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<journal-title>Textos &#x26; Contextos (Porto Alegre)</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Textos Contextos (Porto Alegre)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul, Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;ao em Servi&#xE7;o Social</publisher-name></publisher>
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<subject>Neoliberalismo, Desenvolvimento e Gest&#xE3;o Urbana</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>A Quest&#xE3;o Regional no Neoliberalismo</article-title>
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<trans-title>The Regional Question in Neoliberalism</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Barbosa</surname><given-names>Rosangela Nair de Carvalho</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref></contrib>
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<institution content-type="normalized">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
<institution content-type="orgdiv1">Faculdade de Servi&#xE7;o Social</institution>
<institution content-type="orgdiv2">Departamento de Pol&#xED;tica Social</institution>
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<email>rosangelancb@pq.cnpq.br</email>
<institution content-type="original">Doutora em Servi&#xE7;o Social pela Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica de S&#xE3;o Paulo (PUC-SP), P&#xF3;s-doutora em Sociologia do Trabalho na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora do Departamento de Pol&#xED;tica Social e do Programa de Estudos de Trabalho e Pol&#xED;tica da Faculdade de Servi&#xE7;o Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Bolsista Produtividade CNPq. Bolsista Proci&#xEA;ncia Faperj/UERJ. Rio de Janeiro-RJ/Brasil. CV: http://lattes.cnpq.br/7909136036269249. E-mail: rosangelancb@pq.cnpq.br</institution></aff>
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<license-p>Este artigo est&#xE1; licenciado sob forma de uma licen&#xE7;a Creative Commons Atribui&#xE7;&#xE3;o 4.0 Internacional, que permite uso irrestrito, distribui&#xE7;&#xE3;o e reprodu&#xE7;&#xE3;o em qualquer meio, desde que a publica&#xE7;&#xE3;o original seja corretamente citada.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>RESUMO</title>
<p>O texto aborda parte de pesquisa maior sobre as pol&#xED;ticas de desenvolvimento regional nos anos recentes no Brasil, como dimens&#xE3;o da totalidade sist&#xEA;mica que estabelece novos contornos &#xE0; rela&#xE7;&#xE3;o regi&#xE3;o/mundo. Esse trecho da pesquisa exp&#xF5;e o quadro interpretativo realizado a partir de fontes bibliogr&#xE1;ficas, documentos oficiais de governo e indicadores socioecon&#xF4;micos, evidenciando que a mobilidade do capital e a externaliza&#xE7;&#xE3;o produtiva nesse est&#xE1;gio do capitalismo reconfiguram as rela&#xE7;&#xF5;es de domina&#xE7;&#xE3;o nas regi&#xF5;es, com expans&#xE3;o das fronteiras dos neg&#xF3;cios e amplia&#xE7;&#xE3;o da mercantiliza&#xE7;&#xE3;o da reprodu&#xE7;&#xE3;o social, o que aprofunda a degrada&#xE7;&#xE3;o do trabalho e a precariedade das condi&#xE7;&#xF5;es urbanas.</p></abstract>
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<title>ABSTRACT</title>
<p>The text covers part of most research on regional development policies in recent years in Brazil, as a dimension of systemic totality establishing new contours local/global relationship. This research section exposes the interpretive framework made from literature sources, official documents of government and socio-economic indicators, showing that the mobility of capital and the productive externalization of this stage of capitalism reconfigure the relations of domination in regions with expanding borders of the business and commodification expansion of social reproduction, which deepens the degradation of work and the precariousness of urban conditions.</p></trans-abstract>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Quest&#xE3;o regional</kwd>
<kwd>Neoliberalismo</kwd>
<kwd>Desenvolvimento capitalista</kwd>
<kwd>Trabalho</kwd>
<kwd>Regi&#xE3;o neoliberal</kwd></kwd-group>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Regional issues</kwd>
<kwd>Neoliberalism</kwd>
<kwd>Capitalist development</kwd>
<kwd>Work</kwd>
<kwd>Neoliberal region</kwd></kwd-group>
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<body>
<p>A <italic>quest&#xE3;o regional</italic> tem express&#xE3;o no debate intelectual, pol&#xED;tico e governamental brasileiro desde os prim&#xF3;rdios da Rep&#xFA;blica, em raz&#xE3;o da concentra&#xE7;&#xE3;o dos investimentos econ&#xF4;micos em dadas &#xE1;reas e da diversidade cultural e ambiental do territ&#xF3;rio nacional. Mas, &#xE9;, sobretudo, no &#xE1;pice da acelera&#xE7;&#xE3;o do incremento urbanoindustrial, do ciclo de substitui&#xE7;&#xE3;o de importa&#xE7;&#xF5;es (no quadro de expans&#xE3;o imperialista), entre os anos de 1950 e 1960, que o tema ingressa na agenda p&#xFA;blica como problema de Estado (<xref ref-type="bibr" rid="B36">OLIVEIRA, 1993</xref>). Nesses tempos, a diversidade socioecon&#xF4;mica e ambiental &#xE9; tomada como um problema do federalismo porque exp&#xF5;e o modo desigual como o capitalismo se espraia no territ&#xF3;rio nacional, acirrando as assimetrias regionais que expressam desigualdade social e pobreza.</p>
<p>No primeiro ciclo de neoliberaliza&#xE7;&#xE3;o, nos anos 1990, a tem&#xE1;tica ficou bastante enfraquecida, retornando &#xE0; agenda p&#xFA;blica nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), a partir de 2003.</p>
<p>Para entender esse novo contexto do capitalismo, de matiz neoliberal, &#xE9; preciso dirigir o pensamento para captar o papel que a regi&#xE3;o desempenha no projeto de mundializa&#xE7;&#xE3;o dos mercados, de modo que seja poss&#xED;vel entender o todo e as partes, ou seja, a universaliza&#xE7;&#xE3;o do modo de vida capitalista e a express&#xE3;o da particularidade da regi&#xE3;o nesse quadro.</p>
<p>A abordagem que realizamos aqui est&#xE1; limitada a uma pondera&#xE7;&#xE3;o preliminar sobre o tema, iniciada na se&#xE7;&#xE3;o subsequente, com uma reflex&#xE3;o sobre a crise do capital a partir dos anos 1970, ap&#xF3;s longo per&#xED;odo de crescimento expansionista, com a universaliza&#xE7;&#xE3;o do sistema do capital no mundo. Em seguida, na segunda se&#xE7;&#xE3;o, apresentamos tra&#xE7;os da reconfigura&#xE7;&#xE3;o da regi&#xE3;o como sa&#xED;da para a crise, no contexto da consci&#xEA;ncia neoliberal.</p>
<p>A pesquisa que ampara este texto &#xE9; de base qualitativa, voltada para compreender a regi&#xE3;o nas pol&#xED;ticas governamentais recentes, focando a Pol&#xED;tica Nacional de Desenvolvimento Regional e a Pol&#xED;tica Nacional de Arranjos Produtivos Locais. A investiga&#xE7;&#xE3;o evidencia a ressignifica&#xE7;&#xE3;o da regi&#xE3;o na consci&#xEA;ncia tardo-burguesa da crise do capital e captura o seu sentido gen&#xE9;tico e hist&#xF3;rico. Os aportes da investiga&#xE7;&#xE3;o foram enriquecidos com o levantamento e an&#xE1;lise dos documentos oficiais das pol&#xED;ticas e outras pesquisas similares da &#xE1;rea. Neste momento, no entanto, apresentamos somente um substrato da dimens&#xE3;o te&#xF3;rica da investiga&#xE7;&#xE3;o, que esperamos colaborar com a reflex&#xE3;o sobre as pr&#xE1;ticas profissionais e pol&#xED;ticas que atuam sobre a dimens&#xE3;o do espa&#xE7;o na din&#xE2;mica social.</p>
<p>O prop&#xF3;sito do trabalho &#xE9; demonstrar as novas bases da <italic>quest&#xE3;o regional</italic> no quadro da orienta&#xE7;&#xE3;o neoliberal, para fazer frente &#xE0; volatilidade do sistema do capital desde os anos 1980, apontando o aprofundamento da inseguran&#xE7;a e a instabilidade do trabalho e do processo de reprodu&#xE7;&#xE3;o social nas regi&#xF5;es.</p>
<sec>
<title>A regi&#xE3;o como forma e conte&#xFA;do</title>
<p>Em termos etimol&#xF3;gicos, o voc&#xE1;bulo &#x201C;regi&#xE3;o&#x201D; &#xE9; carregado de muitos sentidos, atravessando no&#xE7;&#xF5;es amplas da rela&#xE7;&#xE3;o parte/todo e da caracteriza&#xE7;&#xE3;o do dom&#xED;nio ou ocupa&#xE7;&#xE3;o de determinado espa&#xE7;o. A vertente que mais vinculou a regi&#xE3;o ao poder (no sentido de reino) aos poucos perdeu express&#xE3;o conforme avan&#xE7;ou a vida capitalista no mundo. Isso n&#xE3;o quer dizer que a regi&#xE3;o tenha se divorciado da pol&#xED;tica, ao contr&#xE1;rio, os atos relativos &#xE0; regi&#xE3;o ou a sua nomea&#xE7;&#xE3;o s&#xE3;o absolutamente pol&#xED;ticos, mas n&#xE3;o aparecem como tal, prevalecendo preponderantemente &#xE0; ideia de espa&#xE7;o geogr&#xE1;fico na no&#xE7;&#xE3;o de regi&#xE3;o &#x2013; num sentido naturalista &#x2013; e, muito menos, a vida pol&#xED;tica (dom&#xED;nio)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>.</p>
<p>Em verdade, evidenciamos que a trajet&#xF3;ria do pensamento social a esse respeito &#xE9; marcada por idas e vindas, no tocante &#xE0; import&#xE2;ncia dada &#xE0;s regi&#xF5;es na configura&#xE7;&#xE3;o dos processos sociais. Entre o <italic>New Deal</italic> norte-americano e a recupera&#xE7;&#xE3;o europeia do p&#xF3;s-Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a tem&#xE1;tica da regi&#xE3;o ganhou envergadura nos estudos econ&#xF4;micos e sociol&#xF3;gicos de recupera&#xE7;&#xE3;o de territ&#xF3;rios, chegando &#xE0;s pol&#xED;ticas de Estado e dos organismos multilaterais. A perspectiva naturalista dos espa&#xE7;os geogr&#xE1;ficos &#xE9; minimizada pelos estudos de desigualdade social e econ&#xF4;mica, j&#xE1; na recomposi&#xE7;&#xE3;o do capitalismo via expansionismo imperialista e <italic>keynesianismo</italic>. <xref ref-type="bibr" rid="B17">Egler (1995)</xref> situa os estudos de Myrdal &#x2013; sobre a causa&#xE7;&#xE3;o circular do controle das for&#xE7;as do mercado &#x2013; e de Perroux &#x2013; sobre a a&#xE7;&#xE3;o do Estado na constitui&#xE7;&#xE3;o de polos de crescimento nas regi&#xF5;es economicamente fracas &#x2013; como emblem&#xE1;ticos a partir de meados dos anos de 1950, inclusive, com forte presen&#xE7;a na orienta&#xE7;&#xE3;o de pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas no Brasil, posteriormente.</p>
