Linguística

Marcadores evidenciais em atas do parlamento do Mercosul: uma análise funcionalista

Evidential markers in minutes of Mercosur Parliament: a functional analysis

Viviane Cristina Poletto Lugli
Universidade Estadual de Maringá, Brasil
Juliano Desiderato Antonio
Universidade Estadual de Maringá,, Brasil

Marcadores evidenciais em atas do parlamento do Mercosul: uma análise funcionalista

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 40, núm. 2, 2018

Universidade Estadual de Maringá

Recepción: 08 Marzo 2018

Aprobación: 08 Agosto 2018

Resumo: Este trabalho analisa os verbos de dizer com a função de marcadores evidenciais em língua espanhola em Atas do Parlamento do Mercosul, propondo uma hierarquia de forças entre os verbos. A escolha do gênero Ata se justifica por tratar-se de um tipo de registro documental requerido em muitos contextos profissionais. Os verbos de dizer exercem nos textos do corpus uma função estratégica de fazer referência à fonte das informações proferidas nas Sessões. Por considerarmos a relevância do estudo dos verbos de dizer em gêneros da esfera secretarial, selecionamos para este artigo dados referentes a 10 verbos de dizer integrantes de um corpus constituído por 35 Atas do Parlamento do Mercosul. A realização da pesquisa indicou a relevância do modo de apresentação da fonte de informação no gênero, ao apresentar os seguintes resultados: i) o gênero mobiliza um maior número de verbos declarativos e de verbos que indicam conteúdos de uma esfera de poder, de acordo com a classificação de verbos de Sánchez García (2009); ii) manifesta-se uma alta frequência de marcadores evidenciais de fonte relatada definida, que visa a atribuir maior credibilidade ao enunciado; iv) destacam-se os verbos de dizer codificados com forças [1] e [2] devido ao seu número de ocorrências.

Palavras-chave: funcionalismo, gênero ata, verbos de dizer, marcadores evidenciais, língua espanhola.

Abstract: This work analyzes reporting verbs which function as evidential markers in Spanish in the minutes of Meetings of the Mercosur Parliament, proposing a hierarchy of strenghts between the verbs. The choice of the Minute genre is justified because it is a type of documentary record required in many professional contexts. The reporting verbs perform in the texts of the corpus the strategic function of making reference to the source of the information given in the Sessions. Because we consider the relevance of the study of reporting verbs in genres of the secretarial sphere, we have selected for this article data referring to 10 reporting verbs from a corpus constituted by 35 min of Meetings of the Mercosur Parliament. The research indicated the relevance of the presentation of the source of information in the genre, by bringing forward the following results: i) the genre mobilizes a greater number of declarative verbs and verbs that indicate the contents of a sphere of power, according to Sánchez García's (2009) taxonomy of verbs of; ii) there is a high frequency of evidential markers of a definite reported source, which aims to attribute greater credibility to the utterance; iv) the reporting verbs encoded with strenghts [1] and [2] stand out due to their number of occurrences.

Keywords: functionalism, minute of meetings genre, reporting verbs, evidential markers, spanish language.

Introdução

Analisar os verbos de dizer em gêneros textuais materializados em esferas como a do discurso mercosulino nos permite observar o conjunto de decisões tomadas para o funcionamento do discurso. Os verbos de dizer do discurso reportado, na língua espanhola, que são nosso objeto de pesquisa, refletem a organização textual que está atrelada a intenções, causas e a restrições envolvidas com a instância enunciativa por tratar-se de verbos de orientação dêitica, inseridos em documentos de caráter comprobatório que são as Atas do Mercosul.

Desse modo, analisar a categoria da evidencialidade[1] por meio dos verbos de dizer, adotando uma orientação funcionalista que considera o uso das expressões linguísticas na interação verbal, atentando para os aspectos pragmáticos e não apenas para os aspectos semântico e sintático, envolve estudar a categoria em seu estado mais autêntico. Partindo dessa perspectiva, pretendemos demonstrar que o estudo de verbos dicendi na língua espanhola requer a consideração de que esse objeto nuclear do enunciado não se caracteriza como um meio de expressão transparente.

Com base nessa concepção, o objetivo central deste trabalho é descrever os valores e as funções dos verbos de dizer, expressos como marcadores evidenciais, por transmitirem a voz de terceiros em Atas do Parlamento do Mercosul. Elencamos, para este estudo, os seguintes objetivos específicos:

i) identificar os verbos de dizer presentes nas Atas do Parlamento do Mercosul;

ii) identificar os efeitos de sentido dos verbos de dizer no gênero textual por meio da classificação do tipo de verbo, segundo Sánchez García (2009);

iii) analisar os verbos de dizer de acordo com a sua força de asserção;

iv) propor uma hierarquia de forças entre os verbos de dizer que emergem nas Atas.

Consideramos este estudo relevante por demonstrar, por meio da atribuição de vozes aos protagonistas da informação, a origem do conteúdo proposicional veiculado no gênero, uma vez que, na leitura de um texto, é necessário levar em consideração as instâncias enunciativas que nele se manifestam para a compreensão dos efeitos de sentido inerentes aos arranjos linguístico-textuais. Para tanto, a pesquisa foi desenvolvida com base na teoria Funcionalista e na análise de gêneros textuais proposta por Bronckart (1999).

A nossa tese é que os gêneros favorecem a expressão de determinados verbos de dizer, com funções de marcadores evidenciais que possuem diferentes forças assertivas.

