Linguística

A referência à segunda pessoa na variedade rio-branquense

The second person reference in the Rio Branco dialect

Roberto Gomes Camacho
Universidade Estadual Paulista, Brasil
Marinete Rodrigues da Silva
Universidade Federal do Acre, Brasil

A referência à segunda pessoa na variedade rio-branquense

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 43, núm. 2, 2022

Universidade Estadual de Maringá

Recepción: 09 Agosto 2021

Aprobación: 28 Septiembre 2021

Resumo: Uma variável que perpassa a maioria das variedades do português brasileiro é a alternância entre os pronomes ‘tu’ e ‘você’ para referir-se ao interlocutor, fenômeno que vem sendo abordado por diferentes pesquisadores variacionistas, entre os quais se destacam Menon (2000), Corrêa (2002), Lorengian-Penkal (2004), Lucca (2005), Dias (2007), Lopes (2007) e Franceschini (2011). O objetivo deste trabalho é enfocar essa alternância na variedade rio-branquense, com a finalidade específica de examinar se o fenômeno investigado é um caso real de variação em que a seleção de uma das variantes pode representar uma marca de identidade social em virtude da possível atribuição de prestígio ou estigma ou se, alternativamente, trata-se de um caso real de escolha funcional em que as duas formas se alternam para produzir diferentes efeitos discursivos em termos de determinação da referência à segunda pessoa. A investigação das formas ‘tu’ e ‘você’ tem por base o Banco de Dados do Projeto Estudo da Fala Urbana de Rio Branco, composto por relatos de experiência pessoal, coletados e transcritos pelo Grupo de Pesquisa Ecossistema Linguístico do Acre. Os resultados apontam para uma expressiva predominância de ‘você’ na referência indeterminada. Quando se consideram os dados da referência determinada, a preferência por ‘você’ está reservada predominantemente ao uso de informantes com escolarização superior, e a preferência por ‘tu’, ao uso de informantes com ensino fundamental e médio. Essa distribuição sinaliza claramente a atribuição de um valor de prestígio ao uso do pronome ‘você’. Identificaram-se alguns casos de enunciados contendo discursos reportados, um contexto potencialmente acessível a diferentes relações de papel entre os interlocutores envolvidos. Nesse contexto, escolher ‘tu’ ou ‘você’ é motivado pela situação de interação mediante o uso de ‘você’ para indicar valores de distância e formalidade e o uso de tu para indicar valores de familiaridade e informalidade.

Palavras-chave: Variação sociolinguística, pronome de 2ª pessoa, referência determinada, referência indeterminada.

Abstract: A variable that runs through almost all Brazilian Portuguese dialects is the alternation between the pronouns ‘tu’ and ‘você’ to refer to the interlocutor, a phenomenon that has been addressed in by researchers from different theoretical perspectives, including Menon (2000), Corrêa (2002), Lorengian-Penkal (2004), Lucca (2005), Dias (2007), Lopes (2007) and Franceschini (2011). This paper aims at focusing on this alternation in the in the variety of Portuguese spoken in Rio Branco, Acre, with the specific purpose of examining whether this phenomenon is a case of true variation in which the selection of one of the variants may represent a mark of social identity by virtue of a possible assigning of prestige or stigma or whether, alternatively, it is a case of a truly functional choice in which both forms alternate to yield different discursive effects in terms of determining the reference to the second person. The investigation of ‘tu’ and ‘você’ departs from the database collected by the project Estudo da Fala Urbana de Rio Branco, which is composed of narratives of personal experience. This corpus was elicited and transcribed by researchers of the Grupo de Pesquisa Ecossistema Linguístico do Acre. The results point to an expressive predominance of ‘você’ in undetermined reference. When determined reference is at issue, the use of ‘você’ is preferred by informants with higher education level, and the use of ‘tu’ is preferred by informants with elementary and high school education level. This distribution clearly shows the assigning of a prestige value to the use of ‘você’. Some cases of reported speech utterances were identified which represent a context potentially accessible to different role relationships between the interlocutors involved. In this context, choosing ‘tu’ or ‘você’ is motivated by the interaction situation: ‘você’ is used to indicate distance and formality and ‘tu’ is used to indicate familiarity and informality.

Keywords: Sociolinguistic variation, 2nd person pronoun, determined reference, undetermined reference.

Introdução

O advento da sociolinguística, no final dos anos 50 e início dos 60 do século XX, representou a emergência de um novo modelo de estudos, que passou a olhar a língua como um objeto heterogêneo. Assumir a heterogeneidade implica reconhecer também que o fenômeno da variação torna a língua um objeto vivo e dinâmico em processo evolutivo ininterrupto, sujeito a variação e mudança. Com efeito, um pressuposto básico da sociolinguística variacionista é o de serem variação e mudança propriedades inerentes ao sistema linguístico e reguladas por restrições estruturais e sociais, passíveis de sistematização (Labov, 2008 [1972];Weinreich, Labov & Herzog, 2006 [1968]).

Uma variável particular que perpassa as variedades do Português Brasileiro é a alternância entre os pronomes ‘tu’ e ‘você’ para referir-se ao interlocutor. Esse fenômeno, que constitui o objeto deste trabalho, vem sendo abordado por diferentes pesquisadores da linha variacionista, entre os quais se destacam Menon (2000), Corrêa (2002), Lorengian-Penkal (2004), Lucca (2005), Dias (2007), Lopes (2007) e Franceschini (2011). Esses trabalhos mostram que a referência ao interlocutor varia entre o uso de ‘tu’ e ‘você’, ‘o(a) senhor(a)’ e as respectivas formas de objeto e de oblíquo.

