Linguística
Editorial ou carta ao leitor/do editor? estamos falando do mesmo gênero textual?
Editorial or letter to reader/editor’s letter? are we talking about the same textual genre?
Editorial ou carta ao leitor/do editor? estamos falando do mesmo gênero textual?
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 41, núm. 2, 2019
Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 19 Abril 2019
Aprovação: 08 Novembro 2019
Resumo: A fundamentação teórica que norteia este trabalho provém de estudos do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD) realizados no grupo de pesquisa DIALE – Diálogos Linguísticos e Ensino (CNPq/UENP) –, bem como contribuições teóricas provenientes de estudos sobre o gênero textual como ‘megainstrumento’ do trabalho no processo de ensino e aprendizagem de língua. O objetivo principal da pesquisa é responder à questão: carta ao leitor/do editor e editorial são o mesmo gênero textual ou práticas discursivas singulares? Para responder a esse questionamento, o trabalho busca respaldo na noção de modelização teórica de Barros (2012), advinda do conceito de modelo didático do ISD, para a elaboração de modelos teóricos dos dois gêneros estudados. A pesquisa enquadra-se na abordagem qualitativa, de cunho interpretativista, a partir do enquadre da Linguística Aplicada, perpassando três fases: 1) bibliográfica e exploratória; 2) análise documental; 3) analítico-interpretativa. O corpus de análise da segunda fase é formado por textos dos gêneros em foco, coletados de diferentes suportes – Jornal Folha de Londrina, Jornal O Estado de São Paulo, Revista IstoÉ, Veja, Aventuras na História, Gol, Super Interessante, Saúde, Mundo Estranho, Galileu, Todateen. Os resultados apontam a existência de dois gêneros distintos – editorial e carta ao leitor/do editor –, os quais foram modelizados, teoricamente, pela pesquisa. O intuito é contribuir com os estudos em relação à esfera jornalística e servir como instrumento de observação das potencialidades ensináveis dos gêneros pesquisados, auxiliando na elaboração de materiais didáticos.
Palavras-chave: ISD, gênero textual editorial e carta ao leitor, modelo teórico de gênero.
Abstract: The theoretical framework of this research comes from studies of the Socio-Discursive Interactionism (SDI) performed by the research group DIALE – Diálogos Linguísticos e Ensino (CNPq/UENP), as well as theoretical contributions from studies about the text genre as an megainstrument of work in the process of language teaching and learning. The main purpose of the study is to answer the question: are the letter to reader/editor and the editorial the same text genre or singular discursive practices? To answer this questioning, the paper search to support the notion of theoretical modeling of Barros (2012), coming from the concept of didactic model of SDI, for the elaboration of theoretical models of both studied genres. This research joins a qualitative, approach from an interpretative nature of Applied Linguistics, going by three steps: 1) bibliographical and exploratory, 2) documentary analysis; 3) analytical interpretive. The corpus of analysis of the second research phase consists of texts of the genres in focus, it is collected by texts from different supports – Folha de Londrina, O Estado de São Paulo, Magaziane IstoÉ, Veja, Aventuras na História, Gol, Super Interessante, Saúde, Mundo Estranho, Galileu, Todateen. The results show the existence of two different text genres – the editorial and the letter to the editor – which were, theoretically, model by the research. The goal is to add to the studies of the journalistic field and to serve as an observation instrument of the teaching potentialities of the genres researched, assisting the process of elaboration of teaching materials.
Keywords: SDI, editorial textual genre and letter to reader, theoretical model of genre.
Introdução
Cada campo/esfera da comunicação tem seus gêneros prototípicos, os quais acabam refletindo as características dessas áreas. O campo jornalístico, por exemplo, que prima pela neutralidade, objetividade, verdade, age coercitivamente sobre os enunciados que dele emergem, fazendo com que os gêneros que o permeiam assumam, pelo menos em parte, tais características. Evidentemente, há variações contextuais, dependendo de quem produz, para quem se produz, do meio de circulação, do suporte, etc. Entretanto, para que um gênero pertença a uma esfera, ele precisa manter certa identidade com tal esfera. Quando tratamos dos gêneros de ‘textos introdutórios de revistas e jornais’[1], escritos por editores, com autoria explícita ou não, não há um consenso na sua designação: carta ao leitor/do editor ou editorial? Será que esses rótulos dizem respeito ao mesmo gênero, ou seja, são nomenclaturas diferentes para referirem-se à mesma prática de linguagem? Ou são gêneros distintos, com características específicas? Essa é justamente a questão que move este trabalho. Para responder a essa pergunta, objetivo principal da pesquisa, apoiamo-nos nos pressupostos teórico-metodológicos do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD) e em autores que tomam tal vertente como base de seus estudos (Bronckart, 2003, 2006; Schneuwly & Dolz, 2004; Machado, 2005), e também em Barros (2012) que propõe a noção de ‘modelo teórico do gênero’, uma primeira etapa da elaboração do ‘modelo didático’ sistematizado pelo Grupo de Pesquisadores de Genebra (Schneuwly & Dolz, 2004). Os objetivos específicos estão relacionados à descrição do(s) gênero(s) estudados, por meio da sua modelização teórica.
Na primeira fase do trabalho, é feita uma pesquisa bibliográfica a partir dos rótulos ‘carta ao leitor’, ‘editorial’ e ‘carta do editor’, tendo como fonte tanto autores da área da Comunicação Social como dos Estudos da Linguagem (Köche, Bolf, & Marinello, 2012; Santos, 2009; Souza, 2006;Alves Filho, 2006; Melo, 1985), a fim de entender como as referidas áreas abordam tais práticas discursivas. Em um segundo momento, de cunho exploratório, é selecionado um corpus representativo de textos introdutórios de revistas e jornais diversos para a realização de uma ‘análise documental’ (Gil, 2014) tendo em vista que tais objetos sociais possuem público-alvo, características diferentes (revistas direcionadas a um público feminino, adulto, revistas com temáticas específicas, jornais locais, de grande circulação: Veja, Galileu, Mundo Estranho, Saúde, Super Interessante, Aventuras na História, Gol, Todateen, Jornal Folha de Londrina, Jornal O Estado de São Paulo), a fim de, com base na pesquisa bibliográfica e na observação da funcionalidade dos textos dentro do seu suporte (sobretudo, análise das representações contextuais emergentes da textualidade e do plano global dos textos), tomar uma posição quanto à pergunta-chave da pesquisa. Na última etapa da pesquisa concluímos o processo de modelização teórica dos objetos discursivos em estudo, ao analisar e interpretar (análise documental) o corpus selecionado na pesquisa exploratória, a partir de um quadro diretivo sistematizado por Barros (2012) e abordado por vários autores (Castellani & Barros, 2018; Canizares, Santos, & Manzoni, 2019) o qual fundamenta-se nas categorias de análise de textos do ISD – descritas na seção teórica deste artigo.
A fim de sistematizar os resultados obtidos, o trabalho apresenta, ao final das análises, um quadro-síntese com as características contextuais, discursivas e linguístico-discursivas da ‘carta ao leitor/do editor’ e do ‘editorial’; uma vez que chegou-se à conclusão de que tais objetos são dois gêneros com funcionalidades singulares. No caso da carta, a pesquisa considerou que os rótulos ‘carta do editor’ e ‘carta ao leitor’ representam focos enunciativos diferentes para um mesmo gênero – no emissor ou no destinatário.
A organização estrutural deste artigo conta algumas seções. ‘A perspectiva teórico-metodológica da pesquisa: Interacionismo Sociodiscursivo (ISD)’ apresenta a base teórica da pesquisa. ‘Buscando respostas para a questão que move à pesquisa’ está dividida em três partes: 1) pesquisa bibliográfica, na qual há uma busca por autores que tratam especificamente do ‘editorial, carta ao leitor e carta do editor’; 2) análise documental de nível exploratório, fundamentada em um corpus heterogêneo de revistas e jornais; 3) análise documental de nível descritivo, contendo descrição das características discursivas e linguístico-discursivas dos gêneros encontrados em nossa pesquisa.
