Linguística
Argumentação multimodal: uma proposta teórico-metodológica
Multimodal argumentation: a theoretical-methodological proposal
Argumentação multimodal: uma proposta teórico-metodológica
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 43, núm. 1, e56894, 2021
Universidade Estadual de Maringá

Recepción: 30 Noviembre 2020
Aprobación: 18 Marzo 2021
Resumo: Este trabalho busca demonstrar que a dimensão argumentativa de um texto pode ser engendrada pelo emprego estratégico de diferentes modalidades, apresentando uma perspectiva teórica e também metodológica para a análise de textos argumentativos multimodais. A esse fenômeno em que diferentes modalidades são empregadas no plano cotextual, visando ao convencimento e/ou persuasão do interlocutor, chamamos de ‘argumentação multimodal’. À luz, sobretudo, dos pressupostos teóricos da Teoria Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, que entende o discurso como o uso da língua situado em um contexto sócio-histórico, associados a estudos que tomam a imagem como objeto de análise (Kress & van Leeuwen, 1996;Santaella, 2012), procuraremos apresentar reflexões e análises que discutem como o material icônico, em textos midiáticos, não apenas ilustra o conteúdo verbal, mas veicula junto a ele um todo coeso e coerente com forte teor argumentativo, buscando orientar o leitor a determinadas conclusões, com exclusão de outras. Para este trabalho, de natureza qualitativa, efetuamos uma revisão de literatura acerca da argumentação e da multimodalidade, unindo as duas noções em análises de textos midiáticos diversos que compõem o nosso corpus. Ao final, demonstramos como a multimodalidade pode se configurar uma estratégia argumentativa e descrevemos três categorias analíticas que podem ser empregadas no estudo de textos multimodais que apresentem uma dimensão argumentativa.
Palavras-chave: Multimodalidade, argumentação, discurso.
Abstract: This paper aims to demonstrate that the argumentative dimension of a text can be made by the strategic use of different modalities, showing a theoretical and methodological perspective for the analysis of multimodal argumentative texts. This phenomenon in which diferente modalities are employed in the co-textual plane, delas with the interlocutor’s persuasion, we call argumentative multimodality. In light, above all, of the theoretical assumptions of the Semiolinguistic Theory of Discourse, by Patrick Charaudeau, who understands discourse as the use of language situated in a socio-historical context, associated with studies that take the image as an object of analysis (Kress & van Leeuwen, 2006 [1996];Santaella, 2012), we will try to present reflections and analyzes that discuss how the iconic material, in media texts, not only illustrates the verbal content, but conveys a cohesive and coherent whole with a strong argumentative content, seeking to guide the reader to certain conclusions, excluding others. For this qualitative research, we carried out a literature review of argumentation and multimodality, uniting the two notions in analyzes of diverse media texts that make up our corpus. In the end, we show how multimodality can be used as argumentative strategy and we describe three analytical categories that can be used in the analysis of multimodal texts that have an argumentative dimension.
Keywords: Multimodality, argumentation, discourse.
Introdução
Por muito tempo, a palavra ‘texto’ foi relacionada fundamentalmente ao domínio pedagógico e literário, vinculando-se apenas à escrita. Hoje, amplia-se o conceito de texto, que passa a ser compreendido como parte integrante do processo da atividade discursiva, na qual estão implicados tanto quem o produz quanto quem o recebe, tanto o material verbal quanto o não verbal, tanto elementos da superfície textual quanto elementos externos a ela:
Dessa visão de texto como entidade multifacetada, depreende-se que o ‘linguístico é condição necessária, mas não suficiente’, para o processamento textual, visto que, em uma visão interacionista da língua, as formas não são analisadas per se, mas como fontes para interações (Marcuschi, 2003, p. 253 apud Koch & Elias, 2016, p. 34).
No ponto de vista sociointeracionista, que entende o texto como uma co-construção de sentidos feita pelos interagentes, as ações de linguagem que realizamos a todo instante são permeadas por intenções e argumentatividade, ponto de vista também compartilhado por algumas vertentes de análise do discurso (Koch, 2007;Amossy & Zavaglia, 2007;Amossy, 2018). O sujeito, ao engendrar uma interação comunicativa, o faz visando, em maior ou menor grau, agir sobre o interlocutor – nenhum ato de linguagem é isento, pois, de propósitos. Pensar a respeito da argumentação, portanto, é considerar que o homem é capaz de influenciar os demais através do discurso.
Alicerçados nos pressupostos teóricos da Teoria Semiolinguística do Discurso, nomeadamente no que diz respeito ao Modo Argumentativo de Organização do Discurso (Charaudeau, 2009), na Teoria Semiótica (Santaella, 2012) e na Teoria Multimodal da Comunicação (Kress & van Leeuwen, 2006 [1996]), que defendem que os significados são produzidos por diversos modos semióticos, propomos analisar a argumentação construída por meio de índices multimodais, vale saber: material verbal e imagético.
A fim de refletirmos sobre as diversas semioses constituintes do ato comunicativo, na seção intitulada ‘A trama textual: o texto como discurso’, refletimos sobre a constituição histórica do conceito de ‘texto’, além de discutirmos as noções de ‘cotexto’ e ‘contexto’ – princípios fundamentais para que se processem a proposta de análise que apresentamos neste artigo. Em seguida, no tópico ‘Argumentação: da Retórica à Semiolinguística’, apresentamos reflexões sobre o conceito de argumentação e como o ato de argumentar figura nos estudos retóricos e linguísticos. Na seção seguinte, ‘Argumentação multimodal: uma ampliação de conceitos’, propomos uma interface teórica entre os postulados da Semiolinguística e da Teoria Multimodal da Comunicação para demonstrarmos que a argumentação pode ser realçada ou mesmo produzida por meio do material multimodal. Por fim, encerramos este artigo com a seção ‘Palavras finais’, cientes, todavia, de que muito ainda precisa ser estudado acerca dos fenômenos linguageiros multifacetados que conferem sentidos à comunicação.
