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<journal-title>Textos &#x26; Contextos (Porto Alegre)</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Textos Contextos (Porto Alegre)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="epub">1677-9509</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul, Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;ao em Servi&#xE7;o Social</publisher-name></publisher>
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<subject>Direitos Humanos, Envelhecimento e Rualiza&#xE7;&#xE3;o</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>O Fen&#xF4;meno Popula&#xE7;&#xE3;o em Situa&#xE7;&#xE3;o de Rua Enquanto Fruto do Capitalismo</article-title>
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<trans-title>The Phenomenon Population in Street Situation as a Fruit of Capitalism</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Tiengo</surname><given-names>Ver&#xF4;nica Martins</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref></contrib>
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<institution content-type="normalized">Universidade Federal do Esp&#xED;rito Santo</institution>
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<email>veronicatiengo@outlook.com</email>
<institution content-type="original">Mestre em Pol&#xED;tica Social, Especialista em Gest&#xE3;o de Pol&#xED;ticas Sociais P&#xFA;blicas e Privadas, Bacharel em Servi&#xE7;o Social, Doutoranda do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Pol&#xED;tica Social, Bolsista FAPES, Universidade Federal do Esp&#xED;rito Santo (UFES), Vit&#xF3;ria- ES/ Brasil. CV: http://lattes.cnpq.br/2489454619665919. E-mail: veronicatiengo@outlook.com.</institution></aff>
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<year>2019</year>
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<license-p>Este artigo est&#xE1; licenciado sob forma de uma licen&#xE7;a Creative Commons Atribui&#xE7;&#xE3;o 4.0 Internacional, que permite uso irrestrito, distribui&#xE7;&#xE3;o e reprodu&#xE7;&#xE3;o em qualquer meio, desde que a publica&#xE7;&#xE3;o original seja corretamente citada.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>RESUMO</title>
<p>Quem &#xE9; a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua? Como vive? Porque e como chegou &#xE0;s ruas? Quais s&#xE3;o as suas principais caracter&#xED;sticas? Qual a import&#xE2;ncia do trabalho em sua vida? &#xC9; fruto da pregui&#xE7;a ou do processo de acumula&#xE7;&#xE3;o capitalista? Neste artigo, discutimos essas quest&#xF5;es: situamos o fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua em seu contexto estrutural; debatemos acerca de seu perfil e indicamos a intr&#xED;nseca rela&#xE7;&#xE3;o entre o modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista e a forma&#xE7;&#xE3;o e amplia&#xE7;&#xE3;o da popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua enquanto parte integrante da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa.</p></abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>ABSTRACT</title>
<p>Who is the street population? How do they live? Why and how did it hit the streets? What are its main characteristics? How important is work in your life? Is it the result of laziness or the process of capitalist accumulation? In this article we discuss these issues: we situate the population phenomenon in a street situation in its structural context; we debate about its profile and indicate the intrinsic relation between the capitalist mode of production and the formation and expansion of the population in street situation as an integral part of the relative overpopulation.</p></trans-abstract>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua</kwd>
<kwd>Capitalismo</kwd>
<kwd>Superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa</kwd></kwd-group>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Homeless</kwd>
<kwd>Capitalism</kwd>
<kwd>Relative overpopulation</kwd></kwd-group>
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<body>
<p>O modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista produz, desde seu surgimento, mis&#xE9;ria proporcional ao crescimento da riqueza; quanto mais se desenvolve, maior &#xE9; a produ&#xE7;&#xE3;o de riqueza e a produ&#xE7;&#xE3;o da mis&#xE9;ria.</p> <disp-quote>
<p>&#xC9; extremamente dif&#xED;cil viver em situa&#xE7;&#xE3;o de rua. Vemos restaurantes por todas as partes e, no entanto, sabemos que n&#xE3;o vamos poder comer. H&#xE1; milhares de pr&#xE9;dios ao redor, mas n&#xE3;o vamos dormir em nenhum deles, sen&#xE3;o nas ruas, que &#xE9; o lugar onde as pessoas caminham. H&#xE1; uma infinidade de banheiros e n&#xE3;o vamos poder entrar em nenhum deles. &#xC9; muito duro ver essas coisas e n&#xE3;o enlouquecer (<xref ref-type="bibr" rid="B21">TOSOLD; BARBOZA, 2012</xref>, p.2).</p></disp-quote>
<p>Dessa forma, n&#xE3;o &#xE9; uma exce&#xE7;&#xE3;o existirem pessoas que n&#xE3;o consigam inser&#xE7;&#xE3;o no mercado de trabalho. Tampouco a causa desse processo &#xE9; a incapacidade ou falta de esfor&#xE7;o de tais pessoas. &#xC9; a consequ&#xEA;ncia b&#xE1;sica do capitalismo: para que alguns acumulem demasiadas riquezas, outros acumulam pobreza.</p> <disp-quote>
<p>Ocasiona uma acumula&#xE7;&#xE3;o de mis&#xE9;ria correspondente &#xE0; acumula&#xE7;&#xE3;o de capital. Portanto, a acumula&#xE7;&#xE3;o de riqueza num polo &#xE9;, ao mesmo tempo, a acumula&#xE7;&#xE3;o de mis&#xE9;ria, o supl&#xED;cio do trabalho, a escravid&#xE3;o, a ignor&#xE2;ncia, a brutaliza&#xE7;&#xE3;o e a degrada&#xE7;&#xE3;o moral no polo oposto (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>, p.721).</p></disp-quote>
<p>Por mais il&#xF3;gico que esse processo pare&#xE7;a, visto que se a riqueza aumenta a pobreza deveria diminuir, ocorre o contr&#xE1;rio por causa da desigualdade na distribui&#xE7;&#xE3;o da riqueza.</p>
<p>O capitalismo promove acumula&#xE7;&#xE3;o, objetiva-se acumular cada vez mais com um n&#xFA;mero reduzido de trabalhadores, que ficam s&#xE3;o cada vez mais explorados e submetidos ao capital. Assim, seja aumentando o tempo de trabalho ou instalando m&#xE1;quinas mais eficazes, que permitam ampliar a produ&#xE7;&#xE3;o reduzindo o n&#xFA;mero de trabalhos, a explora&#xE7;&#xE3;o &#xE9; intensificada (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>).</p>
<p>Para que essa explora&#xE7;&#xE3;o ocorra, &#xE9; necess&#xE1;rio que o n&#xFA;mero de pessoas que necessitam trabalhar, visto que possuem como &#xFA;nica mercadoria a for&#xE7;a de trabalho, cres&#xE7;a em maior medida do que as vagas. Esse modo de produ&#xE7;&#xE3;o carece de um ex&#xE9;rcito de reserva, um grupo de trabalhadores adicionais, sup&#xE9;rfluos (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>). Segundo Marx, &#x201C;com a acumula&#xE7;&#xE3;o do capital produzida por ela mesma, a popula&#xE7;&#xE3;o trabalhadora produz, em volume crescente, os meios que a tornam relativamente supranumer&#xE1;ria. Essa lei de popula&#xE7;&#xE3;o &#xE9; peculiar ao modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>, p.706).</p>
