Linguistica

A teoria do discurso no cenário linguístico: uma nova via para o embate interior x exterior nos estudos da linguagem

The theory of discourse in the linguistic scenario: a new route for the clash interior x exterior in the studies of the language

Daiany Bonácio
Universidade Estadual de Londrina, Brasil

A teoria do discurso no cenário linguístico: uma nova via para o embate interior x exterior nos estudos da linguagem

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 39, núm. 4, pp. 407-417, 2017

Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 29 Junho 2016

Aprovação: 13 Março 2017

Resumo: em qual ponto deve concentrar-se os estudos da linguagem? No que se passa no interior do sujeito, na sua capacidade de falar? Ou no que se passa no exterior, a manifestação do interior considerando o social? Tal impasse foi se estendendo ao longo dos estudos linguísticos realizados. Frente à realidade descrita, este artigo se propõe a discutir o impasse entre uma abordagem da linguagem focada na interioridade e outra focada na exterioridade, traçando um percurso pelos estudos da linguagem desde os clássicos, passando pela teoria materialista de Michel Pêcheux até chegar aos conceitos propostos pelo filósofo Michel Foucault, os quais serão utilizados para a realização de uma análise sob a perspectiva discursiva. A Análise do Discurso procura pensar a Linguística fora dessa questão do logicismo e do sociologismo: ela propõe que se olhe para o discurso, oferecendo outro campo de estudo para a linguagem.

Palavras-chave: logicismo, sociologismo, linguística, análise do discurso.

Abstract: the studies of the language should focus on what aspect? What is going on inside the subject, in his ability to speak? Or what goes on outside, the manifestation of the interior considering the social? This impasse was extending over the linguistic studies. Faced with the reality described, this article aimed to discuss the impasse between an approach to the language focused on interiority and another focused on the exteriority, tracing a route through language studies from the classics, through the materialist theory of Michel Pêcheux to reach concepts proposed by the philosopher Michel Foucault, which will be used for analysis from a discursive perspective. The Discourse Analysis tries to think Linguistic out of this issue of logicism and sociology: it proposes to look at the discourse, offering another field of study for the language.

Keywords: logicism, sociologism, linguistics, discourse analysis.

Introdução

A linguagem sempre despertou o interesse humano. Desde a antiguidade, foi algo discutido por sábios como Aristóteles, Platão, dentre outros. Os filósofos discorriam, por exemplo, sobre a relação entre os nomes e as coisas as quais eles nomeavam, se tal relação era natural ou convencional, na tentativa de explicitar o funcionamento da língua. Essas discussões trouxeram, como consequência, uma questão: em qual ponto deve concentrar-se os estudos da linguagem? No que se passa no interior do sujeito, na sua capacidade de falar? Ou no que se passa no exterior, a manifestação do interior levando em conta o social? Tal impasse foi se estendendo ao longo dos estudos linguísticos realizados.

Frente à realidade descrita, o presente artigo[1] se propõe a discutir o impasse entre uma abordagem da língua focada na interioridade e outra focada na exterioridade, traçando um percurso pelos estudos da linguagem desde os clássicos, passando pela teoria materialista de Michel Pêcheux até chegar aos conceitos propostos pelo filósofo Michel Foucault no tocante à análise discursiva. Pela natureza deste trabalho, artigo científico, reconhecemos que essa empreita de grande tamanho é levada a cabo de modo rápido: com base na obra A língua Inatingível, de Gadet e Pêcheux (2004), a discussão retoma pontos bastante importantes e que serão muito rapidamente explorados. Contudo, julgamos que é imperante trazer essa discussão à cena, mesmo que de forma sucinta. Para finalizar o artigo, propomos analisar a questão aqui exposta a partir das noções advindas do filósofo francês Michel Foucault. O estudioso e seus conceitos serão trazidos como forma de ilustrar a discussão ora proposta, a qual será tratada sob a perspectiva discursiva.

A discussão que permeia as teorias da linguagem: a metáfora interior x exterior

Saber se os estudos da linguagem devem concentrar-se no seu interior ou no seu exterior é uma discussão que permeia o campo das ciências humanas há muito tempo. A fim de compreender um pouco sobre como se chegou a essa questão, recorremos a Gadet e Pêcheux (2004) que, no livro A língua Inatingível, revelam os caminhos trilhados pela ciência linguística. Segundo os autores, não é possível encontrar um começo histórico assinalável para as reflexões sobre a linguagem. Os historiadores da linguagem buscavam, no tempo e no espaço, algumas polêmicas as quais tinham a língua como centro de debate. Assim, viu-se que, durante muitos séculos, duas controvérsias opuseram o aristotelismo à filosofia estóica. A primeira era constituída pelo duplo natureza/convenção. Os estóicos defendiam uma posição naturalista, a qual via na linguagem uma atividade natural que refletia a harmonia entre homem e natureza: as palavras eram vistas como imitações do mundo, reproduzindo-o por onomatopéias e recursos sonoros. A segunda controvérsia, de acordo com Gadet e Pêcheux (2004), referia-se aos adeptos do convencionalismo. Retomando os conceitos de Aristóteles[2], essa linha acreditava que a língua formava um sistema de códigos e era o produto de uma regularidade proporcional, a qual traduzia a existência de uma rede de princípios arquiteturais, de uma ordem interna de construção em sua maioria. O referido grupo era defensor da analogia.

E assim foi formada a trama histórica dos estudos sobre a língua: por um lado, havia os que entendiam princípio por lei, disposição na palavra por ordem, funcionamento na palavra por regra e sistema na palavra por código. Para Gadet e Pêcheux (2004), essa rede de relações internas caracteriza, em sua própria estrutura, o real próprio de toda língua. Por outro lado, destacam os autores, há os que traduziam lei por obrigação, ordem por mandamento, regra por regulamento e código por jurisdição. Estes concebiam a língua como um produto social precário de um estado de fato, resultante de uma longa série de decisões acumuladas.

