Literatura

A ficção epidêmica e suas representações: da ‘Ilíada’ ao romance ‘A peste’, de Camus

Epidemic fiction and its representations: from ‘Iliad’ to the novel ‘The plague’, by Camus

Altamir Botoso
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Brasil

A ficção epidêmica e suas representações: da ‘Ilíada’ ao romance ‘A peste’, de Camus

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 43, núm. 2, 2022

Universidade Estadual de Maringá

Recepción: 08 Diciembre 2020

Aprobación: 17 Mayo 2021

Resumo: O tema da epidemia é recorrente na literatura ocidental, abarcando obras que foram escritas desde a antiguidade até a contemporaneidade. Partindo dessa premissa, o objetivo deste artigo é fornecer um panorama de textos que tratam dessa questão e estudar a representação do surto epidêmico que vertebra o romance ‘A peste’, do escritor francês Albert Camus, e se estrutura a partir da convergência dos relatos das peripécias de um médico, Dr. Bernard Rieux, com as histórias pessoais de Jean Tarrou, Joseph Grand, Raymond Rambert, o padre Paneloux, o juiz Othon e o mercenário Cottard. O suporte teórico para as análises pauta-se nos textos de Araújo (2020), Benevides (2011), Develey (2020), Fritsch (2018), Martins (2011), Candido (2011), Marx (2020), Palud (2008), Pereira (1996), Phélip (2020), Ruffato (2020), Voisine-Jechova (2001). Valendo-se do entrelaçamento das histórias de vários personagens, a obra camusiana desvela o que há de melhor e de pior nas suas ações, durante um surto de peste bubônica ocorrido na cidade de Oran, e apresenta uma narrativa sensível e humanizada das vidas de seus habitantes imersos num período de horror e de sofrimento, marcado pela tragédia e pela dor de perdas familiares, exílio e confinamento nas fronteiras de um espaço que se vê invadido pela doença, que persiste ao longo de vários meses e vitima grande parte de sua população.

Palavras-chave: literatura francesa, Albert Camus, praga, morte.

Abstract: The epidemic theme is recurrent in Western literature, encompassing books that were written from antiquity to contemporary times. Based on this assumption, the objective of this article is to provide an overview of texts that address this issue and to study the representation of the epidemic outbreak that builds up the novel ‘The plague’, by the french writer Albert Camus, and it is structured based on the convergence of the stories of the adventures of Dr. Bernard Rieux, with personal stories of the following characters: Jean Tarrou, Joseph Grand, Raymond Rambert, priest Paneloux, judge Othon and the mercenary Cottard. The theoretical support for the analyzes is based on the texts by Araújo (2020), Benevides (2011), Develey (2020), Fritsch (2018), Martins (2011), Candido (2011), Marx (2020), Palud (2008), Pereira (1996), Phélip (2020), Ruffato (2020), Voisine-Jechova (2001). Drawing on the intertwining of the stories of various characters, the camusian book unveils the best and the worst in their actions, during an outbreak of bubonic plague in the city of Oran, and presents a sensitive and humanized narrative of the lives of its inhabitants immersed in a period of horror and suffering, marked by tragedy and the pain of family losses, exile and confinement at the borders of a space that is invaded by the disease, which persists over several months, and victimizes a large part of its population.

Keywords: french literature, Albert Camus, plague, death.

Introdução

As doenças ou surtos epidêmicos têm sido registrados há milênios e os mais letais foram ocasionados por pestes bubônicas ou pneumônicas como a Peste de Atenas, a Peste de Siracusa, a Peste Antonina, a Peste do século III, a Peste Justiniana e a Peste Negra do século XIV. Além destas, vale ressaltar as oito grandes pandemias de Cólera, nos séculos XIX e XX, a grave Gripe Espanhola de 1918, a febre tifoide ou tifo, cujas epidemias mortíferas iniciaram-se no século V a.C. e chegaram até a Segunda Guerra Mundial, a Aids nos anos 1980, as variedades da Influenza A – H5N1 (gripe aviária) e H1N1 (gripe suína) na primeira década dos anos 2000, o surto do Zika vírus em 2016, a epidemia nigeriana da febre de Lassa no início de 2018 (Markendorf & Felippe, 2018) e, recentemente, a pandemia do coronavírus.

A literatura, recorrentemente, tem se valido dessa temática e há uma grande variedade de obras canônicas que abordaram esse assunto. Nesse sentido, o objetivo deste artigo é reunir, panoramicamente, um breve inventário de narrativas que representaram as doenças, os horrores advindos da possibilidade de contágio e o número elevado de óbitos em suas páginas e se elege o romance ‘A peste’, de Albert Camus, como corpus de análise, evidenciando aspectos relacionados ao surto de peste bubônica que irrompe no relato e transtorna o cotidiano de uma cidade do litoral da Argélia.

Conforme foi apontado, as epidemias fornecem um farto material para a literatura. Face à constatação de que elas pertencem a experiências universais e imemoriais, também “[...] ocupam [...] um lugar significativo nos textos literários [...]” (Marx, 2020, p. 1)[1], problematizando o homem e a sociedade nesses espaços atingidos por pestes, que dizimam as populações, abalam as relações entre os indivíduos e alteram significativamente a maneira de agir em tais situações.

Dessa maneira, peste, cólera, lepra, sífilis, tuberculose, gripe e Aids caracterizam-se como enfermidades tão diversas em seu modo de contaminação, sintomas, desenvolvimento e letalidade que acabam se constituindo em experiências individuais e sociais radicalmente distintas (Marx, 2020), sendo representadas pela literatura de maneira também bastante diversa.

De acordo com William Marx (2020, p. 2) em seu artigo “Ce que la littérature nous apprend de l’épidémie [...]”[2], há quatro modos possíveis de se representar os surtos epidêmicos no âmbito da ficção. O primeiro deles diz respeito àqueles textos que consideram a epidemia como um elemento documental, objeto de curiosidade humana, histórica e intelectual, que deve ser descrito com a maior precisão possível, como é observado nas seguintes obras: ‘A história da Guerra do Peloponeso’, de Tucídides, ‘Decamerão’, de Boccaccio, ‘Um diário do ano da peste’, de Daniel Defoe.

Uma segunda categoria circunscreve-se a textos que fazem da epidemia o sinal ou o sintoma de uma desordem cósmica, religiosa ou social. Em princípio, bastaria restaurar a ordem inicial para se deter a praga, conforme se pode observar na ‘Ilíada’, quando Apolo pune os gregos por terem se apossado da filha de seu sacerdote; em ‘Édipo rei’, de Sófocles, obra na qual a peste que assola Tebas mantém estreitos laços com o incesto e o parricídio cometido pelo soberano; e em muitos textos bíblicos, nos quais Deus dizima os rebanhos, envia pragas e doenças para castigar o povo que pecou.

