Linguística
Uso dos róticos do português em contato com os dialetos italianos
The use of portuguese rhotics in contact with italian dialects
Uso dos róticos do português em contato com os dialetos italianos
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 41, núm. 2, 2019
Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 23 Julho 2019
Aprovação: 24 Outubro 2019
Resumo: O objetivo deste trabalho é investigar a realização dos róticos nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Nosso interesse está na realização da variável /R/ no contato entre o português e os dialetos italianos trazidos pelos imigrantes no século XIX. Na língua portuguesa (PB), tanto a vibrante simples quanto a múltipla são fonemas possíveis de realização, podendo ocorrer em ataque silábico, no início das palavras e em posição intervocálica, ou em coda de sílaba. Já no PB em contato com os falares dialetais italianos, a realização da vibrante múltipla, ou vibrante alveolar [r], conhecida como r-forte, pode alternar com a realização do tepe [ɾ] ou r-fraco. Uma das caraterísticas do português falado por bilíngues português-italiano no Sul do Brasil é o uso da vibrante simples (r-fraco) em lugar da múltipla, resultado das transferências dos falares italianos para o português. A hipótese aqui testada é que, nessas comunidades de fala, a vibrante alveolar [r] e o tepe [ɾ] são as variantes mais produtivas na fala dos indivíduos em situação de contato português com dialetos italianos. A metodologia empregada se deu a partir do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) e foram consideradas treze respostas (palavras) obtidas por meio do Questionário Fonético-Fonológico. O corpus é constituído de 108 respostas dos participantes para cada palavra e a realização da variável foi observada em dois contextos: posição intervocálica e início de palavra, como, por exemplo, ‘terreno’ e ‘rosa’.
Palavras-chave: dialetologia, línguas em contato, dialetos italianos, variável /r/, róticos.
Abstract: This work aims to investigate the rhotic performance in the states of Rio Grande do Sul and Santa Catarina. Our interest is in the variable realization / R / in the contact between Portuguese and the Italian dialects brought by immigrants in the 19th century. In Portuguese language (Brazilian Portuguese [BP]), both simple and multiple vibrant phonemes are possible of accomplishment, being able to occur in syllabic attack, in the word beginning and in intervocalic position, or in syllable coda. In the BP, in contact with Italian dialects, the multiple vibrant realization, or vibrant alveolar[r], known as strong-R, can alternate with the tap realization [ɾ] or weak-r. One of the characteristics of spoken Portuguese by Portuguese-Italian bilinguals in the South of Brazil is the use of the simple (weak-r) rather than the multiple, resulting from the transfers from Italian to Portuguese. The hypothesis tested here is that in these speech communities the vibrant alveolar [r] and the tap [ɾ] are the most productive variants in the speech of individuals in a situation of Portuguese contact with Italian dialects. The methodology used was based on the Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) and taking into consideration thirteen answers (words) obtained through a Phonetic-Phonological Questionnaire. The corpus consists in 108 participant answers for each word and the variable realization was observed in two contexts: intervocalic position and word beginning, such as Terreno (terrain) and Rosa (rose).
Keywords: dialectology, language contact, italian dialects, variable / r /, rhotic.
Introdução
Este estudo ancora-se na perspectiva dos estudos envolvendo a geolinguística, campo de estudo que ganhou notoriedade no Brasil a partir do século XX com diversas publicações de atlas linguísticos de diferentes regiões. Por se tratar de um país de dimensões continentais, há uma grande variação entre o português falado no norte e o português falado no sul, por exemplo. Até mesmo nas diferentes regiões de um único estado podemos observar variantes de uma mesma variável, tanto no nível fonético-fonológico, quanto em outros níveis da gramática e do léxico.
A fim de documentar essas variações, a geolingüística busca, “[...] através da cartografia das variantes linguísticas referentes a determinada variável [...], delimitar a abrangência espacial de cada variante e sua distribuição no espaço geográfico da área em estudo” (Altenhofen, 2008, p. 4). Outro fator que contribui para a ampliação da variação linguística são os contatos com línguas de imigração, línguas indígenas, línguas afro-brasileiras, línguas crioulas e contatos fronteiriços. Interessa-nos, aqui, o contato com as línguas de imigração, em especial a língua italiana.