Nesses caminhos trilhados pela Linguística até esse momento, Gadet e Pêcheux (2004) propalam que tal ciência se perde e perde de vista seu objetivo. Essa noção do real da língua trazida pelos autores inscreve-se nessas questões entre a noção de uma ordem própria da língua, imanente à estrutura de seus efeitos, e a de uma ordem exterior, a qual remete a uma dominação a conservar, a restabelecer ou a inverter. Para os que sustentam que a língua trabalha com a existência de uma ordem própria, assinalam os autores, o real da língua reside naquilo que nela faz Um, assegura no Mesmo e no Idêntico e a opõe a tudo o que da linguagem cai para fora dela. Esse estar ‘fora dela’, os antigos chamavam de barbarismo[3], que é o campo do interdito na linguagem, estruturalmente produzido pela língua, do interior dela mesma.

Entre o interdito e o impossível, o corpo de práticas formadas desde a pré-história da Linguística até a sua emergência científica encontra-se dividido: se a questão é apreender as variações que ocorrem foneticamente e graficamente na língua e interpretá-las como repercussão da vida social sobre ela, então o essencial da prática linguística é observar e descrever isso como sendo dados linguísticos recolocados em correlações para reconstruir a rede linguística. Esse é o chamado racionalismo-logicismo. Mas, se trata de observar na língua o efeito de uma causalidade estruturalmente autônoma, a prática linguística deverá configurar a teoria dessa estrutura, formular explicações desse vai e vem entre dados, fatos e teorias. Esse é o chamado sociologismo-empirismo. A respeito disso, Gadet e Pêcheux (2004) pontuam que essa dualidade está presente nas estruturas das teorias linguísticas e na história de seus confrontos. Surge, a partir disso, a metáfora: interior x exterior. Normand (2009, p. 135), a esse respeito, traz o que escreve Derrida (La mythologie blanche – 1972):

Essa metáfora funda toda a metafísica ocidental: o exterior é o visível, a manifestação de um interior escondido; aplicado à fala, o exterior é a expressão verbal de um pensamento, do que se passa no interior de um sujeito. Essa representação da subjetividade pela imagem de um interior não observável como tal, oposta à subjetividade da matéria externa e, por isso, observável, tem geralmente a força de uma evidência.

Ao enfocar essa discussão, Normand (2009) apregoa que as teorias da linguagem não escapam a essa evidência. Contudo, fazem um uso diverso dela, desse modo, vemos aparecer diferentes perspectivas acerca do assunto, na tentativa de resolver essa oposição.

Ao trazer os diferentes usos dessa oposição, Normand (2009) busca observar o verdadeiro alcance conceitual dessa metáfora, procurando ver em cada emprego o seu papel específico. Com o intuito de evidenciar o exposto, a autora cita o nome de três linguistas: Meillet, Saussure e Benveniste.

Na concepção de Antoine Meillet, traz Normand (2009), a Linguística justapõe o interno e o externo. Para explicitar o pensamento desse teórico, a referida linguista demonstra que, na virada do século XX (1905), as reflexões metodológicas referentes às ciências sociais eram afetadas pela oposição interior/exterior. Essa oposição respondia à preocupação de definir as condições de observação objetiva e de delimitar o objeto de estudo de cada ciência. Meillet se situa nesses pensamentos e inspira-se no filósofo francês Émile Durkheim, para quem a linguagem é algo exterior aos seus falantes, ela existe independente de cada um deles, sendo, portanto, um fato social. As reflexões de Meillet concentram-se no fato de que as condições sociais, ditas externas[4], atuam sobre o estado interno da língua. Para ele, a história, por conta dos efeitos que produz na sociedade, deve também esclarecer a estrutura linguística, uma vez que as mudanças são exteriores ao sistema, ao que é interno. Desse modo, na visão de Meillet, no campo linguístico não se deve haver uma oposição entre um estudo externo e um interno, mas deve-se haver uma correlação: ver a língua enquanto sistema interno e também afetada pelo social. Nessa perspectiva, a língua é, ao mesmo tempo, um sistema e um fato social.

Em Saussure, Normand (2009) apregoa que a metáfora ‘interno x externo’, no tocante ao tratamento da língua, foi necessária, porém insuficiente. Necessária porque vemos essa metáfora participar das contribuições trazidas pelo linguista no que se refere a sua dicotomia entre a língua e a fala: ao realizar essa separação, Saussure separa o que é social – o externo – do que é individual – o interno. A autora chama a atenção para o fato de que a oposição interno / externo, na visão desse teórico, funciona em dois níveis: o primeiro diz respeito à demarcação entre o que é linguística e o que ela não é (a semântica referencial, a fonética, a sociologia ou a história); o segundo diz respeito à distinção da linguística interna da externa: o interno diz respeito ao sistema e às regras, já o externo, refere-se à fala, ao individual.

Se Saussure separa a língua da fala, isto é, o interior do exterior, Meillet, mesmo sendo considerado um discípulo dele, se posiciona diferente do linguista genebriano, ao propor a correlação entre o interior/exterior e não a sua separação. Normand (2009) traz a existência de um ponto em comum entre os dois: reconhecer que a língua é parte social da linguagem, algo exterior ao indivíduo. Exterior a ele, no que diz respeito ao fato de que ele não pode nem criar e nem modificar por si só a linguagem. E nisso, para a autora, tem a presença dos termos de Durkheim.

Tanto na concepção de Saussure quanto na concepção de Meillet, o indivíduo recebe sua língua de um corpo social, sendo ela, portanto, ao mesmo tempo, social e individual. No entanto, esse ser social para Saussure não é o mesmo para Meillet: para este, o termo social se refere à ligação da língua com o exterior, isto é, aos fatos sociais, à história. Toda língua é tomada desse social, que a faz sofrer mudanças. Para Saussure, o social, mesmo sendo essa propriedade constitutiva da língua, não depende nem da lógica, nem da natureza. Além disso:

[...] depende menos de convenções racionais e coletivas do que leis naturais cegas: a língua tem uma ordem própria, ‘semiológica’, a de um sistema arbitrário, ‘imotivado’ em relação a qualquer agente exterior, e suas mudanças, quaisquer que sejam suas causas, se alinham sobre essa ordem, visto que o resultado de uma mudança encontra seu lugar nos esquemas do sistema (Normand, 2009, p. 144, grifos do autor).

Saussure define o signo linguístico como a união do significado com o significante, sendo essa união psíquica. Isso permite que se faça uma distinção do signo de uma realidade exterior, visto que esse exterior, para Saussure, seria a fala e não deveria entrar nos estudos da ciência linguística.

