Literatura

A recusa da denegação da fome na obra de Rodolfo Teófilo: uma leitura psicanalítica

The refusal of denegation of the hunger in Rodolfo Teófilo: a psychoanalytic reading

Karla Patrícia Holanda Martins
Universidade Federal do Ceará, Brasil
Fabiano Chagas Rabêlo
Universidade Federal do Delta do Parnaíba, Brasil
Reginaldo Rodrigues Dias
Universidade Federal do Delta do Parnaíba, Brasil
Samanta Basso
Universidade Federal do Ceará, Brasil

A recusa da denegação da fome na obra de Rodolfo Teófilo: uma leitura psicanalítica

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 43, núm. 2, 2022

Universidade Estadual de Maringá

Recepción: 21 Diciembre 2020

Aprobación: 04 Mayo 2021

Resumo: O presente artigo discute a coalescência das intempéries naturais e sanitárias (tais como secas, tempestades e pandemias) com a má condução política das crises para a produção de catástrofes coletivas na tradição histórica brasileira. Aborda-se como os traumas sociais geralmente são denegados pela narrativa oficial, retornando, por sua vez, pela via da tradição oral e da literatura, que transmitem o testemunho de atores que, à margem do apoio do Estado, constroem caminhos para o enfrentamento das urgências, articulando soluções e mobilizando laços sociais. Rodolfo Teófilo, escritor e farmacêutico cearense que viveu no final do século XIX e início do século XX, período marcado pela fome e longas secas, é um exemplo desses atores responsáveis por tais atos de resistência popular. Seus livros e sua vida encarnam um posicionamento político diante dos acontecimentos de seu tempo. Além de se empenhar na defesa da dignidade dos flagelados da seca, que eram confinados em campos de concentração fora do perímetro urbano de Fortaleza, ele executou campanhas de vacinação da varíola que atingiram sobretudo a população mais desfavorecida. A sua obra, que ainda não recebeu a merecida atenção da crítica, mostra-se hoje mais instigante e pertinente do que nunca, haja vista que as mesmas atitudes de desrespeito e descaso com os mais vulneráveis contra as quais ele lutou pauta hoje a ação dos governantes responsáveis por criar soluções de enfrentamento da pandemia de Covid-19. A partir da psicanálise, com os conceitos de denegação e desautorização, problematiza-se os livros de Teófilo, tratando-os como a materialização de uma estética da melancolia e do testemunho de uma memória traumática. Toma-se o sertanejo como paradigma da alteridade e a fome e a seca, como uma forma de catástrofe subjetiva coletiva. Repercute-se daí o legado do escritor para o cenário político, cultural e sanitário atual.

Palavras-chave: estética da melancolia, catástrofe coletiva, trauma.

Abstract: The present article discusses the coalescence of natural and sanitary situations (such as droughts, storms or pandemics) with the way by which they are treated politically and the outcome: the production of collective catastrophes in the Brazilian historical tradition. One addresses the way these social traumas are usually denied by the official narrative, returning, in turn, via oral tradition and literature, which convey the testimony of actors who, apart from state support – or even with their explicit opposition – build paths to face urgencies, articulating solutions and mobilizing social ties. Rodolfo Teófilo, writer and pharmacist from Ceará, who lived in the late 19th and early 20th centuries, a period marked by hunger and long droughts, is one of these actors, responsible for acts of popular resistance. His books embody an attitude that is reflected not only in his life, but also in the events of his time. His narrative aims to defend the dignity of drought victims, who were confined in concentration camps outside the urban perimeter of Fortaleza. He also carried out smallpox vaccination campaigns that mainly affected the most disadvantaged population. His work, which has not yet received the deserved attention of critics, is today more thought-provoking and pertinent than ever, given that the same attitudes of disrespect and disregard for the most vulnerable are also being adopted by the leaders responsible for creating coping solutions for Covid-19. From a psychoanalytical perspective, with the concepts of denegation and disallowance, the books of Rodolfo Teófilo are problematized, treating them as the materialization of an aesthetic of melancholy and the testimony of a traumatic memory. The sertanejo is taken as a paradigm of otherness. Hunger and drought, as a paradigm of a collective subjective catastrophe. Hence one discusses the writer's legacy for the current political, cultural and health scenario.

Keywords: aesthetic of melancholie, collective catastrophe, trauma.

Introdução

O Ceará é uma terra condenada mais pela tirania dos governos do que pela inclemência da natureza (Teófilo, 1980a, p. 31)

Tendo em vista as declarações do governo federal ocorridas na primeira quinzena do mês de dezembro de 2020, que, para justificar a sua inoperância e falta de empenho diante de uma calamidade da proporção da recente pandemia, desautoriza a memória dos mais de 370.000 brasileiros mortos pela Covid-19, ao mesmo tempo que desacredita os esforços dos que buscam viabilizar uma campanha de vacinação ampla, segura e célere, este artigo propõe discutir a obra de Rodolfo Teófilo (1853-1932), escritor nordestino, ainda pouco conhecido e divulgado.