Scherre, Dias, Andrade e Martins (2015) realizaram um mapeamento sociolinguístico da variação dos pronomes ‘tu’ e ‘você’, mostrando que, em alguns espaços geográficos, como o das regiões Sul, Norte, Nordeste e Centro-Oeste, constata-se a existência de alternância entre ‘tu’ e ‘você’; em outros, como o da região Sudeste, incluindo o Espírito Santo, as variedades correspondentes se limitam ao uso de ‘você’. Menon (2000), por sua vez, argumenta que é um equívoco afirmar que esse pronome, uma antiga forma de tratamento, já teria substituído o uso de ‘tu’ na maior parte do Brasil em favor da ideia de que o uso de ‘tu’ e ‘você’ constitui ainda um fenômeno variável, com o que concordamos totalmente.

O estudo dialetológico de que resultaram as cartas morfossintáticas sobre ‘tu’ e ‘você’ de referência ao interlocutor, publicado no Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) (Cardoso et al., 2014 ), mostra que as regiões Norte e Nordeste preservam a alternância entre ‘tu’ e ‘você’, com exceção da variedade falada em Salvador, em que é unânime o uso de ‘você’. Nas variedades com alternância, os dados analisados apontam para o favorecimento do pronome ‘você’, inclusive na cidade de Rio Branco, capital do Acre, cujos valores percentuais estão entre 25 e 50% para o uso de ‘tu’ e entre 51 e 75% para o uso de ‘você’ (Cardoso et al., 2014). Concorda com esse resultado o estudo de Scherre et al. (2015), que, ao chegar a uma síntese dos subsistemas detectados no país, identifica a variedade acreana como um subsistema ‘você/tu’ sem possibilidade de concordância, diferentemente de outras variedades do Norte. O epíteto ‘sem possibilidade de concordância’, cunhado pelas autoras, inclui as variedades dialetais em que o uso de ‘tu’ ativa a concordância da terceira pessoa não marcada: ‘tu vai’ e vez de ‘tu vais’.

O fato de os resultados do ALiB apontarem, portanto, para a existência de diversidade no uso das formas ‘tu’ e ‘você’ no português brasileiro foi uma justificativa mais do que suficiente para propor um estudo dessa variável na variedade falada em Rio Branco, capital do Acre (Silva, 2019), do qual resulta este trabalho, em que, diferentemente das outras pesquisas acima mencionadas, o uso das variantes se limita à posição de sujeito.

Como os dados estatísticos do ALiB não distinguem os diferentes usos das duas variantes em foco, conhecer a realidade sociolinguística da variedade rio-branquense depende de uma separação, metodologicamente orientada, em primeiro lugar, do uso indeterminado de ‘tu’ e ‘você’ para, só em seguida, examinar qual é de fato a variante favorecida quando é a referência determinada que está envolvida no uso. Este é o objetivo específico deste trabalho.

A hipótese linguística mais geral que se quer verificar é se se confirma ou não a possibilidade de haver alguma especialização no uso de uma ou de outra forma em relação ao tipo de referência – determinada ou indeterminada, o que poderia indicar escolhas funcionalmente orientadas. Ou, se o uso de uma ou de outra forma seria indiferente ao grau de determinação, o que poderia indicar um caso de variação na variedade acreana. Além disso, se, na referência determinada, haveria alguma especialização que favoreceria o uso de ‘tu’ em situações mais familiares, em atenção ao fato de que “[...] ‘tu’ pode não ocorrer como primeira opção nas relações interacionais iniciais entre não pares e/ou não íntimos” (Scherre et al., 2015, p. 158).

O percurso que se pretende trilhar para atingir esses objetivos está organizado da seguinte maneira: a segunda seção discute a natureza da referência de uma perspectiva textual-discursiva, incluindo a natureza determinada e indeterminada da referência dos pronomes ‘tu’ e ‘você’; a terceira seção traz os procedimentos metodológicos que orientam a investigação; a quarta seção apresenta os resultados do uso de ‘tu’ e ‘você’ em relação à natureza determinada e indeterminada da referência; a quinta seção se circunscreve à análise da variável em relação à referência determinada. Seguem-se as Considerações Finais com algumas generalizações e implicações teóricas.

A natureza textual-discursiva da referência

O conceito de referência é um tema clássico da Filosofia da Linguagem, da Lógica e da Linguística, molduras em que o fenômeno foi historicamente enquadrado como um problema de representação do mundo, de verbalização do referente, em que as formas linguísticas selecionadas são avaliadas em termos de verdade e de correspondência com o mundo (Koch, 2015). No entanto, o uso da expressão ‘referência’ imprime a ela um valor diverso do que lhe atribui a literatura semântica em geral, especialmente a de fundamento lógico. Referir, para Koch e Marcuschi (1998), não se confinaria mais com a atividade de ‘etiquetar’ um mundo existente e inicialmente designado, mas um processo discursivo em que os referentes passam a ser objetos de discurso e não realidades independentes.

Diferentemente, portanto, da tradição lógico-semântica, entende-se a referenciação como uma atividade discursiva, em que o sujeito da interação verbal opera sobre o material linguístico disponível, realizando escolhas em função de um querer-dizer. É por essa razão que o processamento do discurso, tal como manifestado por sujeitos sociais atuantes, é um “[...] processamento estratégico” (Koch, 2015, p. 35). Entendida a referência como uma ação estratégica dos interlocutores, a expressão referencial dêitica ou anafórica consiste não simplesmente em apontar para um objeto específico no mundo ou um segmento linguístico do texto (um ‘antecedente’), mas, antes, para algum tipo de informação anteriormente alocada na memória discursiva (Koch, 2015).

Nenhum ato de referência se dá fora do tempo, do espaço e de uma relação de interlocução. Em outras palavras, a referenciação não ocorre no vácuo e não se restringe apenas à atividade do locutor, como um selecionador solitário das expressões referenciais. Pelo contrário, sempre situado, o ato de referência envolve uma operação colaborativa dos parceiros da interação, que constroem os referentes ‘no’ e ‘pelo’ discurso, atividade linguística ao mesmo tempo pragmática e sociocognitiva, ligada, acima de tudo, à interação e à intersubjetividade (Zamponi, 2015).

