Literatura

A presença das obras de José de Alencar na França (1863-1907)

The presence of José de Alencar’s works in France (1863-1907)

Valéria Cristina Bezerra
Universidade Federal de Goiás, Brasil

A presença das obras de José de Alencar na França (1863-1907)

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 41, núm. 1, 2019

Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 10 Fevereiro 2018

Aprovação: 15 Maio 2018

Resumo: A partir do momento em que José de Alencar adquiriu destaque no meio literário brasileiro, houve muitas tentativas fracassadas de tradução e publicação de suas obras em língua francesa. Décadas após a morte desse escritor, quando a sua obra passava para o cânone literário do país, dois de seus romances ingressaram no mercado editorial francês e tiveram publicação em jornais e numa coleção de aventuras. Les aventuriers ou le Guarani foi publicado no jornal Les Droits de l’Homme em 1899 e em livro em 1902, sob o título Le fils du soleil. Já Iracema: conte brésilien apareceu no jornal L’Action Républicaine em 1907, mas sua edição em livro só foi dada à estampa muito posteriormente. Este trabalho tem como objetivo identificar as iniciativas para a tradução das obras de Alencar entre 1863 e 1907 bem como investigar as formas de circulação e recepção das traduções de O Guarani e Iracema na França.

Palavras-chave: tradução, recepção, romance, José de Alencar, século XIX.

Abstract: From the moment when José de Alencar inscribed himself in the Brazilian literary setting, there were several efforts to translate and publish his works in French language, without success, however. Decades after his death, when his works entered the Brazilian literary canon, two of his novels took part in the French editorial market through daily press and adventure’s collection books. Les aventuriers ou le Guarani was published in the newspaper Les Droits de l’Homme in 1899 and as a book in 1902, with a new title: Le fils du soleil. Another book, called Iracema: conte brésilien, appeared in the newspaper L’Action Républicaine in 1907, but its release in book had to wait many years to be seen. This article proposes to identify the initiatives to translate Alencar’s works between 1863 and 1907 as well as to investigate the manners of circulation and receptions of translations of O Guarani and Iracema in France.

Keywords: translation, reception, novel, José de Alencar, 19th century.

Introdução

Os textos críticos veiculados na França sobre a literatura do Brasil apresentam, de maneira bastante corrente, queixas por parte de seus autores quanto à ausência de obras literárias brasileiras traduzidas para o idioma francês. Ao longo de todo o século XIX, poucas foram, de fato, as iniciativas: Eugène de Monglave verteu Caramuru e Marília de Dirceu ainda nas primeiras décadas do XIX; em 1875, Sant-Anna Nery publicou sua tradução de poemas de Gonçalves Dias em uma antologia intitulada Un poète du XIXe siècle; em 1885, a antologia de poesias organizada por Melo Morais Filho, Parnaso Brasileiro, apareceu em francês através de tradução de Émile Allain (Cunha, 1997; Abreu, 2008). Somente em 1883 é que um romance brasileiro foi objeto de tradução, Inocência, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, publicado em folhetim, tendo sido veiculado no mesmo formato novamente em 1895 e editado em livro em 1896 (Heineberg, 2017). Anos mais tarde, a tradução de O Guarani foi publicada, integralmente, em folhetins em 1899 e difundida em livro em 1902. Em 1907, o romance Iracema apareceu traduzido em folhetim. Machado de Assis só teve uma obra transladada para o francês em 1910, Quelques Contes, publicado por Garnier Frères (Audigier, 2008); no ano seguinte, foi a vez de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Canaã, de Graça Aranha, foi vertido em 1910 (Cunha, 1997; Abreu, 2008). No entanto, a partir já de meados do século XIX, não faltaram tentativas de tradução em francês de obras de José de Alencar.

Primeiras iniciativas

Em 1863, o Diário do Rio de Janeiro publicou uma pequena nota sobre o periódico Le Brésil, no qual se destaca o início da tradução francesa do romance O Guarani:

Le Brésil – Publicou-se o 2º número desta folha, contendo o resto dos documentos diplomáticos sobre a questão anglo-brasileira; e mais – Estrada de ferro de D. Pedro II – Crônicas das Belas-Artes – Questão Macau-chinesa – Conflito dos vapores peruanos – Notícias da Europa – O cavalo dourado pelo homem – Extinção do pauperismo – Fatos diversos – Comércio e o começo da tradução francesa do romance Guarani (Diário do Rio de Janeiro, 18 jan. 1863)[1].

