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<journal-title>Textos &#x26; Contextos (Porto Alegre)</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Textos Contextos (Porto Alegre)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul, Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;ao em Servi&#xE7;o Social</publisher-name></publisher>
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<subject>Neoliberalismo, Desenvolvimento e Gest&#xE3;o Urbana</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Neoliberalismo e Biopoder: o indiv&#xED;duo como empresa de si mesmo</article-title>
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<trans-title>Neoliberalism and Biopower: individual as a self-entrepreneur</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Sampaio</surname><given-names>Simone Sobral</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff2">**</xref></contrib>
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<email>robbit86@gmail.com</email>
<institution content-type="original">Mestre em Servi&#xE7;o Social, Doutorando no Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o de Servi&#xE7;o Social na Universidade Federal de Santa Catarina, Florian&#xF3;polis &#x2013; SC/Brasil. CV: http://lattes.cnpq.br/4740853063552868. E-mail: robbit86@gmail.com</institution></aff>
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<email>simone.s@ufsc.br</email>
<institution content-type="original">Doutora em Servi&#xE7;o Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente do Departamento de Servi&#xE7;o Social da Universidade Federal de Santa Catarina (DSS/UFSC), Florian&#xF3;polis, SC/Brasil. CV: http://lattes.cnpq.br/1057517569672326. E-mail: simone.s@ufsc.br</institution></aff>
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<license-p>Este artigo est&#xE1; licenciado sob forma de uma licen&#xE7;a Creative Commons Atribui&#xE7;&#xE3;o 4.0 Internacional, que permite uso irrestrito, distribui&#xE7;&#xE3;o e reprodu&#xE7;&#xE3;o em qualquer meio, desde que a publica&#xE7;&#xE3;o original seja corretamente citada.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>RESUMO</title>
<p>O que esse artigo intenta demonstrar &#xE9; que a constitui&#xE7;&#xE3;o da ideologia neoliberal entrela&#xE7;a formas de viver e processos de governamentaliza&#xE7;&#xE3;o apoiadas sobre as pol&#xED;ticas sociais, com a assun&#xE7;&#xE3;o de orienta&#xE7;&#xF5;es para a gest&#xE3;o t&#xE9;cnica da pobreza inspiradas pela l&#xF3;gica do mercado. O resultado disso &#xE9; a produ&#xE7;&#xE3;o de um indiv&#xED;duo que se rende, cada vez mais atomizado, seja quando visto como portador de capital humano e dependente de sua resili&#xEA;ncia para supera&#xE7;&#xE3;o da pobreza, seja quando tomado como empreendedor de si mesmo para tornar-se rent&#xE1;vel e competitivo no mercado de trabalho. O que esse conjunto proporciona, ou explicita, &#xE9; a vincula&#xE7;&#xE3;o indispens&#xE1;vel entre neoliberalismo e biopoder na tessitura da sociedade capitalista contempor&#xE2;nea. As considera&#xE7;&#xF5;es finais identificam a fetichiza&#xE7;&#xE3;o da mercadoria for&#xE7;a de trabalho, os efeitos das pol&#xED;ticas sociais de orienta&#xE7;&#xE3;o neoliberal e a necess&#xE1;ria cria&#xE7;&#xE3;o de outras formas de coopera&#xE7;&#xE3;o produtiva de classe-para-si para a classe trabalhadora.</p></abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>ABSTRACT</title>
<p>This paper attempts to demonstrate that the constitution of neoliberal ideology weaves forms of living and governmentalization processes supported by social policies. These policies are assumed the guidelines to the technical management of poverty inspired by market logic. As a result, the individuals become more and more atomized, as a human capital detainers and dependents on your self-resilience to overcoming poverty, or as a self-entrepreneur become profitable and competitive in the labor market. This argument set provides, or makes explicit, the indispensable link between neoliberalism and biopower in the production of contemporary capitalist society. The final considerations identify the labor power&#x27;s fetishization, the effects of neoliberal social policies and the necessary creation of other forms of productive cooperation to the working class.</p></trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd>Neoliberalismo</kwd>
<kwd>Biopoder</kwd>
<kwd>Pol&#xED;ticas Sociais</kwd>
<kwd>Capital Humano</kwd>
<kwd><italic>Homo economicus</italic></kwd></kwd-group>
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<title>Keywords:</title>
<kwd>Neoliberalism</kwd>
<kwd>Biopower</kwd>
<kwd>Social Policies</kwd>
<kwd>Human Capital</kwd>
<kwd><italic>Homo economicus</italic></kwd></kwd-group>
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<p>A cr&#xED;tica ao Neoliberalismo, que ser&#xE1; apresentada nesse artigo, parte, fundamentalmente, da anal&#xED;tica foucaultiana presente no curso &#x201C;Nascimento da Biopol&#xED;tica&#x201D;. Deste curso ser&#xE1; examinada a propositura neoliberal sobre a pol&#xED;tica social e a ideia de capital humano. O biopoder &#xE9; um termo criado por Foucault para definir um tipo de poder sobre a vida, exerce-se sobre o corpo-esp&#xE9;cie e age atrav&#xE9;s de processos regulamentadores sobre a popula&#xE7;&#xE3;o, ou seja, &#x22;[&#x2026;] a prolifera&#xE7;&#xE3;o, os nascimentos e a mortalidade, o n&#xED;vel de sa&#xFA;de, a dura&#xE7;&#xE3;o da vida, a longevidade, todas as condi&#xE7;&#xF5;es que podem faz&#xEA;-los variar; tais processos s&#xE3;o assumidos mediante toda uma s&#xE9;rie de interven&#xE7;&#xF5;es e controles reguladores&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B11">FOUCAULT, 2001</xref>, p. 131), sendo essa uma biopol&#xED;tica da popula&#xE7;&#xE3;o. Constituem rela&#xE7;&#xF5;es de poder massificantes, regulamentadoras e encontram nos processos de governamentaliza&#xE7;&#xE3;o, a exemplo do neoliberalismo, mecanismos de prolifera&#xE7;&#xE3;o de um tipo de vida eficaz ao processos de estabiliza&#xE7;&#xE3;o do capitalismo.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B12">Foucault (2008</xref>, p. 199) analisa que o neoliberalismo interv&#xE9;m em todos os espa&#xE7;os da vida social, sendo o mercado o seu principal regulador. Ao contr&#xE1;rio de uma rela&#xE7;&#xE3;o que se quer separada do Estado, independente, o mercado se traduz como a &#xFA;nica modula&#xE7;&#xE3;o poss&#xED;vel na reg&#xEA;ncia tanto das pr&#xE1;ticas governamentais, quanto de qualquer outra esfera da vida. Dessa forma, para o neoliberalismo,</p> <disp-quote>