A variedade de categorias sociais mostra que há sempre muitas possibilidades de identificar uma entidade, sem qualquer crédito, segundo Mondada e Dubois (2003), a uma noção como a de estabilidade de referência. Com efeito, dependendo do contexto ou do ponto de vista, a referência perde sua estabilidade potencial tornando-se instável. A instabilidade de categorias se liga à natureza de suas respectivas formas de ocorrência, situadas, por sua vez, em práticas sociais dependentes do processo de enunciação e de atividades cognitivas. É justamente esse caráter instável que permite identificar formas determinadas e indeterminadas de referência à pessoa não subjetiva, conforme diz Benveniste (1976). Como se sabe, esse autor identifica a pessoa subjetiva com o modo de o locutor referir-se a si próprio no discurso, e a pessoa não subjetiva com o modo de referir-se ao interlocutor.

O uso da referência determinada, a categoria não marcada, identifica-se, em geral, pela forma direta com que a(o) falante se refere (à) ao interlocutor(a), de modo que o referente é conhecido e definido na situação de interação verbal. Entende Corrêa (2002) que a referência determinada identifica indivíduos específicos, e os usos de dêiticos constituem um subconjunto desse emprego, já que a identificação dos indivíduos é determinada pela situação de fala, conforme se constrói a referência.

Tratando da referência determinada, pode-se invocar Neves (2011), segundo a qual a forma dêitica ‘tu’ se restringe à função de sujeito, como mostra o exemplo (1), enquanto a forma dêitica alternativa ‘você’ em (2) e o plural ‘vocês’ em (3) se referem à 2ª pessoa do discurso, ocupando não apenas a posição de sujeito, como se dá com ‘tu’[1], mas também a de objeto e de oblíquo e, diversamente de ‘tu’, levando o verbo para a concordância na 3ª pessoa, como ocorre com os verdadeiros pronomes de tratamento, como ‘Vossa Senhoria, Vossa Excelência, o(a) senhor(a)’, ilustrado no exemplo (4).

1. “Tu vais adiante; logo mais eu sigo, se não morrer neste amanhã” (Neves, 2011, p.452).

2. “Você se arrependeu, pagou um pouco dos seus pecados, sofreu- deve ter sofrido bastante -, e foi perdoada” (Neves, 2011, p. 458).

3. “Vocês servem mal, mas a comida é ótima” (Neves, 2011, p. 458).

4. “O senhor serve mal, mas a comida é ótima”[2].

É comum na língua falada o uso de ‘você’ de terceira pessoa ser acompanhado de oblíquos de segunda, de tal modo a provocar uma mistura de formas de referência pessoal (Neves, 2011), conforme se vê em (5).

5. “A única coisa que te peço é que não vá magoá-la: você é o seu primeiro entusiasmo, o seu primeiro flerte!” (Neves, 2011, p. 458).

Já a interpretação da referência indeterminada requer, inicialmente, a discussão de alguns conceitos fundamentais, entre os quais se destacam os de indeterminação, indefinição e impessoalidade.

Ao tratar do conceito de indefinição, Neves (2011) considera que os pronomes indefinidos são palavras não fóricas por não exercerem a função de instruir a busca de recuperação semântica no texto ou na situação discursiva. Uma palavra indefinida não é necessariamente indeterminada, já que ser indefinido significa ser não particularizado, não restrito, como em (6).

6. “Todo homem é mortal” (GES) (Neves, 2011, p. 533).

Nesse exemplo, o SN ‘todo homem’ tem referência determinada por ser tomado em toda sua extensão, mas não definida, por não haver nenhum referente especificado na proposição. Tradicionalmente compõem a categoria dos pronomes indefinidos elementos de natureza heterogênea, que, no entanto, dispõem de um traço comum, o de indefinição semântica (Neves, 2011).

No tratamento da referenciação, Neves (2011) menciona que a(o) falante dispõe de diversas possibilidades de indeterminação, dentre as quais destaca o uso de ‘você’ como estratégia para indeterminar o sujeito. Pode-se afirmar, portanto, que, nesse caso, um sintagma nominal (SN) contendo essa modalidade de uso tem referência indeterminada, indefinida ou genérica. Essa conceituação de Neves (2011) permite deduzir que a noção de indeterminação está fortemente relacionada aos pronomes de referência à segunda pessoa, os pronomes ‘tu’ e ‘você’, embora o que esteja de fato indeterminado é o referente, tal como construído na situação comunicativa.

Quanto à impessoalidade, não há muita unanimidade sobre o conceito, principalmente quando se trata de construções consideradas como genéricas e vagas, que, segundo Souza (2013), podem ser identificadas como construções impessoais. As noções envolvidas com os traços [específico], [genérico] e [arbitrário] têm um estatuto importante na definição da impessoalidade. Dessa maneira, quando estiver envolvido com a referência, o traço [+ específico] indica que a(o) falante tem em mente uma entidade particular.

Quando, por outro lado, o traço [+ genérico] estiver envolvido, a(o) falante se refere a uma classe de seres e objetos que não podem ser identificados separadamente pelo interlocutor, apesar da capacidade potencial de identificar a referência, como ilustra o exemplo (7).

7. “Brasileiro gosta de futebol” (Souza, 2013, p. 59).

Afirmar que um referente é genérico não significa afirmar sua indeterminação, já que se deve entender a referência do termo ‘brasileiro’ em (7) como determinada por ter sido tomada em sua totalidade. O que ocorre, no entanto, é que o referente de ‘brasileiro’ não está definido, e a referência da expressão se dá como genérica por não conter informação de que brasileiros em particular apreciam futebol.

Já o traço [+ arbitrário] envolve a ausência de uma identificação única dos referentes de uma dada expressão linguística, como se dá no exemplo (8), em que a forma pronominal ‘você’ tem de fato uma interpretação indeterminada (arbitrária), indefinida ou genérica, por abarcar todos os referentes possíveis, mas nenhum em particular.

8. “Você tem o Palácio das Artes em BH” (Souza, 2013, p. 59).