A perspectiva teórico-metodológica da pesquisa: Interacionismo Sociodiscursivo (ISD)
Neste trabalho, como já mencionamos, buscamos respaldo no quadro teórico-metodológico do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD) (Bronckart, 2003), uma vertente de estudos que se intitula Ciência do Humano (Bronckart, 2006) e que tem, na sua gênese epistemológica, postulados teóricos diversos, entre eles, a Enunciação Verbal do Círculo de Bakhtin (Bakhtin, 1997) e o Interacionismo Social de Vigotski (2008).
As teorias da enunciação, à qual podemos incluir os estudos bakhtinianos, “[...] consideram a língua como um fenômeno social, uma forma de ação, uma interação entre sujeitos. Essa concepção de língua admite que, ao falar e também ao escrever, os sujeitos constroem uma interlocução em que o trabalho com a língua está sempre presente” (Fiad, 2013, p. 466). Portanto, a língua, nessa concepção, só funciona em uso, ou seja, concretiza-se a partir de suas várias produções verbais, as quais variam em cada situação comunicativa. Ela é mutável, dinâmica e só se realiza por meio de unidades verbais completas de sentidos, denominadas ‘textos’.
Na perspectiva da teoria da enunciação de Bakhtin (1997, p. 280), “[...] qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados [...]”, ou seja, os gêneros discursivos, que, nesta pesquisa, estamos tomando como equivalente a ‘gêneros textuais’[2] – expressão esta utilizada pela pesquisa, uma vez que comungamos com Bronckart (2003, p. 75, grifo do autor):
Chamamos de ‘texto’ toda unidade de produção de linguagem situada, acabada e auto-suficiente (do ponto de vista da ação ou da comunicação). Na medida em que todo texto se inscreve, necessariamente, em um conjunto de textos ou em gênero, adotamos a expressão ‘gênero de texto’ em vez de ‘gênero de discurso’.
Todo enunciado/texto, na visão de Bakhtin (1997, p. 280), é composto de três elementos – conteúdo temático, estilo e construção composicional –, os quais “[...] fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação”. Todavia, esses três componentes sofrem forte influência do entorno extralinguístico, que age coercivamente na textualidade. Dessa forma, não é possível analisá-los sem levar em consideração a situacionalidade social-ideológica da produção.
Segundo Bronckart (2003), a constituição do ser humano é resultado de um processo de ‘interações sociais mediadas’, sempre, por instrumentos semióticos (entre eles, os gêneros textuais), posição essa oriunda dos estudos vigotskianos. Vigotski (2008) assume a posição que o funcionamento psicológico de um ser se estrutura a partir das relações sociais estabelecidas entre o indivíduo e o mundo exterior, ou seja, a interação entre s sujeitos não é direta, mas mediada por sistemas simbólicos em que a linguagem ocupa um papel significativo. O ser humano se constitui como tal por meio de um sistema interacionista complexo no qual influencia e é influenciado por determinada cultura. Embora o ISD comungue dos mesmos princípios vigotskianos, ou seja, dando ao social um papel centralizador, ele tem como foco de pesquisa/análise as questões discursivas, ou seja, é por meio das ‘atividades linguageiras’ que se compreende o desenvolvimento humano. Nesse sentido, para o ISD, os textos e suas configurações genéricas, ou seja, os gêneros textuais, são centrais na investigação do ser humano como sujeito piscossocial, isso porque eles são frutos das atividades sociais das quais os indivíduos participam. Para Bronckart (2003, p. 137, grifo do autor),
Na escala sócio-histórica, os textos são produtos da atividade de linguagem em funcionamento permanente nas formações socias: em função de seus objetivos, interesses e questões específicas, essas formações elaboram diferentes espécies de textos, que apresentam características relativamente estáveis (justificando-se que sejam chamadas de ‘gêneros de texto’) e que ficam disponíveis no ‘intertexto’[3] como modelos ‘indexados’, para os contemporâneos e para as gerações posteriores.
Para compreender o funcionamento desses textos/gêneros, Bronckart (2003) elabora um quadro de análise de textos a partir de dois pilares: 1) as condições de produção textual e 2) a arquitetura interna dos textos.
No plano das condições de produção, Bronckart (2003) parte da bipartição entre o mundo físico e o mundo sociosubjetivo da ação de linguagem, formulando a Figura 1.
Os elementos do contexto de produção são essenciais para análise do aspecto discursivo, de ação e linguísticos discursivos a partir de dois contextos: físico e o psicossocial. O primeiro está associado à linguagem utilizada no texto, levando em consideração o lugar físico e o momento de criação, a pessoa que produz e o receptor. O segundo é relativo à instituição social da qual emerge o texto produzido, bem como aos propósitos de interação e a posição social do emissor e receptor. Na análise das condições de produção também podem ser incluídos os ‘suportes textuais’ (Marcuschi, 2008) e as representações do conteúdo temático (ou referente) do texto, definido por Bronckart (2003, p. 97) como o “[...] conjunto das informações que nele são explicitamente apresentadas, isto é, que são traduzidas no texto pelas unidades declarativas da língua natural utilizada”.
| Condições/contexto de produção Arquitetura interna do texto | |||
| Físico Ø Lugar Ø Momento Ø Emissor Ø Receptor | Psicossocial Ø Lugar social Ø Objetivos Ø Enunciador Ø Destinatário | Infraestrutura | Plano Textual Global Tipos de Discurso Tipos de Sequência |
| Mecanismos de textualização | Coesão Nominal Coesão Verbal | ||
| Mecanismos enunciativos | Vozes e Modalizações | ||
Já a arquitetura interna do texto é dividida por Bronckart (2003) em três fases: 1) a infraestrutura geral dos textos; 2) os mecanismos de textualização; 3) os mecanismos enunciativos. A infraestrutura geral dos textos comporta: 1) o plano geral (refere-se à organização de conjunto do conteúdo temático); 2) tipo de discurso (designa os diferentes segmentos que o texto comporta); 3) articulações entre tipos de discurso (pode tomar diferentes formas, como por exemplo, o encaixamento e a fusão); 4) sequências ou sequencialidade (modos de planificação de linguagem que se desenvolvem no interior do plano geral de texto – sequência narrativa, argumentativa, etc.).
Os mecanismos de textualização funcionam em um nível intermediário e consistem em criar séries isotópicas que contribuem para o estabelecimento da coerência temática: 1) a conexão (contribui para marcar as articulações da progressão temática); 2) a coesão nominal (tem a função de introduzir os temas e/ou personagens novos e também a de assegurar sua retomada ou sua substituição no desenvolvimento do texto); 3) a coesão verbal (assegura a organização temporal e/ou hierárquica dos processos (estados, acontecimentos ou ações) verbalizados no texto e são essencialmente realizados pelos tempos verbais).Os mecanismos enunciativos são responsáveis pela manutenção da coerência pragmática (ou interativa) do texto: 1) posicionamento enunciativo e vozes; 2) as modalizações.
Os gêneros textuais, na perspectiva do ISD, são potenciais objetos de ensino da língua. Para viabilizar a ‘engenharia didática’ (Dolz, 2016) proposta por seus pesquisadores vinculados à Didática das Línguas, o ISD propôs a elaboração de uma ferramenta mediadora do processo de ‘transposição didática’ (Chevallard, 1991), conhecida por ‘modelo didático de gêneros’, a qual possibilita visualizar as ‘dimensões ensináveis dos gêneros’ (De Pietro & Schneuwly, 2014). Essa ferramenta tem o objetivo de subsidiar a elaboração de ‘sequências didáticas de gêneros’ (Dolz, Noverraz, & Schneuwly, 2004).
Os modelos didáticos, de modo geral, são construídos a partir: a) dos resultados de aprendizagem expressos em documentos oficiais e do diagnóstico das capacidades de linguagem dos alunos; b) dos conhecimentos dos experts do gênero; c) da análise de um corpus de textos pertencentes ao gênero (Cristovão, 2007). De forma complementar a essa noção de modelização didática, Barros (2012, p. 15) propõe o conceito de ‘modelo teórico do gênero’: “[...] o modelo do gênero pode ser visto, a priori, apenas teoricamente, isto é, sua construção não necessitaria levar em conta as capacidades dos alunos nem as particularidades do contexto de ensino. Ele pode ser elaborado, a princípio, de forma genérica [...]”. Ou seja, para a elaboração do modelo teórico do gênero deve-se: levantar os saberes de referência em relação ao gênero (pesquisa bibliográfica; entrevistas com os interlocutores do gênero, etc.) e fazer uma descrição das suas principais características (Barros, Mafra, & Storto, 2017).