<p>[&#x2026;] o governo neoliberal n&#xE3;o tem de corrigir os efeitos destruidores do mercado sobre a sociedade. Ele n&#xE3;o tem de constituir, de certo modo, um contraponto ou um anteparo entre a sociedade e os processos econ&#xF4;micos. Ele tem de intervir sobre a pr&#xF3;pria sociedade em sua trama e em sua espessura. No fundo, ele tem de intervir nesta sociedade para que os mecanismos concorrenciais, a cada instante e em cada ponto da espessura social, possam ter o papel de reguladores &#x2013; e &#xE9; nisso que a sua interven&#xE7;&#xE3;o vai possibilitar o que &#xE9; seu objetivo: a constitui&#xE7;&#xE3;o de um regulador de mercado geral da sociedade. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">FOUCAULT, 2008</xref>, p. 199).</p></disp-quote>
<p>Esses termos evidenciam as estrat&#xE9;gias neoliberais em curso desde a d&#xE9;cada de 1970 &#x2013; assumindo como marco o governo de Augusto Pinochet no Chile &#x2013;, as quais realizam sua program&#xE1;tica assentadas na ideia de capital humano, na produ&#xE7;&#xE3;o de um consenso percept&#xED;vel no l&#xE9;xico das pol&#xED;ticas sociais, compartilhada em suas diferentes esferas operativas, at&#xE9; a sua recep&#xE7;&#xE3;o em distintos processos de trabalho, se pensarmos a constitui&#xE7;&#xE3;o do trabalhador como empreendedor de si mesmo.</p>
<p>A governamentalidade neoliberal utiliza-se de um recurso antigo de produ&#xE7;&#xE3;o do convencimento; sua l&#xF3;gica dedutiva parte da premissa de que a realidade apresenta problemas quanto ao bem-estar dos indiv&#xED;duos &#x2013; situa&#xE7;&#xE3;o ineg&#xE1;vel &#x2013; de modo a oferecer uma solu&#xE7;&#xE3;o que se quer, igualmente, verdadeira. Mas n&#xE3;o &#xE9; apenas na utiliza&#xE7;&#xE3;o do sofisma que se assenta a esperteza neoliberal. A sua efic&#xE1;cia e efici&#xEA;ncia repousam na coer&#xEA;ncia de sua proposi&#xE7;&#xE3;o, n&#xE3;o deixando escapar nenhum aspecto da vida social de modo a alcan&#xE7;ar sua efetividade e ades&#xE3;o, em que cada ponto possui apoio e resson&#xE2;ncia nos demais, proporcionando um efeito de conjunto no qual demonstra o mercado como elemento &#xFA;nico e salutar, que serve tanto para medir as boas pr&#xE1;ticas do governo como de cada um de n&#xF3;s.</p>
<p>Desse modo, este artigo apresenta primeiro como isso pode ser observado no que se refere &#xE0;s pol&#xED;ticas sociais. &#xC9; pela an&#xE1;lise de relat&#xF3;rios oficiais, tanto das diretrizes internacionais (Banco Mundial) como nacional (Governo Federal) &#x2013; portanto documentos governamentais &#x2013; apoiados sobre a ideia de risco e capital humano que evidenciam aquilo que podemos denominar como gest&#xE3;o t&#xE9;cnica da pobreza, apoiada sobre a ideia de capital humano e <italic>homo economicus</italic>. Ainda, a partir dessas duas no&#xE7;&#xF5;es, apresenta-se a experi&#xEA;ncia comunit&#xE1;ria da Central &#xDA;nica das Favelas (CUFA) e a concess&#xE3;o de cr&#xE9;dito por ag&#xEA;ncias financeiras a denominada &#x201C;classe C&#x201D;, o sujeito pobre como consumidor e artigo de consumo. O segundo item trata da transforma&#xE7;&#xE3;o do trabalhador em empresa de si mesmo, sob a &#xE9;gide da racionalidade neoliberal e aborda os recentes retrocessos no &#xE2;mbito dos direitos trabalhistas, por via das mudan&#xE7;as nas regras de acesso ao seguro-desemprego e as justificativas fornecidas por parte do governo. As conclus&#xF5;es apontam que o resultado desses processos &#xE9; a atomiza&#xE7;&#xE3;o cada vez maior do sujeito, em detrimento do compartilhamento de valores entre os trabalhadores na constitui&#xE7;&#xE3;o da classe-para-si.</p>
<sec>
<title>O l&#xE9;xico da pol&#xED;tica social: sua estrutura e funcionalidade</title>
<p>A pol&#xED;tica social ser&#xE1; observada aqui como elemento constante na rela&#xE7;&#xE3;o das crises c&#xED;clicas do capitalismo. Independente do formato que assuma, pode-se verificar uma regularidade em sua presen&#xE7;a nos momentos de crise. Mesmo n&#xE3;o sendo um ant&#xED;doto definitivo, &#xE9; como se a pol&#xED;tica social fosse um bom rem&#xE9;dio, &#xE0; medida que cumpre o papel de estabelecer normativas de comportamento e o que deve ser feito por cada um para sua suposta sa&#xED;da. Ela cumpre a fun&#xE7;&#xE3;o de ajustar os comportamentos, aperfei&#xE7;o&#xE1;-los aos ditames dos organismos internacionais &#x2013; como o Banco Mundial<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> (BM) e o Fundo Monet&#xE1;rio Internacional (FMI) &#x2013; e produz uma sociabilidade necess&#xE1;ria ao alcance dos objetivos propostos. A pol&#xED;tica social, nesse sentido, apresenta uma funcionalidade n&#xE3;o apenas objetiva na rentabilidade do capital, mas tamb&#xE9;m atualiza de modo eficiente a produ&#xE7;&#xE3;o ideol&#xF3;gica por outros meios.</p>
<p>O Biopoder enquanto rela&#xE7;&#xE3;o de poder e estrat&#xE9;gia de regulamenta&#xE7;&#xE3;o sobre a popula&#xE7;&#xE3;o, constitui na rela&#xE7;&#xE3;o com a pol&#xED;tica social uma regularidade. Regularidade em dois sentidos: a sua const&#xE2;ncia e o seu fator regulador. Este &#xFA;ltimo quer dizer uma esp&#xE9;cie de v&#xE1;lvula de escape do controle da crise; tipo de controle que se faz atrav&#xE9;s da assun&#xE7;&#xE3;o social, uma esp&#xE9;cie de pacto em que impera a culpa e a responsabilidade pela d&#xED;vida imposta &#xE0; classe trabalhadora empobrecida.</p>
<p>Dessa forma, o gerenciamento e gest&#xE3;o da pol&#xED;tica social &#x2013; pois &#xE9; assim que passa a ser tratada &#x2013; assume o mercado como modelo de veridi&#xE7;&#xE3;o interna. O pr&#xF3;prio <italic>modus operandi</italic> do mercado impera como l&#xF3;gica interna definidora da abrang&#xEA;ncia, dos gastos e da rentabilidade esperada na operacionaliza&#xE7;&#xE3;o das pol&#xED;ticas sociais. Quer dizer, &#xE9; na sua utilidade ao mercado que a pol&#xED;tica social encontra lugar e justificativa.</p>
<p>Com essa feitura administrativa, como uma loja de departamento no cora&#xE7;&#xE3;o do mercado, a pol&#xED;tica social se apresenta como ponte ao consumo, mas ainda assim com algumas ressalvas, visto que sempre &#xE9; a desigualdade que deve organizar o acesso.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B12">Foucault (2008)</xref>, em sua an&#xE1;lise sobre o neoliberalismo, em rela&#xE7;&#xE3;o ao aspecto da distribui&#xE7;&#xE3;o de renda, afirma o seguinte:</p> <disp-quote>