Neves (2011) tem uma concepção similar a essa por considerar que ‘você’ pode ser usado também na referenciação genérica, mas, ao acrescentar uma possibilidade de gradação, separa a indeterminação com formas pronominais de 2ª pessoa de outras em que o verbo aparece na 3ª pessoa acompanhado do ‘se’ reflexivo com função indeterminadora, como ‘fala-se muito em impeachment’.

O enfoque da referência permite entender por que as entidades do mundo referenciadas na língua devem ser vistas como objetos do discurso, caso em que é principalmente o contexto enunciativo que vai permitir afirmar a que se referem esses elementos linguísticos, mais especificamente, os fenômenos enfocados neste estudo, ‘tu/você’, sobretudo porque a gramática tradicional não assume um ponto de vista descritivo, não contemplando, portanto, as dimensões de análise de um estudo variacionista ou discursivo. E, como entende Koch (2015), referir é uma atividade discursiva, ligada a condições pragmáticas, que pressupõe a designação de um elemento do universo discursivo que se dá, por sua vez, numa interação dialógica entre quem enuncia e a quem se dirige o enunciado. Nesse domínio, ‘tu e você’ podem se referir a pessoas não subjetivas do discurso, mais genericamente, a qualquer pessoa menos o enunciador.

Procedimentos metodológicos

A investigação das formas ‘tu e você’ tem por base o Banco de Dados do Projeto Estudo da Fala Urbana de Rio Branco, atual capital do Estado do Acre, composto por relatos de experiências pessoais, coletados e transcritos entre 1998 e 2011 pelo Grupo de Pesquisa Ecossistema Linguístico do Acre (GELAC), de acordo com as técnicas de levantamento postuladas por Labov (2008) [1972]) para contornar o chamado ‘paradoxo do observador’. Esse procedimento forneceu à pesquisa um total de 96 entrevistas contendo narrativas de experiência pessoal.

É um conceito firmado na tradição sociolinguística que uma variável constitui um conjunto de duas ou mais variantes e que “[...] variantes linguísticas são diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade” (Tarallo, 1985, p. 8). Não é esse o conceito que se assume aqui, mas o de comparabilidade funcional, postulado por Lavandera (1978), já que considerar o valor de verdade com significado absoluto serviria apenas para enquadrar a variável ‘tu’ e ‘você’ em contexto de referência determinada sem qualquer apelo ao contexto de dupla referenciação, determinada e indeterminada, em que a seleção de cada variante pode ser motivada pela natureza da referência no processo de comunicação.

Para a análise das ocorrências de alternância dos pronomes ‘tu’ e ‘você’ na variedade rio-branquense, empregou-se o pacote estatístico Goldvarb X (Sankoff, Tagliamonte, & Smith, 2005), um modelo matemático que fornece frequências e pesos relativos dos diversos grupos de fatores que potencialmente motivam usos das variantes da variável dependente.

Para uma variável dependente binária, como a que se investiga aqui, consideram-se favorecedores os valores superiores a 0.5 e desfavorecedores os valores inferiores a 0.5. Quanto à questão da significância, o programa trabalha com uma margem de erro de 0.5, de modo que qualquer fator com significância acima de 0,95 é considerado estatisticamente, relevante pelos critérios estabelecidos pelo programa (Guy & Zilles, 2007).

A opção pelo programa Goldvarb X se justifica pelo fato de que ele permite desenvolver várias rodadas de processamento. A primeira rodada inclui tanto a referência determinada quanto a indeterminada, etapa que testa a hipótese funcional do trabalho. A segunda rodada se volta para a variável na referência determinada, situação em que ‘tu’ e ‘você’ consistem em duas variantes com o mesmo valor de verdade, na versão clássica da teoria variacionista.

Além disso, assume-se aqui o postulado de Labov (2008 [1972]) de que só é possível explicar e descrever os fenômenos da língua quando as variáveis dependentes forem consideradas tanto em relação aos contextos linguísticos quanto aos contextos sociais, um posicionamento que define o caráter probabilístico da variação. Para Labov (2008 [1972]), qualquer variável sistemática é motivada por pressões sociais; é por isso que, na opinião do autor, não se deve estudar a língua fora de seu contexto de uso. Com base nisso, analisam-se os casos de referência dos pronomes ‘tu’ e ‘você’ considerando-se os pressupostos de Labov (2008 [1972]), que correlacionam grupos de fatores independentes de natureza interna e externa com cada ocorrência das variantes de uma variável tomada como dependente.

Como o objetivo da pesquisa é analisar a variação no modo de tratar a segunda pessoa do discurso, as variáveis dependentes são, por definição, os pronomes ‘tu’ e ‘você’, circunscritos, no entanto, à função de sujeito. Considerando que essas formas servem à referência dêitica da pessoa não subjetiva (Benveniste, 1976), é um aspecto relevante da análise verificar, como já mencionado, o comportamento da variação em relação à natureza da referência, se determinada ou se indeterminada; esse aspecto é um domínio relevante do fenômeno variável investigado, especialmente para confirmar ou não se ele consiste num caso de variação, num caso de escolha funcional ou, ainda, num caso de variação e ao mesmo tempo de escolha funcional.

A variável em relação à natureza determinada e indeterminada da referência

O objetivo da análise do grau de determinação é investigar as situações em que o informante lança mão das formas ‘tu’ e ‘você’ para referir-se explicitamente à segunda pessoa do discurso, ou para indeterminar a referência, um uso que leva em conta os pronomes pessoais, sem precisar-lhes, contudo, a que pessoas do discurso se referem. Elencam-se, em (9-10), alguns exemplos retirados das ocorrências coletadas e analisadas de referência determinada, mediante o uso de ‘você’ em (9) e o de ‘tu’ em (10).

9. “Você viu qui esse ano nem praia tevi” (62GHlFAy)[3].

10. Aconselha... semana passada ele falou para mim “se tu fô namorá ‘tu’ presta atenção (21GfFcOa).

A seguir, apresentam-se casos detectados no corpus de referência indeterminada, circunscrevendo-se o exemplo (11) ao uso de ‘você’ e o (12) ao de ‘tu’.