Temos como objetivo principal pesquisar a realização dos róticos em comunidades brasileiras em contato com dialetos italianos, em especial nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Estudos anteriores (Marquardt, 1977 apud Monaretto, 2009) observaram o predomínio da vibrante anterior em regiões bilíngues do Rio Grande do Sul. Desse modo, a hipótese com a qual trabalhamos é que, nessas comunidades de fala, a vibrante alveolar [r] e o tepe [ɾ] são as variantes mais produtivas na fala dos indivíduos em situação de contato português com dialetos italianos.
Referencial teórico
A diversidade linguística encontrada no Brasil está presente tanto em nível fonético, quanto em nível lexical e, também, na construção de estruturas morfossintáticas e discursivas.
Em relação à variação do fonema /r/, Silva (2002) aponta que há evidências de que coexistem, em um mesmo dialeto e entre os dialetos do português brasileiro (doravante PB), diversas variantes de /r/ em posição inicial, por exemplo.
Conforme Brescancini e Monaretto (2008), a produção dos róticos ou vibrantes no PB pode ocorrer de diferentes maneiras, como velar, uvular ou faríngea. As autoras afirmam ainda que a realização do fonema /r/ caracteriza diferentes variedades do português em contato com línguas de imigração, como as de contato com as línguas alemã, italiana em diferentes regiões de colonização e, nas zonas fronteiriças, de contato com a língua espanhola. Afirmam também que, no sul do Brasil, é possível verificar “[...] a existência de variantes realizadas na zona anterior da boca, como vibrantes e fricativas alveolares ou palato-alveolares, praticamente inexistentes no restante do país” (Brescancini; Monaretto, 2008, p. 52). Em relação aos estudos sobre a produção da variável vibrante no Brasil, Monaretto (2009) argumenta que a descrição do comportamento da variável vibrante não está completa, em especial na Região Sul.
Cabe ressaltar que os estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul receberam um grande contingente de imigrantes a fim de povoar essa parte do território nacional. Dentre esses povos, destacam-se os alemães e os italianos, conforme mostra o mapa da Figura 1. Imigrantes de outras partes do globo também se instalaram nas regiões mencionadas, porém em menor escala. Em um primeiro momento, aos italianos imigrados foram destinadas as terras montanhosas da serra do Rio Grande do Sul, onde surgiram cidades como Caxias do Sul, Farroupilha, Bento Gonçalves, Flores da Cunha e outras. Em um segundo momento, em busca de novas terras para o sustento das famílias, os italianos do Rio Grande do Sul se deslocam para outras regiões, como Erechim (ao norte do RS) e para o oeste catarinense, como Chapecó, Xaxim, Concórdia, São Miguel do Oeste.
Conforme Velho (2017), os sentimentos linguísticos italofônicos são expressos através da escolha de nomes italianos de pessoas e estabelecimentos comerciais. A autora sugere ainda que há uma certa tolerância relativamente aos traços do português em contato com o italiano, como o emprego da vibrante simples em detrimento da múltipla.
Na língua portuguesa, tanto a vibrante simples quanto a múltipla são fonemas possíveis de realização, podendo ocorrer tanto em onset (ataque) silábico, no início da palavra e em posição intervocálica, ou em coda (final) de sílaba. No PB em contato com os falares dialetais italianos, as realizações da vibrante múltipla, conhecida como r-forte, podem alternar-se com a realização do tepe (ɾ) ou vibrante simples (Velho, 2017), em qualquer contexto.
Margotti (2004) argumenta que a produção do /r/ é um dos estereótipos mais comuns associados aos falantes de português em contato com o italiano, visto que, nessa variedade da língua portuguesa, ocorre um “[...] abrandamento de [r] forte, seja na posição inicial de vocábulos, seja na posição intervocálica, ou mesmo no início de sílaba precedida por consoante” (Margotti, 2004, p. 10). De acordo com Frosi e Mioranza (1983), o italiano padrão possui a vibrante múltipla, porém os dialetos do norte da Itália não o possuem. Decorre que grande parte dos imigrantes italianos que se instalaram no Brasil são provenientes do norte da Itália, principalmente da região do Vêneto. Por isso, uma das caraterísticas dos falantes bilíngues português-italiano no Sul do Brasil é o uso da vibrante simples em lugar da múltipla, resultado das transferências da língua vêneta e de outros dialetos italianos do norte da Itália para o português.