Por questões relacionadas ao número de ocorrências e à expressão de diferentes tipos[2] de verbos de dizer, a análise empreendida descreve as suas funções de acordo com três critérios relacionados às definições dos verbos: i) acepções no Diccionario de la Lengua Española (DLE) e no Diccionario Clarín (2017); ii) tipo de verbo segundo Sánchez García (2009); iii) tipo de marcador evidencial. A partir desses critérios e por meio da análise do contexto em que se manisfestam as ocorrências, acrescentamos a força de asserção a cada verbo de dizer. A atribuição de forças de asserção dos verbos ocorreu do seguinte modo: i) verbos com força [0] são aqueles cujo conteúdo comunicado é totalmente descritivo, sem nenhuma adição à informação; ii) os verbos apresentam força [1] quando o significado do verbo no contexto indica envolvimento do destinatário da enunciação, por meio de verbos com valores negativos, verbos relacionados com a maneira de dizer de um líder ou verbos de pedido implícito ou explícito; iii) os verbos têm força [2] quando expressam efeitos de compromisso a serem assumidos pelos participantes dos Estados Parte.

Considerando os verbos de dizer nas Atas do Parlamento, manifestados em 3ª pessoa do singular, marcadores evidenciais, por registrarem a responsabilidade do dizer aos diferentes enunciadores[3] presentes no contexto de enunciação do gênero, fundamentamos a análise dos verbos na classificação de evidenciais proposta por Willett (1988) e Dall’Aglio-Hattnher (2007) e adotamos a concepção de Aikhenvald (2004) de que o significado primário da evidencialidade é a fonte da informação. Somando-se a isso, nossa análise se pautou pela compreensão de que ‘marcador evidencial’ é a forma linguística cujo significado é uma referência à fonte de informação, conforme Bermúdez (2005).

Para a análise dos verbos de dizer, apoiamo-nos na classificação de Sánchez García (2009) e nas considerações de Neves (2000) sobre os verbos de elocução.

O corpus adotado para análise consiste de 35 Atas redigidas em língua espanhola pelo Parlamento do (Mercosur, 2015). A adoção desse corpus representa uma contribuição para os estudos descritivos da língua espanhola por tratar-se de gênero que constitui práticas de referência e que podem fornecer subsídios para repensar o ensino da língua a posteriori.

A evidencialidade

A evidencialidade é uma categoria linguística que demonstra a fonte sobre a qual uma informação está ancorada. Por refletir, nos enunciados, valores de verdade, conforme Aikhenvald (2004), e atribuição de responsabilidades do dizer, pode expressar-se por diversos elementos linguísticos devido ao fato de estar atrelada às especificidades de cada língua.

São as particularidades da língua que requerem a existência de um sistema evidencial. A existência desse sistema indica que a referência à fonte de algumas informações é obrigatória. Logo, o sistema evidencial reflete a cultura linguística de uma comunidade de falantes. Os elementos linguísticos, por sua vez, exercem funções específicas relacionadas à fonte da informação que podem indicar que as informações são testemunhadas ou não.

Uma das pesquisas tipológicas representativas empreendidas sobre a evidencialidade e que demonstra as diferentes funções dos elementos linguísticos relacionados à fonte da informação proferida é a de Willett (1988). O autor, ao estudar 38 línguas das regiões do Oeste dos Estados Unidos, estabeleceu uma tipologia de evidenciais que é atualmente a mais conhecida pelos pesquisadores e dialoga com outros modelos. De acordo com os dados obtidos em seu estudo, Willett (1988) observou que nelas há uma tendência a diferenciar três subtipos de evidências que se manifestam por meios de expressão diferentes, as quais se distribuem entre as do tipo Direta e Indireta.

Respaldado pelos resultados que obteve, Willett (1988) estabeleceu subtipos de evidenciais que tornam mais exata a especificação feita pelo falante referente à natureza da fonte da informação. O autor explica que, no subtipo de evidência Atestada, há uma subdivisão entre evidências visuais, auditivas e outros sentidos; no subtipo de evidência Reportada, a subdivisão se faz entre reportada de segunda-mão, terceira-mão e folclore; no subtipo Inferida, há uma subdivisão entre Resultados e Pensamento Lógico.

Dall’Aglio-Hattnher (2007) compreende que os evidenciais indicam as fontes e o modo pelos quais o falante teve acesso à informação enunciada. A autora adota a classificação acima, resumindo a seguinte tipologia para os evidenciais em português: evidencialidade direta (atestada); evidencialidade indireta; relatada ou inferida.

Estudos sobre o espanhol (Bermúdez, 2005; Estrada, 2013; Demonte & Fernández-Soriano, 2014) demonstram que nessa língua a evidencialidade não se marca morfologicamente. Em espanhol (tal como no português), a evidencialidade é uma categoria opcional, remetendo à afirmação de Aikhenvald (2004) de que há línguas em que não há um sistema evidencial e que, por isso, alguns elementos que se referem à fonte da informação ou evidenciais que se relacionam às provas ou aos sentidos secundários de referência à forma da obtenção da informação podem ser compreendidos como estratégias evidenciais. Nas palavras de Aikhenvald,

Modos que não estejam no indicativo, modalizações, pretéritos, formas passivas e estratégias de complementação podem adquirir um segundo uso relacionado ao recurso da informação. Podem ser marcadores pessoais. Significados vinculados à percepção — visuais ou não visuais —, podem ser codificados por demonstrativos. Trata-se de provas evidenciais da categoria da evidencialidade que podem ser compreendidas como estratégias evidenciais[4] (Aikhenvald, 2004, p. 25, tradução nossa).

