criança, portanto, ao mobilizar determinados ‘arranjos’ em sua enunciação, apropria-se do geral da língua com a cultura nela impressa para singularizar-se na linguagem. A aquisição da linguagem revela o movimento de ‘emissão’ e de ‘percepção’ de ‘arranjos’ mobilizados na enunciação e que, em integração com a cultura, possibilita a entrada da criança no mundo do homem. Essa integração só é possível em decorrência do simbolismo articulador que une homem-linguagem-cultura e que, via ‘arranjos da língua’, permite à criança estabelecer relações de interpretância entre a língua e os sistemas culturais que fazem parte de sua vida. Essas relações são estáveis, institucionalizadas na e pela sociedade; no entanto, ao se apropriar delas, a criança se singulariza e as particulariza, uma vez que estabelece sua própria maneira de mobilizá-las em seu discurso, revelando o nascimento do homem na cultura e sua passagem da natureza para o mundo do homem.
Nessa experiência, a criança acessa valores culturais revelados no simbólico da língua e mobiliza-os sempre na dependência do aqui-agora por ela vivenciado em suas enunciações, o que permite que ela, em sua historicidade, relacione-se de forma diferente com a língua e com o outro, revestindo suas enunciações de ‘arranjos’ particulares que a colocam em relação com os valores culturais por eles mobilizados. Esses valores, na particularização do discurso, são atualizados e revelam sempre um sujeito em constituição pelo seu próprio dizer. Essa é a grande experiência da criança na linguagem: a experiência da significação.
Referências
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Notas
Autor notes
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