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				<journal-title>Textos &#x26; Contextos (Porto Alegre)</journal-title>
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				<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul, Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;ao em Servi&#xE7;o Social</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1677-9509.2017.1.25201</article-id>
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					<subject>Pol&#xED;ticas P&#xFA;blicas, &#xC9;tica e Avalia&#xE7;&#xE3;o</subject>
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				<article-title>Ventos do Sul Movem Moinhos: a experi&#xEA;ncia brasileira no combate &#xE0; fome na &#xFA;ltima d&#xE9;cada
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					<trans-title>South Winds Move Mills: the brazilian experience in combating hunger in the last decade</trans-title>
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					<institution content-type="original">Doutor em Sociologia, Professor do Departamento de Ci&#xEA;ncias Sociais Agr&#xE1;rias, docente permanente junto ao Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Sistemas de Produ&#xE7;&#xE3;o Agr&#xED;cola Familiar e ao Mestrado em Desenvolvimento Territorial e Sistemas Agroindustriais da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pelotas &#x2013; RS/Brasil. CV: http://lattes.cnpq.br/7107393939694701. E-mail: flaviosa@ufpel.edu.br</institution>
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					<email>nvcaldas@ufpel.edu.br</email>
					<institution content-type="original">Doutora em Agronomia, Professora do Departamento de Ci&#xEA;ncias Sociais Agr&#xE1;rias, docente permanente junto ao Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Sistemas de Produ&#xE7;&#xE3;o Agr&#xED;cola Familiar e ao Mestrado em Desenvolvimento Territorial e Sistemas Agroindustriais da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pelotas - RS/Brasil. CV: http://lattes.cnpq.br/5647353512393109. E-mail: nvcaldas@ufpel.edu.br</institution>
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					<license-p>Este artigo est&#xE1; licenciado sob forma de uma licen&#xE7;a Creative Commons Atribui&#xE7;&#xE3;o 4.0 Internacional, que permite uso irrestrito, distribui&#xE7;&#xE3;o e reprodu&#xE7;&#xE3;o em qualquer meio, desde que a publica&#xE7;&#xE3;o original seja corretamente citada.</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Um dos grandes logros da pol&#xED;tica brasileira de seguran&#xE7;a alimentar e nutricional foi justamente o de fazer com que este pa&#xED;s deixasse de fazer parte do mapa mundial da fome e da inseguran&#xE7;a alimentar. Os avan&#xE7;os colhidos na &#xFA;ltima d&#xE9;cada foram importantes, sobretudo a partir do momento em que esse tema se converteu em um problema p&#xFA;blico. Este artigo discute os principais instrumentos utilizados pelo Estado Brasileiro com &#xEA;nfase na quest&#xE3;o dos mercados institucionais, assim como os desafios que se apresentam na atualidade.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>One of the great achievements of the Brazilian policy on food and nutrition security in the past decade was precisely to make this country ceased to be part of the world map of hunger and food insecurity. Advances harvested last decade were important, especially from the time when this issue became a public issue. This article discusses the main instruments used by the Brazilian State with emphasis on the issue of institutional markets, as well as the major problems and challenges facing today.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave</title>
				<kwd>Seguran&#xE7;a alimentar</kwd>
				<kwd>Brasil</kwd>
				<kwd>Mercados institucionais</kwd>
				<kwd>Agricultura familiar</kwd>
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				<title>Keywords</title>
				<kwd>Food security</kwd>
				<kwd>Brazil</kwd>
				<kwd>Institutional markets</kwd>
				<kwd>Family farming</kwd>
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		<p>Divulgado em maio de 2015 o Relat&#xF3;rio Anual das Na&#xE7;&#xF5;es Unidas sobre a fome mundial mostrou, dentre outros aspectos, que esse fen&#xF4;meno se concentra, atualmente, na &#xC1;frica e na &#xC1;sia. Nesse sentido, vale dizer que a Am&#xE9;rica Latina e o Caribe vivenciaram avan&#xE7;os importantes, logrando reduzir pela metade o n&#xFA;mero de famintos preconizado nas metas da Declara&#xE7;&#xE3;o do Mil&#xEA;nio, a qual foi subscrita, em setembro de 2000, pelos 191 estados membros. A &#xC1;frica central subsaariana e o Oriente M&#xE9;dio s&#xE3;o as regi&#xF5;es mais problem&#xE1;ticas, quadro este que resulta tanto da falta de compromisso governamental com o enfrentamento do problema, como tamb&#xE9;m dos recorrentes conflitos que incidem sobre essa parte da geografia mundial.</p>
		<p>As atuais di&#xE1;sporas africana e asi&#xE1;tica representam a face mais vis&#xED;vel de um fen&#xF4;meno que atinge especialmente o Sul da Europa, mas tamb&#xE9;m outros pa&#xED;ses do planeta. No nosso entendimento, este quadro &#xE9; tamb&#xE9;m consequ&#xEA;ncia da incapacidade das ag&#xEA;ncias de desenvolvimento em encontrar solu&#xE7;&#xF5;es que, ao menos, atenuem os impactos dos mais diversos conflitos (&#xE9;tnicos, religiosos, etc.) que assolam o mundo contempor&#xE2;neo. Por outro lado, a ascens&#xE3;o dos pa&#xED;ses do Sul no cen&#xE1;rio econ&#xF4;mico internacional n&#xE3;o se traduziu, at&#xE9; o presente momento, em mudan&#xE7;as na atual conforma&#xE7;&#xE3;o das estruturas globais de poder.</p>
		<p>O fato &#xE9; que grande parte das organiza&#xE7;&#xF5;es multilaterais foi concebida dentro de um ambiente que emerge de dois sucessivos conflitos b&#xE9;licos e que dista frontalmente da realidade atual, onde novos atores cobram espa&#xE7;o na arena das grandes decis&#xF5;es sobre o futuro do planeta, em meio aos efeitos de uma crise econ&#xF4;mica que se abateu sobre os pa&#xED;ses capitalistas centrais, e que at&#xE9; o momento n&#xE3;o d&#xE1; mostras concretas de haver sido debelada. O crescimento no processo de coopera&#xE7;&#xE3;o Sul-Sul explica, em parte, a perda de protagonismo do hemisf&#xE9;rio norte, especialmente em termos do com&#xE9;rcio internacional e do fluxo de investimentos. Analisar os contornos da crise ou mesmo as transforma&#xE7;&#xF5;es geopol&#xED;ticas dela decorrentes escapa completamente aos objetivos desse trabalho.</p>
		<p>Ao submeter esse artigo &#xE0; Textos &#x26; Contextos (Porto Alegre) sentimo-nos desafiados n&#xE3;o somente a elaborar uma reflex&#xE3;o sobre um dos mais palpitantes temas da atualidade &#x2013; a fome e a inseguran&#xE7;a alimentar &#x2013;, mas de discutir as nuances do debate sobre um assunto que assume um car&#xE1;ter transversal, reivindicando o aporte de distintas perspectivas conceituais e campos do conhecimento. Com efeito, partimos da premissa de que o caso brasileiro &#xE9; relevante n&#xE3;o somente em virtude dos resultados alcan&#xE7;ados na &#xFA;ltima d&#xE9;cada em termos de reduzir a fome e a desigualdade, mas especialmente por haver sido convertido numa experi&#xEA;ncia referencial no que tange &#xE0; natureza dos instrumentos de interven&#xE7;&#xE3;o, do conhecimento que enseja acerca desse fen&#xF4;meno e das singularidades de um marco legal e institucional que foi sendo conjuntamente moldado, ao longo dos &#xFA;ltimos anos, pelo Estado e pela sociedade civil.</p>
		<p>A estrat&#xE9;gia brasileira deve ser vista como um importante ponto de inflex&#xE3;o dentro de uma tradi&#xE7;&#xE3;o intelectual e pol&#xED;tica, que historicamente se apoiava na mera transfer&#xEA;ncia de recursos materiais aos desvalidos e na l&#xF3;gica perversa de combate &#xE0; fome, centrada na caridade e na eterna depend&#xEA;ncia dos grupos subalternos frente &#xE0;s elites pol&#xED;ticas locais e regionais. Mas quais s&#xE3;o as ferramentas mais eficazes adotadas pelo Brasil na &#xFA;ltima d&#xE9;cada? Por que algumas delas, a exemplo do Programa de Aquisi&#xE7;&#xE3;o de Alimentos da Agricultura Familiar e do Programa Nacional de Alimenta&#xE7;&#xE3;o Escolar, t&#xEA;m sido vistas como exemplos bem-sucedidos de inova&#xE7;&#xE3;o social, pol&#xED;tica e institucional? O foco desse artigo &#xE9; responder tais indaga&#xE7;&#xF5;es, bem como analisar alguns dos fatores que, na nossa acep&#xE7;&#xE3;o, representam amea&#xE7;as e desafios &#xE0; experi&#xEA;ncia brasileira. Alguns deles, como oportunamente veremos, s&#xE3;o de natureza estrutural, enquanto outros, n&#xE3;o menos importantes, s&#xE3;o de ordem eminentemente conjuntural.</p>
		<p>Este artigo se subdivide em tr&#xEA;s outras se&#xE7;&#xF5;es. A primeira delas exp&#xF5;e um marco geral da quest&#xE3;o da seguran&#xE7;a alimentar do ponto de vista conceitual e enquanto objeto de atua&#xE7;&#xE3;o do Estado. Na segunda se&#xE7;&#xE3;o analisamos, com maior profundidade, o caminho seguido pelo Brasil no combate &#xE0; fome e &#xE0; inseguran&#xE7;a alimentar. A &#xEA;nfase &#xE9; posta sobre a din&#xE2;mica dos mercados institucionais, os quais foram convertidos na pedra angular de uma das mais ambiciosas atua&#xE7;&#xF5;es p&#xFA;blico-privadas no enfrentamento ao problema da fome, da inclus&#xE3;o social, do desenvolvimento rural e do fortalecimento da agricultura familiar. Essa mesma se&#xE7;&#xE3;o apresenta os principais desafios e dificuldades a serem enfrentados no sentido de sua continuidade e consolida&#xE7;&#xE3;o. A terceira e &#xFA;ltima se&#xE7;&#xE3;o re&#xFA;ne as considera&#xE7;&#xF5;es finais, mas n&#xE3;o conclusivas, do presente estudo.</p>
		<sec>
			<title>A seguran&#xE7;a alimentar: delimitando o terreno</title>
			<p>Uma vota&#xE7;&#xE3;o hist&#xF3;rica reconduziu Jos&#xE9; Graziano da Silva para um novo mandato (2015-2019) como Diretor Geral da FAO (Organiza&#xE7;&#xE3;o das Na&#xE7;&#xF5;es Unidas para a Alimenta&#xE7;&#xE3;o e Agricultura). Isso porque o agr&#xF4;nomo e economista brasileiro colheu nada menos que 177 dos 182 votos poss&#xED;veis dentre os pa&#xED;ses participantes desta elei&#xE7;&#xE3;o. Esse quadro denota uma situa&#xE7;&#xE3;o muito distinta &#xE0; que foi a acirrada disputa, em 2011, com o ex-ministro espanhol de rela&#xE7;&#xF5;es exteriores, Miguel &#xC1;ngel Moratinos, onde a vit&#xF3;ria de Graziano foi conquistada numa elei&#xE7;&#xE3;o em dois turnos, com uma apertada margem de apenas quatro votos em seu favor.</p>
			<p>Mas cabe aqui sublinhar dois aspectos que consideramos de grande relev&#xE2;ncia na abordagem sobre a quest&#xE3;o da seguran&#xE7;a alimentar. O primeiro deles &#xE9; que a perman&#xEA;ncia de Graziano da Silva n&#xE3;o pode ser vista como um triunfo do Sul sobre o Norte. Tamb&#xE9;m n&#xE3;o pode ser simplesmente atribu&#xED;da aos logros da diplomacia brasileira no &#xE2;mbito da pol&#xED;tica internacional. Em verdade, trata-se de consequ&#xEA;ncia l&#xF3;gica e materializa&#xE7;&#xE3;o insofism&#xE1;vel das conquistas brasileiras no que tange ao combate &#xE0; fome e &#xE0; inseguran&#xE7;a alimentar na &#xFA;ltima d&#xE9;cada em escala planet&#xE1;ria.</p>
			<p>E se esse pa&#xED;s deixou de fazer parte do mapa da fome, como vem sendo noticiado na imprensa nacional e estrangeira, n&#xE3;o foi simplesmente obra de iniciativas isoladas ou de a&#xE7;&#xF5;es atinentes apenas ao &#xE2;mbito da esfera federal. O Fome Zero, como internacionalmente ficou conhecido, &#xE9; um macroprograma que abriga, em seu interior, um amplo arsenal de instrumentos de interven&#xE7;&#xE3;o. Dois deles, que consideramos mais importantes, ser&#xE3;o analisados nas se&#xE7;&#xF5;es subsequentes.</p>
			<p>Mas antes de adentrar nessa discuss&#xE3;o &#xE9; preciso ressaltar a realidade paradoxal de um pa&#xED;s de dimens&#xF5;es continentais
				<xref ref-type="fn" rid="fn2">
					<sup>1</sup>
				</xref>, que &#xE9; visto como um dos grandes celeiros do mundo, mas tamb&#xE9;m como detentor de contradi&#xE7;&#xF5;es desconcertantes. O gigante latino-americano n&#xE3;o &#xE9; visto apenas como arqu&#xE9;tipo de concentra&#xE7;&#xE3;o de terra e riqueza, mas tamb&#xE9;m como lugar de dom&#xED;nio de grandes desequil&#xED;brios regionais e pela exist&#xEA;ncia de bols&#xF5;es de mis&#xE9;ria, especialmente na periferia das grandes metr&#xF3;poles e em certas zonas onde a fome, a seca e a pobreza s&#xE3;o end&#xEA;micas. Esse &#xE9; o caso do semi&#xE1;rido nordestino
				<xref ref-type="fn" rid="fn3">
					<sup>2</sup>
				</xref>, cobrindo boa parte dos estados setentrionais, assim como do Vale do Jequitinhonha (Estado de Minas Gerais) e Vale do Ribeira (Estado de S&#xE3;o Paulo), nos quais a fome e a pobreza andam de m&#xE3;os dadas.