Destaca-se que alguns dos seus livros, ‘A Fome’ (Teófilo, 2002), ‘Secas do Ceará’ (Segunda metade do século XIX; Teófilo, 1901), ‘A Seca de 1915’ (Teófilo, 1980a) e ‘Kiato: País da Verdade’ (1922/1890), seguem o caminho inverso da estratégia adotada hoje pelo governo federal em relação à população mais desassistida. Os primeiros livros revelam um empenho em resgatar a dignidade da experiência de sofrimento dos famintos e doentes durante a grande leva de migração dos sertanejos para Fortaleza, causada pelas grandes secas dos anos 1877-1879 e 1915. No último livro, ‘Kiato: País da Verdade’, o autor escreve uma narrativa utópica, onde expressa seus íntimos desejos de outra estrutura social, sem as mazelas que retrata e denúncia em suas outras produções literárias.

A realidade social sobre a qual Teófilo se debruçou envolve a coibição da entrada dos retirantes à capital Fortaleza. Para isso, foram construídos abarracamentos nas entradas principais da cidade, também afetada pela disseminação da varíola. Conhecidos como currais humanos, os abarracamentos foram, posteriormente, considerados pela historiografia como os campos de concentração cearenses. Nesse período, a seca trouxe para capital, então com 30.000 habitantes, cerca de 100.000 pessoas. Em setembro de 1878, o total de mortos vitimados por essa situação contabilizava mais de 24.849 mil. Nessa época, a fome e as pestes, especialmente a varíola, chegaram a matar na capital, em um só dia, nada menos que 1004 pessoas. Dez de dezembro de 1878 ficou conhecido como ‘O Dia dos Mil Mortos’ (Neto, 1999; Martins & Kupermann, 2017).

Essa prática concentracionista do poder do Estado se repete com as secas de 1915 e 1932. Tais acontecimentos, que são atualizados nestes anos de 2020 e 2021 com a pandemia, foram silenciados na historiografia oficial, mas encontraram na literatura uma via de transmissão. Apenas no ano de 1994, por ocasião de uma obra de saneamento básico em Fortaleza, uma das covas coletivas desse período foi encontrada com centenas de ossadas, o que foi considerado a prova material daquele genocídio. (Neto, 1999;Neves, 1995;Rios, 2014). Como afirmam Martins e Kupermann (2017, p. 209): “A verdade histórica sobre os campos de concentração cearenses pode ser considerada um símbolo perdido da experiência da fome e do horror que foram apagados a partir da nossa cultura”.

É interessante resgatar, a partir da dimensão simbólica desses acontecimentos, o conceito psicanalítico de cripta, proposto por Abraham e Torok (1995) para pensar as condições de possibilidade da elaboração dos lutos e perdas, que incidem sobre alguns processos bem precoces da constituição da auto-imagem narcísica. A ideia de cripta remete a uma forma peculiar de registro e transmissão de uma perda que não pôde ser elaborada e, portanto, não é passível de ser expressa e reconhecida como tal.

Entende-se que o velamento da memória dos sertanejos flagelados, mortos pela inanição e pelas inúmeras doenças – resultado das péssimas condições sanitárias e da desassistência do Estado – pode ser considerado um fenômeno social e simbólico análogo ao que ocorre hoje em relação às vítimas da pandemia, composta predominantemente por pessoas negras, de baixa renda, que não possuem amplo acesso às instituições de saúde. Nessas condições, pergunta-se: qual o papel da psicanálise e da literatura na construção de uma memória desautorizada ou censurada pela história oficial?

A leitura da obra de Rodolfo Teófilo instigou, por sua vez, a pesquisa em torno de conceitos psicanalíticos que, no entendimento dos autores, possuem potencial político e crítico, a saber: além da já mencionada problematização do estatuto da memória e do testemunho, indica-se ainda a valorização de uma atitude estética que se assemelha aos traços estilísticos do discurso do melancólico (Lambotte, 1997; Martins & Pinheiro, 2001;Freud, 2011). No primeiro caso, sugere-se que a desautorização - conceito do psicanalista Sándor Ferenczi (1990) que explica a dinâmica intersubjetiva que está na origem da situação traumática – leva à constituição de núcleo simbólicos cristalizados, correspondendo ao que Abraham e Torok (1995) nomearam como criptas, furnas secretas, cujo conteúdo, paradoxalmente, é transmitido, de forma desarticulada e não elaborada, de uma geração a outra. No segundo caso, percebe-se que a fala do melancólico traz consigo a possibilidade de se despir das injunções simbólicas sociais que alimentam os processos identitários narcísicos, como é o caso de uma concepção equivocada de patriotismo, que estimula uma série de atitudes de preconceitos e exclusão, que são retroalimentados por processos grupais, em grande parte mediados por redes sociais. A lucidez do melancólico torna possível denunciar essas imposturas na medida em que põe em evidência a condição inarredável e constitucional do desamparo humano, cujo lenitivo mais eficaz, como Freud (2010) assinala, é a solidariedade cultural e científica.