Neste trabalho, nos apropriamos da noção de modelo teórico para fundamentar os resultados de nossa pesquisa exploratória e responder, com mais propriedade analítica, à resposta que embasa a pesquisa: editorial e carta ao leitor/do editor são gêneros distintos ou são apenas rótulos distintos para designar o mesmo gênero? Para o processo de modelização teórica percorremos, assim, as duas etapas descritas anteriormente: 1) consulta aos estudiosos do(s) gênero(s); 2) descrição analítica a partir da seleção de um corpus textual. Essas duas fases encontram-se nas seções seguintes.
Buscando respostas para a questão que move à pesquisa
A primeira fase da pesquisa exploratória é realizada por meio de uma pesquisa bibliográfica. Nessa fase, abordamos estudos sobre o editorial e a carta ao leitor/do editor. O segundo momento, do tipo documental, contempla a seleção de um corpus composto por uma diversidade de suportes jornalísticos impressos – Veja, Galileu, Mundo Estranho, Saúde, Super Interessante, Aventuras na História, Gol, Todateen, Folha de Londrina, O Estado de São Paulo. O corpus é direcionado a públicos distintos, dando melhor abertura e abrangência para nossa última etapa da pesquisa: a análise descritiva (análise documental) da qual resulta a esquematização de modelo(s) teórico(s) (Barros, 2012) do(s) gênero(s) estudados.
Pesquisa bibliográfica: carta ao leitor/do editor e editorial
Quando tratamos de gêneros de textos introdutórios de revistas e jornais, escritos pelos seus editores, com autoria explícita ou não, não há um consenso na sua designação: carta ao leitor/do editor ou editorial? Será que esses rótulos dizem respeito ao mesmo gênero, ou seja, são nomenclaturas diferentes para referirem-se à mesma prática de linguagem, ou são gêneros distintos, com características específicas? Esse é, pois, um dos objetivos desse trabalho: tentar caracterizar esses textos e rotulá-los de forma coerente com a sua prática discursiva. Para tanto, primeiramente, buscamos respaldo em trabalhos autorais de pesquisadores das áreas da linguagem e da comunicação social para propor uma definição e caracterização para esse(s) gênero(s).
Num primeiro momento da pesquisa bibliográfica, voltada mais diretamente para o rótulo ‘editorial’, o estudo não encontrou consenso quanto à caracterização e nomenclatura do gênero. As maiores divergências parecem estar centradas no tipo de suporte jornalístico no qual o texto é veiculado – jornal ou revista – e na antiga dualidade do mundo jornalístico – opinião versus informação. Quanto à carta ao leitor/do editor há pouquíssimas pesquisas usam tais nomenclaturas para designar o gênero. Além disso, os estudos que encontramos que usam tais rótulos em suas investigações não se detêm na caracterização do gênero.
Editorial: a voz dos especialistas
Iniciamos nossa investigação bibliográfica partindo de textos e autores que tomam o editorial como foco dos seus estudos, traçando um paralelo com a problemática da definição da sua nomenclatura e funcionalidade na esfera jornalística.
Alves Filho (2006, p. 84, grifo nosso) inicia sua discussão sobre o ‘editorial de jornal’, dizendo que
Do ponto de vista das teorias de gêneros de vezo bakhtiniano, pode-se assegurar, com muita tranqüilidade, que os editoriais constituem um ‘gênero de discurso’. Eles possuem relativa estabilidade quanto a estilo, tema e estrutura composicional; emanam de uma esfera social de comunicação e nela se desenvolvem.
Alves Filho (2006), como vemos, considera o editorial como um gênero discursivo. É importante destacar a escolha pela nomenclatura ‘editorial de jornal’, ou seja, da restrição desse gênero a um dos suportes jornalísticos – o jornal –, uma vez que essa visão não é consenso na área. Köche et al. (2012), por exemplo, tratam o editorial como um texto que representa o posicionamento tanto de jornais como de revistas:
O editorial é um gênero textual que expressa o ‘ponto de vista do jornal ou revista em que é publicado’. Opina a respeito de temas e fatos atuais, notícias, reportagens e entrevistas, e nele ‘não consta o nome do redator’. [...] Geralmente, esse gênero trata de ‘assuntos polêmicos’ presentes na mesma edição ou em números anteriores, e ocupa um espaço específico no meio de comunicação em que é veiculado (Köche et al., 2012, p. 59, grifo nosso).
Como vemos, de acordo com as autoras, o editorial é um gênero textual que defende um ‘ponto de vista do jornal ou revista’, posicionando-se em relação a uma questão polêmica. Desse modo, seria um gênero com uma ‘discursividade argumentativa’. Duas características importantes que também aparecem nessa citação é a de que o editorial seria um texto que se apresenta nas páginas iniciais do jornal ou revista, sem traços de autoria, porque a intenção seria expressar a perspectiva do veículo de comunicação. Köche et al. (2012) corroboram com Marques (2009) quanto ao local de publicação do gênero dentro do suporte textual, ao mencionar que o local do editorial, nas primeiras páginas da revista, nesse sentido, antes das matérias, também é uma característica recorrente ao gênero.
Alves Filho (2006) comunga com vários pontos de vista de Köche et al. (2012) em relação ao editorial, como a questão de o gênero ser o representante axiológico do jornal. O autor vai além nessa discussão e conceitua o editorial como um enunciado que pode refletir um ‘posicionamento’ comungado por outras fontes jornalísticas, mas que deve ser sempre inédito do ponto de vista textual.
Quanto à autoria do gênero ‘editorial’, Köche et al. (2012, p. 59) afirmam que “[...] seu produtor busca escrever um texto adequado aos valores que o veículo defende, uma vez que expressa a opinião do grupo que o dirige”. Seria o que Alves Filho (2006) denomina de ‘autoria institucional’, em que:
[...] a voz que fala e assume a conclusibilidade e a posição axiológica é a voz de uma empresa ou entidade, havendo deliberadamente o apagamento e qualquer referência que aponte para o redator individual produtor dos textos. [...] Do ponto de vista da dimensão verbal, há aqui a tendência a não aparecerem pronomes de primeira pessoa e, por outro lado, há preferência por recursos de impessoalização (Alves filho, 2006, p. 81).
Vemos, então, que Alves Filho (2006, p. 85) concebe o editorial como representante das ideias comungadas por um grupo jornalístico, por isso “[...] os textos não vêm assinados por nenhum autor individual, assim como não possuem pé biográfico”.
Segundo especialistas da área do jornalismo e da linguagem, “[...] a opinião contida no editorial constitui um indicador que pretende orientar a opinião pública. Assim sendo, o editorial é dirigido à coletividade” (Melo, 2003, p. 104). O editorial reflete, assim, o posicionamento político, social, cultural ou econômico da organização jornalística da qual emerge, com o propósito de certificar que seu público-alvo, os leitores, partilhem dos mesmos princípios.
Quanto às características linguístico-discursivas do editorial, Marques (2009) destaca o uso da terceira pessoa do singular, ou seja, assim como Alves Filho (2006), o autor coloca a ‘impessoalidade’ como uma das marcas discursivas do gênero.
Marques (2009) se abstém de caracterizar com mais precisão o editorial, uma vez que entende que são os veículos jornalísticos e os leitores que determinam as características do gênero. Isso ocorre porque é o veículo que estabelece o perfil do seu leitor e é a partir desse perfil que é traçado o estilo (linguístico, discursivo, visual, etc.) do jornal/revista. Dessa forma, o editorial teria uma linguagem que se aproximaria do leitor, de acordo com as características da revista/jornal.
Beltrão (1980 apud Melo, 1985, p. 84) classifica os tipos de editoriais a partir de cinco critérios: morfologia, topicalidade, conteúdo, estilo e natureza. Isso mostra que assim como Marques (2009, p. 13), o autor concebe o gênero por um viés mais plástico, como podemos ver no seu quadro classificatório:
[...] quanto à morfologia: artigo de fundo (editorial principal), suelto (pequena análise sobre um fato da atualidade) e nota (registro ligeiro de uma ocorrência, antecipando suas consequências ao leitor). A topicalidade produz três espécies de editoriais: preventivo (focalizando aspectos novos que podem produzir mudanças), de ação (apreendendo o impacto de uma ocorrência) e de consequência (visualizando repercussões e efeitos). No que se refere ao conteúdo, temos: informativo (esclarecedor), normativo (exortador) e ilustrativo (educador). O estilo pode sugerir duas espécies: o intelectual (racionalizante) e o emocional (sensibilizante). Finalmente, quando à natureza, o editorial se divide em: promocional (coerente com a linha da empresa), circunstancial (oportunista, imediatista) e polêmico (contestador, provocador).