De acordo com as pesquisas de Ilana Heineberg, o periódico Le Brésil era editado por brasileiros no Rio de Janeiro e tinha por objetivo divulgar o país na Europa, sobretudo na França. Mas teve uma existência bem curta, contando apenas com oito números, o que permitiu a tradução e difusão de somente sete capítulos do romance (Heineberg, 2015). Não há informações sobre quem foi o tradutor e não se explicitam as razões da escolha de O Guarani para a difusão em suas páginas, mas é provável que seus editores estivessem atentos ao tipo de narrativa que poderia causar interesse no leitor estrangeiro. As expectativas do público europeu em relação às obras do Novo Mundo giravam em torno de paisagens exóticas e de enredos voltados para temas históricos e indígenas (Brzozowski, 2001). O Guarani parecia atender a essa exigência e estar mais apto a captar a atenção do leitor francês.

Esse romance recebeu no início da década de 1870 outra tradução francesa, dessa vez possivelmente de forma integral. Sacramento Blake, no seu Diccionario bibliographico brasileiro (1899), indicou a existência de uma tradução, realizada por Adolphe Hubert, que a teria remetido ao prelo em 1871. Essa versão foi referida pelo próprio Alencar em recibo, no qual fazia a cessão da propriedade perpétua ao livreiro-editor Baptiste-Louis Garnier dos romances O Guarani, Lucíola, CincoMinutos e A Viuvinha e se comprometia a, segundo declarou, “[…] respeitar por um ano a permissão gratuita que dei a A. Hubert para imprimir a tradução francesa do Guarani” (Alencar, 23 ago. 1870). Infelizmente, não há notícia da efetiva existência dessa edição.

Esse romance também despertou o interesse de Adèle Toussaint-Samson em traduzi-lo. No seu relato de viagem Une Parisienne au Brésil, publicado em 1883, Toussaint-Samson ofereceu suas impressões do país durante sua estadia no Rio de Janeiro. Nesse livro, a autora, que viveu no Brasil durante doze anos, entre as décadas de 1850 e 1860, conta anedotas sobre o dia a dia dos habitantes, seus costumes, fazendo comentários ainda a respeito das atividades artísticas da cidade. Certamente, testemunhou o sucesso da recepção de O Guarani durante a sua veiculação nos folhetins do Diário do Rio de Janeiro, o que deve tê-la levado ao entusiasmado registro:

Um de seus melhores romances é aquele que tem por título O Guarani, de Alencar, do qual me proponho a oferecer uma tradução, qualquer dia desses, ao público parisiense. É uma pintura fiel da vida do indígena, que é, ao mesmo tempo, poética e verdadeira. Eu traduzi ainda do “brasileiro” uma pequena novela intitulada Cinco Minutos, à qual não falta originalidade; ela é também produto da pena de Alencar, cujo talento é incontestável (Toussaint-Samson, 1883, p. 202, grifo nosso)[2].

Não se têm notícias da publicação de nenhuma das duas traduções referidas por Toussaint-Samson. Em 1885, de acordo com informação de Raphael Quintela, o jornal bilíngue de propaganda Chronica Franco-Brazileira iniciou a publicação de outra versão traduzida de O Guarani (Quintela, 2013). Ilana Heineberg deu continuidade às investigações a respeito e identificou que a tradução foi realizada por Alfred Marc, jornalista francês e viajante, autor de livros sobre o Brasil e redator da Chronica Franco-Brazileira (Heineberg, 2017). A revista, de direcionamento republicano, teve início em 25 de setembro de 1885, número no qual veiculou em seu editorial, de autoria de Lopes Trovão, os propósitos da publicação. Dentre eles, tinha

[...] por intuito capital concorrer, na capacidade de todas as nossas forças, para mais vulgarizar no Brasil costumes e instituições francesas de cuja adoção resultar-lhe-á utilidade evidente e para patentear à França os elementos de progresso que o povo brasileiro já começou de acumular e que ela poderá aproveitar fecundamente no sentido dos seus próprios interesses legítimos (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 1).

A finalidade do periódico era, portanto, mostrar o desenvolvimento do país através de textos publicados em francês, pois o redator entendia que, por meio desse idioma, seria possível tornar o Brasil “[…] compreendido pela maioria do mundo civilizado” (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 2). Quanto aos artigos que versavam sobre a França, estes eram escritos em português, para assim efetivar a troca entre os povos dos dois países. Em editorial em francês, os redatores acrescentaram: “Queremos mostrar à Europa os imensos recursos que o Brasil possui e lhe revelar os seus progressos artísticos, literários, industriais, científicos, agrícolas, econômicos” (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 11)[3].