O presente artigo é composto por três partes. Na primeira delas, apresenta-se um resumo da obra e da biografia de Rodolfo Teófilo, tendo em vista que se trata de uma figura pouco conhecida no Brasil e mesmo no Ceará, terra em que passou a maior parte de sua vida. Comenta-se em seguida seu livro mais conhecido, ‘A Fome’, publicado em 1890. Nesse ponto, tomando a contribuição de Rodolfo Téofilo por fundamento, desenvolve-se a ideia de que o sertanejo constitui um paradigma da alteridade, que é negada e silenciada pelas políticas públicas oficiais, mas que pode ser acolhida e ter sua dignidade reconhecida e potencializada na clínica psicanalítica e na literatura. Da mesma forma, a fome é tomada como uma figura representativa de uma catástrofe subjetiva, que possui fortes implicações políticas e sociais. No último tópico, são propostas algumas articulações dessa obra com as concepções psicanalíticas de memória, trauma, cripta e testemunho, assim como com a perspectiva de uma estética do discurso do melancólico. Conclui-se então estabelecendo um paralelo entre a obra de Rodolfo Teófilo e o cenário político atual.

Rodolfo Teófilo: vida e obra

‘Sou cearense porque quero’ é a forma como Rodolfo Teófilo (1853-1932) descreve sua origem. Em busca de melhores condições para o parto do primogênito, seus pais, o médico Marcos José e Antônia Josefina Sarmento, ambos cearenses, seguem viagem para Salvador em abril de 1853. Rodolfo Teófilo nasce ali, em um sobrado da Cidade Baixa, em 6 de maio de 1853.

No retorno para a província cearense, sua infância é marcada pelo assombro da morte relacionado à epidemia do cólera e pelos cânticos de súplica das beatas na matriz de Maranguape. Lira Neto (1999) nos conta que o menino, aperreado pelo som que lhe zunia os ouvidos, tinha sono agitado, esquecido dos brinquedos, falava sozinho pelos cantos da casa, ‘aluado’ e com medo da própria sombra. A mãe falecera quando tinha apenas 4 anos de idade, vítima da fraqueza de uma anemia profunda. Sozinho e com 3 filhos, Antônio José, seu pai, casa-se com a prima de Josefina, que passa a criar os sobrinhos e mais três filhos do seu primeiro casamento.

O cólera manifesta-se no Ceará a partir do sertão de Icó. Chega em Fortaleza em 1862, mas foi em Maranguape o seu pior desfecho. Numa cidade de apenas

[…] seis mil almas, perdia 50 e 60 pessoas todos os dias [...] como não havia mais lugar para se abrirem covas, largas valas comuns foram improvisadas do lado de fora, ali em torno do muro do cemitério, onde os mortos passaram a ser enterrados aos montes, sem cruz e sem nome (Neto, 1999, p. 31).

Mais tarde, Teófilo descreve cenas semelhantes em seu livro de estreia. Seu relato não é apenas de testemunho da história, mas de protagonismo, visto que ele se envolve intensamente no cuidado com as pessoas retratadas no livro. Sua obra, um misto de jornalismo e romance, é duramente criticada em jornais da época, mas uma dessas resenhas – feita por Adolfo Caminha – mereceu de Teófilo uma réplica no jornal cearense ‘O Pão’. Diz o escritor:

De todas as injustiças que o Sr. Caminha fez A Fome, a que mais me doeu foi a falta de verdade nas cenas que descrevo. Tenho consciência do contrário: percorri os abarracamentos, ouvi com grande atenção e piedade as narrativas dos infelizes famintos e assim julguei ter fotografado no meu livro não todos os episódios dessa angustiosa época, porém os que julguei mais extraordinários sob o ponto de vista das misérias humanas [...] A minha envergadura é pequena para alarme às cumeadas onde estão Alencar, Aluísio e Junqueira, e sei que, descrevendo a seca, eles dariam páginas de melhor estilo, de mais arte, porém de mais verdade a minha consciência diz que não (Teófilo apud Azevedo, 1985, p. 62).

Quando se escava as camadas da memória social de outros graves acometimentos na saúde pública brasileira, é possível encontrar restos de acontecimentos que foram esquecidos ou mesmo escondidos da História contada oficialmente, signos que representam núcleos por nós rejeitados. Assim, velhas angústias e desmentidos retornam com a força da água represada de um dique aberto.