Já Köche et al. (2012) e Vieira (2009) se aprofundam mais na descrição do estilo linguístico-discursivo do editorial:
[...] o texto emprega geralmente uma linguagem comum, adequada à língua-padrão. Faz uso de períodos longos, compostos por orações coordenadas e subordinadas. O tempo verbal predominante é o presente do indicativo, pois o produtor discute um assunto da atualidade.
[...] escrito de modo objetivo e impessoal, com predominância do padrão culto formal da língua, utilizando-se para isso de verbos no infinitivo, na terceira pessoa, no tempo presente e na voz passiva (Köche et al., 2012, p. 59).
Vieira (2009) traça também um panorama relativo à construção composicional do gênero, que ele denomina de ‘editorial de jornal’ – assim como Alves Filho (2006), ou àquilo que Bronckart (2003) chama de plano textual global:
A estrutura do Editorial é composta de: a) Introdução que é a apresentação do tema ou tese com o lançamento de uma idéia principal para situar o leitor, já adotando um posicionamento; b) Desenvolvimento ou Corpo da Matéria: contextualização do tema, fundamentação do ponto de vista do jornal através de comparações com a realidade, demonstrando causas e indicativos concretos. Para isso pode apresentar exemplos, pesquisas, depoimentos, citações, retrospectivas históricas e quaisquer outros tipos de informação necessária à sua boa fundamentação; c) Conclusão é a síntese das idéias gerais do texto, mas geralmente, apresenta um posicionamento crítico, sem fugir do assunto inicial, lembrando-se do que motivou a opinião e preferencialmente, sem moralismo, pode sugerir, aconselhar ou indicar caminhos e soluções, também ancoradas em exemplos concretos (Vieira, 2009, p. 15).
Como já pontuamos, o editorial, de modo geral, pode ser entendido como um gênero argumentativo, uma vez que seu ponto focal seria a defesa de um ponto de vista de um meio de comunicação jornalístico em relação a uma questão polêmica. Como Vieira (2009, p. 16) coloca:
O gênero editorial está classificado na categoria da argumentação, texto dissertativo que tem o objetivo de fundamentar um ponto de vista ou opinião. Apresenta traços estilísticos peculiares assemelhando-se a um ensaio curto de um assunto pertinente e oportuno ao momento imediato. A argumentação se vale muitas vezes da relação de causa conseqüência, pontos favoráveis ou desfavoráveis (prós e contras).
O editorial se diferencia de outros gêneros argumentativos por veicular posicionamento (crítico, político, ideológico...) institucional e não privado.
O texto [do editorial] é breve com a intenção de ser preciso e claro para o leitor. Dizer que o editorial exprime a opinião da revista não quer dizer necessariamente que todos que trabalhem na redação concordam com o que está no texto. Geralmente essa opinião é de responsabilidade da direção da revista (Marques, 2009, p. 8).
Adentrando na problemática da nomenclatura das variações possíveis para o gênero, já pudemos perceber que, dos autores citados, Alves Filho (2006) e Vieira (2009) tratam apenas do que denominam ‘editorial de jornal’, ou seja, um gênero argumentativo que, tradicionalmente, abre a seção de Opinião dos jornais, representando a voz do veículo de comunicação. Pressupõe-se, assim, que os autores consideram que nas revistas há outro tipo de editorial. Já Marques (2009) e Köche et al. (2012) não fazem distinção entre a veiculação em revistas e jornais, assim como não destacam variações para o gênero. Melo (1985, p. 84, grifo do autor), por outro lado, já se posiciona, explicitamente, sobre essa problemática:
O editorial é um gênero quase que exclusivo da imprensa, ou, mais precisamente, dos jornais. Nas revistas, o editorial aparece com mais frequência nos periódicos culturais ou políticos, pois as revistas de informação geral recorrem às ‘cartas dos editores’, mais próximas daquilo que poderíamos chamar de merchandising jornalístico do que de expressões opinativas.
Vemos, então, que para Melo (1985) o ‘editorial’ seria o gênero tradicional do jornal e de revistas com viés cultural ou político e, a ‘carta do editor’ (que poderíamos chamar também, por um outro ponto de vista, de ‘carta ao leitor’) um gênero que apareceria em revistas de informação geral.
Já Souza (2006, p. 100), em sua tese de doutoramento, apoiando-se em Sousa (2004), classifica os editoriais em: 1) ‘editorial padrão ou opinativo’ – gênero opinativo que defende um posicionamento de um jornal/revista; 2) ‘editorial misto’ – pode incorporar várias funcionalidades como ser preventivo, informativo, intelectual, prescritivo, etc.; 2) ‘editorial de apresentação’ – apresenta um determinado número de um jornal ou de uma revista, justificando a abordagem de determinados assuntos; pode também apresentar o surgimento de um novo órgão de comunicação. Ou seja, o que Melo (1985) chama de carta do editor, Souza (2006) considera uma ‘variação’ do gênero ‘editorial’. A autora usa essa classificação independentemente do rótulo dado pelo veículo ao seu texto, ou seja, uma revista pode nomear a seção como Carta ao Leitor, mas seu texto ser enquadrado como Editorial Padrão (a autora apresenta a revista Veja dentro desse perfil). Na pesquisa de Souza (2006), a autora identifica várias denominações para identificação do gênero, como: Carta ao Leitor, Carta do Editor, Editorial, Na Redação, etc.
Sintetizamos, na Tabela 1, o ponto de vista dos autores pesquisados sobre a problemática da caracterização do gênero ‘editorial’.
| Autor | Ponto de vista |
| Köche et al. (2012) | Editorial: gênero opinativo veiculado em jornais e revistas. |
| Marques (2009) | Editorial: gênero opinativo veiculado em jornais e revistas. |
| Alves Filho (2006) | Editorial de jornal: gênero opinativo veiculado em jornais. |
| Vieira (2009) | Editorial de jornal: gênero opinativo veiculado em jornais. |
| Melo (1985) | Editorial: gênero opinativo quase que exclusivo do jornal, podendo aparecer em revistas culturais e políticas. Carta do Editor: comum em revistas de informação geral (merchandising jornalístico). |
| Souza (2006) | Editorial padrão/opinativo: gênero que veicula a opinião do veículo - mais comum em jornais. Editorial misto: pode ser informativo, preventivo, prescritivo, etc. Editorial de apresentação: apresenta a edição do jornal/revista ou o surgimento de novo órgão jornalístico. |
Como vemos, pela breve amostra de pesquisas voltadas para o editorial parece não haver consenso quanto à sua caracterização e mesmo quanto à sua nomenclatura. As maiores divergências parecem estar centradas no tipo de suporte jornalístico no qual o texto é veiculado – jornal ou revista – e na velha dualidade do mundo jornalístico – opinião versus informação.
Para aprofundar nossa investigação, trazemos as poucas pesquisas encontradas que se centralizam no estudo do gênero pelo viés epistolar, tomando-o como carta ao leitor/do editor.
Carta ao leitor/do editor: a voz dos especialistas
A carta é um gênero textual “guarda-chuva” que tem como objetivo geral servir como instrumento de diálogo entre interlocutores que se encontram em espaços/tempo diferentes, ou seja, não é uma comunicação face a face. É um gênero bastante heterogêneo, uma vez que pode desempenhar diversas funções, como anunciar algo, informar, agradecer, cobrar, intimar, solicitar, reclamar, relatar, etc.
Barros (2012, p. 157, grifo do autor) em uma abordagem geral sobre “carta” afirma:
[...] os seus propósitos comunicativos não são homogêneos, não podemos dizer simplesmente gênero “carta”. Temos de fazer distinção entre as várias modalidades dessa prática epistolar, pois cada uma tem suas especificidades contextuais: enunciador, destinatário, propósito comunicativo, esfera discursiva, suporte, etc.; ou seja, cada qual se refere a uma prática linguageira singular.
