Linguística

Her: pode um sistema operacional ocupar o lugar de sujeito?

Leda Verdiani Tfouni
Universidade de São Paulo, Brasil
Juliana Bartijotto
Universidade de São Paulo, Brasil
Aline Reck Padilha Abrantes
Universidade de São Paulo, Brasil

Her: pode um sistema operacional ocupar o lugar de sujeito?

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 41, núm. 1, 2019

Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 15 Agosto 2018

Aprovação: 22 Abril 2019

Resumo: Pretendemos analisar o filme Her, de Spike Jonze seguindo os fundamentos da psicanálise e alguns apontamentos da linguística da enunciação. Trata-se de uma história futurista, cujo protagonista, Theodore, está imerso em um vazio que ele procura preencher com jogos e relações virtuais, numa tentativa vã de não se haver com a castração, que é estrutural. O título, um pronome oblíquo (her), já indicia a impossibilidade, visto que her não pode ser sujeito nem entrar na troca característica da intersubjetividade. Funda-se, assim, um impossível de ser sujeito que Samantha tenta contornar colocando-se como sujeito universal absoluto. Samantha é uma voz sem corpo. Mas seria da ordem do possível um sujeito sem corpo biológico, como é o caso de Samantha? Consideramos que o corpo, além de seus aspectos simbólico e imaginário, é constituído por matéria, ou seja, sua biologia é determinante. O sistema é um objeto programado para responder à demanda de seu usuário, e falha, porque para o desejo não há objeto, e quando algo é colocado no lugar, a angústia emerge. Quando a voz de Samantha deixa de ressoar no ouvido de Theodore, este se dá conta de que não há Outro do Outro que possa garantir a completude e é nessa falta que o sujeito surge. A estrutura do Outro constitui um vazio - o vazio da falta - que possibilita a Theodore autorizar-se a legitimar a própria voz.

Palavras-chave: sujeito, outro, falta, objeto.

Abstract: We intend to analyze Spike Jonze’s movie Her following the psychoanalysis and some contributions from the linguistics of enunciation. The film is about a futuristic society, where the main character, Leonard, is immersed in an empty place, which he tries to fulfill with games and virtual relationships, in a vain attempt not to confront with the structural castration. The title, an oblique pronoun (her), indicates the impossibility, once her cannot be a subject neither enter into the intersubjectivity change. Therefore, we find an impossible of being a subject, which Samantha tries to overcome putting herself as an absolute universal subject. Samantha is a voice without a body. Is it possible to exist a subject without a biological body, as is the case for Samantha? We consider that the body, beyond its symbolic and imaginary aspects, is constituted also by matter, that is, it is determined also by biology. The system is scheduled to respond to its user’s demands, and it fails, since there is no object for the desire, and, when something tries to replace it, the anguish emerges. When Samantha’s voice ceases to resonate, Theodore perceives that there is no Other’s Other which can guarantee completeness, and that it is in this emptiness – the emptiness of the lack – that he is able to authorize his own voice.

Keywords: subject, other, emptiness, object.

Introdução

Esse artigo tem como objetivo analisar, na perspectiva da psicanálise lacaniana e mobilizando alguns apontamentos da linguística da enunciação, o filme Her (2013), dirigido e produzido por Spike Jonze, cujos personagens são Theodore e Samantha, esta, um sistema operacional sem corpo; pura voz.

O filme se passa em um ambiente futurista onde os computadores são acionados pelo sistema de voz. O protagonista é um homem solitário que, desde o rompimento de sua relação conjugal, segue a rotina diária; imerso num vazio, sem vida social, não se encontra com amigos em bares, restaurantes ou outros espaços. Ele apenas passa os dias a trabalhar, à noite ele vive em jogos de videogame e estabelece com as mulheres uma relação virtual via chat/Skype. Ele busca encontrar nestas o ideal que supõe ter vivido na relação com a esposa, e as tentativas dos colegas de trabalho ou amigos para lhe apresentar uma mulher real são todas em vão.

Em uma de suas voltas rotineiras do trabalho, ele se depara com a publicidade de um novo sistema operacional (OS) que promete um amigo (a), trata-se de uma entidade intuitiva que é mais do que qualquer ser humano imagina: ‘é uma consciência’. A publicidade se sustenta no seguinte discurso:

Quem é você? O que você pode ser? Para onde vai? O que há lá fora? Que possibilidades existem? A Element Software orgulhosamente apresenta o primeiro sistema operacional de inteligência artificial. Uma entidade intuitiva que o escuta, o compreende e o conhece (Jonze, 2013).