Mais particularmente no que se refere ao Ceará, identifica-se no presente alguns elementos culturais e históricos da crise sanitária dos anos de 1877-79 ocasionada pela grave seca que atingiu o sertão central, forçando a migração de milhares de sertanejos para capital. Segundo Lira Neto (1999), Fortaleza, então com 30.000 habitantes, chegou a atingir uma população de cerca de 100.000 pessoas. Naqueles dias, a fome e as pestes, em especial a varíola, chegaram a matar na capital, em um só dia, nada menos que 1004 pessoas. Dez de dezembro de 1878 ficou conhecido nos jornais da época como ‘O Dia dos Mil Mortos’. Os doentes, quando sobreviviam, eram removidos pela força policial para os abarracamentos afastados do centro da cidade, mais tarde nomeados como os primeiros campos de concentração cearenses. Essas pessoas eram conduzidas pelas ruas da cidade em redes por homens pagos à base de ração de carne seca, farinha e pinga. Sertanejos trôpegos caminhavam por mais de três quilômetros carregando os corpos de velhos, crianças, homens e mulheres seminus, urrando de dor com suas feridas causadas pela varíola. Corpos mortos se amontoavam pela cidade, no trajeto estadual da estrada de ferro que ligava o sertão à capital. A omissão dos governantes ofendia a dignidade não apenas da vida, mas, também, do morrer. Alguns se contrapunham ao descaso com milhares de mortes e denunciavam o genocídio através dos jornais locais e na imprensa nacional. É desta época o conjunto de fotografias que deu rosto à fome e à seca das províncias do Norte, todas estas feitas por um dos precursores do fotojornalismo brasileiro, Corrêa (1878).

Na biografia do farmacêutico e escritor Rodolfo Teófilo, o sociólogo Lira Neto (1999) descreve a vergonha sentida por este com o transporte público dos moribundos. O destino da verdade histórica sobre os campos de concentração do Estado pode ser considerado um símbolo do elo perdido das experiências da seca, da fome, da doença e do horror à morte que foram velados em nossa cultura. A luta de Teófilo e sua esposa contra a varíola, no início do século XX, deveria fazer parte da História oficial. O casal fabricou, por inciativa própria, a vacina contra a varíola que, nos idos de 1901, imunizou mais 3585 pessoas na capital. Rodolfo Teófilo saía em seu cavalo pelas areias de Fortaleza, como eram conhecidos os bairros mais afastados do centro. Ao chegar nas residências, negociava com o medo das famílias a aplicação da vacina. Contava estórias do cavalheiro da morte ou, às vezes, pagava alguns vinténs às crianças. No extremo, ameaçava as famílias de prisão. O farmacêutico chegou a formar uma liga de vacinação no interior, mandando pessoalmente cartas a 79 municípios. A sua iniciativa estóica custou a demissão da cátedra que ocupava no Liceu Cearense, entre outras perseguições políticas do governador da Província que, alinhado com a estratégia dos atuais governantes, espalhava nos jornais fakenews sobre crianças que teriam morrido após serem vacinadas.

A obra literária de Rodolfo Teófilo representa um testemunho desses dias, memórias que presentificam a ausência do que jamais pôde ser pensado, dito ou reconhecido enquanto uma experiência subjetiva. Seu livro ‘A Fome’ é avaliado pela crítica literária como uma obra que coloca em cena o corpo faminto, dando rosto à fome, aos sujeitos que padecem do sofrimento decorrente dessa situação, nomeando o desprezo e a invisibilidade que eles adquirem aos olhos do poder estatal, cuja obrigação como ente público é oferecer proteção equânime a toda população, sem diferenciar classe social, cor, raça ou procedência. No referido livro, a fome é uma figura da radicalidade de nosso desamparo e abandono. A história de Manoel Freitas transforma-se na nossa história: o trauma individual se faz, a um só golpe, social, cultural e histórico.

Nessa perspectiva, a posição ética do escritor cearense frente ao sertão e ao sertanejo antecipa o projeto assumido ao final da guerra de Canudos pelo escritor Euclides da Cunha. No seu ‘Diário de uma Expedição’ é possível ler: “Depois de nossa vitória, inevitável e próxima, resta-nos o dever de incorporar à civilização estes rudes patrícios que – digamos com segurança – constituem o cerne da nossa nacionalidade” (Cunha, 2002, p. 140).

Ao contrário do que ocorre na literatura de seus contemporâneos que tomou o sertão nordestino como tema, Teófilo põe no seu texto o foco em um sertão sem sombras, sem rios, sem os adereços de uma natureza que, quando não é exuberante, exibe um homem corajoso, titânico. Longe do epicurismo dos viajantes ou de um certo estoicismo euclidiano e, por vezes, alencarino, Teófilo forja uma visão da precariedade tanto do homem quanto da natureza. Para ele, a verdadeira literatura deve nascer da observação cuidadosa dos fatos. A miséria, por sua vez, é tida como fato e não como contingência. Uma espécie de realismo desencantado, que privilegia o corrosivo, o brutal, seja o da natureza, seja o dos homens, numa negatividade que redesenha tanto a ideia de nação como a do homem nordestino (Martins, 2014).