Sendo assim, o gênero ‘carta’ em suas especificidades é que vai definir o tipo de discurso que será utilizado, a partir dos propósitos comunicativos exigidos. A carta, na nossa concepção, pode ser vista como um hipergênero (ou sinônimo de gêneros epistolares[4]), uma vez que é um rótulo que abarca diversos gêneros epistolares, como a carta do editor, carta do leitor, carta pessoal, carta de reclamação, carta de solicitação, etc.
Para Marcuschi (2010), a carta tem como elementos básicos: o local e a data, a saudação (inicial e final), o texto principal e a assinatura. Embora “[...] essa forma clássica de ‘carta’ não pode ser aplicada a qualquer modalidade epistolar” (Barros, 2012, p. 158, grifo do autor), uma vez que “[...] como a carta é um termo amplo para determinar o gênero, consideramos relevante ressaltar que em cada contexto em que é produzida ela se adapta, recebendo variadas especificações” (Lima, 2001, p. 61).
Há pouquíssimas pesquisas que abordam a carta ao leitor/do editor como objeto de estudo, tomando-a por tais nomenclaturas – o mais comum é tratar de forma feral de gêneros introdutórios dos jornais/revistas, imputados, explicitamente, ou não a editores do veículo jornalístico, como editoriais. Encontramos alguns estudos que usam tais rótulos em suas investigações, mas sem se deter na caracterização do gênero.
Santos (2009) é um dos poucos autores que se dedicam a caracterizar a carta ao leitor, tomando-o como gênero epistolar.
Carta ao leitor é um gênero utilizado em revistas e periódicos de cunho jornalístico cujo objetivo é apresentar e informar ao leitor os temas gerais das reportagens e artigos ou da matéria de capa de uma determinada edição desse periódico. [...] A Carta ao leitor não apresenta, de modo geral, em sua estrutura local e data, nem um vocativo, nem despedida. É uma carta que tem por vocativo o próprio nome, por ser endereçada ‘ao leitor’. [...] “Carta ao leitor” se apresenta à semelhança de um artigo de jornal e vem, geralmente, no início do periódico, depois do Editorial. Do mesmo modo, a Carta ao leitor não é, em geral, assinada pelo remetente, pois nesse caso o remetente é o próprio veículo (Santos, 2009, p. 75, grifo do autor).
Por sua vez, Santos (2009, p. 75) coloca que:
[...] em alguns casos, como acontece na Revista Veja – periódico de grande circulação nacional –, a Carta ao leitor assume o papel de Editorial. [...] verifica-se que ela se aproxima muito e por vezes se confunde com o Editorial – isso quando não assume completamente o papel deste, como no caso da Veja, dada a forma, a função, a disposição em que ambos aparecem, ou seja, antes de reportagens e artigos e o veículo em que circulam.
Como vemos, Silva (2009) faz uma distinção entre carta ao leitor e editorial, uma vez que pontua a possibilidade de uma carta ao leitor ser publicada após um editorial ou uma carta ao leitor ser confundida com um editorial – como acontece com a revista Veja. A autora comenta o fato de a revista Veja “não chamar editorial tem a ver com a tentativa permanente de descaracterizar esse texto como posicionamento político”, ou seja, uma carta se aproximaria mais do leitor do que o próprio editorial que prima pela verdade absoluta, sendo assim, para a autora, a essência de gênero está vinculada ao objetivo que o diretor de redação pretende causar no leitor.
Por sua vez, Rocha (2011) entende a carta ao leitor como uma forma de demonstração de opinião do veículo jornalístico, o que nos remete à caracterização do editorial. Para o autor, a carta ao leitor busca interagir com as publicações presentes no corpo da revista, expondo a opinião da organização editorial sobre um determinado assunto/fato, transmitindo ao leitor uma forma de compreensão sobre o tema abordado.
Lima (2001) argumenta que as nomenclaturas ‘carta ao leitor’, ‘carta do editor’, ‘carta da redação’ dependem de um ‘contrato midiático[5]’ estabelecido com o suporte para cada gênero, bem como dos dispositivos, ou seja, local a ser ocupado pelo texto e configurações (sistemas de títulos, números de toques) e, por fim, do tratamento em relação ao fato a ser publicado. Complementa que, “[...] em revistas, o texto do redator/editor foi validado e reconhecido socialmente como carta ao leitor/da redação/do editor” (Lima, 2001, p. 61).
Partimos, assim, da perspectiva de que os gêneros não se definem, somente, pela sua forma, mas, sobretudo, por sua função (Marcuschi, 2008, 2010). Sendo assim, embora uma revista intitule o texto como ‘carta ao leitor/do editor’, precisamos, antes de tudo, saber qual o seu ‘propósito enunciativo/comunicativo’, para quem se direciona o texto, etc.
Como vemos, a nomeação dos gêneros introdutórios das revistas e jornais não é uma questão resolvida nem na área da comunicação social nem nos estudos da linguagem. Num primeiro momento da pesquisa bibliográfica, voltada mais diretamente para o rótulo ‘editorial’, parece não haver consenso quanto à caracterização e nomenclatura do gênero. As maiores divergências parecem estar centradas no tipo de suporte jornalístico no qual o texto é veiculado – jornal ou revista – e na velha dualidade do mundo jornalístico – opinião versus informação. Quanto à ‘carta ao leitor/do editor’ há poucas pesquisas que tomam o gênero por tais nomenclaturas.
Dessa forma, como nosso objetivo é obter respostas para a questão “carta ao leitor, carta do editor e editorial são gêneros distintos?”; partimos para a nossa segunda etapa da pesquisa exploratória: uma análise documental fundamentada em um corpus heterogêneo de revistas e jornais.
Pesquisa documental de nível exploratório: o editorial, carta ao leitor e carta do editor em diferentes suportes
Na segunda fase da nossa pesquisa exploratória, analisamos, de forma mais geral, um exemplar de diferentes suportes jornalísticos impressos, do ano de 2018. Notamos que cada instituição traz uma nomenclatura diferente para o texto introdutório escrito pelo editor: a revista Veja intitula-o como ‘Carta ao leitor’; Super Interessante e Saúde denominam o espaço do texto introdutório como ‘Ao leitor’; Aventuras na História, Gol e Istoé nomeiam-no como ‘Editorial’, assim como o jornal O Estado de São Paulo e a Folha de Londrina; já a revista Mundo Estranho, talvez por traçar um perfil jovem e desejar proximidade mais íntima com o leitor, rotula o espaço como ‘You & Me’; Todateen, denomina esse espaço como ‘Redação e Você’; Galileu, por sua vez, intitula a seção de ‘Primeiramente’; e Época como ‘Dos editores’. Como vemos, há uma diversidade de rótulos ora voltados para a textualidade do gênero ora para o espaço onde ele se encontra. Ou seja, a resposta a nossa pergunta de pesquisa não poderia se basear na denominação dada pelo veículo jornalístico.
Observamos no nosso corpus que há uma distinção de textos quanto aos seus ‘propósitos comunicativos’ e ao ‘tipo de discurso’ (Bronckart, 2003). De um lado, textos cujo objetivos giram em torno da defesa de pontos de vista e/ou dissertação de questões problemáticas/controversas e, de outro, textos com um teor mais informativo, voltados para a descrição e/ou explicação de conteúdos de destaque da revista – contraste entre textos argumentativos e descritivos e/ou explicativos. No primeiro caso, enquadram-se os editoriais: textos de jornais e de revistas semanais voltados para um público adulto geral; no segundo caso, temos as cartas ao leitor/do editor, publicadas somente em revistas, sobretudo, aquelas temáticas, destinadas a um público-alvo específico, como: homens que gostam de futebol, pessoas preocupadas com a saúde, adolescentes, etc. Os textos que estamos denominando de carta ao leitor/do editor se assemelham aos gêneros epistolares, porque carregam, de forma geral, algumas características próprias das cartas (assinatura do emissor, vocativo, saudação inicial/final, implicação do destinatário no corpo do texto, textualidade com marcas do discurso dialogal, uso de frases não declarativas: interrogativas, exclamativas, etc.). Entretanto, as características estruturais não são recorrentes em todos os textos, por exemplo, nem todos os textos que estamos chamando de carta ao leitor/do editor têm, por exemplo, um vocativo. Por outro lado, também apresentam características inovadoras para os gêneros epistolares, como a publicação de fotos do emissor, de caricaturas, etc. Isso se explica, evidentemente, pelo contexto de produção de cada revista.
