Conferências
Recepção: 11 Novembro 2019
Aprovação: 11 Fevereiro 2020
Resumo: Em 2019, uma série de eventos no Brasil lembraram Rosa Luxemburgo, assassinada brutalmente em Berlim no dia 15 de janeiro de 1919. Neste texto, procuro mostrar a atualidade das ideias da revolucionária judia-polonesa, desenvolvendo basicamente três tópicos: sua ideia de socialismo democrático; sua crítica do imperialismo/capitalismo; como sua ligação com a natureza faz dela uma precursora do ecossocialismo.
Palavras-chave: Rosa Luxemburgo, Socialismo e democracia, Crítica do imperialismo/capitalismo, Ecossocialismo.
Abstract: In 2019, a serie of events in Brazil remembered Rosa Luxemburg, brutally murdered in Berlin on January 15th, 1919. In this text, the aim is to show the relevance of the ideas of the Jewish-Polish revolutionary, developing basically three topics: her idea of democratic socialism; her critique of imperialism / capitalism; how her connection with nature makes her a precursor of eco-socialism.
Keywords: Rosa Luxemburg, Socialism and democracy, Criticism of imperialism/ capitalism, Eco-socialism.
1 INTRODUÇÃO
Sempre que a esquerda está em crise, Rosa Luxemburgo volta à cena. Foi assim em vários momentos no século XX, e também agora, que uma extrema-direita de tonalidade neofascista retornou com força ao cenário mundial. Não por acaso isso acontece. O que essa revolucionária judia-polonesa, assassinada há 100 anos, a mais importante teórica marxista da geração imediatamente posterior à morte de Marx, ainda tem a nos dizer?
Comecemos com uma brevíssima apresentação. Rosa Luxemburgo nasceu em 1871, em Zamość, pequena cidade da Polônia ocupada pelo Império russo. Sua militância política começa em Varsóvia, ainda no colégio. Em 1889, emigra para Zurique a fim de cursar a universidade onde estuda a teoria de Marx e faz o doutorado em economia política sobre o desenvolvimento industrial da Polônia. Em 1893, ainda em Zurique, ajuda a fundar a Social-Democracia do Reino da Polônia, rebatizada em 1900 de Social-Democracia do Reino da Polônia e Lituânia (SDKPiL), partido ao qual fica ligada a vida inteira. Muda-se para Berlim em 1898, com o objetivo de militar no Partido Social-Democrata Alemão (SPD), onde faz sua carreira política como teórica marxista, jornalista e professora da escola de quadros do partido. Em 1906, volta a Varsóvia, onde participa ativamente da primeira revolução russa, atividade que reforça nela a ideia da importância da autonomia das massas populares nas grandes transformações históricas. Em 1914, opõe-se à guerra mundial e passa a integrar o grupo de esquerda radical no SPD, conhecido mais tarde como Liga Spartakus. Passa a guerra na prisão, de onde sai em novembro de 1918, libertada pela revolução que depôs o imperador. Nos dois meses de vida que lhe restam, participa da fundação do Partido Comunista Alemão (KPD) e como jornalista, oradora e líder dos spartakistas, toma parte na “revolução de novembro”. Durante a “insurreição de janeiro” em Berlim, é assassinada junto com seu companheiro de partido, Karl Liebknecht, por soldados alemães, membros da milícia Divisão de Fuzileiros da Cavalaria da Guarda, que, como outras milícias criadas na época pelo governo social-democrata para reprimir os revolucionários, foi precursora das milícias nazistas. Rosa Luxemburgo tinha 48 anos. Os assassinos tiveram penas leves e gozaram de vida pacífica sob o nazismo, e mesmo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, durante a era Adenauer.