Quando Rodolfo Teófilo completaria 100 anos, recebeu comentários elogiosos de Raquel de Queiroz (1910-2003). Na crônica publicada na revista ‘O Cruzeiro’, a escritora reconhece o papel histórico de precursor de Teófilo como um homem do século dezenove: “[…] crente aferrado na solução científica para todos os problemas da alma e do corpo, inclusive os da arte” (Queiroz, 1953, s.p.). Queiroz ainda acrescenta:

[...] foi dos primeiros a usar como tema dos seus livros dois assuntos que ainda hoje são a espinha dorsal da literatura nordestina: o cangaço e a seca. [...] E a seca serviu-lhe de tema para o seu famoso A Fome, que é dos primeiros, senão o primeiro romance escrito tendo como heróis as vítimas do nosso flagelo regional, e abriu caminho para todos os exploradores do filão, que iriam culminar na obra-prima do gênero, o insuperável Vidas Secas, do nosso imenso Graciliano (Queiroz, 1953, s.p.).

O sertanejo na obra de Teófilo está figurabilizado por Manoel de Freitas e sua família. Ao contrário do que acontece na narrativa euclidiana, eles não estão geograficamente sitiados no Arraial de Canudos: o confinamento aqui é relativo aos limites do corpo. O recurso de se servir da ciência para expor a fragilidade do corpo faminto revela uma estratégia de linguagem/literária que pode ser comparada à uma forma de estetização do horror da fome, como, por exemplo, pode-se constatar no seguinte trecho:

O sol chegava, e nem por isso a luz reanimava-os! Apenas a dilatação das pupilas permitia a entrada de maior soma de raios luminosos, a impressão viva da luz e portanto a dissipação da cegueira […] A luz vinha, mas não podia tonificar-lhes os músculos depauperados pela inanição, relaxados pela atonia, pela fome! Nas fisionomias macilentas percebiam-se as torturas impostas pela profunda dicrasia do sangue. A miséria e os dias de jejum gastaram as reservas nutritivas acumuladas, comeram os glóbulos vermelhos do sangue e, uma vez desaparecidos estes de circulação, o líquido nutritivo desfribrado perdera uma das quantidades mecânicas, a densidade, e a vida tornou-se penosa e aflitiva (Teófilo, 2002, p. 49).

Após os anos de ataque aos seus propósitos de vacinação e a sua demissão da cátedra do Liceu do Ceará, veio o golpe de misericórdia. Em maio de 1906, o inspetor de higiene do presidente do Estado, Nogueira Accioly (1840-1921), membro de uma das mais influentes famílias da elite local, acusa o farmacêutico de ganhar dinheiro às custas da vacina contra varíola, duvidando inclusive do uso do material declarado na sua fabricação. Em carta enviada à Acciolly por Meton de Alencar (político do partido liberal), o tom acusatório é de injúria e desautorização: “[…] talvez não conheça o microscópio, nada entende de bacteriologia” (Neto, 1999, p. 165). O reconhecimento da eficácia da vacina chega em elogioso laudo final do Instituto Manguinhos datado de 10 de maio de 1907. A oligarquia Accioly, iniciada em 1896, é deposta por revoltos em 1912.

No cômputo geral, o destrato a Teófilo extrapolou o âmbito de suas convicções e ações políticas, alcançando a sua obra literária. Pode-se dizer que o desmentido de suas opiniões e ações foi estendido à sua reputação de modo geral. Tal situação, contudo, transformou-se em combustível para a criação. “Agora, na velhice, era chegada a hora de ir à forra […]”, afirma o jornalista e biógrafo Lira Neto (1999, p. 191) acerca das motivações de Teófilo que levaram a escrita de ‘Kiato, País da Verdade’ (Teófilo, 1980b). Nesse livro, o escritor rebate, uma a uma, as críticas recebidas de seus adversários. Na utopia de Kiato não há mestiçagem. Sua denúncia flerta agora com a idealização de um lugar sem vícios, onde os males da civilização seriam eliminados. Sua utopia prescreve um mundo livre de conflitos e misturas, discurso que pode ter um papel libertador, mas que também se aproxima perigosamente de uma perspectiva totalitária da verdade, de exclusão da diferença.

Vejamos no próximo tópico, a partir do referencial teórico e crítico da metapsicologia psicanalítica, como essa questão se coloca na estética do texto de Rodolfo Teófilo. Além de desenvolver esse ponto, também é abordado o tratamento dado à memória na obra de Teófilo e na clínica psicanalítica.