11. Rapaz, muita gente critica, mas tá bom, pelo menos você conhece a pessoa... Você namora tal, fica bem envolvido, aí se você ver que não dá certo... aí parte pra outra... de primeiro não, você tinha qui casá sem nem conhecer a pessoa... aí depois di casadu descobria qui a pessoa nãu era aquilu qui você esperava... Aí pra separar ficava mais complicadu (38GHFJAa).

12. Porque tem vez oh hoje eu vi gazeta alerta, o caso dum cara que a filha dele morreu. Aí botaram a culpa nele, sendo que quem tinha feito a filha dele morrer era a mãe, aí eu acho injustiça, não tem prova como é que a pessoa vai falar assim é tu o culpado, aí eu não acho certo (11GHFJAw).

O contexto discursivo permite substituir as formas de 2ª pessoa em (11) e (12) por ‘uma pessoa, seja ela qual for’, o que se conformaria com o uso potencial de ‘a gente’ na mesma situação.

O que esses resultados permitem deduzir é que, de fato, nenhuma das duas formas pronominais dispõe de referência única e absoluta ao interlocutor. Se o uso das formas ‘tu’ e ‘você’ veicular diferentes valores, não se trata, nesse caso, de variação, mas de uma escolha funcional, consistindo, como defende Lavandera (1984), em uma seleção do falante, determinada por seus propósitos de comunicação no processo de interação.

No ato de dizer, o falante não desenvolve apenas sua competência linguística, mas, junto com ela, sua competência comunicativa, que está influenciada por todos os elementos que envolvem os contextos linguístico, social e discursivo. É também, por isso, que, conforme discutido, a referência não é um produto pronto e acabado, mas um objeto de discurso, na medida em que o falante projeta valores específicos às formas linguísticas em cada situação de uso.

Vejamos, agora, na Tabela 1, os resultados quantitativos da variável dependente em relação à natureza da referência.

Relação entre a variável e a natureza da referência dos pronomes.
Tabela 1.
Relação entre a variável e a natureza da referência dos pronomes.
Adaptado de Silva (2019).

Em termos de média percentual, os dados apontam para o uso majoritário de ‘você’ seja na referência determinada (60,4%), seja na referência indeterminada (85,7%), embora nessa segunda situação essa predominância seja comparativamente mais significativa. Quando se olha para os dados sob a perspectiva do peso relativo, constata-se que o uso da forma pronominal ‘tu’ é preferido pelo falante rio-branquense nas situações de referência determinada, como indica o PR de 0.64 (55/139). Constata-se exatamente a situação inversa quando a atenção se volta para o pronome ‘você’, cujo uso é altamente favorecido no contexto de referência indeterminada, evidenciado pelo PR de 0.69 (84/98).

A situação de referência indeterminada favorece, portanto, o uso de ‘você’, e a situação de referência determinada, o de ‘tu’. Independentemente do tipo de referência, no total dos dados, o uso de ‘você’ tem incidência bem mais elevada que o de ‘tu’, correspondendo a 70,6% (156/221) das ocorrências, contra 29,4% (65/221) de ‘tu’.

Uma dedução óbvia da discussão desses dados é a de que a variedade rio-branquense se caracteriza pela existência de uma clara correlação entre a frequência de uso de ‘tu’ e ‘você’ e a natureza da referência nos seguintes termos: se determinada, seleção majoritária de ‘tu’; se indeterminada, seleção majoritária de ‘você’. Essa correlação confirma uma das hipóteses principais deste trabalho, a de que a distribuição dessas duas formas indica a existência de um viés funcional quantitativamente significativo, senão em termos de frequência, pelo menos em termos de peso relativo, o que ainda demonstra tratar-se de um caso de variação. No entanto, para dar continuidade ao processamento estatístico dos dados, a funcionalidade de uso requer o controle da referência determinada como variável independente, procedimento no escopo da próxima seção

A variável em relação à referência determinada

Em face da distribuição discutida na seção anterior, o interesse se volta agora para o uso das duas variantes na referência determinada, olhando-se, inicialmente, para o contexto das relações interpessoais. Esses dados receberão um tratamento mais qualitativo; mais adiante, porém, na Tabela 3, nossa atenção se volta para a relação entre o uso de ‘tu’ e ‘você’ em relação à escolaridade com dados estatisticamente mais robustos.

No contexto das relações interpessoais, a escolha das formas de tratamento pode exprimir relações de poder e de solidariedade (Brown & Gilman, 1960), mediante uma relação entre a natureza mais informal ou mais formal das relações interpessoais e o sistema de papéis sociais. Com efeito, os membros de uma comunidade de fala podem indicar sua atitude em relação ao grau de prestígio dos interlocutores mediante vários procedimentos. Dentre eles, sobressai a alternância na seleção de formas dêiticas de segunda pessoa que determina se a atitude indica, de modo geral, deferência ou familiaridade de acordo com a identidade social dos participantes e as circunstâncias sociais da interação (Camacho, 2015).

O mecanismo linguístico mais comumente empregado para exprimir essas modalidades dêiticas é o modo de se dirigir ao interlocutor, representando-o no enunciado por formas como ‘tu/você’ e ‘o(a) senhor(a’. Prevalecendo uma relação socialmente assimétrica, o procedimento linguístico que se emprega para exprimi-la consiste no padrão não recíproco, segundo o qual o indivíduo em posição inferior emprega ‘o(a) senhor(a)’ e recebe em troca ‘tu’ ou ‘você’, conforme a variedade linguística. Prevalecendo uma relação socialmente simétrica, o procedimento linguístico disponível conduz a um padrão recíproco mediante o emprego de ‘tu’ ou ‘você’.