Normand (2009), dando continuidade a essa discussão, traz os conceitos de Benveniste. Tal autor trata de outra interioridade: a interioridade do sujeito, a subjetividade na linguagem. Conforme ensina a referida estudiosa, o projeto de Benveniste vai além das contribuições trazidas por Saussure no tocante à análise da língua enquanto um sistema. Inicialmente, Normand (2009) nos informa que Benveniste assume a posição de Saussure quanto à noção do referente: ele deve ser excluído da Linguística. Isso porque o que interessa a Benveniste – diferentemente de Meillet, que se interessa para relação da língua com o social – é a maneira pela qual as estruturas linguísticas produzem sentidos.

Normand (2009) revela que, no que se refere à metáfora interior/exterior, Benveniste, ao analisar as estruturas linguísticas, coloca em relação as diferenças formais e semânticas passando por um sujeito que se situa em relação ao mundo do qual ele fala. Assim, o sentido e o sujeito orientam a estrutura. Para o autor, seria preciso realizar duas linguísticas: a do sistema e a do uso desse sistema, uma vez que esse uso faz intervir um exterior referencial e contextual.

A respeito do impasse em questão, Araújo (2008) propala que esse é um problema da linguagem e sua ponte com a realidade. A fim de justificar sua afirmação, a autora apresenta a pertinência (ou não) de uma teoria da referência segundo alguns teóricos, os quais edificaram suas concepções baseados ou no internalismo ou no externalismo.

Dentre os autores considerados de base externalista, Araújo destaca Dewey, uma vez que ele “[...] é o filósofo que percorrerá de modo mais profundo e abrangente os espaços da análise da linguagem como fenômeno antropológico, cultural, social e lógico/epistemológico” (Araújo, 2008, p. 143). Ele é o estudioso que influenciará outros como Quine, Davidson e Putnam. Os referidos autores defendem que é preciso analisar a língua não só na sua estrutura, mas inseri-la na própria ação humana, uma vez que os fatores pragmáticos[5], decorrentes das situações da comunicação, não são apenas os efeitos não desejados e que o valor de verdade de uma proposição é atribuído também pelo confronto com a realidade empírica. Contrariando, assim, a visão logicista da linguagem. É dessa perspectiva que partem, portanto, os adeptos do externalismo: Dewey, Quine, Davidson e Putnam; contrários à postura internalista, cujo maior representante é Chomsky.

Araújo (2008) pontua que, com essa discussão, entramos em um problema clássico na filosofia da linguagem: o problema da referência, isto é, como as frases, as palavras se relacionam com os objetos do mundo a serem nomeados ou o estado das coisas a ser designado. Essa questão foi crucial desde Platão até Frege. Só a partir de Wittgeinsten II que ela passou a ser vista como algo periférico por conta dos jogos de linguagem que acabaram absorvendo esse nó.

Dentre os autores considerados externalistas, temos Dewey, o qual concebe o significado fazendo parte de um contexto, do qual os falantes compartilham, diferentemente de como pensa Saussure. Já Quine defende a inescrutabilidade da referência. De acordo com o citado autor, a referência é algo impossível de ser investigada, compreendida, sendo impenetrável. Davidson, por sua vez, concebe a linguagem como funcionando através de esquemas de referências dadas nas circunstâncias de comunicação. Assim, o significado de uma sentença é interpretado por outra sentença e isso é realizado pelo falante. Para ele, a linguagem não funciona por uma relação direta com as coisas. Por fim, podemos dizer que, tal como Davidson, Putnam também critica essa teoria mágica da referência que supõe haver uma conexão direta entre as palavras e as coisas. Para o referido autor, as palavras não possuem uma referência determinada, pois elas variam conforme as circunstâncias, conforme o acesso que temos ao externo através dos sentidos e das experiências vivenciadas ao longo da vida.

No tocante ao internalismo, podemos dizer que os autores dessa corrente, principalmente Chomsky (apud Araújo, 2008), apregoam que a relação linguagem/mundo como fenômeno escapa às regras linguísticas. Em relação à referência, de acordo com as palavras de Araújo (2008), o linguista revela que ela é intralinguística, como uma propriedade da linguagem internalizada.

Falando mais especificamente de Chomsky, vemos que ele defende a tese de uma linguagem internalizada e aposta nas ciências como a neurologia para dar conta da competência linguística. Para o teórico, temos uma capacidade inata de falar, sendo a fala um produto da mente/cérebro. Quine, por exemplo, pensa que a gramática é apreendida; já Chomsky revela que ela é comum aos seres humanos, algo inato. Na visão do linguista americano, temos sistemas conceptuais na mente/cérebro os quais permitem que interpretemos o que as pessoas dizem sobre o mundo. Na visão do autor, não podemos estudar a linguagem a partir de comportamentos, atitudes, enfim, do exterior. É algo contrário do que diz Quine, Davidson, Putnam, os quais defendem que o exterior interfere na linguagem e na sua significação. Apesar dessa divergência, esses internalistas e externalistas concordam com uma coisa: eles rejeitam uma teoria mágica ou causal da referência.

Mudança de terreno: uma nova via para o impasse interior x exterior

De acordo com Araújo (2008), outras teorias apareceram tentando também resolver esse impasse. Viu-se que não bastava apenas analisar as regras sintáticas, nem somente ver a referência como uma correspondência entre a linguagem e o mundo, uma vez que: “[...] o problema com esse tipo de análise decorre de pressupor, erradamente, que a sentença sozinha realiza o processo de referência” (Araújo, 2008, p. 196). Assim, para a autora, os rumos dos estudos linguísticos enveredaram por outro caminho quando se começou a analisar a linguagem numa via pragmático-discursiva. Esses avanços chegaram com a filosofia dos atos de fala de Austin e Searle. A partir daí, resolve-se alguns problemas dessa filosofia lógico-semântica, já que referir, para os autores citados, é um ato de fala[6].