<p>A exist&#xEA;ncia de uma &#x201C;popula&#xE7;&#xE3;o trabalhadora excedente &#xE9; um produto necess&#xE1;rio da acumula&#xE7;&#xE3;o ou do desenvolvimento da riqueza com base capitalista&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>, p.707). Al&#xE9;m de produto necess&#xE1;rio ao processo de acumula&#xE7;&#xE3;o capitalista, os supranumer&#xE1;rios funcionam como uma alavanca de acumula&#xE7;&#xE3;o. Sua exist&#xEA;ncia &#xE9; requisito b&#xE1;sico, condi&#xE7;&#xE3;o necess&#xE1;ria &#xE0; vida desse modo de produ&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Sendo assim, por este m&#xE9;todo, pregui&#xE7;a e falta de esfor&#xE7;o n&#xE3;o justificam a exist&#xEA;ncia do fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua. Dessa forma, ao inv&#xE9;s de imputarmos &#xE0;s pessoas que vivem nas ruas responsabilidade e culpa, indicamos o cerne do problema: o modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista. O processo de acumula&#xE7;&#xE3;o capitalista, constitutivo e consequente da teoria do valor-trabalho, gera uma superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa e alguns que se encontram nesse grupo passam a compor a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua.</p> <disp-quote>
<p>As pessoas v&#xE3;o para a rua porque a estrutura da nossa sociedade &#xE9; desigual. E por vivermos em uma sociedade capitalista, a desigualdade &#xE9; condi&#xE7;&#xE3;o para que o capital possa se reproduzir e aumentar sempre o seu lucro. Como a riqueza da sociedade se acumula cada vez mais nas m&#xE3;os de poucos e os recursos n&#xE3;o s&#xE3;o destinados para atender aos direitos b&#xE1;sicos, como sa&#xFA;de e moradia, acaba se refor&#xE7;ando a divis&#xE3;o entre pobres e ricos (MNPR<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>, 2010, p.8).</p></disp-quote>
<p>Reiteramos que a situa&#xE7;&#xE3;o de rua n&#xE3;o &#xE9; uma condi&#xE7;&#xE3;o escolhida pelas pessoas que nela se encontram, muito pelo contr&#xE1;rio, elas foram colocadas nessa condi&#xE7;&#xE3;o. O modo de produ&#xE7;&#xE3;o em que vivemos exige a exist&#xEA;ncia de pessoas que n&#xE3;o conseguir&#xE3;o inser&#xE7;&#xE3;o no mercado formal de trabalho. E quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais contradi&#xE7;&#xF5;es e atrocidades ele carrega. O movimento de transforma&#xE7;&#xE3;o de trabalhadores ocupados em desempregados ou semiempregados &#xE9; constante, quanto maior for a acumula&#xE7;&#xE3;o, quanto mais o capitalismo se desenvolve, maior ser&#xE1; a explora&#xE7;&#xE3;o e menor o n&#xFA;mero de trabalhadores necess&#xE1;rios (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>).</p> <disp-quote>
<p>A condena&#xE7;&#xE3;o de uma parte da classe trabalhadora &#xE0; ociosidade for&#xE7;ada em raz&#xE3;o do sobretrabalho da outra parte, e vice-versa, torna-se um meio de enriquecimento do capitalista individual, ao mesmo tempo que acelera a produ&#xE7;&#xE3;o do ex&#xE9;rcito industrial de reserva num grau correspondente ao progresso da acumula&#xE7;&#xE3;o social (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>, p.711).</p></disp-quote>
<p>Apesar dessa tend&#xEA;ncia demonstrada acima, n&#xE3;o acreditamos que o capitalismo chegar&#xE1; ao ponto de funcionar sem o trabalho, pois entendemos o trabalho como pilar ao modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista e produtor de riqueza. A finalidade capitalista pode ser vista na <xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref>.</p>
<fig id="f1">
<label>Figura 1</label>
<caption>
<title>Prop&#xF3;sito capitalista</title></caption>
<graphic xlink:href="1677-9509-tc-17-01-0138-gf01.png"/>
<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o pr&#xF3;pria, com base em <xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013</xref>, p.711).</attrib></fig>
<p>Atrav&#xE9;s da figura acima, pretendemos indicar que o capitalismo objetiva aumentar cada vez mais a produtividade com o menor n&#xFA;mero poss&#xED;vel de trabalhadores e a consequ&#xEA;ncia desse processo &#xE9; gerar uma maior acumula&#xE7;&#xE3;o<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>.</p>
<p>Diante disso, entendemos que a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua &#xE9; consequ&#xEA;ncia da acumula&#xE7;&#xE3;o desigual de riquezas, na qual muitos acumulam mis&#xE9;ria e alguns acumulam riqueza, sendo que os acumuladores de mis&#xE9;ria s&#xE3;o aqueles que geram a riqueza que lhes &#xE9; expropriada. A exist&#xEA;ncia de pessoas que, sem as condi&#xE7;&#xF5;es m&#xED;nimas de sobreviv&#xEA;ncia, passam a usar as ruas como moradia &#xE9; um produto do capitalismo, necess&#xE1;rio a ele, visto que comp&#xF5;em a superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, primordial &#xE0; exist&#xEA;ncia do capitalismo. Sobre isso discutiremos a seguir.</p>
<sec>
<title>Produto necess&#xE1;rio &#xE0; acumula&#xE7;&#xE3;o capitalista</title>
<p>Por um lado, vemos pessoas altamente exploradas, com uma carga excessiva de sobretrabalho, e, do outro, um grupo de reserva, que pressiona o primeiro grupo a continuar no sobretrabalho. Esta &#xE9; a lei geral de acumula&#xE7;&#xE3;o capitalista, segundo Marx. E a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua comp&#xF5;e essa superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B18">Silva (2009</xref>, p. 97): &#x201C;A reprodu&#xE7;&#xE3;o do fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua vincula-se ao processo de acumula&#xE7;&#xE3;o do capital, no contexto da produ&#xE7;&#xE3;o cont&#xED;nua de uma superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, excedente &#xE0; capacidade de absor&#xE7;&#xE3;o pelo capitalismo (<xref ref-type="bibr" rid="B18">SILVA, 2009</xref>, p.97).</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013)</xref> apresenta diversas formas de exist&#xEA;ncia da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, elas podem ser vistas na <xref ref-type="fig" rid="f2">figura 2</xref>, abaixo.</p>
<fig id="f2">
<label>Figura 2</label>
<caption>
<title>Superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa</title></caption>
<graphic xlink:href="1677-9509-tc-17-01-0138-gf02.png"/>
<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o pr&#xF3;pria, com base em <xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013)</xref>.</attrib></fig>