A terceira vertente proposta por Marx (2020, p. 2) refere-se àqueles textos que insistem no caráter inevitável da epidemia, decorrente de uma ordem natural do mundo contra a qual seria inútil se rebelar, conforme se vê no conto ‘A máscara da morte rubra’, de Edgar Allan Poe, ou em ficções distópicas como ‘A praga escarlate’, de Jack London, ‘Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela’, de Ignácio de Loyola Brandão.

Por fim, um último conjunto de textos abarcaria as epidemias com o objetivo de desnudar questões morais e simbólicas da humanidade, revelando os vícios e virtudes dos indivíduos, os defeitos e as forças da sociedade, com seus heróis e seus covardes. Exemplificam essa modalidade discursiva obras como ‘A peste’, de Albert Camus, uma alegoria de qualquer grande crise humana e social e ainda da ocupação da França pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, e também ‘O hussardo no telhado’, de Jean Giono, ‘A quarentena’, de JMG Le Clézio e ‘Nemesis’, de Philip Roth. Assim, os quatro modos de representação de discursos ficcionais sobre epidemias seriam o documental, o semiológico, o escatológico e o moral.

Da ‘Ilíada’ ao romance ‘A peste’, de Camus, os percursos das epidemias na literatura

Na literatura ocidental, há uma série de obras que tomaram a epidemia como tema de seus enredos. Às vezes, tratada superficialmente, outras como o centro da narrativa, a verdade é que a “[...] doença e a epidemia estão, de fato, no cerne da literatura [...]”[3], sendo “[...] associadas à ira divina no passado [...]” e, no presente, a uma indagação sobre o medo e o sofrimento, o sacrifício e o heroísmo (Phélip, 2020, s.p.). Como exemplo, podem-se citar textos tão díspares como a ‘Ilíada’, de Homero (século VIII a. C.), ‘Édipo rei’, de Sófocles (século V a. C.), ‘Decamerão’, de Giovanni Boccaccio (1353), ‘Contos da Cantuária’, de Geoffrey Chaucer (1387), ‘Um diário do ano da peste’, de Daniel Defoe (1722), ‘Os noivos’, de Alessandro Manzoni (1827), ‘A máscara da morte rubra’, de Edgar Allan Poe (1842), ‘A praga escarlate’, de Jack London (1912), ‘A montanha mágica’, de Thomas Mann (1923), ‘A peste’, de Albert Camus (1947), ‘O hussardo no telhado’, de Jean Giono (1951), ‘Chão de ferro’, de Pedro Nava (1976), ‘A dança da morte’, de Stephen King (1978), ‘O amor nos tempos do cólera’, de Gabriel García Márquez (1985), ‘Ensaio sobre a cegueira’, de José Saramago (1995), ‘A quarentena’, de Jean-Marie Gustave Le Clézio (1997), ‘Nemesis’, de Philip Roth (2011), ‘A pandemia’, de Franck Thilliez (2015), ‘Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela’, de Ignácio de Loyola Brandão (2018).

A ‘Ilíada’ começa com uma briga entre Agamêmnon, líder das tropas que estão guerreando em Troia, e Aquiles, o melhor dentre todos os seus guerreiros, e é logo no Canto I do poema homérico que se menciona a peste que devastou o exército grego:

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o [filho de Peleu]

(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus

e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,

ficando seus corpos como presa para cães e aves

de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),

desde o momento em que primeiro se desentenderam

o Atrida, soberano dos homens e o divino Aquiles.

Entre eles qual dos deuses provocou o conflito?

Apolo, filho de Leto e de Zeus. Enfurecera-se o deus

Contra o rei e por isso espalhara entre o exército

uma doença terrível de que morriam as hostes,

porque o Atrida desconsiderara Crises, seu sacerdote

(Homero, 2013, p. 109).

As interferências do plano divino no terreno são constantes e denunciam a debilidade dos humanos em face do poder ilimitado dos deuses, que inclusive usavam a doença para punir os que se opunham às suas vontades, ignoravam-nos ou os desafiavam. Essa postura atribuída aos deuses repete-se em ‘Édipo rei’, quando Édipo indaga ao sacerdote o motivo de tantas calamidades estarem assolando o reino de Tebas e a sua resposta é desoladora:

O SACERDOTE

Édipo, tu que reinas em minha pátria, bem vês esta multidão prosternada diante dos altares de teu palácio; aqui há gente de toda a condição: crianças que mal podem caminhar, jovens na força da vida, e velhos curvados pela idade, como eu, sacerdote de Júpiter. E todo o restante do povo, conduzindo ramos de oliveira, se espalha pelas praças públicas, diante dos templos de Minerva, em torno das cinzas proféticas de Apolo Ismênio! Tu bem vês que Tebas se debate numa crise de calamidades, e que nem sequer pode erguer a cabeça do abismo de sangue em que se submergiu; ela perece nos gérmens fecundos da terra, nos rebanhos que definham nos pastos, nos insucessos das mulheres cujos filhos não sobrevivem ao parto. Brandindo seu archote, o deus maléfico da peste devasta a cidade e dizima a raça de Cadmo; e o sombrio Hades se enche com os nossos gemidos e gritos de dor. Certamente, nós não te igualamos aos deuses imortais; mas, todos nós, eu e estes jovens, que nos acercamos de teu lar, vemos em ti o primeiro dos homens, quando a desgraça nos abala a vida, ou quando se faz preciso obter o apoio da divindade (Sófocles, 2005, p. 6-7).

As catástrofes (entre as quais está a peste) vivenciadas em Tebas são produto do castigo dos deuses, que amaldiçoaram a casa de Laio, pai de Édipo. Assim, “[...] a adversidade coletiva tinha sua origem em uma falta privada, transgressão que os deuses exigem reparação [...]” (Markendorf & Felippe, 2018, p. 315) e que ocasiona a morte de incontáveis tebanos.

Na obra ‘Decamerão’, de Giovanni Boccaccio, sete moças e três rapazes fogem de uma epidemia de peste bubônica e se alojam no campo e cada um deles conta histórias para passar o tempo e esquecer o flagelo que está ceifando inúmeras vidas, perfazendo um total de cem ‘novelas’. A epidemia e as suas consequências desastrosas surgem na primeira jornada, intitulada ‘Pampinéia’:

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus, de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores, ou em razão de nossas iniqüidades, a peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. [...]

Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a reverenda autoridade das leis, quer divinas, quer humanas, desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto os outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares, e assim não podiam exercer nenhuma função. Em conseqüência [sic] de tal situação, permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.

[...]

Tão grande era o número de mortos que, escasseando os caixões, os cadáveres eram postos em cima de simples tábuas. Não foi um só o caixão a receber dois ou três mortos simultaneamente. [...]