Nesse intento de comprovar os avanços literários brasileiros, o periódico publicou O Guarani em francês, mas apenas 12 capítulos do romance foram veiculados, entre 10 de outubro de 1885 e 15 de agosto de 1886, ano em que teve fim a publicação do periódico. O primeiro número da Chronica Franco-Brazileira ofereceu a seguinte nota de apresentação da obra:

A partir do próximo número, a Chronique Franco-Brésilienne oferecerá a seus leitores da Europa uma amostra da literatura popular do Brasil. Escolhemos um romance famoso no outro lado do Atlântico, onde ele é considerado uma obra-prima. Le Guarani, de José de Alencar, é um estudo de uma extrema intensidade de vida, de um pitoresco notável, de uma originalidade rara, que põe em cena esses indígenas indômitos, cuja reputação ainda hoje é aterrorizante, e os Portugueses do tempo da conquista. Ele reproduz as peripécias dramáticas da colonização, e faz ressurgir para os leitores do século XIX um mundo quase inteiramente perdido. Le Guarani aparecerá regularmente em folhetim a partir do segundo número deste jornal (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 20)[4].

A nota toca numa especificidade do romance que possivelmente favoreceu a sua repercussão no exterior. Trata-se de uma obra popular e, ao mesmo tempo, representativa da literatura nacional, constituindo-se num chef-d’œuvre da produção literária brasileira. Ela tinha a capacidade, portanto, de envolver o leitor interessado em recreação e também de dizer a respeito do desenvolvimento literário do Brasil aos leitores estudiosos e curiosos pelos progressos artísticos nos diferentes países do mundo. Alencar procurou enriquecer a literatura do país, sem perder de vista o diálogo com o público de massa em sua intensa busca por ser compreendido e lido. Essas características do fazer literário de Alencar favoreceram a sua repercussão entre leitores de diferentes lugares do mundo. O escritor tinha ainda a preocupação de fazer a literatura brasileira conhecida no exterior, pois, dentre as atividades que Alencar realizou na Europa com o fim de difundir a sua produção e a literatura brasileira, consta a relação que manteve com o brasilianista francês Ferdinand Denis, relatada por este em carta a Pereira da Silva em 14 de junho de 1876, e indicada na dedicatória feita por Alencar a Denis no exemplar de Ubirajara que lhe foi ofertado pelo autor (Figura 1):

Cercado de uma família numerosa, para a infelicidade de seus trabalhos literários, e chegando aqui de improviso, numa estação deplorável, ele viu sua saúde declinar e a de sua mulher lhe causar algumas vezes preocupações; como consequência, ele teve que adiar alguns de seus trabalhos literários, para os quais, ao visitá-lo, coloquei à disposição meus livros e minha pessoa sempre que necessário (Denis, 14 jun. 1876)[5].

Detalhe do frontispício de Ubirajara, pertencente a
Ferdinand Denis. Dedicatória assinada por José de Alencar.
Figura 1.
Detalhe do frontispício de Ubirajara, pertencente a Ferdinand Denis. Dedicatória assinada por José de Alencar.

Em uma dessas trocas de visitas, Alencar lhe ofereceu um exemplar de Ubirajara autografado, conservado atualmente pela Bibliothèque Sainte-Geneviève, em Paris.

Durante sua vida, Alencar atuou em favor de sua projeção no exterior. Contudo, apenas no final do século XIX é que a tradução francesa de O Guarani chegou integralmente às mãos dos leitores franceses, depois de contar com traduções para o italiano, em 1864, o alemão, em 1872, e o inglês, em 1893. Em 1899 a obra apareceu publicada no rodapé das páginas do jornal francês Les Droits de L’homme, sob o título Les Aventuriers ou le Guarani.

Aspectos da recepção de O Guarani em língua francesa

O primeiro capítulo do romance circulou no dia 15 de janeiro de 1899 e o último em 11 de abril do mesmo ano, contabilizando 71 entregas. O jornal Les Droits de L’homme foi fundado em 1898, por iniciativa de Henri Deloncle, e tinha como orientação o republicanismo, o anticlericalismo e o dreyfusismo (Heineberg, 2015). Contendo quatro páginas e custando 5 centavos, era herdeiro da empreitada editorial de massificação da imprensa periódica ocorrida desde o Segundo Império, quando em 1863 Le PetitJournal passou a ser vendido por número (o que pôs fim à necessidade de assinatura mensal ou anual) e pelo valor de 1 sous (5 centavos de franco), procedimento que mudou a atividade da imprensa na França ao generalizar-se entre os concorrentes. Anne-Marie Thiesse mostra que o valor de um exemplar correspondia, na Belle Époque, a 12,5% do preço de um quilo de pão; 17% do preço do litro de leite e 33% do bilhete de metrô (Thiesse, 2000). Quanto aos salários, as crianças ganhavam 1 franco por dia, as mulheres em média 2 francos e os homens, a depender da função, recebiam de 2 a 6 francos na província e até 10 em Paris. Ou seja, o jornal passava a ser realmente acessível ao povo. Além disso, uma série de leis concernentes à educação, implementadas ao longo do século (Démier, 2000), favoreceu a formação de uma massa de leitores, fator que permitiu o surgimento de um público correspondente à ambição de expansão da imprensa.

