Linguística

‘Nós’ e ‘a gente’: diferenças de uso nas variedades de português

Josany Maria de Jesus Silva
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil
Cristiane Namiuti
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil

‘Nós’ e ‘a gente’: diferenças de uso nas variedades de português

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 41, núm. 1, 2019

Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 09 Julho 2018

Aprovação: 13 Fevereiro 2019

Resumo: A primeira pessoa plural (1PP) no paradigma pronominal do Português Brasileiro (PB) e do Português Europeu (PE) pode ser realizada como a forma pronominal ‘nós’ ou como a forma pronominal ‘a gente’. Esta variação tem sido um lugar de investigação para buscar identificar as convergências e divergências das variedades da língua portuguesa. Apresentaremos, neste artigo, um recorte da investigação sobre o uso dos pronomes em amostras de fala de PB e de PE. Observamos que, no PE, o uso de ‘nós’ acontece junto de verbos flexionados na primeira pessoa do plural, quarta pessoa do discurso (P4), já em variedades do PB, o uso do mesmo pronome acontece também, e preferencialmente, com verbos na terceira pessoa do singular, terceira pessoa do discurso (P3) e é utilizado na função de objeto direto e indireto, função não desempenhada pelo pronome no PE que utiliza o pronome clítico ‘nos’ para realizar as funções acusativas e dativas. Outra diferença está no uso do pronome ‘a gente’ com verbos em P4, que foi de 24% no PE, enquanto no PB foi atestado uso apenas de 4%. Verificamos também que o tempo verbal mostrou ser um fator importante na preservação da morfologia P4 em PB, comprovando a hipótese de Vieira (2014) de que o presente e o pretérito perfeito do modo indicativo favorecem a presença do morfema de primeira pessoa plural (MOS) no PB, por possuir um paradigma flexional que amalgama as noções de tempo, modo, aspecto, pessoa e número.

Palavras-chave: pronome, língua portuguesa, distinção de gramática.

Abstract: The first person plural (1PP) in Brazilian Portuguese (BP) and in European Portuguese (EP) can be lexicalized as the pronoum ‘nós’ or as the pronoum ‘a gente’. This variation in the use has already been attested and described in several studies trying to find out the convergences and divegences of the varieties of the Portuguese language. We will present in this article part of research on the use of pronouns in BP and EP speech samples. In EP, the use of ‘nós’ happens in the subject function along with inflected verbs in the first person plural, fourth person of speech (P4), already in BP, the use of the same pronoun in the subject function can occur with third person singular, the third person of speech (P3) and it is commonly attested in oblique function (accusative and dative object), while in the EP the clitic pronoun ‘nos’ performs the accusative and dative functions. Regarding the use of ‘a gente’, the difference is that the agreement with P4 in the EP data is in the range of 24% and in the BP corresponds to only 4%. The verbal tense also showed up to be an important factor in the preservation of the P4 morphology in BP, confirming the hypothesis that the present and the perfect past of the indicative mode favors the presence of the P4 morpheme (MOS), becouse it has an inflectional paradigm that combines the notions of time, mode, aspect, person and number (Vieira, 2014).

Keywords: pronoun, portuguese language, grammar distinction.

Introdução

A variação no uso dos pronomes de primeira pessoa plural (1PP) no Português do Brasil (PB) e no Português Europeu (PE), ‘nós’ e ‘a gente’, foi objeto de diversos trabalhos (Omena, 1986; Lopes, 1999, 2003; Borges, 2004; Rubio, 2012; Sória, 2013; Vieira, 2014; dentre outros). A observação e descrição desse uso variável tanto em PB quanto em PE têm contribuído com os estudos que buscam entender a natureza da diferença entre as gramáticas internalizadas que produzem os dados de fala de uma e outra língua/variedade.

No artigo[1], buscamos trazer mais elementos para responder à questão: a variação no uso dos pronomes ‘nós’ e ‘a gente’ pode ser analisada como uma competição de formas relacionada a uma competição de gramáticas (Kroch, 2003), sendo cada um dos pronomes realizações de 1PP de gramáticas distintas? O termo gramática será utilizado aqui sempre no sentido gerativista e é com o embasamento teórico gerativista que buscamos definir alguns aspectos da metodologia que divergem da comumente utilizada na descrição e tabulação dos dados de várias das pesquisas aqui mencionadas. Partimos de hipóteses defendidas por Vieira (2014) e que também estão em Namiuti e Vieira (2017). Ao observar o uso e distribuição dos pronomes ‘nós’ e ‘a gente’ em um corpus de Fala Popular de Vitória da Conquista - BA/BR (FPVC), Vieira (2014) já indica que nesse corpus de PB, o uso do pronome ‘nós’ acontecia, preferencialmente, com verbos na terceira pessoa singular, terceira pessoa do discurso (P3), sendo também utilizado na função de objeto direto e indireto, função não desempenhada pelo pronome no PE, que utiliza o pronome clítico ‘nos’ para realizar as funções acusativas e dativas. A autora constata ainda que a morfologia de P4 na flexão do verbo aparecia comumente no tempo presente e no tempo passado perfeito do modo indicativo e observa que o paradigma flexional de tempo e concordância para estes tempos do modo indicativo é, de acordo com Villalva (2003), especial por amalgamar as noções de tempo e concordância em um único morfema. Os resultados de Vieira (2014) e Namiuti e Vieira (2017) foram possibilitados por uma mudança de perspectiva do olhar sobre os dados, perspectiva esta que considera que o sujeito nulo no PB tem propriedades distintas das descritas para o PE e que não costumam ser consideradas e relacionadas nos diversos trabalhos que estudam o uso dos pronomes sujeitos em variação. Segundo Pontes (1981) e Galves (1993), para citar os precursores, no PB, ao contrário do PE, o sujeito costuma ser preenchido, sendo esta uma língua orientada para o tópico discursivo. Sendo assim, a metodologia de descrição e tabulação dos dados em Vieira (2014) separa sujeito nulo de primeira menção, cujo referente pronominal do sujeito não o antecede, e sujeito nulo de segunda menção, cujo referente pronominal do sujeito o antecede. Essas duas categorias de nulos foram computadas separadamente e não juntamente com os pronomes, ou seja, não foi considerado, a princípio, que os sujeitos seriam pronomes ‘nós’ ou ‘a gente’ implícitos e identificados por antecedente ou pela morfologia de concordância, como comumente vinha sendo analisado nos trabalhos anteriores.