			</p>
			<p>Ainda hoje a face enigm&#xE1;tica deste pa&#xED;s desafia a compreens&#xE3;o dos cientistas sociais, justamente diante da conviv&#xEA;ncia de uma na&#xE7;&#xE3;o moderna, aberta &#xE0; inova&#xE7;&#xE3;o e plenamente integrada aos grandes circuitos mundiais, com um Brasil arcaico, onde as transforma&#xE7;&#xF5;es sociais resistem ao tempo e a qualquer esfor&#xE7;o de compreens&#xE3;o. Durante os anos 1960 o antrop&#xF3;logo Gilberto Freyre mencionava um pa&#xED;s que, sendo 
				<italic>uno</italic>, era igualmente uma constela&#xE7;&#xE3;o de 
				<italic>Brasis.</italic> Em outras palavras, poder-se-ia dizer que o Brasil &#xE9; feito de muitos 
				<italic>Brasis</italic> (
				<xref ref-type="bibr" rid="B12">FREYRE, 1968</xref>), abarcando um imenso territ&#xF3;rio que ocupa quase a metade da Am&#xE9;rica do Sul.
			</p>
			<p>No auge dos anos 1940 outro brasileiro, Josu&#xE9; de Castro, que exerceu tamb&#xE9;m o cargo de Diretor da FAO, j&#xE1; havia escrito uma das mais instigantes obras (A geografia da fome) que analisa as ra&#xED;zes dessa quest&#xE3;o, num pa&#xED;s onde abundam recursos naturais e que det&#xE9;m a maior superf&#xED;cie agr&#xE1;ria do planeta. Em estilo autobiogr&#xE1;fico, Castro desnaturaliza este fen&#xF4;meno, o qual &#xE9; visto como um flagelo produzido pela natureza das rela&#xE7;&#xF5;es sociais, sobretudo nas regi&#xF5;es norte e nordeste, onde &#xE0; precariedade das rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho soma-se a falta de saneamento b&#xE1;sico, o analfabetismo, a escassez de alimento e de oportunidades. Numa de suas obras mais importantes, reunida em 
				<xref ref-type="bibr" rid="B11">Castro (2003)</xref>, ele alertou que a fome no Brasil era considerada como um tema proibido. O fato &#xE9; que ainda hoje as fam&#xED;lias que habitam a margem dos rios, em moradias prec&#xE1;rias (palafitas), permanecem quase invis&#xED;veis aos olhos dos governos locais e da sociedade civil.
			</p>
			<p>Reconhecer que a fome, a pobreza e a exclus&#xE3;o s&#xE3;o socialmente produzidas representa um grande avan&#xE7;o, assim como convergir para o estabelecimento de uma base epistemol&#xF3;gica suficientemente consistente sobre o que vem a ser a no&#xE7;&#xE3;o correspondente &#xE0; seguran&#xE7;a alimentar e nutricional (SAN). Durante muito tempo o termo alternava duas concep&#xE7;&#xF5;es bastante distintas: ora se referia &#xE0; ideia de seguran&#xE7;a do alimento 
				<italic>(safety food)</italic>, no sentido da aus&#xEA;ncia de agentes contaminantes (f&#xED;sicos, qu&#xED;micos, biol&#xF3;gicos, etc.), ora se traduzia na ideia de soberania alimentar 
				<italic>(food security)</italic> em termos de assegurar uma dieta alimentar satisfat&#xF3;ria aos indiv&#xED;duos e coletividades.
			</p>
			<p>No &#xFA;ltimo caso, h&#xE1; uma longa tradi&#xE7;&#xE3;o das ag&#xEA;ncias internacionais centrada no princ&#xED;pio da ajuda humanit&#xE1;ria. Historicamente, os pa&#xED;ses ricos levam a efeito programas de coopera&#xE7;&#xE3;o baseados na remessa de g&#xEA;neros aliment&#xED;cios para as popula&#xE7;&#xF5;es civis, seja em situa&#xE7;&#xF5;es marcadas por cat&#xE1;strofes ou por grandes conflitos. Sobre esse aspecto, vale mencionar uma obra muito interessante sobre os dilemas do combate &#xE0; fome e &#xE0; inseguran&#xE7;a alimentar. Referimo-nos ao livro 
				<italic>Aid as obstacle</italic> (
				<xref ref-type="bibr" rid="B17">LAPPE, COLLINS; KINLEY, 1981</xref>), o qual critica, de forma pragm&#xE1;tica, o que tem sido a t&#xF4;nica dos aludidos programas internacionais levados a cabo especialmente pelos Estados Unidos da Am&#xE9;rica.
			</p>
			<p>Nesse sentido, a &#xEA;nfase est&#xE1; em mostrar que a ajuda pode tornar-se um obst&#xE1;culo quando produz a desestrutura&#xE7;&#xE3;o dos setores internos dos pa&#xED;ses receptores. Alguns exemplos s&#xE3;o muito ilustrativos. No caso africano, a entrada do leite em p&#xF3; proveniente da Holanda produz a fal&#xEA;ncia dos criadores de gado leiteiro (e. g. Senegal), especialmente em se tratando de um alimento que &#xE9; vendido a um pre&#xE7;o extremamente baixo, cujo valor nutricional &#xE9; inferior ao produto fresco local. Para os pa&#xED;ses ricos da Europa a ajuda humanit&#xE1;ria serve, em boa medida, para dar uma destina&#xE7;&#xE3;o digna aos seus excedentes, ainda que seja feita em detrimento da sobreviv&#xEA;ncia dos produtores rurais dos pa&#xED;ses receptores. Em outras palavras, estes autores criticam, de forma perempt&#xF3;ria, o mito de que mais ajuda resolveria o problema da fome. Em verdade, o que se verifica &#xE9; justamente o contr&#xE1;rio. A seguran&#xE7;a alimentar deve ser entendida em sua natureza transversal e multifacetada, muito al&#xE9;m da simples avalia&#xE7;&#xE3;o em termos de disponibilidade alimentar ou nutricional.</p>
			<p>H&#xE1; um outro eixo atrav&#xE9;s do qual a abordagem convencional do combate &#xE0; fome e &#xE0; inseguran&#xE7;a alimentar se manifesta. Referimo-nos &#xE0; concep&#xE7;&#xE3;o produtivista, qual seja, o argumento de que se trata de dar uma &#x201C;solu&#xE7;&#xE3;o tecnol&#xF3;gica&#x201D; (
				<xref ref-type="bibr" rid="B18">MARSDEN, 2012</xref>; 
				<xref ref-type="bibr" rid="B16">HINRICHS, 2013</xref>) ao problema, elevando a oferta de alimento via incremento da produtividade agr&#xED;cola. O vatic&#xED;nio malthusiano &#xE9; evocado para defender o uso de biotecnologias, de agroqu&#xED;micos e toda sorte de apoios p&#xFA;blicos a essa forma de produzir, desconsiderando os graves danos ambientais e os grandes esc&#xE2;ndalos agroalimentares a ele associados. Essa vis&#xE3;o se coaduna com a forma&#xE7;&#xE3;o de grandes estoques e estruturas de armazenamento e de uma pol&#xED;tica de estabiliza&#xE7;&#xE3;o e garantia de pre&#xE7;os m&#xED;nimos, sobretudo no caso de 
				<italic>commodities</italic> agr&#xED;colas. Essa orienta&#xE7;&#xE3;o &#xE9; bastante forte no Brasil, especialmente nos estados da federa&#xE7;&#xE3;o marcados pelo peso do grande agroneg&#xF3;cio exportador ou a grande explora&#xE7;&#xE3;o patronal (complexo soja, milho, arroz e pecu&#xE1;ria extensiva). Mas, como veremos na continua&#xE7;&#xE3;o, a &#xFA;ltima d&#xE9;cada trouxe consigo algumas mudan&#xE7;as, principalmente quando a fome passou a ser vista como um &#x201C;problema p&#xFA;blico&#x201D; (
				<xref ref-type="bibr" rid="B23">SILVA; SCHMITT, 2012</xref>) e n&#xE3;o simplesmente como uma fatalidade.