<p>Conforme demonstramos atrav&#xE9;s da <xref ref-type="fig" rid="f2">figura 2</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013)</xref> divide a superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa em tr&#xEA;s grandes grupos: flutuante, latente e estagnada. Na primeira, os trabalhadores vivem momentos onde trabalham, depois deixam de trabalhar e mais tarde voltam a conseguir inser&#xE7;&#xE3;o no mercado de trabalho. No segundo, est&#xE3;o os migrantes do campo para as cidades, enquanto no terceiro grupo est&#xE3;o aquelas pessoas que, apesar de inseridas no ex&#xE9;rcito ativo de trabalhadores, seus trabalhos s&#xE3;o irregulares.</p>
<p>Al&#xE9;m destas tr&#xEA;s formas de superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013)</xref> indica a exist&#xEA;ncia de outro grupo, o lumpemproletariado, que est&#xE1; localizado no pauperismo e para ele &#xE9; o &#x201C;sedimento mais baixo da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa&#x201D;. &#x201C;Abstraindo dos vagabundos, delinquentes, prostitutas, em suma, do lumpemproletariado propriamente dito, essa camada social &#xE9; formada por tr&#xEA;s categorias&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2013</xref>, p.719). A figura adiante apresenta essas categorias.</p>
<p>O lumpemproletariado estaria abaixo das formas da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, apresentada pela <xref ref-type="fig" rid="f2">figura 2</xref>. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013)</xref>, &#xE9; o &#x201C;sedimento mais baixo&#x201D;, composto por capazes ao trabalho, &#xF3;rf&#xE3;os e incapacitados para o trabalho, como evidenciamos na <xref ref-type="fig" rid="f3">figura 3</xref> acima.</p>
<fig id="f3">
<label>Figura 3</label>
<caption>
<title>Lumpemproletariado</title></caption>
<graphic xlink:href="1677-9509-tc-17-01-0138-gf03.png"/>
<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o pr&#xF3;pria, com base em <xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013</xref>, p. 719).</attrib></fig>
<p>Essa discuss&#xE3;o, acerca da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, apresentada em tr&#xEA;s formas b&#xE1;sicas e uma que seria mais baixa, &#xE9; importante para pensarmos a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua e &#xE9; determinante para entendermos esse grupo populacional como um dos frutos necess&#xE1;rios ao desenvolvimento capitalista.</p>
<p>Com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; discuss&#xE3;o te&#xF3;rica sobre as formas da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, no contexto do tema popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua, para Bursztyn, eles comp&#xF5;em o lumpemproletariado, &#x22;que sobrevivem de esmolas, da caridade p&#xFA;blica ou de pequenos furtos, mas podem tamb&#xE9;m desempenhar atividades econ&#xF4;micas &#xFA;teis&#x22; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BURSZTYN, 2000</xref>, p.43).</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Silva (2009</xref>, p.25):</p> <disp-quote>
<p>Ressalta-se, por&#xE9;m, que, no &#xE2;mbito da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua abriga-se, sobretudo, no pauperismo (lumpemproletariado) ou, no m&#xE1;ximo, na popula&#xE7;&#xE3;o estagnada que se encontra ocupada, principalmente, em ocupa&#xE7;&#xF5;es prec&#xE1;rias e irregulares.</p></disp-quote>
<p>Dessa forma, assim como <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bursztyn (2000)</xref>, para a autora acima a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua comporia em maior medida o lumpemproletariado.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B20">Stoffels (1977</xref>, p.48), &#x201C;Os mendigos est&#xE3;o inclu&#xED;dos num res&#xED;duo nitidamente distinto das outras categorias, dentro da faixa relativamente perif&#xE9;rica que &#xE9; o lumpemproletariado&#x201D;.</p>
<p>Percebemos, atrav&#xE9;s desses autores, que normalmente o fen&#xF4;meno &#xE9; visto como componente do lumpemproletariado, todavia se poucos s&#xE3;o os consensos com rela&#xE7;&#xE3;o ao tema popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua, e a heterogeneidade &#xE9; marca desse grupo populacional, como podemos indicar somente em uma forma da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa ou em seu sedimento mais baixo?</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B7">Giorgetti (2006)</xref> discorda da inclus&#xE3;o autom&#xE1;tica desse grupo populacional ao lumpemproletariado, como vemos a seguir:</p> <disp-quote>
<p>Os moradores de rua (denominados pelos acad&#xEA;micos de mendigo) eram inclu&#xED;dos automaticamente na categoria de l&#xFA;mpen, que encobria a diversidade dessa popula&#xE7;&#xE3;o. Essa nomenclatura foi considerada durante anos apropriada, pois continha o potencial de revelar por si o grau de mis&#xE9;ria em que se encontravam as pessoas &#xE0;s quais ela se aplicava, dispensando informa&#xE7;&#xF5;es adicionais que permitissem uma melhor caracteriza&#xE7;&#xE3;o dessa popula&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B7">GIORGETTI, 2006</xref>, p. 42).</p></disp-quote>
<p>A multiplicidade de fatores presentes no fen&#xF4;meno &#xE9; diversa e as express&#xF5;es da quest&#xE3;o social s&#xE3;o multifacetadas no fen&#xF4;meno. Dessa forma, consideramos inadequado dizer que a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua encontra-se somente em uma das formas presentes nas <xref ref-type="fig" rid="f2">figuras 2</xref> e <xref ref-type="fig" rid="f3">3</xref>: lumpemproletariado, flutuante, latente ou ainda estagnada.</p>
<p>A seguir apresentamos fragmentos de relatos da pesquisa realizada por <xref ref-type="bibr" rid="B17">Rosa (2005)</xref>, que entrevistou 14 pessoas que integravam a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua de S&#xE3;o Paulo, mostrando a diversidade de situa&#xE7;&#xF5;es poss&#xED;veis, indicando diversas formas da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa.</p> <disp-quote>
<p>Ele tinha o curso de Contabilidade, que conseguiu fazer enquanto trabalhava como servente de pedreiro em Macei&#xF3;. Em 1979 decidiu ir para o Rio de Janeiro [&#x2026;]. N&#xE3;o conseguindo emprego na sua &#xE1;rea de forma&#xE7;&#xE3;o, foi ajudante de cozinha por seis meses. Veio ent&#xE3;o para S&#xE3;o Paulo, onde trabalhou como escritur&#xE1;rio do Inamps [&#x2026;]. Ao perder o emprego, em 1982, passou a desempenhar v&#xE1;rias fun&#xE7;&#xF5;es ligadas &#xE0; constru&#xE7;&#xE3;o civil, como servente de pedreiro e outras como repositor em supermercado, ajudante de cozinha e de caminh&#xE3;o. Por duas vezes saiu de S&#xE3;o Paulo a trabalho: em 1988 e 1989, quando voltou a Macei&#xF3; como enfermeiro domiciliar acompanhando um senhor com mal de Parkinson; e por volta de 1995/1996 foi para uma fazenda em Vinhedo, onde ficou dois anos como trabalhador rural: ro&#xE7;ava e cuidava da horta. Nunca conseguiu trabalho na &#xE1;rea de Contabilidade (<xref ref-type="bibr" rid="B17">ROSA, 2005</xref>, p.90).</p></disp-quote>