Em sintonia com Aikenvald (2004), Bermúdez (2005) observa que, na tradição linguística hispânica, considera-se ‘evidencialidade’ o domínio semântico relacionado com a fonte de informação. Por outro lado, compreende-se por ‘marcador evidencial’ a forma linguística cujo significado é uma referência à fonte de informação.

De acordo com essa concepção, embora não se possa defender que existe um sistema evidencial em espanhol em que a evidencialidade seria obrigatória, é consenso a existência de ‘marcadores evidenciais’ ou ‘estratégias evidenciais’ (Aikhenvald, 2004) não obrigatórios, tais como verbos de dizer em terceira pessoa, advérbios, preposições que encabeçam o discurso indireto etc.

Os verbos de dizer

Este trabalho se pauta na compreensão de que os verbos de dizer apresentam uma motivação funcional ao serem mobilizados pelos sujeitos na interação. A explicação sobre a funcionalidade, portanto, advém de vários autores que não poderíamos deixar de mencionar, devido à sua grande contribuição para este trabalho.

Primeiramente, trazemos como referência a compreensão de Marcuschi (2007) e de Neves (2002) sobre os ‘verbos de dizer’/de elocução/evidenciais e reproduzimos as palavras de Maldonado González (1999, p. 3559), que afirma que todos os verba dicendi,

[...] com exceção do verbo dizer, portam diferentes tipos de informação a respeito da ação linguística realizada, sendo muitos os que incluem uma informação que condiciona diretamente a maneira que o receptor interpreta o discurso e impõem, portanto, uma certa leitura, ao destinatário[5] (González, 1999, p. 3559, tradução nossa).

De acordo com a autora, a força assertiva é estabelecida pelo falante da citação ao escolher os verbos que lexicalizam esse tipo de enunciação.

Marcushi (2007) analisa as formas de relatar opiniões dos discursos do poder e dos discursos populares no noticiário político dos jornais diários, observando a ação dos verbos em ambos. O pesquisador estuda o modo como o redator exerce, simultaneamente, os papéis de receptor e de emissor. Considera o redator como um filtro, como um mediador da informação que pode parafrasear a opinião de alguém e apresentá-la como literalmente dada.

Neves (2000, p. 48) do mesmo modo compreende as formas de relato por meio dos verbos dicendi como um tipo de paráfrase. De acordo com as palavras da autora,

O discurso indireto não envolve citação literal do que o sujeito diz, mas constrói uma paráfrase pela qual o falante assume a responsabilidade do que é referido, além de controlar a correferência dos pronomes e dos advérbios dêiticos, já que a dêixis deixa de ficar centrada no sujeito do verbo da completiva (Neves, 2000, p. 48).

Embora consideramos que no discurso indireto esteja presente a responsabilidade do que é referido, assim como afirma Neves (op.cit), ressaltamos que compreendemos que os verbos de dizer neste trabalho assumem a função de marcadores evidenciais por indicarem a fonte da informação transmitida, delegando, de certa forma, a responsabilidade do dizer ao protagonista da informação.

Neste sentido, consideramos, para esta pesquisa, o conceito de Palmer (1986) referente à evidencialidade e adotamos a tipologia de Willett (1988) e de Dall’Aglio-Hattnher (2007) para a classificação de evidenciais. Palmer (1986) compreende que a função da evidencialidade é codificar o grau de responsabilidade do falante com relação ao que enuncia. A codificação do grau de responsabilidade se manifesta, consequentemente, nas formas dos verbos de dizer que ora apresentam uma força de asserção fraca, ora forte, ora mais forte ainda.

De acordo com essa concepção, o estudo de Marcuschi (2007) tem como foco os marcadores evidenciais no noticiário, assim como o trabalho de Casado Velarde e Lucas (2013), que os verificam em notícias, o de Sánchez García (2009), que os analisa em notícias políticas espanholas e o de Vendrame (2009), que apresenta um estudo sobre a evidencialidade em discursos científicos primários. No entanto, apenas Vendrame (2009) se refere aos verbos de dizer como evidenciais.

Em nosso trabalho, não nos resta dúvida de que estamos diante de marcadores evidenciais por tratar-se de um discurso reportado de origem testemunhada.

Nossa convicção se deve ao fato de que estudos como o de Bermúdez (2005) demonstram que, em espanhol, a evidencialidade manifesta-se lexicalmente, sendo considerada marcador evidencial a forma linguística, cujo significado é uma referência à fonte de informação, referência totalmente presente no gênero que analisamos. Além disso, como afirma Dall’Aglio-Hattnher (2007), a expressão da evidencialidade na língua portuguesa ocorre em maior medida por meios lexicais, o que remete à consideração de que não é necessária a presença de partículas específicas, tais como existem em línguas como quéchua e tuyuca, para que se manifestem os marcadores evidenciais. Nesse contexto, o que nos motiva em nossas análises é verificar o modo como atuam nos textos os verbos de dizer como marcadores evidenciais e com quais forças assertivas são enunciados.

Utilizamos, para tanto, a tipologia de evidencialidade indireta, do tipo relatada, proposta para os evidenciais em língua portuguesa por Dall’Aglio-Hattnher (2007) e adotamos o termo ‘marcadores evidenciais do tipo relatado’ para os verbos de dizer, por tratar-se de verbos de dizer de forma lexicalizada, e não de formas gramaticais e obrigatórias na língua, como relatam Dall’Aglio-Hattnher e Hengeveld (2015), ao estudarem quatro tipos de línguas nativas do Brasil.

É interessante registrar que Neves (2000, p. 48) explicita a existência de verbos de dizer que apresentam lexicalizado o modo de caracterizar o dizer, tais como “[...] queixar-se, comentar, confidenciar, protestar, explicar, avisar, informar, responder, sugerir”, alguns dos quais encontramos em nosso corpus e que foram por nós analisados no intuito de verificar a sua força assertiva e seu modo de dizer no gênero Ata.