Apesar da distância temporal, é possível traçar um paralelo entre o atual cenário mundial, em que os impulsos civilizatórios estão se desmanchando, e a época em que Rosa Luxemburgo viveu a partir da Primeira Guerra Mundial. Na Europa, a guerra, “esse tempo que reduziu a vida humana a um monte de lixo” nas palavras de Karl Kraus, foi um implacável divisor de águas sob todos os aspectos: econômico, político, social e cultural. Embora um século nos separe da grande catástrofe de 1914, há muita coisa em comum entre aquele tempo e o nosso. Tal como hoje havia um clima de expectativa no ar, estava-se à espera de uma grande catástrofe, mas se acreditava que na última hora a razão prevaleceria. O que não aconteceu. No campo da esquerda radical, vicejava a ideia de que o capitalismo estava no fim da linha, não podendo mais oferecer nenhuma saída civilizatória. Hoje, esse prognóstico voltou à cena (STEEK, 2014), acrescentado do temor no tocante ao colapso da vida no planeta (MALET, 2019).
Rosa Luxemburgo constata que o mundo em que fora criada, de fé no progresso e na civilização europeia, havia desmoronado com rapidez. Seus alicerces estavam carcomidos e ninguém havia de fato percebido a extensão do desastre. A guerra mundial tocou o sinal de alarme para aquela geração: era preciso pôr tudo em outras bases, formular um novo programa e uma nova tática para a esquerda, uma vez que a social-democracia havia desmoronado junto com a ordem capitalista. Para ela, não era hora de ficar desesperada, e sim de entender o que havia acontecido. Em carta escrita da prisão, em novembro de 1917, à amiga Sonia Liebknecht, Rosa diz:
[...] quanto mais a indignidade e a monstruosidade que acontecem todos os dias ultrapassam todos os limites e todas as medidas, mais tranquila e firme interiormente eu me sinto, do mesmo modo que diante de um elemento, uma nevasca, uma inundação, um eclipse do sol, não podemos empregar critérios morais, e apenas podemos tomá-los como algo dado, como objeto de investigação e conhecimento.” (LUXEMBURGO, 2017c, p.309).
Rosa analisa de maneira arguta em muitos de seus escritos, sobretudo n’ A acumulação do capital (1913), sua obra magna de economia política em que elabora uma teoria do imperialismo, como a mundialização do capital no início do século XX estava conectada com o militarismo e a guerra. O conflito que viria a ocorrer entre as potências europeias dava sinais desde 1911, mas sua explosão em 1914, embora esperada pelos socialistas do ponto de vista teórico, não deixou de suscitar surpresa e horror. É quando Rosa Luxemburgo começa a ver claramente que o capitalismo/imperialismo tem um ímpeto suicida intrínseco, impossível de conter, e passa a identificar a barbárie com a dominação do capital. Para ela, como para nós, barbárie é sinônimo de capitalismo mundializado, a guerra de todos contra todos e contra tudo: trabalho, natureza, populações tradicionais, antigos modos de vida comunitários, numa lista interminável. A partir de então, Rosa adota o lema “socialismo ou barbárie”.
É verdade que a barbárie no mundo globalizado de hoje assume formas de que Rosa Luxemburgo não podia suspeitar: o sequestro da democracia pelo poder do dinheiro, transformando a política num circo midiático, impotente para alterar o rumo das coisas; o aumento exacerbado da desigualdade econômica e social; o encarceramento ou extermínio em massa de jovens negros das periferias pobres das grandes cidades, etc. E atualmente, o mais importante nessa lista, a manipulação do ressentimento das classes subalternas a favor das forças de extrema-direita. Mas apesar de Luxemburgo não poder imaginar o pesadelo atual, ela teve insights que apontam para o nosso presente e revelam sua lucidez.
Dada a presente situação, em que a esquerda está atordoada diante das sucessivas vitórias do neoliberalismo autoritário, que não hesita nem mesmo em destruir a vida no planeta, é preciso retomar a construção de um projeto coletivo anticapitalista: um projeto socialista. Esse projeto alternativo pode ser organizado esquematicamente ao redor de três eixos principais: democratização da democracia; desmercantilização da vida; e centralidade da questão socioambiental. Rosa Luxemburgo, cem anos depois de seu assassinato, tem o que dizer em cada um desses tópicos.