A trama textual: o texto como discurso
Diversos estudiosos se propuseram a definir o conceito de texto nos estudos linguísticos, como Hjelmslev (1943 apud Bentes & Rezende, 2008), que defende a impossibilidade da existência de um texto – qualquer manifestação verbal empírica com certa regularidade, organização e combinatória dos elementos em uso – sem a existência de uma língua que fundamente essas relações. Na década seguinte, Harris (1952 apud Bentes & Rezende, 2008) propõe que não haveria outra via para intermediar as relações entre os sujeitos que não sob a forma de texto. Hawerg (1968 apud Bentes & Rezende, 2008), por sua vez, define o texto como um complexo linguístico que dispõe de recursos de retomada, antecipação e reelaboração da informação, recursos esses que condicionam a constituição do texto enquanto objeto linguístico dotado de sentido:
Dessas definições, advém uma percepção de ‘organicidade’ semântica e linguística entre as partes do texto que, mais tarde, Beugrande e Dressler (1981) nomeiam como princípio da coesão textual. Para Beugrande e Dressler, a coesão diz respeito aos “[...] procedimentos por meio dos quais os componentes da superfície do texto são mutuamente conectados no interior de uma sequência”. É a coesão que oferece “[...] estabilidade ao texto enquanto sistema, via continuidade de ocorrência” (Bentes & Rezende, 2008, p. 29).
Às reflexões apresentadas por Bentes e Rezende (2008), acrescentamos que definir o conceito de texto não é tarefa pacífica entre os teóricos, uma vez que as definições adotadas estão em estrita relação com as noções de língua e de linguagem que subjazem cada teoria que toma essa tarefa para si. De acordo com Koch (2007), historicamente, os conceitos de língua e de linguagem têm sofrido transformações. Inicialmente, os filósofos da linguagem viam a língua como representação (‘espelho’) do mundo e do pensamento. De acordo com essa concepção, o texto era um produto pronto e acabado, dependente da capacidade criativa do sujeito ‘consciente e individual’ que o produzia, apresentando, pois, um sentido único e inquestionável. A visão de língua como um instrumento (‘ferramenta’) de comunicação coloca o interlocutor no centro do processo comunicativo, cabendo a ele decodificar a mensagem codificada pelo enunciador, o que faz o texto ser visto como uma organização de pistas linguísticas que leva ao estabelecimento de relações superficiais que refletem as intenções do sujeito falante/escritor. Por fim, a língua como forma (‘lugar’) de ação e interação atribui tanto ao enunciador quanto ao interlocutor papéis ativos no processo comunicativo, passando o texto a ser entendido como um artefato de natureza dinâmica, um evento (altamente complexo), cujo sentido é produzido conforme a situação. Esse ponto de vista já estava presente nas reflexões de Bakhtin, para quem:
[...] a verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da ‘interação verbal’, realizada através da ‘enunciação’ ou das ‘enunciações’. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua (Bakhtin, 2006, p. 127).
De acordo com a noção da língua como lugar de interação – perspectiva adotada atualmente pelas correntes linguísticas de base enunciativa, como a Semiolinguística, teoria a que se filia este artigo –, a comunicação decorre da indissociável relação entre os interlocutores para que se possam depreender sentidos das palavras e imagens que compõem a superfície textual, sentido esse não mais unívoco, mas polissêmico. É na interação que a língua adquire significação e assume as marcas do sujeito. É ‘na’ e ‘pela’ língua que os sujeitos se constituem socialmente.
O entendimento de que os sujeitos são seres sociais faz emergir a noção de ‘texto como discurso’. O texto considerado como discurso pressupõe que ele seja resultado de uma operação estratégica de comunicação, produzida por um enunciador e interpretada como tal por um interlocutor, em três níveis: o ‘referencial’, que diz respeito ao conteúdo cotextual; o ‘situacional’, relacionado aos encontros sociais; o ‘pragmático’, referente ao processo sociointerativo e às intencionalidades que organizam o discurso. Assim:
A atividade interativa textual não se realiza exclusivamente por meio dos elementos linguísticos presentes na superfície do texto. Por muitos anos, essa era a ideia que se tinha de cotexto – a parte verbal materializada do texto. Estamos propondo que o cotexto abarque ‘não somente elementos linguísticos, mas todas as formas explicitadas na superfície textual e o modo como elas se dispõem e se hierarquizam, o que pode incluir imagens, sons, ou até percepções táteis’ (Pauliukonis & Cavalcante, 2018, p. 10-11).
Por considerarmos como cotexto qualquer elemento explicitado na superfície textual, diremos que, na Figura 1, a seguir, publicada no dia 09 de junho de 2020, na página do Facebook vinculada ao perfil Armandinho[1], além do material verbal composto pela fala do personagem, temos o elemento imagético que nos permite entender que o menino está conversando com sua avó ao telefone:
![Tira Armandinho[2].](../307468961021_gf2.png)
Outro importante elemento icônico que faz parte do cotexto é a máscara de proteção facial que Armandinho usa. Esse dado, associado à palavra ‘pandemia’, expressa no primeiro quadrinho, convoca informações do conhecimento partilhado entre os interlocutores e permite, com isso, a identificação de que a tira se refere ao período de enfrentamento da pandemia de Covid-19. As informações expressas no cotexto, consequentemente, não bastam à construção de sentido de um texto – exatamente, por isso, dados extralinguísticos são ativados no processo comunicativo e são interpretados juntamente com os elementos da superfície textual. Acerca desses elementos externos à superfície material do texto, Pauliukonis e Cavalcante (2018) explicam que ‘contexto’:
[...] diz respeito a conexões de sentido geradas nas condições de produção de um texto: noções de tempo e lugar, imagens recíprocas e papéis representados pelos interlocutores, relações sociais e reconhecimento do ato comunicativo praticado. Os sentidos contextuais nascem, pois, dessa intersubjetividade (ampla) do discurso, como preconizava Bakhtin (Pauliukonis & Cavalcante, 2018, p. 12).