Essa abordagem discursivo-pragmática, a qual coloca o processo de referenciação como uma questão de uso dos falantes sob condições de produção específicas, trouxe vantagens, uma vez que se considera a referência como um ato discursivo, ato proveniente do discurso. Desse modo, são os falantes que, em uma situação de uso da língua, operam no processo de referenciação. Em decorrência, viu-se que: “[...] falar e, nesse processo, referir-se com sucesso não decorre diretamente de regras lógico-linguísticas [...]” (Araújo, 2008, p.197). Esse caminho que, até então vinha sendo tomado no tocante à referência, é abandonado, porque se limitava a observar a relação entre as sentenças e os estados de coisas a que se referem, como se a questão do referir se restringisse à capacidade que a sentença possuía por si só, de forma isolada do discurso. As conclusões as quais se chegavam com esse caminho é que tal concepção de referência era falha e insuficiente para dar conta do problema, uma vez que era vista com uma relação estabelecida com os fatos do mundo, como se houvesse uma relação mágica. Para Araújo (2008), o problema é que a relação entre as palavras e as coisas causou um abismo que esse próprio modelo cavou.

A questão agora não é mais como os sujeitos chegam ao mundo pela linguagem, mas o que os sujeitos fazem com ela, o que a língua permite, enquanto um sistema conceitual, que seja feito, isto é, como podemos realizar interações da língua com o mundo. Em decorrência, “[...] não há cordões mágicos entre palavras e coisas, mas esquemas de interpretação que dependem de uma comunidade de falantes e, por vezes, até mesmo de um só falante” (Araújo, 2008, p. 198).

Com Searle e Austin, preconiza Araújo (2008), temos uma visão de língua voltada para o caráter pragmático da linguagem, sendo vista no uso, na situação de comunicação. No entanto, na opinião da autora:

[...] falta algo importante à visão do pragmatismo, falta mostrar que atos de fala e modelos de interpretação contextuais são perpassados pela ‘função discursiva’. A dimensão discursiva muda a perspectiva pela qual se vê habitualmente a linguagem, como sendo produção de significação que permite a comunicação. Para a dimensão discursiva contam aquele que fala, a quem fala, discute-se o papel do sujeito dos enunciados, ocupa-se com o modo como o falar é objeto de certo tipo de interesse, regulado por circunstâncias, quais sejam, os fatores culturais, sociais, éticos, políticos. De modo que o resultado não são apenas os signos, a significação, a referência, os atos de fala, mas um certo agir decorrente da linguagem, um ‘saber’ discursivo, indutor e fruto de relações sociais, culturais e interpessoais, que dotam aqueles que os usam de um certo tipo de poder (Araújo, 2008, p. 199, grifos do autor).

Ao afirmar tais palavras, Araújo está se referindo à teoria do discurso encabeçada pelo filósofo francês Michel Pêcheux. Na visão de Pêcheux e Gadet (1998), a reprodução que foi feita há anos da contradição interno x externo não permite que o impasse seja resolvido. De acordo com os autores, para conseguir isso é preciso sair desse terreno e analisar o que eles chamam de a unidade real dos contrários, lugar onde se organiza essa contradição. A partir daí, Pêcheux propõe uma visão materialista da língua baseada no materialismo histórico fundado por Marx. Discutindo tais questões no artigo: Há uma via para a linguística fora do logicismo e do sociologismo?, Pêcheux e Gadet (1998) procuram mostrar outra forma de ver a linguagem: por meio do discurso. Ao propor uma teoria materialista da linguagem, baseada nos postulados de Althusser, o filósofo francês instaura um deslocamento de uma visão metafísica para uma visão materialista, atenta ao real da língua e da história, revela Orlandi (1998), em notas introdutórias do artigo citado. A proposta de Pêcheux, ao pensar a Análise do Discurso, doravante AD, é sair desse dilema posto pela oposição formalismo x sociologismo. Isso porque as análises advindas dessas duas vertentes não davam conta da relação linguagem/realidade.

No prefácio do livro A língua Inatingível, Orlandi (2004) diz que, para Milner, há só o real da língua, mas para Pêcheux há também o real da história. É pela discussão do real da história, em sua relação com o real da língua, pelo absurdo, pelo equívoco, pela contradição e não pela oposição formalismo/sociologimo que os analistas do discurso sustentam teoricamente a história da Linguística que eles formulam. Assim, consideram o efeito de uma língua sujeita à falha que se inscreve na história. O equívoco e a falha para Gadet e Pêcheux (2004) não são um defeito, mas são algo constitutivo da existência e do funcionamento do sujeito e do sentido.

A teoria do discurso

Para a AD, o interno, o sistema linguístico, por si só não dá conta da linguagem; é preciso mudar o modo de ver esse sistema: a língua deve ser estudada também em seu exterior, inserida na história. A esse respeito, Orlandi (1998) chama a atenção para o fato de que a tarefa de quem analisa o discurso é compreender a relação entre o real da língua e o real da história. Desse ponto de vista, a produção de sentidos deve ser vista como uma relação entre o sujeito e a história. Aqui vislumbramos a marca da exterioridade se fazendo presente.

Diferentemente da forma como a Linguística via a língua, a AD pecheutiana toma-a em sua materialidade e a reconhece como sendo capaz de sofrer o equívoco, a falha, os deslizes dos sentidos. Abandona-se, portanto, a divisão forma/conteúdo e a visão de que o sentido deveria ser visto como o conteúdo e a história como o contexto em que as palavras são ditas. Ademais, o sujeito não é considerado a origem do dizer, porque ele fala com já ditos, isto é, palavras que já fizeram sentido antes e em outro lugar. Há, aí, o trabalho da ideologia, pois ela é que dá a evidência dos sentidos, dando a ilusão da transparência da linguagem. Assim, o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia (Althusser, 1985), tendo a ilusão de que é fonte e origem de seu dizer. Na AD, revela Orlandi (1998), abandona-se essa noção de sujeito consciente, para propor a posição de sujeito, isto é, ele é uma posição dentre outras possíveis, sendo constituído pela falha.

Na visão de Michel Pêcheux, o sentido da língua existe por causa das relações de metáfora, de transferência entre um sentido de uma palavra e outra. Desse modo, os sentidos sempre podem ser outros, pois há o gesto de interpretação dos sujeitos, há o trabalho da formação discursiva, a partir de onde se fala, determinando os significados da língua. Na visão da AD, o modo como a ciência linguística concebe a língua – pensada sob o modo da oposição ou de regras de um sistema – é periférico. Não interessa para a AD a organização do sistema, nem a organização social da sociedade; é de interesse da teoria do discurso a compreensão do funcionamento da língua inserida na história. Isso porque a exterioridade não é estar de ‘fora’ da linguagem, diz Orlandi (1998). Essa exterioridade, chamada de interdiscurso pela AD, se faz presente na formulação do dizer, já que algo fala sempre antes, em outro lugar e que volta na produção de sentidos. Para o sujeito, revela a autora, isso não é algo consciente, mas retorna como algo evidente; evidência essa garantida pela ideologia. Portanto, o discurso é o lugar que se pode analisar os efeitos do jogo da língua na história.