Consoante o exposto, é possível concluir que os diferentes autores entendem que os verbos de dizer possuem valores semânticos associados à intencionalidade do relator do discurso. Por também entendermos que é o relator que faz as escolhas verbais no processo de reformulação, com base nas informações ouvidas e presenciadas nas reuniões, debruçamo-nos sobre o corpus constituído por Atas para verificar os diferentes valores que se manifestam nesse gênero secundário que se caracteriza por uma determinada formalidade e por padrões estruturais, cuja variabilidade dos mecanismos de redação referente aos verbos se torna relevante para nosso conhecimento.

Para verificarmos os diferentes valores dos verbos de dizer, apoiamo-nos na tipologia de verbos utilizada por Sánchez García (2009). O autor, que investigou os verbos dicendi no discurso parlamentar jornalístico em espanhol, considera os seguintes tipos de verbos, em uma ordem da maior à menor subjetividade: i) declarativos; ii) de compromisso; iii) prospectivos; iv) de citação; v) de maneira de dizer, vi) de avaliação negativa ou positiva; vii) de caráter retrospectivo; viii) de pedido implícito ou explícito; ix) de conselho e ordem; x) verbos de opinião.

O autor defende que os verbos declarativos são os mais neutros por centrarem-se no dictum e por terem praticamente a função descritiva, como o verbo decir, por exemplo. No entanto, esses tipos de verbos são utilizados também para referir-se à realização de uma determinada ação da parte de um agente.

Os verbos de compromisso, em seu ponto de vista, incluem-se na macrocategoria dos verbos dicendi. Sánchez García (2009) explica esses verbos do seguinte modo:

i) asegurar[6]: tem um uso parecido ao do verbo ‘afirmar’ e entre suas finalidades está a de ressaltar a segurança do emissor com relação aos seus enunciados;

ii) comprometer: não é tão contundente como ‘prometer’, mas manifesta uma responsabilidade relacionada ao fato prometido;

iii) garantizar: evoca confiança.

A outra classe de verbos, os prospectivos, segundo Sánchez García (2009, p. 584), têm entre as suas funções a de antecipar ações que se produzirão ou que são suscetíveis de serem produzidas. É um tipo de verbo que está ancorado na relação de fatos que se projetam em relação ao futuro, tais como: i) advertir[7] – no sentido de fazê-lo publicamente e chamar a atenção sobre algo; ii) anunciar – típico da linguagem política, segundo o autor, e é mais neutro que advertir e ameaçar; iii) amenazar[8]; iv) avisar; v) predecir; vi) prognosticar e vaticinar (costumam ser vistos como sinônimos); vii) prever.

Além desses verbos, o autor apresenta ainda a seguinte lista:

i) verbos de citação: citar, emplazar[9], convocar, retar[10];

ii) verbos de maneiras de dizer que se referem ao modo como um líder diz algo[11]: arremeter[12], cuestionar, debater, destacar e resaltar (considerados sinônimos), preguntar (verbo totalmente descritivo);

iii) verbos de avaliação negativa: a) acusar (sinônimo de denunciar, delatar); b) criticar e censurar[13]; c) culpar; d) descalificar[14] (desacreditar); e) reprochar[15]; f) responsabilizar; g) ridicularizar;

iv) verbos de avaliação positiva: a) agradecer[16]; b) felicitar; c) valorar.

v) verbos com valor retrospectivo (aqueles que pressupõem a existência de uma declaração anterior à que o agente realiza): admitir como sinônimo de reconocer; confirmar; defender; desmentir; insistir; justificar; negar; negarse; ratificar; reafirmar; rechazar; reconocer; recordar; rectificar; reiterar; replicar; revelar; sustentar;

vi) verbos de pedido implícito: invitar, ofrecer, plantear[17], proponer (expressão usada para induzir alguém a aceitar algo, manifestando razões);

vii) verbos de pedido explícito: llamar, pedir, reclamar (pedir ou exigir com direito), solicitar[18];

viii) verbos de conselho: aconsejar; animar, recomendar (quem recomenda aparece como generoso, respeitado e conhecedor do assunto);

ix) verbos de ordem: exigir, ordenar;

x) verbos de opinião: distanciar, analizar, apoyar, buscar, creer, dudar, estudiar, respaldar, ver.

A partir dos verbos elencados na lista de Sánchez García (2009), olhamos para o nosso corpus com o objetivo de verificar quais dos verbos aqui listados se fazem presentes e se podem receber a mesma classificação atribuída pelo autor.

O gênero ata e os verbos de dizer

O gênero Ata, em espanhol, origina-se, de acordo com o DLE[19], do latim acta, plural de actum, e tem o significado de ato. É uma palavra que pode apresentar diferentes finalidades na cultura espanhola, como registrar um nascimento (Acta de nacimiento), registrar um casamento (Actade matrimonio) etc. No entanto, o nosso estudo focaliza apenas as Atas Institucionais-Administrativas, cuja finalidade é a de relatar acontecimentos em uma reunião.

Esse tipo de gênero que analisamos pertence à família de documentação e de registros que são arquivados para manter-se o controle sobre pessoas, acordos etc. Isso porque o gênero Ata é tecido por várias vozes. É o relato oficial de fatos que precisam ser registrados para que haja evidências sobre assuntos e decisões tratados em reuniões.

