Reseñas
Reflexões e práticas da inter-relação comunicação/educação na atualidade
Reflexões e práticas da inter-relação comunicação/educação na atualidade
Estudios sobre las Culturas Contemporáneas, vol. XXI, núm. 42, pp. 167-171, 2015
Universidad de Colima
Reflexões e práticas da inter-relação comunicação/educação na atualidade1

Jesús Martín-Barbero, um dos principais atuais estudiosos e pensadores da comunicação e da inter-relação comunicação/educação na América Latina, apresenta a sua mais recente obra. Lançado em abril de 2014, o livro A comunicação na educação, traduzido por Maria Immacolata Vassalo de Lopes e Dalfine Melo, trata de assuntos fundamentais que envolvem a educação, como a alfabetização e o papel do livro e da escola, sempre criando uma relação com temas do universo da comunicação, entre eles a televisão e as novas tecnologias. Além disso, apresenta uma reflexão sobre os efeitos que a relação comunicação/educação provoca na sociedade e debate vários conceitos a partir das transformações que se passam no mundo contemporâneo.
Autor do clássico livro Dos Meios às Mediações, Martín-Barbero nasceu na Espanha em 1937 e vive na Colômbia desde 1963. Semiólogo, antropólogo, filósofo, professor e pesquisador da Comunicação e Cultura, Martín-Barbero é um dos expoentes dos Estudos Culturais contemporâneos.
A obra da editora Contexto, com 145 páginas, é dividida em quatro capítulos. O primeiro capítulo, “Alfabetizar em comunicação”, discorre sobre a alfabetização, destacando a pedagogia em ação de Paulo Freire, que parte do conceito de que ensinar não é transferir conhecimento, mas sim criar as possibilidades para a sua própria construção, como a primeira teoria latino-americana de comunicação.
Martín-Barbero aborda a comunicação como mediação e a importância de pensá-la a partir da cultura, ao mesmo tempo, como processo social e como campo de batalha cultural. Trata também da cultura do silêncio e da incomunicação, destacando a teoria de Freire que define a pessoa analfabeta não como aquela que não sabe ler nem escrever e sim aquela que é impedida de dizer sua palavra. Segundo o autor, a escola foi e continua sendo, em geral, o lugar do controle mais sutil da e pela palavra, pois ainda consagra uma linguagem retórica e distante da vida, além de prolongar a cultura do silêncio. Para ele, a alfabetização deveria ser a práxis educativa que devolve aos homens seu direito de dizer o que vivem e sonham, de ser tanto testemunhas como atores de sua vida e de seu mundo, exercendo o espírito crítico, item que é definido por ele como “pecado da religião do progresso”.
O segundo capítulo, “O livro e os meios: crítica da razão dualista”, debate a função do livro na atualidade. O autor defende que o livro continuará sendo peça-chave, à medida que a primeira alfabetização, que abre o mundo da escritura fonética, em lugar de fechar-se sobre a cultura letrada, lance as bases para a segunda alfabetização, aquela que nos abre as múltiplas escrituras que hoje conformam o mundo do audiovisual e do texto eletrônico.
Assim como em suas outras obras, Martín-Barbero aborda o conceito de ecossistema e defende a utilização de novas tecnologias de comunicação e informação como tecnologias intelectuais; isto é, como estratégias de conhecimento e não como meros instrumentos de ilustração ou difusão. Para o autor, a incapacidade das escolas de fazer com que a leitura agrade e de inserir nela novos e ativos modos de relação com o mundo da imagem é responsável pela apatia que os jovens sentem hoje pelos livros. O autor ressalta a importância de aprender a ler os textos audiovisuais e os hipertextos.
O terceiro capítulo, “Reconfigurações comunicativas do saber e do narrar”, trata dos desafios à educação pela acelerada reconfiguração comunicativa dos saberes e narrativas. Para o autor, comunicar é compartilhar a significação e participar é compartilhar a ação. Baseado nisso, a educação seria, então, o lugar decisivo de seu entrecruzamento. Mas, para isso, a escola deverá se converter em um espaço de conversação dos saberes e narrativas que configuram as oralidades, as literalidades e as visualidades.