No decorrer do desenvolvimento histórico da AD francesa, ocorreram releituras e reconstruções, de modo que os procedimentos de análise provocaram deslocamentos em relação ao seu objeto de investigação. Gregolin (2004) destaca que Michel Pêcheux, em seu percurso teórico, se preocupa em consolidar a disciplina Análise do Discurso. Para tanto, conta com o auxílio e as discussões de vários colaboradores, dentre os quais podemos citar Paul Henry, Michel Plon, F. Gadet, C. Fuchs, JJ. Courtine, Denise Maldidier, J. Authier. Nessa tarefa, o filósofo dialoga com a língua, com os sujeitos e com a História, nas figuras de Saussure, Marx e Freud, empenhando-se em construir uma teoria materialista do discurso, sempre em um percurso repleto de revisões constantes. Uma dessas revisões e modificações pôde ser sentida a partir do livro Discurso: estrutura ou acontecimento, no qual Pêcheux começa “[...] a tarefa de re-construir teórica e metodologicamente a análise do discurso [...]” (Gregolin, 2006, p. 19-20). Nesse momento há uma grande aproximação entre Michel Foucault e Michel Pêcheux, pois este último, na referida obra, traz novos apontamentos, como, por exemplo, ir “[...] além da leitura dos Grandes Textos (da Ciência, do Direito, do Estado), de se pôr na escuta das circulações cotidianas, tomadas no ordinário do sentido” (Pêcheux, 1997, p. 48).

A análise que Pêcheux realiza do enunciado francês on a gagné pontua esse momento de transição de uma teoria centrada nos postulados de Althusser para uma aproximação com as teses de Foucault. Nesse movimento de descrever/interpretar estrutura e acontecimento, Pêcheux mostra como o referido enunciado foi falado, comentado e discutido, tanto pela mídia quanto pelas massas. Para o autor, esse enunciado convoca memórias do universo esportivo, bem como de outros jogos enunciativos. Gregolin (2006) postula que, a partir disso, o autor aponta um caminho para analisar os discursos: observá-los a partir dos jogos enunciativos, partindo da idéia de Foucault de que os enunciados são povoados por outros enunciados.

Ainda segundo Gregolin (2006), a partir da obra Discurso: estrutura ou acontecimento, Pêcheux incorpora vários conceitos advindos da Nova História (especialmente de Michel de Certeau) e dos estudos de Foucault, em especial da chamada fase arqueológica. Certas noções emprestadas de Foucault são de suma importância, pois auxiliaram na construção da teoria do discurso. Essas contribuições, como analisa Gregolin (2006), foram marcadas por polêmicas, enfrentamentos, duelos e diálogos.

A partir da perspectiva discursiva — a qual considera a língua enquanto estrutura regida por leis internas, de modo a formar um sistema, e também como acontecimento inscrito na história — vislumbramos uma nova via para o tratamento do embate interior x exterior que vem permeando os estudos da linguagem há tanto tempo. A fim de melhor compreender como a teoria discursiva pode ser vista como um caminho possível para resolver tal embate teórico, propomos uma análise que se insere no campo da Análise do Discurso de orientação francesa. No entanto, estamos considerando os deslocamentos nessa área de conhecimento propostos a partir da leitura de Michel Foucault; muitas foram as contribuições deste filósofo para a teoria do discurso. Foucault, com suas ideias, auxilia a AD na compreensão da problemática entre o interno e externo nos estudos da linguagem.

Iremos explicitar os conceitos advindos de Michel Foucault inseridos em uma análise discursiva, levando em conta um discurso materializado pela língua. De acordo com Foucault (2004), esse é o primeiro passo de uma análise discursiva: considerar enunciados que foram realmente pronunciados em um determinado momento histórico, levando-se em conta a posição de sujeito assumida e o domínio associado ao qual esse enunciado pertence. O enunciado escolhido para a análise faz parte do acervo o qual estamos estudando acerca do surgimento de discursos que pregam um novo homem na mídia brasileira. Atualmente, vemos circular nos meios sociais de comunicação enunciados que discursivizam o sujeito masculino diferentemente da forma que ele vinha sido discursivizado até tempos atrás: um homem preocupado com o corpo, tendo que lidar com uma mulher que está em constante crescimento no mercado de trabalho, tendo que assumir uma função de pai preocupado com os cuidados dos filhos, um marido que auxilia nos afazeres domésticos. Em suma, a mídia está retratando um novo sujeito masculino, diferente daquele homem que conhecíamos: tradicional, machista, patriarcal, cuja função era de prover o lar; cabendo às mulheres o cuidado com a casa e com os filhos.

Há muitos enunciados circulando na mídia a esse respeito, evidenciando que o momento histórico atual está mudando a sua concepção do que é ser homem. Como há muita coisa sendo dita sobre isso, decidimos destacar um enunciado, para melhor visualizar como se dá uma análise discursiva. O enunciado escolhido foi retirado da Revista Veja (2000), e faz parte de uma reportagem que trata da preocupação masculina com a vaidade. A seguir, a primeira folha da referida reportagem (Figura 1), a qual se encontra publicada no site da Revista Veja (2000, p. 88) com os seguintes dizeres em sua manchete: “Todos querem ser Zulu. Chegou a vez dos homens: beleza põe a mesa para eles também. Tem alguns até sofrendo por isso, coitados”.

Preocupação masculina com a beleza.
Figura 1.
Preocupação masculina com a beleza.
Revista Veja (2000, p. 88).