Os conhecimentos extralinguísticos (conhecimentos enciclopédicos, de mundo) compartilhados pelos sujeitos durante a interação, suas práticas comunicativas, cultura, identidades e história compõem, pois, o ‘contexto’[3]. Na tira em análise, as pistas linguísticas giram em torno do jogo de palavras ‘combater a disseminação’ e ‘combater a informação’. A primeira expressão faz clara referência às ações do governo argentino para conter a circulação do novo coronavírus entre a população – a mais longa e rígida quarentena da América Latina rendeu à Argentina o menor índice de contaminação no continente americano. A segunda expressão materializa a crítica do enunciador no que se refere às ações do governo brasileiro para o controle da pandemia no país – uma quarentena não tão rígida e marcada por inúmeras declarações de autoridades sem qualquer respaldo científico e em desacordo com os protocolos de segurança divulgados pela Organização Mundial de Saúde, o que, consequentemente, levou o Brasil a ocupar a segunda posição no ranking mundial de mortes em decorrência da Covid-1. Para citar um dos episódios de desacordo entre o discurso político e o discurso cientifico, tomemos as declarações do presidente brasileiro, Jair Messias Bolsonaro, e do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, ainda no primeiro mês da pandemia por Covid-19. A peleja discursiva envolvendo essas duas autoridades foi assunto frequente de matérias jornalísticas, a exemplo das manchetes ‘Em resposta a Bolsonaro, diretor-geral da OMS insiste no isolamento social’ e ‘Diretor da OMS rebate Bolsonaro e reafirma política de isolamento’, publicadas, respectivamente, no site da Revista Veja e do jornal O Globo, no dia 31 de março de 2020.
A aceitação de que os limites de um texto não estão circunscritos ao verbal permite que a charge de Jean Galvão, publicada no dia 06 de setembro de 2020, no jornal Folha de São Paulo, seja considerada um texto, conforme a Figura 2:
![Charge Jean Galvão[4].](../307468961021_gf3.png)
Publicada na edição de domingo do feriado prolongado da Independência do Brasil, a charge critica o ato desordenado e irresponsável que lotou as praias de todo o litoral brasileiro mesmo sem os cientistas terem descoberto remédio ou vacina para combater a doença conhecida como Covid-19. Sem qualquer emprego de material verbal, a mensagem é construída pela observação dos elementos imagéticos que reproduzem um jogo de frescobol, esporte tipicamente praiano. Os vários guarda-sóis abertos e, praticamente, sem espaço entre um e outro sinalizam um grande número de pessoas em um mesmo ambiente. No que se refere ao personagem que ocupa posição focal na charge, verificamos uma alteração em seu semblante: ao jogar a bolinha, apresenta fisionomia alegre e descontraída; ao receber a bolinha metonimicamente transfigurada de coronavírus, suas reações faciais e sua postura corporal apontam para sentimentos como preocupação e perplexidade. A ampliação do estatuto de texto, definindo-o como um objeto constitutivamente multifacetado, portanto, sugere a consideração e a análise de situações nas quais o verbal não é exclusivo, predominante.
Desta feita, podemos dizer que o processamento das mensagens veiculadas pela tira e pela charge anteriormente apresentadas exige que sejam associados os materiais verbais e imagéticos constituintes do ‘cotexto’, além de dados externos à superfície textual (‘contexto’), sob pena de o texto não fazer sentido. Considerando, ainda, que o enunciador faz veicular, no processo interacional, uma ‘intencionalidade’ que é parte constitutiva do ato comunicativo que ele engendra, entendemos o texto como um ‘ato de discurso’. Dito de outra forma, o texto visto como discurso é resultado singular de uma representação discursiva (‘mis-en-scène’) entre os parceiros do ato de linguagem, ato esse situado sócio e historicamente, constituindo veículo de desejo de influência apresentado pelo enunciador, ao procurar agir sobre o interlocutor. Por esse prisma teórico, ousamos dizer que ‘texto e discurso’ são conceitos que não podem ser definidos separadamente:
Elaborar uma definição precisa de texto não é uma tarefa sem riscos. O primeiro é pensar-se em texto apenas como um objeto material, uma superfície linear na qual os sentidos se acham organizados – neste caso, nada sobraria para o texto como construção teórica e, além disso, seriam depositadas na noção de discurso todas as demais propriedades atinentes a aspectos enunciativos (pragmáticos, em sentido estrito) e a aspectos socioculturais ligados às condições de produção do (inter)discurso. O segundo risco é, ao pressupor uma separação radical entre texto e discurso e ao admitir a noção de texto como construto teórico, considerá-lo somente como a representação, evidentemente abstrata, de sua textualidade (ou tessitura, ou ainda textura) (Pauliukonis & Cavalcante, 2018, p. 22-23).
Amparando-nos, então, na Teoria Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, que entende o discurso como o emprego da língua, portanto, do texto situado em um contexto socio-histórico, apresentamos, na seção seguinte, reflexões e análises acerca da argumentação. Enquanto noções complementares e intercambiáveis a partir desse prisma teórico, compreendemos que a multimodalidade empregada em diferentes textos/discursos pode consistir em uma potente ferramenta argumentativa. Para defendermos esse ponto de vista, faz-se necessária uma rápida explicação acerca do fenômeno da argumentação.
Argumentação: da retórica à semiolinguística
No percurso evolutivo da espécie humana, parece possível compreender que, fazendo uso da língua como ferramenta de comunicação, foi também possível empregá-la como uma forma de resolução de conflitos, nomeadamente quando o homem passou a viver em sociedades organizadas e mais complexas. É devido a isso que Reboul (2004) afirma ser a retórica anterior à sua história, ou mesmo à própria História enquanto disciplina, ‘pois é inconcebível que os homens não tenham usado a retórica para persuadir’. De acordo com o autor, o surgimento da retórica, enquanto estudo das técnicas argumentativas, deu-se justamente em um ambiente conflituoso, na tentativa de buscar-se um acordo:
A retórica não nasceu em Atenas, mas na Sicilia grega por volta de 465, após a expulsão dos tiranos. E sua origem não é literária, mas judiciária. Os cidadãos despojados pelos tiranos reclamaram seus bens, e à guerra civil seguiram-se inúmeros conflitos judiciários. Numa época em que não existiam advogados, era preciso dar aos litigantes um meio de defender sua causa. Certo Córax, discípulo do filósofo Empédocles, e o seu próprio discípulo, Tísias, publicaram então uma ‘arte oratória’ (tekhnérhetoriké), coletânea de preceitos práticos que continha exemplos para uso das pessoas que recorressem à justiça. Ademais, Córax dá a primeira definição de retórica: ela é ‘criadora de persuasão’ (Reboul, 2004, p. XIII).