<p>E, em particular, a igualiza&#xE7;&#xE3;o, a relativa igualiza&#xE7;&#xE3;o, a reparti&#xE7;&#xE3;o do acesso de cada um aos bens de consumo n&#xE3;o pode em caso algum constituir um objetivo. N&#xE3;o pode constituir um objetivo num sistema em que, justamente, a regula&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica, isto &#xE9;, o mecanismo dos pre&#xE7;os, n&#xE3;o se obt&#xE9;m de modo algum por meio de fen&#xF4;menos de igualiza&#xE7;&#xE3;o, mas por um jogo de diferencia&#xE7;&#xF5;es que &#xE9; pr&#xF3;prio de todo mecanismo de concorr&#xEA;ncia e se estabelece atrav&#xE9;s das oscila&#xE7;&#xF5;es que s&#xF3; cumprem a sua fun&#xE7;&#xE3;o e seus efeitos reguladores contanto que, &#xE9; claro, se permita que ajam, e ajam por meio de diferen&#xE7;as. Em linhas gerais, &#xE9; preciso que haja pessoas que trabalhem e outras que n&#xE3;o trabalhem, ou que haja sal&#xE1;rios altos e sal&#xE1;rios baixos, &#xE9; preciso que os pre&#xE7;os tamb&#xE9;m subam e des&#xE7;am, para que as regula&#xE7;&#xF5;es se fa&#xE7;am. Por conseguinte, uma pol&#xED;tica social que tivesse por objeto principal a igualiza&#xE7;&#xE3;o, ainda que relativa, que adotasse como tema central a reparti&#xE7;&#xE3;o, ainda que relativa, essa pol&#xED;tica social seria necessariamente antiecon&#xF4;mica. Uma pol&#xED;tica social n&#xE3;o pode adotar a igualdade como objetivo. Ao contr&#xE1;rio, ela deve deixar a desigualdade agir [&#x2026;]. Logo, nada de igualiza&#xE7;&#xE3;o e, por conseguinte, de modo mais preciso, nada de transfer&#xEA;ncia de renda de uns para os outros. [Mais particularmente, uma transfer&#xEA;ncia de renda &#xE9; perigosa quando tirada da parte da renda que &#xE9; produtora de poupan&#xE7;a e de investimento]. Por conseguinte, tir&#xE1;-la seria subtrair do investimento uma parte de renda e dedic&#xE1;-la ao consumo. A &#xFA;nica coisa que se pode fazer &#xE9; tirar dos rendimentos mais altos uma parte que, de qualquer modo, seria consagrada ao consumo ou, digamos, ao sobreconsumo e transferir essa parte de sobreconsumo para os que, seja por raz&#xF5;es de desvantagem definitiva, seja por raz&#xF5;es de vicissitudes compartilhadas, se acham num estado de subconsumo. E nada mais. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">FOUCAULT, 2008</xref>, p. 195-196).</p></disp-quote>
<p>O jogo de diferencia&#xE7;&#xE3;o no interior da pol&#xED;tica social permite uma tipologia diferenciada pelo grau e n&#xED;vel de explora&#xE7;&#xE3;o a que se encontra submetido cada trabalhador. Sobre esse aspecto &#xE9; reveladora a an&#xE1;lise de <xref ref-type="bibr" rid="B18">Paiva (2014)</xref>, em que se pode perceber a funcionalidade no repasse do Programa Bolsa Fam&#xED;lia (PBF) enquanto mecanismo que permite a superexplora&#xE7;&#xE3;o, &#xE0; medida que &#xE9; o sal&#xE1;rio agora que se apresenta como um plus. Quer dizer, ap&#xF3;s ser reconhecido como benefici&#xE1;rio, a const&#xE2;ncia do recebimento do valor repassado supera a certeza do sal&#xE1;rio, fazendo deste um mecanismo aqu&#xE9;m para a reprodu&#xE7;&#xE3;o da for&#xE7;a de trabalho. Outro aspecto &#xE9; a produ&#xE7;&#xE3;o justificada da desigualiza&#xE7;&#xE3;o, em que a gest&#xE3;o da desigualdade &#xE9; assumida como tarefa ben&#xE9;fica da pol&#xED;tica social, admitindo e administrando a exist&#xEA;ncia dos que trabalham e dos que n&#xE3;o trabalham.</p> <disp-quote>
<p>Logo, como v&#xEA;em, car&#xE1;ter muito limitado das transfer&#xEA;ncias sociais. Em linhas gerais, trata-se simplesmente de assegurar, n&#xE3;o a manuten&#xE7;&#xE3;o de um poder aquisitivo, isso de forma alguma, mas de um m&#xED;nimo vital para os que, de modo definitivo ou passageiro, n&#xE3;o poderiam assegurar sua pr&#xF3;pria exist&#xEA;ncia. &#xC9; a transfer&#xEA;ncia marginal de um m&#xE1;ximo a um m&#xED;nimo. N&#xE3;o &#xE9; em absoluto o estabelecimento, a regula&#xE7;&#xE3;o tendente a uma m&#xE9;dia. Em segundo lugar, o instrumento dessa pol&#xED;tica social, se &#xE9; que podemos chamar isso de pol&#xED;tica social, n&#xE3;o ser&#xE1; a socializa&#xE7;&#xE3;o do consumo e da renda. S&#xF3; pode ser, ao contr&#xE1;rio, uma privatiza&#xE7;&#xE3;o, isto &#xE9;, n&#xE3;o se vai pedir &#xE0; sociedade inteira para garantir os indiv&#xED;duos contra os riscos, sejam os riscos individuais, do tipo doen&#xE7;a ou acidente, sejam os riscos coletivos, como os danos materiais, por exemplo; n&#xE3;o se vai pedir &#xE0; sociedade para garantir os indiv&#xED;duos contra esses riscos. Vai-se pedir &#xE0; sociedade, ou antes, &#xE0; economia, simplesmente para fazer que todo indiv&#xED;duo tenha rendimentos suficientemente elevados de modo que possa, seja diretamente e a t&#xED;tulo individual, seja pela intermedia&#xE7;&#xE3;o coletiva das sociedades de ajuda m&#xFA;tua, se garantir por si mesmo contra os riscos que existem, ou tamb&#xE9;m contra os riscos da exist&#xEA;ncia, ou tamb&#xE9;m contra essa fatalidade da exist&#xEA;ncia que s&#xE3;o a velhice e a morte, a partir do que constitui sua pr&#xF3;pria reserva privada. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">FOUCAULT, 2008</xref>, p. 196-197).</p></disp-quote>
<p>A cr&#xED;tica foucaultiana se d&#xE1; ao questionar se &#xE9; poss&#xED;vel chamar de pol&#xED;tica social o gerenciamento neoliberal, pois que este a implementa, desde seu planejamento &#xE0; sua materializa&#xE7;&#xE3;o, de forma privatizada, longe de ser assumida por todos. Ao contr&#xE1;rio, que seja o indiv&#xED;duo a assumir os riscos de sua pr&#xF3;pria exist&#xEA;ncia, tamb&#xE9;m, de forma privada. Essa rela&#xE7;&#xE3;o ascendente e circular do funcionamento privatizado e privatizante da pol&#xED;tica social neoliberal, al&#xE9;m de produtora de preconceito e estigmatiza&#xE7;&#xE3;o (a pobreza como algo repulsivo e vergonhoso), acirra formas de exist&#xEA;ncia privadas de valores de reconhecimento m&#xFA;tuo, sujeitando cada um ao o&#xE1;sis prometido do livre jogo do mercado.</p>