<p>A pondera&#xE7;&#xE3;o sobre esse deslocamento da perspectiva de an&#xE1;lise da regi&#xE3;o n&#xE3;o estaria bem esquadrinhada se n&#xE3;o situ&#xE1;ssemos a colabora&#xE7;&#xE3;o de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Bourdieu (2007)</xref>, lembrando os movimentos sociais que, a partir de 1968, defenderam a identidade &#xE9;tnica ou regional, exaltando a diferencia&#xE7;&#xE3;o social e de poder a partir do lugar de origem e de seus sinais duradouros nas pr&#xE1;ticas sociais, como cultura, sotaques e gostos. Isso abriu a possibilidade de pensar a regi&#xE3;o como espa&#xE7;o de lutas por monop&#xF3;lio de reconhecimento de formas de ser e tamb&#xE9;m como hist&#xF3;ria, posto que o que vemos, no presente, na regi&#xE3;o, &#xE9; a express&#xE3;o do que se tornou vencedor diante de outras formas derrotadas. Os estudos das Ci&#xEA;ncias Sociais possibilitaram evidenciar a regi&#xE3;o como campo de identidades e de conflitos em pulsante disputa por reconhecimento, diferenciando-se de outros espa&#xE7;os e de suas pr&#xE1;ticas sociais, portanto, media&#xE7;&#xE3;o de exerc&#xED;cio de conquista, manuten&#xE7;&#xE3;o de hegemonia e resist&#xEA;ncia de segmentos identit&#xE1;rios e das classes sociais.</p>
<p>Do ponto de vista da economia pol&#xED;tica, que &#xE9; o que nos interessa no momento, a abordagem positivista situou a regi&#xE3;o no quadro de sua funcionalidade para vida socioecon&#xF4;mica capitalista, enfocando, por exemplo, o espa&#xE7;o como terreno de opera&#xE7;&#xE3;o do sistema de fluxos de recursos, insumos e produtos necess&#xE1;rios para os empreendimentos produtivos, com os entes sociais desempenhando um conjunto de fun&#xE7;&#xF5;es diferenciadas e interligadas, numa coordenada divis&#xE3;o do trabalho (empresas, poder p&#xFA;blico, escolas, universidades e diferentes associativismos). A &#xEA;nfase &#xE9; o argumento da regi&#xE3;o dotada de homogeneidade e uniformidade para coes&#xE3;o regional, para funcionalidade das partes interligadas em redes ou fluxos. A motiva&#xE7;&#xE3;o &#xE9; econ&#xF4;mica e o poder &#xE9; delimitado pelo agente econ&#xF4;mico preponderante no segmento produtivo em que se especializou o capital na localidade, como s&#xE3;o os casos das grandes corpora&#xE7;&#xF5;es ligadas aos min&#xE9;rios nos pequenos munic&#xED;pios de Minas Gerais ou ao petr&#xF3;leo no norte fluminense.</p>
<p>A &#xE9;poca imperialista fez emergir outras duas percep&#xE7;&#xF5;es cr&#xED;ticas diferenciadas. Uma que, sob o enfoque da homogeneiza&#xE7;&#xE3;o monopol&#xED;stica do espa&#xE7;o econ&#xF4;mico, abordou o fen&#xF4;meno do desaparecimento das regi&#xF5;es, em decorr&#xEA;ncia da concentra&#xE7;&#xE3;o e centraliza&#xE7;&#xE3;o da din&#xE2;mica do capital. E outra percep&#xE7;&#xE3;o, mais elucidativa, que evidenciou que o processo de reprodu&#xE7;&#xE3;o do valor combina desigualdades, de modo que sobreviv&#xEA;ncias de economias pret&#xE9;ritas realimentam a rede mercantil, conformando dada funcionalidade ao atraso econ&#xF4;mico (<xref ref-type="bibr" rid="B37">OLIVEIRA, 2003</xref>). Isso significa que a reprodu&#xE7;&#xE3;o desigual e combinada do capital potencializa homogeneidades e diferencia&#xE7;&#xF5;es entre os lugares numa teia de contrastes sociais<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>. E &#xE9; por esse motivo que a desigualdade sociorregional da era imperialista acaba por exigir um pensamento sobre a regi&#xE3;o, o que significa ver, a partir da divis&#xE3;o regional do trabalho capitalista, a regi&#xE3;o como parte da engrenagem da reprodu&#xE7;&#xE3;o do valor e de suas contradi&#xE7;&#xF5;es sociais, evidenciando as formas que o processo de acumula&#xE7;&#xE3;o assume na estrutura das classes sociais peculiares e, tamb&#xE9;m, as formas do conflito social em escala mais geral.</p>
<p>Uma regi&#xE3;o seria, em suma, o espa&#xE7;o onde se imbricam dialeticamente uma forma especial (no sentido de espec&#xED;fico) de reprodu&#xE7;&#xE3;o do valor e, por consequ&#xEA;ncia, uma forma especial de luta de classes, onde o econ&#xF4;mico e o pol&#xED;tico se fundem e assumem uma forma especial de aparecer no produto social e nos pressupostos da reposi&#xE7;&#xE3;o de capital (OLIVEIRA, 1981, p.29), sendo, portanto, objeto da a&#xE7;&#xE3;o hist&#xF3;rica dos homens personificados nas classes sociais<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>.</p>
<p>A partir dessa perspectiva estrutural e hist&#xF3;rica, Gramsci (1987) olhou a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> enfatizando as dimens&#xF5;es pol&#xED;ticas e ideol&#xF3;gicas, reconhecendo a regi&#xE3;o como dotada de pr&#xE1;ticas sociais espec&#xED;ficas, que articulam cultura e pol&#xED;tica para defesa de interesses econ&#xF4;micos no espa&#xE7;o regional, sendo essa uma condi&#xE7;&#xE3;o mediadora da vida social nos territ&#xF3;rios. Esse &#xE9; o racioc&#xED;nio para explicar o conceito de bloco hist&#xF3;rico regional, a partir da situa&#xE7;&#xE3;o agr&#xE1;ria na <italic>quest&#xE3;o meridional</italic> italiana. Ao tecer essa interpreta&#xE7;&#xE3;o, Gramsci coloca em cena o problema do poder, ampliando a concep&#xE7;&#xE3;o de domina&#xE7;&#xE3;o e de dire&#xE7;&#xE3;o (coer&#xE7;&#xE3;o e consentimento). Assim, a express&#xE3;o material e simb&#xF3;lica do capitalismo &#xE9; desigual e articula hegemonias e blocos hist&#xF3;ricos (e regionais). Nesse sentido, a regi&#xE3;o &#xE9; atravessada por contradi&#xE7;&#xF5;es entre as classes dominantes locais e, como tal, precisa ser pensada e enfrentada. A <italic>quest&#xE3;o meridional</italic> &#xE9; motivo para problematizar as diferen&#xE7;as e hierarquias da divis&#xE3;o regional do trabalho, repondo a ideia da for&#xE7;a motriz do capitalismo industrial t&#xED;pico sobre as pret&#xE9;ritas formas econ&#xF4;micas sobreviventes<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>.</p>
<p>Na contemporaneidade, a mundializa&#xE7;&#xE3;o capitalista dos anos 1980 trouxe novos elementos para essa reflex&#xE3;o entre economia e pol&#xED;tica, exatamente porque operou uma transforma&#xE7;&#xE3;o discursiva e das pr&#xE1;ticas sobre a rela&#xE7;&#xE3;o da teoria do valor com o territ&#xF3;rio, transcendendo os limites do Estado-na&#xE7;&#xE3;o, reconfigurando, portanto, o pensamento sobre a regi&#xE3;o. A desterritorializa&#xE7;&#xE3;o e reterritorializa&#xE7;&#xE3;o de capitais provocam a caracteriza&#xE7;&#xE3;o de processos socioecon&#xF4;micos que se apresentam quase ageogr&#xE1;ficos e, por isso, aparentemente n&#xE3;o referidos &#xE0;s rela&#xE7;&#xF5;es de poder que lhe s&#xE3;o inerentes. Os Estados neoliberais passaram a absorver receitas t&#xE9;cnicas comuns de desregula&#xE7;&#xE3;o de mercado e de prote&#xE7;&#xF5;es sociais, com variadas escalas de dinamiza&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica (regional, nacional ou internacional). Nesse sentido, as disparidades sociorregionais n&#xE3;o seriam fruto de herm&#xE9;ticas din&#xE2;micas regionais, mas do modo como os processos sociais se conectam nas diferentes escalas.</p>
<p>Ainda que, no Brasil, o tema n&#xE3;o tenha tido express&#xE3;o nas pol&#xED;ticas de investimento do Estado logo no per&#xED;odo inicial do neoliberalismo nos anos 1990, h&#xE1; sim um ponto de vista sobre a regi&#xE3;o no processo de liberaliza&#xE7;&#xE3;o e desregulamenta&#xE7;&#xE3;o dos mercados na din&#xE2;mica da mundializa&#xE7;&#xE3;o do capital<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>.</p>
<p>No per&#xED;odo seguinte, com as sequelas sociais do primeiro ciclo neoliberal, a regi&#xE3;o ganha o debate cr&#xED;tico e entre os temas abordados esteve a pondera&#xE7;&#xE3;o sobre o aumento das disparidades sociais entre as regi&#xF5;es deixadas &#xE0;s for&#xE7;as do mercado mundializado e mais competitivo. De modo que entre as mudan&#xE7;as aventadas no contexto da elei&#xE7;&#xE3;o do PT estava a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> como parte do programa de governo. Em termos operacionais, o primeiro governo (Lula &#x2013; 2003/2007) promove a&#xE7;&#xF5;es no sentido de reposicionar o Minist&#xE9;rio da Integra&#xE7;&#xE3;o Nacional nessa dire&#xE7;&#xE3;o e reinstitui a Superintend&#xEA;ncia do Desenvolvimento da Amaz&#xF4;nia (SUDAM), a Superintend&#xEA;ncia do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e a Superintend&#xEA;ncia do Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO)<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>. A reorganiza&#xE7;&#xE3;o institucional e pol&#xED;tica petista foram recebidas como um marco para selar a retomada das pol&#xED;ticas regionais de planejamento pelo governo, que haviam sido abandonadas no pa&#xED;s desde os anos 1980.</p>
<p>O tema integra os Planos Plurianuais (PPA 2008-2011, PPA 2012-2015), desde a institui&#xE7;&#xE3;o da Pol&#xED;tica Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR) que foi coordenada pelo Minist&#xE9;rio da Integra&#xE7;&#xE3;o Nacional junto com os seus &#xF3;rg&#xE3;os vinculados. Com esse lastro e esse lugar social na agenda governamental, a Pol&#xED;tica Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR) foi institu&#xED;da no in&#xED;cio do segundo mandato do Presidente Lula, por meio do decreto 6047, de 22 de fevereiro de 2007. Paradoxalmente esvaziada de suas fun&#xE7;&#xF5;es ao longo dos treze anos de governos do PT (Partido dos Trabalhadores &#x2013; 2003/2015), com parcos recursos e den&#xFA;ncias de corrup&#xE7;&#xE3;o e clientelismo.</p>