No caso da realização dos róticos, Battisti e Martins (2011) analisam as produções do /r/ em Flores da Cunha (RS). O objetivo do estudo mencionado foi o de verificar a produção da vibrante simples em lugar da múltipla, como nos exemplos parreira~pareira, carro~caro. Embora seja uma produção inesperada para o PB, esta é recorrente nas cidades em que há o contato com os dialetos italianos, como é o caso de Flores da Cunha, município fundado por imigrantes italianos no século XIX e pertencente à Região de Colonização Italiana (RCI) no Rio Grande do Sul. Entretanto, o resultado obtido pelas autoras revela que o emprego da vibrante simples ou tepe (ɾ) está em regressão na fala de Flores da Cunha. A realização da vibrante simples está mais relacionada a idosos do sexo masculino residentes na zona rural.
No estado de Santa Catarina, Spessato (2001) analisa o uso dos róticos na cidade de Chapecó, no oeste do estado. A cidade foi colonizada, fundamentalmente, por imigrantes descendentes de italianos vindos do Rio Grande do Sul que foram em busca de novas terras. Trouxeram, portanto, a cultura dos imigrantes italianos, entre eles, o bilinguismo. A autora destaca, assim como nos estudos de Flores da Cunha feitos por Battisti e Martins (2011), que o traço mais distintivo daquele falar é a troca da vibrante múltipla pela simples em contextos intervocálicos. Além do caso dos róticos, outras marcas fonológicas ganham destaque na fala daquela comunidade, como os encontros vocálicos nasalizados de finais de palavras, como [mon] (mão), a lateralização de /l/ em final de palavras como sal, pronunciadas como [sal] em detrimento da variedade do PB [saw] (Spessato, 2001).
O estudo conduzido com falantes de Chapecó utilizou os dados de entrevistas do banco Varsul. A análise demostrou que, em 46% dos casos, foi empregada a vibrante simples. As variáveis sociais mais relevantes foram a escolaridade, a idade, o contexto bilíngue e o sexo. São os informantes de menor escolaridade (primária) os que favorecem o emprego de vibrante simples em lugar da múltipla, como também os de mais idade (acima de 55 anos), os bilíngues e os de sexo masculino (Spessato, 2001).
Após esta breve revisão à literatura da área, apresentaremos a metodologia e as cartas linguísticas criadas e discutidas sobre a produção do fonema ∕r∕ nos falantes de português em contato com o italiano.
Metodologia
Neste trabalho, nos centraremos na variação fonética que o fonema /r/ pode apresentar na fala das distintas comunidades da Região Sul do Brasil, mais especificamente nos estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Para este estudo, foram utilizados dados do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB). Foram entrevistados quatro informantes por ponto, totalizando 27 pontos entre SC e RS. Nas capitais, houve acréscimo de quatro informantes de nível superior, os quais não foram considerados no presente estudo.
a) SC: Porto União, São Francisco do Sul, Blumenau, Itajaí, São Miguel do Oeste, Concórdia, Lages, Florianópolis, Tubarão e Criciúma;
b) RS: Três Passos, Erechim, Passo Fundo, Vacaria, Ijuí, São Borja, Flores da Cunha, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Porto Alegre, Osório, Uruguaiana, Caçapava do Sul, Santana do Livramento, Bagé, São José do Norte e Chuí.
Os informantes foram estratificados da forma como se encontra na Tabela 1.
| Informante | Escolaridade | Faixa Etária | Sexo |
| 1 | Fundamental | I (18-30 anos) | Masculino |
| 2 | Fundamental | I (18-30 anos) | Feminino |
| 3 | Fundamental | II (50-65 anos) | Masculino |
| 4 | Fundamental | II (50-65 anos) | Feminino |
Para a análise do /r/ em início de sílaba, foram consideradas treze respostas (palavras) obtidas por meio do Questionário Fonético-Fonológico (QFF) do ALiB. A realização da variável foi observada em dois contextos: posição intervocálica e início de palavra: ‘terreno’, ‘varrer’, ‘ruim’, ‘arroz’, ‘rosa’, ‘rato’, ‘remando’, ‘real/reais’, ‘borracha’, ‘rasgar’, ‘correio’, ‘sorriso’, ‘morreu’, que correspondem, respectivamente, às perguntas 2, 18, 20, 21, 38, 48, 52, 76, 87, 88, 94, 147 e 159 do QFF.
