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A poesia no balanço das ondas da rede
Poetry in the balance of the waves of the network
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 43, núm. 2, 2022
Universidade Estadual de Maringá

Literatura



Recepción: 05 Abril 2021

Aprobación: 15 Junio 2021

DOI: https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v43i2.58511

Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar como se dá a relação entre a música e a poesia através de performances no ambiente da rede. À luz das teorias de Paul Zumthor (2010) acerca da performance e da oralidade na poesia e de Pierre Lévy (1999), no trato sobre as novas formas de veicular informação, tentamos traçar um eixo lógico que amplie a nossa reflexão sobre a possibilidade de popularizarmos a poesia através dessas novas linguagens oriundas das redes sociais. Para tal propósito, discutimos os processos de alfabetização virtual e formação do usuário, assim como refletimos sobre a veiculação de expressividades primitivas em plataformas tão modernas. Entendendo, com a ajuda de Saussure (2004), que a linguagem é a união entre ‘pensamento e som’, assim almejamos, por meio do estudo sobre as poéticas orais, compreender como a poesia tem sobrevivido em tempos de distanciamento social e aproximações virtuais. E, para isso, tomamos como questões norteadoras: Como a poesia oriunda do papel tem sobrevivido à era da fibra ótica? Como ela tem circulado entre leitores pela internet? Quais são os formatos apresentados em perfis do Instagram que potencializam a circulação da poesia canônica e autoral?

Palavras-chave: poesia, performance, internet, redes sociais, interatividade.

Abstract: This article aims to analyze how the relationship between music and poetry takes place through performances in the network environment. In the light of Paul Zumthor's (2010) theories about performance and orality in poetry and Pierre Lévy (1999) in dealing with new ways of conveying information, we try to trace a logical axis that clarifies how it would be possible to be popular poetry through these new languages from the new communication platforms. For this mission, we approached the processes of virtual literacy and user training, as well as, how the transmission of such primitive expressions on such modern platforms has taken place. Understanding with the help of Saussure (2004) that language is the union between ‘thought and sound’, we aim, through the study of oral poetics, to understand how poetry has survived in times of physical distance and virtual approaches. How to take the emotion of the poetic word through performances without being physically close? From ancestral poetic spells to optical fiber spells, what awaits us?

Keywords: poetry, performance, internet, social media, interactivity.

Introdução

Segundo as leis da Física, ‘tudo vibra’, e é a partir desta premissa universal que começaremos a discorrer sobre as relações que a canção estabelece com a poesia por meio das performances e sobre quais diálogos estão sendo feitos entre esses gêneros literários e as redes sociais. Chamamos a atenção para o fato de que as performances através das redes são transmitidas por meio, também, do som, da emissão de vibrações sonoras, além dos estímulos visuais. Atentos a essa questão, buscamos refletir sobre como a poesia vem se popularizando nos dias atuais, devido às diversas formas que poetas estão encontrando de fazer circular suas obras, por meio de estratégias atualizadas com as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs).

Procurando no Dicionário Eletrônico Houaiss (2006), encontramos o significado do verbete poesia, que se apresentou da seguinte forma: é a ‘arte de compor ou escrever versos’. Mas, segundo Octavio Paz: “A poesia é […] Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia” (Paz, 1982, p. 15). Saussure (2004, p. 130), em seu Curso de Linguística Geral, afirma que “[...] a linguagem é pensamento-som [...]”, e reitera isso quando nos diz que a língua tem o papel de organizadora do pensamento. Para ele, o “[...] pensamento não passa de uma massa amorfa e indistinta”. A partir daí, relacionamos a premissa da vibração e da sua intensificação através do som, com a essência criadora da poesia para ratificar o quanto a ideia de que ambos os recursos (poesia e som) aliados, ganham uma força singular que é amplificada no ambiente da internet, mais especificamente nas redes sociais.