<p>A an&#xE1;lise do material coletado na pesquisa indica que o tema da regi&#xE3;o emerge nessa program&#xE1;tica governamental do PT como estrat&#xE9;gia do projeto neoliberal perif&#xE9;rico, que envolveu, nos seus termos, crescimento econ&#xF4;mico, competitividade para os mercados regionais e relativo matiz social baseado na diminui&#xE7;&#xE3;o da extrema pobreza, amplia&#xE7;&#xE3;o do consumo e da ocupa&#xE7;&#xE3;o precarizada. Ali&#xE1;s, essa perspectiva de governo vem sendo objeto de variadas an&#xE1;lises cr&#xED;ticas de grande relev&#xE2;ncia sobre nossa hist&#xF3;ria recente (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BARBOSA, 2016</xref>).</p>
<p>Para os fins deste texto cabe sublinhar aqui que, em verdade, a reconfigura&#xE7;&#xE3;o da regi&#xE3;o aparece no debate sobre as sa&#xED;das para a crise do capital a partir dos anos 1980 e este &#xE9; o objeto de an&#xE1;lise, que divulga parte de uma pesquisa maior sobre o desenvolvimento regional nos governos recentes no Brasil.</p>
<p>No plano hist&#xF3;rico-concreto, a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> expressa o modo como o investimento de capital circula e se concentra no pa&#xED;s, dando determinada fei&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s cinco macrorregi&#xF5;es brasileiras, pelos 27 estados e pelos 5565 munic&#xED;pios, que se reorganizam tamb&#xE9;m em microrregi&#xF5;es e mesorregi&#xF5;es<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>. Ao cruzar todos os indicadores sociais, demogr&#xE1;ficos e produtivos, por exemplo, &#xE9; poss&#xED;vel evidenciar que a pobreza no Brasil est&#xE1; alojada acima de uma linha diagonal que toma o norte e nordeste do pa&#xED;s, juntando trechos do norte de Goi&#xE1;s, Mato Grosso e Minas Gerais (<xref ref-type="bibr" rid="B23">IPEA, 2010</xref>). Mas, o pa&#xED;s possui ainda uma alta concentra&#xE7;&#xE3;o populacional nas regi&#xF5;es economicamente mais din&#xE2;micas (sudeste e sul), apesar de ter a quinta maior superf&#xED;cie do mundo, com 8.514.204.90 quil&#xF4;metros quadrados e abrigar 207 milh&#xF5;es de habitantes, possuindo uma densidade demogr&#xE1;fica de 22,5 habitantes por quil&#xF4;metro quadrado, enquanto a OCDE tem uma m&#xE9;dia de 87 (<xref ref-type="bibr" rid="B35">OCDE, 2013</xref>). Ou seja, apesar do vasto tamanho do territ&#xF3;rio, o fluxo de habitantes corre em dire&#xE7;&#xE3;o &#xE0; din&#xE2;mica do capital, na medida em que o trabalho &#xE9; o meio de reprodu&#xE7;&#xE3;o social elementar na sociedade mercantil<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>.</p>
<p>Esse debate exige maior sofistica&#xE7;&#xE3;o exatamente quando se d&#xE1; aten&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s disparidades internas nos grandes centros urbanos, que, ainda que mais atrativos para o capital e o trabalho, s&#xE3;o dotados tamb&#xE9;m de zonas internas de severa segrega&#xE7;&#xE3;o social e pobreza, o que aprofunda os dilemas sobre as disparidades regionais produzidas pelo capital.</p>
<p>Por isso mesmo, o entendimento dessa realidade de desigualdade sociorregional tem sentido se amparado na apreens&#xE3;o da din&#xE2;mica do capital materializada nos lugares e em rela&#xE7;&#xE3;o com a totalidade social, orientada pelos fatores de produ&#xE7;&#xE3;o e circula&#xE7;&#xE3;o de mercadorias em processos que facilitam a realiza&#xE7;&#xE3;o do mais valor. Isso se faz em dada geografia f&#xED;sica e humana de rela&#xE7;&#xF5;es sociais, produzindo e reproduzindo a <italic>quest&#xE3;o regional</italic>, sob variadas matizes<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref>.</p>
<p>Nesses termos, a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> &#xE9; express&#xE3;o desdobrada, no nosso entender, da <italic>quest&#xE3;o social</italic>, inerente ao conflito de classes objetivado no espa&#xE7;o geogr&#xE1;fico nacional, que exp&#xF5;e a for&#xE7;a do desenvolvimento do capital, que se faz de modo desigual e combinado.</p>
<p>Entender isso significa desnaturalizar o desenvolvimento capitalista, a desigualdade e a expropria&#xE7;&#xE3;o inerentes &#xE0; <italic>quest&#xE3;o social</italic> gerada pelo sociometabolismo do capital, ao mesmo tempo em que evidencia que esse processo de domina&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o se realiza fora dos espa&#xE7;os geogr&#xE1;ficos, muito ao contr&#xE1;rio. Essa desconstru&#xE7;&#xE3;o anal&#xED;tica do discurso a-hist&#xF3;rico, sobre o desenvolvimento e &#x201C;seus efeitos positivos para todos&#x201D;, recomp&#xF5;e os la&#xE7;os com os processos de fundo que determinam a <italic>quest&#xE3;o social</italic>.</p>
</sec>
<sec>
<title>A crise do capital e a regi&#xE3;o como possibilidade de deslocamento de seus impactos</title>
<p>De acordo com as formula&#xE7;&#xF5;es de Marx, na sua cr&#xED;tica da economia pol&#xED;tica, o desenvolvimento capitalista est&#xE1; assentado na din&#xE2;mica contradit&#xF3;ria da acumula&#xE7;&#xE3;o de capital, decorrente da explora&#xE7;&#xE3;o e aliena&#xE7;&#xE3;o da for&#xE7;a de trabalho para obten&#xE7;&#xE3;o de excedente, que desencadeia peri&#xF3;dicas crises de superprodu&#xE7;&#xE3;o e que fazem a hist&#xF3;ria do modo de produ&#xE7;&#xE3;o ser marcada por fases de crescimento e fases de depress&#xE3;o, de acordo com a ascens&#xE3;o ou a queda da taxa de lucros (<xref ref-type="bibr" rid="B7">BARBOSA, 2014</xref>). A pesquisa est&#xE1; orientada para entender essa natureza inst&#xE1;vel do capitalismo como inerente ao sociometabolismo que socializa universalmente o trabalho e concentra (e centraliza) privadamente a riqueza.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B44">Schumpeter (1982)</xref>, as ondas longas de crescimento econ&#xF4;mico decorrem de inova&#xE7;&#xF5;es (novos produtos e/ou novos processos produtivos) que acionam a acelera&#xE7;&#xE3;o da expans&#xE3;o em favor do sobrelucro, que &#xE9; reduzido mais a frente pela for&#xE7;a da concorr&#xEA;ncia, provocando relativo equil&#xED;brio entre capitais e, posteriormente, descenso da taxa de lucros<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>. O ciclo depressivo da&#xED; decorrente seria um processo de &#x201C;destrui&#xE7;&#xE3;o criativa&#x201D;, de modo que as crises seriam inerentes ao processo de acumula&#xE7;&#xE3;o e motivadora do empreendedorismo como gatilho para inova&#xE7;&#xE3;o. Nesses termos, pode ser pensado o longo ciclo dos anos do P&#xF3;s-Segunda Guerra Mundial, marcadamente caracterizado como onda longa, com descenso somente nos anos de 1970, com destrui&#xE7;&#xE3;o de capitais, novos impulsos empreendedores e reorganiza&#xE7;&#xE3;o sist&#xEA;mica para novas formas de extra&#xE7;&#xE3;o de mais valor. Ainda que a vis&#xE3;o capte parte da lei geral da acumula&#xE7;&#xE3;o enunciada por Marx, a interpreta&#xE7;&#xE3;o sobrecarrega o peso hist&#xF3;rico do fator tecnologia nesse processo, num movimento quase autom&#xE1;tico de mudan&#xE7;a baseado na supera&#xE7;&#xE3;o de um paradigma tecnol&#xF3;gico por outro, em decorr&#xEA;ncia de crises de realiza&#xE7;&#xE3;o do valor.</p>
<p>A Escola da Regula&#xE7;&#xE3;o interpreta o desenvolvimento capitalista como marcado por fases regulares, c&#xED;clicas, dinamizadas por um regime de acumula&#xE7;&#xE3;o e um modo de regula&#xE7;&#xE3;o correspondente, apoiados por institui&#xE7;&#xF5;es e acordos entre as classes sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">BRAGA, 2003</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref>.</p>
<p>O capitalismo sobrevive &#xE0;s crises sist&#xEA;micas por meio de um aparato regulat&#xF3;rio que organiza a atividade produtiva para articular produ&#xE7;&#xE3;o e consumo, evitando as crises de superprodu&#xE7;&#xE3;o e outras limita&#xE7;&#xF5;es como infla&#xE7;&#xE3;o. Esse aparato envolve leis, normas, valores e costumes que articulam formas estruturais de assimila&#xE7;&#xE3;o favor&#xE1;veis a acumula&#xE7;&#xE3;o de capital por meio de ades&#xE3;o ao sistema internacional, ao padr&#xE3;o monet&#xE1;rio, &#xE0; concorr&#xEA;ncia a certas a&#xE7;&#xF5;es do Estado e dadas rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho.</p>
<p>Por isso, compreende a crise do fordismo como decorrente: 1) da crise de oferta de bens e servi&#xE7;os postos &#xE0; venda em raz&#xE3;o das condi&#xE7;&#xF5;es do sistema de produ&#xE7;&#xE3;o do valor e dos conflitos do trabalho, que resulta do crescimento do pre&#xE7;o do trabalho, crescimento do pre&#xE7;o da mat&#xE9;ria-prima e desacelera&#xE7;&#xE3;o da produtividade; 2) mas, tamb&#xE9;m da crise de demanda, na quantidade de mercadorias que os consumidores podem ou desejam adquirir, na medida em que a equaliza&#xE7;&#xE3;o de pot&#xEA;ncias econ&#xF4;micas e a competitividade induzem din&#xE2;micas internacionais que levam o com&#xE9;rcio exterior a ser preponderante sobre o mercado interno. Essa corrente de pensamento evidencia que a eleva&#xE7;&#xE3;o da taxa de explora&#xE7;&#xE3;o da for&#xE7;a de trabalho exp&#xF5;e uma das graves contradi&#xE7;&#xF5;es sist&#xEA;micas manifesta na contratend&#xEA;ncia da explora&#xE7;&#xE3;o, porque o desenvolvimento das for&#xE7;as produtivas diminui a ocupa&#xE7;&#xE3;o dificultando a amplia&#xE7;&#xE3;o do consumo, o que entrava a realiza&#xE7;&#xE3;o do valor em raz&#xE3;o da depress&#xE3;o dos mercados.</p>
<p>At&#xE9; os anos de 1960, ajustes eram realizados por meio do planejamento econ&#xF4;mico, do desenvolvimento do setor p&#xFA;blico e do Estado social (Estado de Bem-Estar ou Estado Desenvolvimentista), que figurava como aparelho regulat&#xF3;rio antic&#xED;clico. A nova sa&#xED;da da crise, a partir dos anos de 1970, de acordo com a consci&#xEA;ncia neoliberal, foi a desregula&#xE7;&#xE3;o e a flexibilidade do trabalho, com a maior centralidade da liberdade do mercado na din&#xE2;mica social. Isso significou o desmantelamento das institui&#xE7;&#xF5;es de regula&#xE7;&#xE3;o que eram, ao mesmo tempo, o fundamento do <italic>boom</italic> econ&#xF4;mico (<xref ref-type="bibr" rid="B22">HOBSBAWM, 1995</xref>). Flexibilidade da organiza&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica, da organiza&#xE7;&#xE3;o social e da organiza&#xE7;&#xE3;o espacial conforma o que <italic>os regulacionistas</italic> chamaram de regime de acumula&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel.</p>