Antes que sobreviesse este mortal evento, ninguém suporia existir tanta gente dentro da cidade. Quantos vastos palácios, quantas casas magníficas, quantas residências nobres, antes cheias de famílias, de senhores e de senhoras, ficaram vagos, perdendo até o derradeiro serviçal! Quantas linhagens memoráveis, quantas heranças importantes, quantas riquezas famosas foram despojadas de sucessor legítimo! Quantos valorosos homens, quantas mulheres belíssimas, quantos galantes moços [...] tomaram o seu almoço de manhã com os seus parentes, colegas, amigos, e, em seguida, na tarde desse mesmo dia, jantaram no outro mundo, em companhia de seus antepassados! (Boccaccio, 1994, p. 11, 13, 14, 17).

A atribuição da peste à ira divina aparece em diversos relatos, desde os bíblicos até textos mais contemporâneos, conforme poderemos constatar mais adiante. Além das representações epidêmicas como vingança/punição de um Deus católico ou de deuses mitológicos, elas podem assumir aspectos simbólicos, transfigurar-se em mensageiros da morte, conforme se observa em ‘Contos da Cantuária’, de Geoffrey Chaucer, na narrativa cujo título é ‘Conto do vendedor de indulgências’:

Sobre três rufiões é minha história;

Um dia (nem soara a prima hora)

Estavam na taverna a beber vinho

Quando ouviram os dobres de um sininho

Soando no cortejo de um caixão.

‘Criado!’, grita logo um rufião

‘Vai rápido e descobre, sem tardar,

No cortejo que acaba de passar,

O nome de quem vai nesse caixão’.

Diz o rapaz: ‘Já tenho a solução.

Ouvi faz umas horas tal boato:

Um velho amigo seu foi trespassado

Essa noite, sentando sobre um banco,

Furtivo, apareceu certo ladrão;

Senhor Morte – este é o nome que lhe dão;

Com negra lança transpassou-lhe o peito

E foi-se embora em hórrido silêncio.

Dom Morte já matou, com pestilência,

Milhares de pessoas – e é demência

Desafiá-lo. Em toda a região

Circula sua mortal reputação.

Pois em qualquer lugar onde encontrá-lo

E a qualquer hora – então, tenha cuidado

Se pretende enfrentar esse inimigo.

Minha mãe me ensinou o que lhe digo’.

Logo em seguida disse o taverneiro:

‘O que o menino diz é verdadeiro!

Dom Morte cometeu grande matança

Em certa aldeia, nesta vizinhança;

Matou varão, matou bebê, donzela,

Os pajens e os plebeus, servos de gleba.

A vila virou terra desolada

Dom Morte, eu creio, lá tem sua morada.

E é preciso cuidado sobre humano:

Morte vence os rivais com mil enganos’.

‘Pelos braços de Deus!’, diz o rufião.

‘Será tão pavoroso esse ladrão?

Vou procurá-lo em todos os caminhos!

E faço um voto agora! Meus amigos,

Companheiros eternos, deem as mãos,

Juremos já ser três irmãos,

Unidos, partilhando a mesma sorte!

Vamos matar o traidor Dom Morte!

Quem fez toda essa gente perecer

Vai morrer hoje, até o anoitecer’

(Chaucer, 2013, p. 310-311).

O flagelo do relato de Chaucer, que assume uma aparência humana, guarda notáveis semelhanças com o personagem misterioso do conto ‘A máscara da morte rubra’, de Edgar Allan Poe. Um surto epidêmico atinge um país cujo nome não aparece no texto. Seu soberano, Próspero, vai, na companhia de amigos, para uma abadia no campo, onde acredita estar a salvo:

Por muito tempo a ‘Morte Rubra’ devastara o país. Jamais pestilência alguma fora tão mortífera ou tão terrível. O sangue era seu avatar e seu sinal – a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.

Mas o príncipe Próspero sabia-se feliz, intrépido e sagaz. Quando seus domínios começaram a despovoar-se, chamou à sua presença um milheiro de amigos sadios e frívolos, escolhidos entre os fidalgos e damas da corte, e com eles se encerrou numa de suas abadias fortificadas (Poe, 2013, p. 11).

Passado um período de quase seis meses, o príncipe resolve oferecer um baile de máscaras como forma de entretenimento para seus amigos, e é durante esse evento que um convidado extremamente indesejado surge e causa a morte de todos:

Só então se reconheceu a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E, um a um, caíram os foliões nos ensanguentados salões da orgia, e morreram, conservando a mesma desesperada postura da queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se simultaneamente com a do último dos foliões. E as chamas dos trípodes apagaram-se. E a Escuridão, a Ruína e Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo (Poe, 2013, p. 18).

Aqui, é possível notar o aspecto simbólico que a epidemia adquire, associando-se ao mal e aos elementos perniciosos que a doença assume e que não há nada que possa contê-la e nem mesmo nenhum tipo de cura é possível para os infectados, face à virulência e ao seu poder de aniquilamento.

Há narrativas que mesclam o histórico e o ficcional nas representações de surtos epidêmicos, como é o caso do livro ‘Chão de ferro’, de Pedro Nava, no contexto brasileiro. O narrador (médico/escritor), recordando um período da sua infância, faz menção à chegada da Gripe Espanhola no nosso país e suas terríveis consequências, durante o ano de 1918:

Nós tínhamos, fora do Brasil, dois grupos auxiliares dos Aliados: a Esquadra de Patrulha, comandada pelo Almirante Pedro Max de Frontin, e a Missão Médica, chefiada por Nabuco de Gouveia. Ambos foram atingidos pela pestilência que grassava na Europa, Ásia e África quando entraram em portos do primeiro e terceiro continentes. No princípio pouco se soube do que se passava nos nossos vasos de guerra, o segredo sendo guardado com mais cuidado que no ‘La Plata’, saído daqui a 18 de agosto, conduzindo nossos médicos e que deve ter se infectado a 29 do mesmo mês, quando tocou em Freetown, Serra Leoa, onde grassava a ‘moléstia reinante’. Mais um pouco e a viagem começou a ser o inferno [...]. A 9 de setembro os primeiros corpos são jogados ao mar. A 22 chegaram telegramas contando as desgraças da Missão Médica, [...]. Nesse dia o Nestico chegou em casa com um monte de boatos que pouco impressionaram. Entretanto o demônio já estava em nosso meio, [...]. A 3 de outubro, o Diretor de Saúde Pública alerta os portos e determina as medidas de ‘profilaxia indiscriminada’. Neste dia chega à Guanabara mais um barco eivado – o ‘Royal Transport’. Antes, a 14 de setembro, a ‘Demerara’ tinha entrado com doentes a bordo. Provavelmente outros tinham antecipado esses transportes, sem chamar a atenção, mas já contaminados e contaminando. A doença irrompeu aqui em setembro, pois em fins desse mês e princípios de outubro, as providências das autoridades abriram os olhos do povo e este se explicou certas anomalias que vinham sendo observadas na vida urbana; tráfego rareado, cidade vazia e meio morta, casas de diversão pouco cheias, conduções sempre fáceis, as regatas, as partidas de ‘water-polo’ e futebol quase sem assistentes, as corridas de Derby e do Jockey com os aficcionados reduzidos ao terço. É que no meio da população, como naquela festa do Príncipe Próspero, insinua-se – não a Morte Vermelha de Poe mas a Morte Cinzenta da pandemia que ia vexar a capital e soltar como cães a Fome e o Pânico que trabalhariam tão bem quanto a pestilência. ‘It is not deaths that make a plague, it is fear and hopelessness in people’ – diz Powell. E o que ia ser visto no Rio de Janeiro daria toda razão ao médico americano (Nava, 1976, p. 198).