<p>Nesse relato notamos que se trata de uma pessoa que comp&#xF5;e a forma flutuante, visto que diversos s&#xE3;o os trabalhos desenvolvidos por ele, ora conseguia trabalhar, ora precisava procurar outro trabalho. Ele alternou diversos momentos de trabalho com outros onde n&#xE3;o trabalha e precisa buscar um novo trabalho. Ao nosso ver, este &#xE9; um exemplo de uma pessoa que antes da situa&#xE7;&#xE3;o de rua passou pela forma flutuante.</p>
<p>Alguns relatos de pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua que vivem essa forma trazem a flutua&#xE7;&#xE3;o de ser atra&#xED;do e repelido ao trabalho formal, alternando a moradia nas ruas com a sa&#xED;da dela. Quando &#xE9; repelido, vai para a situa&#xE7;&#xE3;o de rua e quando atra&#xED;do consegue um local e sai das ruas.</p>
<p>Lembramos que n&#xE3;o &#xE9; algo simples, a situa&#xE7;&#xE3;o de rua &#xE9; a s&#xED;ntese de diversas determina&#xE7;&#xF5;es e n&#xE3;o somente uma. Associada &#xE0; perda do trabalho, h&#xE1; diversos outros fatores, tais como: o desentendimento com familiares, a perda de la&#xE7;os afetivos importantes por causa da morte de um parente ou c&#xF4;njuge, a utiliza&#xE7;&#xE3;o de &#xE1;lcool e outras drogas, a migra&#xE7;&#xE3;o, o sofrimento ps&#xED;quico, dentre outros.</p>
<p>Ao mesmo tempo, outro relato indica que &#x201C;Desde os sete anos de idade, Ferreira acompanhava o padrasto em trabalhos geralmente inst&#xE1;veis e irregulares, na constru&#xE7;&#xE3;o civil, em reformas e consertos domiciliares, os conhecidos bicos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B17">ROSA, 2005</xref>, p.101)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. Esse relato assinala a forma estagnada da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, visto que Ferreira viveu trabalhando de forma inst&#xE1;vel e irregular.</p>
<p>Chamamos aten&#xE7;&#xE3;o a esta forma, visto que a Pesquisa Nacional sobre a Popula&#xE7;&#xE3;o em Situa&#xE7;&#xE3;o de Rua revelou que:</p> <disp-quote>
<p>a maior parte dos trabalhos realizados situa-se na chamada economia informal: apenas 1,9% dos entrevistados afirmaram estar trabalhando atualmente com carteira assinada. Essa n&#xE3;o &#xE9; uma situa&#xE7;&#xE3;o ocasional. 47,7% dos entrevistados nunca trabalharam com carteira assinada (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BRASIL, 2008</xref>, p.10)<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>.</p></disp-quote>
<p>Isso indica que uma grande parcela da popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua comp&#xF5;e a forma estagnada, pois trabalha em atividades irregulares.</p>
<p>Outro relato revela que: &#x201C;Come&#xE7;ou trabalhando aos seis anos na ro&#xE7;a dos pais, no plantio de mamona, milho, feij&#xE3;o, tendo deixado essa atividade aos doze anos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B17">ROSA, 2005</xref>, p.87). Trata-se de um migrante rural, o que nos remete ao grupo da superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa latente. Assim como muitos outros relatos de pessoas que foram para as ruas ao migrar do campo para as cidades em busca de trabalho, apontando claramente para a forma latente. E, de certa forma, associa-se tamb&#xE9;m &#xE0; forma flutuante, visto que normalmente a migra&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; associada a um momento de repuls&#xE3;o do trabalho.</p>
<p>Assim, a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua comp&#xF5;e, ao nosso ver, a superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa em todas as suas formas. Ora flutuante, latente, estagnada e ora lumpemproletariado, tudo depende do contexto de cada trajet&#xF3;ria de vida.</p>
<p>Entendido o cerne do fen&#xF4;meno, e o porqu&#xEA; de sua exist&#xEA;ncia, avan&#xE7;amos no estudo sobre a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua, trazendo um breve hist&#xF3;rico sobre o fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua.</p>
</sec>
<sec>
<title>Hist&#xF3;rico do fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua</title> <disp-quote>
<p>A popula&#xE7;&#xE3;o de rua exp&#xF5;e as contradi&#xE7;&#xF5;es b&#xE1;sicas do modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista de produ&#xE7;&#xE3;o: a fal&#xE1;cia de que todos possuem iguais oportunidades e a evid&#xEA;ncia de que, embora a produ&#xE7;&#xE3;o seja social, a apropria&#xE7;&#xE3;o dos ganhos &#xE9; sempre individual, sendo as pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua testemunhas vivas de que a explora&#xE7;&#xE3;o e a desigualdade est&#xE3;o no cerne deste modo de produ&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B14">PEREIRA, 2007</xref>, p.200).</p></disp-quote>
<p>A exist&#xEA;ncia de pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua ocupando as ruas das cidades n&#xE3;o &#xE9; nova. &#x201C;A cidade pr&#xE9;-industrial se caracterizava em parte pela &#x2018;onipresen&#xE7;a de mendigos&#x2019;&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B19">SNOW; ANDERSON, 1998</xref>, p.29). A estrat&#xE9;gia de sobreviv&#xEA;ncia utilizada por essas pessoas era a mendic&#xE2;ncia, que &#xE0;s vezes se associava aos furtos e &#xE0; prostitui&#xE7;&#xE3;o. A estigmatiza&#xE7;&#xE3;o era reduzida pela hospitalidade motivada na &#xE9;poca pela tradi&#xE7;&#xE3;o e havia uma idealiza&#xE7;&#xE3;o da pobreza, eles tinham os mendigos como santos. A aspira&#xE7;&#xE3;o franciscana teve influ&#xEA;ncia para tal idealiza&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B19">SNOW; ANDERSON, 1998</xref>).</p>
<p>Isso come&#xE7;ou a mudar a partir do s&#xE9;culo XIV, quando os valores religiosos, ao inv&#xE9;s de motivar a ajuda aos pobres e t&#xEA;-los como santos, passaram a ver a pobreza com maus olhos. E, com a morte de uma parcela consider&#xE1;vel da popula&#xE7;&#xE3;o pela peste negra, por volta de 1348, foi aprovada a &#x201C;primeira lei de vadiagem bem desenvolvida [&#x2026;] em 1349&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B19">SNOW; ANDERSON, 1998</xref>, p.30).</p>
<p>Dois fatores primordiais para o crescimento no n&#xFA;mero de pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua foram a industrializa&#xE7;&#xE3;o e os cercamentos das terras comunais. Al&#xE9;m disso, o pre&#xE7;o dos alugu&#xE9;is e dos alimentos subia enquanto o sal&#xE1;rio reduzia. Lembramos que &#x201C;a hist&#xF3;ria do fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua remonta o surgimento das sociedades pr&#xE9;-industriais da Europa, no contexto da chamada acumula&#xE7;&#xE3;o primitiva, em que os camponeses foram desapropriados e expulsos de suas terras&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B18">SILVA, 2009</xref>, p.25).</p>