			</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A seguran&#xE7;a alimentar no Brasil como pol&#xED;tica de estado</title>
			<p>Em que consiste a estrat&#xE9;gia brasileira de combate &#xE0; fome e &#xE0; inseguran&#xE7;a alimentar? A primeira coisa que deve ser dita &#xE9; que pela primeira vez em sua hist&#xF3;ria o assunto ganha verdadeiramente uma dimens&#xE3;o de problema nacional dentro da agenda estatal. Enquanto o mundo assistia a uma segunda etapa da interven&#xE7;&#xE3;o militar norte-americana no Golfo P&#xE9;rsico, o discurso de Lula da Silva, em 2003, logo ap&#xF3;s sua investidura na Presid&#xEA;ncia da Rep&#xFA;blica, era muito contundente: &#x201C;a nossa guerra &#xE9; contra a fome&#x201D;.</p>
			<p>Enfrentar este drama nacional converteu-se em bandeira da Era Lula da Silva, em seus dois sucessivos mandatos, assim como na pr&#xF3;pria elei&#xE7;&#xE3;o que conduziu Dilma Rousseff &#xE0; presid&#xEA;ncia do Brasil com seu compromisso de erradicar a pobreza extrema. A estrat&#xE9;gia brasileira se organiza em torno a um macroprograma denominado &#x201C;Fome Zero&#x201D;, o qual integra, em sua forma de atua&#xE7;&#xE3;o, uma grande diversidade de instrumentos de interven&#xE7;&#xE3;o que conciliam tanto a transfer&#xEA;ncia de renda quanto a&#xE7;&#xF5;es de car&#xE1;ter estruturante. Os programas Bolsa Fam&#xED;lia e Renda M&#xED;nima articulam em torno de si o repasse de recursos monet&#xE1;rios, mas tamb&#xE9;m a obrigatoriedade da fam&#xED;lia de que seus filhos frequentem regularmente a escola para receber tal benef&#xED;cio. Outras pol&#xED;ticas importantes s&#xE3;o a cria&#xE7;&#xE3;o de bancos de alimentos, restaurantes populares, centros de recep&#xE7;&#xE3;o e distribui&#xE7;&#xE3;o de doa&#xE7;&#xF5;es, o incentivo &#xE0; agricultura urbana e outras medidas.</p>
			<p>O Fome Zero contempla uma atua&#xE7;&#xE3;o que se desenvolve em tr&#xEA;s n&#xED;veis, quais sejam, o &#xE2;mbito local (municipal), estadual e federal. Outro elemento importante &#xE9; a quest&#xE3;o da atua&#xE7;&#xE3;o da sociedade civil, a qual se v&#xEA; materializada na cria&#xE7;&#xE3;o do Conselho Nacional de Seguran&#xE7;a Alimentar e Nutricional (CONSEA), dos conselhos estaduais e dos conselhos municipais. Mas, indubitavelmente, a grande inova&#xE7;&#xE3;o brasileira recai na cria&#xE7;&#xE3;o do que se veio a denominar de &#x201C;mercados institucionais&#x201D; ou tamb&#xE9;m 
				<italic>nested markets</italic> (
				<xref ref-type="bibr" rid="B21">PLOEG, 2011</xref>), os quais podem ser objetivamente definidos como uma configura&#xE7;&#xE3;o espec&#xED;fica de mercado em que as redes de troca assumem estrutura particular, previamente determinada por normas e conven&#xE7;&#xF5;es negociadas por um conjunto de atores e organiza&#xE7;&#xF5;es, onde o Estado geralmente assume papel central, notadamente atrav&#xE9;s de compras p&#xFA;blicas (
				<xref ref-type="bibr" rid="B14">GRISA, 2009</xref>, p.5).
			</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O Programa de Aquisi&#xE7;&#xE3;o de Alimentos da Agricultura Familiar</title>
			<p>O Programa de Aquisi&#xE7;&#xE3;o de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) e o Programa Nacional de Alimenta&#xE7;&#xE3;o Escolar (PNAE) s&#xE3;o as duas principais modalidades de mercados institucionais existentes no Brasil. Seu surgimento deve ser visto como linha de continuidade ao que foi a cria&#xE7;&#xE3;o, em 1995, do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), qual seja, uma pol&#xED;tica de cr&#xE9;dito destinada especificamente para apoiar essa forma social de produ&#xE7;&#xE3;o. Antes de entrar na discuss&#xE3;o propriamente dita sobre os mercados institucionais brasileiros, conv&#xE9;m fazer uma pequena digress&#xE3;o. O que se entende concretamente por agricultura familiar no Brasil? Em linhas gerais, equivale a um tipo de explora&#xE7;&#xE3;o de pequenas dimens&#xF5;es, conduzida fundamentalmente atrav&#xE9;s do emprego da m&#xE3;o de obra da pr&#xF3;pria fam&#xED;lia, que vive no estabelecimento e o administra diretamente atrav&#xE9;s de seus titulares. A propriedade e os ativos s&#xE3;o objeto de transfer&#xEA;ncia intergeracional, dentro da pr&#xF3;pria fam&#xED;lia, sendo que os seus membros est&#xE3;o ligados entre si por la&#xE7;os de parentesco e/ou consanguinidade.</p>
			<p>Nos termos da Lei n&#xBA; 11.326, de 24 de julho de 2006, um agricultor familiar &#xE9; aquele que explora a terra na condi&#xE7;&#xE3;o de propriet&#xE1;rio, posseiro, arrendat&#xE1;rio, parceiro ou concession&#xE1;rio (assentado da reforma agr&#xE1;ria), reside na propriedade rural ou pr&#xF3;ximo a ela, possuindo no m&#xE1;ximo quatro (04) m&#xF3;dulos fiscais, al&#xE9;m de ter o trabalho familiar como base de explora&#xE7;&#xE3;o do estabelecimento. Um m&#xF3;dulo fiscal &#xE9; definido como uma quantidade de terra capaz de assegurar o sustento de uma fam&#xED;lia rural. No Brasil seu tamanho pode variar entre 7 e 110 hectares, dependendo da regi&#xE3;o em que o estabelecimento esteja situado. Com base nesse crit&#xE9;rio, uma explora&#xE7;&#xE3;o ou estabelecimento familiar pode possuir entre 28 e 400 hectares, aproximadamente. Quanto mais desenvolvida e integrada for a regi&#xE3;o, menor tende a ser o tamanho do m&#xF3;dulo fiscal e, consequentemente, as dimens&#xF5;es m&#xE1;ximas da explora&#xE7;&#xE3;o familiar. Ao se enquadrar dentro dos aludidos par&#xE2;metros, o estabelecimento rural, atrav&#xE9;s de seu titular (homem ou mulher), deve cadastrar-se, junto aos &#xF3;rg&#xE3;os credenciados, como agricultor familiar, obtendo a &#x201C;Declara&#xE7;&#xE3;o de Aptid&#xE3;o ao PRONAF&#x201D; (DAP). Este documento o habilita a usufruir da condi&#xE7;&#xE3;o e prerrogativa da agricultura familiar, entre as quais, ter acesso a financiamentos a juros subsidiados e participar de programas governamentais.</p>
			<p>O &#xFA;ltimo Censo Agropecu&#xE1;rio 2006 (
				<xref ref-type="bibr" rid="B5">IBGE, 2009</xref>) identificou a exist&#xEA;ncia de 5,2 milh&#xF5;es de estabelecimentos rurais, sendo que 84,4% deles s&#xE3;o considerados de car&#xE1;ter familiar. N&#xE3;o obstante, esse expressivo contingente ocupava uma &#xE1;rea correspondente a escassos 24,3% da &#xE1;rea total. Apesar de absorverem pouco mais de 25% dos recursos cr&#xE9;dito rural, os estabelecimentos familiares respondiam, segundo a mesma fonte, por 37,8% do valor bruto da produ&#xE7;&#xE3;o agropecu&#xE1;ria nacional, empregando aproximadamente 13,8 milh&#xF5;es de pessoas ou cerca de 77% da popula&#xE7;&#xE3;o ocupada na agricultura. A institucionaliza&#xE7;&#xE3;o da agricultura familiar deve ser vista como express&#xE3;o material do processo de redemocratiza&#xE7;&#xE3;o nacional, decorridos 21 anos de ditadura militar (1964-1985), mas tamb&#xE9;m como consequ&#xEA;ncia da capacidade de articula&#xE7;&#xE3;o das organiza&#xE7;&#xF5;es sociais do campo e da cidade, incluindo os movimentos de luta pela terra. A cria&#xE7;&#xE3;o do aludido PRONAF consagra um marco, na medida em que o Brasil, pela primeira vez em sua hist&#xF3;ria, passa a contar com uma pol&#xED;tica especial de cr&#xE9;dito para esse tipo de estabelecimento rural. Ap&#xF3;s esse pequeno desvio de rota, crucial, para compreender o que ser&#xE1; posteriormente apresentado, conv&#xE9;m retomar o rumo central da reflex&#xE3;o e discuss&#xE3;o das informa&#xE7;&#xF5;es.
			</p>
			<p>O PAA foi criado em 2003, durante o primeiro mandato do presidente Lu&#xED;s In&#xE1;cio Lula da Silva, por meio do qual, o governo federal assegura a compra antecipada dos produtos de agricultores familiares que passam a ser chamados de &#x201C;benefici&#xE1;rios produtores&#x201D;. A produ&#xE7;&#xE3;o adquirida &#xE9; destinada aos &#x201C;benefici&#xE1;rios consumidores&#x201D; (asilos, creches, albergues, hospitais, refeit&#xF3;rios p&#xFA;blicos, etc.). Atrav&#xE9;s deste programa os alimentos s&#xE3;o adquiridos sem a necessidade de licita&#xE7;&#xE3;o, a pre&#xE7;os de refer&#xEA;ncia, os quais n&#xE3;o podem ser superiores ou inferiores aos praticados nos mercados regionais.</p>
			<p>Atualmente existem seis (06) modalidades do PAA, tal como resumidamente indicam os dados do 
				<xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref> (
				<xref ref-type="bibr" rid="B6">MDS 2015</xref>). A primeira delas &#xE9; a &#x201C;Compra de Alimentos com Doa&#xE7;&#xE3;o Simult&#xE2;nea&#x201D;, a qual visa promover a articula&#xE7;&#xE3;o entre a produ&#xE7;&#xE3;o da agricultura familiar e as demandas locais de suplementa&#xE7;&#xE3;o alimentar, al&#xE9;m do desenvolvimento da economia local. Nesse sentido, os produtos adquiridos de agricultores familiares s&#xE3;o doados a pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de inseguran&#xE7;a alimentar, por meio de redes socioassistenciais ou equipamentos p&#xFA;blicos de seguran&#xE7;a alimentar, incluindo a rede p&#xFA;blica e filantr&#xF3;pica de ensino. Tal modalidade &#xE9; executada com recursos do Minist&#xE9;rio do Desenvolvimento Social e Combate &#xE0; Fome (MDS), o qual pode envolver dois mecanismos b&#xE1;sicos de implementa&#xE7;&#xE3;o, quais sejam, a celebra&#xE7;&#xE3;o de termos de ades&#xE3;o com &#xF3;rg&#xE3;os ou entidades da administra&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica (estadual, municipal, distrital) direta ou indireta e cons&#xF3;rcios p&#xFA;blicos ou a formaliza&#xE7;&#xE3;o de um termo de coopera&#xE7;&#xE3;o com a pr&#xF3;pria CONAB. A compra com doa&#xE7;&#xE3;o simult&#xE2;nea tanto pode envolver a aquisi&#xE7;&#xE3;o de alimentos 
				<italic>in natura</italic> como processados (geleias, conservas e outros produtos artesanais). Para participar desta modalidade, os agricultores devem estar organizados em cooperativas ou associa&#xE7;&#xF5;es, as quais precisam encaminhar &#xE0; CONAB uma proposta de participa&#xE7;&#xE3;o. Em sendo aprovada a proposta, a organiza&#xE7;&#xE3;o emite um C&#xE9;dula de Produto Rural (CPR Doa&#xE7;&#xE3;o), passando a fornecer alimentos &#xE0;s entidades assistenciais. O limite de participa&#xE7;&#xE3;o por unidade familiar (ou estabelecimento familiar) &#xE9; de at&#xE9; R$ 6.500,00/ano por titular ou de at&#xE9; R$ 8.000,00/ano para agricultores familiares vinculados a organiza&#xE7;&#xF5;es da agricultura familiar (via CONAB).
			</p>
			<p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>As modalidades do Programa de Aquisi&#xE7;&#xE3;o de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA)</title>
				</caption>
				<alternatives>
					<graphic xlink:href="c1.jpg"/>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup width="33%">
						<col/>
						<col/>
						<col/>
					</colgroup>
					<thead style="border-top: thin solid; border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr>
							<th align="center">Modalidade do PAA</th>
							<th align="center">Origem principal dos recursos</th>
							<th align="center">Limite da opera&#xE7;&#xE3;o m&#xE1;ximo por fam&#xED;lia ou por organiza&#xE7;&#xE3;o participante</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody style="border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr>
							<td align="center">Compra de Alimentos com Doa&#xE7;&#xE3;o Simult&#xE2;nea</td>
							<td align="center">MDS</td>
							<td align="center">R$ 6,5 mil reais/fam&#xED;lia/ano ou
								<break/> R$ 8 mil/fam&#xED;lia/ano ligada &#xE0; cooperativa ou associa&#xE7;&#xE3;o
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">Compra Direta da Agricultura Familiar</td>
							<td align="center">MDS e MDA</td>
							<td align="center">R$ 8 mil/fam&#xED;lia/ano ligada &#xE0; cooperativa ou associa&#xE7;&#xE3;o</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">Apoio &#xE0; Forma&#xE7;&#xE3;o de Estoques</td>
							<td align="center">MDS e MDA</td>
							<td align="center">R$ 8,5 mil reais/fam&#xED;lia/ano e R$ 1,5 milh&#xE3;o para cada organiza&#xE7;&#xE3;o da agricultura familiar participante.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">Incentivo &#xE0; Produ&#xE7;&#xE3;o e ao Consumo de Leite</td>
							<td align="center">MDS</td>
							<td align="center">R$ 4 mil/fam&#xED;lia/semestre</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">Compra Institucional</td>
							<td align="center">Uni&#xE3;o, estados, munic&#xED;pios, entidades filantr&#xF3;picas, hospitais, pres&#xED;dios, etc., mediante chamadas p&#xFA;blicas (editais)</td>
							<td align="center">R$ 20 mil reais/fam&#xED;lia/ano/&#xF3;rg&#xE3;o ou entidade compradora.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">Aquisi&#xE7;&#xE3;o de Sementes</td>
							<td align="center">MDS e MDA</td>
							<td align="center">R$ 6 milh&#xF5;es de reais/ano/organiza&#xE7;&#xE3;o produtora ou fornecedora.</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o dos autores a partir de dados do 
						<xref ref-type="bibr" rid="B6">MDS (2015)</xref>.