Vale salientar, no excerto acima, a referência a uma passagem do conto ‘A máscara da morte rubra’, de Edgar Allan Poe, uma vez que ela reforça a hipótese principal deste artigo, de que inúmeras obras da literatura mundial já abordaram o tema de doenças e surtos epidêmicos implacáveis, ganhando novos contornos e promovendo diálogos entre a tradição e a contemporaneidade, num movimento incessante e perpétuo, que revitaliza a literatura de todas as épocas.

Na referida obra de Nava, constata-se que a escassez de alimentos, de remédios, o grande número de mortos e falta de caixões para sepultá-los transformam a cidade do Rio de Janeiro num verdadeiro caos:

Além da fome, da falta de remédio, de médicos, de tudo, as folhas noticiavam o número nunca visto dos doentes e cifras pavorosas do obituário. As funerárias não davam vazão – havia falta de caixões. Até de madeira para fabricá-los, ao ponto dum carpinteiro do subúrbio atender encomendas fazendo os ‘envelopes’ com tábuas do teto e do soalho de sua casa. Alças de corda. Ganhou fortuna. Quanto ataúde havia, não tinha quem os transportasse e eles iam para o cemitério a mão, de burro-sem-rabo, arrastados, ou atravessados nos táxis. No fim os corpos iam em caminhões, misturados uns aos outros, diziam que às vezes vivos, junto com os mortos. Havia troca de cadáveres podres por mais frescos, cada qual querendo se ver livre do ente querido que começava a inchar, a empestar. No agudo da epidemia, num dia em que não havia mais jeito de transportar tanto morto, o Chefe de Polícia já dava o desespero quando a solução veio do ‘Jamanta’, o célebre folião, figura de prol do Carnaval carioca. Já falei desse enteado de Artur Azevedo, chamado José Luís Cordeiro e que era funcionário exemplar da chefatura da Rua da Relação. Ele conhecia admiravelmente o seu Rio de Janeiro e por um desses caprichos de boêmio aprendera, em passeatas noturnas, a dirigir bondes. Pediu e obteve dos seus superiores um ‘bagageiro’ com dois ‘taiobas’ e vasculhou com eles a cidade de norte a sul – Fábrica de Chitas, Tijuca, Andaraí, Aldeia Campista, Vila Isabel, Méier, Engenho de Dentro, Piedade, Cascadura, Penha Circular, Benfica – apregoando que todos pusessem para fora seus mortos (Bring out your deads!). Bonde e reboques cheios de caixões empilhados e de amortalhados em lençóis, o motorneiro solitário batia para o Caju. Descarregava. O dia já ia alto, mas ele voltava a nove pontos, varejava Laranjeiras, Flamengo, Botafogo, Jardim Botânico, Ipanema, Copacabana – pegando mais defuntos. Lotava. Já noite, passava a sinistra composição como o Trem Fantasma ou o navio de Drácula – entupida de carga para o São João Batista. Fez isso uns dois ou três dias que marcaram para sempre sua lembrança (Nava, 1976, p. 201).

Ao amalgamar memória/eventos históricos e ficção, o narrador de Pedro Nava brinda o leitor com uma recriação da epidemia com um forte apelo realista, que impressiona e, ao mesmo tempo, assinala a dificuldade de se tomar medidas para conter a doença.

O livro ‘Nemesis’, de Philip Roth (2011), tem como protagonista Bucky Cantor, professor de educação física e inspetor de uma escola judaica de Newark, que leva uma vida pacata, mas vive um conflito pessoal por não poder lutar na Segunda Guerra contra os alemães, porque é portador de um alto grau de miopia. Durante um verão de 1944, um grupo de adolescentes de origem italiana entra no colégio e um deles cospe no chão, ameaçando a todos com uma doença terrível. Depois disso, vários alunos contraem poliomielite, para desespero do professor. Conforme a enfermidade se espalha, Bucky Cantor começa a crer que tenha alguma culpa no contágio das crianças. Sofre também com o medo de que ele próprio possa contrair a doença e que ela comprometa a sua vida atlética tão promissora. Além disso, passa bastante tempo se indagando por que Deus permitiu que a poliomielite existisse, sem encontrar respostas que o satisfaçam. Invadido pelo sentimento de culpa, abandona Newark e vai atrás da namorada em uma colônia de férias nas montanhas Pocono, para tentar escapar da pólio.

Com a doença, vem também o medo e a procura por um bode expiatório, imputado aos estrangeiros:

Quando surgem os primeiros casos de pólio entre seus alunos, e outros mais no resto da cidade, o pânico não demora a se instalar, e com ele o preconceito. Não se sabia como a pólio era transmitida. Assim, judeus e italianos são alternadamente acusados de propagarem a doença; um pobre débil mental é hostilizado, como se ele fosse a fonte da desgraça [...] Bucky resiste à injusta ignorância o quanto pode, até deixar-se seduzir por um convite para trabalhar num campo de férias, lugar considerado imune à epidemia, onde encontra sua bela noiva. Porém, passa a sentir a culpa de viver entre prazeres, quando há tanto sofrimento (Benevides, 2011, s.p.).

O personagem vive o dilema de fugir para evitar o contágio da pólio e, ao mesmo tempo, sente culpa por essa escolha, evidenciando um drama humano recorrente durante situações de surtos epidêmicos. Ressalta-se que o fato de se considerar em os estrangeiros como responsáveis pela transmissão da peste é um aspecto que dialoga com o imaginário epidêmico, já que remete ao mundo em trânsito, à fluidez das fronteiras e, na atualidade, aos vírus oriundo, segundo se acredita, da China. Em suma, as epidemias provocam a “[...] libertação da crueldade humana sobre sujeitos de alteridade, frequentemente percebidos como dotados de culpa – ao modo de bodes expiatórios – pela mazela social [...]” (Markendorf & Felippe, 2018, p. 328), como se nota no romance de Roth, quando os estrangeiros (italianos e judeus) e o ‘estranho’ (o débil mental) são acusados de propagar a enfermidade.