Os dados dos 108 informantes dos 27 pontos foram explanados em uma tabela e, posteriormente, inseridos no software SGVClin para a confecção das cartas linguísticas aqui utilizadas.
Análise de dados
Após a tabulação dos dados, foram obtidas 108 respostas dos participantes para cada palavra, constatando-se as seguintes variantes: vibrante alveolar [r], fricativa velar [x] e fricativa glotal [h] e tepe [ɾ], conforme Tabela 2.
| Palavras | Fricativa velar [x] | Vibrante alveolar [r] | Tepe [ɾ] | Fricativa glotal [h] |
| terreno | 87 | 2 | 13 | 1 |
| varrer | 75 | 8 | 16 | 1 |
| ruim | 83 | 10 | 6 | 2 |
| arroz | 87 | 8 | 8 | 2 |
| rosa | 78 | 12 | 14 | 2 |
| rato | 84 | 8 | 13 | 1 |
| remando | 81 | 8 | 14 | 2 |
| real - reais | 80 | 12 | 9 | 2 |
| borracha | 83 | 5 | 16 | 1 |
| rasgar | 86 | 6 | 12 | 1 |
| correio | 82 | 6 | 16 | 1 |
| sorriso | 79 | 7 | 14 | 1 |
| morreu | 86 | 7 | 11 | 1 |
Os dados da Tabela 2 foram cartografados e as cartas linguísticas serão analisadas a seguir. Conforme podemos observar na Carta Linguística 1, há o predomínio do uso da fricativa velar [x] nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Figura 1).

Porém, nas regiões de contato com o dialeto italiano, representado pelos pontos 226 – São Miguel do Oeste (SC), 229 – Concórdia (SC), 235 – Erechim (RS), 240 – Flores da Cunha (RS), registram-se as realizações das variantes r-forte [r] e principalmente tepe [ɾ].
Além dos quatro pontos apresentados, a cidade de Criciúma, representada pelo ponto 233, também recebeu imigrantes italianos, conforme aponta Balthazar (2016). Entretanto, as marcas típicas do contato entre o português – falares do dialeto italiano – não foram observadas nos dados verificados nessa localidade, apenas a fricativa velar [x]. Desse modo, não nos deteremos na análise dos dados deste ponto em específico.
Na Figura 2, podemos visualizar com maior precisão a produção do fonema /r/ nos pontos mencionados.

No ponto 226, São Miguel do Oeste, a produção do fonema /r/ em contextos intervocálicos e de início de sílaba apresenta 55,77% de realização da variante tepe [ɾ] e 44,23% da variante fricativa velar [x]. No ponto 229, Concórdia, 71,15% da produção do fonema em questão é realizada através da variante tepe [ɾ], 23,08% da variante fricativa velar [x] e uma parcela de 5,77% dos dados são de uso da vibrante alveolar [r].
Já nas cidades gaúchas, no ponto 235, Erechim, em 48,08% dos contextos foram obtidas respostas em que se utilizou o tepe [ɾ], 48,08% dos informantes utilizaram a vibrante alveolar [r] e apenas 3,85% produziram a fricativa velar [x] nos dados obtidos. Por fim, no ponto 240, Flores da Cunha, 60% dos dados apresentaram o uso do tepe [ɾ] como fone mais utilizado, a segunda variante mais utilizada é a fricativa velar [x] com 24% dos dados obtidos e, por fim, 16% dos dados são de uso da vibrante alveolar [r].
Há realização do tepe [ɾ] em ataque de sílaba inicial e entre vogais nas localidades de colonização predominantemente italiana (exceto Criciúma, no sul de Santa Catarina), essa variante também foi documentada em outras localidades, a saber: 224 – Porto União (SC), 225 – São Francisco do Sul (SC), 227 – Blumenau (SC), 236 – Passo (RS), 238 – Ijuí (RS), 243 – Porto Alegre (RS), 248 – Bagé e 245 – Uruguaiana (RS). Dentre essas localidades, a que apresentou maior índice de tepe [ɾ] foi Blumenau (SC), onde existe o contato do português com o alemão.