<p>A estrat&#xE9;gia das pol&#xED;ticas sociais neoliberais &#xE9; individualizante. Isso dito n&#xE3;o apenas para contrariar a perspectiva de universalidade da pol&#xED;tica social. A quest&#xE3;o aqui &#xE9; outra. Os dispositivos individualizantes, operados pelas pol&#xED;ticas sociais, capturam o indiv&#xED;duo como ente disperso e desvinculado, como se sua &#x201C;realidade&#x201D; fosse pessoal, exclusiva. Al&#xE9;m dessa artimanha, outro fator que contribui com esse processo individualizante &#xE9; a produ&#xE7;&#xE3;o mesma do indiv&#xED;duo como ente econ&#xF4;mico, capaz de dar respostas ou se ajustar &#xE0;s medidas propostas. Trata-se da produ&#xE7;&#xE3;o do indiv&#xED;duo endividado, nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Deleuze (1992)</xref>, ou a sua atualiza&#xE7;&#xE3;o na an&#xE1;lise de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Lazzarato (2011</xref>, p. 6) ao afirmar a constitui&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o apenas do trabalhadore pobre &#x201C;[&#x2026;] mas tamb&#xE9;m, sua culpabilidade, pois o trabalhador pobre &#xE9; tido, impl&#xED;cita ou explicitamente, como respons&#xE1;vel por sua condi&#xE7;&#xE3;o e estando o trabalhador pobre em d&#xED;vida em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; sociedade e ao Estado&#x201D;.</p>
<p>Essa conforma&#xE7;&#xE3;o da pol&#xED;tica social n&#xE3;o est&#xE1; desatrelada de outro componente fundamental ao neoliberalismo, que &#xE9; a ideia de capital humano. A t&#xF4;nica recai sobre a an&#xE1;lise da racionalidade interna dos comportamentos humanos, tomando o trabalho como conduta econ&#xF4;mica que se decomp&#xF5;e em capital, compet&#xEA;ncia e renda. Essa proposi&#xE7;&#xE3;o neoliberal rep&#xF5;e o homo economicus como empreendedor de si mesmo, da&#xED; a t&#xF4;nica presente nas &#x201C;instru&#xE7;&#xF5;es&#x201D; do BM em torno da forma&#xE7;&#xE3;o do &#x201C;capital humano&#x201D; como vetor determinante das pol&#xED;ticas sociais.</p>
<p>A solu&#xE7;&#xE3;o fornecida &#xE9; monoc&#xF3;rdica: ser empresa de si mesmo. No neoliberalismo, a &#x201C;empresa&#x201D; funciona como matriz das rela&#xE7;&#xF5;es sociais, exemplar na sua representa&#xE7;&#xE3;o como algo articulado e eficiente. A seguir apresentamos dois exemplos disso: o primeiro versa sobre a influ&#xEA;ncia dos relat&#xF3;rios do BM na configura&#xE7;&#xE3;o do PBF, e o segundo parte da experi&#xEA;ncia comunit&#xE1;ria da CUFA para problematizar a no&#xE7;&#xE3;o do sujeito como empresa de si mesmo.</p>
</sec>
<sec>
<title>An&#xE1;lise a partir dos Relat&#xF3;rios de Desenvolvimento Mundial e da CUFA</title>
<p>A Pol&#xED;tica Nacional de Assist&#xEA;ncia Social (PNAS) possui enquanto prerrogativa a centralidade da fam&#xED;lia e desenvolvimento das potencialidades individuais e coletivas, a esse fim age de forma previdente ao se propor identificar os riscos sociais e fomentar o desenvolvimento humano (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BRASIL, 2013</xref>). Esses elementos comparecem na Aten&#xE7;&#xE3;o Social B&#xE1;sica, Prote&#xE7;&#xE3;o Social Especial de M&#xE9;dia e Alta Complexidade e, no centro destes distintos n&#xED;veis de complexidade, o reconhecimento dos riscos como elementos constituintes da reprodu&#xE7;&#xE3;o dos indiv&#xED;duos e fam&#xED;lias na tessitura da sociedade capitalista. S&#xE3;o os riscos que envolvem, principalmente, a impossibilidade de arcar com os m&#xED;nimos sociais &#xE0; sua exist&#xEA;ncia que nortear&#xE3;o a formula&#xE7;&#xE3;o das pol&#xED;ticas sociais.</p>
<p>Cabe ressaltar que o risco n&#xE3;o se refere apenas ao indiv&#xED;duo e &#xE0; fam&#xED;lia, mas tamb&#xE9;m ao entendimento desses como detentores de capital humano. Em linhas gerais, um investimento de retorno para o governo seria aquele em que o benefici&#xE1;rio desenvolva seu pr&#xF3;prio capital humano e escape da &#xF3;rbita de certas pol&#xED;ticas sociais ou, caso contr&#xE1;rio, constituem um preju&#xED;zo &#xE0; medida que n&#xE3;o desenvolvem suas potencialidades e n&#xE3;o se encontram aptos a vender sua &#xFA;nica e mais valiosa mercadoria &#x2013; a for&#xE7;a de trabalho.</p>
<p>Desde os primeiros Relat&#xF3;rios de Desenvolvimento Mundial (RDM) do BM, &#xE9; identific&#xE1;vel um discurso que sugere a pobreza como um problema de administra&#xE7;&#xE3;o e n&#xE3;o como efeito direto do modo de produ&#xE7;&#xE3;o capitalista e do pauperismo da classe trabalhadora. A pobreza nesses relat&#xF3;rios &#xE9; algo que demanda o mero &#x201C;manejo&#x201D; e ratifica uma exist&#xEA;ncia do trabalhador por via de sujeitos atomizados, no limite inserido em um agrupamento humano como a fam&#xED;lia. Salta assim a progressiva ades&#xE3;o ao l&#xE9;xico liberal, que culmina na defesa de um tipo de homo economicus cuja pobreza &#xE9; percebida, basicamente, como uma inabilidade em conseguir atingir meios para sua subsist&#xEA;ncia. Ao mesmo tempo, os relat&#xF3;rios delimitam os limites do que as pol&#xED;ticas sociais podem, ou melhor, devem fazer pelos sujeitos que demandam sua prote&#xE7;&#xE3;o a partir de uma no&#xE7;&#xE3;o que o compreender&#xE1; enquanto detentor de um capital humano.</p>
<p>O que ag&#xEA;ncias, como o BM, ofertam s&#xE3;o empr&#xE9;stimos encharcados por condicionalidades, com ado&#xE7;&#xE3;o de orienta&#xE7;&#xF5;es e medidas econ&#xF4;micas seguidas de perto pela assist&#xEA;ncia t&#xE9;cnica ofertada pelo pr&#xF3;prio BM. Essa assist&#xEA;ncia t&#xE9;cnica se insere na m&#xE1;quina p&#xFA;blica dos pa&#xED;ses &#x201C;benefici&#xE1;rios&#x201D; dos empr&#xE9;stimos, atuando em projetos estrat&#xE9;gicos e vinculado o repasse dos recursos ao satisfat&#xF3;rio cumprimento das medidas (<xref ref-type="bibr" rid="B19">PEREIRA, 2010</xref>).</p>
<p>A proposta de programas de transfer&#xEA;ncia de renda pelas ag&#xEA;ncias internacionais como o BM tem nas condicionalidades a express&#xE3;o de um sistema hier&#xE1;rquico, isto &#xE9;, para acessar empr&#xE9;stimos &#x2013; dinheiro cedido pelo FMI &#x2013; &#xE9; necess&#xE1;ria a ado&#xE7;&#xE3;o de medidas econ&#xF4;micas parametrizadas pelo pr&#xF3;prio BM em parceria com os bancos nacionais. A partir disso, se presume que o sistema de condicionalidades presente na PNAS obedece a uma hierarquia, sendo que a garantia dada pela obten&#xE7;&#xE3;o do empr&#xE9;stimo &#xE9; aceitar as suas regras e capitalizar a pobreza, e o pagamento pela d&#xED;vida &#xE9; cobrado ao pobre desde sua pr&#xF3;pria exist&#xEA;ncia.</p>