					</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>A segunda modalidade &#xE9; a &#x201C;Compra Direta da Agricultura Familiar&#x201D;. Ela permite a compra de produtos espec&#xED;ficos definidos pelo Grupo Gestor do PAA
				<xref ref-type="fn" rid="fn4">
					<sup>3</sup>
				</xref> para forma&#xE7;&#xE3;o de estoques p&#xFA;blicos, destinados a a&#xE7;&#xF5;es de abastecimento social ou venda. Essa modalidade cumpre um importante papel na regula&#xE7;&#xE3;o dos pre&#xE7;os de alimentos. Esse aspecto &#xE9; crucial, considerando as enormes dificuldades de produtores familiares de enfrentar o poder de especuladores e atravessadores em n&#xED;vel local e/ou regional. Os produtos adquiridos pela Compra Direta t&#xEA;m sido especialmente utilizados para compor as cestas de alimentos distribu&#xED;das a grupos populacionais espec&#xED;ficos. A Compra Direta permite a aquisi&#xE7;&#xE3;o de produtos, a pre&#xE7;os de refer&#xEA;ncia definidos pelo Grupo Gestor do Programa, at&#xE9; o limite anual de R$ 8.000,00 (oito mil reais
				<xref ref-type="fn" rid="fn5">
					<sup>4</sup>
				</xref>) por unidade familiar. Para participar, os agricultores familiares devem possuir a Declara&#xE7;&#xE3;o de Aptid&#xE3;o ao PRONAF &#x2013; DAP e estar organizados, preferencialmente, em grupos formais (cooperativas e associa&#xE7;&#xF5;es) ou informais, mas tamb&#xE9;m podem participar individualmente.
			</p>
			<p>A terceira modalidade do PAA, como mostra o 
				<xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref>, corresponde ao &#x201C;Apoio &#xE0; Forma&#xE7;&#xE3;o de Estoques&#x201D; (CPR Estoque), a qual foi criada com vistas a oferecer aos produtores familiares mecanismos de apoio &#xE0; comercializa&#xE7;&#xE3;o, sustenta&#xE7;&#xE3;o de pre&#xE7;os e possibilidades de agrega&#xE7;&#xE3;o de valor aos seus produtos. Trata-se de apoio financeiro para a constitui&#xE7;&#xE3;o de estoques de alimentos por organiza&#xE7;&#xF5;es da agricultura familiar, para posterior comercializa&#xE7;&#xE3;o e devolu&#xE7;&#xE3;o de recursos ao Poder P&#xFA;blico ou destina&#xE7;&#xE3;o dos alimentos aos estoques p&#xFA;blicos.
			</p>
			<p>A CONAB &#xE9; encarregada da operacionaliza&#xE7;&#xE3;o com base em Termos de Coopera&#xE7;&#xE3;o firmados com o Minist&#xE9;rio do Desenvolvimento Social e Combate &#xE0; Fome (MDS) e o Minist&#xE9;rio do Desenvolvimento Agr&#xE1;rio (MDA). Ao identificar a possibilidade de forma&#xE7;&#xE3;o de estoque de determinado produto, a organiza&#xE7;&#xE3;o de agricultores envia uma proposta de participa&#xE7;&#xE3;o &#xE0; CONAB da unidade federativa. A proposta deve conter a especifica&#xE7;&#xE3;o do produto, sua quantidade, o pre&#xE7;o proposto, o prazo necess&#xE1;rio para a forma&#xE7;&#xE3;o do estoque e os agricultores a serem beneficiados, os quais devem possuir a Declara&#xE7;&#xE3;o de Aptid&#xE3;o ao PRONAF - DAP. Com a aprova&#xE7;&#xE3;o, a organiza&#xE7;&#xE3;o emite a C&#xE9;dula de Produto Rural (CPR- Estoque) e a CONAB disponibiliza o recurso. Do mesmo modo que as modalidades mencionadas anteriormente, h&#xE1; um limite (R$ 8.000,00) por unidade familiar/ano, assim como para cada organiza&#xE7;&#xE3;o associativa participante (R$ 1,5 milh&#xE3;o/ano) para evitar distor&#xE7;&#xF5;es ou desequil&#xED;brios. A CPR-Estoque tem prazo de vencimento de 12 meses, devendo ser quitada ao final do per&#xED;odo. A associa&#xE7;&#xE3;o ou cooperativa deve vender o alimento no mercado convencional e devolver ao poder p&#xFA;blico o valor repassado pela CONAB acrescido de encargos (3% ao ano).</p>
			<p>A quarta modalidade do PAA corresponde ao &#x201C;Incentivo &#xE0; Produ&#xE7;&#xE3;o e ao Consumo de Leite&#x201D;, sinteticamente chamado de PAA Leite. Como o pr&#xF3;prio nome indica, trata-se de ampliar o suprimento de leite para fam&#xED;lias e indiv&#xED;duos em situa&#xE7;&#xE3;o de vulnerabilidade social por meio da distribui&#xE7;&#xE3;o gratuita, bem como de incentivar a produ&#xE7;&#xE3;o l&#xE1;ctea dos produtores familiares, fortalecendo o setor produtivo local e integrando o leite aos demais ciclos de abastecimento do PAA. Todavia, tal modalidade est&#xE1; restrita aos territ&#xF3;rios pertencentes aos estados do nordeste brasileiro e ao norte de Minas Gerais. O PAA Leite adquire leite de vaca e de cabra de agricultores familiares ligados a associa&#xE7;&#xF5;es ou cooperativas, que devem cumprir os requisitos de controle de qualidade do produto.</p>
			<p>Os benefici&#xE1;rios consumidores s&#xE3;o as pessoas registradas no Cadastro &#xDA;nico de benefici&#xE1;rios dos programas Sociais do Governo Federal, que &#xE9; um instrumento que identifica e caracteriza as fam&#xED;lias de baixa renda. Gestantes, crian&#xE7;as com idade compreendida entre dois e sete anos, nutrizes at&#xE9; seis meses ap&#xF3;s o parto, pessoas com sessenta anos ou mais correspondem ao seu p&#xFA;blico preferencial. Para participar do PAA Leite o produtor familiar (benefici&#xE1;rio-produtor) deve ser enquadrado como tal, entregar um volume m&#xE1;ximo de 100 litros/dia, comprovar a vacina&#xE7;&#xE3;o de seus animais. Diferentemente das modalidades anteriores, o valor m&#xE1;ximo por produtor corresponde a R$ 4.000,00 por semestre. O valor do litro de leite &#xE9; fixado pelo Grupo Gestor do PAA de acordo com a m&#xE9;dia dos pre&#xE7;os praticados no mercado local.</p>
			<p>A &#x201C;Compra Institucional&#x201D; compreende a quinta modalidade do PAA. Trata-se de incentivar a compra de alimentos da agricultura familiar por parte de &#xF3;rg&#xE3;os da administra&#xE7;&#xE3;o direta e indireta de estados, munic&#xED;pios e do pr&#xF3;prio governo federal (autarquias, funda&#xE7;&#xF5;es, etc.). Assentados da reforma agr&#xE1;ria, aquicultores, pescadores artesanais, comunidades ind&#xED;genas, comunidades remanescentes de quilombos (coletividades negras rurais), assim como cooperativas e associa&#xE7;&#xF5;es se apresentam como fornecedores de alimentos para refeit&#xF3;rios, cantinas e restaurantes de &#xF3;rg&#xE3;os p&#xFA;blicos, desde que se enquadrem como produtores familiares e participem de chamadas p&#xFA;blicas (editais) organizadas nos termos da lei. A institui&#xE7;&#xE3;o ou &#xF3;rg&#xE3;o respons&#xE1;vel deve realizar no m&#xED;nimo tr&#xEA;s pesquisas no &#xE2;mbito local ou regional.</p>
			<p>Vale acrescentar que produtos ecol&#xF3;gicos ou org&#xE2;nicos recebem um pre&#xE7;o pr&#xEA;mio de 30% do valor em rela&#xE7;&#xE3;o ao produto convencional. Essa medida se aplica &#xE0;s demais modalidades do PAA, a qual objetiva incentivar a produ&#xE7;&#xE3;o de qualidade e ambientalmente sustent&#xE1;vel. Cada fam&#xED;lia pode vender anualmente at&#xE9; R$ 20.000,00. Alguns estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Paran&#xE1;, S&#xE3;o Paulo, Minas Gerais e o Distrito Federal) j&#xE1; operam essa modalidade, enquanto outros (Santa Catarina, Roraima) encontram-se em processo de articula&#xE7;&#xE3;o. Iniciativas espec&#xED;ficas de institui&#xE7;&#xF5;es federais de ensino e pesquisa eclodem em diversos pontos do pa&#xED;s no que tange ao abastecimento de restaurantes universit&#xE1;rios e cantinas escolares.</p>
			<p>Finalmente, a sexta modalidade do PAA &#xE9; representada pela &#x201C;Aquisi&#xE7;&#xE3;o de Sementes&#x201D;, atrav&#xE9;s da qual &#xE9; assegurada a compra de sementes de organiza&#xE7;&#xF5;es da agricultura familiar que ser&#xE3;o destinadas aos produtores identificados com essa mesma condi&#xE7;&#xE3;o. As sementes adquiridas devem cumprir as normas vigentes de certifica&#xE7;&#xE3;o ou cadastro da cultivar, sendo vedada a compra de sementes de organismos geneticamente modificados. O limite de participa&#xE7;&#xE3;o, por organiza&#xE7;&#xE3;o fornecedora, por ano, &#xE9; de R$ 6.000.000,00 (seis milh&#xF5;es de reais), sendo que as opera&#xE7;&#xF5;es acima de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) s&#xE3;o realizadas por meio de Chamada P&#xFA;blica.</p>
			<p>Os dados reunidos na 
				<xref ref-type="table" rid="t2">Tabela 1</xref> descrevem a din&#xE2;mica da aplica&#xE7;&#xE3;o dos recursos do PAA por regi&#xE3;o geogr&#xE1;fica, entre os anos 2003 e 2014, de acordo com informa&#xE7;&#xF5;es obtidas junto &#xE0; Plataforma de Indicadores do Governo Federal (PGI, 2015). Como &#xE9; poss&#xED;vel observar, h&#xE1; uma evolu&#xE7;&#xE3;o bastante importante na dimens&#xE3;o global deste programa. No aludido per&#xED;odo o volume de recursos foi multiplicado 3,7 vezes. A participa&#xE7;&#xE3;o das regi&#xF5;es oscila bastante, mas &#xE9; flagrante a concentra&#xE7;&#xE3;o dos recursos nas duas regi&#xF5;es (nordeste e sul) que absorveram, neste intervalo de tempo, 46% e 21,3% respectivamente. Esses dados refletem o fato de que juntos o nordeste e o sul do Brasil concentram 67% dos estabelecimentos familiares contabilizados no &#xFA;ltimo censo agropecu&#xE1;rio. N&#xE3;o obstante, as informa&#xE7;&#xF5;es relativas a 2014 mostram que o protagonismo esteve a cargo da regi&#xE3;o nordeste do pa&#xED;s, dado que, sozinha, absorveu mais de 1/3 desse montante. Esse dado &#xE9; relevante em se tratando de uma parte da geografia nacional bastante atrasada, se comparada com o eixo sul-sudeste. Os recursos advindos do PAA contribuem para reduzir a desigualdade social e espacial, formar tecido produtivo e fomentar a cria&#xE7;&#xE3;o de capital social.