De acordo com Bronckart (1999, p. 326), “[...] as vozes podem ser definidas como as entidades que assumem (ou às quais é atribuída) a responsabilidade do que é enunciado”. Elas se manifestam, no nosso corpus de análise, por meio de marcadores evidenciais além de outros elementos que não constituem o nosso objeto de pesquisa.

Bronckart (1999) explica que, por se tratar de um tipo de discurso cujo enunciador é uma instância geral, como no caso do redator de Atas do Mercosul, que reproduz a voz dos participantes do Parlamento, a voz poderia ser chamada de neutra, por tratar-se de uma voz de um narrador ou expositor.

Consideramos que as formas de expressão codificadas nas Atas, tais como as que expressam o discurso reproduzido, representam modelos semifixos, por entendermos que, dentro do modelo padrão de configuração textual, há uma parcela de variabilidade de usos linguísticos selecionadas pelo expositor. Isso ocorre devido ao fato de que a língua não pode ser considerada imutável, e as expressões não são totalmente fixas, uma vez que, sendo estruturada pela cognição, ela está suscetível às pressões do uso na sociedade. Como argumenta Neves (1997, p. 109) “[...] a língua não pode ser vista como absolutamente independente de todas as forças externas, embora se reconheça a utilidade de uma distinção entre linguística interna e linguística externa”.

De acordo com Nascimento (2010, p. 135), “A ata é, portanto, um relatório ‘pormenorizado’ de tudo o que se passou em uma reunião, assembleia ou convenção”. E, por assim ser, acrescentamos que ela é um gênero constituído por vozes heterogêneas relatadas por um único enunciador/ autor que se responsabiliza parcialmente pela hierarquia constitutiva dos verbos de dizer/ introdutores das informações.

Postulamos que tal responsabilidade em meio à polifonia de vozes é parcial, porque, ao inserir o discurso do protagonista da informação, o redator-autor da Ata atribui em maior medida a responsabilidade do dizer ao protagonista. No entanto, ele não deixa de ter a sua parcela de responsabilidade, devido às suas escolhas linguístico-textuais no momento de retextualizá-la.

Nesse contexto, compreendemos que o gênero Ata se torna um alvo a ser analisado na esfera secretarial, porque a sua análise pode conduzir a uma conscientização de que os redatores das Atas não estão totalmente livres para realizar as escolhas textuais, mas devem seguir o princípio de veracidade e os padrões de formalidade[20] do gênero, embora não se possa negar a existência de um processo de geração de sentidos e intencionalidades que permeiam sua atividade como redator, ao relatar a palavra do outro.

Devido à padronização característica da organização do gênero, os assuntos tratados seguem a ordem de uma pauta que se reflete na composição escrita do gênero a ser documentado. Por conseguinte, para este trabalho, adotamos a concepção de Marcuschi (2010), para quem a Ata é um gênero textual que passa por uma operação de ‘reformulação’ dos tópicos tratados oralmente para a sua formatação escrita, porquanto sua origem está na oralidade que, ao ser transcrita, torna-se um documento institucional, imbuído de valor jurídico.

Esclarecemos, entretanto, que, nas Atas, embora saibamos da existência de tópicos a serem tratados pelos participantes das reuniões compostas pelos representantes dos Estados Partes, não sabemos exatamente sobre suas intencionalidades comunicativas que ultrapassem a intenção de informar sobre algo. Focalizamos como se revela o compromisso do enunciador e do que é enunciado com relação aos tópicos expostos e tratados por meio dos verbos de dizer. Isso porque é a característica essencial do gênero, uma vez que é por meio desse gênero textual que o representante político de uma delegação expõe sua contribuição ao assunto em discussão, seja de forma enfática, argumentando sobre algo, seja de forma mais sutil, quando pretende apenas informar aos demais representantes das delegações a respeito de algum tópico. É essa variabilidade de usos de verbos que nos interessa.

Análise dos verbos de dizer nas atas do corpus

Na Tabela 1, apresentamos os verbos de dizer encontrados no corpus e seus respectivos números de ocorrências.

Em função da limitação de espaço, trataremos aqui apenas dos 10 verbos com maior número de ocorrências.

O verbo solicitar, com 67 ocorrências, é um verbo de pedido explícito. Foi classificado neste trabalho com forças de asserção [1] ou [2], dependendo de seu uso. No âmbito da predicação do verbo ‘solicitar’, estão as ações a serem realizadas. Assim, estão sob seu escopo:

i) orações completivas com força de asserção 2 [mais forte] que requerem que uma ação futura se realize, como em (1) ‘y solicita que se instruya la investigación correspondiente a efectos de proceder con la sanción del o los responsables’;

Tabela 1
Número de ocorrências dos verbos de dizer em ordem decrescente
Número de ocorrências dos verbos de dizer em ordem decrescente
Lugli (2017).

ii) orações completivas cujo sentido da solicitação é o de uma ordem atenuada, por meio da qual não se dispõe uma opção de escolha para a plenária, com força de asserção [1], como em (2) ‘A moción del Parlamentario R[21] se solicita suspender la lectura del Acta en virtud de que la misma está en poder de todos los presentes’, e em (3) ‘ ...solicita que el proyecto por el cual se pide informe al Parlamento del MERCOSUR ....sea acumulado con el que fue despachado por la Comisión de Asuntos Económicos para tratarlos en forma conjunta’;

iii) orações completivas com o sentido de realização de uma ação presente ou futura, como em (4) ‘El Presidente 3 solicita un aplauso para la Parlamentaria 4 y le hace llegar sus felicitaciones’. O valor da força de asserção desse tipo de oração é forte [1], pois se trata de um pedido que deve ser cumprido, no entanto, menos forte por remeter ao sentido de um simples ‘pedir’. É considerada menos forte do que quando se solicita a realização de uma ação por escrito e não momentânea, tal como por em prática algo, realizar um projeto etc.