A palavra, em seu poder de ‘criar por meio do verbo’, sendo performada, ganhando vida para além do papel em forma de sons e gestos, foto-poemas, posts poéticos, apresenta-se como engrenagem modificadora dos eixos sociais, das linhas da história, através do registro de percepções do agora. Nos dias atuais, em harmonia com a cibercultura (Lévy, 1999), isso ganha dimensões, fazendo-se importante que, ao menos tentemos entender, como a comunicação e a veiculação da poesia vêm acontecendo no ambiente das redes sociais, já que podemos com isso, refletir sobre a circulação da literatura pela internet e, ao mesmo tempo, acerca da influência da internet sobre essa forma de arte.

Segundo R. Dores Capurro (2013, p. 8):

A tecnologia digital, em geral, e a rede digital, que chamamos de internet, em particular, mediando o uso, por exemplo, da telefonia móvel e os tablets eletrônicos, assim como a grande quantidade de programas (apps) e de formas de comunicação e informação digitais, como são as redes sociais ou os blogs, têm alterado as possibilidades de interação de milhares de pessoas a nível político, econômico, cultural, industrial e, sobretudo, no nível da vida diária.

A conexão virtual nunca se fez tão necessária quanto nos últimos tempos. De súbito, nos deparamos com um novo contexto social, que nos obriga a estarmos distantes fisicamente devido à pandemia do Covid-19[1]. Nunca em nenhum outro momento da história, a comunicação por meio de aparelhos digitais, e consequentemente de textos e textualidades, fez-se tão necessária.

Em meio a tempos de intensas transformações como os vividos em contexto de pandemia, o alcance da arte e a sua recepção devem ser objetos de estudo para pesquisadores da literatura interessados na comunicação atemporal oriunda entre arte e sociedade. Eis a missão do artista: olhar para o presente com a lente do seu ofício e, oferecer possibilidades para que possamos respirar o melhor no futuro. Nesta missão de compreender essas alterações, olharemos mais de perto para a poesia em suas diversas maneiras de se organizar e para as formas de circulação desta nas redes sociais, especificamente no Instagram.

Antes, porém chamamos a atenção para a importância da alfabetização informacional, audiovisual, tecnológica, multimídia, e como ela se faz necessária para que haja uma manutenção da qualidade na interação nas redes digitais. A alfabetização informacional necessita de que haja uma ‘alfabetização’, no sentido mais real da palavra, e além dela, há a necessidade de uma alfabetização visual, que auxilie o ‘navegante’ a saber ler e escrever mensagens audiovisuais. Com isso, compreendemos o quanto é necessário também que haja a popularização dos conhecimentos pertinentes ao campo das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), pois assim, estaremos atentos à complexidade do universo tecnológico, e como ele nos conduz, em meio ao processo de formação do leitor nos dias atuais, por meio da alfabetização digital:

[...] é um modo especial de pensar, uma mentalidade (mindset) com um componente fotovisual (photo-visual literacy), relacionado à leitura de representações visuais; um componente de reprodução (reproduction literacy), relacionado à reciclagem criativa de materiais existentes; um componente de pensamento ramificado (branching literacy), relacionado à hipermídia e ao pensamento lateral; um componente informacional (information literacy), relacionado à capacidade para avaliar e utilizar inteligentemente a informação; e um componente socioemocional (socio-emotional literacy), relacionado à capacidade para compartilhar informações e realizar aprendizagens colaborativas mediante o uso de ferramentas e plataformas de comunicação digital (Eshet apud Coll & Monereo, 2010, p. 299).