O tradutor de O Guarani, Louis-Xavier de Ricard (1843-1911) atuou intensamente na imprensa francesa. Manteve contato com literatos e participou do movimento parnasianista, o que lhe rendeu alguns livros de poesia. Mas seu engajamento maior residiu em princípios anticlericais, republicanos, federalistas e no félibrige, estes dois últimos consistindo na promoção cultural e política da região do Sul da França, em que viveu e atuou boa parte de sua vida (Cabasse, 1977). Em 1882, partiu para a América do Sul, onde fundou alguns jornais: durante a residência na Argentina, inaugurou o periódico L’Union Française; no Paraguai, o jornal Le Rio-Paraguai. Em 1885, instalou-se no Rio de Janeiro, cidade em que fundou Le Sud-Américain, ao lado de Georges Lardy, provocando algumas polêmicas.

De volta à França, passando por problemas financeiros (Peyronnet, 1997), exerceu com intensidade a atividade jornalística e literária, dando à estampa, dentre outros trabalhos, a sua tradução de O Guarani no jornal Les Droitsde l’Homme, a qual possivelmente atendeu antes a interesses pecuniários de Ricard do que ao afã de divulgar a literatura brasileira na França. A empreitada parece ter tido êxito, pois logo em 1902 a mesma versão saiu em livro, a 3,75 francos (valor corrente dos romances populares na época), testemunhando um fenômeno comum no período, como mostra Thiesse (2000, p. 84): “Retomando um folhetim para uma publicação em volume, o editor empenha seus recursos numa obra certa e já conhecida, o que reduz os custos de lançamento e os riscos de fracasso”[6].

O editor Jules Tallandier, que adotou amplamente essa estratégia, havia adquirido os direitos de reprodução da tradução de O Guarani, incorporando-a ao seu catálogo. Conforme pesquisas de Matthieu Letourneux e Jean-Yves Mollier (2011), a livraria Tallandier investia por essa época em gêneros e formatos muito apreciados pelo público de massa, dentre eles o romance de aventuras, que, em 1899, ganhou uma coleção própria pela casa, a Bibliothèque des Grandes Aventures, pela qual o romance de Alencar, dessa vez sob o título Le fils du soleil, foi publicado, conforme indicam as informações presentes na capa do livro reproduzida na Figura 2.

A atuação de Jules Tallandier no negócio de livros populares, segundo Letourneux e Mollier, tornou-o um dos editores populares mais importantes de Paris, ao propiciar um desenvolvimento desconhecido até então à editora.

O percurso das traduções desse romance de Alencar na França testemunha o modo de funcionamento do mercado de impressos nesse país e confirma o perfil de obras brasileiras que poderiam constituir o interesse de um público estrangeiro, pois até então apenas O Guarani havia recebido de fato uma tradução em francês, em detrimento de romances que tematizavam a sociedade brasileira da época, como Lucíola, Senhora, dentre outros. Essa prevalência do interesse pelo exotismo se verifica no propósito de publicação de outro romance de Alencar que oferece uma imagem exótica do país, O Tronco do Ipê, anunciado como obra em preparação a partir do ano de 1905 por P.V. Stock éditeur, em versão intitulada Le tronc de l’ipé: mœurs brésiliennes, como exemplifica uma das páginas iniciais da edição em livro de Le Crime de Lord Arthur Savile, de Oscar Wilde (1905), traduzido por Albert Savine, responsável por uma série de traduções da casa, inclusive a desse romance de Alencar (Figura 3).

Capa de Le fils du soleil, publicado pela editora Tallandier.
Exemplar conservado na Bibliothèque Nationale de France.
Figura 2.
Capa de Le fils du soleil, publicado pela editora Tallandier. Exemplar conservado na Bibliothèque Nationale de France.

Anúncio de
Le tronc de l’ipé, presente
em tradução francesa de livro de Oscar Wilde, Le
Crime de Lord Arthur Savile (1905, p. ii).
Figura 3.
Anúncio de Le tronc de l’ipé, presente em tradução francesa de livro de Oscar Wilde, Le Crime de Lord Arthur Savile (1905, p. ii).