Dessa forma, a partir das duas etapas da pesquisa exploratória – a pesquisa bibliográfica e análise geral dos textos a partir do contexto geral dos seus suportes – tomamos como posição de pesquisa, então, a ‘distinção de dois gêneros’: o editorial e a carta ao leitor/do editor. Nesse último caso, entendemos que é uma forma diferente de conceber o gênero: pelo viés do leitor ou do editor/revista. Assim como Melo (2003, p. 103), consideramos o editorial um gênero “[...] jornalístico que expressa a opinião oficial da empresa diante dos fatos de maior repercussão no momento. [...]”. Já a carta seria um gênero da responsabilidade do editor de revista, com um teor mais informativo, sempre assinada, que traz o conteúdo de forma dialogal com o leitor, com a intenção, sobretudo, de apresentar e descrever a matéria principal de capa ou de dar destaque a alguma(s) matéria(s).
Para sintetizar, trazemos as revistas do nosso corpus com a autodenominação do texto introdutório de responsabilidade do veículo, ou nome do espaço dedicado ao gênero, assim como o rótulo genérico identificado pela nossa pesquisa (Tabela 2).
| Suporte | Nomenclatura do jornal/revista | Gênero identificado na pesquisa |
| Isto é | Editorial | Editorial assinado |
| Veja | Carta ao Leitor | Editorial não assinado |
| Jornal Folha de Londrina | Editorial | Editorial não assinado |
| Jornal O Estado de São Paulo. | Notas & Informações | Editorial não assinado |
| Época | Dos editores | Carta não assinada |
| Aventuras na História; Gol | Editorial | Carta ao leitor/do editor |
| Super Interessante; Saúde | Ao leitor | Carta ao leitor/do editor |
| Mundo estranho | You & Me | Carta ao leitor/do editor |
| Todateen | Redação e você | Carta ao leitor/do editor |
| Galileu | Primeiramente* | Carta ao leitor/do editor |
A Tabela 2 demonstra que o rótulo dado pelo jornal/revista nem sempre coincide com nossa análise do ponto de vista do gênero textual. Em relação ao rótulo DO EDITOR ou AO LEITOR, interpretamos ser uma escolha que acaba revelando o perfil do suporte textual. Por exemplo, se ele usa DO EDITOR está dando uma ênfase maior ao emissor, isto é, a quem escreve, já aquele que procura imprimir um teor mais interativo na comunicação com seu público-leitor busca o rótulo AO LEITOR. Por outro lado, alguns veículos colocam títulos diferentes dos rótulos usuais dos textos para nomear o espaço, aproximando-se do público-alvo da revista, como YOU & ME da revista Mundo Estranho.
As classificações expostas em relação aos gêneros ‘editorial’ e ‘carta ao leitor/do editor’ foram pautadas na nossa pesquisa exploratória, a partir de uma pesquisa bibliográfica e de análise de um corpus específico de exemplares de textos de jornais e revistas. Dessa forma, pode ser que, pela dinamicidade e fluidez do gênero, outros resultados possam ser considerados. A seção seguinte busca, por fim, trazer uma descrição dos dois gêneros encontrados, finalizando, assim, o processo de modelização teórica.
Pesquisa documental de nível descritivo: caracterização discursiva e linguístico-discursiva do editorial e da carta ao leitor/do editor
Para essa análise selecionamos um corpus textual retirado de dois jornais e onze revistas, como mostra o Tabela 3.
Para esse processo de modelização utilizamos como base o dispositivo elaborado por Barros (2012), construído por perguntas diretivas voltadas para a análise de um gênero elaboradas a partir das categorias do quadro teórico do ISD (Bronckart, 2003), sintetizadas na seção teórica deste artigo. Como na pesquisa exploratória já abordamos o ‘contexto de produção’ dos dois gêneros – primeira grande categoria de análise do ISD –, o foco, agora, é a descrição das características discursivas e linguístico-discursivas. Vejamos a modelização do editorial e da carta ao leitor/do editor nas Figura 2 e Figura 3.
| Texto 1 (T1)[6] | ‘Alto escalão não pode escapar da lei’, Jornal Folha de Londrina, 11/04/2018. Ano 69 – Edição 21.170. |
| Texto 2 (T2) | ‘Novos ataques ao Tesouro’, ‘Liberdade e privacidade’ e ‘Um preso como outro qualquer’, Jornal O Estado de São Paulo, 13/07/2018. Ano 139. Nº 45559. Edição de 21:30. |
| Texto 3 (T3) | ‘Lula solto em dez dias’, Revista Isto É, 02/05/2018. Ano 41 – Nº2523. Escrito por Carlos José Marques, diretor editorial. |
| Texto 4 (T4) | ‘O escândalo natural’, Revista Veja, 28/03/2018. Ano 51 – nº 13. Edição 2575. |
| Texto 5 (T5) | ‘Futuro sombrio’, Revista Veja, 04/04/2018. Ano 51 – Nº-14. Edição 2576. |
| Texto 6 (T6) | ‘Devidos créditos’, Revista Aventuras na História, abril de 2018 – Edição 179. Escrito por Fábio Marton, Editor. |
| Texto 7 (T7) | ‘O poder da conexão’, Revista GOL. Escrito por Paulo Kakinoff, presidente da Gol linhas aéreas inteligentes. |
| Texto 8 (T8) | ‘A gravidez como ela é’, Revista Super Interessante, março de 2018 – Edição 386-A. Escrito por Marina Bessa, editora. |
| Texto 9 (T9) | |
| Texto 10 (T10) | ‘Ih, ferrou, o Thanos chegou!’, Revista Mundo Estranho, abril de 2018 – Ed. 207. Escrito por Marcel Nadale, editor-chefe. |
| Texto 11 (T11) | ‘Férias, nós te amamos’, Revista Todateen. Escrito por Mariana Scherma. |
| Texto 12 (T12) | ‘Enquanto os homens exercem seus podres poderes’, Revista Galileu, março de 2018 – Edição 320. Escrito por Giuliana de Toledo, Editora-chefe. |
| Texto 13 (T13) | ‘Não é mais a economia, estúpido’, Revista Época, 30/04/2018 – Nº 1035. |
| Editorial | Carta ao leitor/do editor |
| O ‘tipo de discurso’ é expor teórico, que não deixa marcas textuais de quem fala. Ex.: “Estima-se que existam aproximadamente 22 mil pessoas com Foro Privilegiado no Brasil [...]” (T1). Embora, às vezes, o texto possa ser assinado, como é o caso do T3. Dessa forma, a textualidade mantém certa distância do destinatário, por não implicar a presença do emissor ou do receptor. O ‘plano textual global’ apresenta, de forma prototípica: 1) um rótulo nominal para o texto ou coluna: Editorial (IstoÉ), Carta ao leitor (Veja), Notas e Informações (O Estado de S. Paulo); ou o texto pode introduzir as matérias do jornal, sem nenhum rótulo, como acontece com os editoriais do Jornal Folha de Londrina; 2) título (curto, de impacto, fontes maiores que a do texto principal, destacadas por negrito ou outra forma gráfica, normalmente construído por uma frase nominal, como o do T4, “O Escândalo Natural”); 3) eventualmente, o texto principal pode ser acompanhado por imagem/legenda, como acontece com os editoriais publicados pela Veja; 4) às vezes é assinado; 5) o texto principal, por ter, basicamente, um teor argumentativo, é organizado por uma sequência argumentativa (Bronckart, 2003), que pressupõe: a) uma constatação de partida relacionada a uma questão polêmica discutida nas páginas do jornal/revista (nessa fase é comum o jornalista expor o fato controverso e já trazer a premissa assumida); b) a apresentação de argumentos e contra-argumentos; c) uma conclusão, que pode explicitar a tese defendida, retomá-la, complementá-la, expandi-la, etc. A ‘sequência’ predominante é, dessa forma, a argumentativa (Bronckart, 2003). Ex: T5 é regido por uma sequência argumentativa organizada pelas fases de: 1) ‘constatação de partida’ – “As circunstancias exatas em que a caravana do ex-presidente Lula foi alvejada por três tiros [...]”; 2) premissa – “Nessa hipótese, o atentado a bala dará [...]”; 2) argumentos – “ser alvo de um atentado à bala , sem dúvida, uma [...] perseguição implacável” (um dos argumentos); 3) tese – “Nos dois casos, o ataque à caravana de Lula e as ameaças ao ministro Fachin, estamos diante de uma afronta às liberdades democráticas”; 4) conclusão “Em uma democracia, esse tipo de violência não é tolerável [...] Cabe as autoridades investigar esses crimes e puni-los [...]”