Comecemos a discussão afirmando que Foucault (2004) concebe o discurso como uma prática regulada, em que há fatores sociais, históricos, institucionais os quais regulam a produção do dizer. Nesse pensamento, a linguagem opera como veículo e alvo de relações complexas de saber e poder no que o autor chama de ‘sociedade disciplinar’. Desse modo, para esse enunciado ser passível de ser dito, de aparecer, houve uma força histórica agindo nele. E é aí que Foucault (2004) se interessa, pois para ele importa conhecer quais são as condições de saber e de poder que possibilitaram o surgimento desse enunciado sobre o homem na mídia nesse momento histórico. A questão é: por que esse enunciado apareceu só agora e por que não poderia ter sido outro em seu lugar? Assim, o enunciado para o autor é visto como um acontecimento na e da ordem do saber, algo que foi efetivamente dito na dispersão dos acontecimentos. Foucault (2004) entende que a questão pertinente não são as regras linguísticas de construção, mas porque e como um enunciado surgiu e não outro em seu lugar. A esse respeito, Araújo (2008, p. 220) revela que: “[...] para a história das idéias importa o que disse um sujeito, com suas intenções, ou mesmo com o jogo do inconsciente, de modo que é preciso resgatar sua palavra, seu texto, como interpretá-lo corretamente”. O arqueólogo dos saberes difere desse pensamento; a análise discursiva para ele não precisa dar conta das regras de uma gramática, basta saber como formou certo objeto/enunciado em uma determinada época, isto é, como esta época configurou os enunciados. Na visão de Foucault (2004), falar é mais que produzir enunciados em uma dada situação, é ver como certas práticas discursivas agem na produção do dizer, é saber como houve a possibilidade de aparecer certos dizeres em determinadas épocas.

Transferindo essa discussão para o enunciado em questão, podemos nos perguntar: o que possibilitou que surgisse esse enunciado e, somente esse, em relação aos cuidados da beleza masculina? Dizemos isso, pois, em nossas pesquisas, constatamos que durante muito tempo a beleza masculina e seu cuidado foi algo contido, nada exagerado, uma vez que o homem tido como vaidoso era considerado afeminado e homossexual. Produzir discursos sobre a vaidade masculina era um campo interditado em outras épocas; o que se tinha sobre o indivíduo masculino em relação à vaidade reduzia-se ao clássico ‘barba, cabelo e bigode’. Nada além disso. No entanto, com o advento do momento histórico denominado pós-modernismo, as relações discursivas entre os sujeitos passaram por transformações, tais como: identidades em crise por causa da perda dos papéis cristalizados socialmente (Hall, 1997), conquistas feministas, investidas do mercado capitalista que produzem novos discursos sobre as identidades com a finalidade de obter mais lucros. O resultado dessas transformações históricas produziu novos sentidos sobre o homem, chegando a se falar de um novo homem. Assim, o momento histórico atual está produzindo discursos para um indivíduo preocupado com a vaidade, com os afazeres domésticos, com o cuidado com os filhos, assim como a desconstrução da imagem de homem machista e patriarcal vigente por tanto tempo em nossa sociedade.

Além do que foi elucidado acima, Foucault (2004) traz também a questão do estabelecimento de relações com outros enunciados. Segundo o autor, os enunciados estão sempre povoados por outros enunciados. Assim, na análise proposta pelo arqueólogo dos saberes, busca-se conhecer essa rede de relações as quais permitem que os enunciados sejam ditos e compreendidos. É o que ele chama de domínio associado, isto é, os outros enunciados se fazendo presentes, os quais podem ser recuperados por meio da memória discursiva. Isso porque os enunciados: a) são de natureza histórica, porque é nela que encontra sua existência; b) possuem uma materialidade específica, são registrados de alguma forma; c) permitem ligações, correlações com outros enunciados, com já ditos; d) não se referenciam a um único objeto, estado de coisa, em uma realidade pronta e acabada. Sobre esse último item, Foucault (2004) revela que os objetos podem mudar de sentido por conta das formações discursivas (FD) em que se encontram dispersos. Um mesmo objeto pode ganhar sentidos diferentes de acordo com a FD a qual ele pertence. Em vista disso, temos que o discurso é constituído por enunciados os quais se dispõem seguindo uma formação discursiva dada, na qual determinam seu agrupamento realizado por meio de relações.

Colocando em prática essa questão dos outros dizeres que se unem a um enunciado, temos que remeter a manchete trazida a outros enunciados para compreendê-la, uma vez que o discurso funciona em uma rede de relações, em que os já ditos voltam no momento da formulação do dizer para dar sentido ao que foi dito. Nesse sentido, lançamos a pergunta: por que a manchete traz que ‘todos querem ser Zulu’? Inicialmente, podemos dizer que Paulo Zulu é um modelo brasileiro famoso por sua beleza: é bonito, tem um corpo malhado, é alto, cuida da alimentação e da saúde, pratica exercícios físicos, enfim, é trazido pela mídia como um ideal de beleza masculina. Com tantos predicados, esse modelo desperta a atenção das mulheres que sonham em ter um ‘Zulu’ ao seu lado. Esse modelo está presente em campanhas publicitárias de cosméticos, de academia, sendo uma figura emblemática dos cuidados com o corpo. Segundo a reportagem da manchete em questão, os homens adeptos ao chamado mundo moderno também estão tomando o Zulu como ideal de beleza, mas não para terem ao seu lado, como as mulheres, mas para serem iguais a ele. Com esse intuito, de acordo com a reportagem, muitos homens estão apresentando preocupações exacerbadas com a beleza, resultado da comparação que estão sofrendo com os ‘bonitões’ que circulam pela mídia em geral. Em vista disso, muitos homens começaram a praticar exercícios físicos, falam em dietas, em produtos que ajudam a melhorar os músculos e estão adeptos ao que antes apenas as mulheres se dedicavam: à cirurgia estética. Nessa descrição, já conseguimos também compreender porque a revista fala em ‘chegou a vez dos homens’ e ‘tem alguns até sofrendo por isso, coitados’; falamos isso porque a beleza foi alvo primeiramente da mídia para com as mulheres. Sabe-se atualmente que a mulher segue um ideal de beleza que prega um corpo magro, malhado, saudável, enfim, muitas mulheres sofrem em busca de um ideal de beleza imposto pela sociedade. Nesse momento, de acordo com a reportagem, chegou a vez de criar isso nos homens, isto é, essa preocupação com a beleza. Em decorrência, temos muitos homens sofrendo por conta disso, diz a revista, uma vez que precisam fazer dietas, malhar, passar por cirurgias estéticas. Portanto, para a compreensão dos enunciados, é preciso realizar correlações com o que já foi dito anteriormente.