A essa alternância de formas no padrão recíproco correspondem duas outras dimensões semânticas referentes ao grau de formalidade das relações: a troca mútua de você ou tu configura uma relação de intimidade entre iguais, ao passo que a troca mútua de ‘o(a) senhor(a)’, uma relação de deferência entre iguais (Camacho, 2015). Outra possibilidade na troca mútua é o uso de apenas ‘tu’ e ‘você’, não ‘o(a) senhor(a)’, com a possibilidade de ser ‘tu’ a forma dirigida a interlocutores mais íntimos e ‘você’, a interlocutores mais distantes.

Buscando examinar esse padrão de atribuição social, Scherre, Yacovenco e Scardua (2018) estudaram as formas de tratamento nas cartas pessoais de Oswald Cruz Guimarães, escritas no começo do século XX. Os resultados a que chegam as autoras dão evidência de que se usam as formas pronominais ‘tu’ e ‘você’ apenas no contexto familiar mais íntimo, situação que representa cartas enviadas à esposa e ao irmão.

Passando, então, a analisar o tópico discursivo, entendido como o conteúdo do evento comunicativo, Scherre et al. (2018) identificam os tópicos amor, pedido, notícia e crítica. As autoras observam que é ‘tu’ que representa maior grau de intimidade, uma vez que seu emprego é mais frequentemente detectável justamente nos tópicos amor e pedido, de maior envolvimento emocional, restando a ‘você’ exprimir distanciamento justamente por ser usado nos tópicos de menor grau de envolvimento emocional entre os interlocutores: os de notícia e crítica.

Para investigar também o modo como as relações interpessoais no discurso da comunidade de Rio Branco interferem no uso de ‘tu’ e de ‘você’, enfocam-se aqui as relações de papel[4] entre os interlocutores em três domínios discursivos, identificados como familiar, escolar e profissional (Fishman, Cooper, & Newman, 1971). O domínio familiar inclui não apenas relações de parentesco, mas também outras com diferentes de informalidade, que incluem relações de amizade na vizinhança física.

Centrou-se o olhar nos enunciados contendo discursos reportados, contexto em que é possível examinar o modo como diferentes relações de papel entre os interlocutores podem motivar o uso das formas de referência determinada. Foi detectado um total de 56 casos de discurso reportado, cuja distribuição da variável por domínio discursivo e por relações de papel está contida na Tabela 2.

Relação entre formas de referência à segunda pessoa e domínios discursivos.
Tabela 2.
Relação entre formas de referência à segunda pessoa e domínios discursivos.
Adaptado de Silva (2019).

O domínio familiar contém relações simétricas e relações assimétricas determinadas pelas relações de papel no contexto social. Nas situações em que os interlocutores envolvidos exercem o mesmo papel em relações simétricas e familiares, os resultados favorecem o uso de tu, como nos exemplos (13) e (14), que se afiguram casos de discursos reportados entre irmãos e entre cônjuges, respectivamente.

13. “[...] aí minhas irmãs disseram: vai que tu consegue” (64GfMJAa).

14. “[...] aí meu pai falô: É quem sabe é tu’(64GfMJAa).

Nas situações de discursos reportados envolvendo amigos, uma relação simétrica, portanto, a probabilidade de uso é igual para as formas ‘tu’ e ‘você’, mas, nas situações em que se detecta certo grau de distanciamento entre os envolvidos, é unânime a preferência pelo uso de ‘você’, como nos casos de discurso reportado entre vizinhos, mostrados em (15-16), e entre cunhados, mostrados em (17-18).

15. “[...] às vezi sempri eu falu prua colega mia ali. Ninguém tem raiva de mim, ela disse: como que alguém vai ter raiva de tu minina, qui você é ua pessoa muitu especial” (33GfMJAa).

16. “[...] quem me avisou que eu tinha passado foi as amigas mesmo, que me ligaram dizendo tu passou, eu passei na primeira faze” (47GHSJOa).

17. “[...] eu chegava pra eli e dizia: e você Jaí tá bom?” ( (61GHMlAa).

18. “Eli disse não vizinha, se você subesse o meu aperreio qui eu tô você não perguntava si eu durmu, si eu não durmu você não deixa de durmi qui você não tá no meu lugá si você tivesse no meu lugá num perguntava isso não [...]” (92GfFIAa).

Nos discursos reportados com relações de papéis envolvendo pais e filhos, prevalece o uso de ‘tu’ ou de ‘você’ quando o interlocutor é o filho, como mostram os exemplos (19) e (20).

19. “Aí minha mãe disse assim: si você não pegá você vai apanhar u dobro, vai apanhá por você e por eli” (63GfMxAa).

20. Aconselha... semana passada ele falou para mim “se tu fô namorá tu presta atenção” (21GfFcOa).

Na situação inversa, em que os filhos é que se dirigem aos pais, os dados apontam para percentuais iguais de uso de ‘tu’ e de ‘você’; num único caso, todavia, mostrado em (21), o filho usa a forma ‘o senhor’ para se dirigir ao pai, um caso evidente de relação assimétrica, em que prevalece uma relação de poder e respeito, não de solidariedade.

21. [...] aí eu disse não fale mais não que eu vou mimbora, eu não vô querê mais ele não o sinhô fique com as duas minina qui o Genival eu vô levá eu vô dá um jeito na minha vida aí o sinhô fique cum elas aí. (91GfFIAa).

No domínio profissional, em que os discursos reportados envolvem relações de papel entre médico e paciente, há uma distribuição equilibrada entre ‘tu’ e ‘você’. Já quando as relações sociais envolvem os papéis de patrão e empregado, uma relação socialmente assimétrica, emerge o uso dos pronomes ‘tu/você’ e ‘o(a) senhor(a)’.

O mecanismo linguístico empregado para representar o caráter socialmente assimétrico da relação consiste num padrão não recíproco, em que o interlocutor em posição inferior, o empregado, emprega a forma de tratamento ‘o(a) senhor(a)’ e recebe em troca ora o pronome ‘tu’, ora o pronome ‘você’ do interlocutor em posição superior, o patrão. Os exemplos (22-24) mostram os trechos dos discursos reportados que favorecem essas escolhas.