Em ‘Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela’, o mais recente romance de Ignácio de Loyola Brandão (2018), o autor eleva ao máximo a distopia presente em dois livros anteriores, ‘Zero’ (1975) e ‘Não verás país nenhum’ (1981). A narrativa transcorre num futuro indeterminado, no qual, ao nascer, todos recebem tornozeleiras eletrônicas, são seguidos, vigiados, fiscalizados por câmeras instaladas nas casas, ruas e banheiros. Nessa terra estranha e futurista, a peste se tornou uma epidemia, que dissolve os corpos. Trens circulam carregados de mortos, os ministérios foram extintos, escolas abolidas e há um desgoverno e um caos instaurados. Em meio a essas turbulências, o leitor entra em contato com a história de amor entre a designer Clara e o publicitário Felipe, conturbada como o mundo em que vivem.

A situação caótica apresentada no livro de Loyola Brandão pode ser sintetizada nos seguintes termos:

O Brasil de agora é o start para o Brasil apocalíptico apresentado pelo autor paulista, [...]. Os protagonistas são um casal de namorados em processo de separação. [...] [Sua] love story [...] é quase um pretexto para mostrar um país destroçado, sem garantias individuais, com alta taxa de mortalidade por doenças que já haviam sido controladas e outras novas, como a Corruptela Pestífera, que ataca corruptos, fatalmente.

[...]

Nesta nova distopia, os políticos são chamados de Astutos, já que a denominação original se tornou pejorativa, andam disfarçados ou têm sósias para fugir da população. Os impeachments são recorrentes e ninguém senta na cadeira de presidente por muitos meses. O dinheiro é medido por malas porque a corrupção e o enriquecimento ilícito foram institucionalizados. Não há vice-presidentes, [...]. As minorias são excluídas e exércitos de defensores da família percorrem as cidades para destruir obras de arte que consideram imorais (Fritsch, 2018, p. 105-106,).

Ao surto epidêmico, soma-se uma série de eventos que configuram um espaço em desagregação, no qual a ineficiência da esfera política, as doenças, as medidas repressoras e a corrupção predominam e apontam para um mundo sem esperanças e sem possibilidades de regeneração.

Nas demais obras assinaladas a título de ilustração, constata-se que a peste bubônica aparece em ‘Um diário do ano da peste’, de Daniel Defoe, ‘A peste’, de Albert Camus, ‘Os noivos’, de Alessandro Manzoni; a tuberculose em ‘A montanha mágica’, de Thomas Mann; a cólera em ‘O hussardo no telhado’, de Jean Giono; e ‘O amor nos tempos do cólera’, de Gabriel García Márquez; a varíola em ‘A quarentena’, de Jean-Marie Gustave Le Clézio; a peste fulminante em ‘A praga escarlate’, de Jack London; a cegueira branca em ‘Ensaio sobre a cegueira’, de José Saramago; um surto epidêmico de gripe em ‘Pandemia’, de Franck Thilliez; um vírus mortal produzido em laboratório, em ‘A dança da morte’, de Stephen King.

Um dos poucos textos que estudam a construção de narrativas sobre uma epidemia (real ou imaginária) na literatura ocidental é ‘Peste e literatura: a construção narrativa de uma catástrofe’, de Carlos Manuel Martins (2011). Trata-se de uma dissertação que se ocupa da análise de três obras: ‘A história da guerra do Peloponeso’, de Tucídides (460-400 a. C.), ‘Decamerão’, de Boccaccio e ‘Diário do ano da peste’, de Daniel Defoe.

Em relação ao assunto privilegiado em seu trabalho acadêmico, o estudioso pondera que foi necessário levar em conta

[...] a desorganização social, o fim da ordem estabelecida, que uma grande epidemia traz consigo. Esta ruptura do funcionamento de uma civilização vai revelar-se uma constante ao longo dos diferentes textos estudados: a peste traz o medo da morte, as instituições sociais deixam de funcionar, toda uma comunidade se arrisca a ver interrompida uma vida de hábitos e costumes institucionalizados quando a morte espreita a um canto e o contacto [sic] com um ser humano pode trazer o contágio de uma epidemia terrível. O que dantes era errado, pode agora ser visto como certo, desde que permita salvar a própria vida. É o caos, uma das principais razões por que uma epidemia é temida: é o fim das regras estabelecidas (Martins, 2011, p. 10).

A desestruturação, a anarquia, o medo do contágio, as atitudes desesperadas, assim como ocorre na realidade de locais atingidos por surtos epidêmicos, são os elementos de que se valem os ficcionistas para criar enredos que tratem dessa temática. Portanto, uma das marcas desse tipo de ficção liga-se ao conceito grego de Pathos, que se manifesta por meio de elementos que pretendem mostrar o sofrimento de forma a comover o leitor ou despertar a sua compaixão. Dessa forma,

Numa narrativa onde o enumerar de desgraças contínuas é comum não é de espantar que este Pathos exista, sobretudo em referências à dor física, à corrupção dos corpos. Também se verifica um Pathos social na descrição da desordem civilizacional [...]. Apelidarei esta desordem de vitória do Mythos (o irracional) sobre o Logos (a razão) (Martins, 2011, p. 12).

O estudioso português sintetiza as possibilidades do emprego das epidemias no campo literário afirmando que

[...] em muitos textos a peste é pretexto para uma lição de moral: ora para mostrar a urgência de viver o prazer num mundo em que tudo é incerto, ora para condenar esse mesmo prazer como um pecado por si só responsável pela peste. Ver-se-á a peste ser tratada como uma metáfora da condição humana, ou simplesmente como algo que é preciso eliminar. A peste pode levar à solidão, à vida na ausência de seres humanos, ou pode ser o ponto de partida para um reencontro. A peste pode servir para assustar, para, como fez Poe, associar as suas forças às de um espírito maléfico, típico dos contos de terror. [...] pode ainda ser [empregada] para criar um terror um pouco menos irreal [...]. A peste pode ser, no fundo, usada com objectivos [sic] contraditórios, e a sorte das personagens de um romance pode ser diferentemente influenciada por ela; a peste pode ser usada com diferentes ideais estéticos ou éticos (Martins, 2011, p. 13).

Tendo em vista as possibilidades de representação de uma praga apontadas por Carlos Manuel Martins (2011) e William Marx (2020), na sequência, segue-se a análise de ‘A peste’, de Albert Camus, evidenciando-se como se dá a representação de uma epidemia em sua fábula.

Na década de 1940, em Oran, cidade da Argélia, os habitantes são surpreendidos por um surto de peste bubônica. A cidade é colocada em quarentena. Essa é a linha vertebral do enredo, que se desenrola a partir das histórias pessoais de seis personagens: o médico, Dr. Bernard Rieux, cuja esposa parte para as montanhas para fazer um tratamento de saúde, enquanto ele luta para salvar a vida dos cidadãos infectados; ao seu lado está o amigo fiel e incansável, Jean Tarrou, que escreve um diário sobre a epidemia; o jornalista Raymond Rambert está de passagem por Oran e, devido à quarentena, não pode deixar o local, mas deseja reencontrar a namorada, que está em Paris. Outro personagem marcante é o contrabandista Cottard, que, depois de uma tentativa fracassada de suicídio, começa a ganhar dinheiro com a venda de mercadorias para os moradores da cidade. Joseph Grand é o funcionário burocrata da prefeitura, que lida com estatísticas e, assim como Tarrou, participará como voluntário das equipes sanitárias, que buscam informar e conter o avanço do contágio. No hotel onde se hospedam Tarrou e Rambert, também, se encontra a família do Sr. Othon, juiz da cidade. Os destinos de todos se entrecruzam numa prisão na qual o medo e a morte espreitam e se prolongam por vários meses.