Uma crítica psicanalítica da desassistência

Marielle Macé (2018), em seu livro que discute a questão dos migrantes, utiliza as palavras ‘siderar’ e ‘considerar’ para situar dois possíveis efeitos que a literatura ambientada em contextos de situações-limite pode causar. Se, por um lado, o leitor fica atordoado frente a imagens excessivamente nítidas que os acontecimentos extremos desvelam, por outro, ele também é incitado a refletir sobre alguns temas que poderiam passar despercebidos ou serem ignorados. Estes efeitos de sideração e consideração podem ser notados vividamente na leitura do livro ‘A Fome’. Nele, Rodolfo Teófilo (2002) convoca os leitores a oscilarem entre esses dois efeitos. Por intermédio de suas descrições pormenorizadas dos horrores vividos na seca, ele nos coloca defronte a cenas brutais, que exemplificam uma experiência de descontinuidade. Por meio de suas denúncias aos governantes, abre espaço para a reflexão sobre o modo precário como a população era tratada pelo Estado.

Dessa forma, sublinhamos que Teófilo ocupa um lugar também de testemunha dos horrores vividos pelos retirantes cearenses no final do século XIX. Nesse caso, percebe-se uma ampliação do conceito de testemunha, para além da perspectiva de quem sofreu em seu próprio corpo o sofrimento dos flagelos da seca. Da mesma forma que Jeanne Marie Gagnebin descreve em seu livro ‘Lembrar Escrever Esquecer’:

Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar uma outra história, a inventar o presente (Gagnebin, 2006, p. 57).

O lugar “[…] daquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro [...]” (Ferenczi, 1990, p. 57) não é desconhecido ao ofício do psicanalista. Parte-se da aproximação entre o lugar do psicanalista e o da testemunha. Sustenta-se que ambos estão no contraponto ao desmentido. Este, por sua vez, refere-se à efetivação do trauma, conforme propõe Sándor Ferenczi:

Parece que os pacientes não podem acreditar, pelo menos não completamente, na realidade de um evento, se o analista, única testemunha do que se passou, mantém sua atitude fria, sem afeto e, como os pacientes gostam de dizer, puramente intelectual, ao passo que os eventos são de natureza tal que devem evocar em toda pessoa presente sentimentos e reações de revolta, de angústia, de terror, de vingança, de luto (Ferenczi, 1990, p. 57).

Há, portanto, tanto na psicanálise como no testemunho uma dignificação das histórias de sofrimento e uma valorização da memória. Vale ressaltar que a memória, numa perspectiva psicanalítica, não se refere simplesmente às representações mentais. Freud, em sua ‘Carta 52’, endereçada a Wilhelm Fliess em 1896 (Freud, 1986), apresenta um modelo de aparelho psíquico formado por diversos estamentos de memória, cada qual com uma sintaxe e gramática próprias. Tal esquema pressupõe que a passagem de um conteúdo de um nível para outra exige um esforço de tradução, transcrição e transposição. Isso quer dizer que há nesse processo inevitavelmente perdas e distorções. Assim, um bem dizer pressupõe a aceitação e a simbolização de uma perda, de maneira que outras formas substitutas àquilo que se apresenta como mais refratário à significação possam ser agenciadas.

Segundo Abraham e Torok (1995, p. 249), as perdas que não podem ser elaboradas, “[…] não podem – por alguma razão – se confessar como perdas”. Diante dessa memória traumática, só resta a alternativa de uma denegação radical. Não se trata mais de ‘relatar’ diante de um terceiro o luto de que se é portador. Todas as palavras que não puderam ser ditas, todas as cenas que não puderam ser rememoradas, são postas em conserva. O trauma instala no interior do sujeito uma sepultura secreta, fazendo que dessas perdas só permaneça uma espécie de “[…] luto vergonhoso” (Abraham & Torok, 1995, p. 250).

O estudo da estética da melancolia pode ser oportuno ao se abordar a obra de Rodolfo Teófilo, ‘A Fome’. Percebe-se que “[…] a queixa literária, a alegoria iconográfica ou ainda o relato médico [...]” (Lambotte, 2000, p. 9) se sobressaem na apresentação de alguns universais do campo temático da melancolia. Inicialmente a ‘ascedia’ (preguiça) medieval, e a inibição, no caso da modernidade, são elementos perante os quais se pode introduzir a fome neste quadro decadente do corpo. A fome passa então a ser vista como uma expressão análoga à melancolia.

Importante lembrar que, apesar de a fome enfraquecer o corpo, o pensamento que se sobressai a essa condição muitas vezes materializa escritas e falas poéticas, como inúmeros artistas populares demostram. Salienta-se que a noção de anestesia atravessa a antiguidade para então comparecer na concepção freudiana da melancolia (Freud, 2011). Trata-se do ‘espírito demais e corpo de menos’, conforme é lembrado no pensamento de Aristotle (1957) e Kierkegaard (1968). Destaca-se o cenário do sertão desenhado pelos repentistas, cuja realidade tão próxima da fome, atravessada pela secura e o sofrimento, é preenchida com a vontade de chuva e do encontro com rimas, tal como observa Luís da Câmara Cascudo, em sua obra ‘Vaqueiros e Cantadores’ (Cascudo, 2005).