O trabalho aqui apresentado justifica-se na medida em que leva esse novo olhar sobre os dados lançado ao corpus de FPVC a novos dados do PB e dados do PE, tendo por objetivo revisitar os dados de Vieira (2014) – FPVC – e descrever com os mesmos critérios de observação, anotação, tabulação e análise a realização dos pronomes ‘nós’ e ‘a gente’ em mais uma amostra de língua falada no Brasil (Fala Popular de Feira de Santana (FPFS), correspondente à comunidade de Paraguaçu-BA/BR) e outra amostra de língua falada em Portugal (Fala Popular do Português Europeu (FPPE), dados selecionados do Corpus Dialectal para o Estudo da Sintaxe – Cordialsin (Martins, 2000)), possibilitando o estudo comparativo do uso dos pronomes nas distintas gramáticas do português.

Essa metodologia revelou, considerando os corpora e trabalhos visitados nesta pesquisa, que a morfologia flexional P4 é produtiva nos sujeitos nulos de primeira menção no PE, enquanto PB não existe esta relação. Inferimos, portanto, que, pelo menos em PB, não é possível saber se o sujeito apagado se refere aos pronomes ‘nós’ ou ‘a gente’. O tempo verbal também mostrou ser um fator importante na preservação da morfologia P4 em PB, comprovando a hipótese de Vieira (2014). Assim, verificamos que o morfema ‘MOS’, no PE, ao contrário do PB, é atestado em tempos e modos em que o paradigma morfológico de tempo é separado do paradigma morfológico de concordância, caracterizando um paradigma de tempo e concordância fortes no PE e um paradigma de tempo forte e concordância fraca no PB.

Pressupostos teóricos gerativistas

De acordo com Chomsky (2009), o falante conhecedor de uma língua tem a capacidade de atribuir estruturas superficiais e profundas a um número de sentenças infinitas, relacionando-as adequadamente e atribuindo-lhes uma interpretação tanto semântica quanto fonética.

Chomsky (1995) afirma que a preocupação básica do estudo da gramática gerativa

[...] consiste em determinar e caracterizar as capacidades linguísticas de indivíduos particulares. Preocupamo-nos assim com estados da faculdade da linguagem, entendidos como constituindo alguma série de características e capacidades cognitivas, uma componente particular da mente/cérebro humanos. A faculdade da linguagem possui um estado inicial, geneticamente determinado; no decorrer normal do desenvolvimento, passa através de uma série de estados na primeira infância, alcançando um estado firme relativamente estável que sofre poucas alterações posteriores, com exceção do léxico. Numa primeira aproximação razoável, o estado inicial parece ser uniforme para a espécie. Adaptando termos tradicionais a um uso especial, chamamos à teoria do estado alcançado a ‘gramática’ (desse estado), e à teoria do estado inicial a ‘Gramática universal’ (UG) (Chomsky, 1995, p. 52, grifo do autor).

A teoria de Princípios e Parâmetros procura explicar as semelhanças entre línguas através de princípios universais com valor marcado (que não varia de língua para língua) e as diferenças entre elas pelos parâmetros, também universais, porém marcados/valorados apenas na fase da aquisição, sob a exposição dos dados da língua do ambiente da criança. Assim, a variação no uso de diferentes formas, instanciada nas línguas naturais, pode refletir estruturas produzidas por uma mesma gramática ou por gramáticas distintas em uma situação de competição gerada por um bilinguismo psíquico e/ou sociolinguístico causado por uma mudança gramatical. De acordo com Kroch (2003, p. 30), “[...] dados os pressupostos da gramática gerativa, a variação em sintaxe que corresponde à fixação de oposições para parâmetros sintáticos deve refletir a co-presença num falante ou numa comunidade de fala de gramáticas mutuamente incompatíveis”.

Segundo Kroch (2003), os estudos da mudança sintática, atualmente, se formulam sobre o ponto de vista da aquisição da linguagem, ou seja, a mudança acontece devido a falhas nos traços linguísticos adquiridos na infância que se prolongam através dos tempos. No entanto, as mudanças gramaticais que ocorrem no curso da aquisição, na verdade, são observadas nos dados em variação progressiva com formas antigas na linha do tempo de uma língua. O autor afirma que “[...] no nível da sintaxe, o quanto as línguas mudam durante certo período de tempo varia tremendamente, tanto de língua para língua quanto dentro da história de uma mesma língua” (Kroch, 2003, p. 1). Uma força atuante para que a mudança sintática aconteça é o contato linguístico, pois o contato produzirá dados conflitantes que levará a criança a marcar seus parâmetros de forma diferente de seus pais.

Corpora e metodologia

Foram selecionadas, como corpora da pesquisa, entrevistas com amostras de fala popular de variedades do PE e do PB coletadas de corpora produzidos em outros projetos de pesquisa e disponibilizados pela publicação em CD ou na internet, e ainda cedidos em CD para o grupo de pesquisa do Laboratório de Linguística de Corpus (LAPELINC) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus de Vitória da Conquista (UESB). Os corpora contemplados na pesquisa são:

(i) O corpus de Fala Popular da Região de Feira de Santana (FPFS), correspondente à comunidade de Paraguaçu (Almeida & Carneiro, 2008). As amostras foram constituídas nos períodos de 1994 a 2002. Selecionamos 6 dos 12 inquéritos que foram distribuídos da seguinte forma: Faixa 1: 18-38 anos; Faixa 2: 39-58 e Faixa 3: a partir de 59 anos. Para cada faixa etária foi selecionado 1 informante de cada sexo com tempo de escolaridade máximo de 5 anos. Foram analisadas 387 ocorrências desse corpus.