A sociedade vem se transformando a cada dia e as formas de se comunicar também se transformam, evoluem, pois, segundo Lévy (1999, p. 127) “[...] uma civilização da telepresença generalizada [...], a interconexão constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras [...]”, por isso, é possível afirmar que as formas de se produzir e consumir literatura também tiveram suas adaptações. A popularização da internet e das redes sociais mudou a forma como as pessoas leem suas realidades e como elas apresentam essa realidade para as outras pessoas: “Estamos inventando novos tipos de grupos, novas formas de escrita, novos ritmos de relação social [...]” (Weinberger, 2006, p. 452 apud Pessoni e Donato, 2016) e todas essas relações, em seus processos de transformações, têm sido incentivo para diversos estudos, inclusive sobre a utilização dessas novas formas de comunicação em ambientes letrados. Soares (2002, p. 151) já chamava atenção para o letramento digital emergente, dizendo tratar-se de:

[...] um certo ‘estado’ ou ‘condição’ que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela, diferente do ‘estado’ ou ‘condição’ – do letramento – dos que exercem práticas de leitura e de escrita no papel.

Para Signorini (2012), os letramentos multi-hipermidiáticos trazem novas demandas para o sujeito leitor e escriba, pois rompem com o caráter convencional dos letramentos de base escrita ou verbo-visual da mídia impressa.

Com base em Jouve (2012, p. 162), compreendemos ainda que “[...] os estudos literários também favorecem o espírito crítico [...]”, e que é por meio do acesso às obras literárias que a aptidão de análise e de reflexão é aguçada e fortalecida. Este contato com a literatura proporciona ao ser humano a condição de se perceber como sujeito livre, fortalecendo a sua liberdade de discernimento. Dessa forma, ratifiquemos a necessidade de acompanhar as diversas transformações nos modos de se fazer e propagar literatura nos dias atuais.

Entre o passado e o presente, um elo sonoro

Há uma musicalidade natural na linguagem verbal e sabemos que nossa linguagem acontece da união entre estes dois elementos: pensamento e som. Há um quê de literatura escorrendo pelas línguas alheias nos pontos de ônibus, nos diálogos das bancas de feira livre, nas corridas de Uber e nos comentários do Instagram. E é desta essência literária natural que partimos para compreender o fenômeno contemporâneo da circulação da literatura nas redes, no caso deste estudo, da poesia. O desejo por entender como os internautas estão se relacionando com uma manifestação anterior às redes nos fez refletir em torno de algumas questões norteadoras: Como a poesia oriunda do papel tem sobrevivido à era da fibra ótica? Como ela tem circulado entre leitores pela internet? Quais são os formatos apresentados em perfis do Instagram que potencializam a circulação da poesia canônica e autoral?

Depois de desenvolver uma pesquisa exploratória na rede social Instagram, observamos que muitos artistas têm investido tempo e esforço para produzir a sua arte a partir dessas novas possibilidades tecnológicas, assim como afirmam Lemos e Cunha (2003, p. 19):

Artistas utilizam efetivamente as novas tecnologias, como os computadores e as redes de telecomunicação (TV e satélites), criando uma arte aberta, rizomática e interativa. Aqui, ampliando as vanguardas do século passado, autor e público se misturam. A ênfase da arte eletrônica incide, agora, na circulação de informações e na comunicação. [...] O objetivo é a navegação, a interatividade e a simulação para além da mera exposição/audição.

Hoje podemos encontrar muitas manifestações poéticas nas redes, mas chamam a atenção as que promovem a fusão entre canção, poesia e performances. O diálogo entre tais expressões é muito mais profundo e complexo do que parece, pois, ao performar entronizando uma canção e um texto literário, o artista busca na ancestralidade do verso; a pureza da voz. Vale lembrar que antes da existência do livro ou das telas digitais, o que assegurava a divulgação coletiva de textos era a voz, pois, segundo Zumthor (2010, p. 179), “[...] toda poesia aspira a se fazer voz; a se fazer, um dia, ouvir”.