Para Martín-Barbero, a sociedade da informação não é apenas aquela em que a matéria-prima mais cara é o conhecimento, mas também aquela em que os desenvolvimentos econômicos, sociais e políticos encontram-se intimamente ligados à inovação, que é o novo nome da criatividade e da invenção. O saber se descentra, em primeiro lugar, em relação ao que foi seu eixo durante os últimos cinco séculos: o livro. São mudanças que não vêm substituir o livro, mas sim retirá-lo de sua centralidade ordenadora das etapas e modos de saber que a estrutura livro havia imposto não só à escrita e à leitura, mas também ao modelo inteiro de aprendizagem: linearidade sequencial de esquerda para direita, tanto física como mental; e verticalidade, de cima para baixo, tanto espacial como simbólica. As escolas precisam saber conviver com saberes sem lugares próprios, porque os saberes que nela se ensinam encontram-se atravessados por saberes do ambiente tecnocomunicativo, regidos por outras modalidades e ritmos de aprendizagem que os distanciam do modelo de comunicação escolar.
O quarto e último capítulo, “Cidade Educativa: de uma sociedade com sistema educativo a uma sociedade de saberes compartilhados”, apresenta as chaves de uma pesquisa sobre processos e práticas de leitura-escrita fora da escola, associadas ao desenvolvimento social e cidadão. Realizada em cinco países da América Latina (Colômbia, México, Brasil, Argentina e Chile), além da Espanha, essa pesquisa estudou a leitura e a escrita como modos de inserção dos aprendizes no mundo da criatividade, da atividade profissional e da participação política.
Segundo o autor, devolver aos jovens os espaços nos quais possam se manifestar estimulando práticas de cidadania é o único modo pelo qual uma instituição educativa, cada vez mais pobre em recursos simbólicos e econômicos, pode reconstruir sua capacidade de socialização. Cortar o arame farpado dos territórios e disciplinas, dos tempos e discursos, é a condição para compartilhar os saberes da informação, do conhecimento e da experiência das pessoas; e também as culturas com todas as suas linguagens, orais, visuais, sonoras, escritas, analógicas e digitais. Martín-Barbero aponta algumas mudanças que estão levando ao esgotamento do sistema escolar:
É importante destacar que o autor não defende o fim do lugar escolar, mas as condições da existência desse lugar estão sendo transformadas radicalmente por uma pilha de saberes sem lugar próprio e por um tipo de aprendizagem que se torna contínuo, isto é, ao longo de toda a vida. Ele ressalta também que já não se pode permitir que se continue educando a partir de um preconceito que faz com que nem a ciência e nem a técnica sejam parte do que a escola entende por cultura.
Ao final da obra, Martín-Barbero propõe um projeto que submete à nova cidade educativa, cujas chaves se encontram em converter a educação em espaço estratégico de cruzamento e interação entre as diversas linguagens e culturas. O autor aponta artefatos para a inserção de políticas e projetos educativos em um horizonte culturalmente interativo, ou seja, intercultural e politicamente mais amplo como: proporcionar novos espaços de aprendizagens e interação social; fomentar interação entre culturas diversas e tornar explícitos os processos de inclusão e participação. Isso implica em superação de exclusão social e destaca que o processo de aprendizagem escolar não pode se desligar do exercício da cidadania.
Jesús Martín-Barbero traz nessa obra uma preciosa reflexão sobre a importância de repensar a escola e seu modelo, tornando-a aberta às transformações. O livro contempla a América Latina no geral, mas quando atenta-se para o Brasil, percebe-se o quanto esse estudo traduz a realidade brasileira, que há muitos anos vive problemas sérios e bastante discutidos desde a falta de investimentos até o conceito do sistema educativo.
Após a leitura da obra, é possível inferir que Educação é o conjunto de processos pelos quais se formam o cidadão, o trabalhador e o ser humano. E a formação do cidadão se dá pela transmissão dos valores sociais de nacionalidade, de democracia, de igualdade racial e de gênero, de família e comunidade e de liberdade de expressão. Hoje, mais do que nunca, a comunicação deve fazer parte desses processos, pois para ser cidadão na atualidade, é preciso aprender a navegar em um oceano de informações. E a escola, o lugar tradicionalmente dedicado ao ensino, à aprendizagem e à transmissão de informações, carece de introduzir a comunicação. E quando se fala em comunicação, não são somente os meios tecnocomunicativos, e sim o diálogo, a ruptura e a mediação, abordados de forma tão essencial neste livro. A comunicação na educação é uma excelente estratégia para formar cidadãos em uma sociedade na qual a informação e o conhecimento valem cada vez mais.
Definitivamente, a obra Comunicação na Educação traz, em uma linguagem acessível e cativante, uma valiosa interpretação da inter-relação educação/comunicação para que estudantes, especialistas e pesquisadores de comunicação e de educação possam apreciar, refletir e, sobretudo, praticar.
Notas