<p>A experi&#xEA;ncia hist&#xF3;rica recente mostrou que as formas de flexibilidade variam multidimensionalmente, envolvendo: 1) As t&#xE9;cnicas de produ&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel; 2) As estruturas industriais flex&#xED;veis (externaliza&#xE7;&#xE3;o dos processos e etapas da produ&#xE7;&#xE3;o); 3) A estrutura do capital; 4) As pr&#xE1;ticas flex&#xED;veis na esfera do trabalho (flexibilidade das fun&#xE7;&#xF5;es laborativas e da quantidade de trabalhadores); 5) A flexibilidade do mercado de trabalho (variadas formas de contrata&#xE7;&#xE3;o de trabalhadores); 6) Os modos de consumo; 7) O redirecionamento do Estado para redu&#xE7;&#xE3;o da atua&#xE7;&#xE3;o na prote&#xE7;&#xE3;o social (HARVEY, 1996; <xref ref-type="bibr" rid="B31">MATTOSO, 1995</xref>).</p>
<p>Estudos nacionais e internacionais chamam a aten&#xE7;&#xE3;o, na an&#xE1;lise dos fatos emp&#xED;ricos, que essa flexibilidade, com efeito, proporciona mobilidade ao fluxo de capitais e de trabalho, ao lado da expressiva eros&#xE3;o dos direitos sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ANTUNES, 2013</xref>). Ainda que n&#xE3;o responda estrutural e resolutamente &#xE0; crise &#x2013; a taxa de crescimento mundial n&#xE3;o tem alcan&#xE7;ado mais que 3% -, a flexibilizac&#xE3;o proporciona f&#xF4;lego ao sistema na medida em que fomenta a competitividade no movimento de expans&#xE3;o das fronteiras do capital, deslocando temporariamente os efeitos da crise. Afinal, do ponto de vista mercantil, as rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho fordistas engessavam a mobilidade do capital, em especial, por conta desse quadro de imprevisibilidade de demandas de mercado &#x2013; com a crise, os acordos fordistas eram um limite &#xE0; reestrutura&#xE7;&#xE3;o empresarial, no sentido de recompor os neg&#xF3;cios e as taxas de lucro.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B9">Benko (1999)</xref>, na trilha regulacionista, enfatiza, ent&#xE3;o, as particularidades das ambival&#xEA;ncias do conceito de flexibilidade nessa etapa do capitalismo. A seu ver, os dispositivos de flexibiliza&#xE7;&#xE3;o foram acionados contra a instabilidade e as crises de realiza&#xE7;&#xE3;o do valor, abrindo uma vasta experi&#xEA;ncia de formas de flexibilidades como: produ&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel, trabalho flex&#xED;vel, emprego flex&#xED;vel, sal&#xE1;rios flex&#xED;veis, medidas flex&#xED;veis de seguridade social, conex&#xF5;es interempresas flex&#xED;veis, taxas de c&#xE2;mbio flex&#xED;veis. Todavia, acentua o pesquisador que essas flexibilidades n&#xE3;o s&#xE3;o absolutas, mas associadas &#xE0; rigidez macroecon&#xF4;mica, na medida em que as regula&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o necess&#xE1;rias ao interc&#xE2;mbio e as trocas internacionais, o que vem sustentando a generaliza&#xE7;&#xE3;o da r&#xED;gida agenda de controle fiscal e monet&#xE1;rio no conjunto dos Estados do sistema do capital, que passamos a conhecer como agenda neoliberal<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref> e cujo contorno &#xE9; marcado pela maior especula&#xE7;&#xE3;o das regi&#xF5;es, expostas &#xE0; concorr&#xEA;ncia para atrair investimentos de capitais.</p>
<p>Mandel situa a crise capitalista que atravessamos desde os anos de 1970 como fruto do descenso da &#x201C;onda longa expansiva&#x201D; da acumula&#xE7;&#xE3;o, que era centrada nas pol&#xED;ticas econ&#xF4;micas keynesianas e na dinamiza&#xE7;&#xE3;o produtiva proporcionada pelo fordismo, que</p> <disp-quote>
<p>propiciou um novo salto para a concentra&#xE7;&#xE3;o de capitais e a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o da produ&#xE7;&#xE3;o, as for&#xE7;as produtivas ultrapassando cada vez mais os limites do Estado burgu&#xEA;s nacional (tend&#xEA;ncia que come&#xE7;ou a se manifestar desde o in&#xED;cio do s&#xE9;culo, mas que se amplificou consideravelmente desde 1948) (<xref ref-type="bibr" rid="B26">MANDEL, 1990</xref>, p.11-12).</p></disp-quote>
<p>O alto investimento em pesquisa e tecnologia reestruturou a produ&#xE7;&#xE3;o, concentrando capitais e alargando a automa&#xE7;&#xE3;o, num ritmo absolutamente impactante, o que redundou no aumento da base da extra&#xE7;&#xE3;o do mais valor. Paralelamente, acordos sindicais ampliaram o consumo e os servi&#xE7;os p&#xFA;blicos para os trabalhadores, ocupando sobremaneira a organiza&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica dos mesmos. Mas, ao fim dos anos 1960 esgota-se essa capacidade de rentabilidade do capital que, para <xref ref-type="bibr" rid="B26">Mandel (1990)</xref>, deve ser compreendida a partir da conjun&#xE7;&#xE3;o de variadas causas, n&#xE3;o se limitando &#xE0; superprodu&#xE7;&#xE3;o ou ao subconsumo. A queda tendencial da taxa de lucros e o aumento da composi&#xE7;&#xE3;o org&#xE2;nica do capital com a automa&#xE7;&#xE3;o s&#xE3;o tamb&#xE9;m elementos desse processo, de modo que, para o pensador, a multidimensionalidade &#xE9; um elemento-chave para compreender a din&#xE2;mica capitalista e seus movimentos disruptivos.</p>
<p>As condi&#xE7;&#xF5;es dessa crise aberta a partir dos anos 1970 desafiam a civiliza&#xE7;&#xE3;o, em raz&#xE3;o da preponder&#xE2;ncia da oligopoliza&#xE7;&#xE3;o do capital e do impacto da derrota pol&#xED;tica das resist&#xEA;ncias &#xE0; vida mercantil, ensaiadas nas experi&#xEA;ncias de socialismo, evidenciado como desdobramento, sobretudo, a partir dos anos 1980, com a dr&#xE1;stica expropria&#xE7;&#xE3;o de direitos sociais, nos termos tratados por <xref ref-type="bibr" rid="B18">Virginia Fontes (2010)</xref>. E, nesse processo, o capital vislumbra a reconfigura&#xE7;&#xE3;o da regi&#xE3;o para essas necessidades especulativas, em especial, como veremos adiante, por conta da domin&#xE2;ncia financeira do regime de acumula&#xE7;&#xE3;o desta etapa hist&#xF3;rica.</p>
<p>No contexto do espa&#xE7;o mundial universalmente colonizado, as crises se tornam modos de manter a taxa de lucros, abrindo novos processos de moderniza&#xE7;&#xE3;o, cada vez mais nefastos para a civiliza&#xE7;&#xE3;o e para a natureza, com a pilhagem de direitos sociais, da renda do trabalhador e dos recursos ambientais.</p>
<p>Nesse sentido, &#xE9; que a quest&#xE3;o de como fica o espa&#xE7;o geogr&#xE1;fico diante das necessidades de respostas &#xE0; crise de realiza&#xE7;&#xE3;o do valor merece ser pensada, tendo em conta dois movimentos interpretativos preponderantes no debate acad&#xEA;mico e t&#xE9;cnico: um que atualiza o pensamento sobre a localiza&#xE7;&#xE3;o industrial<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref>; outro que observa a reemerg&#xEA;ncia de economias regionais integradas (<xref ref-type="bibr" rid="B8">BARBOSA, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">KELLER, 2008</xref>). Vejamos.</p>
</sec>
<sec>
<title>A regi&#xE3;o e as novas exig&#xEA;ncias do valor</title>
<p>O ponto de partida aqui deve ser a indaga&#xE7;&#xE3;o sobre porque uma regi&#xE3;o &#xE9; mais atrativa ao capital e n&#xE3;o outra. A resposta de consultorias econ&#xF4;micas instrumentais de mercado tende, em geral, a situar o retorno dos investimentos aos fatores positivos da localiza&#xE7;&#xE3;o em que est&#xE1; situada a empresa, distinguindo esse fator como o pilar do desenvolvimento desigual das regi&#xF5;es. E que isso depende da estrutura produtiva das empresas, o que, por conseguinte, decorre do lugar que ocupam na divis&#xE3;o social do trabalho e do espa&#xE7;o. Uma varia&#xE7;&#xE3;o sobre esse enfoque das <italic>vantagens competitivas da localiza&#xE7;&#xE3;o</italic> emergiu no contexto da mundializa&#xE7;&#xE3;o, exaltando a inter-rela&#xE7;&#xE3;o entre os fatores positivos da localiza&#xE7;&#xE3;o<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref>. Segundo Benko:</p> <disp-quote>
<p>O problema da localiza&#xE7;&#xE3;o das atividades &#xE9; de primordial import&#xE2;ncia para um empres&#xE1;rio, pois dela dependem os custos de produ&#xE7;&#xE3;o. Por&#xE9;m, as coletividades territoriais e o Estado tamb&#xE9;m est&#xE3;o interessados, visto que t&#xEA;m a seu cargo a distribui&#xE7;&#xE3;o (interessada) das atividades no espa&#xE7;o (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>, p.131).</p></disp-quote>
<p>Outra abordagem (com t&#xEA;nue diferencia&#xE7;&#xE3;o) preocupou-se com as caracter&#xED;sticas dos lugares como meios inovadores, esclarecendo os lugares como complexos territoriais de inova&#xE7;&#xE3;o a partir da aglomera&#xE7;&#xE3;o empresarial e de servi&#xE7;os em dada regi&#xE3;o<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref>.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B9">Benko,(1999)</xref>, n&#xE3;o &#xE9; mais poss&#xED;vel pensar o processo produtivo em cadeia sem contar com o espa&#xE7;o como materializa&#xE7;&#xE3;o do desenvolvimento capitalista<xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref>. As mudan&#xE7;as r&#xE1;pidas proporcionadas pelas novas tecnologias e pelo regime de acumula&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel impactaram a velocidade das estrat&#xE9;gias de desenvolvimento, exigindo uma nova estrutura urbana e regional que pode envolver contraurbaniza&#xE7;&#xE3;o em uma cidade e novos espa&#xE7;os industriais em outras. A diferen&#xE7;a na taxa de crescimento movimenta o mapa econ&#xF4;mico regional, em permanente mudan&#xE7;a em raz&#xE3;o da mobilidade do capital e novas redes de fluxos de capitais e de trabalho fornecem papel diferenciado para as aglomera&#xE7;&#xF5;es de cidades (1999, p.129).</p>