A poesia trovadoresca na Alta Idade Média nasce de um híbrido entre música e poema, pois, como não havia registros escritos, o recurso empregado para a memorização e a assimilação dos poemas medievais acontecia por meio do acompanhamento musical, incrementado pela repetição dos versos e por rimas. Só mais tarde, com a ascensão do Humanismo, é que música e a poesia foram fragmentadas e compartimentadas em duas linguagens diferentes, segundo Rodrigues (1990):

[...] a grande poesia medieval quase que foi exclusivamente concebida para o canto. O Barroco, séculos além, fez os primeiros ensaios operísticos, que iriam recolocar o teatro no coração da música. Depois Mozart, com a Flauta mágica ou D. Giovanni, levaria, como sabemos, esta fusão ao sublime (Rodrigues, 1990, p. 28).

Como a poesia ocidental na antiguidade era cantada pelos trovadores que criavam poemas e melodias, a música servia apenas para acompanhar os versos, mesmo assim, estabelecia uma simétrica relação de força expressiva, uma associação recíproca com a poesia, desde o processo criativo do poema até a sua performance. Podemos então perceber que a gênese da canção contemporânea está nessa relação harmoniosa entre música e poesia. A canção atual (que reconhecemos hoje pela fusão entre letra e música) tem traços poéticos remanescentes da antiga proximidade entre essas duas formas, que se perpetuam até os dias atuais.

No Brasil, ainda é possível observar que a poesia falada e a musicalidade da fala brasileira são fenômenos intrínsecos e que esses dois fatores trazem em comum a oralidade performada. Esta, por sua vez, nos aponta para um Brasil em constante efusão de falares musicais onde há “[...] um balanço maroto que a voz cantada surrupia da fala [...]”, extraindo “[...] o que nela há de musicalidade: a ginga, o molejo, a musicalidade que habita na fala de cada um de nós” (Ribeiro Neto, 2000, p. 21). Partindo, na maioria das vezes desse ponto, muitos artistas fazem a fusão entre canção e poema, e quando esta ocorre, provocam o ouvinte e geram emoções que só mesmo os movimentos performáticos são capazes de promover. A poesia escrita, em sua essência, compõe-se de matéria sonora, mas é na voz que ela se realiza, ganha potência e se constitui em arte reflexiva, autocrítica, observadora das minúcias do entorno, e que traz em si a capacidade de incitar a sensibilidade no olhar, aguçar a percepção, fomentar a reflexão e despertar o senso coletivo para uma vida em sociedade harmoniosa.

A poesia transforma, transmuta a realidade, por isso faz-se importante popularizá-la e expandir ao máximo o prazer de ler esse gênero. Acreditamos que é nas redes que podemos popularizar a leitura de poemas e, com isso, despertar o interesse de quem navega no ciberespaço para o prazer da leitura.

Do papel para as telas: a poesia nas redes sociais

Um modelo que vem se fazendo presente na forma de propagar e popularizar poesia, principalmente no Instagram, são os ‘instapoemas’ ou ‘Instapoetry’ que, segundo Ulisses Oliveira e Bruna Osaki Fazano (2020) são um

[…] gênero emergente […] que se popularizou por apresentar textos curtos e, dessa forma, mais consumíveis. Os versos são comumente utilizados na literatura no âmbito da poesia que, no momento presente, está mesclada com a mídia social e os gêneros virtuais em ascensão. [...] são comuns ao gênero os versos livres e o minimalismo; quanto à temática, são recorrentes os aspectos relacionados a complexos ideológicos, a exemplo do preconceito racial, de gênero, religioso, a imigração, o universo feminino, o empoderamento e relacionamentos (Oliveira & Fazano, 2020, p. 1165-1166).

Além dele, vídeos curtos, com duração de até um minuto, ou até vídeos mais longos, que já são conduzidos para o IGTV (Instagram TV), também têm sido bastante explorados na propagação de textos poéticos. As fotografias, por sua vez, são bem mais repercutidas nessa rede social, fenômeno que, segundo Malini (2014), tem relação com o advento das telas, cuja permuta por papel vem ascendendo e trazendo com isso, uma nova forma de perceber a poesia que, apesar de possuir o mesmo conteúdo, abrange as possibilidades de participação e percepção. Segundo Vieira (2005, p. 19): “O uso da tecnologia digital para ler, escrever e divulgar informações transformou radicalmente a natureza da comunicação escrita e o letramento convencional, introduzindo novos gêneros textuais, práticas discursivas e estabelecendo um novo paradigma nas ciências da linguagem”.