(ii) O corpus de Fala Popular da Região de Vitória da Conquista (FPVC), correspondente à comunidade de Vitória da Conquista. As amostras foram constituídas em 2007 por estudantes do curso de Letras Vernáculas e Letras Modernas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), supervisionado e orientado pela Profa. Dra. Cândida Mara Britto Leite (UESB). Tal corpus foi utilizado por Vieira (2014) que separou e anotou as ocorrências de ‘nós’ e ‘a gente’ em 12 inquéritos selecionados e distribuídos da seguinte forma: Faixa 1: até 30 anos; Faixa 2: 31-49 e Faixa 3: a partir de 50 anos. Para cada faixa etária foi selecionado 2 informantes de cada sexo com tempo de escolaridade máximo de 4 anos. Vieira (2014) analisou 818 ocorrências nesse corpus as quais foram revisitadas e conferidas por nós para o presente estudo.

Para a análise do PE, utilizamos um corpus da Fala Popular do Português Europeu (FPPE) selecionado do corpus digital dialetal CordialSin - Corpus Dialectal para o Estudo da Sintaxe (Martins, 2000). Para a constituição da amostra da pesquisa foram selecionados informantes de 5 localidades de Portugal: Santo Espírito, Fontinhas, Porto de Vacas, Melides e Santa Justa. Os inquéritos foram coletados e transcritos nos anos de 2003 a 2006. Desse corpus, selecionamos 6 inquéritos distribuídos da seguinte forma: Faixa 1: 29 e 34 anos; Faixa 2: 42 e 47; e Faixa 3: 60 e 61 anos. Para cada faixa etária foi selecionado 1 informante de cada sexo com até 4 anos de escolarização. Foram analisadas 286 ocorrências desse corpus.

Na análise dos dados de sujeito, para quantificar a explicitude dos pronomes, levou-se em consideração, seguindo Vieira (2014), os sujeitos, como formas implícitas do pronome lexical que antecede a construção com o sujeito de primeira pessoa plural (1PP) não realizado lexicalmente, estes foram analisados como sujeito nulo de segunda menção (exemplos de sujeito implícito ‘a gente’ 2. a; b; c; e de sujeito implícito ‘nós’ 4. a; b; c). O sujeito de 1PP quando nulo em sua primeira menção foi analisado e contado como nulo de primeira menção (exemplos 5. a; b; c), usando o mesmo critério utilizado para a classificação de Vieira (2014) para a FPVC e justificado no PE pela aceitabilidade do uso de ‘a gente’ em concordância com verbos flexionados em P4 (exemplo 1. c) e no PB pelo uso de ‘nós’ com verbos flexionados em P3 (exemplo em 3. b).

Nulos de primeira menção e segunda menção são utilizados de forma diferente nos dados de PB e PE. Como mencionamos na introdução deste artigo, um dos motivos para adotarmos tal metodologia é contemplar, na classificação dos dados, a possibilidade de analisá-los em relação à hipótese da distinção gramatical.

Segundo Pontes (1981) e Galves (1993), o PB tem características de uma língua orientada para o tópico discursivo enquanto o PE possui características de língua orientada para o sujeito. Se isso se confirma, é possível postular que a categoria vazia que preenche a posição do sujeito em PB possa ser diferente da categoria vazia que preenche tal posição em PE. Tal reflexão não é objeto deste trabalho, mas é facilitada pelo controle detalhado dos sujeitos nulos de 1PP, o que justifica a metodologia adotada.

Assim, com relação ao fator sujeito, analisamos separadamente:

1) Sujeito explícito a gente

1. a) Ela mora aqui também perto. A gente mora tudo aqui pertinho. [...] (Inq. 0018, faixa 1, homem FPFS)

b) as vezes também tem vez na segunda a gente pega umas tulipa pra vender, aí chega umas três hora a gente ainda vai bater um baba, jogar uma bola pra se devert, né, assá o tempo mais ainda, pra chegar a noite (Inq. 0034, faixa 1, homem, FPVC)

c) E, também, a gente já fizemos uma recolha de se fazer cores com coisas naturais. (Inq. 0022, faixa 1, mulher, FPPE)

2) Sujeito implícito a gente

2. a) A gente pranta dia dezanove e deixa. Aí dia de São João tá madurinho. A gente tira um tanto, ø vende pra comprar alguma coisa e o outo fazer pamonha e cozinhar. Áh, eu gosto de fazer uma pamonha no São João. (Inq. 0274, faixa 2, mulher, FPFS)

b) A gente vai no hospital, ø visita os duente, ø visita os legionário mesmo, os que é afastado, que é disviado. (Inq: 0793, faixa 3, mulher, FPVC)

c) Para a água correr, que ia [...] para as presas, e depois a gente ia-se tapar a presa, que ø ia regar… Isto [...] era lindo, lindo! (Inq. 0064, faixa 2, mulher, FPPE)

3) Sujeito explícito nós

3. a) É, e nós temos que respeitar, né? e aprender a viver com defeito. Ninguém nasce sem defeito. Todos nós temo defeito. E o que é importante é que nós aprenda a viver, o que é importante é que a gente aprenda a viver com o defeito do outro, que se não aprender fica difícil. (Inq. 0370-1-2, faixa 3, homem, FPFS)

b) Quano nós casou ela casou ela tarra cum... catorze ano, nós casô ela cum catorze ano e eu cum... tinha vinte e treis ano (Inq. 0194, faixa 2, homem, FPVC)

c) Aguar a lã, nós fizemos. Está uma senhora a fiar num fuso, a outra senhora a fiar – nós tratamos, depois de o fuso estar cheio, nós tratamos a maçaroca –, juntamos os dois fios, é [...] o aguar, para o fio ficar mais grosso, para podermos trabalhar a malha da lã de ovelha, [...] para se conseguir… (Inq. 0011-2-3, faixa 1, mulher, FPPE)