Assim, há uma relação intrínseca entre a argumentação e a resolução de conflitos, procurando-se evitar violência física e atingir uma determinada justiça. Conforme nos lembra Fiorin (2014), a base etimológica da palavra ‘argumento’ reside justamente em ‘argu-’, que significa ‘fazer brilhar, cintilar’, radical que também está presente em argênteo e Argentina, provindas do latim argentum (prata): “O argumento é o que realça, o que faz brilhar uma ideia” (Fiorin, 2014, p. 61).
A retórica enquanto criadora de persuasão foi posteriormente desenvolvida como o estudo de técnicas argumentativas, também com foco no âmbito jurídico, pelo filósofo grego Aristóteles. É justamente no livro intitulado Retórica que o estagirita – gentílico atribuído a quem nasceu em Estagira, na Macedônia – fundamenta o estudo dessa que seria tida como uma disciplina importante durante o período clássico grego e romano, passando por toda a Idade Média europeia.
Para Aristóteles (2005), havia três meios de ‘prova retórica’, correspondentes ao logos, ao ethos e ao pathos. O logos diz respeito ao uso da língua e do raciocínio lógico propriamente dito. Assim, qualquer verbalização que busca demonstrar algo configura o emprego do logos. O ethos, por sua vez, relaciona-se ao caráter do orador – aquele que argumenta –, pois, de acordo com Aristóteles (2005), a argumentação será mais digna de fé se o orador for alguém dotado de caráter. O pathos, por fim, diz respeito ao despertar de determinadas emoções no auditório – o destinatário, afinal: “[...] persuade-se pela disposição dos ouvintes, quando estes são levados a sentir emoção por meio do discurso, pois os juízos que emitimos variam conforme sentimos tristeza ou alegria, amor ou ódio’ (Aristóteles, 2005, p. 97).
Apesar da longa tradição retórica, os estudos em linguística não se preocuparam de imediato com o fenômeno argumentativo como um objeto de estudo. Foi apenas na segunda metade do século XX que o linguista francês Oswald Ducrot englobou a argumentação em sua teoria semântica, inaugurando os estudos da argumentação por meio da linguística. Entretanto, como nos lembra Fiorin (2014), apesar de Ducrot ter introduzido os estudos da argumentação nas ciências da linguagem, sua teoria não concebia o aparato discursivo – nomeadamente a primeira e a terceira fases da Teoria da Argumentação na Língua. Para Ducrot e Ascombre, inicialmente, e para Ducrot e Carrel, em seguida, a argumentação estaria inscrita na própria língua, sendo independente de informações contextuais e, por extensão, discursivas (Fiorin, 2014).
Posteriormente, outros autores, como Charaudeau, Amossy e Fiorin apregoam a importância da argumentação nos estudos discursivos. Fiorin (2014), por exemplo, postula que a análise do discurso deve herdar a retórica, estudando, à luz das teorias atuais, e reatualizando os estudos clássicos, os procedimentos discursivos que permitem convencer e persuadir o interlocutor. Para ele,
[...] a retórica é, sem dúvida nenhuma, a disciplina que, na História do Ocidente, deu início aos estudos do discurso. Tira ela seu nome do grego rhéseis, que quer dizer ‘ação da falar’, donde ‘discurso’. Rhetorikéé a arte oratória, de convencer pelo discurso (Fiorin, 2014, p. 61).
Ruth Amossy, por sua vez, postula que uma argumentação eficaz é inteiramente dependente da situação de comunicação. De acordo com a autora:
[...] todo discurso supõe o ato de fazer funcionar a linguagem num quadro figurativo (‘eu’ – ‘tu’); está imerso na trama dos discursos que o precedem e o cercam; produz, de bom ou de mau grado, uma imagem do locutor e influencia as representações ou as opiniões de um alocutário. Nesse sentido, o estudo da argumentação e do modo como ela se alia aos outros componentes na espessura dos textos é parte integrante da análise do discurso (Amossy, 2018, p. 12).
Notamos que Amossy retoma o conceito aristotélico de ethos (imagem discursiva projetada pelo enunciador em seu discurso), bem como dialoga com as noções de enunciação e dialogismo de Benveniste e Bakhtin, respectivamente. Amossy (2018) ainda salienta que a argumentação, sendo inerente ao discurso, pode ser percebida em enunciados de naturezas diferentes, sendo aqueles explicitamente argumentativos dotados de uma ‘orientação argumentativa’, e aqueles cuja argumentatividade é mais sutil dotados de uma ‘dimensão argumentativa’.
Charaudeau, no âmbito de sua Teoria Semiolinguística do Discurso, já abarcava anteriormente a possibilidade de os discursos serem explicitamente argumentativos, quando fazem uso do ‘modo argumentativo de organização do discurso’, ou serem constituídos por outros modos de organização, como o descritivo e o narrativo, mas ainda apresentando o propósito de influenciar o interlocutor. O autor distingue, então, a ‘argumentação da persuasão’, aquela correspondendo aos textos explicitamente argumentativos, constituídos, por exemplo, de uma tese (asserção de partida), uma conclusão (asserção de chegada), e determinadas inferências que levam a tese à conclusão (asserção de passagem). Por sua vez, a ‘persuasão’, de acordo com Pauliukonis (2020), pode ser engendrada por meio de discursos que não se apresentem explicitamente como argumentativos, sendo constituídos por outros modos de organização.
Vemos, portanto, uma diferença epistemológica no tratamento do fenômeno argumentativo em Pauliukonis (2020), que compreende a argumentação de maneira distinta da persuasão, e em Amossy (2018), que considera a dimensão argumentativa como constituinte de todo e qualquer discurso.
Ainda no âmbito da Teoria Semiolinguística do Discurso, podemos encontrar novamente uma retomada das noções aristotélicas de logos, pathos e ethos, conforme Fiorin (2014) defende que a Análise do Discurso faça. Na Semiolinguística, essas provas retóricas podem ser relacionadas às estratégias discursivas de ‘legitimidade, credibilidade e captação’. A legitimidade diz respeito ao direito à palavra, por parte do sujeito enunciador, que deverá se perguntar ‘quem sou eu para dizer tal coisa?’; a credibilidade diz respeito à forma como o enunciador constrói seu discurso, provocando um efeito de sentido credível em seu destinatário; por sua vez, a captação diz respeito a provocar a adesão do interlocutor, despertando-lhe determinados sentimentos no processo.