<p>Para entendermos melhor esse aspecto, lembramos a respeito do feudalismo, modo de produ&#xE7;&#xE3;o que antecedeu o capitalismo. A Europa foi dividida em grandes &#xE1;reas de terra, os feudos, cujos donos eram os senhores feudais (<xref ref-type="bibr" rid="B9">KOSHIBA, 2004</xref>); parte do feudo era destinada &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o para o senhor feudal. Alguns dias na semana os servos trabalhavam nessas terras, plantando, colhendo, cuidando dos animais, nos demais dias eles podiam trabalhar para si mesmos, em terras comunais que eles podiam usar para subsist&#xEA;ncia, criando animais, plantando e colhendo.</p>
<p>A produ&#xE7;&#xE3;o dos feudos era para subsist&#xEA;ncia, n&#xE3;o existia grande excedente aos moldes capitalistas. Por&#xE9;m, com a mudan&#xE7;a nas t&#xE9;cnicas de produ&#xE7;&#xE3;o e com o avan&#xE7;o tecnol&#xF3;gico, a produ&#xE7;&#xE3;o cresceu. Com o crescimento do excedente, as feiras faziam-se necess&#xE1;rias com uma frequ&#xEA;ncia cada vez maior e as cidades, antes esquecidas, voltaram a ter import&#xE2;ncia (<xref ref-type="bibr" rid="B9">KOSHIBA, 2004</xref>).</p>
<p>Um fator preponderante para a derrocada do modo de produ&#xE7;&#xE3;o feudal e amplia&#xE7;&#xE3;o da popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua foi o cercamento das terras comunais. Aquela &#xE1;rea utilizada para subsist&#xEA;ncia dos servos foi cercada para cria&#xE7;&#xE3;o de carneiros, visto que a l&#xE3; traria um grande retorno financeiro.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B10">Marx (2013)</xref>, sobre esse processo, refere que o carneiro teve mais import&#xE2;ncia que as pessoas: os camponeses que viviam daquela terra foram expulsos de seu local de sobreviv&#xEA;ncia para dar espa&#xE7;o aos carneiros.</p>
<p>Sem outra op&#xE7;&#xE3;o, destitu&#xED;dos de sua casa, seu trabalho e sua antiga vida, muitos foram obrigados a trocar sua for&#xE7;a de trabalho nas ind&#xFA;strias nascentes. Alguns conseguiram e se adaptaram &#xE0;s insalubres condi&#xE7;&#xF5;es de trabalho. Outros n&#xE3;o conseguiram inser&#xE7;&#xE3;o, a ind&#xFA;stria n&#xE3;o gerava vagas na mesma propor&#xE7;&#xE3;o que o cercamento expulsava for&#xE7;a de trabalho. Al&#xE9;m disso, o pre&#xE7;o dos alimentos e dos alugu&#xE9;is estava inflacionado, o que dificultava a vida dos trabalhadores (<xref ref-type="bibr" rid="B14">PEREIRA, 2007</xref>). Alguns foram para as ruas, eram divididos entre aptos e inaptos ao trabalho, os aptos ao trabalho, que mendigavam e vagavam pelas ruas, eram considerados vagabundos, a eles cabia disciplina, pois n&#xE3;o mereciam a caridade. Os incapazes ao trabalho recebiam uma licen&#xE7;a para mendigar, a eles cabia uma escassa assist&#xEA;ncia.</p>
<p>Abaixo citamos algumas das formas de puni&#xE7;&#xE3;o aos n&#xE3;o merecedores.</p> <disp-quote>
<p>A&#xE7;oitamento e encarceramento para vagabundos v&#xE1;lidos. Eles devem ser amarrados atr&#xE1;s de um carro e a&#xE7;oitados at&#xE9; que o sangue corra de seu corpo, em seguida devem prestar juramento de retornarem a sua terra natal ou ao lugar onde moraram nos &#xFA;ltimos tr&#xEA;s anos e serem postos a trabalhar (&#x2026;). Aquele que for apanhado pela segunda vez por vagabundagem dever&#xE1; ser novamente a&#xE7;oitado e ter a metade da orelha cortada; na terceira reincid&#xEA;ncia, por&#xE9;m, o atingido, como criminoso grave e inimigo da comunidade, dever&#xE1; ser executado (MARX apud <xref ref-type="bibr" rid="B13">PEREIRA, 2008</xref>, p.40).</p></disp-quote>
<p>As chamadas leis sanguin&#xE1;rias, que puniam severamente os chamados &#x201C;vagabundos&#x201D;, impediam a mendic&#xE2;ncia e a mobilidade de trabalhadores em busca de melhores condi&#xE7;&#xF5;es de vida, al&#xE9;m disso os trabalhadores eram obrigados a aceitar qualquer sal&#xE1;rio. Foi uma forma de for&#xE7;ar os trabalhadores, que se tornavam uma for&#xE7;a de trabalho escassa, a ganhar pouco. Al&#xE9;m disso, o povo era proibido de ajudar aos mendigos que tinham condi&#xE7;&#xF5;es f&#xED;sicas de trabalho (PEREIRA, 2009).</p>
<p>Os &#x201C;mendigos&#x201D; que migravam passavam por puni&#xE7;&#xF5;es severas: eram a&#xE7;oitados, marcados com ferro em brasa, deportados para as col&#xF4;nias e presos. A brutalidade com que eram tratados pode ser observada na cita&#xE7;&#xE3;o abaixo. A discrimina&#xE7;&#xE3;o com rela&#xE7;&#xE3;o e esse grupo populacional era grande; a literatura os descrevia como vagabundos, criminosos, ladr&#xF5;es e fraudulentos.</p> <disp-quote>
<p>Ca&#xE7;as humanas militares eram organizadas periodicamente para recolher os moradores de rua e, uma vez presos, eram com frequ&#xEA;ncia sumariamente submetidos ao tronco, ao a&#xE7;oite e &#xE0;s vezes &#xE0; forca. O ferrete era comum, assim como a perfura&#xE7;&#xE3;o da orelha, introduzida numa lei de 1572 que exigia que todos os vagabundos fossem &#x201C;chicoteados e queimados atrav&#xE9;s da cartilagem da orelha direita com um ferro quente de uma polegada de di&#xE2;metro&#x201D;. A pris&#xE3;o de vagabundos era comum e eles eram frequentemente confinados na casa de corre&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B19">SNOW; ANDERSON, 1998</xref>, p.32).</p></disp-quote>
<p>Dessa forma, &#x201C;as condi&#xE7;&#xF5;es hist&#xF3;rico-estruturais que originaram e reproduzem continuamente o fen&#xF4;meno popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua na sociedade capitalista s&#xE3;o as mesmas que deram origem ao capital e asseguraram a sua acumula&#xE7;&#xE3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B18">SILVA, 2009</xref>, p.25).</p>
</sec>
<sec>
<title>Quem &#xE9; a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua?</title>
<p>Um fator comum expresso por <xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira (2007)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Prates, Prates e Machado (2011)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Escorel (1999)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Silva (2009)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Vieira, Bezerra e Rosa (2004)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B17">Rosa (2005)</xref> &#xE9; a predomin&#xE2;ncia masculina na situa&#xE7;&#xE3;o de rua. Apesar disso, o n&#xFA;mero de mulheres neste processo de rualiza&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; subindo (<xref ref-type="bibr" rid="B15">PRATES; PRATES; MACHADO, 2011</xref>).</p>