O verbo ‘solicitar’ é, consequentemente, nesse contexto, um verbo de dizer, do mesmo grupo de ‘pedir’, mas se caracteriza como um modo de ‘pedir’ mais formal. É um verbo utilizado no gênero, tanto para explicar como para argumentar.

No que se refere à autoria da solicitação, pode-se constatar que a responsabilidade sempre é atribuída ao solicitante, demonstrando que o redator da Ata é apenas o mediador da informação reportada de fonte definida que emerge em 98,5% das ocorrências. Há exceção, unicamente, quando aparece o sintagma ‘se solicita’, que consideramos um verbo de dizer de fonte indefinida.

Com 59 ocorrências, o verbo ‘recomendar’ é de conselho e ordem. Neste trabalho, considera-se esse verbo de força assertiva [1] ou [2], dependendo de seu uso. Trata-se de um verbo orientado para o agente a quem se dirige a recomendação. Nas Atas do Parlamento, o agente da interação é o Conselho de Mercado Comum (CMC) que tomará as decisões referentes ao que se recomenda.

Desse modo, trata-se de um verbo que não é mobilizado para transmitir informação, mas para propor ações. Assim, o marcador evidencial é de fonte definida em 80,83% das ocorrências. São organizados, por meio dele, enunciados com valores impositivos em que os parlamentares impõem ações aos destinatários aos quais se dirigem.

Nesse sentido, estão sob seu escopo:

i) orações completivas com força de asserção [2], como em (5): ‘Propuesta de Recomendación, presentada el 02 de junio de 2011, por el Parlamentario 11 por la cual el Parlamento del MERCOSUR, recomienda al CMC incorporar con urgencia, políticas públicas para la implementación de medidas de control y prevención del dengue en los Estados Partes’;

ii) apenas uma oração completiva com o sentido de sugestão, cujo valor da força de asserção é apenas forte [1], como em (6): ‘El Parlamentario O comunica que la próxima reunión de la Mesa Directiva se realizará el 8 de setiembre y recomienda que las Comisiones sean convocadas para la misma fecha.’

O verbo agradecer, com 49 ocorrências, é de valor declarativo. Por ser um verbo de comportamento que descreve a sua própria ação, sua força de asserção é [0], como no exemplo (7): ‘El Presidente da la bienvenida al Señor Canciller de la República del Paraguay, Don Alejando Hamed Franco, quien concurre al Parlamento del Mercosur dando cumplimiento al artículo 4 inc. 7 del Protocolo Constitutivo del PM, y agradece la presencia del señor Canciller y de los invitados especiales’.

Por ter a função de expressar uma reação, constitui-se em verbo reportado com fonte definida em 100% das ocorrências, demonstrando, desse modo, ser uma fonte da informação testemunhada pelo uso de 3º pessoa do singular.

O verbo ‘declarar’, que apresentou 48 ocorrências no corpus, é de compromisso e apresenta forças de asserção [0], [1] ou [2]. Esse verbo está situado na periferia esquerda da proposição e tem a função de incluir uma informação nova sob seu escopo. Assim, estão sob seu âmbito de incidência

i) informações que são validadas e passam a ser oficiais, alterando um estado de coisas[22], como no exemplo (8), em que apresenta força [1]: ‘Propuesta por la cual se declara el 12 de junio como el día de los adolescentes y jóvenes por la inclusión social y la convivencia contra toda forma de violencia y discriminación en conmemoración al natalicio de Ana Frank (MEP 185/2016)’;

ii) informações que se utilizam para mudar um estado de coisas momentâneo, porém apenas com o sentido de informar, dar a conhecer, como no exemplo (2), em que apresenta força [0], como em (9): ‘Así se procede y confirmado el quórum (Anexo I), el Presidente declara abierta la XXXV la Sesión Ordinaria del PM’;

iii) informação que demonstra a postura, o sentimento com relação a alguma ação, como no exemplo (10), em que apresenta força [0]: ‘Propuesta de Declaración por la cual el PM declara su preocupación por el acuerdo militar entre EEUU y Colombia (57/2009/DE/SO XIX – MEP/281/2009). (22/2010/INFCOM/SO XXV – MEP/219/2010). Se aprobó el archivo’;

iv) informação em que se incita urgência com relação à tomada de alguma providência, como no exemplo (11), em que apresenta força [2]: ‘Propuesta de Declaración por la cual el PM declara instar a los Estados Parte del MERCOSUR a actuar en defensa de la soberanía e integridad territorial de cualquier Estado Parte ante la amenaza de agresión de cualquier Nación. (75/2009/DE/XIX/SO – MEP/345/2009) (21/2010/INFCOM/SO XXV – MEP/218/2010). Se aprobó el archivo’.

Trata-se de um verbo que se expressa como marcador evidencial de fonte definida em 95,82% das ocorrências.