Para que essas noções teóricas sejam mais bem compreendidas, a seguir, apresentamos uma notícia do jornal El País em sua versão online, por meio da qual procuramos exemplificar o que discutimos até aqui (Figura 3).
Na manchete, Descaso no Pantanal e Amazônia ameaça negócios do Brasil enquanto Governo se isenta de responsabilidade, observamos que há uma construção argumentativa evidenciada pela tomada de posição por parte do enunciador, já que o jornal confere ao fato um determinado ponto de vista expresso pela escolha lexical do vocábulo ‘descaso’ para nomear a destruição que assola os biomas brasileiros. Além disso, o operador argumentativo ‘enquanto’ apresenta um valor de contraste, permitindo o efeito de sentido de que, enquanto o Pantanal e a Amazônia enfrentam um descaso que ameaça a economia, o governo federal se isenta da responsabilidade acerca do desmatamento e das queimadas desenfreadas. Vemos, portanto, o emprego do logos, do raciocínio efetivado por meio da língua, o que confere certa credibilidade ao veículo de comunicação. A credibilidade, de acordo com Charaudeau (2015), consiste na estratégia discursiva por meio da qual o enunciador procura levar o interlocutor a acreditar em suas palavras. Há, nessa manchete, a intencionalidade de questionar autoridades governamentais e sua atitude de ‘descaso’. A compreensão dessa intencionalidade argumentativa, entretanto, só é recuperada se levarmos em consideração algumas questões pragmático-discursivas, portanto, contextuais, como a localização geográfica e temporal, conforme defende Amossy (2018). Afinal, para a compreensão adequada do cotexto, precisamos saber que, no momento em que essa matéria foi escrita, ocorriam grandes problemas ambientais no Pantanal e na Amazônia, com a morte de centenas de animais e a devastação de milhares de hectares por conta de queimadas e desmatamento.
![Notícia do jornal El País[5].](../307468961021_gf4.png)
Nesse processo, o jornal, enquanto instância de produção do discurso, apresenta-se como um enunciador dotado de senso crítico e responsabilidade ambiental. Há, portanto, a construção de um ethos, uma imagem discursiva de alguém virtuoso e que se preocupa com o meio ambiente. Ao descrever o ethos de virtude, Charaudeau (2015) o ilustra com a imagem do político que se projeta como fiel, sincero e honesto. No texto em apreço, essa imagem discursiva corresponde justamente à estratégia da legitimidade: é o jornal El País Brasil, um veículo dotado de responsabilidade ambiental, que está falando.
Por fim, há um efeito patêmico (pathos) que viabiliza a captação do público leitor, nomeadamente pelas escolhas lexicais de ‘descaso’, na manchete, sobre a situação envolvendo uma carta escrita por oito países, no subtítulo, e também pela imagem, já que a onça pintada é um dos mais emblemáticos símbolos da diversidade da fauna brasileira. Para Charaudeau (2010), a patemização consiste no fenômeno por meio do qual o enunciador procura despertar determinadas emoções no interlocutor, visando a captar sua atenção. A onça, entretanto, não se encontra em uma posição de ataque, ameaçadora, como é comumente representada, mas está acuada, enquadrada à esquerda da imagem, levemente curvada, o que complementa os sentidos da legenda, que a nomeia como ‘onça ferida’, uma das vítimas dos incêndios do Pantanal. A informação de que 60% do Parque Nacional Encontro das Águas, no Mato Grosso, foi destruído pelo fogo também corresponde ao emprego do pathos, visto que essa informação pode desencadear emoções como tristeza e indignação no leitor, o interlocutor do jornal.
O que procuramos demonstrar com essa breve análise é que a Teoria Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, apresenta noções teóricas que retomam a retórica aristotélica, incorporando-as nas análises que se orientam por essa teoria. É importante salientar que as noções de logos, ethos e pathos são convencionalmente separadas por fins metodológicos em análises textuais e discursivas. Entretanto, como vimos por meio do texto apresentado, as três instâncias estão imbrincadas no fazer discursivo, sendo um mesmo enunciado constituído pelo logos, possivelmente despertando alguma emoção no interlocutor (pathos), mas sempre construindo uma imagem discursiva do enunciador (ethos).
De igual modo, percebemos que a imagem trazida abaixo da notícia não apenas ilustra a manchete, mas complementa a argumentatividade do texto que procura captar o destinatário, apresentando o descaso do governo em relação ao Pantanal e à Amazônia. A esse processo, em que diferentes semioses são empregadas como estratégia argumentativa, damos o nome de ‘argumentação multimodal’, fenômeno que sistematizamos em pormenores a seguir.
Argumentação multimodal: uma ampliação de conceitos
Em sua Teoria Multimodal da Comunicação, Kress e van Leeuwen (2001) explicam que o senso comum que entendia a linguagem verbal como o principal meio de representação e comunicação não faz mais sentido. Focando-se nos diferentes recursos semióticos de comunicação e nas práticas comunicativas em que tais recursos são empregados, os autores assumem que o sentido é constituído por meio da relação entre diferentes recursos semióticos, o que é chamado de multimodalidade, vale saber, “[...] qualquer texto em que os sentidos são realizados por meio de mais de um código semiótico[6]” (Kress & van Leeuwen, 2006 [1996], p. 177). Assim, de acordo com os autores: “[...] a partir do momento em que uma cultura tomou a decisão de incluir um determinado material em seus processos comunicativos, esse material se tornou parte dos recursos culturais e semióticos dessa cultura, estando disponíveis para uso na formação de signos”[7] (Kress & van Leeuwen, 2001, p. 111).
Em sua Gramática do Design Visual (Kress & van Leeuwen, 2006 [1996]), os autores propõem trazer como metodologia de análise de significados não apenas os mecanismos superficiais, mas aqueles que subjazem à organização de um texto multimodal. O que eles propõem como ‘gramática’ é a organização interna dos elementos constituintes de um texto, e não um conjunto de regras, afinal, “[...] assim como as estruturas linguísticas, estruturas visuais apontam para interpretações particulares das experiências e formas de interação social[8]” (2006 [1996], p. 2). Nessa gramática, são apresentados modos de investigar e descrever a maneira como elementos de uma imagem se relacionam entre si, como as relações entre pessoas, lugares e objetos, bem como as complexas relações que podem existir entre as imagens e seus expectadores. Assim, os elementos de diferentes semioses que compõem o texto não são vistos como partes desconectadas, sendo o sentido construído com a soma das partes. Mais do que isso, os sentidos emergem justamente da relação construída entre as diferentes modalidades ou semioses, tornando o texto um todo integrado.