<p>Em raz&#xE3;o dos riscos do investimento imobilizado com contratos de longa dura&#xE7;&#xE3;o do fordismo, a recente reestrutura&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel do capital se postou como sa&#xED;da para a crise recessiva por enaltecer &#x201C;modos mais fluidos de deten&#xE7;&#xE3;o das riquezas e uma redu&#xE7;&#xE3;o paralela dos compromissos de longo prazo. Essas rea&#xE7;&#xF5;es defensivas modelaram o desenvolvimento dos novos espa&#xE7;os industriais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>, p.130). Ao mesmo tempo, a percep&#xE7;&#xE3;o e a experi&#xEA;ncia do acesso p&#xFA;blico &#xE0; cidade foram flexibilizados, limitando sobremaneira a amplia&#xE7;&#xE3;o dos servi&#xE7;os coletivos e o acesso &#xE0; moradia. A supremacia dos interesses econ&#xF4;micos na cidade transforma a agenda pol&#xED;tica, que tende a se reorientar para a mobiliza&#xE7;&#xE3;o dos neg&#xF3;cios.</p>
<p>Nessa dire&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; importante pensar o espa&#xE7;o como materializa&#xE7;&#xE3;o da divis&#xE3;o social do trabalho na sua forma interna (nas empresas) e externa (na regi&#xE3;o), tendo em conta a estrat&#xE9;gia produtiva da desintegra&#xE7;&#xE3;o vertical da empresa e a integra&#xE7;&#xE3;o horizontal no territ&#xF3;rio em pl&#xEA;iades de outras empresas, servi&#xE7;os e for&#xE7;a de trabalho. A incerteza do mercado tem impulsionado a desintegra&#xE7;&#xE3;o empresarial para evitar que as consequ&#xEA;ncias desse risco atinjam a estrutura vertical das corpora&#xE7;&#xF5;es. Da&#xED; o crescimento das subcontrata&#xE7;&#xF5;es por meio das terceiriza&#xE7;&#xF5;es (FILGUEIRA; CAVALCANTI, 2015). Em segundo lugar, a concorr&#xEA;ncia impinge a renova&#xE7;&#xE3;o dos m&#xE9;todos produtivos e a renova&#xE7;&#xE3;o dos produtos, para isso opera-se a reestrutura&#xE7;&#xE3;o das conex&#xF5;es do sistema produtivo e as maiores chances s&#xE3;o evidenciadas quando as conex&#xF5;es s&#xE3;o externalizadas, levando a que processos produtivos sejam realizados por empresas parceiras (subcontratadas).</p>
<p>Em terceiro lugar, essas empresas exteriores especializadas, que s&#xE3;o subcontratadas, oferecem as melhores condi&#xE7;&#xF5;es de custo dos servi&#xE7;os intermedi&#xE1;rios, o que se faz por meio de uma explora&#xE7;&#xE3;o maior da for&#xE7;a de trabalho e da expropria&#xE7;&#xE3;o de capitais de pequeno porte, por conta da mobiliza&#xE7;&#xE3;o da concorr&#xEA;ncia por baixos custos.</p>
<p>Em quarto, a desintegra&#xE7;&#xE3;o produtiva (subcontrata&#xE7;&#xF5;es de empresas terceiras) tem facilidade quando h&#xE1; aglomera&#xE7;&#xE3;o geogr&#xE1;fica empresarial, como polos de desenvolvimento e APL &#x2013; Arranjo Produtivo Local, reduzindo os custos das transa&#xE7;&#xF5;es externas para acesso &#xE0; for&#xE7;a de trabalho, cr&#xE9;dito, servi&#xE7;os e variada infraestrutura (energia, transporte, comunica&#xE7;&#xF5;es, estradas, escolas, bancos) (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BARBOSA, 2016</xref>).</p>
<p>Nesse processo de aglomera&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica h&#xE1; parceria e competi&#xE7;&#xE3;o entre os capitais, o que provoca heterogeneidade de formas de trabalho e de regula&#xE7;&#xE3;o social, de modo que o trabalho que migra, conforme migram as empresas mais din&#xE2;micas, faz emergir uma nova pol&#xED;tica dos lugares. A flexibilidade das formas organizacionais da produ&#xE7;&#xE3;o induz &#xE0; flexibilidade do mercado de trabalho, fortalecendo-se, ambas, no contexto da aglomera&#xE7;&#xE3;o produtiva das empresas nas regi&#xF5;es. &#x201C;A nova configura&#xE7;&#xE3;o do poder, das classes e da tecnologia tra&#xE7;a novos centros&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>, p.145) geogr&#xE1;ficos de neg&#xF3;cios e de reprodu&#xE7;&#xE3;o social.</p>
<p>Mas, a aglomera&#xE7;&#xE3;o geogr&#xE1;fica empresarial pode tamb&#xE9;m representar deseconomia (inefic&#xE1;cia) e esses efeitos negativos decorrem de fatores sociopol&#xED;ticos e econ&#xF4;micos, que reprimem o que no meio t&#xE9;cnico chamam de &#x201C;as potencialidades atrativas do lugar&#x201D;<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref>. E a mobilidade produtiva tende a ser um aspecto importante desse processo, de modo que as ind&#xFA;strias de alta tecnologia, que s&#xE3;o o eixo din&#xE2;mico da economia de mais alta produtividade, tiveram &#x201C;desenvolvimento r&#xE1;pido, mas, ao mesmo tempo, est&#xE3;o integrados numa divis&#xE3;o social, espacial e internacional do trabalho&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>, p.150), que depende e se articula a outros elos da cadeia produtiva, mas com potente mobilidade para o deslocamento geogr&#xE1;fico, quando necess&#xE1;rio, em busca de melhores condi&#xE7;&#xF5;es para o valor. Entretanto, o que evidenciamos na pesquisa &#xE9; que essa flexibilidade para o grande capital, nos &#xFA;ltimos 30 anos, tornou ainda mais inst&#xE1;vel a situa&#xE7;&#xE3;o social do lugar, desafiando os sujeitos sociais do lugar a confrontarem a capitaliza&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o pelo mercado, a destina&#xE7;&#xE3;o de fundo p&#xFA;blico aos investimentos empresariais, a expropria&#xE7;&#xE3;o dos recursos da natureza e a superexplora&#xE7;&#xE3;o da for&#xE7;a de trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BARBOSA, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B28">MARINI, 2000</xref>).</p>
<p>Na realidade, h&#xE1; um movimento de concentra&#xE7;&#xE3;o geogr&#xE1;fica das atividades por meio da aglomera&#xE7;&#xE3;o produtiva seguida por desconcentra&#xE7;&#xE3;o geogr&#xE1;fica, quando ocorre a deseconomia de aglomera&#xE7;&#xE3;o (quando h&#xE1; a massifica&#xE7;&#xE3;o da produ&#xE7;&#xE3;o) e as vantagens competitivas n&#xE3;o atuam favoravelmente ao lucro. Isso produz uma <italic>dualidade circular</italic> que se reproduz reiterativamente na hist&#xF3;ria do capitalismo, &#x201C;desse modo os novos espa&#xE7;os de produ&#xE7;&#xE3;o nascem e os antigos s&#xE3;o condenados seja a renovar-se, seja a desaparecer&#x201D;, o que define isso s&#xE3;o as rela&#xE7;&#xF5;es t&#xE9;cnicas, sociais e pol&#xED;ticas da produ&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>, p. 150). No neoliberalismo, do mesmo modo como se espera e se imp&#xF5;e aos indiv&#xED;duos o cuidado com o desenvolvimento de suas potencialidades pessoais de modo a se tornar ou se manter empreg&#xE1;vel, participando ativamente do jogo da concorr&#xEA;ncia com outros trabalhadores, a regi&#xE3;o precisa manipular condicionalidades que a coloquem competitivamente em disputa com outras regi&#xF5;es por mais investimentos (<xref ref-type="bibr" rid="B16">DARDOT; LAVAL, 2016</xref>).</p>
<p>Essa percep&#xE7;&#xE3;o ilumina a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> como express&#xE3;o das novas contradi&#xE7;&#xF5;es de reprodu&#xE7;&#xE3;o ampliada do capital, que L&#xEA;nin e Trotsky haviam tratado como <italic>desenvolvimento desigual</italic>, de modo que podemos reconhecer, nessa dial&#xE9;tica, desenvolvimento e subdesenvolvimento (decad&#xEA;ncia) das regi&#xF5;es, uma media&#xE7;&#xE3;o sist&#xEA;mica fundamental que tem, nessa fase do capitalismo maduro, um novo deslocamento positivo para o capital por conta das desregulamenta&#xE7;&#xF5;es dos mercados e do trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B36">OLIVEIRA, 1993</xref>). Ao mesmo tempo, esse processo, amplia as contradi&#xE7;&#xF5;es sociais locais por for&#xE7;a da din&#xE2;mica viva do capital, nas regi&#xF5;es em que aportam as estrat&#xE9;gias p&#xFA;blicas e privadas de desenvolvimento. A capitaliza&#xE7;&#xE3;o da economia regional e da reprodu&#xE7;&#xE3;o social aprofunda os efeitos delet&#xE9;rios do sociometabolismo do capital, de modo que a &#x201C;civiliza&#xE7;&#xE3;o em excesso&#x201D; &#x2013; etapa mais avan&#xE7;ada e generalizada da vida capitalista &#x2013; exp&#xF5;e a sua contraface em barb&#xE1;rie, sobretudo em forma&#xE7;&#xF5;es sociais que, marcadas pelo subdesenvolvimento, reproduzem a depend&#xEA;ncia sist&#xEA;mica da ordem do capital imperialista.</p>
<p>Em perspectiva hist&#xF3;rica, reconhecemos que os ciclos do capitalismo expressam sistemas sucessivos de subsun&#xE7;&#xE3;o real do trabalho ao capital. A passagem da manufatura para a grande ind&#xFA;stria &#xE9; uma transforma&#xE7;&#xE3;o emblem&#xE1;tica aludida por Marx, e nesta o fordismo (taylorismo) e a acumula&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel expressam fases do desenvolvimento capitalista, que s&#xE3;o modos peculiares de valoriza&#xE7;&#xE3;o, portanto, de extra&#xE7;&#xE3;o do sobretrabalho. Os meios t&#xE9;cnicos usados para esse fim buscam a otimiza&#xE7;&#xE3;o das possibilidades de valoriza&#xE7;&#xE3;o, mas para que cumpram essa miss&#xE3;o &#xE9; necess&#xE1;rio transformar a organiza&#xE7;&#xE3;o social do trabalho na empresa e nas formas de vida fora dela. Esse conturbado processo do movimento do capital tem impactos sobre os espa&#xE7;os sociogeogr&#xE1;ficos e dependem deles (espa&#xE7;os) para atingir o objetivo maior de realiza&#xE7;&#xE3;o capitalista. Portanto, o espa&#xE7;o sociogeogr&#xE1;fico &#xE9; uma das dimens&#xF5;es significativas da an&#xE1;lise da totalidade social e de suas transforma&#xE7;&#xF5;es recentes.</p>
<p>Na atual etapa do capitalismo, a a&#xE7;&#xE3;o aventureira nos territ&#xF3;rios &#xE9; impulsionada pela especificidade especulativa do regime de acumula&#xE7;&#xE3;o com domin&#xE2;ncia financeira. O capital fict&#xED;cio se apresentou como escoadouro do excedente produtivo, por meio de variados dispositivos financeiros (t&#xED;tulos, a&#xE7;&#xF5;es, fundos de investimentos, t&#xED;tulos p&#xFA;blicos, <italic>deb&#xEA;ntures</italic>) que proporcionam aumento exorbitante de liquidez para investimentos, que, ao mesmo tempo, anseia por retorno de curto prazo, estimulando, por isso, a especula&#xE7;&#xE3;o em v&#xE1;rias &#xE1;reas.</p> <disp-quote>