2 DEMOCRATIZAR A DEMOCRACIA
Rosa Luxemburgo é uma referência no campo da esquerda por sua conhecida defesa do socialismo democrático. Democracia e socialismo se condicionam reciprocamente, socialismo autoritário não passa de um círculo quadrado. Para Rosa, tanto o período de transição ao socialismo quanto a própria construção de uma sociedade socialista requerem não só os direitos políticos que as revoluções burguesas inventaram como sua complementação pelos direitos de igualdade social. É conhecida sua discordância em relação aos bolcheviques, durante a Revolução de Outubro de 1917, por terem dissolvido a Assembleia Constituinte, ou seja, eliminado o espaço público, o lugar da confrontação das divergências, para ela o único antídoto contra a burocratização, tanto do partido, quanto dos sovietes. A história do século passado lhe deu razão. Por não separar socialismo e democracia é que ela aposta nos conselhos de trabalhadores como nova forma de soberania popular, espaço em que os trabalhadores aprendiam a exercer o poder, exercendo o poder.
A defesa intransigente das liberdades democráticas por parte de Rosa Luxemburgo parecia na época da vigência dos governos “progressistas” na América Latina algo menos importante, já que, depois das ditaduras militares, as liberdades democráticas eram uma conquista considerada inatacável. Nada como um dia depois do outro para mostrar como até mesmo as liberdades fundamentais, fruto das revoluções burguesas no ocidente, podem ir minguando até desaparecer novamente. A volta da censura à imprensa na Bolívia, Equador e Nicarágua (LEITE; UEMURA; SIQUEIRA, 2018) mostra, para nossa surpresa, a atualidade do famoso lema de Luxemburgo que define liberdade como sendo “a liberdade de quem pensa de modo diferente”.
Um aspecto mais importante do que nunca dessa defesa da liberdade – na época das milícias digitais e das fake news – é que, no entender de Rosa Luxemburgo, não existe sociedade livre sem indivíduos conscientes, que não se deixam manipular, quer por lideranças políticas, quer pela mídia, pela propaganda, ou pelas notícias fraudulentas. Rosa Luxemburgo é filha do esclarecimento, como todo o marxismo. Esse era seu mundo e seu limite. Mas mesmo que não baste o esclarecimento racional para formar indivíduos livres, Rosa tinha razão de acreditar que não existe possibilidade de criar uma sociedade justa, livre e igualitária sem a participação ativa e consciente das camadas populares, as que mais sofrem com a desigualdade econômica, social e política engendrada pelo capitalismo. Daí seu entusiasmo pela liberdade de imprensa, pelo direito de associação e reunião, pelo debate de ideias em todos os níveis e em todos os lugares – também, com mais razão ainda, nos partidos de trabalhadores.
Entendendo que é proibido proibir, ela pensa que o partido revolucionário é um espaço de debate intelectual e político, de esclarecimento, de convencimento por meio da argumentação, de criação de indivíduos autônomos – uma escola de socialismo –, antes de ser um instrumento de luta pelo poder. Assim, pelo debate aberto, pelo enfrentamento das diferentes visões, o partido se torna um espaço de unificação da maioria na luta contra o capitalismo. Sem trabalhadores intelectualmente autônomos, reflexivos e críticos, não é possível a construção de um projeto anticapitalista.
A grande originalidade de Rosa Luxemburgo no tocante à ideia de socialismo democrático reside na compreensão de que a formação da consciência dos de baixo se dá na luta prática, na ação, em grande parte espontânea, contra as instituições vigentes, bem mais que pela leitura de livros, panfletos, ou pela frequência às aulas nas escolas de formação de quadros, ainda que esta também seja importante, como atesta sua função de professora na escola de quadros do SPD. Isso significa que a consciência não é levada de fora por uma vanguarda esclarecida de revolucionários profissionais, substituta das massas. Nesse sentido, é preciso rejeitar a separação entre bases e lideranças. O papel do líder é deixar de liderar, é transformar a massa em líder de si mesma, o que não só lembra o “mandar obedecendo” dos zapatistas, como exclui qualquer projeto caudilhista em que um grupo de líderes supostamente “infalíveis” domina o aparelho partidário e impõe suas resoluções às bases infantilizadas. Dessa perspectiva “autonomista”, não é possível falar em revolução socialista em nome do proletariado, e tanto isso é verdade que Rosa se opõe às revoluções “fabricadas” por grupos armados em nome do povo (LUXEMBURGO, 2017a, p.431-32).