Desta feita, os autores compreendem que o processo de significação vai além da linguagem verbal, ponto de vista já reconhecido por outras vertentes dos estudos linguísticos, afinal:
A afirmação óbvia de que o objeto de estudo da Linguística é a linguagem pode esconder a informação mais importante de que, na verdade, a investigação sobre a linguagem tem por meta tratar da temática dos sentidos. É a busca por desvendar as relações entre as formas e os sentidos, além de sua relação com a mente e com os aspectos contextuais, que está na raiz de quase todas as teorias linguísticas. Por isso é que estas só se sustentam se embasadas por pressupostos filosóficos (mesmo que não explicitados), e por isso é que há um constante diálogo entre a Linguística e outras ciências que cuidam dos sentidos, como a Semiótica (Cavalcante & Custódio Filho, 2010, p. 57).
Neste trabalho, relacionamos alguns princípios da Teoria Multimodal da Comunicação à Teoria Semiolinguística do Discurso, nomeadamente no que concerne à argumentação e à persuasão, para compreendermos um pouco mais acerca da maneira como diferentes formas engendram diferentes efeitos de sentido.
A Semiolinguística já vem sendo empregada por alguns autores, dentre eles Mendes (2013) e Galinari (2013), na análise de textos imagéticos, levando em conta categorias já apresentadas no tratamento do discurso materializado em textos verbais, como a noção de contrato de comunicação, sujeitos, imaginários sociodiscursivos, dentre outros. Entretanto, conforme assevera Mendes (2013), é preciso também levar em conta as características prototípicas das imagens, como enquadres, planos, cores e ângulos. No que concerne à argumentação propriamente dita, os autores apresentam pontos de vista pertinentes. Mendes (2013) afirma que:
Em relação ao modo de organização argumentativo, pensamos que argumentar é buscar recursos para se chegar à persuasão. Não encontraremos nas imagens marcas explícitas, como os conectores, por exemplo, no caso do texto verbal. No entanto, a imagem pode ter um papel de prova, de exemplo, de contra-argumento, dentre outras possibilidades. Por exemplo, se temos uma reportagem que fala sobre a degradação do meio ambiente feita por uma determinada empresa e são mostradas imagens desta degradação, o papel da imagem é ser a prova do que é dito, tem a função de demonstração. Se, porventura, nesse mesmo caso, as imagens veiculadas não mostrarem uma degradação tão forte como na descrição da reportagem, elas podem funcionar como contra-argumento do que é dito (Mendes, 2013, p. 146).
Mendes (2013), trazendo o ponto de vista teórico de Ruth Amossy, postula que as imagens, nesse contexto, seriam detentoras de uma dimensão argumentativa, justamente por não apresentarem explicitamente mecanismos linguísticos que denotem a argumentação. Como veremos adiante, defendemos que, em um texto multimodal, em que as imagens e o material verbal se relacionam, é possível que a imagem tenha um papel mais salientado na intencionalidade argumentativa do sujeito enunciador, não se comportando apenas como um exemplo ou prova da argumentação.
É devido a isso que, para Galinari (2013):
Escolhido o corpus, o pesquisador em AD depara-se com a necessidade de tratar as imagens como parte integrante de um complexo processo enunciativo/comunicativo, ou melhor, como um artefato simbólico destinado a estruturar relações humanas e (inter)institucionais, incluindo aí a questão dos possíveis efeitos sobre o(s) outro(s) e a busca por sua adesão. Talvez seja esse tratamento o ponto crucial e caracterizador de uma análise das imagens no campo da AD (Galinari, 2013, p. 359).
Nesse viés, ao nos debruçarmos sobre a análise da argumentação multimodal, buscaremos evidenciar a maneira como as imagens e o material verbal, em uma relação integrada em maior ou menor grau, contribuem para orientar o leitor a determinada conclusão; isto é, as imagens atuam como norteadoras da intencionalidade argumentativa, provocando efeitos de sentido diversos na expectativa de buscar a adesão do interlocutor. À luz dos ensinamentos de Santaella (2012) sobre as relações semânticas que se estabelecem entre palavra e imagem, apresentamos, a seguir, três estratégias de arquitetura do que aqui estamos chamando ‘argumentação multimodal’.
Argumentação multimodal por focalização
Em alguns gêneros textuais, a relação que se estabelece entre os materiais verbal e imagético é de ‘substituição’, tendo em vista que os arranjos das duas linguagens são equivalentes em termos de informatividade – semelhante ao que Barthes (1990) chamou de ‘relação de ancoragem’ entre palavra e imagem, ao explicar a função das legendas nas fotos jornalísticas: a linguagem verbal teria um objetivo elucidativo, funcionando como uma substituição do icônico. No dia 23 de setembro de 2020, o portal de notícias da Globo – G1 – publicou uma notícia sobre o aumento dos casos de infecção pelo coronavírus na cidade de Sumaré (SP), apresentando, juntamente ao material verbal, o seguinte infográfico, representado na Figura 4:
![Infográfico[9].](../307468961021_gf5.png)
É possível perceber que as imagens, inicialmente, parecem apenas ilustrar o conteúdo verbal – se o infográfico fosse composto sem o material icônico, na verdade, a informação acerca dos principais sintomas da Covid-19 não deixaria de ser mencionada. Santaella (2012) afirma que, nesses casos, há uma ‘relação semântica de redundância’ entre palavra e imagem. No jogo argumentativo, esta estratégia não implica um valor negativo, mas enfático, uma vez que a duplicação de informações é exatamente o reforço que o enunciador busca construir.