Assim, o discurso melancólico aparece como contraponto às falências corporais ao trazer à tona a decadência humana e tudo o que nos torna indignos. A fome é, muito certamente, uma dessas coisas. Neste caso, ela não se mostra como uma manifestação da pulsão de vida, mas como privação, fruto da miséria e da desigualdade social. O discurso do melancólico centrado na ruína circunscreve uma poética que passeia tanto pela alegoria e pelo barroco (Benjamin, 1984), como pelo parnasianismo (Martins & Pinheiro, 2001). Os recursos estéticos de cada estilo literário citado justificam-se por trazerem em comum a ornamentação, via por onde se conta aquilo que inicialmente estaria fora da experiência do belo, a saber: a terra rachada, as carcaças, a vegetação esturricada, o sol causticante e o corpo faminto.

A cultura ocidental, segundo Jean Starobinsky (2014), durante séculos, citou a melancolia como inseparável da ideia de que os poetas tinham da sua própria condição, destacando o tédio como sentimento daquele que contempla solitário um cenário de desfiladeiros e ruínas. Como sugere a psicanalista Marie-Claude Lambotte (2000, p. 10), a “[…] doença do pensamento em excesso é também a doença que mais leva a pensar, em outras palavras, que alimenta tanto a reflexão filosófica como a verve poética”.

Ao longo da história, não são raras as criações utópicas de caráter religioso, político ou social, que surgem dos artifícios produzidos pelo espírito melancólico. Nas palavras de Menon (2013-2014, p. 975), “[…] é possível perceber que o homem sempre teve necessidade de vivenciar outras realidades, mesmo que pela imaginação, a fim de evadir-se do mundo real ou na esperança de experimentar dias melhores”.

Para o autor, apesar de considerar que a sociedade está amparada pelo alto desenvolvimento tecnológico, Rodolfo Teófilo paradoxalmente “[…] põe-se, dia a dia, a vislumbrar um porvir onde a ciência possa trazer mais respostas, mais curas, uma vida mais longa e maior conforto ao homem” (Menon, 2013-2014, p. 980). Em sua utopia, ‘O Reino de Kiato’, Rodolfo Teófilo (1980b) formaliza assim, à semelhança do melancólico, um discurso de um só ideal. Menon (2013-2014) afirma que em Kiato, de forma semelhante à utopia de Thomas More (1476-1545), há um novo modelo de ordem social e política. Diferentemente da utopia do escritor inglês, que está focada nas relações sociais, na distribuição igualitária de riqueza e em políticas mais justas, em Kiato isso se dá sob um viés higienista, com forte apelo aos ideais eugenistas tão em voga nessa época no Brasil. Aponta-se nesse texto para um presente sonhado e desejado, todavia irrealizável do ponto de vista prático para a época a que pertence Teófilo.

Esse descompasso entre a experiência concreta do cotidiano e sua projeção ideal não deixa de ser o que mantém viva a reflexão sobre as utopias e, de certa forma, sobre a melancolia. Muito criticado por seus trabalhos supostamente não trazerem uma verdade concreta e palpável, mas apenas elementos ficcionais, Rodolfo Teófilo não deixou de reagir, como na resposta às críticas de Adolfo Caminha. Defende-se que seus detratores deixaram de perceber o quanto a verdade é matéria prima da obra de Teófilo, o quanto seus livros constituem um retrato fiel e sensível das paisagens e costumes de uma terra.

O Romance utópico é raro no Brasil, porém, ainda no fim do século XIX, surge Emília Freitas (2003) com seu livro ‘A Rainha do Ignoto’. Nele, a escritora vislumbra uma sociedade localizada na Ilha do Nevoeiro, que é formada por mulheres que sofreram toda sorte de abusos por parte do poder patriarcal. O livro cria então a história de uma sociedade do bem e da justiça social, cujos membros estão empenhados em ajudar outras mulheres que se encontram em situação de dificuldade e desespero. Freitas mantém, literalmente, a ilha como o espaço possível de onde pode emergir a utopia.

Comparando a ilha do nevoeiro a Kiato, é possível pensar a verdade em Rodolfo Teófilo como a verdade sanitária brasileira. Ao aprendê-la na sua crueza, em toda a sua sordidez, Teófilo só encontra na utopia ficcional a estética possível para denunciar tal situação.

Na clínica da melancolia, constata-se uma narrativa que se constrói ao redor da descrição de um único opositor: é a guerra contra o Um. Os traços que fazem deste inimigo o ‘Número Um’ não são deslocados para outros personagens da realidade. Nesse ponto, o sujeito engendra um discurso que se distancia de uma perspectiva que poderia ser chamada de interpretativa. O discurso do melancólico tem por efeito e função reproduzir suas sensações, dando-lhes visibilidade.