4) Sujeito implícito nós

4. a) E a noite, daqui a pouco, ele tá lá, [ri] veno aquelas coisa e dizeno: ‘ah eu vi, e tal, aconteceu e tal’. Algumas coisa na verdade que nós [inint]. Mas ø sabemo de uma coisa, é que Deus nos dá também saber e ø podemo ter conhecimento de alguma coisa. Inclusive [inint] certo? (Inq. 0361, faixa 3, homem, FPFS)

b) Eu num tinha vergonha de fazê um carrinho de madeira, purque minha mãe não tinha condições de me dá, fazê o que? ai o que nós fazia, nós ia num caçar faxina, ø pegava uns preguim, ø pregava ali nos carrim, ø fazia umas roda de borracha de sandaia e ø saia na rua correno, brincano. (Inq: 0174, faixa 2, homem, FPVC)

c) [...] É que nós trabalhámos aqui em conjunto e quando [...] ø começámos aqui, ø tínhamos, mais ou menos, um nível de vida escapatório: ø tirávamos um ordenadozinho [...] muito razoável! ø Tirámos um ordenadozito como tirava qualquer outro operário: um pedreiro, um carpinteiro. (Inq. 0191-2-3-4, faixa 3, homem, FPPE)

5) Sujeito nulo (primeira menção – mos)

5. a) Eles me chama de professor, quanto isso eu entendo um pouquinho, na área de amador, mas eu entendo um pouquinho. E aí começamos, quando o... é:: fundou aqui a associação [ôh filha tem o troco?]. [toma o troco, dez centavo de troco [...]. (Inq: 0383, faixa 3, homem, FPFS)

b) Eu a conheci numa festa e daí pra cá, começamos a namorar, ficamos noivos, não deu certo, eu me casei, ela foi para São Paulo, [...] (Inq: 0046, faixa 3, homem, FPVC)

c) [...] Depois põe-se ao fumeiro, depois cozemos aquilo inteiro – assim como está, inteirinho – e comemos assim às talhadinhas. Faz-se um caldo verde, ou um puré, ou [...]. (Inq. 061-2, faixa 3, mulher, FPPE)

Na próxima seção, apresentaremos os resultados alcançados por meio da análise.

Análise dos resultados

Frequência de uso geral

Os resultados atestados para a frequência geral de uso dos pronomes de 1PP revelaram, nas variedades estudadas, que tanto no PB quanto no PE os falantes utilizaram mais o pronome ‘a gente’ como mostra a Tabela 1:

Tabela 1
Frequência geral do uso dos pronomes sujeito de 1PP (formas implícitas e explícitas).
CORPUS A gente Nós Total
N. ocorrências Frequência N. ocorrências Frequência
FPFS 301 92% 26 8% 327
FPVC 400 69% 179 31% 579
FPPE 119 65% 65 35% 184
Elaborada pelas autoras

A Tabela 1 mostra também que houve variação quanto ao uso dos pronomes de 1PP ‘nós’ e ‘a gente’ entre os corpora do PB (FPFS – ‘a gente’ 92%, ‘nós’ 8%; FPVC – ‘a gente’ 69%, ‘nós’ 31%) e que entre a FPVC e FPPE houve semelhança percentual do uso dos pronomes. Contudo, como veremos mais adiante, tanto a diferença no percentual entre os dados de fala das duas comunidades representativas do PB quanto à semelhança percentual entre o corpus do PB e o corpus do PE não revelam distanciamento ou proximidade de comportamento gramatical dos pronomes quando observamos qualitativamente o uso dos pronomes de 1PP e o contrastamos com concordância e tempo.

Rubio (2012), em investigação do corpus de fala da região Nordeste do Estado de São Paulo, pertencente ao ‘Banco de dados de Iboruma’, atestou, em função sujeito, que a forma pronominal ‘a gente’, no PB, predomina sobre o pronome ‘nós’ com percentagem de 73,8% e 26,2% respectivamente, ao passo que, no PE, em investigações de amostras de falas de diversas regiões pertencentes ao ‘Corpus de referência do português contemporâneo’, houve predomínio do pronome ‘nós’ com 58% enquanto ‘a gente’ obteve frequência de 42%. Os resultados do autor, em relação ao PB, não se distanciam dos nossos resultados gerais, mas em se tratando de frequência, a comparação entre as amostras não vale sem a análise qualitativa, dada a diferença no volume total de dados de cada amostra.

Olhando de forma mais qualitativa para estes dados, na análise do total dos sujeitos de 1PP em relação às formas pronominais e nulas, obtivemos os resultados apresentados na Tabela 2:

Tabela 2.
Frequência geral dos tipos de pronomes sujeito de 1PP.
FPFS Ocorrência Frequência
A gente explícito 199 58%
A gente implícito 102 30%
Nós explícito 22 6%
Nós implícito 5 1%
Nulo 17 5%
Total 344
FPVC Ocorrência Frequência
A gente explícito 344 58%
A gente implícito 56 9%
Nós explícito 157 26%
Nós implícito 22 4%
Nulo 18 3%
Total 597
FPPE Ocorrência Frequência
A gente explícito 108 41%
A gente implícito 11 4%
Nós explícito 50 19%
Nós implícito 15 6%
Nulo 77 30%
Total 261
Elaborada pelas autoras

Ao separar formas explícitas de implícitas, chama a atenção o uso de nulos (primeira menção) nos corpora do PB e no corpus do PE. Esse número é significativamente superior na FPPE. No PE, observamos alta frequência (30%) de nulo em relação a todas as outras formas explícitas e implícitas, enquanto no PB esta forma apresenta uso raro (5% na FPFS e 3% na FPVC). Reparem que, olhando dessa forma, os dados de Feira de Santana e Vitória da Conquista se assemelham, indicando uma semelhança qualitativa entre as variedades representativas de um PB e uma diferença qualitativa em relação ao PE, caracterizado pela propriedade de sujeito nulo das línguas europeias (exemplo 1). Os dados de ambas as amostras do PB dão indícios de uma gramática caracterizada pela propriedade de sujeito preenchido (exemplos 2 e 3), sendo as formas nulas realizações implícitas de segunda menção de um tópico.