<p>Os dados do <xref ref-type="bibr" rid="B8">IBGE (2006</xref>; 2014) revelam que o n&#xFA;mero de mulheres no Brasil &#xE9; maior que o de homens, sendo que na regi&#xE3;o Sudeste a diferen&#xE7;a &#xE9; ainda maior. Al&#xE9;m disso, os homens jovens e adultos morrem mais, enquanto v&#xED;timas de acidentes de tr&#xE2;nsito e da viol&#xEA;ncia. Seguindo essas informa&#xE7;&#xF5;es, chama aten&#xE7;&#xE3;o o fato de a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua ser basicamente masculina, visto que n&#xE3;o acompanha a maioria de brasileiros, formada por mulheres.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B22">Vieira, Bezerra e Rosa (2004)</xref> explicam o fato pela ideia do homem provedor, pois os homens saem de casa mais cedo em busca de sustentar a si mesmo. Ao formar fam&#xED;lia, deseja sustent&#xE1;-la; quando n&#xE3;o conseguem, procuram meios para isso em outros estados, almejando inser&#xE7;&#xE3;o em algum trabalho e, na ocasi&#xE3;o em que seus planos n&#xE3;o se concretizam, eles preferem as ruas a voltar para casa em condi&#xE7;&#xE3;o pior do que sa&#xED;ram, como revela a cita&#xE7;&#xE3;o a seguir:</p> <disp-quote>
<p>&#xC0;s vezes, eu penso em voltar, sabe? Mas voltar da forma que eu t&#xF4; n&#xE3;o posso [&#x2026;] eu tenho a maior vergonha de voltar para minha casa, da forma que eu t&#xF4;, destru&#xED;do, tinha que estar bem melhor, sabe? &#xD3; s&#xF3;, vou falar uma coisa [&#x2026;] sem dente, sem roupa, sem nada, sei l&#xE1;, destru&#xED;do totalmente, n&#xE3;o volto n&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B6">ESCOREL, 1999</xref>, p.133).</p></disp-quote>
<p>A quest&#xE3;o do homem provedor n&#xE3;o &#xE9; o &#xFA;nico que explica a maioria masculina. A mulher executa tarefas dom&#xE9;sticas, cuida de irm&#xE3;os menores e se exp&#xF5;e mais na rua, sofre viol&#xEA;ncia sexual; al&#xE9;m disso h&#xE1; a quest&#xE3;o cultural de uma sociedade machista que aceita mais a presen&#xE7;a do homem na rua do que da mulher (<xref ref-type="bibr" rid="B6">ESCOREL, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">VIEIRA; BEZERRA; ROSA, 2004</xref>).</p>
<p>A &#xFA;nica pesquisa nacional do Governo Federal para mensurar a quantidade e perfil de pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua foi realizada em 71 cidades brasileiras<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, em 2007. 10,4% do total encontrado foram escolhidos pela &#x201C;t&#xE9;cnica de amostragem probabil&#xED;stica sistem&#xE1;tica&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BRASIL, 2008</xref>, p.5) para responder a question&#xE1;rios. Os dados da pesquisa demonstram que existiam 31.922 pessoas vivendo em situa&#xE7;&#xE3;o de rua: 82% s&#xE3;o homens, 53% possuem idade entre 25 e 44 anos. Logo, comp&#xF5;em a popula&#xE7;&#xE3;o economicamente ativa, 52,6% possui renda semanal entre R$ 20,00 e R$ 80,00 e 74% sabem ler e escrever.</p>
<p>O abalo emocional dos homens ao perderem algum familiar tamb&#xE9;m contribui para a situa&#xE7;&#xE3;o de rua, especialmente a morte da m&#xE3;e, da esposa ou a separa&#xE7;&#xE3;o conjugal. O pr&#xF3;ximo relato expressa essa quest&#xE3;o.</p> <disp-quote>
<p>Com 17 anos eu me casei at&#xE9; os 21, a&#xED; eu fiquei vi&#xFA;vo. Eu j&#xE1; era dependente qu&#xED;mico nesta &#xE9;poca, n&#xE3;o com tanta intensidade, eu usava bebida alco&#xF3;lica esporadicamente nos finais de semana, consumia maconha, mas quando aconteceu o fato da minha viuvez, eu ca&#xED; num estado de total desespero, que foi quando eu conheci a coca&#xED;na, a&#xED; j&#xE1; comecei a usar coca&#xED;na injet&#xE1;vel j&#xE1; no intuito de autodestrui&#xE7;&#xE3;o. E deste ponto em diante eu fiquei 3 anos, eu recordo que eu fiquei at&#xE9; os 24 anos neste relacionamento com drogas, a&#xED; eu perdi a moradia, retornei para a rua, consequentemente, perdi o trabalho, a&#xED; j&#xE1; engloba tamb&#xE9;m a autoestima, o amor pr&#xF3;prio, todo este lado que gera depend&#xEA;ncia qu&#xED;mica (<xref ref-type="bibr" rid="B11">MELO, 2011</xref>, p.44).</p></disp-quote>
<p>Frisamos que na situa&#xE7;&#xE3;o de rua est&#xE3;o presentes m&#xFA;ltiplos fatores; dificilmente um fator sozinho acarretar&#xE1; a ida para as ruas. No relato acima isso fica expl&#xED;cito, ao destacar a morte da esposa, a utiliza&#xE7;&#xE3;o de entorpecentes, a perda da moradia e do trabalho. Dessa forma, a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua &#xE9; formada basicamente por homens que sofreram m&#xFA;ltiplas perdas, perderam os v&#xED;nculos familiares, o trabalho regular, a moradia e vivem com rendimentos auferidos de trabalhos informais.</p>
<p>Voltando aos dados da pesquisa, dentre os motivos para a situa&#xE7;&#xE3;o de rua est&#xE3;o: utiliza&#xE7;&#xE3;o de &#xE1;lcool e outras drogas (35,5%), desemprego (29,8%) e briga com membro da fam&#xED;lia (29,1%). De todos os entrevistados, 71,3% responderam um dos tr&#xEA;s motivos apontados acima. A maioria utiliza a rua para pernoite, somando 69,6%. Com rela&#xE7;&#xE3;o a benef&#xED;cios recebidos pelo poder p&#xFA;blico, 88,5% n&#xE3;o acessam nenhum benef&#xED;cio (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BRASIL, 2008</xref>).</p>
<p>Assim, atentamos para o cuidado em afirmar, com base nessa pesquisa, que as pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua moram na rua por serem drogadas. N&#xE3;o podemos dizer isso, pois &#xE9; dif&#xED;cil mensurar at&#xE9; mesmo se a utiliza&#xE7;&#xE3;o de entorpecentes foi uma &#x201C;causa&#x201D; para a situa&#xE7;&#xE3;o de rua ou se foi a &#x201C;consequ&#xEA;ncia&#x201D;. Ser&#xE1; que eles usavam &#xE1;lcool e outras drogas e isso os levou a morar na rua, ou foi o contr&#xE1;rio, a moradia nas ruas que apresentou como preponderante para sua subsist&#xEA;ncia a utiliza&#xE7;&#xE3;o desses psicoativos? E, mesmo se a explica&#xE7;&#xE3;o das pessoas que integram o fen&#xF4;meno aqui estudado fosse a utiliza&#xE7;&#xE3;o de &#xE1;lcool e outras drogas antes da situa&#xE7;&#xE3;o de rua, ou no processo de &#x201C;rualiza&#xE7;&#xE3;o&#x201D;, reiteramos que o problema &#xE9; estrutural e n&#xE3;o resultado de a&#xE7;&#xF5;es individuais. Afinal, nesse modo de produ&#xE7;&#xE3;o as express&#xF5;es da quest&#xE3;o social surgem como consequ&#xEA;ncia da rela&#xE7;&#xE3;o explorat&#xF3;ria do capital sobre o trabalho.</p>
<p>Salientamos que <xref ref-type="bibr" rid="B22">Vieira, Bezerra e Rosa (2004)</xref> comparam a utiliza&#xE7;&#xE3;o do &#xE1;lcool a um analg&#xE9;sico, utilizado pelas pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua para &#x201C;suavizar o desconforto, a solid&#xE3;o e permite o estabelecimento de la&#xE7;os com os companheiros de rua&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B22">VIEIRA; BEZERRA; ROSA 2004</xref>, p.102).</p>
<p>Acreditamos que de fato isso &#xE9; de grande influ&#xEA;ncia na utiliza&#xE7;&#xE3;o de entorpecentes, e assim, n&#xE3;o podemos reduzir o fen&#xF4;meno &#xE0; utiliza&#xE7;&#xE3;o de psicoativos.</p> <disp-quote>