O egoísmo e a compulsão com o próprio bem-estar são a preocupação dos habitantes de Oran, antes da pestilência:

[...] Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam de mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro (Camus, 1988, p. 7).

Esse cenário repetitivo e monótono altera-se radicalmente, quando ocorre a primeira morte, a de Michel, porteiro de hotel, em decorrência da contaminação provocada pelos ratos:

A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Nossos concidadãos – a partir de agora eles se davam conta disso – nunca tinham pensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenças estranhas. [...] Mas outros concidadãos nossos, que nem sempre eram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora o primeiro a tomar. Foi a partir desse momento que começou o medo e com ele a reflexão (Camus, 1988, p. 20-21).

A população demora a se inteirar da tragédia que paulatinamente vai tomando conta da cidade, invadindo os bairros, as casas e vitimando seus moradores, pois, conforme salienta o narrador, “[...] as pestes, como as guerras, encontram as pessoas igualmente desprevenidas” (Camus, 1988, p. 30).

O narrador faz menção a várias cidades e aos seus surtos epidêmicos, um cenário aterrador que contrasta com a aparente tranquilidade daqueles que vivem em Oran, na qual somente o médico Rieux percebe as consequências funestas da enfermidade que se avizinha cada vez mais:

[...] E uma tranqüilidade [sic] tão pacífica e tão indiferente negava quase sem esforço as velhas imagens do flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liqüefaziam [sic], a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval de médicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda parte e sempre cheios de gritos intermináveis dos homens (Camus, 1988, p. 32).

Aqui, o discurso historiográfico entrelaça-se com o ficcional, como é bastante comum em narrativas sobre epidemias. Cidades como Atenas, Marselha, Provença, Milão, Londres foram tomadas por surtos epidêmicos e tiveram grande parte de suas populações dizimadas.

Ao se constatar a infestação da doença, uma das primeiras medidas foi o fechamento da cidade e a proibição de entrada e saída de seus habitantes:

Na verdade, uma das conseqüências [sic] mais importantes do fechamento das portas foi a súbita separação em que foram colocados seres que para isso não estavam preparados. Mães e filhos, esposos, amantes que tinham julgado proceder, alguns dias antes, a uma separação temporária, que se tinham beijado na plataforma de nossa estação, com duas ou três recomendações, certos de se reverem dentro de alguns dias ou algumas semanas, mergulhados na estúpida confiança humana, momentaneamente distraídos de suas ocupações habituais por essa partida, viram-se de repente, irremediavelmente afastados, impedidos de se encontrarem ou de se comunicarem (Camus, 1988, p. 49).

Essa é precisamente a situação do Dr. Rieux, cuja esposa saiu da cidade para realizar um tratamento de saúde, e do jornalista Rambert, que deixou a namorada em Paris e tenta desesperadamente furar o bloqueio imposto pelas autoridades, para reencontrá-la.

A morte de tantos indivíduos é outro problema para se conter o avanço da epidemia: os corpos são inicialmente sepultados, depois, cremados:

[...] Num extremo do cemitério, num local coberto de lentisco, tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. Sob esse aspecto, as autoridades respeitaram as conveniências, e foi só muito mais tarde que, pela força das circunstâncias, este último pudor desapareceu e se enterraram de qualquer maneira, uns sobre os outros, sem preocupações de decência, os homens e as mulheres. [...]

[...] Apressadamente, os corpos eram lançados nas fossas. Mal tinham acabado de cair e já as pás de cal se abatiam sobre os rostos, e a terra os cobria de modo anônimo, nas covas que se abriam cada vez mais profundas.

Um pouco depois, contudo, foi preciso procurar outro lugar, tomar outras medidas. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perpétuos e todos os restos exumados foram encaminhados ao forno crematório. Em breve, tornou-se necessário conduzir os próprios mortos da peste para a cremação (Camus, 1988, p. 123-124).

Com o avanço da epidemia, delineia-se o heroísmo de algumas personagens: Dr. Rieux, Tarrou e mesmo o jornalista Rambert, que havia empreendido todos os esforços para sair da cidade, desiste de seu propósito, para engrossar as fileiras dos voluntários arrebanhados pelo médico para combater a praga que se alastra em proporções monumentais, conforme se constata pelas medidas tomadas em relação aos sepultamentos: primeiro, as vítimas eram enterradas individualmente, depois em valas separadas para homens e mulheres, em seguida, sem separação alguma, até atingir o ápice, restando como única solução a cremação dos corpos. Nesse cenário apocalíptico, “[...] as personagens do livro descobrem a fraternidade e um senso de solidariedade humana que ultrapassam os limites do bem estar individual” (Pereira, 1996, p. 179).

A atribuição da culpa aos pecadores também se manifesta no romance de Camus, por intermédio do sermão do padre Paneloux:

[...] subiu ao púlpito. [...] Tinha uma voz forte, apaixonada, que alcançava longe, e quando atacou a assistência com uma única frase veemente e martelava: ‘Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes’, a assistência se tumultuou.

[...] Logo depois dessa frase, Paneloux citou o texto do êxodo relativo à peste do Egito e disse: ‘A primeira vez em que esse flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos, e a peste o faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditai sobre isso e caí de joelhos’.

[...] o padre retomou a palavra e disse que, depois de ter mostrado a origem divina da peste e o caráter punitivo desse flagelo, [...]. Ele esperava, contra toda a esperança, que, a despeito do horror desses dias e dos gritos dos agonizantes, nossos concidadãos dirigissem ao céu a única palavra que era cristã e que era de amor. Deus faria o resto (Camus, 1988, p. 68, 71).

O castigo divino (tanto do Deus cristão quanto dos deuses mitológicos) perpassa a literatura ocidental, como foi assinalado nas ponderações iniciais deste artigo. O que chama a atenção no romance de Camus é a imparcialidade do narrador, que busca apresentar os distintos discursos e as diferentes possibilidades de se encarar a epidemia, ora atrelada ao pensamento católico, ora voltada para o discurso científico, excluindo a passionalidade e o apelo que Paneloux insiste em infundir em sua pregação.