. | De forma geral, a carta ao leitor é estruturada pelo tipo de discurso expor interativo que deixa marcas dêiticas do contexto de produção (tempo, destinatário, emissor), embora, às vezes o texto possa não ser assinado, como é o caso do T13. Ex: “Para mim, foi transformador. Espero que seja para você também” (T8). A textualidade mantém, normalmente, uma proximidade do destinatário, por implicar presença do emissor ou do receptor, como no exemplo acima. O plano textual global apresenta, de forma prototípica: 1) rótulo nominal para o texto ou coluna (o teor desse rótulo depende muito do segmento da revista): Editorial (Aventuras na História; Gol), Ao Leitor (Super Interessante; Saúde), You & Me (Mundo Estranho), Redação e você (Todateen), Primeiramente (Galileu), dos Editores (Época); 2) título (curto, de efeito, fontes maiores que a do texto principal, destacadas por negrito ou outra forma gráfica. Algumas vezes, o título pode se apresentar de forma irônica devido à alguma citação que se encontra no texto, como é o caso do T13, “Não é mais a economia, estúpido”. Pode-se encontrar também títulos descontraídos, que atribui um efeito de tranquilidade no receptor como é o caso do T11, “Férias, nós te amamos”. Mas também se encontra títulos com teor mais crítico, como é o caso do T12, “Enquanto os homens exercem seus podres poderes”. Às vezes, o texto não é assinado, como é o caso do T9; 3) possivelmente o texto principal pode ser acompanhado por imagem/legenda relacionadas com o texto, como acontece nas revistas Gol, Super Interessante, Mundo estranho, Todateen. Também pode conter imagens dos redatores/editores, como é o caso das revistas, Gol, Saúde, Todateen, Galileu eMundo estranho, no caso desta última tem-se imagem do editor-chefe e caricatura; 4) assinatura: normalmente, é assinado, porém, eventualmente pode não ser; 5) corpo do texto: é planificado, de forma global, por uma ‘sequência’ explicativa, que traz as seguintes fases: a) uma constatação inicial – introduz o tema geral que é abordado, normalmente, na matéria principal da revista, geralmente a matéria da capa (ex.: o T8 é introduzido pela temática da gravidez); b) problematização – na qual o autor problematiza o tema introduzido anteriormente (“Estar grávida é estranho mesmo [...] Mais difícil ainda é passar por isso sem informação [...] Mas, além da superficialidade e da credibilidade duvidosa de boa parte das informações, elas vêm, normalmente, revestidas de muito romantismo e pouca ciência” – T8); c) resolução – nessa fase, o texto articula uma sequência descritiva, que aspectualiza a matéria principal da revista, que trata sobre o tema problematizado (T8 – “Neste edição especial[7], você não encontrará lista de enxoval, sintomas de trabalho de parto nem dicas para fazer o bebê dormir [...] mas vai ter informações preciosas sobre esse período de revolução na sua vida – o antes, o durante e o depois da gravidez”); d) conclusão-avaliação – retoma o tema e a problemática, normalmente, colocando a leitura da revista como uma ‘solução’ (“a gravidez pode continuar sendo uma coisa estranha, mas não será mais tão desconhecida” – T8). 6) frase de encerramento da interação – é comum as cartas trazerem, de maneira informal, uma saudação final (‘Boa leitura’; ‘Beijo’; ‘Abraços’). É escrita em primeira pessoa do singular ou plural, e reportando-se explicitamente ao interlocutor. Busca manter um diálogo mais próximo com o interlocutor – vemos isso através da palavra ‘você’, ‘seu’, ‘boa leitura’. |
| Editorial | Carta ao leitor/do editor |
| É um texto que traz ‘implicação direta do emissor’, ou seja, as colocações são feitas em terceira pessoa ou de forma neutra, como no T1, “É possível afirmar que a condenação de Lula abre a porta para que figurões [...]”. As ‘retomadas textuais’ dependem muito do conteúdo temático. Por exemplo, um texto que tem como foco temático o ex-presidente Lula (T3), logo no título é introduzido o objeto do discurso “Lula” o qual é retomado de diversas maneiras. Pelo teor argumentativo do texto, é comum as retomadas serem carregadas de valoração apreciativa, por meio, sobretudo de perífrases frasais como “o marginal Luiz Inácio Lula da Silva do PT” ou “O homem que já foi condenado em dois tribunais”. A ‘coesão verbal’ baseia-se na ancoragem presente, ou seja, a temporalidade é construída a partir do presente da enunciação: a data de publicação do jornal/revista (ou um tempo cronológico brevemente anterior). Por isso, o ‘tempo verbal’ mais usado é o presente, porém é comum o texto iniciar com um narrar de fatos passados para trazer à tona uma problemática que será discutida no texto. Porém, esse passado está sempre ancorado no presente da enunciação. Os tipos de verbos são heterogêneros, pois para a narração usam-se bastante os verbos de ação, porém, para argumentar é comum verbos de estado ou de atitudes. Ex: “Estima-se [...] fazem de tudo” (T1). O ‘tipo de conectivo’ mais usado é do tipo lógico: mas, assim, da mesma forma, por outro lado, etc. Ex: “Por outro lado, cidadãos que só tem a ganhar com a faxina torcem [...] Da mesma forma, o ministro [...]” (T1). Há também os que indicam temporalidade (enquanto, tão logo, na época), por exemplo, “Enquanto políticos esburacam os cofres da União ou entram na fila [...]” (T2). O ‘registro linguístico’ predominante é formal. Embora, pode-se encontrar um discurso informal, por exemplo, “Daí o escândalo: em vez de manipular o consumo, manipulou o voto” (T4). A ‘escolha lexical’ está muito ligada ao conteúdo temático. É condicionada a um registro mais argumentativo. Ex: o T4, intitulado ‘Escândalo natural’ aborda temas relacionados ao uso do Facebook e sua função. Nota-se a abordagem argumentativa devido à escolha lexical exposta no texto, por exemplo, “o escândalo do Facebook não é propriamente um escândalo, no sentido de uma novidade bombástica que nos revela um mundo antes desconhecido e causa espanto e furor”. A ‘pontuação’ tem normalmente, um caráter declarativo, restringindo-se a pontos finais, ponto e vírgula e vírgula. Os travessões e parênteses podem ser usados para introduzir explicações e discursos desconexos da linearidade textual. Dependendo do tom do discurso, é possível também o uso de interrogações para formular questões retóricas. O ‘tom dos textos’, de forma prototípica, é mais objetivo, formal. O tom do texto vai depender muito da revista/jornal, mas também da linha política/argumentativa, como por exemplo, a revista Veja, que tem um tom mais incisivo do que outras revistas que tem uma linha editorial mais neutra, como por exemplo, a revista IstoÉ. O uso de ironia, embora seja menos frequente, vai depender muito da revista/jornal. Por exemplo, encontra-se ironias nas revistas IstoÉ e Veja até mesmo por possuir um teor argumentativo mais voltado a questões políticas. As ‘vozes socais’ mais frequentes vêm de instâncias sociais ou mesmo do senso comuns, sempre relacionadas ao conteúdo temático do texto. Por exemplo, na revista Veja é frequente uma voz contrária à esquerda política brasileira, por representar uma voz de direita muito frequente e marcante. Pode haver o ‘discurso direto’ (citação com aspas), mas ele não é comum, pois não é uma característica propriamente do editorial. Em alguns casos, há a mobilização de ‘elementos paratextuais’, por ex: imagens, e supratextuais: títulos, negritos, legendas, como é o caso da revista Veja. | Quanto à ‘implicação do emissor’, é um texto que mantém uma interação direta com o leitor, por isso, as colocações são feitas, geralmente, em primeira pessoa do plural ou primeira pessoa do singular, deixando marcas do emissor, de onde fala e quando fala, como no T8: “Eu também grávida da minha segunda filha, me identifiquei prontamente”. As ‘retomadas textuais’ vão estar condicionadas ao tema e aos referentes textuais utilizados na carta. Por exemplo, caso o texto faça menção a um personagem, evidentemente, haverá retomadas pronominais, mesmo que de forma elíptica: “Foi lá que [ele] fundou” – T7, e