Podemos notar com isso que, quando estrategicamente se constrói um elo simbólico, seja explícito, seja subjetivo com outros elementos sensoriais que não só a palavra em seu estado puro, é possível popularizar a poesia, aproximando-a em toda sua essência de público que, por muitas vezes, percebia esse gênero como arte para os instruídos, presa aos estudiosos das palavras e aos intelectuais das artes. Sua circulação sempre esteve mais ligada à propagação oral e isso talvez se deva ao fato de o texto lírico explorar a sonoridade das palavras, o que durante muito tempo fez com que a poesia estivesse apenas associada à oralidade. Ou seja, segundo essa linha: todo poema sempre esteve na verdade à espera de um ouvinte/receptor, como notamos nas palavras de Benjamin:

Quem escuta uma história está em companhia do narrador, mesmo quem a lê compartilha dessa companhia. Mas o leitor de um romance é solitário. Mais solitário que qualquer outro leitor, pois mesmo quem lê um poema está disposto a declamá-lo em voz alta para um ouvinte ocasional (Benjamin, 1987, p. 14).

No entanto, essa realidade encontra-se um tanto alterada. Em meio ao ciberespaço, a poesia tem explorado a mobilidade de uma interação onde o receptor se permite experimentar dizer o que sente diante do poema. Nas redes sociais digitais, a poesia ganha formas outras, veste novas roupas, incrementa elementos extra verbais e vemos com isso, a expansão da linguagem em uma dimensão de possibilidades que extrapola a língua escrita. A poesia não depende mais primordialmente do papel para existir e resistir, também não depende mais das letras, nem puramente da voz para ser representada. Estudando a recepção de poesia na internet, é possível perceber como ela vem sofrendo mudanças relacionadas aos meios pelos quais é produzida, e esse aspecto também está ligado ao desenvolvimento dos meios técnicos, que aumentaram substancialmente a reprodutibilidade das formas simbólicas (Thompson, 2009). Tal fenômeno pode ser comprovado ao observarmos os usos de hashtags, que nos ajudam a agrupar conteúdos que se correlacionam de alguma forma; e na possibilidade de diluir, dissolver, amalgamar diversas expressões e vertentes da linguagem, em prol da acessibilidade de comunicação ao máximo de pessoas possíveis.

Popularizar a poesia tem uma relação muito próxima com democratizar o acesso a bens culturais importantes para a formação da cidadania e, com isso, garantir acesso às outras manifestações artísticas capazes de fomentar o gosto de públicos diversos pela arte e, especificamente pela literatura, que durante muito tempo ficou a cargo de uma elite intelectual que não encontrou formas efetivas de escoá-la. Tem relação com a sensibilização do olhar de quem consome poesia, por exemplo, e se deixa levar pela lúdica sensação de se entregar a uma obra literária, de sentir o texto de prazer, o texto de fruição que desconforta e que põe em estado de perda como tão bem afirma Barthes (1996, p. 21): “[...] faz as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência de seus gastos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem”. Ao falar sobre esse tema, é importante lembrar as palavras do professor Pignatari, um dos poetas fundadores do Concretismo no Brasil, movimento que prezou pelo experimentalismo e pela visualidade das palavras. Segundo Pignatari:

Em poesia, você observa a projeção analógica sobre a lógica da linguagem, a projeção de uma ‘gramática’ analógica sobre a gramática lógica. É por isso que uma simples análise gramatical de um poema é insuficiente. Um poema cria a sua própria gramática. E o seu próprio dicionário. Um poema transmite a qualidade de um sentimento. Mesmo quando parece estar veiculando ideias, ele está transmitindo a qualidade do sentimento dessa ideia. Uma ideia para ser sentida e não apenas entendida, explicada, descascada (Pignatari, 2014, p. 18,).