Antagonistas quanto ao que sustentam – Paneloux defende a religião católica, Dr. Rieux é ateu –, ambos empregam todos os seus esforços para ajudar a população nos momentos mais recrudescentes da peste, e vão se encontrar num mesmo local, numa antiga sala de aula utilizada para atender os doentes, onde agoniza o filho do Sr. Othon, Phelippe:

[...] Rieux mostrou-lhe [a Joseph Grand] a criança, que, com os olhos fechados e o rosto transtornado, os dentes cerrados até o limite de forças, o corpo imóvel, virava e revirava a cabeça da direita para a esquerda no travesseiro sem fronha. [...]

O médico apertava com força a barra do leito onde a criança gemia. Não tirava os olhos do pequeno doente, que se enrijeceu bruscamente e, com os dentes de novo cerrados, se encolheu um pouco ao nível da cintura, afastando lentamente os braços e as pernas. Do pequenino corpo, nu sob o cobertor militar, veio um cheiro de lã e de suor acre. A criança descontraiu-se pouco a pouco, levou os braços e as pernas para o centro da cama e, ainda cega e muda, pareceu respirar mais depressa. Rieux encontrou o olhar de Tarrou, que desviou os olhos.

Tinham visto morrer crianças, já que o terror, há meses, não escolhia, mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziam desde esta manhã. [...]

[...] Paneloux olhou para a boca infantil, conspurcada pela doença, cheia desse grito de todas as idades. E deixou-se cair de joelhos, e todos acharam natural ouvi-lo dizer, com uma voz um pouco abafada, mas nítida, por detrás do lamento anônimo que não cessava: ‘Meu Deus, salvai esta criança’ (Camus, 1988, p. 148).

O Pathos ao qual se refere o estudioso Carlos Manuel Martins (2011) perpassa todo o fragmento transcrito, no qual a criança esboça reações de dor e sofrimento ocasionados pelo contágio e o agravamento da sua situação, consequentemente, com o óbito do pequeno Phelippe:

[...] Trata-se de uma cena particularmente difícil, carregada de um Pathos mais forte [...], uma vez que o sofrimento é colocado numa criatura tão inocente como uma criança [...]. Para o médico, qualquer possibilidade de crença num criador bondoso e protector [sic] cai definitivamente por terra depois de ter assistido à cena tão horripilante. Vemos como a epidemia pode levar a conclusões éticas e religiosas tão diferentes como o ateísmo de um homem de ciência e a crença de um homem de fé (Martins, 2011, p. 87).

De um lado, a morte da criança, na concepção de Paneloux, seria um castigo pelos pecados cometidos pela comunidade, o inocente pagando pelo pecador, por outro, na visão de Rieux, configuraria a inutilidade de se acreditar numa força superior, que não impediu a chegada da epidemia e nem foi capaz de salvar alguém sem culpas ou pecados, como é o caso do filho do juiz. Entre o ateu e o religioso instaura-se a impotência, pois nada consegue salvar o menino. Irmana-os o propósito de fazer algo pelo próximo, mesmo que isso signifique colocar-se na iminência de engrossar as estatísticas do número de mortos.

Não só na passagem acima, mas em outros momentos da narrativa, é possível observar que ‘A peste’ contém reflexões recorrentes nos demais escritos de Camus, tais como o absurdo da existência, o exílio, o amor e a solidariedade humana. Dessa maneira, abrem-se possibilidades para se transformar o modo de se ver o cotidiano ao redor, “[...] além de retraçar a história de um destino coletivo, em que o elo entre as pessoas de condições semelhantes prevalece sobre o individualismo heroico” (Araújo, 2020, n.p.).

O enredo desenrola-se a partir de dois níveis: 1. o desenvolvimento da epidemia numa cidade contemporânea comum; 2. a identificação dessa epidemia com o fascismo e a guerra (Voisine-Jechova, 2001). Esse segundo nível é aquele que se denomina como alegórico, simbólico:

Etimologicamente, alegoria designa ‘outra forma de dizer’ que consiste em expressar uma ideia por meio de uma história ou de uma representação. O texto alegórico cria, portanto, uma equivalência entre dois níveis de realidade, passando de um para o outro numa dupla leitura simultânea que possibilita sua permeabilidade analógica. O leitor deve então compreender o significado pretendido pelo autor, um significado unívoco que muitas vezes confere uma função moral à obra (Palud, 2008, p. 2)[4].

O próprio Camus corrobora a possibilidade de se interpretar seu romance como uma alegoria da invasão e dominação alemã sobre a França, durante a Segunda Guerra Mundial, quando escreve a Roland Barthes, no ano de 1955, e declara:

A Peste [...] tem, no entanto, como conteúdo óbvio a luta da resistência europeia contra o nazismo. A prova é que este inimigo que não tem nome, todos o reconhecem, e em todos os países da Europa. [...] A peste, em certo sentido, é mais do que uma crônica de resistência. Mas, com certeza, não é menos (Camus apud Develey, 2020, s.p.)[5].

Há passagens no romance que se assemelham às descrições dos campos de concentração aos quais os judeus foram confinados[6], como se pode depreender do trecho em que o narrador se refere ao isolamento do juiz, Sr. Othon, depois que o filho adoece e ele é obrigado a permanecer em quarentena para evitar a possibilidade de transmitir a doença, caso estivesse infectado também:

Finalmente, entraram no estádio. As tribunas estavam cheias de gente. Mas o terreno estava coberto de várias centenas de barracas vermelhas, no interior das quais se avistavam, de longe, camas e embrulhos. As tribunas haviam sido conservadas, para que os internados pudessem abrigar-se do calor e da chuva. Ao anoitecer, deviam simplesmente retornar às barracas. Debaixo das tribunas, encontravam-se os chuveiros, que tinham sido arranjados, e os antigos vestiários dos jogadores, que tinham sido transformados em gabinetes e enfermarias. A maior parte dos internados encontrava-se nas tribunas. Outros ainda estavam agachados à entrada de sua barraca e passeavam sobre todas as coisas um olhar vago. Nas tribunas, muitos estavam deitados e pareciam esperar.

[...] todos tinham um ar de desconfiança. Já que os tinham separado dos outros, devia haver alguma razão, e apresentavam o rosto dos que procuram suas razões e as temem. Cada um daqueles [...] tinha os olhos desocupados, e todos pareciam sofrer de uma separação genérica daquilo que constituía a sua vida. E, como não podiam pensar sempre na morte, não pensavam em nada. Estavam de férias (Camus, 1988, p. 166-167).

O aprisionamento em locais afastados, a cidade sitiada e com as portas fechadas, impedindo a entrada e saída de seus habitantes, conformam elementos de opressão que, em última instância, apontam para a dominação e o poder ilimitado de uma nação sobre outra. “Aproxima-se, assim, a experiência trágica dos cidadãos sob a epidemia ao que é vivido por pessoas que tiveram os direitos e a vida suprimidos pela guerra e consequente ocupação alemã” (Araújo, 2020, s.p.). As analogias apontadas permitem vislumbrar o horror da epidemia e a barbárie humana e são um convite para que o leitor reflita sobre as suas relações com o passado, com o presente e com a possibilidade de se estabelecerem laços de comunhão e solidariedade dentro de uma comunidade.