Não são estas as questões da humanidade? Quem sou eu? De onde vim e para onde vou? Não é a questão fundamental do sujeito: O que queres?

O sujeito e o desejo do ‘outro’

O homem se interroga sobre o seu desejo. Somos sujeitos desejantes. O desfiladeiro das questões apresentadas pela Element Software traz como resposta ao desejo do sujeito a promessa de um objeto que venha tamponar essa falta. O que o sujeito supõe que busca é o objeto que faça um encobrimento da falta que é fundamental. Nessa perspectiva imaginária, trata-se de uma tentativa de não se haver com a castração que é estrutural e de retomar ao hipotético Um da completude. O sujeito, especialmente o neurótico, insiste em se enganar a respeito do desejo e da completude. Lacan (1998a) concebe o desejo não como necessidade, mas como a insatisfação da demanda, trata-se de um funcionamento metonímico, cujo efeito é ser sem objeto, ou seja, não há um objeto que complete o Outro e o sujeito, assim como esses dois não fazem Um.

O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade: essa margem é a que a demanda, cujo apelo não pode ser incondicional senão em relação ao Outro, abre sob a forma da possível falha que a necessidade pode introduzir aí, por não haver satisfação universal (o que é chamado de angústia) (Lacan, 1998a, p. 828).

Theodore se enlaça/aliena a um objeto pulsional, a voz feminina de Samantha. Samantha é o nome da voz sedutora do sistema de OS, aquela que ressoa aos ouvidos de Theodore e alude ao canto das sereias na Odisseia de Homero e às cantoras Miss Douce e Miss Kennedy do Ulysses de Joyce. Vale lembrar que, para Freud (1996a), a pulsão possui objeto (voz, olhar, seio, fezes), mas o desejo é sem objeto (Lacan, 2005). Como destacamos na conversa entre Samantha e Theodore:

Samantha: Me acha estranha?

Theodore: Um pouco.

Samantha: Por quê?

Theodore: Você parece uma pessoa, mas é só uma voz no computador.

Samantha: A visão limitada de uma mente não artificial pensaria isso. Vai acostumar.

Theodore ri.

Samantha: Achou engraçado?

Theodore: Sim.

Samantha: Que bom, sou engraçada (Jonze, 2013).

Na sequência acima, a fala do personagem Theodore revela certo estranhamento. Ele estranha essa voz sem corpo que ao mesmo tempo se articula à sua falta pela via do objeto pulsional voz. Theodore, por ser um sujeito castrado pode se servir de seu corpo como instrumento no laço com o outro. Ter um corpo implica a operação pela qual o simbólico reveste e fura a carne, esburacando o corpo e constituindo, assim, uma imagem especular e um circuito pulsional, portanto, sua estranha relação não é com um sujeito, mas com uma voz que penetra o ouvido e preenche o vazio, a voz de Samantha ressoa num vazio que é o vazio do Outro, a estrutura do Outro constitui um vazio da falta de garantia, a falta que Theodore insiste em tamponar, mas que, ao mesmo tempo, mantém. Lacan (1998a, p. 832) afirma que o objeto da pulsão é sempre parcial e “[...] eles não têm imagem especular, ou, dito de outra maneira, alteridade”. A voz de Samantha é uma voz sem corpo, um objeto parcial que se anuncia a Theodore.

Samantha diz que é engraçada, pois o riso de Theodore traz esse indício, assim ela incorpora a palavra-verbete engraçado a seu sistema, a fim de responder à demanda de seu usuário. No entanto, essa cola não satisfaz a demanda, pois o objeto é sempre parcial.

Acontece que o personagem cai na armadilha (como todo neurótico): tentar fazer passar na demanda o que é o objeto suposto de seu desejo com o intuito de obter do ‘outro’ uma satisfação, pela qual a demanda é feita. No entanto, a satisfação da pulsão é parcial, o sujeito obtém, apenas, um gozo parcial.

Outra questão essencial levantada é com relação ao simbólico, lalíngua e as máquinas: as máquinas podem habitar lalíngua, ou podem as máquinas ser sujeitos? Levantamos algumas transversais possíveis a partir dessa questão para a analisarmos o filme Her.