1) Tivemos sorte. Se calha a ser algum assim que nadasse mais mal… [...] A gente, tanto eu como o meu filho mais velho, [...] temos o curso de nadador-salvador. (Inq. 0094, faixa 2, homem, FPPE)

2) [...] A gente precisa de uma coisa, do tempo que a gente vive essa violência, a gente precisa de uma coisa que alegra a gente, não que chame mais violência, né? [...] (Inq. 0082, faixa 1, homem, FPFS)

3) Nós leva logo no hospital bom que tem é no Esaú, né? (Inq. 0135, faixa, FPVC)

Esses resultados mostram que a variação encontrada no PE revela a existência de pronomes de 1PP com características distintas dos pronomes de 1PP do PB, cujas formas pronominais são possibilidades gramaticais de realização em ambas as gramáticas.

Sória (2013) investigou a ocorrência dos pronomes ‘nós’ e ‘a gente’, na função sujeito, em 31 localidades de Portugal em amostras do CORDIAL-SIN (conferir Sória 2013, p. 67) e em 2 localidades do Brasil a saber: Anselino da Fonseca (Piemonte da Diamantina) e Rio de Contas (Chapada Diamantina). A autora encontrou maior uso do pronome ‘nós preenchido’ do que uso de nulos. A comunidade de Anselino da Fonseca obteve 65,6% de uso de ‘nós preenchido’ e 34,4% de uso de nulos e a comunidade de Rio de Contas obteve 82,5% de ‘nós preenchido’ e 17,5% de nulos. Apesar dos resultados quantitativos da autora serem diferentes do nosso, há uma semelhança importante: o percentual de nulos foi consideravelmente inferior ao do pronome preenchido. Se buscarmos adequar os nossos resultados à metodologia da autora na FPVC obtemos 197 dados relativos à soma da realização explícita e implícita do pronome ‘nós’ e do sujeito nulo de primeira menção, sendo 157 (80%) destes dados de realização lexical do pronome ‘nós’ e 40 (20%) das formas nulas do pronome (9% de nulo de primeira menção e 11% de nulo de segunda menção, ou seja, do pronome implícito), já na FPFS obtemos 44 dados relativos à soma da realização explícita e implícita do pronome ‘nós’ e do sujeito nulo de primeira menção, sendo 22 (50%) destes dados de realização lexical do pronome ‘nós’ e 22 (50%) das formas nulas do pronome (39% de nulo de primeira menção e 11% de nulo de segunda menção, ou seja, do pronome implícito).

Em dados do PE (31 localidades), Sória (2013) atestou alta produção de nulos nos corpora investigados do CORDIAL-SIN, constatando seu uso nas regiões analisadas. Com exceção da região de Fiscal (Braga), em que o uso do sujeito ‘nós’ (51,5%) foi superior ao uso de nulos (41,5%), em todas as outras regiões analisadas o uso do sujeito nulo foi superior ao uso do sujeito ‘nós’, indo ao encontro do que encontramos na amostra pesquisada para o PE, uma vez que, considerando a diferença metodológica, ao olharmos apenas para os dados de pronome ‘nós’ na FPPE, obtemos 142 dados, sendo 35% destes dados de realização lexical do pronome ‘nós’ e 65% das formas nulas do pronome (54% de nulo de primeira menção e 11% de nulo de segunda menção, ou seja, do pronome implícito).

Concordância verbal (flexão)

Não é raro em PE atestar ocorrências do pronome ‘a gente’ concordando com P4 (exemplo 4). No PB, costuma-se utilizar o pronome ‘a gente’ junto de verbos flexionados em P3 (exemplo 5).

4) Este chama-se o sarilho. É onde se enrola a lã. Vai-se enrolando, depois, em fio, que é para fazer uma meada, se a gente quiser pintar. Que essas lãs que a gente temos aqui são pintadas por nós,[...] (Inq. 0022, faixa 1, mulher, FPPE)

5) [...]Agora a menina tá limpano a terra, aí já tá limpano pra plantar dia dezenove. A gente pranta dia dezanove e deixa. Aí dia de São João tá madurinho. [...]. (Inq. 0270, faixa 2, mulher, FPFS)

Os pronomes de 1PP realizados lexicalmente, na função sujeito, ocorreram nos dados com verbos flexionados em P3 e P4, conforme apresentado na Tabela 3:

Tabela 3.
Realização de ‘nós’ e ‘a gente’ explícitos de acordo com a flexão verbal.
FPFS A gente % Nós %
P3 121 96% 5 29%
P4 4 4% 10 71%
Total 125 100% 15 100%
FPVC A gente Nós
P3 340 100% 126 81%
P4 0 0% 29 19%
Total 340 100% 155 100%
FPPE A gente Nós
P3 58 76% 1 2%
P4 18 24% 41 98%
Total 76 100% 42 100%
Elaborada pelas autoras

A Tabela 3 revela que o uso de ‘a gente’ concordando com verbos flexionados em P4 é raro em PB, sendo mais atestado em PE. Nas amostras de PB, esse tipo de uso de concordância obteve frequência de 4% na FPFS e não foi atestado na FPVC. Já na amostra de FPPE, esse tipo de ocorrência de concordância atingiu frequência de 24%. Essa diferença de uso de ‘a gente P4’ entre os corpora do PB e PE comprova ser a flexão do verbo um ponto de grande distanciamento entre as gramáticas.

Percebemos também que, entre os corpora do PB, houve diferença de uso do pronome ‘nós’ nas comunidades. Na FPFS, utiliza-se o pronome concordando com verbos flexionados em P4 em 71% dos casos de ‘nós explícito’ (exemplo 6), enquanto na FPVC há preferência de uso do pronome ‘nós’ junto de verbos flexionados em P3 em 81% dos casos de ‘nós explícito’ (exemplo 7). Essa diferença regional pode ser desfeita ao olharmos qualitativamente para o uso dos pronomes neste e em outros contextos. Nesse sentido, podemos considerar que, ao contrário do PE, o uso do pronome ‘nós’ concordando com o verbo flexionado em P3 é comum no PB.