<p>Como exemplo dessa presen&#xE7;a, pode-se citar o acordo firmado em 4 de novembro de 2011 entre o BM e o Brasil para acesso ao Empr&#xE9;stimo 7841 &#x2013; BR (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BRASIL, 2014</xref>). O s&#xED;tio eletr&#xF4;nico do MDS descreve o acordo como um meio de fortalecer o PBF, reduzir a pobreza e &#x201C;promover o desenvolvimento do capital humano pela melhoria da situa&#xE7;&#xE3;o de escolaridade e de sa&#xFA;de das crian&#xE7;as e pela redu&#xE7;&#xE3;o da incid&#xEA;ncia de desnutri&#xE7;&#xE3;o entre a popula&#xE7;&#xE3;o pobre&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BRASIL, 2015</xref>). No documento est&#xE1; prescrito a quem deve se destinar os recursos, os requisitos e condicionalidades a serem cumpridos pelos benefici&#xE1;rios, de que maneira o recurso ser&#xE1; aplicado e as informa&#xE7;&#xF5;es que no processo dever&#xE3;o ser organizadas e divulgadas &#xE0;s ag&#xEA;ncias internacionais. Estas informa&#xE7;&#xF5;es passam pelo refor&#xE7;o ao aprimoramento do Cadastro &#xDA;nico da Assist&#xEA;ncia Social at&#xE9; elementos estritamente atrelados &#xE0; pr&#xE1;tica dos agentes profissionais<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>, que intermediam a rela&#xE7;&#xE3;o entre os dois benefici&#xE1;rios principais do empr&#xE9;stimo: o mutu&#xE1;rio inicial, no caso o Brasil, e o mutu&#xE1;rio final, no caso o pobre que recebe o recurso. No contrato desse acordo, na parte C &#x2013; que trata do &#x201C;Fortalecimento Institucional para consolida&#xE7;&#xE3;o do Programa Bolsa Fam&#xED;lia&#x201D; &#x2013;, em seu item C, al&#xED;nea VII, torna livre ao BM: &#x201C;A avalia&#xE7;&#xE3;o e, caso seja apropriado, o ajuste da gest&#xE3;o dos benef&#xED;cios do Programa Bolsa Fam&#xED;lia (bloqueio, desbloqueio, cancelamento, reintegra&#xE7;&#xE3;o e suspens&#xE3;o de benef&#xED;cios)&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BRASIL, 2014</xref>, p. 14).</p>
<p>No que tange aos relat&#xF3;rios do BM, esses tratam como se fosse mim&#xE9;tica a rela&#xE7;&#xE3;o entre desenvolvimento econ&#xF4;mico e desenvolvimento humano, sendo a vida a principal apela&#xE7;&#xE3;o, ou melhor, o principal recurso nesse processo. Nestes termos, ressalta-se a defesa pelo desenvolvimento de potencialidades dos sujeitos como meio de assegurar o desenvolvimento e estabilidade dos pobres.</p> <disp-quote>
<p>Conhecimento, habilidades e atitudes n&#xE3;o s&#xE3;o os &#xFA;nicos aspectos dos recursos humanos que afetam a performance econ&#xF4;mica. Uma for&#xE7;a de trabalho bem alimentada e saud&#xE1;vel &#xE9; mais f&#xED;sica e mentalmente energ&#xE9;tica do que aquela que &#xE9; doente e faminta, e, portanto, realiza mais trabalho e &#xE9; mais inovadora [&#x2026;] melhores nutri&#xE7;&#xE3;o e sa&#xFA;de permitem que os pobres trabalhem mais em cada ano o que, entre outros aspectos, aumenta a sua empregabilidade na ind&#xFA;stria moderna e incrementa sua efetividade no trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B21">WORLD BANK, 1980</xref>, p. 42)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>.</p></disp-quote>
<p>O sitio eletr&#xF4;nico Portal Brasil apresenta mat&#xE9;rias, pesquisas e not&#xED;cias que informam o &#xEA;xito do PBF medido, por exemplo, pela ocorr&#xEA;ncia do desligamento das fam&#xED;lias devido &#xE0; &#x201C;conquista de maior autonomia financeira&#x201D;. Este discurso surge quando se identifica uma suposta contribui&#xE7;&#xE3;o por parte do programa na convers&#xE3;o do que antes era considerado vulnerabilidade socioecon&#xF4;mica em empreendedorismo &#x2013; principalmente por via do Microempreendedor Individual (MEI) &#x2013; e ainda que 75,4% dos benefici&#xE1;rios trabalham e que 1,7 milh&#xF5;es de titulares j&#xE1; deixaram de receber o benef&#xED;cio. Esse informe busca romper com apreens&#xF5;es acr&#xED;ticas sobre o programa como a no&#xE7;&#xE3;o de que o PBF incentivaria as fam&#xED;lias pobres a terem mais filhos, ratifica seus efeitos positivos no &#xE2;mbito da intersetorialidade entre as distintas pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas e, por fim, o avalia na forma econ&#xF4;mico-mercadol&#xF3;gica, com &#xEA;nfase no seu &#x201C;custo-benef&#xED;cio&#x201D;, &#xE0; medida que a cada R$1,00 investido pelo programa tem um retorno para a economia brasileira de R$1,78 (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PORTAL BRASIL, 2014</xref>). A partir dessas indica&#xE7;&#xF5;es, pode-se afirmar que a forma como se tem validado a efetividade do PBF comparece, em muito, pelo desligamento das fam&#xED;lias e obten&#xE7;&#xE3;o de uma suposta autonomia financeira atrav&#xE9;s do programa, sem comparecer nessas an&#xE1;lises meios que assegurem o reconhecimento de direitos, bem como o aumento nos valores transferidos. Como o pr&#xF3;prio s&#xED;tio &#x201C;esclarece&#x201D;:</p> <disp-quote>
<p>Pesquisas sobre o impacto do Bolsa Fam&#xED;lia n&#xE3;o mostram tend&#xEA;ncia dos benefici&#xE1;rios em deixar o mercado ou trabalhar menos. Pelo contr&#xE1;rio, em muitos casos, o programa estimula o empreendedorismo como forma de completar a renda. Cerca de 350 mil pessoas que receberam o aux&#xED;lio hoje s&#xE3;o microempreendedores individuais (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PORTAL BRASIL, 2014</xref>).</p></disp-quote>
<p>Essa acep&#xE7;&#xE3;o coaduna com a apresentada pelo relat&#xF3;rio do BM publicado em 1990. Em um momento onde o ocidente j&#xE1; sentia de maneira radical os efeitos delet&#xE9;rios do neoliberalismo, o documento aponta como os pa&#xED;ses subdesenvolvidos e os desenvolvidos poderiam &#x201C;superar a pobreza&#x201D;, apoiados, principalmente, sobre aquela que &#xE9; a mercadoria mais importante que os pobres det&#xEA;m: o trabalho.</p> <disp-quote>
<p>O primeiro elemento da estrat&#xE9;gia &#xE9; a busca por um padr&#xE3;o de crescimento que assegure o uso produtivo do ativo mais abundante dos pobres: o trabalho. O segundo elemento &#xE9; a dissemina&#xE7;&#xE3;o da provis&#xE3;o de servi&#xE7;os b&#xE1;sicos aos pobres, especialmente educa&#xE7;&#xE3;o prim&#xE1;ria, aten&#xE7;&#xE3;o b&#xE1;sica &#xE0; sa&#xFA;de e planejamento familiar. O primeiro elemento prev&#xEA; oportunidade, o segundo incrementa a capacidade dos pobres de se beneficiarem destas oportunidades. A estrat&#xE9;gia deve ser complementada por transfer&#xEA;ncias (de renda) focalizadas, para auxiliar aqueles que n&#xE3;o podem se beneficiar destas pol&#xED;ticas, e por redes de seguran&#xE7;a, para proteger aqueles expostos a choques (<xref ref-type="bibr" rid="B22">WORLD BANK, 1990</xref>, p. 3).</p></disp-quote>