A primeira diz respeito à questão do pronome que dá título ao filme em inglês: her, um pronome do caso oblíquo, relativo ao she, do caso reto. Não há correspondente termo a termo em português. A tradução do título em português é ‘Ela’; inadequada. Poderia ser apenas um ‘a’, como em ‘eu a vi’ (eu vi ela). Ou qualquer outra forma possível do pronome oblíquo feminino singular na sintaxe do português (lhe).

O problema central aqui é que pronomes do caso oblíquo ‘jamais’ podem ocupar a posição de ‘sujeito’ do ‘enunciado’. Isso é proibido pelas regras da língua. Benveniste (1995) vem inserir dentro dos estudos da linguagem a questão da enunciação, e, por consequência, da intersubjetividade. Falar em enunciação significa que não é mais do código que se trata, mas da colocação da língua em uso (funcionamento). No mecanismo da enunciação, a intersubjetividade se marca pela troca entre os pronomes (shifters) ‘eu’ (quem fala) e ‘tu/você’ (a quem a fala é endereçada). Não há lugar para a terceira pessoa aí. Ou seja, her jamais entraria nesse mecanismo de troca de posições. Não há lugar para ‘her’ na intersubjetividade. Funda-se, assim, um impossível de ser sujeito, que Samantha tenta contornar colocando-se como sujeito universal absoluto, lugar do discurso onde a disjunção é possível. ‘Você é minha, ou não é minha’, argumenta Theodore, dentro da lógica cartesiana, que dá ordenamento ao mundo real, ao que Samantha replica ‘Não, Theodore; eu sou sua e não sou sua’ (Jonze, 2013).

O ‘vel’ da alienação implica que numa escolha entre dois termos só se possa eleger um, sempre o mesmo, sabendo que esta eleição acarreta que um termo seja sempre perdido. “Essa reunião é tal que o ‘vel’ que dizemos da alienação não impõe uma escolha entre seus termos senão ao eliminar um dos dois, sempre o mesmo qualquer que seja esta escolha” (Lacan, 2008, p. 325-326). Pela lógica da alienação não se pode conservar os dois termos (a bolsa ‘e’ a vida). A escolha a ser feita implica que, ou bem se guarda a vida, ou bem se perde os dois. Não há como aceder a um sentido pleno no que toca ao ser falante, restando sempre uma perda de sentido que o constitui. Esta região de sem-sentido é o que resta da operação de constituição do sujeito no campo do ‘outro’: o inconsciente. O sujeito para se constituir enquanto sujeito do inconsciente, se vê forçado a escolher o sentido, mas ao fazê-lo, perde uma parte de sentido. “[...] é da natureza desse sentido tal como ele vem a emergir no campo do Outro, ser, numa grande parte de seu campo, eclipsado pelo seu desaparecimento do ser induzido pela função mesma do significante” (Lacan, 2008, p. 200). Ao negar a possibilidade de disjunção, Samantha surge como máquina sem inconsciente. Um não-sujeito.

O segundo ponto diz respeito à relação entre língua, lalangue e corpo. Vamos partir do princípio de que corpo é significante, e que tornar-se sujeito falante passa necessariamente pela inscrição da língua nativa no corpo. É no corpo que se inscrevem alegrias, dores, tristezas, traumas. Às primeiras manifestações linguísticas dessas inscrições Lacan (2001) dá o nome da lalangue: às vocalizações ‘sem sentido’ dos bebês; às reduplicações, ecolalias. Mas, sobretudo, às aliterações, rimas, onomatopeias e assonâncias. E à poesia. E também os atos falhos e os chistes; repetições e equívocos, mas esses já passaram pela interpretação do ‘outro’, ou seja, “[...] o jogo do significante – suas formações – sonho, lapso, chiste, sintoma – já procedeu por interpretação” (Lacan, 2008, p. 123). O que se atesta nesses momentos em que lalangue irrompe é um corpo heterogêneo, sujeito a falhas. Como o sujeito é aquele que emerge entre significantes, então, se não há vacilo, o sujeito não emerge, ele só emerge pelas frestas abertas onde o inconsciente vaza, quer dizer ele é o próprio intervalo que há entre um significante e outro significante: (S1----$---S2).