			</p>
			<p>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Tabela 1</label>
				<caption>
					<title>Evolu&#xE7;&#xE3;o dos recursos do PAA aplicados nos anos de 2003-2014, por regi&#xE3;o geogr&#xE1;fica brasileira</title>
				</caption>
				<alternatives>
					<graphic xlink:href="t1.jpg"/>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup width="16%">
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
					</colgroup>
					<thead style="border-top: thin solid; border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr>
							<th align="center"/>
							<th align="center" style="background-color:#D9D9D9;">Sul</th>
							<th align="center" style="background-color:#D9D9D9;">Sudeste</th>
							<th align="center" style="background-color:#D9D9D9;">Centro-Oeste</th>
							<th align="center" style="background-color:#D9D9D9;">Norte</th>
							<th align="center" style="background-color:#D9D9D9;">Nordeste</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody style="border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2003</bold>
							</td>
							<td align="center">18.182.168,07</td>
							<td align="center">15.315.870,43</td>
							<td align="center">12.337.500,77</td>
							<td align="center">12.328.955,77</td>
							<td align="center">86.850.255,86</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2004</bold>
							</td>
							<td align="center">30.220.310,78</td>
							<td align="center">27.173.576,50</td>
							<td align="center">3.386.093,73</td>
							<td align="center">28.967.292,32</td>
							<td align="center">91.326.938,13</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2005</bold>
							</td>
							<td align="center">38.109.120,23</td>
							<td align="center">61.313.862,20</td>
							<td align="center">2.061.613,31</td>
							<td align="center">14.187.708,56</td>
							<td align="center">179.909.747,29</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2006</bold>
							</td>
							<td align="center">114.458.069,13</td>
							<td align="center">93.426.854,12</td>
							<td align="center">9.766.977,59</td>
							<td align="center">24.064.376,41</td>
							<td align="center">256.117.343,15</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2007</bold>
							</td>
							<td align="center">110.882.689,01</td>
							<td align="center">92.511.440,09</td>
							<td align="center">10.600.204,13</td>
							<td align="center">21.053.356,54</td>
							<td align="center">230.057.714,74</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2008</bold>
							</td>
							<td align="center">100.349.609,82</td>
							<td align="center">120.596.878,59</td>
							<td align="center">13.833.231,44</td>
							<td align="center">21.483.115,04</td>
							<td align="center">255.774.039,05</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2009</bold>
							</td>
							<td align="center">163.170.830,65</td>
							<td align="center">125.820.720,22</td>
							<td align="center">13.697.875,57</td>
							<td align="center">23.212.357,98</td>
							<td align="center">265.342.980,32</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2010</bold>
							</td>
							<td align="center">134.129.781,57</td>
							<td align="center">154.647.095,77</td>
							<td align="center">22.730.350,16</td>
							<td align="center">39.185.562,62</td>
							<td align="center">324.440.352,69</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2011</bold>
							</td>
							<td align="center">122.906.621,43</td>
							<td align="center">158.976.499,52</td>
							<td align="center">33.235.586,72</td>
							<td align="center">41.371.525,44</td>
							<td align="center">310.835.257,15</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2012</bold>
							</td>
							<td align="center">248.821.442,51</td>
							<td align="center">187.091.252,62</td>
							<td align="center">47.590.423,40</td>
							<td align="center">47.085.307,78</td>
							<td align="center">307.872.009,20</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2013</bold>
							</td>
							<td align="center">76.562.949,77</td>
							<td align="center">104.431.715,25</td>
							<td align="center">26.464.216,08</td>
							<td align="center">36.541.872,16</td>
							<td align="center">198.702.648,59</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2014</bold>
							</td>
							<td align="center">87.678.993,68</td>
							<td align="center">174.490.353,28</td>
							<td align="center">34.388.292,69</td>
							<td align="center">60.073.333,19</td>
							<td align="center">179.892.718,37</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#D9D9D9;">
							<td align="center">
								<bold>Total</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>1.245.472.586,65</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>1.315.796.118,59</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>230.092.365,59</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>369.554.763,81</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>2.687.122.004,54</bold>
							</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o dos autores a partir das informa&#xE7;&#xF5;es do Portal Brasileiro de Dados Abertos (2015).</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Vale frisar que 2013 foi um ano at&#xED;pico na trajet&#xF3;ria do PAA, sendo que foram executados somente 52,8% dos recursos em rela&#xE7;&#xE3;o a 2012. As raz&#xF5;es para este fato s&#xE3;o m&#xFA;ltiplas, incluindo os efeitos da seca que atingiu fortemente os estados do Nordeste, as defici&#xEA;ncias operacionais na condu&#xE7;&#xE3;o do programa (deslocamento de funcion&#xE1;rios que trabalhavam no PAA para outras fun&#xE7;&#xF5;es), redu&#xE7;&#xE3;o da demanda de Compra Direta, cancelamento da forma&#xE7;&#xE3;o de Estoque com liquida&#xE7;&#xE3;o f&#xED;sica, readequa&#xE7;&#xE3;o de normativas, dentre outros aspectos.</p>
			<p>Atrav&#xE9;s dos dados da 
				<xref ref-type="table" rid="t3">Tabela 2</xref> &#xE9; poss&#xED;vel conhecer a evolu&#xE7;&#xE3;o do PAA em termos do n&#xFA;mero de agricultores familiares (os benefici&#xE1;rios-produtores). Em 2003 esse programa comprou a produ&#xE7;&#xE3;o de pouco mais de 41 mil agricultores, chegando a 185.487 em 2012. Novamente o destaque fica a cargo dos estados da regi&#xE3;o nordeste, que, no &#xFA;ltimo ano considerado (2014), concentraram quase 38% dos produtores contemplados atrav&#xE9;s deste programa. Contudo, apesar desse crescimento, o alcance do PAA em termos do universo de explora&#xE7;&#xF5;es familiares do Brasil &#xE9; ainda bastante limitado. Se considerarmos o n&#xFA;mero total de Declara&#xE7;&#xF5;es de Aptid&#xE3;o ao PRONAF (aproximadamente 5 milh&#xF5;es), a abrang&#xEA;ncia do PAA equivale a escassos 2,1%. Vejamos agora como se apresenta a situa&#xE7;&#xE3;o do segundo modelo de mercado institucional existente no Brasil.
			</p>
			<p>
			<table-wrap id="t3">
				<label>Tabela 2</label>
				<caption>
					<title>Evolu&#xE7;&#xE3;o do n&#xFA;mero de agricultores familiares (benefici&#xE1;rios-produtores) durante o per&#xED;odo compreendido entre 2003 e 2014, segundo as grandes regi&#xF5;es brasileiras</title>
				</caption>
				<alternatives>
					<graphic xlink:href="t2.jpg"/>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup width="14%">
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
					</colgroup>
					<thead style="border-top: thin solid; border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr style="background-color:#D9D9D9;">
							<th align="center"/>
							<th align="center">Sul</th>
							<th align="center">Sudeste</th>
							<th align="center">Centro-Oeste</th>
							<th align="center">Norte</th>
							<th align="center">Nordeste</th>
							<th align="center">Total</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody style="border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2003</bold>
							</td>
							<td align="center">7.650</td>
							<td align="center">3.393</td>
							<td align="center">5.603</td>
							<td align="center">5.015</td>
							<td align="center">19.803</td>
							<td align="center">
								<bold>41.464</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2004</bold>
							</td>
							<td align="center">12.599</td>
							<td align="center">7.437</td>
							<td align="center">1.608</td>
							<td align="center">13.997</td>
							<td align="center">33.056</td>
							<td align="center">
								<bold>68.697</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2005</bold>
							</td>
							<td align="center">18.229</td>
							<td align="center">10.373</td>
							<td align="center">1.050</td>
							<td align="center">7.922</td>
							<td align="center">32.118</td>
							<td align="center">
								<bold>69.692</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2006</bold>
							</td>
							<td align="center">46.577</td>
							<td align="center">24.901</td>
							<td align="center">4.531</td>
							<td align="center">10.613</td>
							<td align="center">64.297</td>
							<td align="center">
								<bold>150.919</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2007</bold>
							</td>
							<td align="center">30.055</td>
							<td align="center">32.375</td>
							<td align="center">3.375</td>
							<td align="center">9.045</td>
							<td align="center">59.724</td>
							<td align="center">
								<bold>134.574</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2008</bold>
							</td>
							<td align="center">32.147</td>
							<td align="center">33.153</td>
							<td align="center">4.242</td>
							<td align="center">7.670</td>
							<td align="center">61.073</td>
							<td align="center">
								<bold>138.285</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2009</bold>
							</td>
							<td align="center">41.785</td>
							<td align="center">31.145</td>
							<td align="center">4.023</td>
							<td align="center">8.856</td>
							<td align="center">56.572</td>
							<td align="center">
								<bold>142.381</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2010</bold>
							</td>
							<td align="center">39.290</td>
							<td align="center">29.095</td>
							<td align="center">6.359</td>
							<td align="center">11.066</td>
							<td align="center">71.154</td>
							<td align="center">
								<bold>156.964</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2011</bold>
							</td>
							<td align="center">30.275</td>
							<td align="center">36.420</td>
							<td align="center">7.492</td>
							<td align="center">11.425</td>
							<td align="center">74.494</td>
							<td align="center">
								<bold>160.106</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2012</bold>
							</td>
							<td align="center">46.846</td>
							<td align="center">40.575</td>
							<td align="center">10.698</td>
							<td align="center">12.233</td>
							<td align="center">75.135</td>
							<td align="center">
								<bold>185.487</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2013</bold>
							</td>
							<td align="center">16.174</td>
							<td align="center">20.010</td>
							<td align="center">5.308</td>
							<td align="center">8.870</td>
							<td align="center">46.171</td>
							<td align="center">
								<bold>96.533</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#EAF1DD;">
							<td align="center">
								<bold>2014</bold>
							</td>
							<td align="center">19.417</td>
							<td align="center">29.191</td>
							<td align="center">5.779</td>
							<td align="center">12.093</td>
							<td align="center">40.640</td>
							<td align="center">
								<bold>107.120</bold>
							</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#D9D9D9;">
							<td align="center">
								<bold>Total</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>341.045</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>298.068</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>60.068</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>118.805</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>634.237</bold>
							</td>
							<td align="center">
								<bold>1.452.222</bold>
							</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o dos autores a partir das informa&#xE7;&#xF5;es do Portal Brasileiro de Dados Abertos (2015).</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O Programa Nacional de Alimenta&#xE7;&#xE3;o Escolar</title>
			<p>O Programa Nacional de Alimenta&#xE7;&#xE3;o Escolar (PNAE) representa outra das inova&#xE7;&#xF5;es brasileiras em termos de mercados institucionais. Essa pol&#xED;tica p&#xFA;blica existe oficialmente desde os anos 1950, mas &#xE9;, sobretudo, em anos recentes que sofre uma verdadeira revolu&#xE7;&#xE3;o. Isso se d&#xE1; a partir do momento em que uma legisla&#xE7;&#xE3;o espec&#xED;fica (Lei n&#xBA; 11.947, de 16/6/2009) estabelece que a alimenta&#xE7;&#xE3;o escolar &#xE9; um direito fundamental, do mesmo modo que a educa&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica. N&#xE3;o obstante, o aspecto crucial refere-se ao fato de determinar que pelo menos, 30% dos recursos financeiros repassados aos munic&#xED;pios pelo governo federal (Fundo Nacional de Desenvolvimento Escolar &#x2013; FNDE) devam ser utilizados na compra direta dos produtos da agricultura familiar, preferentemente no &#xE2;mbito local. Al&#xE9;m disso, se os produtos s&#xE3;o oriundos da agricultura org&#xE2;nica ou ecol&#xF3;gica, paga-se um pre&#xE7;o pr&#xEA;mio
				<xref ref-type="fn" rid="fn6">
					<sup>5</sup>
				</xref> de at&#xE9; 30% sobre o valor m&#xE9;dio praticado em &#xE2;mbito regional. Esse aspecto, por si s&#xF3;, reveste import&#xE2;ncia para a afirma&#xE7;&#xE3;o da agricultura familiar de base ecol&#xF3;gica e para qualificar a constru&#xE7;&#xE3;o social da qualidade dentro destas cadeias singulares de suprimento alimentar.