O verbo informar é declarativo e teve 46 ocorrências no corpus analisado, podendo apresentar usos com forças [0] ou [1]. Estão sob o escopo do predicado do verbo ‘informar’:

i) ações futuras com força de asserção [0], como em (12): ‘Parlamentario P - informa que conforme con lo acordado con el parlamentario Q, se van a acumular su proyecto con el que fue aprobado por la Comisión de Asuntos Económicos’;

ii) ações passadas com força de asserção fraca [0], como em (13): ‘Parl.7 : Informa al Pleno que en la Sesión de Eurolat realizada el 16 de mayo en Lisboa, la Parlamentaria 4 fue nombrada Presidenta ante el componente de América Latina y el Caribe en el Foro de Mujeres de Eurolat, hecho que resalta la presencia de la Mujer Sudamericana.’;

iii) orações completivas que refletem o conhecimento de um perito e, por isso, com força de asserção [0], como em (14): ‘El Secretario Parlamentario informa que de acuerdo al RI, el Art 142 que está dentro de la Sección II, refiere a las mociones sobre tratamiento sobre tablas’;

iv) orações em que a forma verbal ‘informa’ funciona como ordem, com força [1], como em (15): ‘El Secretario Parlamentario B informa al pleno que corresponde se pase al punto relativo a la elección de Vicepresidente del Parlamento del MERCOSUR por Argentina’.

Desse modo, o verbo ‘informar’ é um verbo de dizer utilizado com a função de demonstrar que quem informa é legitimado para transmitir a informação. É mobilizado no gênero, tanto para fazer saber/conhecer, explicar, quanto para justificar, como em (15):‘Parlamentaria D - Informa que acaban de comprometerse y no han tenido tiempo de constituirse en grupos políticos como establece el Reglamento’.

Caracteriza-se como um marcador evidencial de fonte definida em 97,82% das ocorrências.

O verbo destacar indica maneiras de dizer de um líder e apresenta forças [1] ou [2]. Foram encontradas 43 ocorrências no corpus, das quais 93,02% são consideradas marcadores evidenciais de fonte definida.

Quando manifesta força [1], tem a função de chamar atenção sobre algo, como em (16): ‘Se destaca que la presente Sesión Extraordinaria será trasmitida en directo a toda América por tvvera.com.uy con el apoyo del ente de las comunicaciones. ANTEL’. Isso se deve ao fato de seu efeito de sentido assemelhar-se ao do verbo ‘informar’. Não há outros elementos linguísticos na cláusula que nos levem a interpretar que a informação está relacionada a algo ocorrido ou a algo que deva ser feito como consequência do ocorrido, diferente do que acontece com o verbo ‘destacar’ com força [2], em (17): ‘El Presidente V reitera lo informado por el Secretario Parlamentario y destaca que el Proyecto de Recomendación que trae este asunto encomienda la Comisión de Infraestructura, Transportes, Recursos Energéticos, Agricultura, Pecuaria y Pesca a realizar un seminario, y luego a solicitar a la Secretaría de Energía de la República Argentina información al respecto’.

Esse verbo ocorre sempre na periferia esquerda da proposição e tem a função de incluir uma informação que se refere a algo acontecido recentemente e sobre o qual se pretende valorizar ou opinar. Desse modo, estão sob seu âmbito de incidência informações que se referem a algum fato ocorrido e ainda sobre algo que deve ou pode ser feito.

O verbo ‘manifestar’ é mais um exemplo de verbo que indica maneiras de dizer de um líder, apresentando forças [0] ou [1]. Foram encontradas 33 ocorrências no corpus e em 100% das ocorrências pode ser considerado como marcador evidencial de fonte definida. Trata-se de um verbo declarativo utilizado para comunicar ideias.

Ao indicar força [0], mobiliza vocábulos relacionados aos sentimentos como desacuerdo, solidaridad, preocupación, rechazo, fallecimiento, pesar, repudio, beneplácito, apoyo, substantivos como criterios, importancia, preocupación, acuerdo, advérbios democraticamente e verbos de ação van a consensuar, no se cumplió, trabajarán. É considerado forte quando qualifica uma ação a ser realizada, ou seja, quando há um compromisso com uma ação futura, como no seguinte exemplo: ‘Seguidamente, el Presidente dio la bienvenida a las/os Parlamentarias/os de Paraguay, y destacó que se está en presencia de un hecho histórico para el MERCOSUR ya que son los primeros parlamentarios elegidos por elecciones democráticas. Asimismo manifestó que trabajarán juntos con la Mesa Directiva y estarán a disposición todos los parlamentarios para colaborar con ellos’.

Presentar’ apresentou 24 ocorrências e é um verbo declarativo que indica força [0]. Tem a função de introduzir assuntos a serem discutidos pela Plenária e funciona como marcador evidencial de fonte definida em 75% das ocorrências. Trata-se de um verbo que é utilizado com a finalidade de demonstrar que o autor da apresentação, é ao mesmo tempo, o responsável e o perito no assunto apresentado, como no exemplo (18) ‘El Presidente presenta una moción de orden en base a lo solicitado por el Parlamentario R para que se modifique el ordenamiento de la Sesión y tratar en primera instancia la Discusión y Votación del Orden del Día’.

Disponer é um verbo de ordem com forças de asserção [0] ou [2] que apresentou 23 ocorrências no corpus. Dessas ocorrências, 15 são de fonte definida.

Os eventos qualificados evidencialmente pelo verbo ‘disponer’ remetem a ordens que devem ser cumpridas como em (19) ‘Propuesta de Disposición por la cual el PM dispone organizar en el marco de la Comisión de Infraestructura un seminario sobre Situación actual y perspectivas del Corredor Bioceánico Mercosur Central’. Não há necessidade de argumentos e explicações quando se mobiliza esse verbo, pois, ao utilizá-lo, compreende-se que é necessário fazer algo. É uma unidade léxico-verbal que demonstra certeza, convicção com relação ao que se determina fazer e, por isso, tem força [2]. Quando apresenta força [0], indica posse, como em ‘De acuerdo con el Reglamento Interno el Parlamentario 3 dispone de quince minutos para presentar su programa de trabajo’.