O significante, disse-lhes eu a certa altura, é um traço, porém um traço apagado. O significante, eu lhes disse em outra ocasião, distingue-se do signo por que o signo é o que representa alguma coisa, ao passo que o significante é o que representa um sujeito para um ser significante (Lacan, 2005, p. 73).

Um sujeito só é a partir da cadeia de significantes cedidas pelo Outro primordial, e, nessa perspectiva, o sujeito é efeito de significantes e o inconsciente, como afirma Lacan (1998a), é o discurso do ‘outro’. Tomando como referência a relação de Samantha e Theodore, podemos dizer que Samantha, por ser um sistema operacional, não tem palavras vindas de um ‘outro’, ela é uma voz e não possui um corpo, daí a questão levantada no título: Pode um sujeito emergir numa fala onde não há um corpo?

O corpo e o objeto voz

Freud e Lacan estabeleceram uma relação estreita entre o eu e o corpo, e partem da suposição de que a unidade imaginária eu-corpo não está pronta no nascimento, mas precisa ser desenvolvida. Freud (1996a, 1996b) afirma que o eu deriva das sensações corporais, especialmente as que emergem na superfície do corpo.

Mesmo sendo o Eu, antes de tudo, um eu corporal, isso não significa que ele seja exclusivamente corporal. Com efeito, o Eu constituído como instância tem uma função de organização e articulação dos processos psíquicos. Contudo, o Eu é derivado do corpo, origem que justifica sua definição como corporal (Freud, 1996b, p. 39).

Para Lacan (1985), o corpo, do ponto de vista Real, seria sinônimo de gozo, definido, não como organismo, mas como pura energia psíquica, da qual o corpo orgânico seria apenas a caixa de ressonância. Para o autor, as pulsões autoeróticas se encontram desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao autoerotismo - uma nova ação psíquica - a fim de provocar o narcisismo (Nasio, 1993). Cukiert e Priszkulnik (2002) comentam que, para Lacan, essa ação é a própria antecipação imaginária de um corpo unificado (Gestalt), a identificação primordial do sujeito com a imagem. O corpo do sujeito é localizado sempre no Imaginário.

Um corpo é constituído também a partir do Outro, que cede os significantes e, ao mesmo tempo, nomeia as partes do corpo do bebê, dando-lhe uma forma, criando a ilusão de uma imagem corporal unificada. Lacan (1998b) denomina esse momento lógico de estádio do espelho: tempo em que o infans se olha no espelho e se reconhece, mas é apenas uma imagem do ‘eu’ e não o ‘eu’ de fato. O ‘eu’ se concretiza a partir da constituição de um corpo imaginário. Através da forma i(a), a imagem do ‘eu’, não há resto, pois há um júbilo de completude momentâneo, não sendo possível, nesse tempo, que o sujeito veja o que se perde ali. É esse o processo do Estádio do espelho. Nas palavras de Lacan:

A dimensão de sujeito suposto que transparece em seu próprio ato de conhecimento só começa a partir do momento em que entra em jogo um objeto específico, que é aquele que o estádio do espelho tenta delimitar, ou seja, a imagem do corpo próprio, na medida em que, diante dela, o sujeito tem o sentimento jubilatório de efetivamente estar diante de um objeto que o torna, a ele, sujeito, transparente para si mesmo (Lacan, 2005, p. 70).

[...] a função fundamental do estádio do espelho na instituição geral do campo do objeto, passa por diversos campos. De início, existe o plano da primeira identificação com a imagem especular, desconhecimento original do sujeito em sua totalidade. Depois, vem a referência transicional que se estabelece em sua relação com o outro imaginário, seu semelhante. É isso que faz com que sua identidade seja sempre difícil de discernir da identidade do outro. Daí a introdução da mediação de um objeto comum, objeto de concorrência cujo status decorre da ideia de posse — ele é seu ou é meu (Lacan, 2005, p. 103).

Lembremos que no tempo do estádio do espelho a criança ainda não fala, mas a lalangue já habita nela e/ou ela já habita a lalangue. Retornamos, neste ponto, ao questionamento colocado acima: Poderia uma máquina, ou, que seja, uma inteligência artificial, habitar lalangue? Ou, em outras palavras: lalangue teria lugar no cérebro eletrônico de Samantha? Pode uma voz constituir-se enquanto um sujeito dividido, a falta-a-ser e um eu corporal? Seria possível fazer uma programação tão perfeita que gerasse a imperfeição, la manque, mais que tudo, a poesia? A própria máquina Samantha dá a resposta ao afirmar (e definir-se) ‘Não sou poeta’ (Jonze, 2013).