Até o momento não há pistas que indiquem a efetiva publicação dessa tradução de O tronco do Ipê. Entre 1906 e 1908, várias obras da editora continuavam anunciando o futuro lançamento do romance, sem que a publicação tenha, aparentemente, ocorrido.

A incursão de Iracema em território francês

Em 1907, Iracema saiu traduzido em folhetim no jornal L’Action Républicaine, em versão de Philéas Lebesgue, e seria publicado em livro apenas em 1928. O primeiro folhetim abre com uma carta, mas em vez de ser a tradução da epístola original de Alencar destinada ao Dr. Jaguaribe, a qual enceta Iracema, trechos dela foram usados numa correspondência transcrita no início do romance, assinada por Lucien e destinada a Georges, na qual se lê a seguinte passagem, que muito se aproxima do texto de Alencar: “Il faut lire cela durant l’heure ardente de la sieste, quand le soleil darde à pic sur la campagne ses rayons de feu et que la nature est livrée toute aux effluves puissants de l’irradiation tropicale” (L’Action Républicaine, 1907, p. 3). O trecho remete à seguinte passagem da carta de abertura do romance original:

Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco sítio da várzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal.

Imagino que é a hora mais ardente da sesta.

O sol à pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantas languem. A natureza sofre a influência da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o gênio, as duas mais sublimes expressões do poder criador (Alencar, 1865, p. i-ii).

O ‘Argumento histórico’, que na primeira edição de Iracema aparece como nota ao final do volume, também se encontra traduzido, inserido como pós-escrito dessa mesma carta de Lucien, ainda no primeiro folhetim de veiculação do romance. Lebesgue teve o cuidado de imprimir em sua tradução os elementos paratextuais de Iracema, criados por Alencar, para embasar a leitura da obra pelo leitor estrangeiro, mesmo que alterando o contexto da carta, o seu emissor e o destinatário. Iracema: conte brésilien foi publicado no espaço do folhetim do periódico entre os números 51 e 62, integralmente.

Seu tradutor, Philéas Lebesgue (1869-1958) foi um prolífico escritor francês, autor de poesias, romances e novelas, dramas e ensaios. Notável em sua época entre seus confrades, foi chamado a colaborar com mais de 200 revistas (Beauvy, 2011). O papel de destaque que desempenhou nas letras resultou, principalmente, de seu interesse pelas diferentes culturas, sejam elas estrangeiras ou internas ao seu próprio país (como Xavier de Ricard, foi félibre e promotor da cultural regional). Estudou muitos idiomas, aprendizado que lhe permitiu conhecer as literaturas dos mais diferentes países, como atesta declaração de Lucien Vuilhorgne em carta destinada a Lebesgue em 17 de fevereiro de 1896:

Que conhecimento profundo das literaturas comparadas evoca em meu espírito a sábia discussão na qual o senhor teve quase a única e melhor participação! Literatura hindu, língua sânscrita, literatura celta, gaélica, nosso poeta tudo leu, tudo digeriu (Beauvy, 2004, p. 15)[7].

As trocas que estabeleceu com literatos de diversos países lhe asseguraram um lugar de reconhecimento na promoção das letras estrangeiras, tornando-se muito requisitado pelos confrades para a composição de traduções ou artigos críticos. Lebesgue colaborou ainda com o Mercure de France, entre 1896 e 1940, assinando rubricas como “Lettres Portugaises”; “Lettres Norvégiennes”, “Lettres Néo-grecques”; “Lettres Yougoslaves” e, por algumas vezes, “Lettres Brésiliennes”. Do Brasil, introduziu no meio francófono, além de Iracema, títulos como Janna et Joël, de Xavier Marques; Macambira, roman brésilien (1920) e La Tapera (1943), de Coelho Neto, além do conto Um enfermeiro, de Machado de Assis (Beauvy, 2004). Graça Aranha apontou o prestígio de Philéas Lebesgue na difusão das letras brasileiras. Após sua obra A estética da vida ter sido comentada pelo escritor francês em texto crítico publicado em Le Monde Nouveau, Aranha lhe escreveu em carta: “Graças à autoridade de seu estudo magistral, uma grande curiosidade foi despertada em torno do livro, que repercute e que provavelmente aparecerá em francês” (Beauvy, 2004, p. 489)[8].