Esses novos discursos sobre o homem inscritos na história por meio das materialidades midiáticas podem ser vistos sob o que o filósofo francês denominou de acontecimento discursivo, a partir do qual outros textos surgem, sentidos são retomados, deslocados e interditados, formando, assim, um arquivo (Foucault, 2004), o qual rege um sistema de enunciabilidade que subjetiva o homem moderno. Em outras palavras, cada enunciação é única, mas um enunciado é constitutivamente repetível, podendo ser atualizado, repetido, transformado:

Em geral, a descrição histórica das coisas ditas é inteiramente atravessada pela oposição do interior e do exterior, e inteiramente comandada pela tarefa de voltar dessa exterioridade – que não passaria de contingência ou pura necessidade material, corpo visível ou tradução incerta – em direção ao núcleo essencial da interioridade. Empreender a história do que foi dito é refazer, em outro sentido, o trabalho da expressão: retomar enunciados conservados ao longo do tempo e dispersos no espaço, em direção ao segredo interior que os procedeu, neles se depositou e aí se encontra (em todos os sentidos do termo) traído (Foucault, 2004, p. 140).

Nesse sentido, a manchete em pauta permite que retomemos muitos dos já-ditos em relação aos indivíduos masculinos, auxiliando na construção dos sentidos. Temos, portanto, que a constituição dos discursos passa por esse processo de idas e vindas, isto é, a retomada de um arquivo e a constituição de um novo. Isso ocorre para evidenciar que esse novo homem não é algo fora da realidade, mas sim algo pautado no histórico, em já ditos sobre os homens, sobre as mulheres, sobre a vaidade e que volta com a finalidade de fazer sentido para esse novo sujeito proposto.

Na visão de Foucault (1998), os enunciados – como o aqui analisado – não circulam livremente; eles são administrados pelo o que o autor chama de micropoderes. A idéia reside no fato de que estes penetram na vida, nas pequenas coisas do cotidiano, porque estão pulverizados, disseminando gestos, atitudes, hábitos, discursos, agindo sempre no corpo dos sujeitos. De acordo com Foucault (1998), o poder não existe em si, o que há são relações de poder, práticas de poder. Esses micropoderes, segundo o autor, são exercidos de vários lugares, de práticas discursivas, tais como a medicina estética e a mídia, não sendo somente algo repressivo, mas também administrativo, que controla a vida das pessoas. Nesse sentido, observamos que a mídia, pautada no saber e no poder que detém, está autorizada a produzir discursos os quais controlam a vida dos sujeitos, por conta da credibilidade que possui. E assim, por meio de enunciados como o que aqui trouxemos, ela vai disseminando identidades, atitudes, padrões a fim de beneficiar práticas discursivas como a medicina estética, as empresas de cosméticos que, pautadas em ideais capitalistas, buscam vender seus produtos.

Além disso, assevera Foucault (1998), há formas de resistências, uma vez que esses discursos não chegam aos sujeitos de forma neutra: há os que resistem, não aceitam esses dizeres passivamente, por conta de estarem vivendo em outra temporalidade histórica. Vemos assim que essa construção identitária do novo homem não está afetando a todos, mas a uma parcela da sociedade. É evidente que a mídia e as empresas que patrocinam os meios de comunicação estão investindo nisso, procurando atingir a todos, mas isso não ocorre em sua totalidade. Em decorrência disso, notamos que os discursos os quais pregam esse novo homem estão tentando formar novos dizeres sobre um determinado objeto; assim vislumbramos que a língua faz mais que nomear, ela carrega práticas que formam os objetos de que falam, revela Araújo (2008) ao tratar da teoria de Foucault. Para a autora:

O enunciado não é constituído por uma relação do significante com seu significado, nem do nome com seu designado, ou da frase com seu sentido, ou ainda, da proposição com seu referente, mas por configurar uma situação da ordem do discurso, características do saber de uma época (Araújo, 2008, p. 225).

Na análise discursiva, outra preocupação de Foucault é a posição de sujeito: quem fala? Quem tem o direito de falar, de ocupar essa posição para pronunciar determinados discursos? Segundo o filósofo, a posição sujeito autorizada a falar determinados discursos em um lugar determinado é sempre vazia e ocupada por um sujeito empírico. O sujeito do discurso não é a origem ou o ponto de partida da articulação, também não é aquele que ordena as palavras de modo que elas façam sentidos, não sendo um sujeito psicológico, intencional, nem tampouco um sujeito idêntico a si, pois o lugar que está vazio poderá ser ocupado por outros sujeitos. Desse modo, não é o sujeito que fala o discurso, mas ele que se constitui sendo falado pelo discurso. No caso do enunciado em análise, essa posição de sujeito do enunciado é ocupada pelo jornalista que está dominado pelas práticas discursivas capitalistas e midiáticas que visam o lucro. Assim, os sujeitos não são livres para falarem o que quiserem e onde quiserem, são dominados pelo o que o autor chama de a ordem do discurso (Foucault, 2006). Em decorrência disso, a produção do discurso é controlada seguindo certos poderes e saberes que determinam o dizer. Na análise proposta, vemos a posição de um sujeito que defende a inserção masculina nessa nova ordem: a ordem de um novo homem preocupado também com a beleza; essa é a posição de sujeito criada também para quem lê, pois ele se identifica ou não com o que foi produzido, assumindo ou não essa identidade proposta, pois, como dissemos, há sempre formas de resistência por parte dos sujeitos.

Analisar o discurso não é interpretá-lo para chegar ao que o texto quis dizer, mas ver as séries de acontecimentos que a ordem do saber produz e controla. Os discursos circulam sob pena do poder e do saber produzindo-os ao mesmo tempo, estando na sociedade disciplinar, como chamou Foucault. Desse modo, vemos que os efeitos do discurso são construídos e regulados; alguém assumindo uma posição de sujeito pode deter esse poder produzindo efeitos de verdade com o que diz. Sendo assim, uma revista de circulação nacional, como é o caso da Revista Veja, defendendo dizeres que o homem deve se preocupar com a beleza, produz efeitos de verdade por conta da credibilidade que esse veículo de comunicação tem para falar do que fala.