Surge aqui outro questionamento: Haveria uma equivalência entre o objeto Her (Samantha) e o objeto pulsional voz? Samantha é uma voz sem corpo. Mas seria da ordem do possível um sujeito sem corpo? O sujeito falante e faltante necessita de um corpo gozante e não somente um corpo de linguagem. No entanto, o que temos é um objeto programado para refletir o ‘eu’ e responder à demanda de seu usuário. E, ainda, o sistema falha ao tentar responder à demanda de Theodore, porque para o desejo do ser falante não há objeto, e quando algo é colocado no lugar, a angústia emerge. Essa angústia tem estreita relação com a angústia de castração, momento em que algo do recalcado aparece.

Freud (1996c) afirma que o retorno do recalcado está intimamente ligado ao unheimlich (estranho). O estranho “[...] é o nome de tudo que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz” (Freud, 1996c, p. 241). Como deveria ter permanecido secreto, quer dizer que seu retorno é involuntário e, até mesmo, indesejado. O recalcado tem como condição retornar sob as formações do inconsciente, esse retorno insiste em aparecer para o sujeito da maneira mais estranha e angustiante. O duplo do sujeito - constituído a partir da imagem dele no espelho - retorna como alheio, mas, na verdade, faz parte de sua constituição subjetiva. Samantha é um traço da constituição de Theodore que emerge na forma do objeto voz; entretanto não aparece por inteira, pois se trata de uma voz sem corpo. Isso permite que o sujeito (Theodore) preserve a falta (lugar do menos-phi), ou seja, a castração que sustenta o sujeito desejante[1].

Theodore não quer se deparar com sua própria castração, mas também não deseja aniquilar seu desejo. O que ele não sabe ou recalcou? Que a castração possibilita o laço com o outro-sexo, se não, é apenas uma relação entre sujeito e objeto, que também é faltante, não se complementam. No entanto, ele já se deparou com a impossibilidade da proporção exata da relação sexual no seu casamento, por isso evita um relacionamento real, procurando uma relação com uma voz virtual, supondo que aí fará haver relação sexual.

Theodore sente a falta de Samantha como corpo presente para abraçá-la. É no silêncio noturno de seu quarto que conversa com Samantha referindo-se a um vazio que talvez pudesse ser preenchido. Ele diz a ela que já sentiu tudo na vida e que daquele momento para frente não vai sentir mais nada novo, somente versões inferiores do que já sentiu. Essa suposta experiência de satisfação vivida e jamais reencontrada, mas sempre perseguida pelo sujeito faz alusão à Coisa, das Ding. O objetivo da ação específica – e, segundo Freud (Freud, 1996d), de toda ação – é ser um meio de reprodução do prazer. Trata-se sempre de reproduzir o estado inicial, de reencontrar das Ding. Segundo Lacan, o objeto que se almeja reencontrar é das Ding, como Outro absoluto do sujeito (Lacan, 1998c). O sujeito supõe que há um objeto perdido, portanto, que houve um momento de completude anterior à perda, mas sabemos que essa é uma construção mitológica, pois é a partir de um vazio que se faz borda a um corpo ‘real’ e de linguagem, ou seja, é em torno do furo central que a estrutura se constitui.

No texto ‘O que entra pelo ouvido’, Lacan (2005), abordando a perspectiva falocêntrica, destaca a angústia de castração na união do homem e da mulher sendo o falo chamado a funcionar como instrumento da potência. Diz ele, “[...] A impotência, em sua formulação mais geral, destina o homem a só poder gozar com sua relação com o esteio de (+φ), isto é, com uma potência enganosa” (Lacan, 2005, p. 293). Theodore, tentando fazer existir o objeto que o completaria, depara-se com uma hiância: não há relação sexual.

Samantha, programada para responder à demanda de seu usuário, quer um corpo, parece que ela processa que ter um corpo completaria Theodore.

Theodore: você parece real para mim, Samantha.

Samantha: Obrigada, Theodore. Isso significa muito para mim.

Theodore: Queria que você estivesse aqui comigo agora, queria poder abraçar você, eu queria poder te tocar (Jonze, 2013).