<p>A sofistica&#xE7;&#xE3;o e sutileza das rela&#xE7;&#xF5;es de poder, em tempos de capitalismo <italic>tout court</italic>, se ratifica assim por via do l&#xE9;xico das pol&#xED;ticas sociais, em particular o PBF. Um exemplo &#xE9; a palavra <italic>resili&#xEA;ncia</italic>, termo oriundo da f&#xED;sica, que se refere &#xE0; propriedade de que s&#xE3;o dotados alguns <italic>submateriais</italic>, de acumular energia, quando exigidos ou submetidos a estresse <italic>sem ocorrer ruptura</italic>. Este &#x201C;conceito&#x201D; &#xE9; atualmente utilizado nos estudos e orienta&#xE7;&#xF5;es do MDS para referir tanto &#xE0; governan&#xE7;a e &#xE0; economia &#x2013; no &#xE2;mbito dos programas e servi&#xE7;os &#x2013; quanto aos sujeitos atendidos, em um misto de &#x201C;condi&#xE7;&#xF5;es de possibilidade&#x201D; e &#x201C;autonomia&#x201D;, em que as fam&#xED;lias benefici&#xE1;rias deteriam ao mesmo tempo a vulnerabilidade socioecon&#xF4;mica, mas tamb&#xE9;m os meios de supera&#xE7;&#xE3;o dessa mesma condi&#xE7;&#xE3;o<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>.</p>
<p>A pobreza nos relat&#xF3;rios do BM &#xE9; ainda um tipo de fen&#xF4;meno a ser investigado e pesquisado. No relat&#xF3;rio de 1980, comparece a proposta de estudos de base que asseverem quantos s&#xE3;o, quem s&#xE3;o, onde moram e porque s&#xE3;o pobres? Pergunta, ao fim, coerente com a racionalidade dessa ag&#xEA;ncia, j&#xE1; que o mesmo relat&#xF3;rio afirma que a pobreza &#xE9;, sucintamente, a inabilidade de obter um padr&#xE3;o de vida m&#xED;nimo. Para o BM, h&#xE1; dois elementos que garantiriam a supera&#xE7;&#xE3;o da pobreza e o alcance de melhores &#xED;ndices de Desenvolvimento Humano: o trabalho apoiado sobre estrat&#xE9;gias de investimento no capital humano e a focaliza&#xE7;&#xE3;o dos programas sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B22">WORLD BANK, 1990</xref>).</p>
<p>Ao BM, o que parece estar em jogo &#xE9; a escolha entre os custos econ&#xF4;micos de uma reforma e os riscos pol&#xED;ticos de uma rebeli&#xE3;o: &#xE9; por esse motivo que se define pol&#xED;ticas de combate &#xE0; pobreza nesses relat&#xF3;rios como quest&#xE3;o de prud&#xEA;ncia. &#xC9; como se o capitalismo tentasse gerenciar seus pr&#xF3;prios &#x201C;riscos&#x201D;. Pode-se perceber isso na instru&#xE7;&#xE3;o do pr&#xF3;prio BM:</p> <disp-quote>
<p>Apesar das dificuldades, tem sido frequentemente mais f&#xE1;cil obter apoio pol&#xED;tico para programas de sa&#xFA;de e educa&#xE7;&#xE3;o que beneficiem os pobres, e que resultem no aumento na frequ&#xEA;ncia escolar e expectativa de vida, do que, por exemplo, pol&#xED;ticas de reforma agr&#xE1;ria ou aumento dos impostos, mais conhecimento, sa&#xFA;de e vitalidade para os pobres n&#xE3;o s&#xE3;o obtidas &#xE0;s custas de outros (<xref ref-type="bibr" rid="B21">WORLD BANK, 1980</xref>, p. 71).</p></disp-quote>
<p>A vis&#xE3;o igualmente atomizada, tanto dos indiv&#xED;duos sociais como o pr&#xF3;prio entendimento da pol&#xED;tica social, se expl&#xED;cita nas orienta&#xE7;&#xF5;es acima. Nelas, tudo o que for apresentado como &#x201C;&#xE0;s custas dos outros&#x201D; &#xE9; repulsivo, n&#xE3;o cogitando qualquer elemento de compromissos e valores sociais. A regulamenta&#xE7;&#xE3;o neoliberal do biopoder n&#xE3;o apenas reduz a liberdade &#xE0; &#x201C;estar livre da depend&#xEA;ncia de outrem&#x201D;, quanto transforma-a em sujei&#xE7;&#xE3;o irrestrita ao funcionamento &#x201C;livre&#x201D; do mercado.</p>
<p>Trata-se, ainda, de formar o capital humano atrav&#xE9;s da escolariza&#xE7;&#xE3;o, da forma&#xE7;&#xE3;o profissional, mas tamb&#xE9;m atrav&#xE9;s de est&#xED;mulos culturais. Esse processo pode ser percebido em estrat&#xE9;gias governamentais por via das pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas, mas tamb&#xE9;m &#xE9; vis&#xED;vel na produ&#xE7;&#xE3;o de experi&#xEA;ncias comunit&#xE1;rias como a desenvolvida pela CUFA.</p>
<p>&#xC9; a partir da abstra&#xE7;&#xE3;o classificat&#xF3;ria de uma popula&#xE7;&#xE3;o, a chamada &#x201C;classe c&#x201D;, que se destinam estudos sobre o seu potencial econ&#xF4;mico e um forte apelo ao empreendedorismo (<xref ref-type="bibr" rid="B15">MEIRELLES; ATHAYDE, 2014</xref>). A favela &#xE9; apresentada como ber&#xE7;o de empreendedores e laborat&#xF3;rio de incuba&#xE7;&#xE3;o de novos neg&#xF3;cios, e o seu morador como consumidor e artigo de consumo. &#xC9; na via desse tipo de protagonismo que o discurso da oportunidade &#xE9; difundido, propagando o consumo como investimento em si mesmo.</p>
<p>Nesse gigante teatro dos neg&#xF3;cios, a oferta de cr&#xE9;dito &#xE9; pedra de toque num mundo onde o sonho &#xE9; fazer parte do censo empresarial. Para incrementar a oferta de cr&#xE9;dito &#xE0; popula&#xE7;&#xE3;o pobre, t&#xEA;m-se diversos exemplos. A ONG VivaCred, criada em 1996 pela ONG Viva Rio, instalou sua primeira ag&#xEA;ncia na Rocinha, apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a consultoria alem&#xE3; da Internationale Project Consult (IPC). Outros exemplos s&#xE3;o: o Banco Popular, uma subsidi&#xE1;ria do Banco do Brasil; o projeto Crescer &#x2013; Programa Nacional de Microcr&#xE9;dito do Governo Federal oferece o Crediamigo, reconhecido como o maior programa de microcr&#xE9;dito da Am&#xE9;rica do Sul, dentre outras a&#xE7;&#xF5;es do Plano Brasil sem Mis&#xE9;ria que tem entre os seus tr&#xEA;s eixos &#x201C;a inclus&#xE3;o produtiva, para aumentar as capacidades e as oportunidades de trabalho e gera&#xE7;&#xE3;o de renda entre as fam&#xED;lias mais pobres do campo e da cidade.&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BRASIL, 2015b</xref>).</p>
</sec>
<sec>
<title>Trabalho quando n&#xE3;o &#xE9; mais emprego, mas sequestro da vida inteira do trabalhador</title>