			</p>
			<p>Existem prefeituras do Brasil em que a situa&#xE7;&#xE3;o dos mercados institucionais chegou a um n&#xED;vel
				<xref ref-type="fn" rid="fn7">
					<sup>6</sup>
				</xref> que podemos definir como de consolida&#xE7;&#xE3;o, dado que 100% do abastecimento das escolas e creches do munic&#xED;pio ocorre via agricultura familiar local. No extremo oposto, h&#xE1; localidades em que apenas foram dados os primeiros passos no sentido de adequarem-se &#xE0; nova realidade do PNAE. Nesses casos, ao imobilismo dos entes p&#xFA;blicos soma-se a fr&#xE1;gil ou at&#xE9; mesmo inexistente organiza&#xE7;&#xE3;o dos produtores. O conservadorismo de muitas prefeituras se evidencia, por exemplo, na resist&#xEA;ncia em adquirir produtos agr&#xED;colas de assentados da reforma agr&#xE1;ria, especialmente por raz&#xF5;es de ordem pol&#xED;tica e/ou partid&#xE1;ria.
			</p>
			<p>N&#xE3;o obstante, essa mudan&#xE7;a de mentalidade que enseja a nova vers&#xE3;o do PNAE trouxe consigo a possibilidade de que a agricultura familiar brasileira tivesse acesso a recursos que, em 2014, alcan&#xE7;aram quase R$ 3,7 bilh&#xF5;es. &#xC9; esta a informa&#xE7;&#xE3;o reunida nos dados da 
				<xref ref-type="table" rid="t4">Tabela 3</xref>, a qual mostra a evolu&#xE7;&#xE3;o ininterrupta dos recursos aplicados atrav&#xE9;s do PNAE, assim como do n&#xFA;mero de alunos atendidos, que em 2014 alcan&#xE7;ou 42,2 milh&#xF5;es. Com efeito, entre 1995 e 2014 o n&#xFA;mero de indiv&#xED;duos beneficiados sofreu um incremento da ordem de 27,1%, ao passo que o volume de recursos foi multiplicado por quase 6,3 vezes.
			</p>
			<p>
			<table-wrap id="t4">
				<label>Tabela 3</label>
				<caption>
					<title>PNAE &#x2013; Evolu&#xE7;&#xE3;o dos recursos financeiros (em milh&#xF5;es de reais) e alunos atendidos (em milh&#xF5;es), per&#xED;odo 1995-2014</title>
				</caption>
				<alternatives>
					<graphic xlink:href="t3.jpg"/>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup width="16%">
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
						<col/>
					</colgroup>
					<thead style="border-top: thin solid; border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr style="background-color:#D9D9D9;">
							<th align="center">Ano</th>
							<th align="center">Alunos atendidos (em milh&#xF5;es)</th>
							<th align="center">Recursos Financeiros (em milh&#xF5;es de reais)</th>
							<th align="center">Ano</th>
							<th align="center">Alunos atendidos (em milh&#xF5;es)</th>
							<th align="center">Recursos Financeiros (em milh&#xF5;es de reais)</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody style="border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>1995</bold>
							</td>
							<td align="center">33,2</td>
							<td align="center">590,1</td>
							<td align="center">2005</td>
							<td align="center">36,4</td>
							<td align="center">1.266</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>1996</bold>
							</td>
							<td align="center">30,5</td>
							<td align="center">454,1</td>
							<td align="center">2006</td>
							<td align="center">36,3</td>
							<td align="center">1.500</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>1997</bold>
							</td>
							<td align="center">35,1</td>
							<td align="center">672,8</td>
							<td align="center">2007</td>
							<td align="center">35,7</td>
							<td align="center">1.520</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>1998</bold>
							</td>
							<td align="center">35,3</td>
							<td align="center">785,3</td>
							<td align="center">2008</td>
							<td align="center">34,6</td>
							<td align="center">1.490</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>1999</bold>
							</td>
							<td align="center">36,9</td>
							<td align="center">871,7</td>
							<td align="center">2009</td>
							<td align="center">47,0</td>
							<td align="center">2.013</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2000</bold>
							</td>
							<td align="center">37,1</td>
							<td align="center">901,7</td>
							<td align="center">2010</td>
							<td align="center">45,6</td>
							<td align="center">3.034</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2001</bold>
							</td>
							<td align="center">37,1</td>
							<td align="center">920,2</td>
							<td align="center">2011</td>
							<td align="center">44,4</td>
							<td align="center">3.051</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2002</bold>
							</td>
							<td align="center">36,9</td>
							<td align="center">848,6</td>
							<td align="center">2012</td>
							<td align="center">43,1</td>
							<td align="center">3.306</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">
								<bold>2003</bold>
							</td>
							<td align="center">37,3</td>
							<td align="center">954,2</td>
							<td align="center">2013</td>
							<td align="center">43,3</td>
							<td align="center">3.542</td>
						</tr>
						<tr style="background-color:#F2F2F2;">
							<td align="center">
								<bold>2004</bold>
							</td>
							<td align="center">37,8</td>
							<td align="center">1.025</td>
							<td align="center">2014</td>
							<td align="center">42,2</td>
							<td align="center">3.693</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: 
						<xref ref-type="bibr" rid="B2">FNDE, 2015</xref>.
					</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Os mercados institucionais t&#xEA;m sido vistos, conjuntamente, como oportunidade e incentivo para engendrar a cria&#xE7;&#xE3;o de novas formas de associativismo requeridas pela din&#xE2;mica de ambos os programas, especialmente de microcooperativas. Planejar a oferta de produtos e organizar a distribui&#xE7;&#xE3;o dos mesmos junto &#xE0;s escolas, hospitais, asilos, etc., torna-se fundamental para o atendimento da demanda. Outro aspecto importante &#xE9; que as compras governamentais contribuem para reduzir a atua&#xE7;&#xE3;o de atravessadores que, invariavelmente, se aproveitam do isolamento dos produtores para lucrar na compra e venda de hortifrutigranjeiros.</p>
			<p>Resgatar a voca&#xE7;&#xE3;o prec&#xED;pua da agricultura familiar no sentido de produzir alimentos de qualidade n&#xE3;o pode ser visto como algo desprez&#xED;vel, sobretudo no caso de popula&#xE7;&#xF5;es acostumadas ao descaso e &#xE0; falta de apoio de toda ordem. No pequeno munic&#xED;pio de S&#xE3;o Louren&#xE7;o do Sul, interior do Rio Grande do Sul, a invisibilidade oficial vivenciada pelas comunidades rurais negras remanescentes de quilombos foi substitu&#xED;da por uma virtuosa din&#xE2;mica, onde os produtos produzidos por esse coletivo s&#xE3;o adquiridos pelas escolas p&#xFA;blicas do campo e da cidade para alimentar seus estudantes. Esse &#xE9; outro desdobramento destas pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas que &#xE9; dif&#xED;cil de mensurar a partir de crit&#xE9;rios estritamente econ&#xF4;micos.</p>
			<p>De forma pragm&#xE1;tica poder&#xED;amos dizer que a cria&#xE7;&#xE3;o dos mercados deve ser atribu&#xED;da &#xE0; conflu&#xEA;ncia de tr&#xEA;s importantes vetores. Em primeiro lugar, ao esfor&#xE7;o estatal, no af&#xE3; de consolidar o espa&#xE7;o da pequena produ&#xE7;&#xE3;o desde a aludida cria&#xE7;&#xE3;o do PRONAF, durante a segunda metade dos anos noventa. Em segundo lugar, ao protagonismo das for&#xE7;as que militam no campo da agricultura familiar. Com efeito, h&#xE1; a constru&#xE7;&#xE3;o de uma nova agenda p&#xFA;blica que emerge da cria&#xE7;&#xE3;o destes mercados, qualificando um debate que at&#xE9; ent&#xE3;o estava centrado na simples demanda de cr&#xE9;dito para financiar a atividade agropecu&#xE1;ria.</p>
			<p>
				<italic>&#x2018;At last, but not least&#x2019;</italic>, h&#xE1; que frisar as circunst&#xE2;ncias pol&#xED;ticas do Brasil durante o per&#xED;odo coincidente com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder e a necessidade de ampliar o leque de alian&#xE7;as com os movimentos sociais, no intuito, entre outros aspectos, de reduzir as desigualdades, sobretudo no caso de regi&#xF5;es rurais marcadas pela estagna&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica e por seculares processos seculares de exclus&#xE3;o social. Em boa medida, esse &#xE9; o quadro que se imp&#xF5;e sobre amplas zonas dos estados setentrionais, especialmente no caso do semi&#xE1;rido nordestino.
			</p>
			<p>A din&#xE2;mica peculiar de funcionamento destes programas serve para romper com a esp&#xFA;ria associa&#xE7;&#xE3;o entre mercados e exclus&#xE3;o social, ou com o mito de que a redu&#xE7;&#xE3;o da pobreza deve ocorrer dentro do marco estrito das pol&#xED;ticas de transfer&#xEA;ncia direta de renda. N&#xE3;o cabe d&#xFA;vida que a grande contribui&#xE7;&#xE3;o ao exame desta quest&#xE3;o surge a partir da obra seminal de Amartya Sen, intitulada &#x201C;Desenvolvimento como liberdade&#x201D;, segundo a qual o desenvolvimento deve ser visto como um processo onde se promova a elimina&#xE7;&#xE3;o de todas as formas de priva&#xE7;&#xE3;o da liberdade, que restringem as decis&#xF5;es e oportunidades das pessoas. Ele se apoia na forma&#xE7;&#xE3;o das capacidades humanas que assegurem aos indiv&#xED;duos a convers&#xE3;o destes em agentes, e n&#xE3;o somente como &#x201C;benefici&#xE1;rios passivos de engenhosos programas de desenvolvimento&#x201D; (
				<xref ref-type="bibr" rid="B22">SEN, 2000</xref>, p. 26).
			</p>
			<p>A liberdade de escolha dos indiv&#xED;duos, ainda segundo esta perspectiva, assume um valor intr&#xED;nseco, devendo ser vista n&#xE3;o somente como um fim a ser alcan&#xE7;ado, mas como meio para chegar ao desenvolvimento, ampliando, assim, o universo de oportunidades dos indiv&#xED;duos. A pobreza h&#xE1; que ser entendida como &#x201C;priva&#xE7;&#xE3;o das capacidades b&#xE1;sicas, e n&#xE3;o apenas como baixa renda&#x201D; (
				<xref ref-type="bibr" rid="B22">SEM, 2000</xref>, p. 35).