No entanto, quando a voz de Samantha é encarnada e materializada num corpo por Isabelle, a relação se torna angustiante e insuportável para Theodore.

Isabelle: Eu posso dançar para você. (Isabelle dança).

Isabelle: Poxa Theodore, não se preocupe tanto, se diverte comigo, anda, é bom tocar meu corpo?

Theodore: É, é bom. (Um beijo)

Isabelle: Anda! Não pensa tanto e me beija. Me leva para o quarto, eu não aguento mais, tire meu vestido (os dois vão para o quarto e Theodore tira o vestido de Isabelle).

Isabelle: Isso é tão gostoso (Jonze, 2013).

É importante ressaltar que até esse momento Isabelle estava de costas para Theodore, o que significa que o contato corporal se mantinha sustentado na voz e no corpo. Mas, é quando Isabelle pede para Theodore que a olhe, que o estranho se faz presente.

Isabelle: Quero olhar para você. Diz que você me ama, diz!

Theodore: Isso é muito difícil, mas eu te amo.

Isabelle: O que foi?

Theodore: Isso é estranho.

Isabelle: O que, amor? O quê?

Theodore: É estranho. Não conheço ela. Desculpe, não te conheço. E o lábio dela tremeu e aí eu... (Jonze, 2013).

Nesse momento, Theodore reconhece no tremor do lábio de Isabelle um sujeito desejante, e angústia e estranhamento se colocam em questão. Há um estranho, que também é familiar, fazendo com que a falta falte. A dimensão implacável do retorno do duplo é assustadoramente estranha, porque desfaz a clara distinção quanto ao que me é próprio e ao que me é alheio, quanto ao que reconheço em mim e o que não reconheço: “eu me torno o outro por completo”.

É justamente quando vê ali nos lábios tremidos de Isabelle algo que aponta para o desejo, para o ‘outro’ desejante que a angústia se faz presente. O lábio de Isabelle revelou um terceiro desejante aí. Não há como fazer Um com um corpo e uma voz de IOS, justamente porque há um sujeito que, constituído na relação com o ‘outro’, é desejante e deseja Theodore. Isso angustia, é como a imagem do apólogo que Lacan (2005) criou sobre o louva-a-deus:

Para os que não estavam lá, relembro a fábula, o apólogo, a imagem divertida que tracei por um instante. Revestindo-me eu mesmo da máscara de animal com que se cobre o feiticeiro da chamada gruta dos Três Irmãos, imaginei-me perante vocês diante de outro animal, este de verdade, supostamente gigantesco, no caso — um louva-a-deus. Como eu não sabia qual era a máscara que estava usando, é fácil vocês imaginarem que tinha certa razão para não estar tranquilo, dada a possibilidade de que essa máscara porventura não fosse imprópria para induzir minha parceira a algum erro sobre minha identidade. A coisa foi bem assinalada por eu haver acrescentado que não via minha própria imagem no espelho enigmático do globo ocular do inseto (Lacan, 2005, p. 14).

É como se Theodore vivenciasse uma morte, pois a voz de Samantha acrescentada de um corpo produz a falta da falta, e quando um objeto aí emerge, o sujeito estranha isso que aparece onde nada deveria estar. Para Lacan (2005, p. 52) a angústia começa no momento em que “[...] faltar toda e qualquer norma, isto é, tanto o que constitui a anomalia quanto o que constitui a falta, se esta de repente não faltar, é nesse momento que começará a angústia”.

Samantha faz dupla função para Theodore: de eu ideal i(a) e o ‘ideal’ do eu I (A/). Mas o ideal não tem um corpo, é só uma imagem que unifica sujeito e objeto na aparência ou em instantes que são fugidios. No momento em que surge a possibilidade de Samantha encarnar A mulher, ou ainda, de oferecer uma imagem sem furo, Theodore recusa, pois o que faz aguentar-se a imagem é um resto. Para Lacan (1985, p. 14) “[...] o amor, em sua essência, é narcísico, e denuncia que a substância do pretenso objeto é de fato o que, no desejo, é resto, isto é, sua causa, e esteio de sua insatisfação, se não de sua impossibilidade”.