Na FPPE, a concordância do pronome ‘nós’ com verbo flexionado em P4 é quase categórica (98%) (exemplo 8). Foi encontrada uma única ocorrência de ‘nós’ concordando com verbo flexionado em P3 que aparece em uma sentença (exemplo 9). O uso de ‘nós’ junto de verbos flexionados em P3 e P4 é comum no PB, já no PE ‘nós’ geralmente concorda com verbos flexionados em P4. Esses resultados reforçam ser a flexão do verbo um ponto essencial que caracteriza as distintas gramáticas.

6) É, e nós temo que respeitar, né? e aprender a viver com defeito. Ninguém nasce sem defeito. (Inq. 0370, faixa 3, homem, FPFS)

7) Eu mermu mais ela im casa, nós corrige us trabalhu quêles faiz na iscola duranti u dia. (Inq. 0082, faixa 1, homem, FPVC)

8) Quando era depois para fabricar o barro, no momento que estávamos a fabricar, [...] a ferramenta que nós usávamos [...] era uma cana. Nós escolhíamos uma cana nos canaviais, no tempo que estavam criadas – assim por este tempo, de Setembro, Outubro –, ia-se escolher logo. (Inq. 260, faixa 3, mulher, FPPE)

9) A gente, às vezes, ele por esta hora – nós era quase sempre aquando era às dez horas da noite – é quando nós devíamos de vir para casa. Que nós chegávamos a casa, tudo sempre tudo aí para as dez horas da noite. Era assim já sempre de noite aquando a gente vinha. (Inq. 0056, faixa 2, mulher, FPPE)

As diferenças encontradas entre os dados analisados do PE e PB podem refletir gramáticas distintas que, por isso, apresentam um uso dos pronomes de 1PP relacionado a um sistema de concordância e de preenchimento de sujeitos diferentes.

Sória (2013) também atestou maior frequência de uso de ‘a gente’ concordando com verbos flexionados em P3 em todas as localidades investigadas em dialetos do PE (31 localidades). Dados com o pronome ‘a gente’ concordando com verbos flexionados em P4 foram bastante atestados na maioria das localidades, havendo poucas exceções (Vila praia da Âncora, Castro Laboreiro, Perafita, Outeiro, Figueiró da Serra, Gião e Santo André).

Em localidades do PB, a autora atestou frequência de 96,9% de ‘a gente’ junto de verbos flexionados em P3 e 3,1% do pronome junto de verbos flexionados em P4 em Anselino da Fonseca, enquanto, em Rio de Contas, a frequência foi de 99,6% de ‘a gente’ junto de verbos flexionados em P3 e 0,4% do pronome junto de verbos flexionados em P4.

Quanto ao uso do pronome ‘nós’, como esperado, a maioria das localidades do PE atestaram frequência de uso categórico do pronome concordando com verbos flexionados em P4, salvo 4 localidades (Alvor, Covo, Unhais da Serra e Santo André) em que foram encontrados o pronome junto de verbos flexionados em P3, mas com baixa ocorrência (máximo de 4 dados).

Já no PB, Sória (2013) atestou frequência de 62% de uso do pronome ‘nós’ junto de verbos flexionados em P3 e 38% do pronome junto de verbos flexionados em P4 em Anselino da Fonseca, ao passo que, em Rio de Contas, a frequência de uso do pronome ‘nós’ junto de verbos flexionados em P3 foi de 95,3% e junto de verbos flexionados em P4 foi de 4,7%.

Ao somarmos as realizações lexicais dos pronomes de 1PP, ‘nós’ e ‘a gente’, e analisarmos a flexão verbal pelos pronomes sujeitos de 1PP, obtemos os resultados apresentados na Tabela 4:

Tabela 4
Relação dos pronomes sujeitos de 1PP com a flexão verbal, realizados lexicalmente.
FPFS Ocorrência Frequência
A gente/nós P3 126 90%
A gente/nós P4 14 10%
Total 140
FPVC Ocorrência Frequência
A gente/nós P3 466 94%
A gente/nós P4 29 6%
Total 495
FPPE Ocorrência Frequência
A gente/nós P3 59 50%
A gente/nós P4 59 50%
Total 118
Elaborada pelas autoras.

A Tabela 4 mais uma vez demonstra a proximidade entre as amostras de FPFS e FPVC (PB) e o distanciamento em relação ao comportamento da variação dos pronomes de 1PP na amostra de FPPE (PE). Enquanto no PB o uso dos pronomes de 1PP se associa comumente a P3 (FPFS – 90%; FPVC – 94%), na FPPE uso dos pronomes apresenta-se 50% em P3 e 50% em P4, sendo P3 a forma de concordância mais frequente com o pronome ‘a gente’, como vimos na Tabela 3. Esses resultados obtidos através da investigação conjunta dos pronomes ‘nós’ e ‘a gente’ mostraram ser muito significativos na distinção entre as gramáticas, ao comprovar que a variação encontrada no PE revela a existência de pronomes de primeira pessoa plural (1PP) com características distintas dos pronomes de 1PP do Português Brasileiro (PB), sendo as formas ‘nós’ e ‘a gente’ possibilidades gramaticais de realização desses pronomes em ambas as gramáticas, porém com características e comportamentos distintos.

Tempo verbal

Na análise dos pronomes de 1PP realizados lexicalmente de acordo com o tempo verbal, atestamos os resultados da Tabela 5.

De acordo com a tabela o pronome ‘a gente’ foi mais utilizado no tempo presente em todos os corpora (FPFS – 66%; FPVC – 77%; FPPE – 66%), o pronome ‘nós’ foi mais utilizado no presente nos corpora do PB (FPFS – 75%; FPVC – 53%) e no pretérito imperfeito na FPPE (57%).