E é este sentimento qualificado transmitido pela poesia que nos faz refletir sobre como o acesso à internet trouxe para as pessoas, a chance de quebrar diversos paradigmas criados pela mídia de massa. A grande mídia tornou-se alicerce de um sistema cultural mercantilista, que intervém nas escolhas pessoais dos cidadãos sobre todas as formas de comportamentos e escolhas culturais, criando falsas necessidades para uma população excluída social e culturalmente. Com a popularização da internet e a ascensão das redes sociais no início do século XXI, houve um aumento muito grande da circulação e interatividade.

Em relação à veiculação da poesia, essa ‘nova mídia’ constitui-se como uma ferramenta poderosa de propagação de arte. Podemos perceber que muitos artistas, dentre outros profissionais, migraram para o ambiente virtual. O que não impressiona ao constatar que, segundo um estudo feito em setembro de 2011 sobre redes sociais na América do Sul, pelo instituto de pesquisa ComScore, o Brasil abrigava até esse ano, 43,9 milhões de usuários em redes sociais, e isso quer dizer que 22% da população do país estava conectada à internet.

A pesquisa nos disse também que dos usuários conectados, mais de 90% acessam redes sociais. Isso nos mostra a força que tais meios de comunicação já tinham em nosso país há dez anos, e constatamos o quanto esse hábito foi se popularizando com muita intensidade. Em 2014, três anos após a pesquisa citada, 92% dos internautas se relacionavam por meio de alguma mídia social ou aplicativo de troca de mensagem instantânea: o Facebook usado por 83%, o WhatsApp (58%), YouTube (17%), Instagram (12%) e Google+, com 8% (Brasil, 2016). Em 2016, 50% dos brasileiros já utilizam a internet todos os dias da semana (Brasil, 2016).

Podemos notar que houve um aumento na intensidade do uso, o que talvez também tenha se dado devido à facilitação do acesso aos dispositivos móveis, como foi o caso do smartphone. O aparelho, naquele ano, era utilizado por 72% da população como principal forma de acesso ao mundo on-line (Brasil, 2016), o que pode ser um indicativo para justificar o tempo que os brasileiros passavam conectados nas redes sociais no período das pesquisas, que superava em 60% a média em todo o mundo. Eram cerca de 650 horas navegando nesses sites, 290 horas a mais do que a navegação em outros portais (Banks, 2015).

A grande mídia, a mídia hegemônica ou a mídia de massa, como Thompson (1998) nomeia, é a fusão de meios de comunicações que possuem como principal objetivo o lucro sobre a informação, que buscam atribuir valores comerciais às formas simbólicas. Como ainda afirma Thompson (1998, p. 35), “[...] os receptores são, pela própria natureza da comunicação de massa, parceiros desiguais no processo de intercâmbio simbólico”. Sendo assim, a popularização da internet veio para desestabilizar essa estrutura que, por muito tempo, fez-se dominante. Na rede, os usuários não só expõem suas opiniões, como também se tornam veículos midiáticos ativos e poderosos; ao passo que publicam suas opiniões, seus gostos de consumo, as coisas que lhe dão prazer e que julgam ser importantes.

A interatividade proporciona uma intensa troca e permite aos usuários envolverem-se com os conteúdos de outros usuários, deixando transparecer seus posicionamentos pessoais acerca dos temas e participando ativamente da divulgação do que mais lhes chama a atenção. Na área da literatura, artistas que outrora lidavam apenas com o papel, dedicam-se para se manterem trabalhando em meio essa nova realidade tecnológica, que depende de certo grau de letramento digital e de uma compreensão dos ganhos oferecidos à arte pela tecnologia, como descrevem Lemos e Cunha:

Artistas utilizam efetivamente as novas tecnologias, como os computadores e as redes de telecomunicação (TV e satélites), criando uma arte aberta, rizomática e interativa. Aqui, ampliando as vanguardas do século passado, autor e público se misturam. A ênfase da arte eletrônica incide, agora, na circulação de informações e na comunicação. [...] O objetivo é a navegação, a interatividade e a simulação para além da mera exposição/audição (Lemos & Cunha, 2003, p. 19).