Em suma, o lema da autoemancipação das massas populares, como catalisadora de mudanças estruturais na sociedade, é o fio vermelho, ainda não desmentido pela história, que atravessa toda a obra de Luxemburgo. E serve até hoje de inspiração às feministas: tal como as massas, se as mulheres não agirem por si mesmas, outros sempre atuarão sobre elas, ou em seu nome. A emancipação dos oprimidos só pode resultar da ação dos próprios afetados. Liberdade outorgada não é verdadeiramente liberdade.
3 DESMERCANTILIZAÇÃO DA VIDA
O segundo ponto refere-se à crítica do capitalismo, base das análises políticas de Rosa Luxemburgo. Ela foi a primeira entre os marxistas a se dar conta da mundialização do capital, a perceber a conexão intrínseca entre o desenvolvimento na metrópole e o subdesenvolvimento na periferia como uma característica essencial do capitalismo. Em suma, percebeu que o capital, para acumular, precisa de territórios ou dimensões não-capitalistas dos quais se apropria continuamente, num processo rápido e sempre violento. O modo de vida dos povos fora do mercado, colonizado sem dó nem piedade pelo capitalismo, é visto por ela como o reverso da acumulação do capital, sem o qual esta não existiria. Sua teoria explica o imperialismo do século XX e a atual privatização acelerada dos serviços sociais (habitação, saúde, educação) e da natureza no mundo todo. Além disso, também fornece uma boa explicação para o trabalho doméstico não pago das mulheres como fonte de acumulação do capital.
Na análise de Luxemburgo, o capitalismo se torna inviável quando tiver capitalizado todo o globo terrestre, quando tiver dominado todos os espaços não-capitalistas. Mas enquanto não chega a esse limite (e ela acredita nisso apenas como hipótese), as potências capitalistas entram numa luta cada vez mais acirrada pelo domínio desses espaços ainda não-capitalizados, cada vez mais escassos. Essa era a explicação teórica de Luxemburgo para o imperialismo, a nova fase do capitalismo, iniciada no fim do século XIX. Em A acumulação do capital ela procura mostrar a ligação intrínseca entre a acumulação do capital e o imperialismo: “O imperialismo é a expressão política do processo de acumulação do capital na sua competição pelos restos do mundo não-capitalista ainda não capturados” (LUXEMBURGO, 1985, p.391). Esse fim não era previsível a curto prazo, e antes que isso acontecesse, acreditava ela, a classe trabalhadora internacional se rebelaria “contra a dominação do capital” (LUXEMBURGO, 1985, p.411). Hoje não há sinais de rebelião internacional da classe trabalhadora, nem sequer a perspectiva de que algo desse teor venha a ocorrer.
Rosa Luxemburgo via o artesanato e o campesinato como formas de “economia natural” que, embora convivendo de maneira subalterna com a modernização capitalista, tendiam a ser aniquiladas pelo desenvolvimento das forças produtivas. Como marxista, ao mesmo tempo crítica da modernização capitalista e modernista, por um lado lamentava a aniquilação dos povos “primitivos”, mas, por outro, encarava como inexorável a colonização do mundo pelo capital, cujo lado luminoso consistia em pavimentar a via rumo ao socialismo. Não podemos exigir que Rosa Luxemburgo seja Walter Benjamin. A citação a seguir é um exemplo, entre muitos, dessa tensão entre crítica do progresso e progressismo em sua obra:
Para os economistas e políticos burgueses liberais, ferrovias, fósforos suecos, esgotos e lojas significam ‘progresso’ e ‘civilização’. Essas obras em si, enxertadas nas condições primitivas, não significam civilização nem progresso, porque são compradas ao preço da rápida ruína econômica e cultural dos povos, os quais sofrem de uma só vez todas as calamidades e todos os horrores de duas épocas: a das relações de dominação da economia natural tradicional e a da exploração capitalista mais moderna e refinada. Somente como pré-condição material para abolir a dominação do capital, para abolir a sociedade de classes em geral, é que as obras da marcha triunfal do capitalismo pelo mundo carregavam a marca do progresso num sentido histórico mais amplo. Nesse sentido, em última análise, o imperialismo trabalhava para nós. (LUXEMBURGO, 2017b, p.141).