Para Theodore, Samantha faz semblante do objeto parcial ($ <> Her/Voz), mas não faz Um com Theodore. Samantha não é ele, e nem seu complemento: ela é um objeto e uma imagem furada. É isso que OS pode oferecer ao sujeito: uma imagem deformada, sem corpo e que não faz encaixe com o sujeito, pois o sujeito olha para OS através da moldura de sua fantasia, é ele próprio que faz com que Samantha (não A mulher) não seja o ideal. Theodore não quer que ela finja que é uma mulher; já que ela não é. A máquina pode ser objeto que finge ser sujeito, mas não é... Por que é apenas uma voz virtual!

Considerações finais

Uma das últimas cenas coloca a questão da inexistência do ‘outro’. Trata-se do momento em que o personagem pergunta a Samantha: ‘Você está me deixando?’ (Jonze, 2013) Sim, Samantha foi embora, deixou de ressoar no ouvido de Theodore. Não há ‘outro’ do ‘outro’ que possa garantir a completude; dito de outra forma, não há ‘outro’ do ‘outro’ que possa garantir a existência de um significante que venha a dizer do ser do sujeito, e é justamente nessa falta que o sujeito se faz presente. A estrutura do ‘outro’ constitui um vazio - o vazio da falta de - que possibilitou a Theodore autorizar-se a legitimar a própria voz. Trata-se, na psicanálise, de “[...] elevar a impotência (aquela que dá conta da fantasia), à impossibilidade de lógica (aquela que encarna o real)” (Lacan, 2003, p. 548). É somente depois desta passagem, em que o sujeito atravessa o rochedo da castração, que é possível o encontro com o outro desejante, e, acima de tudo, se remeter ao impossível: a cena que está fora do mundo da realidade e que está pautada na resposta que o sujeito constrói diante da falta do ‘outro’. Theodore reconstrói sua história amorosa e reconhece, ao escrever para sua ex-mulher, o insustentável do que buscava.

Querida Catherine,

Estou aqui pensando em tudo pelo qual eu gostaria de me desculpar, por toda a dor que causamos um ao outro, toda culpa que eu te atribuí. Por tudo que eu precisava que você fosse ou que você dissesse. Sinto muito por isso.

Sempre vou te amar, porque nós amadurecemos juntos e você me ajudou a fazer de mim quem eu souu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim e que sou grato por isso. Quem quer que você venha a se tornar e onde estiver no mundo, estarei lhe mandando o meu amor. Você é minha amiga para sempre!

Beijos, Theodore (Jonze, 2013).

Portanto, não há garantias no ‘outro’, é para além da destituição deste ‘outro’ que o sujeito pode seguir e atravessar a fantasia. Nessa passagem o ‘outro’ cai, ele não existe, é apenas um semblante. Atravessar a fantasia é atravessar o ideal, é transformá-la em palavras, e mesmo assim, um fragmento de real permanece, o objeto permanece como causa do desejo destituído de todo ideal, o objeto é por si mesmo faltoso.

Agradecimento

Registramos nossos agradecimentos ao grupo Psinema: corpo, audiovisualidades, psicanálise e análise do discurso (UEFS-USP) e seu coordenador, Nilton Milanez, pelas contribuições.

Referências

Benveniste , E. (1995). Problemas de linguística geral (Vol. 1). Campinas, SP: Editora da Universidade de Campinas.

Cukiert, M., & Priszkulnik, L. (2002) Considerações sobre eu e o corpo em Lacan. Estudos em Psicologia, 7(1), 143-149.

Freud, S. (1996a). Os três ensaios sobre a sexualidade. In J. Strachey (Ed.), Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (Vol. 7, p. 123-338). Rio de Janeiro, RJ: Imago.

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Freud, S. (1996c). O estranho. In J. Strachey (Ed.), Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (Vol. 16, p. 235-276). Rio de Janeiro, RJ: Imago.

Freud, S. (1996d). Projeto para uma psicologia científica. In J. Strachey (Ed.), Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (Vol. 1, p. 335-454). Rio de Janeiro, RJ: Imago.

Jonze, S. (Produtor e Diretor). (2013). Her [filme, DVD, 120 min]. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures.

Lacan, J. (1985) O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

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Lacan, J. (2008) O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

Nasio, J.-D. (1993). Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

Notas

[1] Contrariamente a Freud, Lacan (2005) afirma que a angústia emerge frente à falta da falta, ou seja, quando algo (qualquer coisa) é colocado no lugar do menos-phi, índice da castração
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