<p>O Seguro Desemprego recentemente foi alvo das pol&#xED;ticas de ajuste econ&#xF4;mico<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, como se de alguma forma estivesse em desajuste com a pr&#xF3;pria l&#xF3;gica de domina&#xE7;&#xE3;o do capitalismo. Dentre as justificativas apresentadas por &#xF3;rg&#xE3;os oficias comparece a premente necessidade de alterar um perfil de trabalhador que exerce junto a natureza formal do trabalho, e entre empregos, o que se denomina pelo relat&#xF3;rio &#x201C;An&#xE1;lise da MP n&#xBA; 665&#x201D; &#x2013; formulado por Nery (2015) &#x2013; como <italic>rotatividade esp&#xFA;ria</italic><italic>6</italic><italic>.</italic> Essa op&#xE7;&#xE3;o por modular um perfil de trabalhador sugere, em linhas gerais, que o problema est&#xE1; devidamente localizado. O que se intenta atacar &#xE9; uma tend&#xEA;ncia de parte dos trabalhadores que buscam a demiss&#xE3;o de seus empregos formais como maneira de incrementar sua renda sem a submiss&#xE3;o ao emprego. Essa incrementa&#xE7;&#xE3;o da renda seria poss&#xED;vel pelo acesso a benef&#xED;cios atrelados ao INSS, concatenados a atividades de trabalho informal no per&#xED;odo de &#x201C;desemprego formal&#x201D;.</p>
<p>Mas, afinal, qual o principal problema pela rotatividade de trabalhadores no mercado de trabalho segundo o supracitado relat&#xF3;rio?</p> <disp-quote>
<p>O principal ponto destacado por economistas &#xE9; o baixo investimento feito pelas empresas em capital humano (qualifica&#xE7;&#xE3;o da m&#xE3;o de obra), j&#xE1; que tal investimento n&#xE3;o pode ser recuperado quando os trabalhadores est&#xE3;o constantemente mudando de postos. Como consequ&#xEA;ncia, temos uma for&#xE7;a de trabalho pouco qualificada, remetendo ao problema da baixa produtividade no Brasil (NERY, 2015, p. 10).</p></disp-quote>
<p>Ou seja, at&#xE9; mesmo quando escapa aos crit&#xE9;rios de acesso a esse direito trabalhista, o problema &#xE9; delegado &#xE0; classe trabalhadora, ou melhor, ao indiv&#xED;duo, pois &#xE9; na sua forma atomizada que ele &#xE9; capturado pela l&#xF3;gica neoliberal e, por conseguinte, no retrocesso desses direitos. Essa avalia&#xE7;&#xE3;o moralizadora culpabiliza os trabalhadores por supostos subterf&#xFA;gios de recusa ao emprego. Ignora o seguro-desemprego como direito historicamente conquistado, o d&#xE9;ficit econ&#xF4;mico do sal&#xE1;rio m&#xED;nimo (<xref ref-type="bibr" rid="B10">DIEESE, 2015</xref>), condi&#xE7;&#xF5;es de trabalho aviltantes, dentre outros fatores que condicionam a reprodu&#xE7;&#xE3;o da exist&#xEA;ncia do trabalhador a essa rotatividade entre empregos formais e informais.</p>
<p>A &#xF3;rbita do trabalho &#xE9; onde gravita a pol&#xED;tica social neoliberal. O trabalho, tomado como o principal ativo dos pobres, realiza uma incr&#xED;vel metamorfose no interior do capitalismo, pois que, se antes tratava-se do capital apresentar-se como &#x201C;trabalho congelado, como dedica&#xE7;&#xE3;o e empenho que se perpetuaram&#x201D;, no neoliberalismo trata-se do trabalho apresentar-se como capital.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B14">Locke (1991)</xref>, em &#x201C;Dois Tratados sobre o Governo&#x201D; (Segundo Tratado, cap&#xED;tulo V), afirma que a legitimidade do capital &#xE9; extra&#xED;da do trabalho, ou seja, o trabalho congelado, o esfor&#xE7;o e o empenho necess&#xE1;rios para a sua realiza&#xE7;&#xE3;o, dignificam o capital conferindo a este um destino moralizador. Se para o fil&#xF3;sofo ingl&#xEA;s era o trabalho que conferia diferen&#xE7;a de valor em tudo que existe, atualmente, pode-se dizer que o movimento &#xE9; distinto. O capital comparece como o ant&#xED;doto moralizador da pobreza, forma induvid&#xE1;vel de retir&#xE1;-la da zona da vergonha. Ou seja, a novidade que os neoliberais operam &#xE9; a convers&#xE3;o da pobreza em capital humano. Nesta l&#xF3;gica, o trabalhador precisa se autoempresariar, tornando-se a si mesmo um empreendimento de resultados, aumentando sua rentabilidade. A espetaculariza&#xE7;&#xE3;o de si como capital humano &#xE9; a oferta neoliberal.</p>
<p>Para os neoliberais, a economia pol&#xED;tica cl&#xE1;ssica ofereceu uma an&#xE1;lise da produ&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica a partir da terra, do capital e do trabalho, reduzindo este &#xFA;ltimo ao fator tempo, isto &#xE9;, como vari&#xE1;vel quantitativa de tempo. Nesses termos, na aus&#xEA;ncia de emprego, o trabalho ocuparia um lugar passivo, restando dependente da taxa de crescimento econ&#xF4;mico, quer dizer, sem estes elementos (emprego, crescimento e taxa de investimento) o trabalho seria apenas um elemento abstrato, desprovido de uma pormenoriza&#xE7;&#xE3;o de suas qualidades. Dessa forma, trata-se de conhecer os arranjos promovidos pelo pr&#xF3;prio trabalhador, como ele utiliza os recursos de que disp&#xF5;e para trabalhar.</p>
<p>O malabarismo do racioc&#xED;nio neoliberal realiza uma oferta do trabalho como capital e renda, em outros termos:</p> <disp-quote>
<p>N&#xE3;o &#xE9; uma concep&#xE7;&#xE3;o da for&#xE7;a de trabalho, &#xE9; uma concep&#xE7;&#xE3;o de capital-compet&#xEA;ncia, que recebe, em fun&#xE7;&#xE3;o de vari&#xE1;veis diversas, certa renda que &#xE9; um sal&#xE1;rio, uma renda-sal&#xE1;rio, de sorte que &#xE9; o pr&#xF3;prio trabalhador que aparece como uma esp&#xE9;cie de empresa para si mesmo.[&#x2026;] Uma economia feita de unidades-empresas, uma sociedade feita de unidades-empresa&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B12">FOUCAULT, 2008</xref>, p. 310).</p></disp-quote>
<p>A finalidade neoliberal &#xE9; tornar o trabalhador um sujeito econ&#xF4;mico ativo, melhor dizendo, um empres&#xE1;rio da unidade-empresa personificada em si e por si, sendo, ao mesmo tempo, capital, produtor e fonte de renda de si mesmo.</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>Considera&#xE7;&#xF5;es finais</title>
<p>A proposta da regulamenta&#xE7;&#xE3;o do biopoder, regida pelo neoliberalismo, leva o &#x201C;poder de fazer viver e deixar morrer&#x201D; ao limite. Para muitos e qualquer um, sua forma exasperada &#xE9; &#x201C;fazer suportar&#x201D;. No capitalismo, a mercadoria &#xE9; resultado de processo de trabalho alienado. O que se assiste, atualmente, &#xE9; um alto grau fetichizante e alienante de uma mercadoria em particular: a for&#xE7;a de trabalho. A for&#xE7;a de trabalho, ao contr&#xE1;rio das outras mercadorias, n&#xE3;o se desprega daquele que a vende, o trabalhador. Disso j&#xE1; sabemos. Ainda, &#xE9; marca desse processo que a for&#xE7;a de trabalho &#xE9; a &#xFA;nica mercadoria que cria e produz novas mercadorias, processo que ocorre de maneira negada. Tudo isso &#xE9; uma constante no capitalismo, travestido de que roupagem for. O que acirra e agrava esse processo no neoliberalismo &#xE9; que o indiv&#xED;duo, ele pr&#xF3;prio, &#xE9; mercadoria de si mesmo, apenas de assemelhar-se ao capital; sendo este mais um e, talvez, o mais mortal golpe desferido &#xE0; classe trabalhadora. A coincid&#xEA;ncia moral do trabalhador como capital n&#xE3;o &#xE9; apenas uma produ&#xE7;&#xE3;o estritamente econ&#xF4;mica, mas aqui, tamb&#xE9;m, &#xE9; pol&#xED;tica, em que o principal ganho para a ordem &#xE9; a anu&#xEA;ncia e o credo, nesse modelo, como alternativa vi&#xE1;vel e &#xFA;nica.</p>