			</p>
			<p>Tal entendimento serve n&#xE3;o somente para desnaturalizar essa verdadeira chaga social que assola muitas localidades do Brasil, mas especialmente para repensar o papel do Estado e qualificar suas formas de interven&#xE7;&#xE3;o. Superar o atomismo dos agricultores e romper o v&#xE9;u de obscurantismo em que boa parte dos indiv&#xED;duos acha-se imersa deve ser visto como um dos impactos imprevistos e altamente positivos de programas dessa natureza.</p>
			<p>As avalia&#xE7;&#xF5;es sobre os alcances dos mercados institucionais se dividem entre, de um lado, o ceticismo daqueles que criticam a excessiva interven&#xE7;&#xE3;o do Estado na condu&#xE7;&#xE3;o dos processos e, de outro, na posi&#xE7;&#xE3;o assumida por alguns grupos claramente ufanistas, os quais fazem ouvidos moucos &#xE0;s cr&#xED;ticas relativas aos entraves burocr&#xE1;ticos, &#xE0; fragilidade das estruturas de governan&#xE7;a e &#xE0; necessidade de aprimorar o seu funcionamento.</p>
			<p>Convergimos com 
				<xref ref-type="bibr" rid="B15">Hespanhol (2013</xref>, p. 473) quando afirma que, n&#xE3;o obstante a amplia&#xE7;&#xE3;o do PAA ocorrida na &#xFA;ltima d&#xE9;cada em termos do n&#xFA;mero de agricultores familiares envolvidos, do volume de recursos utilizados e das pessoas beneficiadas, sua abrang&#xEA;ncia ainda &#xE9; bastante reduzida em n&#xED;vel de pa&#xED;s. Nesse sentido, como bem destacou: &#x201C;Se considerarmos apenas o n&#xFA;mero de produtores participantes do PAA em 2011, verificamos que representam apenas 3,68% do total de estabelecimentos de agricultores familiares contabilizados pelo Censo Agropecu&#xE1;rio do IBGE de 2006&#x201D;. H&#xE1; tamb&#xE9;m o problema da concentra&#xE7;&#xE3;o regional dos recursos, j&#xE1; mencionado anteriormente. No caso do PNAE existe um coletivo equivalente a aproximadamente 300 mil produtores beneficiados, dentro de um universo estimado em mais de 4 milh&#xF5;es de explora&#xE7;&#xF5;es deste g&#xEA;nero.
			</p>
			<p>Tanto no caso do PAA quanto no caso do PNAE s&#xE3;o flagrantes os problemas decorrentes dos entraves burocr&#xE1;ticos, os quais se traduzem no atraso dos pagamentos aos produtores. A garantia de compra &#xE9; uma das antigas reivindica&#xE7;&#xF5;es de agricultores que sofrem os efeitos das intemp&#xE9;ries clim&#xE1;ticas e das flutua&#xE7;&#xF5;es dos mercados. N&#xE3;o obstante, uma das fontes de preocupa&#xE7;&#xE3;o dos produtores, como bem destaca 
				<xref ref-type="bibr" rid="B15">Hespanhol (2013</xref>, p. 479), &#xE9; justamente a incerteza com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; continuidade do PAA, mas tamb&#xE9;m, no nosso entendimento, da nova vers&#xE3;o do PNAE, que segue a mesma forma de operacionaliza&#xE7;&#xE3;o. N&#xE3;o podemos menosprezar o peso pol&#xED;tico das classes conservadoras, como &#xE9; precisamente o caso da chamada &#x201C;bancada ruralista&#x201D; do parlamento brasileiro
				<xref ref-type="fn" rid="fn7">
					<sup>7</sup>
				</xref>, do mesmo modo que outros atores pol&#xED;ticos que historicamente n&#xE3;o se mostram propensos &#xE0; amplia&#xE7;&#xE3;o das liberdades substantivas de que fala Amartya Sen em sua obra. Mudan&#xE7;as no quadro pol&#xED;tico nacional podem levar ao encerramento destes programas ou &#xE0; sua lenta agonia diante da progressiva redu&#xE7;&#xE3;o de recursos disponibilizados.
			</p>
			<p>Outro aspecto importante recai na dificuldade de conex&#xE3;o do PAA e do PNAE com outras demandas que afetam diretamente o desempenho destas pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas, como &#xE9; o caso da assist&#xEA;ncia t&#xE9;cnica e extens&#xE3;o rural (ATER) e do principal programa de financiamento da agricultura familiar (PRONAF). No &#xE2;mbito eminentemente local a din&#xE2;mica dos mercados institucionais enfrenta, invariavelmente, uma fragilidade consider&#xE1;vel das estruturas de governan&#xE7;a.</p>
			<p>Nos estados meridionais do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, o servi&#xE7;o p&#xFA;blico de extens&#xE3;o rural exerce um papel estrat&#xE9;gico na organiza&#xE7;&#xE3;o dos agricultores familiares, n&#xE3;o somente do ponto de vista da assist&#xEA;ncia t&#xE9;cnica prestada aos produtores, mas no intuito de adequ&#xE1;-los &#xE0;s exig&#xEA;ncias operacionais dos programas. Os dados mostram qu&#xE3;o importante &#xE9; contar com estas estruturas de apoio e media&#xE7;&#xE3;o para qualificar os produtores, fortalecer o associativismo, planejar a produ&#xE7;&#xE3;o e a distribui&#xE7;&#xE3;o dos produtos.</p>
			<p>A realidade mostra que isoladamente uma pol&#xED;tica p&#xFA;blica &#xE9; incapaz de gerar resultados consistentes. A participa&#xE7;&#xE3;o dos produtores familiares &#xE9; crucial para assegurar a continuidade dos programas. No contato que estabelecemos com muitas fam&#xED;lias implicadas, tanto na din&#xE2;mica do PAA quanto do PNAE, sobressai o entendimento, no imagin&#xE1;rio de muitos produtores, de que se trata de uma &#x2018;ajuda do governo&#x2019; e n&#xE3;o uma conquista daqueles que historicamente enfrentam um &#x201C;d&#xE9;ficit de cidadania&#x201D; (
				<xref ref-type="bibr" rid="B25">VEIGA, 2001</xref>). O acanhamento de organiza&#xE7;&#xF5;es sindicais &#xE9; outro fator que atua negativamente na condu&#xE7;&#xE3;o destes programas.
			</p>
			<p>Coincidimos plenamente com 
				<xref ref-type="bibr" rid="B1">Abramovay, Magalh&#xE3;es e Schroder (2010)</xref>, quando afirmam que uma das mais importantes tens&#xF5;es que vivem os movimentos sociais contempor&#xE2;neos no Brasil reside justamente na oposi&#xE7;&#xE3;o entre representatividade e inova&#xE7;&#xE3;o. As organiza&#xE7;&#xF5;es da agricultura familiar exibem grandes dificuldades de transpor as fronteiras da estrita reivindica&#xE7;&#xE3;o de recursos. Segundo asseveram tais autores, a atua&#xE7;&#xE3;o destas organiza&#xE7;&#xF5;es:
			</p>
			<disp-quote>
				<p>apoia-se [sic] nas demandas da agricultura familiar, e n&#xE3;o leva em conta a diversifica&#xE7;&#xE3;o do tecido econ&#xF4;mico dos territ&#xF3;rios ou mesmo do papel que novos empreendimentos econ&#xF4;micos devem desempenhar para a inser&#xE7;&#xE3;o desses agricultores (
					<xref ref-type="bibr" rid="B1">ABRAMOVAY, MAGALHS&#xC3;ES; SCHRODER 2010</xref>, p. 299).
				</p>
			</disp-quote>
			<p>Ainda que tenham havido importantes avan&#xE7;os na melhoria da qualidade da interlocu&#xE7;&#xE3;o das organiza&#xE7;&#xF5;es da agricultura familiar brasileira com o governo federal, h&#xE1; muito o que avan&#xE7;ar em termos de aperfei&#xE7;oar esses programas p&#xFA;blicos para al&#xE9;m da quest&#xE3;o do suprimento de alimentos. No caso espec&#xED;fico do PNAE, ainda que esteja previsto na lei, pouca aten&#xE7;&#xE3;o tem sido dada ao conte&#xFA;do pedag&#xF3;gico do programa. A alimenta&#xE7;&#xE3;o &#xE9;, acima de tudo, uma experi&#xEA;ncia cognitiva, assim como a escola h&#xE1; que ser vista como o lugar ideal para incutir h&#xE1;bitos saud&#xE1;veis, especialmente num momento em que uma epidemia de obesidade alcan&#xE7;a as diferentes classes sociais e regi&#xF5;es do planeta.</p>
			<p>Os alcances e a mec&#xE2;nica singular dos mercados institucionais t&#xEA;m sido recentemente objeto da reflex&#xE3;o acad&#xEA;mica. Na abordagem realizada por 
				<xref ref-type="bibr" rid="B24">Sonnino, Torres e Schneider (2014)</xref> uma especial &#xEA;nfase &#xE9; posta sobre o caso do PNAE, cujos &#xEA;xitos alcan&#xE7;ados, segundo estes autores, &#xE9; resultado da efic&#xE1;cia do que denominam &#x201C;governan&#xE7;a reflexiva&#x201D;, qual seja, uma estrutura que facilita a aprendizagem, a adapta&#xE7;&#xE3;o e a colabora&#xE7;&#xE3;o entre os atores em diferentes escalas e etapas do sistema agroalimentar.
			</p>
			<p>A experi&#xEA;ncia brasileira tem inspirado a tentativa de implanta&#xE7;&#xE3;o de mercados institucionais em outros pa&#xED;ses do mundo, sobretudo no continente africano (Nig&#xE9;ria, Senegal, Eti&#xF3;pia, Mo&#xE7;ambique e Malaui) a partir de projetos de coopera&#xE7;&#xE3;o que v&#xEA;m sendo destacados pela Organiza&#xE7;&#xE3;o das Na&#xE7;&#xF5;es Unidas como iniciativas de grande impacto e por engendrar um ciclo virtuoso em termos de inclus&#xE3;o social e amplia&#xE7;&#xE3;o do acesso ao alimento. Paradoxalmente, como destacaram 
				<xref ref-type="bibr" rid="B19">Morgan e Sonnino (2008)</xref>, muitas pesquisas evidenciam a exist&#xEA;ncia de barreiras para a implanta&#xE7;&#xE3;o destes programas em diversos pa&#xED;ses do mundo, entre as quais figura a &#xEA;nfase generalizada nos princ&#xED;pios do livre com&#xE9;rcio e na redu&#xE7;&#xE3;o do custo dos servi&#xE7;os p&#xFA;blicos, via pol&#xED;tica do pre&#xE7;o mais baixo da comida servida nas escolas. No caso da Uni&#xE3;o Europeia, h&#xE1; diversas normativas que impedem a cria&#xE7;&#xE3;o de experi&#xEA;ncias desse g&#xEA;nero.
			</p>
			<p>Com efeito, segundo 
				<xref ref-type="bibr" rid="B24">Sonnino, Torres e Schneider (2014</xref>, p. 3), referindo-se ainda ao caso do PNAE, o Brasil oferece ao mundo um poderoso exemplo no que tange &#xE0; cria&#xE7;&#xE3;o de um &#x201C;ambiente favor&#xE1;vel&#x201D; para a conex&#xE3;o entre produtores e consumidores no espa&#xE7;o escolar, em torno a valores e objetivos que persegue a pol&#xED;tica nacional de seguran&#xE7;a alimentar e nutricional. Convergimos com esse entendimento, n&#xE3;o somente no que toca ao caso de pa&#xED;ses pobres, onde a fome &#xE9; uma cena hodierna, mas tamb&#xE9;m no que afeta &#xE0;s na&#xE7;&#xF5;es ricas, onde a obesidade, a outra face da moeda da inseguran&#xE7;a alimentar, demanda medidas igualmente urgentes, entre elas, uma transforma&#xE7;&#xE3;o profunda nos h&#xE1;bitos de consumo. Alimentos frescos, localmente produzidos, social e culturalmente referenciados podem cumprir um papel estrat&#xE9;gico no enfrentamento deste ingente desafio.