<p>H&#xE1; funcionalidade do uso do &#xE1;lcool para a pessoa em situa&#xE7;&#xE3;o de rua, entre elas o favorecimento de encontros coletivos e o anestesiar do sofrimento que essa situa&#xE7;&#xE3;o provoca, apesar do alheamento &#xE0; realidade. Assim, ressalta-se a import&#xE2;ncia do &#xE1;lcool como elemento socializador nos grupos de rua, possibilitando &#xE0; pessoa &#x201C;integrar&#x201D; uma rede t&#xEA;nue e ef&#xEA;mera de v&#xED;nculos afetivos que se encontram fragmentados: &#x201C;nesse processo (socializa&#xE7;&#xE3;o na rua), o &#xE1;lcool &#xE9; um elemento fundamental&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BOTTI et al., 2010</xref>).</p></disp-quote>
<p>O desemprego, assim como a briga com membro da fam&#xED;lia, tamb&#xE9;m n&#xE3;o pode ser isolado, como se sozinhos provocassem a situa&#xE7;&#xE3;o de rua. Reafirmamos que o &#xE2;mago do problema &#xE9; o modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista. Afinal, os valores do consumo, da intoler&#xE2;ncia &#xE0; diversidade, da mercantiliza&#xE7;&#xE3;o de tudo atravessa o conjunto das rela&#xE7;&#xF5;es de poder, domina&#xE7;&#xE3;o, subjuga&#xE7;&#xE3;o e explora&#xE7;&#xE3;o (PRATES, 2016).</p>
<p>Como trajet&#xF3;ria comum, pesquisadores, tais como <xref ref-type="bibr" rid="B6">Escorel (1999)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B17">Rosa (2005)</xref>, apontam a sa&#xED;da de casa, a migra&#xE7;&#xE3;o de homens provedores com o intuito de lograr melhores condi&#xE7;&#xF5;es de vida para si e para sua fam&#xED;lia. Sem conseguir inser&#xE7;&#xE3;o, dormem nas ruas por n&#xE3;o ter outra op&#xE7;&#xE3;o; ainda procuram trabalho, mas quando n&#xE3;o conseguem continuam nas ruas, ao inv&#xE9;s de voltar para casa, especialmente devido &#xE0; vergonha de ter &#x201C;fracassado&#x201D;.</p>
<p>Nesse ponto, h&#xE1; converg&#xEA;ncia com a pesquisa nacional, que indica uma quantia consider&#xE1;vel de pessoas: 45,8% est&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua no mesmo local em que residiam antes dessa situa&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BRASIL, 2008</xref>). &#x201C;O movimento de volta &#xE0; terra natal ou &#xE0; fam&#xED;lia tamb&#xE9;m est&#xE1; presente nos depoimentos, o que significa, em primeiro lugar, voltar numa situa&#xE7;&#xE3;o financeira melhor, voltar com alguma coisa, ter conseguido algo&#x22; (<xref ref-type="bibr" rid="B17">ROSA, 2005</xref>, p.146).</p>
<p>&#xC9; dif&#xED;cil falar do fen&#xF4;meno &#x201C;popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua&#x201D; sem falar de trabalho &#x2013; ele &#xE9; central na vida dessas pessoas, tanto de sua falta ou precariza&#xE7;&#xE3;o, quanto sua refer&#xEA;ncia para as pessoas que est&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua e se enxergam como de fato s&#xE3;o, trabalhadores. O trabalho &#xE9; um fator preponderante entre v&#xE1;rias pesquisas realizadas sobre o tema.</p>
<p>A pesquisa nacional sobre a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua revelou que somente 15,7% das pessoas nesta situa&#xE7;&#xE3;o mendiga ou pede como principal estrat&#xE9;gia de sobreviv&#xEA;ncia, enquanto para 70,9% o trabalho &#xE9; primordialmente utilizado. As atividades destacadas pela pesquisa est&#xE3;o presentes na figura a seguir.<xref ref-type="fig" rid="f4"/></p>
<fig id="f4">
<label>Gr&#xE1;fico 1</label>
<caption>
<title>Trabalhos realizados</title></caption>
<graphic xlink:href="1677-9509-tc-17-01-0138-gf04.png"/>
<attrib>Fonte: Elabora&#xE7;&#xE3;o pr&#xF3;pria, baseado em <xref ref-type="bibr" rid="B2">Brasil (2008)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B16">Quiroga (2010)</xref>.</attrib></fig>
<p>Esses dados fortalecem a relev&#xE2;ncia em estudar a rela&#xE7;&#xE3;o entre o trabalho informal<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> e a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua brasileira.</p>
<p>Ali&#xE1;s, &#xE9; interessante notar que mais de duas d&#xE9;cadas antes da realiza&#xE7;&#xE3;o desta pesquisa, uma pesquisadora j&#xE1; atentava para a utiliza&#xE7;&#xE3;o do trabalho enquanto estrat&#xE9;gia de sobreviv&#xEA;ncia. Ainda que utilize o termo &#x201C;mendigo&#x201D; para designar o grupo populacional aqui estudado, avan&#xE7;a ao entender que a utiliza&#xE7;&#xE3;o da mendic&#xE2;ncia e pedido n&#xE3;o representava a primeira op&#xE7;&#xE3;o das pessoas que utilizavam as ruas como moradia: &#x201C;A maioria desses miser&#xE1;veis recorre &#xE0; esmola em casos extremos, quando n&#xE3;o tem mais onde recorrer. Enquanto podem, refugiam-se no trabalho&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B5">DI FLORA, 1987</xref>, p.16).</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B5">Di Flora (1987)</xref> demonstrou que a mendic&#xE2;ncia e o pedido n&#xE3;o ocorriam por desejo ou escolha dessas pessoas. Al&#xE9;m disso, a autora demonstra a vergonha presente em ter que pedir esmola para sobreviver. Muitos se embriagavam para conseguir pedir ou mendigar; as cita&#xE7;&#xF5;es abaixo demonstram isso nos relatos de tr&#xEA;s homens, suas idades respectivamente s&#xE3;o 49, 44 e 31 anos:</p> <disp-quote>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Tenho vergonha de pedir, &#xE0;s vezes eu bebo, voc&#xEA; tamb&#xE9;m beberia porque sen&#xE3;o n&#xE3;o d&#xE1; coragem.</p></list-item>
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Eu acho que &#xE9; feio pedir. S&#xF3; pe&#xE7;o quando necessito. O ser normal n&#xE3;o gosta de pedir, eu n&#xE3;o me adapto a essa situa&#xE7;&#xE3;o de pedir, o certo &#xE9; trabalhar.</p></list-item>
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>N&#xE3;o me sinto bem pedindo. O trabalho &#xE9; necess&#xE1;rio. O homem trabalhando &#xE9; mais feliz, mais realizado (<xref ref-type="bibr" rid="B5">DI FLORA, 1987</xref>, p. 120-121).</p></list-item></list></disp-quote>
<p>Percebemos qu&#xE3;o forte &#xE9; a rela&#xE7;&#xE3;o do tema com o trabalho, assim, indicamos a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua enquanto trabalhadores que comp&#xF5;em a alavanca de acumula&#xE7;&#xE3;o do processo produtivo capitalista. Abaixo, trazemos uma m&#xFA;sica para ilustrar esse ponto.</p> <disp-quote>
<p>Eu t&#xF4; morando na rua</p>
<p>Compositor: Osvaldo Manoel Vicente</p>
<p>&#xD2; minha gente escuta o que eu vou falar</p>
<p>Eu t&#xF4; morando na rua e desse jeito n&#xE3;o d&#xE1;</p>
<p>Vou pedir pro Presidente para ele nos ajudar</p>
<p>Conseguindo um bom emprego pra casa eu quero voltar.</p>
<p>Eu deixei minha fam&#xED;lia em minha terra natal. Fui em busca de emprego, olha eu me dei mal.</p>