Com o exemplo trazido, vislumbramos que o analista do discurso não interpreta os enunciados buscando o que está oculto, pois não há nada oculto. As significações aparecem na própria materialidade do enunciado, que denuncia os discursos ali presentes. Diferentemente da semântica, por exemplo, que se atenta à polissemia, às leituras variadas, ao sentido escondido por detrás do texto, a AD busca os efeitos de sentidos produzidos pelos enunciados. No exemplo em questão, vemos que os efeitos de sentidos produzidos convergem para a formação de uma nova identidade para o sujeito masculino pautado em um homem vaidoso, dentre outras características.

Considerações finais

Esse tratamento puramente lógico que se deu à linguagem ao longo da história dos estudos linguísticos não foi suficiente para explicá-la; nem tampouco o tratamento sociologista. Foram precisos outros elementos, como o reconhecimento do uso linguístico, para fornecer melhores explicações à capacidade humana da linguagem e também o reconhecimento da língua enquanto um sistema. Autores surgiram, conceitos buscaram dar uma explicação a esse campo de estudo, mas sempre se viam com problemas. Com o surgimento da Análise do Discurso, esse impasse toma outro rumo: é preciso olhar a linguagem tanto como estrutura quanto um acontecimento, não se concentrando apenas em um ou outro foco, como defendiam o logicismo ou o sociologismo. Ao propor a teoria do discurso, Pêcheux procura pensar a Linguística fora dessa questão do logicismo e do sociologismo: ele propõe que se olhe para o discurso, oferecendo outro campo de estudo para a linguagem.

Quando nos deparamos com novos dizeres sendo formandos para/sobre o sujeito masculino, indo contra os discursos que pregavam um sujeito machista e patriarcal, para vê-lo como alguém sensível, vaidoso, preocupado com os cuidados com a casa e com os filhos, notamos que, para compreendê-los, é preciso remeter esses discursos à história em que eles foram criados, ao momento histórico vivido. Desse modo, asseveramos que a AD é capaz de analisar essa produção linguística, pois a análise discursiva tenta libertar-se da ideia de subjetividade fundadora, do sujeito intencional e de remeter os enunciados a sua dispersão, para analisá-lo em sua exterioridade, não remetendo a nenhuma interioridade. Nesse sentido, concebe-se o discurso em sua descontinuidade, para assim apreender sua irrupção no lugar e no momento em que ele foi produzido, diz Foucault (2004). Desse ponto de vista, descrever os enunciados não é pensar em uma tradução de operações ou de processos que se desenrolam em outro lugar, como no pensamento do homem, em sua consciência ou inconsciência, mas ver o enunciado como lugar do acontecimento, da regularidade, de relações, de modificações.

Por fim, com o exemplo proposto, foi possível observar o modo como a análise do enunciado da revista Veja demonstra a possibilidade de um trabalho sobre a língua que põe em relação o que é da ordem do interno — a estrutura da língua, a materialidade do discurso — com o que é da ordem do externo, isto é, o funcionamento do discurso, a materialidade da ideologia sustentada nas condições de produção amplas e estritas da formulação do texto da Revista Veja.

Referências

Althusser, L. (1985). Aparelhos ideológicos de estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de estado (3a ed.). Rio de Janeiro, RJ: Graal.

Araújo, I. L. (2008). Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem (2a ed.). São Paulo, SP: Parábola Editorial.

Foucault, M. (1998). Microfísica do poder (13a ed., R. Machado, Org. e Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Graal.

Foucault, M. (2004). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro, SP: Forense Universitária.

Foucault, M. (2006). A ordem do discurso (13a ed.). São Paulo, SP: Loyola.

Gadet, F., & Pêcheux, M. (2004). A língua inatingível (B. Mariani & M. E. C. de Mello, trad.). Campinas, SP: Pontes.

Gregolin, M. R. V. (2004). Foucault e Pêcheux na construção da análise do discurso: diálogos e duelos. São Carlos, SP: ClaraLuz.

Gregolin, M. R. V. (2006). AD: descrever – interpretar acontecimentos cuja materialidade funde linguagem e história. In Navarro, P. (Org.), Estudos do texto e do discurso: mapeando conceitos e métodos (p. 19-34). São Carlos, SP: Claraluz.

Hall, S. (1997). A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, RJ: DP&A.

Normand, C. (2009). Convite à linguística. São Paulo, SP: Contexto.

Orlandi. E. P. (1998). O próprio da análise do discurso (Escritos). Campinas, SP: Labeurb/Unicamp.

Orlandi. E. P. (2004). Sobre o intangível, o ausente e o evidente. In F. Gadet & M. Pêcheux. A língua inatingível (B. Mariani, & M. E. C. Mello, trad.). Campinas, SP: Pontes.

Pêcheux, M. (1997). O discurso: estrutura ou acontecimento (2a ed.). Campinas, SP: Pontes.

Pêcheux, M., & Gadet, F. (1998). Há uma via para a Linguística fora do logicismo e do sociologismo? (Escritos, E. P. Orlandi, trad.). Campinas, SP: Labeurb/Unicamp.

Revista Veja (2000, setembro 6). Recuperado de https://acervo.veja.abril.com.br/#/edition/1665?page=88§ion=1&word=setembro%202000

Notas

[1] Este artigo insere-se no Projeto de Pesquisa intitulado ‘Produção de Sentidos e Significação na História: memória e discurso nas Ciências da Linguagem’, desenvolvido na Universidade Estadual de Londrina, coordenado pela Dra Mariângela Peccioli Galli Joanilho, do qual faço parte.
[2] Aristóteles retrucava a ideia de a relação entre as palavras e as coisas. Para ele, longe de ser um fato natural, a linguagem era o resultado de uma convenção social arbitrária (Gadet & Pêcheux, 2004).
[3] O barbarismo era tudo que ameaçava questionar a edificação artificial da unidade da língua, nada que pudesse romper a sua ordem, sendo a designação arcaica do exterior da língua.
[4] Normand (2009) sinaliza para o fato de que, quando Meillet fala de exterior, não está se referindo ao referente, em relação aos seus sentidos, mas se refere à sociedade.
[5] Dewey é considerado um dos precursores do pragmatismo.
[6] Porém, para Araújo (2008), há uma ressalva: buscar sanar esse problema da referência se tornou um retrocesso se comparado ao Wittgenstein II, já que ele dissolve o problema da referência como sendo algo filosófico.

Autor notes

daianybonacio@yahoo.com.br

HMTL gerado a partir de XML JATS4R por