A democratização da informação e a intensificação da expressão explícita de opiniões no ambiente da rede, é um terreno fértil para a interatividade, ao passo que determinada obra é compartilhada, “[...] o ‘espectador’ é chamado a intervir diretamente na atualização [...] de uma sequência de signos ou de acontecimentos [...] A obra virtual é ‘aberta’ por construção” (Lévy, 1999, p. 135). Esta possibilidade de participação é uma das principais características da relação entre a arte e o ciberespaço. Então, faz-se necessário entender que não se trata de uma participação trivial da construção do sentido do que se lê, assiste, ouve. Estamos falando de um processo de coprodução onde: “A convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros” (Jenkins, 2009, p. 30).

Partindo do pressuposto de que tudo é texto e que nossos olhos ‘leem’, e lançando mão do conceito de ‘texto’ abordado por Fávero e Koch (2000), que nos conduz ao entendimento de texto, no singular, enquanto uma entidade abstrata, escopo da descrição da gramática textual, marcado por uma propriedade denominada textualidade:

Os textos empíricos individuais podem ser considerados como realizações verbais (‘textualizações’) de sua textualidade. Estas noções permitem adotar a posição de que os mídia da textualização podem adquirir formas variadas, de tal modo que não só os textos verbais, mas também pictóricos, fílmicos ou quaisquer outros podem ser concebidos como ‘textos’, isto é, manifestações de uma textualidade (Fávero & Koch, 2000, p. 20-21).

Podemos então entender o ambiente das redes sociais como plataformas de textos, antes de mais nada. As postagens são textos produzidos dentro de um macro texto, que também podemos chamar de ‘perfil’. Cada post é a materialização de um discurso, o que, por sua vez, pode ser considerada uma textualidade, que nasce da interatividade em tempo real e através de linguagens que unem a escrita e a oralidade:

Pois o texto contemporâneo, alimentando correspondências on line e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorializado, mergulhado no meio oceânico do ciberespaço, esse texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitamente superior, a copresença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. De novo, os critérios mudam. Reaproximam-se daqueles do diálogo ou da conversação: pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais; brevidade, graças à possibilidade de apontar imediatamente as referências; eficiência, pois prestar serviço ao leitor (e em particular ajudá-lo a navegar) é o meio de ser reconhecido sob o dilúvio informacional (Lévy, 1996, p. 39).

A poesia jamais será um texto pronto, muito pelo contrário, a obra existe a partir das possibilidades e variedades de leituras que ela permite, como nos afirmam Iser (1996) e Jauss (1994). Sendo assim, ao exercer novas formas de leitura, o receptor está submetendo os diversos textos às renovadas possibilidades de interpretações, participando da sua cocriação, o que o coloca naturalmente em uma construção autobiográfica, que é formada pelos arquivamentos de fotografias, vídeos, de links ou de textos verbais que realiza. Subjetividades se misturam ao passo que cada publicação ocorre, e seus conteúdos, existentes através da materialidade textual compartilhada, atualizam-se no ato da leitura, no processo de interação com os receptores.

A emoção da palavra poética saltando das telas, em tempos em que elas estão por todos os lados, permite-nos uma fagulha de esperança. Precisamos reaprender a olhar para o lado, olhar para dentro, e o que mais haverá de nos ensinar sobre essa forma de observar o mundo se não for a arte? Das magias poéticas ancestrais às magias da fibra óptica, a poesia resiste! Rarefeita se refaz a cada clique. Ela, que desde sempre sublimou a essência da vida e os traços da história em versos, rimas e memórias, hoje faz-se arma de revolução, voz dos excluídos, grito de ‘socorro’ de um planeta em desespero por um pouco mais de ar. Ela, que chapisca de cores uma realidade cinza e inerte, balança as estruturas enferrujadas de um mundo em profusão.