O final da narrativa é paradoxal, porque, ao mesmo tempo em que se instaura o fim da epidemia e a felicidade de se estar vivo e poder voltar à normalidade, o narrador ressalta que o perigo nunca deixará de existir e a possibilidade de novas pragas e doenças irá pairar sobre a humanidade eternamente:

Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz (Camus, 1988, p. 213).

Assim, a erradicação do mal nunca é definitiva e os seres humanos estarão sempre à mercê de novos surtos epidêmicos, novas guerras, enfim, sujeitos ao caos e ao desastre, seja ele um fenômeno da natureza ou uma praga que poderá se instalar e permanecer por longos e intermináveis períodos, como este que se atravessa atualmente.

Ao se buscar informações sobre literatura e epidemia, ‘A peste’ é uma narrativa cuja presença é unânime em todos os artigos e trabalhos acadêmicos. Talvez esse romance seja o melhor representante do que se poderia chamar de ficção epidêmica, pois não só mostra o peso de uma praga sobre os indivíduos de uma comunidade, mas também sugere a submissão de uma nação à outra, a opressão do mais forte sobre o mais fraco.

A representação da epidemia, nesse romance, vale-se do entrelaçamento das histórias de várias personagens, centralizando-se na figura do médico, Dr. Rieux, que une os diferentes núcleos narrativos, uma vez que, devido a sua profissão, precisa visitar e cuidar dos doentes, estabelece laços de amizade com moradores locais, Tarrou, Rampart, Cottard, Joseph Grand, o padre Paneloux, e os congrega a participar das brigadas sanitárias. Desse modo, seja pelas ações solidárias, seja pela exploração daqueles que se sentem acossados pela enfermidade e pelo exílio forçado, a narrativa desvela o melhor e o pior das personagens, fornecendo uma imagem sólida e verossímil de uma cidade tomada de assalto pelo surto da peste bubônica.

Luiz Ruffato (2020, n.p.), no artigo ‘Literatura em tempos de pandemia’, afirma que a literatura não tem pretensão de curar as dores do mundo; mas certamente ilumina caminhos. Ainda em conformidade com as suas ponderações, ela “[... n]ão nos consola nem serve de lição para nada; porém, por meio das histórias, nos deparamos com dramas e tragédias que também são os nossos e, assim, nesse exercício de empatia, nos tornamos mais humanos”.

O texto literário, conforme já postulava Antonio Candido (2011), humaniza e faz refletir sobre o passado e o presente, possibilita enxergar as prisões e as mesquinharias cotidianas, a pequenez e a grandiosidade de cada ser humano e pode proporcionar elementos para alterar ou modificar muitas das mazelas que afetam a humanidade e ainda poderão afetar no futuro, conforme se pode comprovar por meio da leitura de ‘A peste’, obra na qual se entrelaçam o fictício e o real na representação de uma epidemia de peste bubônica, que se aproxima em demasia do período atual, quando todos se transformam em vítimas impotentes de uma pandemia, que não se sabe quando ou se irá terminar algum dia.

Considerações finais

As narrativas ficcionais a respeito de doenças e surtos epidêmicos perpassam a literatura produzida no Ocidente e abrangem obras que vão desde a ‘Ilíada’, de Homero, até textos mais recentes como ‘Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela’, de Ignácio de Loyola Brandão, ou ainda, ‘A pandemia’, de Franck Thilliez.

Tais relatos buscam representar epidemias e os seus impactos sobre a vida das personagens, que se veem afetadas pelo seu poder avassalador, pela impotência e, invariavelmente, pela grande mortandade que provocam. Nesse sentido, o romance ‘A peste’, de Camus, é exemplar. Nele, há a figura central de um médico, Dr. Bernard Rieux, que une os diferentes núcleos narrativos, por meio do trânsito pela cidade de Oran, tomada por um surto de peste bubônica.

Ancorada em uma representação realista do surto epidêmico, ‘A peste’ volta-se também para aspectos alegóricos, uma vez que esse livro pode ser visto como uma alegoria da invasão da França pela Alemanha, durante a Segunda Guerra mundial. Além disso, são evidenciadas as relações humanas, por um lado, desvelando atitudes altruístas, de união e solidariedade e, de outro, salientando o inverso, ou seja, o egoísmo, a mesquinharia, os interesses pessoais e particulares, que movem as personagens e as transformam em símbolos do humano e se conectam com a época atual, na qual se vive um período de pandemia.

A ficção epidêmica, portanto, problematiza a questão de enfermidades que desestabilizam e alteram as trajetórias das personagens e levam o leitor a refletir sobre a realidade e, em última instância, a respeito da morte e das ações humanas em períodos de surtos epidêmicos e grandes catástrofes, que afligiram e ainda afligem a humanidade, são recorrentes e, infelizmente, ao que parece, perenes.

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Notas

[1] As traduções de trechos em língua estrangeira são de responsabilidade do autor deste artigo. “[...] occupent [...] une place non négligeable dans les textes littéraires [...]”.
[2] “O que a literatura nos ensina sobre a epidemia”, tradução do autor.
[3] “La maladie et l’épidémie sont en effet au coeur de la littérature [...]” [...] “[...] associées à la colère divine [...]”.
[4] “Étymologiquement, l’allégorie désigne ‘une autre manière de dire’ qui consiste à exprimer une idée en utilisant une histoire ou une représentation. Le texte allégorique crée donc une équivalence entre deux niveaux de réalité, faisant passer de l’un à l’autre en une double lecture simultanée que rend possible leur perméabilité analogique. Le lecteur doit alors comprendre le sens voulu par l’auteur, sens univoque conférant souvent une fonction morale à l’œuvre”.
[5] “La Peste [...] a cependant comme contenu évident la lutte de la résistance européenne contre le nazisme. La preuve en est que cet ennemi qui n’est pas nommé, tout le monde l’a reconnu, et dans tous les pays d’Europe. [...] La Peste, dans un sens, est plus qu’une chronique de la résistance. Mais assurément, elle n’est pas moins”.
[6] O episódio das famílias reunidas no estádio é um fato histórico que ficou conhecido como ‘Rafle du Vel d’Hiv’ (‘Ajuntamento do Velódromo de Inverno de Paris’). De acordo com Andrey Brunetaux (2014, p. 136-137), nos dias 16 e 17 de julho de 1942, mais de 13.000 judeus foram detidos em Paris e seus subúrbios por policiais franceses destacados para a operação. Encarcerados em condições desumanas durante quatro dias, foram colocados no Velódromo de Inverno (demolido em 1959), antes de serem levados aos campos de Loiret. Lá, 4.000 crianças foram brutalmente separadas de seus pais, deportadas para Auschwitz. Menos de 100 pessoas - e nenhuma criança - sobreviveram.

Notas de autor

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