Dito de outra forma, esse valor enfático reflete a intencionalidade de o enunciador focalizar, por meio do infográfico, a vasta gama de sintomas provocados pela infecção do coronavírus. Neste caso especificamente, é possível que o interlocutor seja captado por meio da ‘patemização’ (Charaudeau, 2010), já que diferentes emoções podem ser experienciadas pelo leitor ao se deparar com as ilustrações. O material icônico, em um tom realístico, representa indivíduos sofrendo com diarreia, dores nas pernas, dificuldade de respiração, tosse. A seriedade e periculosidade de tais sintomas são expressas não apenas pela nomeação, mas pelas posições corporais e expressões faciais evidenciadas pelos indivíduos representados na imagem. A descrição e as imagens, portanto, apresentam uma dimensão argumentativa (Amossy, 2018), na medida em que podem influenciar o leitor em maior ou menor grau, levando-o a melhor se precaver e reconhecer os sintomas relacionados à infecção do novo coronavírus, por exemplo.
Assim, a ‘argumentação multimodal por focalização’ é engendrada no texto em análise por meio do ‘modo descritivo de organização do discurso’: o enunciador nomeia os sintomas, como ‘tosse’ e ‘dificuldade respiratória’, qualificando-os negativamente – ‘tosse seca ou com secreção’ e ‘dificuldade respiratória aguda’. A informação verbal é, ainda, focalizada pelas imagens de sofrimentos dos indivíduos enfermos. Ao processar as informações verbais e icônicas do cotexto, além de mobilizar informações contextuais acerca da Covid-19, provavelmente, o leitor será levado a sentir medo e preocupação, o que poderá desencadear maiores cuidados para se proteger do vírus que tem levado à morte inúmeras pessoas em todo o mundo, garantindo, pois, o êxito do processo de argumentação construído pelo enunciador.
Argumentação multimodal por complementariedade
Na ‘argumentação multimodal por complementariedade’ a imagem agrega sentidos que faltam aos enunciados linguísticos e vice-versa – esta relação entre palavra e imagem foi chamada por Barthes (1990) de relais; Santaella (2012) a denomina de ‘relação semântica por complementariedade’, ressaltando que imagem e palavras têm a mesma importância na construção do sentido, sendo, pois, indissociáveis. Nesse caso, a intencionalidade argumentativa é materializada pela junção das diferentes semioses, em um processo de interdependência, tal como ocorre na Figura 5 abaixo:
![Charge[10].](../307468961021_gf6.png)
Para a compreensão dos sentidos veiculados pela charge em apreço, vislumbrando seu teor argumentativo, é necessário que o leitor acesse seu conhecimento prévio acerca do cenário político brasileiro atual. Na reunião ministerial, ocorrida no dia 22 de abril de 2020, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – na imagem, representado pelo homem sentado sobre a porteira –, afirmou que o governo deveria se aproveitar do enfoque dado pela mídia e pela sociedade à pandemia da Covid-19 para flexibilizar as regras de preservação ambiental. Para se referir à aprovação questionável de várias dessas medidas, Ricardo Salles empregou a expressão ‘permitir que passe a boiada’. Essa expressão vernacular foi retomada na charge acima pelo fazendeiro, que, trajando não apenas um chapéu, mas terno e gravata para representar metonimicamente os grandes empresários do agronegócio, se refere ao ministro como o ‘menino na porteira’, em uma relação intertextual com a famosa música de Sérgio Reis. Entretanto, ao invés da preposição ‘de’, temos a preposição ‘em’, designando que Salles está ‘na porteira’, isto é, em um lugar que permite a metafórica passagem da boiada, vale dizer, o Ministério do Meio Ambiente.
Charaudeau (2009) defende que o ‘modo argumentativo de organização do discurso’ obedece a uma lógica segundo a qual existe uma relação de ‘causalidade’ entre duas proposições, instanciada na superfície textual por meio de diferentes marcas formais ou, como o proposto neste trabalho, ‘índices multimodais’. Da charge em tela, depreende-se que ‘porque o menino está na porteira, passa boi, passa boiada’, representando metaforicamente o raciocínio ‘porque Ricardo Salles está à frente do Ministério do Meio Ambiente, haverá alterações nas leis e regras ambientais’.
Os postulados de Kress e van Leeuwen (2006 [1996]) também nos autorizam essa conclusão, uma vez que o enunciado multimodal representa não só o mundo de maneira concreta, retratando ações ou eventos, mas também de maneira abstrata, evocando símbolos e conceitos. Na charge em apreço, os participantes representados visualmente, além de estabelecerem uma relação de diálogo entre si[11], forjando uma representação narrativa, acenam para o simbólico, forjando uma representação conceitual de categorias sociais – categorias essas postas em xeque pelo chargista.
É possível perceber que o material verbal representando a fala do fazendeiro retoma não apenas um personagem que também compõe a imagem – o próprio ministro –, mas também faz a ponte com o extradiscursivo, salientando a importância da inserção do texto em seu contexto de produção, vale dizer, trazendo à tona questões pragmático-discursivas. De igual modo, o material verbal inscrito sobre o couro dos bois designa justamente as ações intentadas pelo ministro do meio ambiente. Considerando, conjuntamente, os dados cotextuais e contextuais, é possível entrever uma intencionalidade argumentativa por parte da instância de produção e veiculação da charge, focalizando que os grandes beneficiados pelas ações do ministro Ricardo Salles seriam os empresários do agronegócio, em detrimento de interesses de comunidades indígenas e da própria preservação ambiental.
Argumentação multimodal por divergência
Santaella (2012) explica que a relação semântica instaurada entre palavra e imagem, em alguns casos, pode expressar desacordos errôneos ou intencionais. De acordo com a autora, no primeiro caso, a incoerência que emerge da associação entre material verbal e imagético é provocada de forma não intencional pelo enunciador, que, inadequadamente, deixa de estabelecer vínculos de sentido entre palavra e imagem. No segundo caso, pelo contrário, de forma totalmente intencional, o enunciador faz emergir essa incoerência para provocar estranhamento no interlocutor, a fim de desencadear um novo olhar. Exatamente sobre essa segunda forma de associação equivocada entre elementos de semioses distintas, apoiamos nossa definição de ‘argumentação multimodal por divergência’, estratégia empregada pelo enunciador ao fazer uso de material verbal e icônico cuja relação, em princípio, parece provocar certo efeito de dissonância entre os sentidos expressos pelos materiais verbal e imagético. Levando-se em conta os elementos cotextuais e contextuais, entretanto, é possível entrever finalidades pragmáticas que orientam a leitura do interlocutor, procurando-se persuadi-lo. Um exemplo da argumentação multimodal por divergência é a que observamos na relação entre a manchete e a foto publicadas no dia 15 de setembro de 2020 na página no Facebook do jornal Estadão, conforme a Figura 6 a seguir:
![Manchete do jornal Estadão[12].](../307468961021_gf7.png)
A manchete ‘Apesar das críticas, governo estuda como ‘imunizar’ igrejas de tributos’ convoca o leitor a se inteirar acerca das últimas decisões do Presidente da República Jair Messias Bolsonaro de isentar os templos religiosos de seus impostos. O emprego do operador argumentativo ‘apesar’ sinaliza que as críticas não foram suficientes para fazer o governo retroceder da decisão de desonerar os tributos das igrejas. Além dessa marca linguística que faz ecoar as vozes contrárias às medidas governamentais, o que chama a atenção é a imagem que acompanha a matéria, o presidente fazendo seu costumeiro gesto de alusão bélica – ‘fazer arminha com a mão’ –, que não parece ter qualquer relação direta com o material verbal expresso pela manchete.