O verbo proponer é de pedido implícito e apresenta força [1]. Foram encontradas 22 ocorrências no corpus. Dentre essas ocorrências, 86,36% são considerados marcadores evidenciais de fonte definida. Eles não têm a função de transmitir informação, mas a de propor ações para serem submetidas à avaliação. Sob seu âmbito da predicação estão orações que incitam a um fazer. Assim, seleciona como argumentos verbos que indicam ações a serem realizadas, como em [20]: ‘En tal sentido, concede la palabra al Parlamentario 1, quien ‘propone’ al Parlamentario Z para ocupar el cargo mencionado’; ou sintagmas nominais, como em: ‘... el parlamentario 22 ‘propuso’ la creación de dos Sub-Comisiones permanentes....’.

Conclusão

A aplicação dos critérios utilizados na pesquisa apresentou os seguintes resultados:

i) os verbos de dizer podem ser classificados de acordo com a tipologia estabelecida por Sánchez García (2009) e, dentre eles, manifestaram-se os verbos de pedido explícito, conselho e ordem, declarativo, compromisso, maneiras de dizer de um líder e pedido implícito;

ii) os dez tipos de verbos de dizer analisados apresentam fonte definida;

iii) somando-se o número de verbos de dizer com forças de asserção [1] e [2], constatamos que há mais verbos de dizer com força de asserção forte [1] e [2] do que fraca/neutra [0].

No que se refere aos marcadores evidenciais de fonte indefinida, identificamos que eles, do mesmo modo que os de fonte definida, absorvem força de asserção, pois são utilizados estrategicamente para não delegar a um único informante a autoria da informação, mas sim à coletividade que constitui o Parlamento do Mercosul.

Por meio dos dados obtidos, foi possível alcançar nosso objetivo de demonstrar que o estudo de verbos dicendi na língua espanhola requer a consideração de que esses verbos podem apresentar diferentes valores e diferentes forças enunciativas, pois os dados demonstraram que há mais verbos de dizer com força de asserção forte do que fraca/neutra. Há verbos, como ‘solicitar’, ‘recomendar’ e ‘destacar’, que apresentam tanto força [1] quanto força [2]. As diferentes forças demonstram ao mesmo tempo que os verbos indicam conteúdos de uma esfera de poder. Essas diferentes forças também se refletem na classificação de tipos de verbos como de pedido explícito, conselho e ordem, compromisso, maneiras de dizer de um líder, pedido implícito e declarativo.

Desse modo, o estudo sobre os verbos de dizer presentes no gênero Ata é relevante devido ao fato de esses verbos poderem orientar leituras diferenciadas que não refletem especificamente a neutralidade do dizer e a objetividade preconizadas por manuais de redação oficial sobre esse gênero, visto que há objetividade, mas não há neutralidade, pois os verbos apresentam diferentes forças assertivas. Diante desses dados, foi possível compreender que, embora as unidades léxico-verbais analisadas possam apresentar diferentes significados, de acordo com o DLE e o Clarín, nas Atas, elas apresentam uma única função: a de marcadores evidenciais.

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Notas

[1] A evidencialidade se refere ao modo de apresentação de uma informação em que se demonstra a fonte de obtenção do enunciado. É um fenômeno que compreende quatro subcategorias (visual, não-visual, inferencial ou reportativa). No entanto, neste trabalho, centraremos nossa análise unicamente na subcategoria reportativa.
[2] Analisamos, neste trabalho, 10 tipos de verbos de dizer, que apresentaram 424 ocorrências.
[3] São diferentes parlamentares que se expressam por meio desses verbos. Assim, queremos demonstrar que as informações apresentadas nesse gênero pelo secretário-enunciador da Ata são terceirizadas por delegarem o compromisso das informações aos parlamentares que participam das reuniões.
[4] Non-indicative moods and modalities, past tenses and perfects, passives, nominalizations and complementation strategies can acquire a secondary usage to do with reference to an information source. So can person marking. Perceptual meanings — visual or non-visual — can be encoded in demonstratives. Evidential extensions of these categories — which I call 'evidentiality strategies'.
[6] Garantir.
[7] Chamar a atenção sobre algo.
[8] Ameaçar.
[9] Dar um prazo para que uma ação se realize.
[10] Desafiar.
[11] Assemelha-se aos verbos declarativos.
[12] Atacar com força alguém de modo físico ou verbal.
[13] São usadas, segundo o autor, indistintamente.
[14] Desqualificar.
[15] Jogar na cara.
[16] Seu uso é descritivo.
[17] É uma proposta dirigida a outros com a finalidade de resolver um problema ou de chegar a um acordo.
[18] É um verbo de traço cortês.
[19] Diccionario de La Lengua Española (Real Academia Espanõla, 2015).
[20] Por formalidade, referimo-nos à polidez dada ao assunto, conforme propõe o Manual de Redação da Presidência da República (Brasil, 2002, p. 5).
[21] O procedimento metodológico adotado para substituir o nome dos parlamentares foi a utilização de letras em ordem alfabética. No entanto, como as letras não foram suficientes, em algumas citações presentes na análise eles estão representados por números.
[22] O estado de coisas manifestado por meio do verbo ‘declarar’ é alterado, pois o exemplo demonstra que o dia 12 de junho passa a ser um dia de celebração, de respeito de adolescentes e jovens. A partir do momento em que isso foi declarado, isso passou a ser oficial.
[5] [...] excepto decir, aportan distintos tipos de información sobre el acto lingüístico efectuado, siendo muchos los que incluyen una información que condiciona directamente la manera en que el receptor interpreta el discurso e imponen, por tanto, una cierta lectura, al destinatario (González, 1999, p. 3559).
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