22. Por que você tá aqui até hoje? Aí eu falei assim: a tô esperando ganha nenê né. (64GfMJAa).

23. aí quando foi um dia eu digo diretora... Ela disse ah Zé ispera aí qui eu falu já com você. Tá bom isperu diretora. Zé sobi aqui na cuzinha, eu digo nãu sinhora, a sinhora vá me discupá mais é proibido nois subi aí, assim foi o que a sinhora me disse quando eu cheguei aqui e eu não sô melhó do que us zôtu nãu, eu tava isperando pa dá uma cutucada nela, pois bem... Aí diz ela: nãu é qui eu vi que você num comeu, sê quê? Eu trôxe essi prato aqui pra você (85GMFIAa). 24. Eu digu tudu bem. E com o senhor? Tudu bem. O quê qui tu anda fazendu? Aí eu olhei pra cara deli e disse: O sinhô sabe o qui eu andu fazendu...

Ela dissi: Zé mas tu só fica olhandu. (85GMFIAa).

A relação de deferência emerge também em outros contextos em que prevalece uma relação assimétrica, como o de discursos reportados por indivíduos que exercem papéis sociais diferentes na hierarquia militar, como os de coronel e de cabo; essa situação social motiva uma preferência pelo padrão não recíproco de referência determinada mediante o uso do pronome de tratamento ‘o senhor’ para referência ao superior, como ilustram os exemplos (25) e (26).

25. Eu digu tudu bem cum sinhô? ele dissi: tudu bem u quê qui tu anda fazendu? Aí eu olhei pa cara dele e disse: o sinhô sabi u qui eu andu fazendu... (85GMFIAa).

26. Si o senhor não melhora nossa comida aí eu vô buta veneno... (refere-se ao cabo) (85GMFIAa).

Nas relações sociais em que os papéis envolvidos são os de professor e aluno, predomina o uso recíproco de ‘você’, o que se justifica na própria natureza da estrutura do sistema escolar, que é, em geral, sustentada por relações mútuas de deferência. A existência de um distanciamento formal entre os interlocutores requer o uso de ‘você’ na variedade rio-branquense como uma variante mais adequada que o uso de ‘tu’.

Como se vê, a análise da relação entre formas de referência determinada e os papéis sociais dos interlocutores se baseia numa amostragem mais qualitativa que quantitativa. Sem contar com um número massivo de dados, foi possível, mesmo assim, dar evidência de relações com tratamento deferencial detectadas em situações formais e relações com tratamento não deferencial detectadas em situações informais. Os resultados da relação entre o uso dos pronomes e as situações de interação revelam que o uso do pronome ‘tu’ emerge em contextos íntimos e informais, em que predomina a dimensão da solidariedade, e o uso do pronome ‘você’, em contextos formais denotando relações de respeito e formalidade, em que predomina a dimensão do poder.

Se a atenção se voltar para dados estatisticamente mais robustos, é possível compará-los com esses resultados de base qualitativa justamente discutidos. A Tabela 3 mostra os resultados da relação entre a variável ‘tu’ e ‘você’, limitada à referência determinada e o grupo de fatores escolaridade.

Relação entre escolaridade e a variável ‘tu/você’ na referência determinada
Tabela 3.
Relação entre escolaridade e a variável ‘tu/você’ na referência determinada
Adaptado de Silva (2019).

Os dados da Tabela 3 mostram que predomina o uso da forma pronominal ‘você’ na comunidade rio-branquense no registro falado dos informantes de todos os níveis de escolaridade, quando se olham os resultados apenas sob a perspectiva da frequência. Vê-los, no entanto, sob a perspectiva do peso relativo mostra uma distribuição oposta: a frequência de uso aponta para uma distribuição complementar entre os três grupos sociais com base no seguinte comportamento: o registro falado dos informantes com ensino fundamental e médio favorece o uso de ‘tu’ com PR de 0.53 e 0.58, respectivamente, enquanto o registro falado dos informantes com ensino superior favorece o de ‘você’ com PR de 0.60.

A relação diretamente proporcional entre grau mais elevado de escolaridade e maior frequência de uso de ‘você’ e entre grau mais baixo de escolaridade e maior frequência do uso de ‘tu’ permite deduzir ser a forma ‘você’ a mais prestigiosa, especialmente porque o uso de ‘você’ não predomina apenas no registro de falantes com grau mais elevado de escolaridade, mas também, como se viu na seção anterior, em situações envolvendo grau mais elevado de formalidade. Todavia, quando estiver envolvida a natureza mais íntima e informal da relação social, a(o) falante rio-branquense mostra preferência pelo uso de ‘tu’. É possível inferir, portanto, que, se, por um lado, ‘você’ é a variante preferida em situações formais, ‘tu’ é, por outro, a variante preferida em situações informais e íntimas como um caso de prestígio encoberto[5].

Esse tipo de comportamento, especialmente o uso de ‘tu’ em situações de maior grau de intimidade, espelha o que foi detectado por Scherre et al. (2018) e Souza e Coelho (2015) na escrita informal. No que tange às relações de simetria e assimetria, a Amostra Cruz e Sousa, cujos dados foram discutidos por Nunes de Sousa e Coelho (2015), traz cartas entre noivos, com temática amorosa, e entre amigos, com temática de natureza ora profissional, ora mais pessoal. As relações interpessoais mais íntimas ativam nessas cartas o uso de ‘tu’ na variedade falada de Florianópolis, similarmente ao que ocorre na variedade rio-branquense.

Considerações finais

Agora é tempo de fazer um balanço geral. Para começar, o objetivo da pesquisa na variedade rio-branquense se centrou na análise da variação do modo de tratar a segunda pessoa do discurso, o que levou ao estabelecimento de uma variável dependente envolvendo o uso dos pronomes ‘tu’ e ‘você’ circunscritos à função de sujeito. A análise desse fenômeno variável partiu, inicialmente, da formulação de algumas hipóteses que parece relevante retomar e responder neste balanço geral.