Diferentemente da charge e do infográfico anteriormente apresentados, bem como da tirinha e da notícia jornalística apresentadas nas seções antecedentes, neste texto multimodal, é necessário trazer à tona sentidos pragmático-discursivos que embasam a compreensão de sentidos implícitos. O presidente fez sua campanha eleitoral sobre diversas pautas combatidas pela Esquerda, dentre elas, a liberação do porte de armas. É devido a isso que tanto ele quanto seus aliados e até eleitores fiéis aparecem em diversas imagens apresentando a configuração de mãos que sugere o formato de uma arma de fogo. Ao trazer essa imagem juntamente à manchete da isenção de impostos para as igrejas, em um momento em que cortes orçamentários enormes são feitos em áreas estratégias, como saúde, educação e ciência, o leitor é convidado a interpretar que o governo – na figura do presidente Jair Messias Bolsonaro – está lhe provocando um mal injusto e irreparável, como se ele próprio fosse o alvo da arma que o presidente empunha. Essa conclusão pode ser respaldada pela noção de ‘saliência’ – importância hierárquica de um elemento em relação ao outro na constituinte visual, atraindo maior atenção de quem observa a composição multimodal (Kress & van Leeuwen 2006 [1996]) –, tendo em vista a posição focal do presidente na imagem.
Além dos conhecimentos extratexuais, a própria imagem permite algumas interpretações que favorecem o despertar de sentimentos relacionados à indignação e à raiva – a expressão facial sorridente e o empunhar – ainda que metafórico – de uma arma conferem ao presidente uma posição de superioridade que não é intimidada por críticas ou interesses alheios aos seus. É ainda possível que o material imagético não tenha relação direta com a matéria, sendo a fotografia feita em outra situação, com outra pauta em debate, já que, ao abrirmos o link direcionado pelo post no Facebook, surge uma matéria sem a veiculação dessa imagem. A seleção da fotografia que ilustra a manchete, dentre tantas possíveis por parte da instância de produção do jornal Estadão – normalmente lido como um veículo de Esquerda – é, portanto, proposital, o que acentua a intencionalidade argumentativa do texto multimodal em apreço. Tal escolha consubstancia a afirmação de Charaudeau (2009), para quem “[...] a finalidade do ato de linguagem (tanto para o sujeito enunciador quanto para o sujeito interpretante) não deve ser buscada apenas em sua configuração verbal, mas no jogo que um dado sujeito vai estabelecer entre esta e seu sentido implícito” (Charaudeau, 2009, p. 24).
No texto em tela, entendemos que seja possível ler tanto a manchete quanto o corpo da reportagem sem que se faça a referida associação entre palavras e imagem. Nesse procedimento de leitura, porém, o que se perde é exatamente o viés argumentativo do texto, a tomada de posição, ainda que sutil, da instância midiática que visa a, pelo menos, questionar a atitude do presidente.
Considerações finais
Neste trabalho, procurando modestamente apresentar uma contribuição aos estudos discursivos que se debruçam sobre a argumentação, defendemos que a argumentação pode ser também efetivada por meio da multimodalidade.
A relação entre diferentes semioses, permitindo a constituição de efeitos de sentido diversos, permite um jogo integrado que viabiliza o projeto argumentativo. A esse fenômeno em que diferentes modalidades são empregadas no plano cotextual, visando ao convencimento e/ou persuasão do interlocutor, chamamos de ‘argumentação multimodal’. Este trabalho, dadas suas próprias limitações, não abarca a totalidade do fenômeno apresentado, afinal, nos debruçamos apenas sobre um tipo de multimodalidade, a que leva em conta a junção do material verbal com o material imagético. Mesmo que tenhamos percebido três diferentes formas de relação entre essas duas modalidades para a construção da argumentação – vale lembrar: (i) a argumentação multimodal por focalização (ii); a argumentação multimodal por complementariedade e (iii) a argumentação multimodal por divergência –, compreendemos que ainda falta muito a ser estudado e apresentado sobre esse fenômeno.
Percebemos, por meio da análise dos diferentes gêneros trazidos como corpus, que distintos níveis de interação multimodal podem ser empregados com finalidade argumentativa. Levando em conta o que Pauliukonis (2020) chama de ‘persuasão’, bem como a noção de ‘dimensão argumentativa’ de Amossy (2018), procuramos evidenciar que mesmo os textos que não seriam considerados explicitamente argumentativos podem apresentar a intencionalidade de influenciar o interlocutor em alguma medida. Demonstramos, por meio da análise de um texto predominante descritivo, que imagens que parecem meramente ilustrar o material linguístico podem gerar efeitos de sentido que buscam atingir o leitor. De igual modo, mostramos que, por vezes, a imagem parece não se relacionar diretamente ao material verbal, necessitando que diferentes graus de inferência sejam trazidos à tona pelo interlocutor para a compreensão adequada do texto, o que também evidencia uma estratégia de argumentação multimodal.
Para pesquisas futuras, que partirão desta primeira delineação do fenômeno que chamamos de ‘argumentação multimodal’, poderemos estudar a forma como os gestos corporais e as expressões faciais se relacionam com o que é dito em uma conversa espontânea, bem como a relação entre a empostação da voz e o enunciado linguístico, permitindo determinados efeitos de sentido engendrados por diferentes modalidades, por exemplo.
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Notas
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