Mas se Rosa é fonte de inspiração para um novo projeto antissistêmico, não é pelo seu lado marxista ortodoxo que aceita sem problematizar a lógica do caminho inevitável para o socialismo, como resultado do desenvolvimento das forças produtivas. Se suas ideias nos inspiram na América Latina, é porque ela nos dá elementos para questionar o paradigma progressista do século XIX, ao indicar que nas sociedades tradicionais existem formas de vida que não devem ser destruídas – germes de futuro. Quando, na Introdução à economia política, Rosa descreve as comunidades comunistas originárias, enfatizando as características coletivas desse modo de vida (planificação da economia, trabalho e decisões conjuntas, propriedade coletiva dos meios de produção) contra o individualismo possessivo da sociedade burguesa, podemos ver aí uma visão precursora do que hoje entrou no debate sob o conceito de “comum” ou commons (DARDOT, LAVAL, 2017).
O exemplo da luta pelo comum é dado pelas populações tradicionais da América Latina que resistem como podem à extinção de suas formas de vida comunitárias, favorecendo, contra a lógica da concorrência, todas as formas de bens comuns. O clima é o exemplo mais contundente de um bem comum mundial que exige uma luta comum internacional contra o aquecimento global.
4 QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL
Numa época em que a humanidade se vê mergulhada numa profunda crise socioambiental, é possível rever “ecologicamente” a tão criticada tese central de A acumulação do capital. Enquanto Rosa Luxemburgo acreditava que o capital não podia acumular indefinidamente porque haveria limites geográficos para sua expansão, hoje sua teoria da acumulação pode ser atualizada a partir da ideia dos recursos limitados. Ou seja, independentemente de o capitalismo ser dotado de infinita flexibilidade, de poder reproduzir-se para sempre (questão para a qual não há nenhuma resposta segura1), o que interessa é o custo dessa expansão, a hipoteca que ela deixa, em termos sociais e ambientais (STEINKO, s/d, p.67; BRAND, WISSEN, 2013, p.456).2 A alternativa apresentada por Rosa Luxemburgo em A crise da social-democracia capta esse impasse do tempo presente: socialismo ou barbárie.
Numa época em que o capitalismo, como um câncer que cresce sem parar e que, para sobreviver, precisa mais do que nunca extrair valor sobretudo do trabalho e da natureza, o socialismo só pode ser entendido como ecossocialismo, numa rejeição ao desenvolvimentismo “fóssil”. Este foi posto em prática tanto pelos governos “progressistas” quanto pelos governos conservadores na América Latina, apoiados na exportação de commodities, agronegócio, mineração – numa palavra, no extrativismo predador que ignora as consequências nefastas sociais e ambientais desse modelo: destruição dos biomas, com a erosão das terras, poluição das águas e redução da biodiversidade, deslocamento de comunidades, violência contra os territórios com assassinato das lideranças dos movimentos, etc.3 No Brasil de Bolsonaro, esse modelo predatório está sendo levado ao paroxismo. O planeta precisa urgentemente de uma alternativa civilizatória antagônica ao desenvolvimento entendido como puro crescimento econômico, para o qual não importa que o preço a pagar seja a destruição do meio ambiente, como na hidrelétrica de Belo Monte, para citar apenas o exemplo mais conhecido, ou as cidades entupidas de automóveis, que infernizam as cidades brasileiras.