<p>A invas&#xE3;o dessa l&#xF3;gica por todos os escaninhos da reprodu&#xE7;&#xE3;o do capital &#xE9; que &#xE9; a respons&#xE1;vel pela difus&#xE3;o das grandes transforma&#xE7;&#xF5;es nos processos produtivos herdados da &#xE9;poca fordista. As necessidades de costumeirizar a produ&#xE7;&#xE3;o, de flexibilizar o trabalho, de encolher os estoques, de reduzir o n&#xFA;mero dos n&#xED;veis gerenciais, de terceirizar servi&#xE7;os e etapas do processo produtivo, obedecem todas elas aos imperativos da l&#xF3;gica financeira: dividir os riscos da produ&#xE7;&#xE3;o capitalista com os trabalhadores e com os consumidores, evitar que o capital fique empatado em ativos fixos e estoques de mat&#xE9;rias-primas e produtos, preservar e buscar a liquidez onde quer que ela esteja (PAULANI, 2006, p. 20).</p></disp-quote>
<p>Nesse sentido, a recente reestrutura&#xE7;&#xE3;o capitalista que leva &#xE0; flexibiliza&#xE7;&#xE3;o produtiva e do trabalho &#xE9; impulsionada pela valoriza&#xE7;&#xE3;o financeira que busca liquidez onde quer que ela esteja, a despeito das necessidades humanas b&#xE1;sicas dos lugares, de modo que a fluidez de capital desconsidera compromissos com o lugar, chega e sai se a maior liquidez exigir. Com efeito, a alta liquidez dos ativos financeiros escorre para os lugares com poder para impor as condi&#xE7;&#xF5;es para realiza&#xE7;&#xE3;o do valor, o que impinge o risco para os lugares. A seguran&#xE7;a do breve retorno das vantagens do investimento &#xE9; assegurada pelo pacote de medidas neoliberais envolvendo privatiza&#xE7;&#xF5;es, ajustes fiscais, corte de direitos sociais, amplia&#xE7;&#xE3;o dos t&#xED;tulos da d&#xED;vida p&#xFA;blica, especula&#xE7;&#xE3;o imobili&#xE1;ria e reconfigura&#xE7;&#xE3;o das cidades para a valoriza&#xE7;&#xE3;o financeira. A acumula&#xE7;&#xE3;o flex&#xED;vel &#xE9; um ajuste que avan&#xE7;a mais na supera&#xE7;&#xE3;o das fronteiras espa&#xE7;o-tempo, dando velocidade &#xE0; din&#xE2;mica econ&#xF4;mica e &#xE0;s rela&#xE7;&#xF5;es sociais, sobrepujando constrangimentos de ordem legal, social, geoespacial e econ&#xF4;mico para acumula&#xE7;&#xE3;o de capital.</p>
<p>A d&#xED;vida p&#xFA;blica tem papel central nesse processo porque enverga as diversas inst&#xE2;ncias e escalas dos aparelhos do Estado &#xE0; din&#xE2;mica financeirizada. O cr&#xE9;dito e a securitiza&#xE7;&#xE3;o em larga escala formam os gatilhos de novas e recorrentes crises, pela disjun&#xE7;&#xE3;o do capital fict&#xED;cio da produ&#xE7;&#xE3;o direta de valor no processo de produ&#xE7;&#xE3;o de mercadorias. Como essa autonomia n&#xE3;o pode se configurar em realidade absoluta, o relativo distanciamento provocado pelo ensejo de superar barreiras e chegar &#xE0; r&#xE1;pida valoriza&#xE7;&#xE3;o do valor do rentismo (D-D&#x2019;) &#x2013; que &#xE9; formador de bolhas financeiras &#x2013; que aprofundam crises porque atraem capitais para investimentos, por meio de falso potencial de valoriza&#xE7;&#xE3;o ou de capacidade de pagamento de d&#xED;vidas por devedores de empr&#xE9;stimos.</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B15">Chesnais (2005)</xref>, nessa configura&#xE7;&#xE3;o espec&#xED;fica do capitalismo, o capital portador de juros &#xE9; nuclear, atraindo capital interessado no r&#xE1;pido retorno de juros de empr&#xE9;stimos, dividendos e outras vantagens de especula&#xE7;&#xE3;o bem sucedida. Demarca, ainda, que para a centralidade da hegemonia da financeiriza&#xE7;&#xE3;o foram fundamentais as pol&#xED;ticas de liberaliza&#xE7;&#xE3;o, que expandiram a liberdade para acumula&#xE7;&#xE3;o e circula&#xE7;&#xE3;o de capital, em escala mundial. O esgotamento do fordismo-keynesianismo como modelo de gest&#xE3;o das contradi&#xE7;&#xF5;es sist&#xEA;micas se fez realidade. E essa liberaliza&#xE7;&#xE3;o flexibiliza e deslocaliza a produ&#xE7;&#xE3;o industrial, hiperdimensiona o desenvolvimento tecnol&#xF3;gico para a economia de tempo de capta&#xE7;&#xE3;o de mat&#xE9;ria-prima e de trabalho, assim como nivela os padr&#xF5;es de consumo, crescentemente mais internacionalizados.</p>
<p>Esse processo provoca a maior centraliza&#xE7;&#xE3;o dos oligop&#xF3;lios, aprofundando o poder dos mesmos sobre os aparatos socioecon&#xF4;micos; aquela din&#xE2;mica antevista por Marx relativamente ao papel do cr&#xE9;dito (e novos servi&#xE7;os financeiros) e do Estado como alavancas para reprodu&#xE7;&#xE3;o ampliada do capital centralizado (<xref ref-type="bibr" rid="B32">M&#xC9;SZ&#xC1;ROS, 2002</xref>). A din&#xE2;mica especulativa e oligopolista tensiona as possibilidades de enfrentamento das desigualdades sociorregionais, exatamente porque o projeto &#xE9; o de mobiliza&#xE7;&#xE3;o da concorr&#xEA;ncia como <italic>ethos</italic> dos lugares.</p>
<p>Sob esse aspecto, <xref ref-type="bibr" rid="B20">Harvey (2005)</xref> aduz que essa din&#xE2;mica da reestrutura&#xE7;&#xE3;o produtiva do capitalismo, p&#xF3;s-1970, impulsionou fortemente os governos locais para a especula&#xE7;&#xE3;o por meio do <italic>empreendedorismo urbano</italic>, mobilizando estrat&#xE9;gias para tornar a regi&#xE3;o atrativa ao capital, impelindo vigorosa concorr&#xEA;ncia entre os espa&#xE7;os. Por isso, os governos locais assumiram a provis&#xE3;o de infraestrutura de servi&#xE7;os, de oferta de terrenos, de ren&#xFA;ncias fiscais e de atra&#xE7;&#xF5;es culturais de massa, refor&#xE7;ando antigas formas econ&#xF4;micas e atraindo novas iniciativas<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref>. Denominou esse momento de deslocamento da gest&#xE3;o baseada no <italic>administrativismo</italic> para o <italic>empreendedorismo urbano</italic> nas formas dos governos. De modo que as regi&#xF5;es economicamente pouco din&#xE2;micas e aquelas outras que sofreram a recess&#xE3;o p&#xF3;s anos 1970 tomaram dire&#xE7;&#xE3;o muito semelhante em todo o mundo, criando mecanismos de vitrine para as cidades, minimizando o <italic>espa&#xE7;o do comum</italic> em favor de verdadeiras plataformas de mercado para o capital<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref>.</p>
<p>Esse paradigma gerencial do <italic>empreendedorismo urbano</italic> precisa ser relacionado como quest&#xE3;o-chave no novo debate sobre o desenvolvimento regional e sobre a <italic>quest&#xE3;o social</italic>. Afinal, a transi&#xE7;&#xE3;o do ciclo fordista para o flex&#xED;vel, no quadro da mundializa&#xE7;&#xE3;o capitalista, a maior &#xEA;nfase no local decorre da capacidade declinante do Estado-na&#xE7;&#xE3;o controlar os fluxos financeiros das empresas multinacionais &#x2013; dando proemin&#xEA;ncia &#xE0; negocia&#xE7;&#xE3;o empresas e poder local.</p>
<p>Ent&#xE3;o, quando Harvey fala em transi&#xE7;&#xE3;o do <italic>administrativismo</italic> para o <italic>empreendedorismo</italic> sugere que apreciemos na realidade concreta das regi&#xF5;es os impactos dessa tend&#xEA;ncia sobre as institui&#xE7;&#xF5;es urbanas e os ambientes urbanos constru&#xED;dos socialmente, observando: a maior fragmenta&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o social-urbano; o fen&#xF4;meno da &#x201C;cidade esparramada&#x201D; (desconcentra&#xE7;&#xE3;o urbana), com cria&#xE7;&#xE3;o de novas estruturas e padr&#xF5;es ecol&#xF3;gicos em rela&#xE7;&#xE3;o a como se organiza a produ&#xE7;&#xE3;o, a troca e o consumo, de como se estabelecem os relacionamentos sociais, de como se exerce o poder (financeiro e pol&#xED;tico), de como se alcan&#xE7;a a integra&#xE7;&#xE3;o espacial da a&#xE7;&#xE3;o social. Por isso, sugere que, no contexto do empreendedorismo regional, sejam analisadas as diversas escalas espaciais: zonas e comunidades locais, centro da cidade e sub&#xFA;rbios, regi&#xE3;o metropolitana, regi&#xE3;o administrativa, Estado-na&#xE7;&#xE3;o, entre outras. Observando-se os &#x201C;sujeitos empreendedores&#x201D;, pois o poder real de reorganiza&#xE7;&#xE3;o da vida urbana pode estar em outra parte que n&#xE3;o no governo ou numa coaliz&#xE3;o em que o governo desempenha papel facilitador e coordenador; pode estar, de fato, numa grande empresa multinacional no primeiro caso ou em aglomera&#xE7;&#xF5;es regionais, no segundo caso.</p>
<p>Harvey expressa a vis&#xE3;o de um conjunto de estudiosos que entendem que o elemento principal desse <italic>empreendedorismo</italic> &#xE9; a <italic>parceria p&#xFA;blico-privada</italic>, mobilizada pela iniciativa de empres&#xE1;rios e governo local para atrair fontes externas de financiamento, novos investimentos ou novas fontes de trabalho barato<xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref>. Para Harvey, a marca &#xE9; empreendedora porque &#xE9; especulativa e o risco fica por conta principalmente do Estado (ou melhor, o fundo p&#xFA;blico) e menos do capital privado.</p> <disp-quote>
<p>O novo empreendedorismo urbano se apoia na parceria p&#xFA;blico-privada, enfocando o investimento e o desenvolvimento econ&#xF4;mico, por meio da constru&#xE7;&#xE3;o especulativa do lugar em vez da melhoria das condi&#xE7;&#xF5;es num territ&#xF3;rio espec&#xED;fico, enquanto seu objetivo econ&#xF4;mico imediato (ainda que n&#xE3;o exclusivo)&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B20">HARVEY, 2005</xref>, p. 174).</p></disp-quote>
<p>Isso altera sobremaneira o pensamento e a pol&#xED;tica sobre as cidades e regi&#xF5;es que s&#xE3;o dirigidas para capitaliza&#xE7;&#xE3;o do lugar, em concorr&#xEA;ncia com outros espa&#xE7;os.</p>
<p>As estrat&#xE9;gias, para tanto, envolvem a disputa no &#xE2;mbito do desenvolvimento desigual dos sistemas urbanos no mundo capitalista, por meio da:</p>
<list list-type="order">
<list-item>
<p>Cria&#xE7;&#xE3;o de <italic>vantagens competitivas</italic>, porque a competi&#xE7;&#xE3;o na divis&#xE3;o internacional do trabalho exige a explora&#xE7;&#xE3;o de vantagens como recursos minerais, localiza&#xE7;&#xE3;o, infraestruturas f&#xED;sicas e sociais que fortale&#xE7;am a regi&#xE3;o como exportadora de bens e servi&#xE7;os, bem como est&#xED;mulo &#xE0; tecnologia, ao cr&#xE9;dito e a subs&#xED;dios (ren&#xFA;ncias fiscais, facilidades para uso de terrenos)<xref ref-type="fn" rid="fn21"><sup>21</sup></xref>.</p></list-item>