Cláudio Veiga (1998) aponta que Lebesgue encontrava-se com brasileiros na França e entretinha correspondência com diversos escritores brasileiros, que lhe davam notícias sobre a literatura do Brasil e lhes enviavam livros dos autores nacionais. Provavelmente o contato com a obra de Alencar deu-se através desse intermédio. Philéas Lebesgue, após a publicação de Iracema em folhetim no jornal L’Action Républicaine, ofereceu-o a uma editora nomeada La Renaissance du Livre, que lhe respondeu: “Não é preciso dizer que dedicaremos toda o nosso interesse na leitura de Iracema, vindo de você. Envie-o então” (Beauvy, 2004, p. 508)[9]. No entanto, de acordo com Beauvy, a publicação nunca veio a lume. O texto da tradução de Iracema foi preparado para edição em livro apenas na década de 1920, conforme se depreende em carta de Graça Aranha a Lebesgue: “Parabenizo-o por ter conseguido preparar a edição de sua harmoniosa tradução desse poema tropical” (Beauvy, 2004, p. 508)[10].

Por essa época, Lebesgue se envolveu numa interessante polêmica, na qual reclamou sua precedência na tradução de Iracema. Segundo Beauvy, uma revista parisiense intitulada Le Soc anunciou a veiculação no seu folhetim de uma tradução desse romance, alegando ser a primeira realizada em idioma francês. Suspeitando que sua tradução de Iracema estava sendo alvo de contrafação pela revista, Lebesgue enviou à redação uma carta, pedindo provas da efetiva existência dessa segunda versão. Ainda de acordo com Beauvy, a publicação na revista Le Soc acabou não se concretizando. Iracema saiu novamente em 1928, em livro pela editora Gédalge, versão que oferece alterações em relação ao texto inicial publicado no L’Action Républicaine, em 1907 (Beauvy, 2011, p. 220).

Jean-Michel Massa deteve-se nas diferenciações existentes na versão publicada em livro em 1928 em relação ao texto original de Iracema, destacando alguns aspectos dessas alterações realizadas por Lebesgue. Chamou-lhe a atenção as omissões de passagens tidas como eróticas, as quais Massa explica terem sido feitas em atenção aos propósitos da coleção que o romance integrou e de seu público (Massa, 1971, p. 49-55). Intitulada Collection Aurore, a iniciativa editorial foi designada pelo editor como uma “[…] nova coleção de obras que podem estar ao alcance de todas as mãos”[11], como se pode ler numa das páginas iniciais da edição de Iracema de 1928. Ela destinava-se, portanto, a um público diverso, composto por homens, jovens e mulheres, que, segundo o editor, teriam acesso a obras preservadoras da moralidade. Massa entende que a tradução de Lebesgue buscou ocultar qualquer sugestão erótica presente na obra original, mas um cotejo entre a tradução publicada em jornal em 1907 e aquela editada posteriormente em livro revela que a primeira versão se ateve com mais fidelidade ao romance original, na qual constam, com as mesmas minúcias descritivas da obra de Alencar, as passagens que Massa constatou terem sido suprimidas. Decerto, as condições de publicação do romance no jornal não sofreram as coerções impostas para sua publicação em volume, e o leitor do jornal L’Action Républicaine pôde ter acesso ao teor do romance sem restrições.

O mercado de traduções na França

Diante da instigante entrada do romance de Alencar na França, da quantidade de iniciativas de tradução em língua francesa e da tardia efetivação desse intento, faz-se interessante verificar os dados sobre a presença de traduções no mercado editorial francês para se identificar o nível de aceitação da literatura produzida fora desse país. Em Histoire des traductions en langue française (2012), Blaise Wilfert-Portal mostra que, entre 1840 e 1910, a tiragem de livros na França cresceu vigorosamente. Extraindo dados apresentados por Frédéric Barbier em Histoire de l’édition française, o autor constata que a produção de livros entre 1840 e 1875 multiplicou-se por três, indo de 4.630 títulos em 1840 a 14.195 em 1875, chegando a 20.951 em 1900.