Talvez seja forçar demais a nota invocar a ideia de uma Rosa precursora do ecossocialismo. Mas o fato é que ela, diferentemente de outros marxistas seus contemporâneos, tinha forte ligação com a natureza, um traço comum aos românticos. Nisso, é filha do século XIX, tendo ao mesmo tempo características modernistas (defesa da modernização capitalista) e românticas (rejeição do que há de desumano na civilização industrial-capitalista). Quem percebeu muito bem esse traço romântico em Rosa Luxemburgo foi Lukács, que considera os equívocos dela na crítica aos bolcheviques como decorrentes de uma concepção orgânica da história que rejeitaria a violência (Terror) na revolução, em favor de um processo de amadurecimento lento, orgânico das forças transformadoras da sociedade. Essa concepção de história seria inspirada nos processos orgânicos naturais. Segundo Lukács, Rosa teria como modelo de transição ao socialismo a lenta passagem do feudalismo ao capitalismo, em que o novo foi sendo engendrado no interior da velha formação social. E, por isso, ela não veria que os instrumentos por excelência da revolução proletária seriam o partido-vanguarda leninista e os sovietes.
Numa carta a Clara Zetkin de 9 de março de 1916, Rosa (LUXEMBURGO, 2017c, p.207) corrobora essa visão:
No geral, sou favorável a que as coisas sejam feitas antes de maneira lenta e profunda do que rápida e superficialmente. É todo um aprendizado político que as nossas massas precisam fazer, e isso precisa de tempo. Ter paciência, mesmo que não seja confortável, é um dever dos políticos e dos líderes em tempos de transição como o nosso.
Lukács tem razão ao apontar o organicismo de Luxemburgo, desde que isso não seja confundido com evolucionismo. Afinal, Rosa defende a formação da maioria pela tática revolucionária, e não, como queria o “cretinismo parlamentar” do SPD e dos mencheviques, a formação da maioria por meio de reformas no parlamento, ou o socialismo como resultado de um acúmulo gradativo de reformas dentro da ordem capitalista.
O organicismo de Rosa decorre, em parte, de uma profunda característica psicológica mencionada antes: sua ligação visceral com a natureza. Em Zurique, ela começa por se inscrever em ciências naturais, depois Leo Jogiches a convence a cursar “ciência política” (ela se inscreve em economia política, filosofia e estatística). Mas por inclinação teria sido bióloga, zoóloga, talvez botânica, se o dever moral de se consagrar à luta pela mudança social não tivesse falado mais alto. Seu amor pelas plantas é tanto que faz um herbário ao longo dos anos, de maio de 1913 a outubro de 1918. Nas cartas da prisão, como não podia falar de política, fazia longas explanações sobre a natureza: aves, nuvens, plantas, insetos. Numa carta famosa, em que descreve com grande sensibilidade a dor de um búfalo que, espancado por um soldado, começa a sangrar, Rosa se associa ao sofrimento do animal: “Eu estava diante dele, e o animal me olhava, meus olhos se encheram de lágrimas – eram as lágrimas dele, ninguém pode estremecer mais dolorosamente pelo irmão mais querido do que eu em minha impotência por aquele sofrimento mudo.” (2017c, p.334-5)
Em vez de subestimarmos esse traço de personalidade como mero detalhe biográfico, trata-se de perceber que as cartas revelam uma personagem preocupada com o destino de todas as formas de vida, elemento central de uma concepção de socialismo para além do humanismo, absolutamente necessária numa era de catástrofe ecológica sem retorno. O valor que confere a todos os seres vivos é tão parte dela mesma quanto a fé de que a humanidade lutará com todas as energias para não perecer na barbárie capitalista. A ideia da necessária relação fraterna entre os seres humanos e a natureza é atual e absolutamente necessária para a reconstrução da esquerda nos dias de hoje. Também aqui Rosa Luxemburgo pode servir de inspiração.