Considerando que as variantes envolvidas servem à referência dêitica da pessoa não subjetiva (Benveniste, 1976), um aspecto relevante implicou a análise do comportamento da variação em relação à natureza da referência, se determinada ou indeterminada.

A hipótese linguística mais geral que se pretendeu verificar é se os resultados confirmam ou não a possibilidade de haver alguma especialização no uso de uma ou de outra forma em relação ao tipo de referência – determinada ou indeterminada –, o que poderia indicar escolhas funcionalmente orientadas. Ou se o uso de uma ou de outra forma seria indiferente ao grau de determinação, o que poderia indicar um caso de variação na variedade acreana de Rio Branco. Além disso, se, na referência determinada, haveria alguma especialização em que o uso de ‘tu’ seria favorecido em situações mais familiares, como ocorre em outras variedades.

Em termos gerais, o uso da(o)s falantes de Rio Branco indica uma expressiva predominância de ‘você’ na referência indeterminada. Quando se consideram os dados da referência determinada, única situação em que as variantes ‘tu’ e ‘você’ consistem realmente em diferentes formas de dizer a mesma coisa, no mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade, conforme a definição clássica de variante, a preferência por ‘você’ está reservada ao uso de informantes com escolarização superior, e a preferência por ‘tu’, ao uso de informantes com ensino fundamental e médio. Essa distribuição sinaliza claramente a atribuição de um valor de prestígio ao uso do pronome ‘você’.

A situação está, no entanto, longe de se configurar trivial. Para insistir um pouco mais nos valores funcionais, identificaram-se alguns casos qualitativamente expressivos de enunciados contendo discursos reportados, um contexto potencialmente acessível ao estabelecimento de diferentes relações de papel entre os interlocutores envolvidos.

Nesse contexto, a escolha entre os pronomes ‘tu’e ‘você’ está relacionada ao modo como a(o) falante se adapta à situação de interação, apontando para a preservação de distância e formalidade mediante o favorecimento do uso de ‘você’ e para a de familiaridade e informalidade mediante o favorecimento do uso de ‘tu’. O discurso reportado inclui três tipos de situações: familiar, escolar e profissional. A situação familiar revelou evidências de que o grau de intimidade das relações de papéis favorece o uso do pronome ‘tu’, especialmente nas relações simétricas, dando evidência de um caso de prestígio encoberto.

Na situação escolar, predomina a forma ‘você’, e na situação profissional, em que as relações pessoais majoritárias são assimétricas, as formas ‘tu’ e ‘você’ são dirigidas ao interlocutor em posição inferior, e as formas ‘o(a) senhor(a)’ são dirigidas ao indivíduo em posição superior, denotando, portanto, relações de poder e não de solidariedade entre os interlocutores (Brown & Gilman, 1960), situação que se reflete plenamente na relação entre a variável dependente e o grau escolaridade dos informantes.

Em suma, ao executar um ato locutório, a(o) falante põe em prática sua competência gramatical, como postulam os gerativistas, mas, ao executar também um ato ilocutório, o que ela(e) põe em prática é sua competência comunicativa, que está diretamente motivada pelos aspectos linguísticos, sociais e discursivos que envolvem o contexto de uso. O uso da competência comunicativa se baseia no postulado de que os significados não são valores prontos e acabados, mas são criados e recriados em cada situação de interação.

Referências

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Notas

[1] Neves (2011) trata das formas pronominais em uso no registro escrito formal; no registro falado informal, como os dados aqui analisados da variedade acreana de Rio Branco, o uso de ‘tu’ não dispõe de concordância de 2ª. pessoa, o que indica tratar-se de um sistema ‘tu/você’ sem concordância na visão de Scherre et al. (2015).
[2] Exemplo criado para exemplificar a posição de Neves (2011), mostrando um uso similar do pronome de tratamento e do pronome ‘você’. Observe-se que tanto ‘você como o(a) senhor(a)’, apesar da referência ao interlocutor, ativam a concordância verbal de 3ª pessoa.
[3] Dada a importância do perfil social dos informantes para uma apreensão mais acurada do leitor sobre a natureza das ocorrências que ilustram a análise, codificamos, entre parênteses, no final dos exemplos, primeiramente o número da entrevista seguido da letra ‘G’, que representa o Banco de dados do Corpus GELAC; para o grupo de fatores ‘sexo’, codificamos ‘H’ para masculino e ‘f’ para feminino; para ‘escolaridade’, codificamos ‘F’ para Ensino fundamental, ‘M’ para Ensino Médio e ‘S’ para Ensino Superior; para ‘faixa etária’, codificamos ‘c’ para informantes com idade entre 7 e 15 anos, ‘J’ para informantes com idade entre 16 e 25 anos, ‘l’ para informantes com idade entre 26 e 40 anos, ‘x’ para informantes com idade entre 41 e 55 anos, e ‘I’ para informantes com idade acima de 55 anos; para ‘origem geográfica do pai’, codificamos ‘A’ para Acre, ‘U’ para Região Sul, ‘N’ para Região Nordeste e ‘O’ para outros; finalmente, para ‘origem geográfica da mãe’, codificamos ‘a’ para Acre, ‘r’ para Região Sul, ‘y’ para Região Nordeste e ‘W’ para outros.
[4] Entende-se, por papel, o modo de o indivíduo desempenhar de fato as exigências de determinada posição (Davis, 1961 apud Camacho, 2015).
[5] Se há, por um lado, pressões sociais que promovem a variedade padrão, deve haver também pressões contrárias favorecendo a variedade local e informal. No entanto, se assim for, essas pressões contrárias devem ser tácitas e não conscientes, porque elas não são fáceis de identificar, diferentemente das forças que favorecem o padrão, que são cristalinamente claras: pais de classe média falam de língua “boa”, professores corrigem o uso dos alunos, cartas ao editor deploram escorregões do uso prescritivo. (Chambers, 1995 p. 221).

Notas de autor

roberto.camacho@unesp.br

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