Dentre as fontes para suas investigações sobre as traduções literárias nesse período, Wilfert-Portal recorreu ao Catalogue Général da la Librairie Française, de Otto Lorenz e Daniel Jordell. É importante destacar, como o próprio estudioso informa, que não entram nas suas estatísticas as traduções para o francês publicadas fora das fronteiras da França, como aquelas editadas na Suíça, Quebec e Bélgica, sendo este último país um importante centro editorial na época, cujas produções e contrafações percorriam o mundo e tinham entrada inclusive na França. Também não são incluídas no seu levantamento as traduções veiculadas em folhetim. Dessa forma, seus resultados devem ser ponderados. Em 1840, de um total de 924 títulos de prosa de ficção, 73 eram traduções, equivalendo a 7,9% da edição de livros na França. Nas décadas seguintes, houve um aumento tímido de títulos traduzidos publicados, alcançando um pico de 18% entre 1855 e 1859, com 257 traduções de um total de 1.421 obras. Entre 1870 e 1875, a porcentagem foi inferior, 14%, mas a quantidade de obras traduzidas se manteve estável. De 1.690 títulos, 249 eram traduções. Na virada entre o século XIX e o século XX, quando apareceram as publicações da versão francesa de O Guarani, a porcentagem de traduções girava em torno de 7%. No entanto, houve um forte aumento da quantidade total de títulos publicados. Entre 1900 e 1905, de 6.464 obras, 463 eram traduções.

Wilfert-Portal compara os resultados a que chega aos apresentados por Franco Moretti (2003), em seu Atlas do romance europeu, que também explicita uma baixa presença das traduções na França e na Inglaterra entre o final do século XVIII e meados do XIX. A partir dos dados de Moretti e da história da imprensa francesa, Wilfert-Portal propõe que os relativamente baixos índices de tradução literária e o fechamento da França para a literatura estrangeira são resultado da nacionalização da produção e do consumo de romances. O autor destaca o papel dos novos suportes, como o romance-folhetim e o formato popular in-18 (chamado formato Charpentier), na expansão do status nacional da produção literária em oposição à literatura estrangeira. Para Wilfert-Portal (2012, p. 291)[12], “Industrialização e estruturação nacional do mercado estão, dessa forma, estreitamente ligadas”. A partir do conjunto de dados, Wilfert-Portal conclui:

Esses números apresentam um quadro bastante claro. De maneira geral, o mercado da literatura traduzida em francês fechou-se nitidamente, em proporção, a ponto de se estabilizar a níveis muito baixos, próximos da situação atual da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, os espaços literários ricos e desenvolvidos mais fechados do mundo e, ao mesmo tempo, os mais fortes exportadores em direção aos sistemas muito mais abertos à tradução, como os da Europa ocidental (2012, p. 305)[13].

Wilfert-Portal mostra que, num mercado cada vez mais competitivo, os editores procuravam variar suas ofertas para alcançarem uma fatia do público. A tradução angariou algum espaço através, dentre outros gêneros populares, do romance de aventuras, com obras de autores como Fenimore Cooper, Mayne Reid e Marryat, escritores ao lado dos quais Alencar foi situado, cujos romances O Guarani e Iracema obtiveram sua entrada nesse mercado fechado e seletivo.

Considerações finais

Observando as características dos suportes em que a tradução de O Guarani foi veiculada, folhetim de jornal diário e livro de coleção popular, esse romance pode parecer não ter sido dado ao público francês como uma obra nacional representativa da literatura brasileira, mas como um romance popular e de aventuras. Além do mais, seu tradutor Xavier de Ricard não pretendia com seu trabalho promover a literatura do Brasil ou prestigiar José de Alencar, como se depreende de suas palavras no prefácio à edição em livro:

Não costumo ceder à habitual mania dos tradutores de exagerar o valor e os méritos da obra que traduzem. José de Alencar tem certamente um lugar marcado e em um patamar de honra na literatura brasileira. Mas ele não é um desses gênios indispensáveis cuja ausência causaria lacuna na história intelectual da humanidade (Ricard, 1902, p. vi)[14].

No entanto, mesmo alinhado a uma forma de difusão popular, o romance correspondia à perspectiva exótica esperada para uma obra proveniente do Novo Mundo, fator que se fazia essencial para a originalidade literária dessas jovens nações.

Philéas Lebesgue teve postura distinta à de seu homólogo Xavier de Ricard quanto às letras brasileiras. Lebesgue dedicou seu empenho crítico na redação da coluna Lettres brésiliennes, do jornal Mercure de France, cultivou boa relação com homens de letras brasileiros, dentre eles Graça Aranha, e resenhou e traduziu obras de autores do Brasil. O seu Iracema possivelmente não teve a mesma acolhida popular que O Guarani, pois esperou mais de vinte anos para ser publicado em livro, apesar da boa relação de Lebesgue no meio literário e de seu esforço em favor das letras brasileiras. Para além dos percursos distintos sugeridos por essas duas obras no meio francês, vale ressaltar o pioneirismo desses romances na introdução da literatura brasileira na França, país que desempenhava um papel de centro cultural na época, o que o tornava um mercado literário fechado, como mostram as interpretações de Wilfert-Portal (2002) e Franco Moretti (2003). Apesar das dificuldades, esses romances ousaram transpassar as barreiras e se colocaram no competitivo mercado editorial francês, redimensionando as trocas culturais em vigor na época entre Brasil e França e contribuindo para a divulgação da literatura brasileira naquele país, fator insistentemente buscado pelos homens de letras brasileiros, que viam na difusão europeia uma maneira de dar visibilidade à produção nacional.