<p>Em torno do n&#xED;vel e da forma de investimento em capital humano &#xE9; que se ajustam as pol&#xED;ticas econ&#xF4;micas, as pol&#xED;ticas sociais e educacionais e, tamb&#xE9;m, as pol&#xED;ticas culturais. Nesses termos, &#xE0; quest&#xE3;o social, manifesta nos pa&#xED;ses perif&#xE9;ricos, &#xE9; oferecido o diagn&#xF3;stico de insufici&#xEA;ncia de investimento em capital humano, tendo isso como o ant&#xED;doto.</p>
<p>Desenvolvimento e pobreza, esse pode ser o lema ou o mantra do capitalismo. Capital humano como ativo ao crescimento econ&#xF4;mico e via de supera&#xE7;&#xE3;o individual da pobreza, por via da fantasmagoria da amplia&#xE7;&#xE3;o do capital social dos pobres. Este se tornou o principal trunfo das pol&#xED;ticas sociais neoliberais, normatizando formas privatizadas de viver. O consenso sobre o imperativo desse estilo de vida &#xE9; o principal ganho neoliberal, produzindo docilidade e comprometimento, desfazendo qualquer outra alternativa.</p>
<p>No neoliberalismo, se algu&#xE9;m se apresenta para comprar seu tempo de trabalho, o trabalhador oferece mais, oferece a si mesmo &#x2013; promessa maior de investimento e rentabilidade, mesmo porque j&#xE1; n&#xE3;o h&#xE1; mais nada no reconhecimento de si como classe trabalhadora, apenas como capital humano. Diante desse quadro, na rela&#xE7;&#xE3;o tempo de vida e tempo de trabalho, a lucratividade passa pela extra&#xE7;&#xE3;o total do valor desde a subjetividade da classe que produz. E essa classe parece se ver diante de uma encruzilhada: sucumbe &#xE0; ilus&#xE3;o empreendedora ou reinventa formas de coopera&#xE7;&#xE3;o produtivas &#xE0; sua constitui&#xE7;&#xE3;o de classe-para-si.</p>
</sec></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>&#xC9; na d&#xE9;cada de 1940, no p&#xF3;s-Segunda Guerra Mundial, que ocorre o in&#xED;cio da forma&#xE7;&#xE3;o de uma entidade econ&#xF4;mica internacional fomentada pelos pa&#xED;ses aliados, com &#xEA;nfase entre Estados Unidos e Reino Unido, que objetivava um reordenamento do capitalismo e planejamento de seu desenvolvimento, a n&#xED;vel global, para as vindouras d&#xE9;cadas. Desses esfor&#xE7;os, emergem algumas ag&#xEA;ncias que influenciaram pa&#xED;ses perif&#xE9;ricos em seu &#x201C;desenvolvimento&#x201D;, a partir da segunda metade do s&#xE9;culo XX, que atuaram durante a Guerra Fria e ainda na reestrutura&#xE7;&#xE3;o neoliberal a partir da d&#xE9;cada de 1970. S&#xE3;o algumas dessas ag&#xEA;ncias: o Banco Internacional para Reestrutura&#xE7;&#xE3;o e Desenvolvimento (BIRD), a Associa&#xE7;&#xE3;o Internacional de Desenvolvimento (AID) e o Fundo Monet&#xE1;rio Internacional (FMI), ambos como parte do Banco Mundial. Foram os arranjos ordenados a partir dessas ag&#xEA;ncias que, de certa forma, institucionalizaram, por via econ&#xF4;mica e pol&#xED;tica, a desigualdade entre os pa&#xED;ses desenvolvidos, subdesenvolvidos e em desenvolvimento no sistema internacional.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>Pode-se dizer que, no caso desse empr&#xE9;stimo, a influ&#xEA;ncia sobre a pr&#xE1;tica dos agentes profissionais passa pela padroniza&#xE7;&#xE3;o dos servi&#xE7;os e as diversas estrat&#xE9;gias de normaliza&#xE7;&#xE3;o das a&#xE7;&#xF5;es profissionais que ocorrem no &#xE2;mbito do SUAS, por via dos cadernos de orienta&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica, por exemplo &#x2013; algo que contribui para o esvaziamento da dimens&#xE3;o pol&#xED;tica do trabalho na PNAS, travestido agora em gerenciamento. Esta l&#xF3;gica de gest&#xE3;o t&#xE9;cnica, concatenada &#xE0;s condicionalidades emanadas das ag&#xEA;ncias internacionais, tem ofertado, mesmo que o profissional n&#xE3;o o saiba, uma esp&#xE9;cie de modulador de &#x201C;Boas Pr&#xE1;ticas&#x201D; no &#xE2;mbito das pol&#xED;ticas sociais ao seguirem &#xE0; risca os ditames do BM.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p>As tradu&#xE7;&#xF5;es dos trechos oriundos dos relat&#xF3;rios do BM foram extra&#xED;das de <xref ref-type="bibr" rid="B8">Chittoni (2014)</xref>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>&#x201C;Os programas de transfer&#xEA;ncia condicionada de renda, como o Bolsa Fam&#xED;lia, s&#xE3;o hoje um dos melhores exemplos de como pol&#xED;ticas de curto e de longo prazo podem ser promovidas simultaneamente, contribuindo para o aumento da resili&#xEA;ncia das pessoas e da economia&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BRASIL, 2014</xref>, p. 13).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>Com a aprova&#xE7;&#xE3;o da Lei n&#xBA; 13.134 se alteraram, substancialmente, as regras para acesso ao seguro-desemprego. Atualmente, para o primeiro acesso ao benef&#xED;cio, o trabalhador deve comprovar o recebimento de sal&#xE1;rio por 12 meses consecutivos, ou intercalados, em um per&#xED;odo total de 18 meses anteriores &#xE0; data de dispensa. Para acesso pela segunda vez, a comprova&#xE7;&#xE3;o deve ser de 9 meses de recebimento de sal&#xE1;rio nos &#xFA;ltimos 12 meses. A partir do terceiro acesso ao benef&#xED;cio, a comprova&#xE7;&#xE3;o passa ser de 6 meses de recebimento consecutivos anteriores &#xE0; data de dispensa. A dura&#xE7;&#xE3;o para o recebimento do benef&#xED;cio &#xE9; de at&#xE9; cinco meses, sendo que a primeira solicita&#xE7;&#xE3;o dever&#xE1; apresentar 18 meses de trabalho, nos &#xFA;ltimos dois anos, antes era no m&#xED;nimo 06 meses. O valor do seguro-desemprego &#xE9; na sua maioria de um sal&#xE1;rio m&#xED;nimo (R$880,00), at&#xE9; o limite de R$1.542,24 (<xref ref-type="bibr" rid="B7">BRASIL, 2016</xref>).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Significado da palavra &#x201C;esp&#xFA;rio&#x201D;: &#x201C;1 Adulterino, bastardo. 2 Incestuoso. 3 N&#xE3;o genu&#xED;no; simulado, falso. 4 Degenerado. 5 Ap&#xF3;crifo. 6 Estranho &#xE0; boa linguagem&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B16">MICHAELIS, 1998</xref>, p. 881).</p></fn></fn-group>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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