Temos como destaque o uso de nulos nos corpora do PB que é atestado somente no tempo presente e no pretérito perfeito (FPFS – ‘nulo presente’ em 38% e ‘nulo pretérito perfeito’ em 62%; FPVC – ‘nulo presente’ em 28% e ‘nulo pretérito perfeito’ 72%). Nesses tempos (presente e pretérito perfeito), o paradigma flexional ‘MOS’ amalgama noções de tempo, modo, aspecto, pessoa e número (tempo e concordância amalgamados em um único morfema).

No PE, o uso de nulos acontece também no tempo pretérito imperfeito (30%), tempo que é morfossintaticamente distinto dos demais, uma vez que realiza as noções de tempo, modo, aspecto, pessoa e número através de dois paradigmas flexionais distintos (tempo e concordância realizados por morfemas diferentes).

A morfologia P4 parece possuir características importantes que diferenciam as gramáticas do PB e PE. Na próxima subseção, traremos resultados do cruzamento de Tempo e Concordância/Flexão.

Tabela 5
Realização dos pronomes sujeito de 1PP explícitos com o tempo verbal.
FPFS A gente % Nós % Nulo %
Pres. 121 66% 12 75% 6 38%
P. perf. 20 11% 2 13% 10 62%
P. imp. 43 23% 2 13% 0 0%
P. m. perf. 0 0% 0 0% 0 0%
Fut. 0 0% 0 0% 0 0%
Total 184 16 16
FPVC A gente Nós Nulo
Pres. 268 77% 91 53% 5 28%
P. perf. 10 3% 36 21% 13 72%
P. imp. 68 20% 45 26% 0 0%
P. m. perf. 0 0% 0 0% 0 0%
Fut. 1 0% 2 1% 0 0%
Total 346 172 18
FPPE A gente Nós Nulo
Pres. 53 66% 12 22% 19 31%
P. perf. 7 9% 10 19% 22 36%
P. imp. 17 21% 31 57% 18 30%
P. m. perf. 3 4% 1 2% 0 0%
Fut. 0 0% 0 0% 2 3%
Total 80 54 61
Elaborada pelas autoras

Tempo e concordância/flexão

Somando todos os dados de 1PP realizados e não realizados lexicalmente de acordo com o tempo e a flexão verbal, obtivemos os resultados apresentados na Tabela 6:

Tabela 6
Realização conjunta dos sujeitos ‘a gente’, ‘nós’ e ‘nulos’ de acordo com o tempo e flexão verbal.
FPFS P3 % P4 %
Presente 121 66% 16 53%
P. perfeito 18 10% 14 47%
P. imperfeito 45 24% 0 0%
P. mais que perfeito 0 0% 0 0%
Futuros 0 0% 0 0%
Total 184 30
FPVC P3 P4
Presente 327 68% 35 66%
P. perfeito 41 8% 18 34%
P. imperfeito 113 23% 0 0%
P. mais que perfeito 0 0% 0 0%
Futuros 3 1% 0 0%
Total 484 53
FPPE P3 P4
Presente 48 76% 36 27%
P. perfeito 2 3% 37 28%
P. imperfeito 12 19% 54 41%
P. mais que perfeito 1 2% 3 2%
Futuros 0 0% 2 2%
Total 63 132
Elaborada pelas autoras

A Tabela 6 mostra que o tempo presente foi o mais utilizado nos corpora diante de verbos flexionados em P3 e P4, com exceção da FPPE que, diante de verbos flexionados em P4, utilizou mais o tempo no pretérito imperfeito (41%). Esses resultados confirmam a hipótese de que a morfologia P4 (MOS) é favorecida pelos tempos presente e pretérito perfeito em PB e não em PE. Em PE, parece não haver esta relação. Destacamos ainda o fato do morfema nos dados do PB ser realizado sem o ‘S’ e nos dados do PE com o ‘S’ final.

Postulamos, seguindo Vieira (2014), que o morfema flexional ‘MO(S)’, por ser um amálgama de tempo e concordância, sobrevive no PB sendo categoria de tempo forte e a concordância fraca nessa língua; isto é, como no PB a morfologia P4 é atestada apenas no presente e no pretérito perfeito, o tempo se caracteriza como forte, mas a concordância não, pois o morfema não é atestado nos demais tempos e modos quando ele realizaria P4 separado de tempo. Assim, em verbos como ‘falamo’ ou ‘comemo’, uma única morfologia (MOS) carrega noções de tempo, modo, aspecto, pessoa e número; e é o fato de esse mesmo morfema não estar presente em outros tempos verbais que vai caracterizar uma concordância fraca no PB.

No PE, P4 é atestado em todos os tempos, fato que sugere que tempo e concordância são ambos fortes nessa língua. Assim, em verbo como ‘amávamos’, a morfologia ‘MOS’ é atestada em paradigma morfológico de concordância separado do paradigma morfológico de tempo (VA em ‘amávamos’).

Dessa forma, ao contrário do PB, no PE atesta-se o morfema ‘MOS’ (P4) também nos tempos em que o paradigma morfológico de tempo é separado do paradigma morfológico de concordância: o pretérito imperfeito, o mais que perfeito e o futuro, corroborando, assim, a hipótese de que o uso das formas pronominais de 1PP no PE caracteriza-se por um paradigma de tempo e concordância fortes, distinto do PB.