<list-item>
<p>Melhoria da posi&#xE7;&#xE3;o competitiva da regi&#xE3;o por meio do consumo, investindo em turismo e atra&#xE7;&#xF5;es associadas a grupos culturais e identit&#xE1;rios<xref ref-type="fn" rid="fn22"><sup>22</sup></xref>.</p></list-item>
<list-item>
<p>Luta para obten&#xE7;&#xE3;o do controle e comando das altas finan&#xE7;as, do governo, da coleta de informa&#xE7;&#xF5;es e seu processamento, hiperativando a vis&#xE3;o de que a cidade do futuro &#xE9; a cidade informacional, em que a exporta&#xE7;&#xE3;o de servi&#xE7;os &#xE9; a base para a sobreviv&#xEA;ncia urbana<xref ref-type="fn" rid="fn23"><sup>23</sup></xref>.</p></list-item>
<list-item>
<p>Redistribui&#xE7;&#xE3;o de <italic>super&#xE1;vits</italic> dos governos centrais, que ainda t&#xEA;m import&#xE2;ncia para a sobreviv&#xEA;ncia urbana das cidades.</p></list-item></list>
<p>Por meio dessas quatro estrat&#xE9;gias, &#x201C;a prosperidade desigual das regi&#xF5;es metropolitanas dependeu (depende) da natureza das coaliz&#xF5;es formadas, da combina&#xE7;&#xE3;o e do ritmo das estrat&#xE9;gias empreendedoras, dos recursos espec&#xED;ficos (naturais, humanos, locacionais) com os quais a regi&#xE3;o metropolitana &#xE9; capaz de trabalhar, e do poder de competi&#xE7;&#xE3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B20">HARVEY, 2005</xref>, p.176).</p>
<p>Mas, a concorr&#xEA;ncia interurbana coloca limites ao sucesso dos projetos espec&#xED;ficos, o que, ao mesmo tempo, impulsiona a reprodu&#xE7;&#xE3;o em s&#xE9;rie de artefatos (shoppings, festivais e feiras) nas distintas partes do planeta. Num mundo de concorr&#xEA;ncia acirrada, as press&#xF5;es coercitivas for&#xE7;am o capital multinacional a ser mais seletivo, e, por outro lado, nesse quadro de concorr&#xEA;ncia globalizada, &#x201C;a governan&#xE7;a&#x201D; se orienta para criar um ambiente favor&#xE1;vel aos neg&#xF3;cios para atrair capital &#xE0; cidade<xref ref-type="fn" rid="fn24"><sup>24</sup></xref>.</p> <disp-quote>
<p>O car&#xE1;ter especulativo dos investimentos urbanos deriva da incapacidade de prever exatamente qual pacote ter&#xE1; ou n&#xE3;o sucesso, num mundo de muita instabilidade e volatilidade econ&#xF4;mica. (&#x2026;) As rea&#xE7;&#xF5;es inovadoras e competitivas de muitas alian&#xE7;as urbanas da classe dirigente engendram mais incerteza, e, no fim, tornam o sistema urbano mais vulner&#xE1;vel &#xE0;s incertezas da mudan&#xE7;a acelerada (<xref ref-type="bibr" rid="B20">HARVEY, 2005</xref>, p. 180).</p></disp-quote>
<p>Diante dessa condi&#xE7;&#xE3;o mais especulativa e incerta das regi&#xF5;es, o <italic>empreendedorismo</italic> provoca impactos sobre a crise do capital, pois as parcerias p&#xFA;blico-privadas s&#xE3;o alternativas antic&#xED;clicas porque concedem subs&#xED;dios aos consumidores burgueses, a empresas e a atividades que garantem a privatiza&#xE7;&#xE3;o da cidade, penalizando o consumo coletivo dos trabalhadores. De modo geral, com a <italic>hipermobilidade</italic> do capital crescem os subs&#xED;dios locais ao capital e diminui a provis&#xE3;o local para os &#x201C;desprivilegiados&#x201D;, polarizando ainda mais a distribui&#xE7;&#xE3;o social da renda, da terra e da prote&#xE7;&#xE3;o social.</p>
<p>Al&#xE9;m disso, os tipos de trabalhos criados nessa <italic>onda empreendedora</italic> n&#xE3;o alteram a distribui&#xE7;&#xE3;o de renda porque s&#xE3;o centrados nas pequenas empresas e na terceiriza&#xE7;&#xE3;o, sustentados por variadas marcas de precariza&#xE7;&#xE3;o, com baixa qualifica&#xE7;&#xE3;o e tend&#xEA;ncia a maior distin&#xE7;&#xE3;o dos trabalhadores mais qualificados, o que amplia a desigualdade local.</p>
<p>Nesse quadro, em que a regi&#xE3;o se torna espa&#xE7;o preponderante da disputa por investimentos, as leis coercitivas da concorr&#xEA;ncia provocam uma pl&#xEA;iade de muitas inova&#xE7;&#xF5;es culturais, pol&#xED;ticas, de produ&#xE7;&#xE3;o e consumo de base urbana. Por conseguinte, provocam o fen&#xF4;meno do projeto de fragmentos urbanos com inova&#xE7;&#xF5;es em determinados territ&#xF3;rios ao inv&#xE9;s de planejamento urbano abrangente de uso pol&#xED;tico do espa&#xE7;o.</p>
<p>De fato, trata-se de um momento particular de reconfigura&#xE7;&#xE3;o do fluxo de capital nas regi&#xF5;es, que recondiciona a pol&#xED;tica nas localidades, capturando fundo p&#xFA;blico e mobilizando as regi&#xF5;es para o <italic>empreendedorismo</italic>.</p>
<p>Nas entranhas desses processos, o <italic>empreendedorismo</italic> estimula o desenvolvimento das atividades e dos esfor&#xE7;os que representam capitaliza&#xE7;&#xE3;o do solo, o que implica valoriza&#xE7;&#xE3;o das propriedades, com o correlato aprofundamento da desigualdade social, dada a hiperconcentra&#xE7;&#xE3;o fundi&#xE1;ria que estrutura a terra, em especial em forma&#xE7;&#xF5;es subdesenvolvidas como a do Brasil<xref ref-type="fn" rid="fn25"><sup>25</sup></xref>.</p>
<p>Em suma, essa nova etapa do capitalismo mundializado com domin&#xE2;ncia financeira se desdobra em resultados que levam a acelerar o decl&#xED;nio e n&#xE3;o a reverter o quadro economicamente depressivo do atraso local latente no debate sobre o desenvolvimento regional (<xref ref-type="bibr" rid="B12">BRAND&#xC3;O, 2007</xref>). Todavia, a imagem de prosperidade ganha proemin&#xEA;ncia nas narrativas governamentais e midi&#xE1;ticas, levando a regi&#xE3;o (convertida a &#xE1;rea de investimento) a ficar em evid&#xEA;ncia e expor o &#xEA;xito da <italic>parceria p&#xFA;blico-privada</italic>, mesmo que a vida real que corre por tr&#xE1;s dessa vitrine seja <italic>mais dura e desigual</italic>, nos tra&#xE7;os conhecidos como segrega&#xE7;&#xE3;o socioespacial e n&#xE3;o direito ao espa&#xE7;o p&#xFA;blico (<xref ref-type="bibr" rid="B42">ROLNIK, 2015</xref>).</p>
<p>O modo subliminar como a reprodu&#xE7;&#xE3;o dessa raz&#xE3;o neoliberal atinge a subjetividade dos indiv&#xED;duos e reconfigura as pr&#xE1;ticas sociais acentua a magnitude das mudan&#xE7;as. Como sociedade humana, essas exig&#xEA;ncias objetivas da din&#xE2;mica econ&#xF4;mica n&#xE3;o dizem respeito somente a c&#xE1;lculos impessoais de vantagens, mas exigem uma subjetividade coletiva coerente, que produza muta&#xE7;&#xE3;o no modo de vida. Nesse processo, aparelhos privados de hegemonia como a m&#xED;dia, por exemplo, t&#xEA;m relevante express&#xE3;o na produ&#xE7;&#xE3;o desse indiv&#xED;duo neoliberal em busca do seu melhor desempenho, como mostram: os <italic>realities shows</italic>, os esportes de alta competi&#xE7;&#xE3;o, a educa&#xE7;&#xE3;o financeira individual e toda literatura de autoajuda que alcan&#xE7;aram larga express&#xE3;o na &#xFA;ltima quadra hist&#xF3;rica. A mensagem do indiv&#xED;duo, que independe dos condicionantes estruturais da sociedade, atinge a capilaridade das diferentes dimens&#xF5;es das rela&#xE7;&#xF5;es sociais, vertebrando o modo de vida neoliberal efetivamente como competi&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Evidentemente, o Estado tem papel-chave nesse processo, deitando por terra aquele fetiche de retraimento que esteve em voga na assertiva de &#x201C;Estado m&#xED;nimo&#x201D;. A cr&#xED;tica dos &#xFA;ltimos 20 anos de capitalismo neoliberal mostra-nos que n&#xE3;o se tratou de um desengajamento do Estado, mas de mudan&#xE7;as da esp&#xE9;cie de sua inger&#xEA;ncia e de suas finalidades. Al&#xE9;m de privatizar empresas e servi&#xE7;os, vimos &#x201C;a instaura&#xE7;&#xE3;o de um Estado avaliador e regulador que mobiliza novos instrumentos de poder e, com eles, estrutura novas rela&#xE7;&#xF5;es entre governo e sujeitos sociais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B16">DARDOT; LAVAL, 2016</xref>, p. 273).</p>
<p>O Estado ajuda a fixar a din&#xE2;mica financeirizada do capital e, ao mesmo tempo, se submete a ela, operando uma profunda transfer&#xEA;ncia de renda para rentistas e empresas, respaldada no discurso do interesse nacional pela competitividade globalizada e na difus&#xE3;o da concorr&#xEA;ncia para o conjunto das esferas sociais.</p> <disp-quote>
<p>O Estado tem agora uma responsabilidade eminente no que se refere tanto ao apoio log&#xED;stico e de infraestrutura aos oligop&#xF3;lios quanto &#xE0; atra&#xE7;&#xE3;o desses grandes oligop&#xF3;lios para o territ&#xF3;rio administrado por ele. Isso diz respeito a dom&#xED;nios muito diversos: pesquisa, universidade, transportes, incentivos fiscais, ambiente cultural e urbaniza&#xE7;&#xE3;o, garantia de mercado (&#x2026;). Em outras palavras, a interven&#xE7;&#xE3;o governamental toma a forma de uma pol&#xED;tica de fatores de produ&#xE7;&#xE3;o e ambiente econ&#xF4;mico. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">DARDOT; LAVAL, 2016</xref>, p. 283).</p></disp-quote>
<p>Esse novo quadro normativo da a&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica, orientado pela concorr&#xEA;ncia, concebe a popula&#xE7;&#xE3;o e as regi&#xF5;es como recursos para a competi&#xE7;&#xE3;o ou entraves &#xE0; mesma, caso os indiv&#xED;duos e as institui&#xE7;&#xF5;es regionais n&#xE3;o se transformem em <italic>ativos positivos</italic> para o capital deslanchar mais valor.</p> <disp-quote>
<p>O novo regime de governo admite apenas &#x201C;stakeholders&#x201D;, &#x201C;partes interessadas&#x201D;, que t&#xEA;m interesse direto no sucesso do neg&#xF3;cio em que entraram espontaneamente. (&#x2026;). Enquanto na regula&#xE7;&#xE3;o antiga das rela&#xE7;&#xF5;es sociais tratava-se de conciliar l&#xF3;gicas que eram consideradas, de sa&#xED;da, diferentes e divergentes, o que implicava procurar um &#x201C;compromisso&#x201D;, na nova regula&#xE7;&#xE3;o os termos do acordo s&#xE3;o estabelecidos de imediato e de uma vez por todas, porque ningu&#xE9;m pode ser inimigo da efic&#xE1;cia e do bom desempenho. Assim, podemos ver que as formas dos conflitos est&#xE3;o fadadas a mudar nas empresas, nas institui&#xE7;&#xF5;es, na sociedade como um todo (<xref ref-type="bibr" rid="B16">DARDOT; LAVAL, 2016</xref>, p.285).</p></disp-quote>