			</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considera&#xE7;&#xF5;es finais</title>
			<p>Segundo estimativas da Organiza&#xE7;&#xE3;o para a Coopera&#xE7;&#xE3;o e Desenvolvimento Econ&#xF4;mico e da Organiza&#xE7;&#xE3;o das Na&#xE7;&#xF5;es Unidas para a Alimenta&#xE7;&#xE3;o e Agricultura (
				<xref ref-type="bibr" rid="B20">OECD - FAO 2015</xref>), em 2024 o Brasil alcan&#xE7;ar&#xE1; a condi&#xE7;&#xE3;o de maior exportador agr&#xED;cola mundial, com uma &#xE1;rea plantada equivalente a 69,5 milh&#xF5;es de hectares. Atualmente ocupa o segundo posto no 
				<italic>ranking</italic> mundial, com uma produ&#xE7;&#xE3;o de mais de 200 milh&#xF5;es de toneladas de gr&#xE3;os, logo abaixo dos Estados Unidos da Am&#xE9;rica. N&#xE3;o menos importante &#xE9; o fato de que j&#xE1; &#xE9; o maior exportador de carnes em n&#xED;vel mundial, assumindo o lugar antes ocupado pela Austr&#xE1;lia.
			</p>
			<p>Em boa medida, estes dados refletem suas dimens&#xF5;es continentais, a diversidade clim&#xE1;tica, a potencialidade dos seus recursos naturais e a pujan&#xE7;a dos seus sistemas produtivos. Mas, diante desses dados, seria complexa a miss&#xE3;o de explicar o fato de que existem ainda hoje 14,7 milh&#xF5;es de brasileiros (
				<xref ref-type="bibr" rid="B3">IBGE, 2014</xref>) que convivem com algum tipo de restri&#xE7;&#xE3;o no acesso aos alimentos. Por outro lado, dados do Censo Demogr&#xE1;fico 2010 (
				<xref ref-type="bibr" rid="B4">IBGE, 2012</xref>) revelam que 46,7% da popula&#xE7;&#xE3;o extremamente pobre do Brasil vive no meio rural. Vale dizer, em outras palavras, que de cada quatro pessoas residentes no campo, uma encontra-se na condi&#xE7;&#xE3;o de pobreza.
			</p>
			<p>Com efeito, a pobreza n&#xE3;o pode ser entendida como sin&#xF4;nimo de fome, dado que &#xE9; um par&#xE2;metro baseado na renda dispon&#xED;vel, desconsiderando, entre outros aspectos, a possibilidade de que as pessoas assegurem uma dieta alimentar satisfat&#xF3;ria a partir de estrat&#xE9;gias voltadas ao autoconsumo e em outros mecanismos de sobreviv&#xEA;ncia. Um dos erros das ag&#xEA;ncias de desenvolvimento tem sido justamente desconsiderar a capacidade dos indiv&#xED;duos de prover seu pr&#xF3;prio alimento, assim como de reduzir a discuss&#xE3;o ao simples fornecimento da ajuda humanit&#xE1;ria ou pela via de engenhosos programas de transfer&#xEA;ncia de renda.</p>
			<p>O fato &#xE9; que s&#xE3;o ineg&#xE1;veis os avan&#xE7;os do Brasil na &#xFA;ltima d&#xE9;cada em termos de uma redu&#xE7;&#xE3;o dr&#xE1;stica da fome e da pobreza. Os dados mais recentes (
				<xref ref-type="bibr" rid="B3">IBGE, 2014</xref>) mostram que no per&#xED;odo correspondente a 2009-2013 o percentual de domic&#xED;lios brasileiros em situa&#xE7;&#xE3;o de seguran&#xE7;a alimentar elevou-se de 70,7% para 79,5%. No extremo oposto, o n&#xFA;mero de domic&#xED;lios em situa&#xE7;&#xE3;o de inseguran&#xE7;a alimentar grave se viu reduzido de 4,6% para 2,8%. Em termos absolutos, no mesmo intervalo de tempo, o n&#xFA;mero de moradores em domic&#xED;lios particulares em situa&#xE7;&#xE3;o de seguran&#xE7;a alimentar elevou-se de 193,9 para 201,4 milh&#xF5;es, enquanto o de moradores em situa&#xE7;&#xE3;o de inseguran&#xE7;a alimentar grave declinou de 11,3 para 7,2 milh&#xF5;es.
			</p>
			<p>Os logros alcan&#xE7;ados pelo Brasil se inserem dentro de um movimento mais amplo que abarca a Am&#xE9;rica Latina e o Caribe, onde foram colhidos os mais expressivos resultados do planeta em termos de redu&#xE7;&#xE3;o da fome e da inseguran&#xE7;a alimentar. Apresentar e discutir estes dados n&#xE3;o foi precisamente a tarefa que marcou a elabora&#xE7;&#xE3;o desse artigo. Nossa miss&#xE3;o centrou-se em abordar os alcances previstos e imprevistos daquela que vem sendo considerada a mais ambiciosa estrat&#xE9;gia mundial de combate &#xE0; fome, &#xE0; pobreza e &#xE0; exclus&#xE3;o social. A din&#xE2;mica dos mercados institucionais cobra relev&#xE2;ncia como objeto de estudo n&#xE3;o somente em termos dos triunfos colhidos num curto espa&#xE7;o de tempo, mas por mostrar a natureza transversal e multifacetada da seguran&#xE7;a alimentar.</p>
			<p>Conciliar a inclus&#xE3;o social atrav&#xE9;s do apoio &#xE0; agricultura familiar, criar tecido social onde jamais existiu, ampliar o acesso &#xE0;s fontes p&#xFA;blicas de financiamento, fomentar a &#xE9;tica do trabalho, reduzir as dist&#xE2;ncias materiais e simb&#xF3;licas que separam produtores e consumidores, estimular o associativismo e a produ&#xE7;&#xE3;o agr&#xED;cola sustent&#xE1;vel e preconizar uma alimenta&#xE7;&#xE3;o saud&#xE1;vel de jovens e adultos conformam apenas algumas das faces de um imenso caleidosc&#xF3;pio de possibilidades. S&#xE3;o grandes os desafios para consolidar tais programas diante das enormes desigualdades regionais do pa&#xED;s em termos de problemas estruturais, como &#xE9; o caso das regi&#xF5;es setentrionais onde a pobreza e a exclus&#xE3;o social se refor&#xE7;am mutuamente. A continuidade e vitalidade da estrat&#xE9;gia brasileira depende dos avatares da economia, dos rumos da pol&#xED;tica, mas, sobretudo, da capacidade de articula&#xE7;&#xE3;o das for&#xE7;as progressistas, entre as quais figuram em destaque as organiza&#xE7;&#xF5;es da agricultura familiar no af&#xE3; de consolidar um espa&#xE7;o que a duras penas foi conquistado nas duas &#xFA;ltimas d&#xE9;cadas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>*</label>
				<p>Este artigo foi elaborado por pesquisadores ligados ao &#x201C;N&#xFA;cleo de Pesquisa e Extens&#xE3;o em Agroecologia e Pol&#xED;ticas P&#xFA;blicas&#x201D; da Universidade Federal de Pelotas (NUPEAR &#x2013; UFPel), junto ao Departamento de Ci&#xEA;ncias Sociais Agr&#xE1;rias da Faculdade de Agronomia, os quais agradecem ao CNPq pela concess&#xE3;o de bolsa de produtividade ao primeiro autor e &#xE0; CAPES pela bolsa de p&#xF3;s- doutoramento concedida a ambos durante sua recente passagem (2015-2016) pela Universidade da Cal&#xE1;bria, It&#xE1;lia.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>1</label>
				<p>Em termos geogr&#xE1;ficos, o Brasil se divide em cinco grandes regi&#xF5;es: Norte, Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul, que abarcam os 26 estados que comp&#xF5;em a Rep&#xFA;blica Federativa. Ainda que essas cinco regi&#xF5;es n&#xE3;o constituam unidades pol&#xED;tico-administrativas aut&#xF4;nomas, expressam a diversidade espacial desse pa&#xED;s. A regi&#xE3;o Norte &#xE9; a mais extensa, concentrando quase 45% da superf&#xED;cie total, compreendendo os estados do Amazonas, Par&#xE1;, Acre, Rond&#xF3;nia, Roraima, Amap&#xE1; e Tocantins. A regi&#xE3;o Nordeste &#xE9; integrada por Maranh&#xE3;o, Piau&#xED;, Cear&#xE1;, Rio Grande do Norte, Para&#xED;ba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e Sergipe. &#xC0; regi&#xE3;o Sudeste pertencem os estados de Minas Gerais, S&#xE3;o Paulo, Rio de Janeiro e Esp&#xED;rito Santo. Da regi&#xE3;o Centro-Oeste fazem parte Goi&#xE1;s, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal (Bras&#xED;lia, DF). Finalmente, a regi&#xE3;o Sul, que &#xE9; a menor dentre as cinco, compreende Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paran&#xE1;.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>2</label>
				<p>O Semi&#xE1;rido brasileiro ocupa uma &#xE1;rea total de 974 mil km
					<sup>2</sup> que se estende pelos estados de Alagoas, Bahia, Cear&#xE1;, Para&#xED;ba, Pernambuco, Piau&#xED;, Rio Grande do Norte e Sergipe, na regi&#xE3;o do nordeste brasileiro. Inclui ainda o norte do estado de Minas Gerais, pertencente &#xE0; regi&#xE3;o sudeste.
				</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>3</label>
				<p>O Grupo Gestor (GGPAA) &#xE9; um &#xF3;rg&#xE3;o colegiado de car&#xE1;ter deliberativo formado por representantes de sete minist&#xE9;rios: Desenvolvimento Social e Combate &#xE0; Fome (MDS); Desenvolvimento Agr&#xE1;rio (MDA); Agricultura, Pecu&#xE1;ria e Abastecimento (MAPA); Planejamento, Or&#xE7;amento e Gest&#xE3;o (MPOG); Fazenda (MF); e, da Educa&#xE7;&#xE3;o (MEC).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>4</label>
				<p>A moeda vigente no Brasil, desde 1994, &#xE9; o Real (R$). At&#xE9; o momento da finaliza&#xE7;&#xE3;o deste artigo, um Euro correspondia a aproximadamente quatro (4) reais.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>5</label>
				<p>Essa condi&#xE7;&#xE3;o tamb&#xE9;m se estende aos produtos ecol&#xF3;gicos adquiridos atrav&#xE9;s do PAA.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>6</label>
				<p>Este &#xE9; o caso de Ip&#xEA; e Ant&#xF4;nio Prado, situados no interior da Serra Ga&#xFA;cha, os quais abastecem as cantinas escolares com produtos locais que, al&#xE9;m disso, s&#xE3;o obtidos sob sistemas de produ&#xE7;&#xE3;o ecol&#xF3;gica.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>7</label>
				<p>A Bancada Ruralista se apresenta como uma frente parlamentar integrada por partidos conservadores e destinada a atuar em defesa dos interesses dos grandes propriet&#xE1;rios de terra, especialmente no que tange &#xE0; ado&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias contr&#xE1;rias &#xE0; implanta&#xE7;&#xE3;o da reforma agr&#xE1;ria, de medidas de combate ao trabalho escravo ou de preserva&#xE7;&#xE3;o da natureza e da biodiversidade. Por outro lado, assumem a defesa intransigente dos cultivos transg&#xEA;nicos e do padr&#xE3;o intensivo de agricultura baseado nas tecnologias da revolu&#xE7;&#xE3;o verde.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Refer&#xEA;ncias</title>
			<ref id="B1">
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ABRAMOVAY</surname>
							<given-names>Ricardo</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>MAGALH&#xC3;ES</surname>
							<given-names>Reginaldo</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>SCHRODER</surname>
							<given-names>M&#xF4;nica</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Representatividade e inova&#xE7;&#xE3;o na governan&#xE7;a de processos participativos: o caso das organiza&#xE7;&#xF5;es brasileiras de agricultores familiares</article-title>
					<source>Sociologias</source>
					<issue>24</issue>
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					<year>2010</year>
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					<bold>Sociologias</bold>, n. 24, pp. 268-306, 2010.
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					<source>Dados estat&#xED;sticos, or&#xE7;amentos e alunos beneficiados</source>
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						<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fnde.gov.br/programas/alimentacao-escolar">http://www.fnde.gov.br/programas/alimentacao-escolar</ext-link>
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					<date-in-citation content-type="access-date">Acesso em: 09 ago. 2015</date-in-citation>
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					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
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