<p>Chegando aqui em S&#xE3;o Paulo na rua e o meu leito &#xE9; um jornal.</p>
<p>Essa falta de emprego juro que n&#xE3;o &#xE9; normal Eu t&#xF4; morando na rua parecendo um animal.</p>
<p>Minha cama &#xE9; o cimento, meu colch&#xE3;o &#xE9; um jornal.</p>
<p>Refr&#xE3;o: Sem dinheiro e sem emprego e sem casa pra morar</p>
<p>Eu t&#xF4; morando na rua, mas n&#xE3;o vou continuar.</p>
<p>Quando eu arrumar um emprego pra casa eu quero voltar (<xref ref-type="bibr" rid="B4">COSTA, 2004</xref>).</p></disp-quote>
<p>A m&#xFA;sica acima relata o que apontamos na discuss&#xE3;o te&#xF3;rica feita neste cap&#xED;tulo, conta a hist&#xF3;ria de um homem em idade economicamente ativa que deixou seu local de origem em busca de trabalho, sem conseguir foi para as ruas e ainda t&#xEA;m esperan&#xE7;a em conseguir um trabalho, que v&#xEA; como porta de sa&#xED;da da situa&#xE7;&#xE3;o de rua.</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>Conclus&#xE3;o</title>
<p>Discutimos nesse &#xE1;rtico acerca do porqu&#xEA; de a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua, formada majoritariamente por homens em idade economicamente ativa, utilizar as ruas como moradia. Debatemos acerca da rela&#xE7;&#xE3;o entre a exist&#xEA;ncia desse grupo populacional e o modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista, que, em sua lei geral de acumula&#xE7;&#xE3;o, promove a exist&#xEA;ncia de uma superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, que n&#xE3;o compor&#xE1; o ex&#xE9;rcito ativo em atividades regulares e que n&#xE3;o &#xE9; uma exce&#xE7;&#xE3;o a esse modo de produ&#xE7;&#xE3;o, mas a sua regra.</p>
<p>A popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua &#xE9; um grupo populacional cuja marca predominante &#xE9; a heterogeneidade, que compartilha fatores comuns ao processo de rualiza&#xE7;&#xE3;o, tais como: a pobreza, o desemprego, a fragiliza&#xE7;&#xE3;o de v&#xED;nculos familiares, a utiliza&#xE7;&#xE3;o de entorpecentes, a migra&#xE7;&#xE3;o e utiliza&#xE7;&#xE3;o da rua e de albergues como local de moradia.</p>
<p>Sua exist&#xEA;ncia explica-se pelo modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista que, em sua lei geral, promove a acumula&#xE7;&#xE3;o de mis&#xE9;ria proporcional &#xE0; acumula&#xE7;&#xE3;o de capital, visto que se a riqueza chega a determinadas m&#xE3;os, ela foi perdida em outras. E, &#xE9; um produto da acumula&#xE7;&#xE3;o capitalista a exist&#xEA;ncia de uma superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa, formada pelos que possuem somente sua for&#xE7;a de trabalho para trocar no mercado de coisas e est&#xE3;o inteira ou parcialmente desocupados.</p>
<p>Identificamos que o grupo populacional aqui estudado comp&#xF5;e a superpopula&#xE7;&#xE3;o relativa em cada uma de suas formas b&#xE1;sicas (flutuante, latente e estagnada) e tamb&#xE9;m em seu sedimento mais baixo (lumpemproletariado). Destacamos que tax&#xE1;-los somente enquanto lumpemproletariados &#xE9; uma forma de n&#xE3;o refletir acerca de sua posi&#xE7;&#xE3;o no modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista, ignorando a sua produ&#xE7;&#xE3;o e reprodu&#xE7;&#xE3;o advinda desse modo de produ&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Vimos tamb&#xE9;m que a popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua utiliza primordialmente o trabalho informal como principal estrat&#xE9;gia de sobreviv&#xEA;ncia e a mendic&#xE2;ncia &#xE9; usada somente quando n&#xE3;o h&#xE1; outra alternativa, n&#xE3;o &#xE9; algo prazeroso para aqueles que t&#xEA;m a sua vida pautada pelo trabalho.</p>
</sec></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>Movimento Nacional da Popula&#xE7;&#xE3;o em Situa&#xE7;&#xE3;o de Rua.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>As setas para cima indicam aumento e a seta para baixo indica redu&#xE7;&#xE3;o.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B17">Rosa (2005)</xref> pesquisou pessoas em situa&#xE7;&#xE3;o de rua, por&#xE9;m, ao trazer seus relatos, apresenta a trajet&#xF3;ria pessoal de cada um, o que inclui suas atividades antes de morar nas ruas.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>Salientamos que apesar de percebermos o trabalho informal para al&#xE9;m dos que n&#xE3;o possuem carteira assinada, a pesquisa nacional trouxe esse conceito reduzido &#xE0; assinatura da carteira de trabalho.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>S&#xE3;o Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre n&#xE3;o fizeram parte da pesquisa: as tr&#xEA;s primeiras devido &#xE0; exist&#xEA;ncia pr&#xE9;via de pesquisas semelhantes nos anos anteriores; a &#xFA;ltima, pelo motivo de realizar uma pesquisa com os mesmos objetivos no per&#xED;odo da Pesquisa Nacional.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Concordamos com Soares (2008), ao entender como trabalho informal &#x201C;n&#xE3;o s&#xF3; as atividades de sobreviv&#xEA;ncia, como tamb&#xE9;m os trabalhadores aut&#xF4;nomos, os empregados informais, os trabalhadores terceirizados, os cooperados, aqueles que trabalham por conta pr&#xF3;pria, dentre outros. [&#x2026;] O trabalho informal vai se concretizar com a exist&#xEA;ncia de rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho em que de imediato ou nas media&#xE7;&#xF5;es seja poss&#xED;vel identificar o controle do capital sobre o trabalho e/ou compra e venda da for&#xE7;a de trabalho nas rela&#xE7;&#xF5;es entre capital e trabalho&#x201D; (SOARES, 2008, p.140).</p></fn></fn-group>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<article-title>Padr&#xE3;o de uso de &#xE1;lcool entre homens adultos em situa&#xE7;&#xE3;o de rua de Belo Horizonte</article-title>
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<mixed-citation>SILVA, Maria L&#xFA;cia Lopes. <bold>Trabalho e popula&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xE3;o de rua no Brasil</bold>. S&#xE3;o Paulo: Cortez, 2009.</mixed-citation></ref>
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<mixed-citation>SNOW, David; ANDERSON, Leon. <bold>Desafortunados</bold>: um estudo sobre o povo da rua. Petr&#xF3;polis: Vozes, 1998.</mixed-citation></ref>
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<mixed-citation>STOFFELS, Marie Ghislaine. <bold>Os mendigos na cidade de S&#xE3;o Paulo</bold>: ensaio de interpreta&#xE7;&#xE3;o sociol&#xF3;gica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.</mixed-citation></ref>
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<mixed-citation>TOSOLD, L&#xE9;ia; BARBOZA, Rose. A rua provoca traumas, mas tamb&#xE9;m permite ver a vida de outra maneira. <bold>Jornal O Trecheiro</bold> - not&#xED;cias do povo da rua, S&#xE3;o Paulo, p.2, out. 2012.</mixed-citation></ref>
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