Para concluir. Se Rosa é lembrada até hoje como uma das figuras mais importantes do socialismo internacional, isso se deve, sem dúvida, à sua abertura de espírito que a levava a rejeitar as separações rígidas entre partido e massas, entre direção e base, trabalhadores organizados e não-organizados, entre desenvolvimento do capitalismo na metrópole e na periferia. Ela se recusava a fazer abstração dos indivíduos vivos, de suas experiências, de sua capacidade de ação.
Além disso, podemos tirar da obra e da atuação de Luxemburgo toda uma gama de valores fundamentais para os militantes de esquerda: a rejeição do nacionalismo, porque a ele vem atrelada a xenofobia e a falta de solidariedade com outros povos; a solidariedade com os deserdados da terra, os humilhados e ofendidos, os que foram deixados à margem pelo rolo compressor da modernização capitalista; a coragem para resistir e não se deixar espezinhar, por mais que a situação pareça sem saída.
Algo indiscutível na atual recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil é a atração que ela exerce sobre as jovens militantes de esquerda. Talvez isso decorra do fato de Rosa não ser uma pura natureza política, unilateralmente voltada para a militância, mas uma mulher que desejava ardentemente se tornar um ser humano completo: falava várias línguas, era boa escritora, amava a literatura e a música, tinha talento para as artes plásticas, desenhava e pintava de modo admirável para uma amadora. E sobretudo não queria separar a felicidade no plano pessoal, no amor, da luta política por um mundo melhor.
Mas, em termos estritamente políticos, além da defesa incisiva do socialismo democrático e da aposta na autoemancipação das massas trabalhadoras, outra ideia é sempre lembrada: para Rosa, não se pode superar o capitalismo por meio de reformas. Estas sempre serão questionadas pelas classes capitalistas, que estão dispostas a sacrificar as liberdades políticas para defender sua propriedade. Sem mudanças estruturais, as conquistas democráticas dos trabalhadores serão eliminadas no momento seguinte. Reforma e revolução constituem termos da mesma equação dialética, as reformas fazendo sentido unicamente no interior de um projeto estratégico revolucionário.
REFERÊNCIAS
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BRAND, Ulrich; WISSEN, Markus. Crisis socioecológica y modo de vida imperial. In: LANG, Miriam, LÓPEZ, Claudia, SANTILLANA, Alejandra (orgs.). Alternativas al capitalismo/colonialismo del siglo XXI. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2013.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. Comum – ensaio sobre a revolução no século XXI. São Paulo: Boitempo, 2017.
LEITE, José Correa; UEMURA, Janaina, SIQUEIRA, Filomena (orgs.). O eclipse do progressismo – A esquerda latino-americana em debate. São Paulo: Editora Elefante, 2018.
LOUREIRO, Isabel. Rosa Luxemburgo – os dilemas da ação revolucionária. 3 ed. São Paulo: Editora UNESP, 2019.
LUXEMBURGO, Rosa. Die Akkumulation des Kapitals. In: Gesammelte Werke 5. Berlim: Dietz, 1985.
LUXEMBURGO, Rosa. Textos escolhidos, v. I. São Paulo: Editora UNESP, 2017a.
LUXEMBURGO, Rosa. Textos escolhidos, v. II. São Paulo: Editora UNESP, 2017b.
LUXEMBURGO, Rosa. Cartas, v. III. São Paulo: Editora UNESP, 2017c.
MALET, Jean-Baptiste. O fim do mundo não vai acontecer. Le Monde Diplomatique Brasil, ag. 2019.
STEINKO, Armando Fernández. Rosa Luxemburgo, una teórica de los recursos limitados. In: TRIAS, Juan; MONEREO, Manuel. (orgs.). Rosa Luxemburgo – Actualidad y classicismo. Madrid: El Viejo Topo, s/d.
STREEK, Wolfgang. How will capitalismo end?. New Left Review, maio-junho 2014; trad. br., Como vai acabar o capitalismo?. Piauí, outubro 2014.
Notas