Agradecimentos

Este trabalho foi realizado com bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Referências

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Notas

[1] Agradeço a informação da existência dessa nota a Rodrigo Camargo de Godoi.
[2] Un de leurs (sic) [de la littérature brésilienne] meilleurs romans est celui qui a pour titre le Guarany, par Alaincar (sic), et dont je me propose d’offrir une traduction, un de ces jours, au public parisien. C’est une peinture fidèle de la vie de l’Indien, qui est, en même temps, poétique et vraie. J’ai traduit aussi du brésilien une petite nouvelle appelée Cinco Minutos, qui ne manque pas d’originalité; elle est due aussi à la plume d’Alaincar, dont le talent est incontestable”. Todas as traduções de citações usadas neste artigo são de minha autoria.
[3] Nous voulons découvrir à l’Europe les immenses ressources que le Brésil possède; lui révéler ses progrès artistiques, littéraires, industriels, scientifiques, agricoles, économiques”.
[4] “Dès son prochain numéro, la Chronique Franco-Brésilienne offrira à ses lecteurs d’Europe, un spécimen de la littérature populaire du Brésil. Nous avons choisi un roman célèbre au-delà de l’Atlantique, où il est considéré comme un chef-d’œuvre. Le Guarany de José d’Alencar, est une étude d’une extrême intensité de vie, d’un pittoresque achevé, d'une originalité rare, qui met en scène ces Indiens farouches dont la réputation est aujourd’hui encore terrifiante, et les Portugais du temps de la conquête. Il retrace les péripéties émouvantes de la colonisation, et ressuscite pour les lecteurs du XIXe siècle, un monde presqu’entièrement disparu. Le Guarany paraîtra régulièrement en feuilleton, dès le second numéro de ce journal”.
[5] “Entouré malheureusement pour ses travaux littéraires d’une famille nombreuse et, tombant tout à coup chez nous, dans une saison déplorable, il a vu sa santé décliner et celle de sa femme lui donner parfois de l’inquiétude; il a dû en conséquence ajourner quelques-uns de ses projets littéraires, pour l’accomplissement desquels j’ai mis, en lui allant rendre sa visite, mes livres et ma personne à sa disposition, toutes les fois que cela pourrait lui être nécessaire”.
[6] “Reprenant un feuilleton pour une publication en volume, l’éditeur engage ses capitaux sur une œuvre sûre et déjà connue, ce qui réduit les frais de lancement et les risques de l’échec”.
[7] “Quelle connaissance profonde des littératures comparées évoque en mon esprit l’entretien savant où M. Lebesgue avait presque la seule et meilleure part ! ! Littérature hindoue, langue sanscrite, littérature celtique, gaëlique, notre poète a tout lu, tout digéré”.
[8] “Grâce à l’autorité de votre étude magistrale une grande curiosité s’est éveillée autour du livre qui se répand et va peut-être paraître en français”.
[9] “Il va sans dire que nous apporterons toute notre sympathie à lire Iracema venant de vous. Envoyez donc”.
[10] Je vous félicite vivement d’avoir réussi à faire l’édition de votre harmonieuse traduction de ce poème tropical”.
[11] “[…] nouvelle collection d’ouvrages pouvant être mis entre toutes les mains”.
[12] “Industrialisation et structuration nationale du marché sont ainsi étroitement liées”.
[13] “Ces chiffres présentent un tableau assez clair. D’une manière générale, le marché de la littérature en traduction française s’est nettement fermé en proportion, au point de se stabiliser à des niveaux très bas, proches de la situation actuelle de la traduction en Grande-Bretagne et aux États-Unis, les espaces littéraires riches et développés les plus fermés du monde, et en même temps les plus puissants exportateurs à destination de systèmes beaucoup plus ouverts à la traduction, ceux d’Europe de l’ouest”.
[14] “Je ne crois pas céder à l’habituelle manie des traducteurs de s’exagérer la valeur et les mérites de l’œuvre qu’ils traduisent. José de Alencar a certainement une place marquée et à un rang fort honorable dans la littérature brésilienne. Mais il n’est pas un de ces génies indispensables dont l’absence ferait lacune dans l’histoire intellectuelle de l’humanité”.
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