As Tabelas 7 e 8 corroboram esta hipótese. Separamos os sujeitos de 1PP de acordo com sua forma, tempo e concordância/flexão e confirmamos que P4, nas variedades do PB aqui consideradas, acontece exclusivamente nos tempos presente e pretérito perfeito e preferencialmente com as formas nulas:

Tabela 7
Uso de cada sujeito de 1PP de acordo com o tempo e flexão na FPFS.
FPFS A gente % Nós % Nulo %
Pres. P3 117 64% 3 19% 0 0%
P4 2 1% 9 56% 5 33%
P. perf. P3 18 10% 0 0% 0 0%
P4 2 1% 2 13% 10 67%
P. imp. P3 43 24% 2 13% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 0 0%
P. m. p. P3 0 0% 0 0% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 0 0%
Fut. P3 0 0% 0 0% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 0 0%
Total 182 16 15
Elaborada pelas autoras

Tabela 8.
Uso de cada sujeito de 1PP de acordo com o tempo e flexão na FPVC.
FPVC A gente % Nós % Nulo %
Pres. P3 199 75% 47 32% 0 0%
P4 0 0% 20 13% 5 28%
P. perf. P3 9 3% 31 21% 0 0%
P4 0 0% 5 3% 13 72%
P. imp. P3 58 22% 44 30% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 0 0%
P. m. p. P3 0 0% 0 0% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 0 0%
Pres. P3 0 0% 2 1% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 0 0%
Total 266 149 18
Elaborada pelas autoras

Ao observar as Tabelas 7 e 8, após separar os sujeitos de 1PP de acordo com o tempo e flexão, atestamos também que o tempo presente foi mais utilizado diante dos pronomes ‘nós’ e ‘a gente’ no PB, diferenciando-se a flexão do verbo diante do pronome ‘nós’. Na FPFS, o uso do pronome ‘nós’ foi mais utilizado diante de verbos flexionados em P4 (56%), já na FPVC, o uso do pronome foi mais utilizado diante de verbos flexionados em P3 (32%).

O tempo pretérito perfeito, nas variedades do PB, parece favorecer o sujeito nulo (FPFS 67%; FPVC 72%, todos os casos com P4), fato que também corrobora a hipótese de que a permanência do morfema ‘MO(S)’ na língua com concordância fraca e, consequentemente, a possibilidade do sujeito nulo de primeira menção, relaciona-se com a estrutura morfológica que amalgama tempo e concordância.

É interessante observar, nos dados do PB, que até mesmo as poucas ocorrências de ‘a gente’ junto de verbos flexionados em P4 (que aconteceu apenas na FPFS) foram nos tempos presente (1%) e pretérito perfeito (1%), comprovando que a morfologia (MO(S)) em PB ocorre em tempos específicos.

Já nos dados do PE, a morfologia ‘MOS’ é atestada em todos os tempos, fato que sugere uma concordância forte nessa língua. Esses resultados podem ser conferidos na Tabela 9:

Tabela 9
Uso de cada sujeito de 1PP de acordo com o tempo e flexão na FPPE.
FPPE A gente % Nós % Nulo %
Pres. P3 48 60% 0 0% 0 0%
P4 5 6% 12 22% 19 31%
P. perf. P3 2 3% 0 0% 0 0%
P4 5 6% 10 19% 23 38%
P. imp. P3 11 14% 1 2% 0 0%
P4 6 8% 30 56% 18 30%
P. m. p. P3 1 1% 0 0% 0 0%
P4 2 3% 1 2% 0 0%
Fut. P3 0 0% 0 0% 0 0%
P4 0 0% 0 0% 1 2%
Total 80 54 61
Elaborada pelas autoras

Podemos observar na Tabela 9 que, no PE, a morfologia P4 aparece em todos os tempos analisados. Dessa forma, confirmamos, ao mostrar onde exatamente a morfologia P4 ocorre que, ao contrário do PB, no PE, atesta-se o morfema ‘MOS’ também nos tempos em que o paradigma morfológico de tempo é separado do paradigma morfológico de concordância: o pretérito imperfeito, o mais que perfeito e o futuro, corroborando, assim, a hipótese de que o uso das formas pronominais de 1PP no PE caracteriza-se por um paradigma de tempo e concordância fortes, distinto do PB.

Conclusão

Os resultados aqui encontrados mostram que os pronomes ‘nós’ e ‘a gente’ são bastante utilizados no PB e no PE, entretanto, o PB é caracterizado por um paradigma flexional e um sistema de concordância distintos do PE, como ficou atestado na análise da concordância verbal (flexão).

Houve variação na forma de uso dos pronomes no PB entre a FPVC e a FPFS. O que mais se destacou foi o uso do pronome ‘nós’. Na FPVC, além de se utilizar com maior frequência esse pronome do que na FPFS, o pronome ‘nós’ é mais utilizado na comunidade concordando com verbos flexionados em P3. Já na FPFS, o uso do pronome ‘nós’ foi menor e os verbos flexionaram tanto em P3 quanto em P4, sendo este último o mais frequente. Contudo, ao contrário do PE, no PB é comum o uso do pronome ‘nós’ junto de verbos flexionados em P3, como confirmamos em nossos resultados.

Ao analisar o tempo verbal, ficou comprovado que o tempo presente e o pretérito perfeito do modo indicativo (paradigmas flexionais com amálgama de tempo de concordância) favorecem a presença do morfema de 1PP (MO(S)), confirmando nossa hipótese. O cruzamento dos fatores tempo e flexão também ajudou a confirmar a hipótese. Atestamos, no PE, o morfema MOS (P4) nos tempos em que o paradigma morfológico de tempo é separado do paradigma morfológico de concordância, corroborando a hipótese de que o uso das formas pronominais de 1PP ‘nós’ e ‘a gente’, no PE, caracteriza-se por um paradigma de tempo e concordância fortes, distinto do PB.

O sujeito nulo de primeira menção mostrou ser um ponto de grande diferença entre as gramáticas do PE e do PB, já que, no PB, costuma-se usar com mais frequência o sujeito preenchido ou, em alguns casos, o nulo de segunda menção (os pronomes em sua forma implícita).

Dessa forma, as variáveis analisadas se mostraram significativas para dar pistas de que entre a gramática do PE e do PB existe uma clara distinção, contudo o tema ainda carece de mais investigação.

Referências

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Notas

[1] As reflexões aqui apresentadas são oriundas de pesquisa realizada no âmbito dos projetos temáticos - Fapesp 2012/06078-9, Fapesb APP0007/2016, Fapesb APP0014/2016 e CNPq 471753/2014-9 - e contemplam resultados da dissertação de mestrado Nós e a gente: comparação entre variedades do português, defendida por Josany Maria de Jesus Silva em 2018, orientada por Cristiane Namiuti e financiada pela CAPES.
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