Considerações finais

Levando em conta a riqueza de possibilidades de interações textuais ofertadas pela internet e pelas redes sociais, e tendo sempre em foco os efeitos de sentido do ‘olhar poético sobre a realidade’, compreendemos a importância da arte na vida das pessoas. Após constatada, através de dados, a potência da conectividade e o poder de expansão da rede, por meio da atualização de softwares e hardwares, amalgamando tudo isso à consciência de que a necessidade da arte se fez gritante em tempos de distanciamento social, diversos artistas, como já foi dito, buscaram formas, por meio da rede, de manterem seus trabalhos ativos e sua conexão com o público recorrente.

Um exemplo de tal iniciativa é o projeto ‘Com pão e poesia – processo criativo durante a pandemia’, que foi um dos 200 selecionados pelo edital ‘Calendário das Artes 2020 - 8ª edição’, da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). Premiado na categoria Artes Integradas, o programa, que foi apresentado nas plataformas do Youtube, da Funceb e no Instagram do proponente, e visou produzir três conteúdos de audiovisual no formato de programa de entrevista on-line, que foi apresentado pelo proponente do projeto. Este entrevistou virtualmente um artista da Música, um artista da literatura e outro do teatro, todos moradores de Feira de Santana. O objetivo foi fomentar empatia e humanidade através da expressividade, além de dar a voz a quem vive de arte e a vez ao público de dividir com o artista o peso de enfrentar uma crise tão difícil quanto a gerada pelo Covid-19. O programa foi composto por apresentações autorais e bate-papo sobre o processo criativo desses artistas diante do atual contexto de isolamento social em que o mundo se encontra.

A escolha dessas vertentes artísticas, especialmente a música e a poesia para serem veiculadas justamente na internet, permeou a intenção de traçar um elo entre expressões poéticas anteriores às redes, mas que podem ser transpostas para as telas e quem as acessa. Sabemos que a rede também pode ser chamada de ‘ciberespaço’, o que segundo Lévy (1999, p. 15) “[...] é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores”. Também sabemos que esse novo ambiente é um terreno fértil para a livre comunicação, e para compreender como está vem se movimentando em meio a sociedade da era digital. Cabe a sociedade tentar entender o que está acontecendo em meio às mudanças tecnológicas no âmbito da comunicação.

Saber percorrer e transcrever as ruas do ciberespaço, colorindo-as com arte e reflexões em dias de intensas transformações, faz-se mais que objeto de estudo, estamos falando de estratégias de sobrevivência e manutenção para a saúde mental. É muito importante que os artistas saibam conscientemente fazer o melhor uso possível das redes sociais e plataformas digitais, estreitando assim o diálogo entre quem consome sua arte e seu processo criativo. Sendo o artista classicamente a parabólica e a bússola da sociedade, o balde de tinta em meio às estradas cinzas da história, esse precisa estar afiado com os novos meios de veicular informação. Assim, muitas pessoas poderão ser tocadas pela arte e por toda expansão de percepções que esse contato proporciona e com isso, a poesia poderá se incorporar à rotina da população, sensibilizando o seu olhar sobre a realidade e descongelando o coração do homem pós-moderno, tão perto de tudo e tão longe de si.

Referências

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Notas

[1] No dia 09 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou a Covid-19 como uma doença infecciosa causada por um vírus de mesmo nome, que se espalha entre humanos. Após dois dias dessa declaração, a OMS anunciou que a Covid-19 se configurava em uma pandemia, por causa dos mais de 118 mil infectados, em 114 países, sendo 4.291 o número de mortos, até aquele momento (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2020). Uma das recomendações propostas pela OMS, como medida preventiva, foi o distanciamento social.

Notas de autor

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