nominais que usem estratégias diversas de substituição, por exemplo, nominalizações que identificam a função social do sujeito citado, como em “o empreendedor autodidata” para retomar José Roberto Nogueira, no T7. A ‘coesão verbal’ se faz pela ancoragem de um presente da enunciação, ou seja, é a partir da referência do momento da publicação da revista que as ações verbais são descritas como concomitantes (acontecem no mesmo momento presente da publicação), anteriores (acontecem antes da publicação) ou posteriores (acontecem após a publicação). Ex.: “É provável que você não conheça a história de José Roberto Nogueira, empresário que está na capa desta revista. O empreendedor autodidata, que até os dezesseis anos viveu sem eletricidade [...]” – nesta passagem vemos a mobilização de um tempo presente (três primeiros verbos), que indica ações que acontecem concomitantemente ao presente da enunciação (publicação da revista), e um tempo pretérito (“viveu”) que mostra que a ação foi anterior a esse presente. Os tipos de conectivos mais usados são lógicos: mas, assim, da mesma forma, etc. Ex: “Assim, esperamos ver o país inteiro [...]” (T7). Porém, há também os que indicam temporalidade (há alguns meses, enquanto, quando), por exemplo, “Li há alguns meses uma crônica em que a escritora, grávida, desabafava [...]” (T8). O ‘registro linguístico’ é um misto do formal e informal, uma vez que, mesmo sendo um texto escrito pelo editor-chefe da revista, ele é uma ponte de comunicação direta com o leitor. Dessa forma, o texto não pode manter uma formalidade excessiva. Ex: “Que sorte a minha.” (T10); “Um especialista americano apontou que a explicação para essa quebra [...]” (T13). A ‘escolha lexical’ está muito ligada ao conteúdo temático. É condicionada a um registro mais descritivo e explicativo. Ex: o T6, que trata sobre “130 anos da abolição: o que Isabel não fez” (tema de capa da revista), temos na carta intitulada “Devidos Créditos” palavras como “Princesa Isabel”, “história do Brasil”, “fim da escravidão”, “vitória legitimamente democrática” que abordam sobre a historiografia abolicionista que não são abordadas verdadeiramente e, a revista tem como propósito enfatizar que os devidos créditos deveriam ser empregados a quem realmente merece. Ex: “Nossa capa é sobre essa conquista que, dolorosamente, nunca foi completa.” Esta seria a descrição do conteúdo temático que é o assunto principal da revista, mas na mesma carta o editor aborda outros temas que serão tratados nas páginas seguintes do suporte. Ex: “[...] em Hong Kong, a mais complexa favela e o local mais denso [...] os 100 anos da morte do Barão vermelho [...] a China ainda comunista?”. E verbos que denotam explicação como “existe”, “estava” etc. A pontuação é mobilizada para dar ênfase ao que se está dizendo e se aproximar do interlocutor, até mesmo fazer com que o próprio receptor complete as lacunas deixadas pelo emissor, causando uma ação seja reflexiva ou prática. Os pontos mais usados são: travessões, ponto final, interrogação, vírgula, dois pontos, reticencias. Ex: “Fica o convite para você revisar seus hábitos e escolhas à mesa...” (T9). O ‘tom dos textos’, de forma prototípica, é mais descontraído, dialogal, informal. Ex: “Como anda seu café da manhã? Aliás, você toma café da manhã? [...]” (T9). Não é comum o uso de ironia, embora o tom do texto passe uma sensação de proximidade com o receptor. Nesse gênero uma voz que se sobressai é a do editor, que representa a voz da instituição jornalística, por exemplo, no T10, em que o autor se coloca o tempo todo no corpus. Ex: ‘na minha mente’, ‘recordo’, ‘acho’, ‘tenho’, ‘sou’, ‘foi’. Também notamos essas vozes em que o autor se coloca o tempo todo no T8, por exemplo: ‘eu, também’, ‘me identifiquei’, ‘sentia’, ‘para mim’, ‘foi’, ‘espero’. As ‘vozes sociais’ mais frequentes vêm de instâncias sociais ou mesmo do senso comum, sempre relacionadas ao conteúdo temático do texto. Não é comum o uso de ‘discurso direto ou indireto’, uma vez que não há muitas incidências de referências a vozes de autoridade (citação, referência). Há a mobilização de ‘elementos paratextuais’ por ex: imagens. E supratextuais: títulos, negritos. |
Com a apresentação desses dois quadros, que trazem a descrição do editorial e da carta ao leitor/do editor do ponto de vista discursivo e linguístico-discursivo, finalizamos a apresentação do processo de modelização teórica dos dois gêneros, analisados, nesta pesquisa, como dois objetos sociais distintos. Como podemos perceber por meio das análises, o editorial parte de temas controversos e age, discursivo e linguisticamente, para defender um posicionamento, diferentemente da carta ao leitor/do editor que busca, na explicação e descrição, suporte discursivo para atingir seus propósitos comunicativos – relacionados, em geral, com a exposição de uma matéria de destaque da revista.
Considerações finais
Esta pesquisa buscou respaldo no quadro de análise de textos do ISD, fonte teórica do dispositivo elaborado por Barros (2012) para a sistematização do processo de modelização teórica de gêneros, a fim de investigar se editorial e carta ao leitor/do editor seriam rótulos diferentes para designar um mesmo gênero ou práticas discursivas singulares.
Os resultados apontam a existência de dois gêneros distintos: o editorial e a carta ao leitor/do editor. O editorial é um gênero argumentativo mais presente em jornais e revistas de ampla circulação, e que está diretamente relacionado com a necessidade de posicionamento em relação a temas de importância nacional, como política, economia, saúde. Vincula-se fortemente ao posicionamento ideológico do suporte em que é veiculado. Sua estrutura discursiva justifica a designação de que é um gênero distinto da carta ao leitor/do editor, pois, diferentemente do teor argumentativo do editorial, a carta fundamenta-se na explicação/descrição. Além disso, ela busca uma interação mais aproximada com seu leitor, por meio de um ‘discurso implicado’ (Bronckart, 2003).
Assim como Marcuschi (2008), tomamos a posição de que os gêneros não se definem, exclusivamente, pela sua forma, mas, principalmente, pela sua função. À vista disso, ainda que o texto esteja intitulado como ‘editorial’ ou ‘carta ao leitor/editor’, temos de compreender qual o seu propósito comunicativo, para quem se direciona, em qual contexto social de produção esse emissor e destinatário se encontra etc. É justamente a função social que direciona a discursividade do editorial e da carta ao leitor/do editor, como vimos na seção analítica.
Partindo da afirmação de Bakhtin (1997) de que os gêneros são ‘relativamente estáveis’, nossa pesquisa finaliza ressaltando a importância de pensar os gêneros pela sua fluidez e dinamicidade, ao revelar certa ‘instabilidade’ quanto à rotulação e funcionamento dos objetos de estudo – editorial e carta ao leitor/do editor – , por vezes considerados um único gênero, por outras, gêneros distintos, com funcionamento próprios. O objetivo aqui não é esgotar as possibilidades de abordagens dos objetos em análise, mas trazer uma visão pautada em uma pesquisa qualitativa que, por sua natureza, está sujeita também à subjetividade. Por fim, entendemos que a descrição dos dois gêneros, apresentada como resultado final do processo de modelização teórica, pode contribuir com pesquisas que focalizem gêneros jornalísticos como objetos sociais e sua inserção como objetos de ensino, uma vez que a modelização teórica é a primeira etapa da modelização didática – subsídio importante para a elaboração de materiais voltados para a transposição didática dos gêneros. Os resultados apresentados aqui podem, assim, se configurar como instrumentos de observação das potencialidades ensináveis dos dois gêneros pesquisados, auxiliando na elaboração de materiais didáticos.
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Notas