Outras duas cartas linguísticas foram elaboradas (Figuras 3 e 4), uma com os dados das palavras em contexto intervocálico e, em seguida, uma carta com os dados das palavras com /r/ em contexto de início de palavra.


Conforme podemos observar nas cartas linguísticas 1, 2 e 3, tanto em início de palavra quanto em contexto intervocálico, há o predomínio da fricativa velar [x] na maior parte dos pontos. Já nos pontos de português em contato com o italiano, há uma variação maior. Embora ainda seja predominante o uso do tepe [ɾ], os contextos de uso podem variar. A Figura 5 ilustra estes dados. No ponto 229, por exemplo, podemos observar que o uso do [ɾ] é favorecido no contexto intervocálico, enquanto em início de palavra, há uma variação maior entre tepe e fricativa [x].

A Figura 5 mostra que a produção do fonema ∕r∕ realizado como tepe [ɾ] é, no geral, a forma mais produtiva tanto em contexto intervocálico, como em te[ɾ]eno, quanto em posição inicial de palavra, por exemplo [ɾ]osa. Estes resultados estão em conformidade com os estudos feitos anteriormente por Spessato (2001), Margotti (2004), Battisti e Martins (2011), Velho (2017), entre outros.
Entretanto, o ponto 235, Erechim, apresenta discrepância dos demais, embora seja uma cidade muito próxima do município de Concórdia, Chapecó e de outras cidades onde houve forte colonização italiana. A variante mais produtiva no ponto 235 é a vibrante alveolar [r] em contexto de início de palavra, embora o tepe [ɾ], com 50% de ocorrências, esteja com produtividade semelhante.
Considerações finais
A partir da análise dos dados do ALiB, estabelecemos como objetivo do presente estudo investigar os róticos intervocálicos e em posição inicial de palavras nas regiões de contato do português com o italiano, tendo como hipótese que, nessas comunidades bilíngues, prevalece o uso da vibrante alveolar [r] e o tepe [ɾ]. No conjunto geral dos dados relativamente a Santa Catarina e Rio Grande do Sul, constatou-se que a variante predominante é a fricativa velar [x]. Todavia, nas comunidades de contato do português com o italiano, pode-se observar que a variante mais produtiva é o tepe [ɾ] em Flores da Cunha, Erechim, Concórdia e São Miguel do Oeste, principalmente em posição intervocálica. Já na posição inicial de palavra, há equilíbrio no uso do tepe [ɾ] e da vibrante alveolar [x] em São Miguel do Oeste e Concórdia, mas em Erechim a vibrante alveolar [x] tem uso um pouco superior ao uso do tepe [ɾ], invertendo essa posição em Flores da Cunha, onde o tepe [ɾ] é a variável mais produtiva com 52,17% de uso, ao passo que se constata relativo equilíbrio entre as variantes vibrante alveolar [r], com 21,74%, e fricativa velar [x], com 26,09%.
Em relação à dimensão diassexual, não foi possível estabelecer uma conclusão precisa da preferência de homens e mulheres, tendo em vista que a variante [ɾ] foi utilizada em alternância tanto por homens quanto por mulheres. Também em relação à dimensão diageracional, não houve diferença significativa entre as variantes utilizadas pela faixa etária I (18 a 35 anos) e faixa etária II (50 a 65 anos).
Por fim, buscamos, com este trabalho, contribuir para os estudos em relação aos usos dos róticos no sul do Brasil, em especial nas regiões de colonização italiana. Embora os falares dialetais italianos estejam sendo cada vez menos frequentes na fala dessas comunidades, as marcas do contato entre essas línguas ainda se fazem presentes, principalmente no uso do tepe em detrimento de outras variantes. Essa marca, além de linguística, também pode ser vista como uma marca cultural dos descendentes de imigrantes italianos provenientes da região do vêneto. Destaca-se, finalmente, a necessidade de estudos futuros que acompanhem a variação no uso dos róticos nessas comunidades a fim de atestar a mudança ou a manutenção do falar característico dessa população.
Referências
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