Tendo em vista que o ano de 2020 é palco da atualização de antigos fantasmas da historiografia brasileira, na qual, em alguns momentos, como na denúncia de Teófilo, a imunização foi vista com desconfiança, considera-se pertinente lembrar a contribuição do psicanalista Sándor Ferenczi que, ao pensar o papel dos cuidados humanos na construção de um devir cultural, lança mão da metáfora da imunização. Ele diz:

...] no início da vida, intra e extrauterina, os órgãos e suas funções desenvolvem-se com uma abundância e uma rapidez surpreendentes – mas só em condições particularmente favoráveis de proteção do embrião e da criança. A criança deve ser levada por um prodigioso dispêndio de amor, de ternura e de cuidados, a perdoar os pais por terem-na posto no mundo sem lhe perguntar qual era a sua intenção [...] A força vital que resiste às dificuldades da vida não é, portanto, muito forte no nascimento; segundo parece, ela só se reforça após a imunização progressiva contra os atentados físicos e psíquicos, por meio de um tratamento e uma educação conduzidos com tato (Ferenczi, 1992, p. 50).

A partir do conceito de tato (Einfühlung), Ferenczi propõe uma ética do cuidado, uma política baseada no ‘sentir com’. Não se trata, portanto, de processos de identificação ou imitação, mas da capacidade de colocar-se ao lado. Com Ferenczi, é possível pensar que, mais uma vez, as figuras de poder no Brasil desdenham das suas formas de responsabilidade com os processos de imunização. Não é demais dizer, a partir das ideias do psicanalista húngaro, que imunizar significa, no plano simbólico, prestar rapidamente auxílio e cuidado àqueles que estão em situação de desamparo e precariedade, a fim de evitar que agravos futuros venham acontecer.

Longe da interpretação, aspirando à impessoalidade e à palavra exata, opondo-se a uma visão de mundo basculada pelo ‘ridículo sentimentalismo’, o discurso melancólico, à semelhança do projeto parnasiano, reage ao enfeite, à sensualidade, ao drama. O mundo é retrato, é cópia. No entanto, fica claro que, se a idealização não é romântica, todavia, ela é expressão de ideais totalizantes (Martins, 2014).

Considerações finais

Enquanto a redação deste artigo acontecia, os autores são confrontados com as últimas declarações do presidente da República. Elas materializam, sintetizam e condensam a estratégia política aqui criticada de denegação das perdas da população mais vulnerável. Segundo ele, não há justificativa de pressa para o início de uma campanha de vacinação, como se várias centenas de milhares de mortos não fossem um motivo mais do que suficiente para o envidamento de todos os esforços nessa direção.

Essa atitude remeteu ao resgate do legado de Rodolfo Teófilo, que se deparou com problemas análogos. No entanto, é importante demarcar diferenças. Na sua época, a lógica sanitária mostrava-se de maneira invertida: a quarentena era imposta aos sertanejos mais pobres como medida para preservar a saúde da população metropolitana mais abastada. É curioso constatar a partir da lembrança desse momento histórico que, na atualidade, são os mais abastados que levantam a voz contra a quarentena e o distanciamento social, que visam a preservar a vida e a saúde de todos. Eles alegam que tais medidas promovem um revês econômico que supostamente ameaçaria a estabilidade do status quo.

Em comum, tanto antes como hoje, tem-se uma política sistemática de denegação do sofrimento dos mais desfavorecidos. Apesar de atualmente contarmos com o um Sistema Único de Saúde (SUS) amparado na Constituição, que agrega inúmeros equipamentos e atores empenhados no cumprimento de sua missão, toda essa estrutura, que levou anos para ser construída, mostra-se frágil e vulnerável frente aos desmandos e arbitrariedades de ações autoritárias de alguns governantes. Logo, todas essas conquistas precisam ser defendidas e valorizadas para que se perpetuem.

A referência à psicanálise foi trazida então como um apoio teórico que, no entendimento dos autores, dialoga de perto com a obra de Rodolfo Teófilo. Priorizou-se dois pontos como estratégias de resistência diante dessa situação de desassistência: 1) a valorização do testemunho de sofrimento e do resgate da memória dos mortos como um forma coletiva de produção de uma resiliência simbólica e psicológica e 2) a exploração de uma estética da melancolia. Pontuou-se nos livros de Rodolfo Teófilo alguns traços que remetem a essa estética. Defendeu-se que a melancolia, no sentido inverso à defesa incondicional de certos ideais narcísicos coletivos – como um patriotismo cego e uma certa concepção destemperada de masculinidade –, tem no seu horizonte uma verdade, ainda que essa seja insuportável e traumática, uma vez que ela toca em algumas feridas históricas da identidade nacional, que permanecem abertas, em carne viva, ainda não cicatrizadas.

Referências

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Notas de autor

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