<p>O confronto desse ordenamento neoliberal exige o aprofundamento da cr&#xED;tica das institui&#xE7;&#xF5;es e da subjetividade que lhe d&#xE1; sustenta&#xE7;&#xE3;o, e tornam anacr&#xF4;nicos os postulados e os imperativos jur&#xED;dicos dos direitos sociais e da responsabilidade p&#xFA;blica com a desigualdade social e regional, como estabelece a Constitui&#xE7;&#xE3;o Federal em vig&#xEA;ncia e suas regulamenta&#xE7;&#xF5;es. O <italic>ethos</italic> da competi&#xE7;&#xE3;o transforma qualquer paradigma distributivo e de justi&#xE7;a social em quase letra morta. A l&#xF3;gica empresarial de governos n&#xE3;o est&#xE1; voltada para enfrentar disparidades, mas para instrumentalizar material e simbolicamente a regi&#xE3;o <italic>para se distinguir na multid&#xE3;o</italic> de outros poss&#xED;veis campos de investimento. O Estado &#xE9; condi&#xE7;&#xE3;o da mobilidade do capital, ou seja, sua flexibilidade depende de que aquele crie infraestrutura f&#xED;sica e simb&#xF3;lica para a disposi&#xE7;&#xE3;o concorrencial. &#x201C;(&#x2026;) o Estado se p&#xF5;e a servi&#xE7;o de interesses oligopolistas espec&#xED;ficos e n&#xE3;o hesita em delegar a eles uma parte consider&#xE1;vel da gest&#xE3;o sanit&#xE1;ria, cultural, tur&#xED;stica ou at&#xE9; mesmo &#x2018;l&#xFA;dica&#x2019; da popula&#xE7;&#xE3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B16">DARDOT; LAVAL, 2016</xref>, p.286). Mas, fundamentalmente, a vis&#xE3;o empresarial torna o enfrentamento das disparidades sociais e regionais atrav&#xE9;s de pol&#xED;ticas e a&#xE7;&#xF5;es p&#xFA;blicas vetores de desperd&#xED;cio e inefic&#xE1;cia. A mobiliza&#xE7;&#xE3;o do aprimoramento do desempenho dos indiv&#xED;duos e da regi&#xE3;o transforma-se em campo de investimento material e imaterial do Estado.</p>
<p>Nesses termos, a perspectiva republicana e distributiva do debate sobre as desigualdades regionais, que mobilizou a intelectualidade e a pol&#xED;tica nos anos 1950-1970, &#xE9; suplantada pela mobiliza&#xE7;&#xE3;o da regi&#xE3;o para a competitividade. Isso coloca necessariamente novas exig&#xEA;ncias para as lutas sociais, porque as mesmas precisam formular uma cr&#xED;tica mais geral do empreendedorismo nas novas formas de vida e subjetividade do capitalismo, e, ao mesmo tempo, definir novas t&#xE1;ticas e estrat&#xE9;gias para o enfrentamento pol&#xED;tico da <italic>quest&#xE3;o regional</italic>. O anacronismo dessas pr&#xE1;ticas sociais especulativas e empreendedoras em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; Constitui&#xE7;&#xE3;o Federal denuncia, mais do que nunca, que a narrativa dos direitos sociais precisa ser substancialmente problematizada tendo como refer&#xEA;ncia as formula&#xE7;&#xF5;es do capital para sua crise, nas &#xFA;ltimas d&#xE9;cadas, confrontando as mesmas com as reais necessidades da maioria da popula&#xE7;&#xE3;o nas regi&#xF5;es. Isso exige confrontar a preponder&#xE2;ncia das corpora&#xE7;&#xF5;es empresariais nas a&#xE7;&#xF5;es dos governos e no poder sobre os destinos humanos e da natureza.</p>
<p>O capitalismo mundializado defronta-se com seus limites ambientais e de elimina&#xE7;&#xE3;o de empregos, de modo que alternativas keynesianas do passado s&#xE3;o descabidas hoje. Alternativas que n&#xE3;o enfrentem esse debate te&#xF3;rico e hist&#xF3;rico ser&#xE3;o reduzidas &#xE0; cria&#xE7;&#xE3;o de meros dispositivos t&#xE9;cnico-formalistas, esvaziados de pot&#xEA;ncia pol&#xED;tica para lidar com as disparidades regionais produzidas no atual contexto. A recente Pol&#xED;tica Nacional de Desenvolvimento Regional teve esse desfecho (<xref ref-type="bibr" rid="B4">AMPARO, 2014</xref>). A viol&#xEA;ncia da longa ruptura expressa nas atuais crises e nas imensas desigualdades confrontam as promessas de prosperidade por meio da exponencia&#xE7;&#xE3;o da cobi&#xE7;a e da competi&#xE7;&#xE3;o reprodutora de valor.</p>
<p>O resultado desses 30 anos de mundializa&#xE7;&#xE3;o neoliberal pode ser verificado no aumento da concentra&#xE7;&#xE3;o de renda e oligopoliza&#xE7;&#xE3;o empresarial. Em 2011, economistas su&#xED;&#xE7;os mostraram que 737 entidades (bancos, seguradoras ou grandes grupos industriais) controlavam 80% do valor das 43.000 multinacionais da lista da OCDE (Organiza&#xE7;&#xE3;o para a Coopera&#xE7;&#xE3;o e Desenvolvimento Econ&#xF4;mico). Desagregando os dados, os pesquisadores demarcaram que 147 multinacionais daquele montante possu&#xED;am 40% de todas as multinacionais do mundo. Neste grupo, 50 grandes detentores de capital constitu&#xED;am uma &#x201C;superentidade&#x201D;. Basicamente, a articula&#xE7;&#xE3;o era formada pelo capital financeiro, em suas variadas vers&#xF5;es &#x2013; banco, seguradora, <italic>hedge funds</italic> e outras carteiras de investimentos. Ou seja, esses 50 dominavam a din&#xE2;mica pol&#xED;tica e econ&#xF4;mica mundial. O risco sist&#xEA;mico de bolhas dessas alternativas da rede financeira lembra a crise <italic>subprime</italic> (2008) e sinaliza o poder de acionistas e investidores para realizar reestrutura&#xE7;&#xF5;es nas empresas ou impor mudan&#xE7;as aos Estados, como o faz a chamada &#x201C;agenda de austeridade fiscal&#x201D;, levada &#xE0; frente pelas ag&#xEA;ncias multilaterais (<xref ref-type="bibr" rid="B45">VITALI et al., 2011</xref>). N&#xE3;o s&#xF3; h&#xE1; uma forte concentra&#xE7;&#xE3;o, como os segmentos envolvidos est&#xE3;o integrados entre si, em suas prioridades de investimento, amplificando o poder econ&#xF4;mico e pol&#xED;tico.</p>
<p>Dados de um estudo publicado neste ano mostram que a dist&#xE2;ncia entre os mais ricos e os mais pobres foi alargada, pois o 1% mais rico mant&#xE9;m um fosso enorme em rela&#xE7;&#xE3;o aos 99% restantes da humanidade (<xref ref-type="bibr" rid="B38">OXFAM, 2017</xref>). O estudo, que consulta base de dados do <italic>Credit Suisse Wealth Report 2016</italic> e da lista de milion&#xE1;rio da Forbes, mostra que o ritmo desse distanciamento est&#xE1; mais acelerado que em outros tempos, demonstrando que o modelo de sociedade em curso avan&#xE7;a efetivamente para a barb&#xE1;rie. Apenas oito homens concentram a riqueza da metade mais pobre do mundo, ou seja, 3,6 bilh&#xF5;es de pessoas. O estudo alerta para como esses agentes do capital atuam para aprofundar essa disparidade, al&#xE9;m de mencionar o alto rendimento de a&#xE7;&#xF5;es e investimentos financeiros. A maximiza&#xE7;&#xE3;o de altos lucros &#xE9; proporcionada pela estrat&#xE9;gia de pagar poucos impostos, usando para isso os para&#xED;sos fiscais e a concorr&#xEA;ncia entre regi&#xF5;es que disputam ofertas de incentivos e tributos baixos. Aponta o estudo que a queda de impostos das empresas, a queda da renda do trabalho e os altos retornos financeiros de acionistas est&#xE3;o entre as vari&#xE1;veis que alimentam mais esse fosso. H&#xE1; ainda, segundo o estudo, os artif&#xED;cios de financiamento de candidaturas pol&#xED;ticas, as atividades de <italic>lobby</italic> e os subs&#xED;dios a centros de estudo e a universidades que, ao promoverem a agenda de austeridade e <italic>empreendedorismo,</italic> influenciam material e politicamente as inst&#xE2;ncias do Estado e de forma&#xE7;&#xE3;o cultural, em favor da continuidade e aprofundamento dessas disparidades.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B43">Salvador (2016)</xref> evidencia essas vantagens do capital, proporcionadas por desregulamenta&#xE7;&#xF5;es neoliberais, ao estudar o sistema tribut&#xE1;rio brasileiro. Afirma ele que, al&#xE9;m do imposto indireto regressivo que atinge sobremaneira os trabalhadores, o imposto direto via declara&#xE7;&#xE3;o anual de renda n&#xE3;o taxa adequadamente as fortunas. As informa&#xE7;&#xF5;es sobre rendimentos e bens da Secretaria da Receita Federal, entre os anos de 2007 e 2014, mostram que 0,36% (700.000) da popula&#xE7;&#xE3;o declarante det&#xE9;m um patrim&#xF4;nio de 45,54% do total. O estudo &#xE9; amplo e pertinente a esse debate da desigualdade e da injusti&#xE7;a tribut&#xE1;ria, revelando o descalabro da n&#xE3;o taxa&#xE7;&#xE3;o de lucros e dividendos, por exemplo, levando ao dado acachapante de que os 71.440 declarantes mais ricos, com renda acima de 160 sal&#xE1;rios-m&#xED;nimos em 2013, tinham 65,80% de sua renda de rendimentos isentos e n&#xE3;o tribut&#xE1;veis. E, diz o estudo, que a geografia dessa concentra&#xE7;&#xE3;o de renda e patrim&#xF4;nio envolve principalmente os estados de S&#xE3;o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paran&#xE1;, de modo que o sistema tribut&#xE1;rio ao inv&#xE9;s de reverter ou atenuar agruras do perene quadro de desigualdade regional, as aprofunda. Nesse sentido, o Imposto de Renda tem efeitos concentradores de renda, que foram aprofundados a partir de 1995 pela legisla&#xE7;&#xE3;o neoliberal que permitiu que lucros e dividendos, e suas remessas ao exterior ficassem isentos de tributa&#xE7;&#xE3;o. O pesquisador mostra que a sustenta&#xE7;&#xE3;o da receita de impostos &#xE9; dada pelas remunera&#xE7;&#xF5;es de trabalhadores assalariados e funcion&#xE1;rios p&#xFA;blicos, que s&#xE3;o visados tamb&#xE9;m pela agenda de ajuste fiscal, que, invari&#xE1;vel e periodicamente, diminui a renda dessas camadas sociais.</p>
<p>Vimos, ent&#xE3;o, que ao refletir sobre a totalidade social conseguimos destacar como a mesma se desdobra no fen&#xF4;meno das disparidades regionais e a justi&#xE7;a tribut&#xE1;ria &#xE9; um bom exemplo do disparate em an&#xE1;lise aqui, ao mesmo tempo, mostrando o papel ativo do Estado na produ&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o com esses contornos de desigualdade sociorregional.</p>
<p>Em suma, a desigualdade da neoliberaliza&#xE7;&#xE3;o proporcionou relativo deslocamento dos efeitos da crise de realiza&#xE7;&#xE3;o do valor, sustentada na maior especula&#xE7;&#xE3;o nas regi&#xF5;es. O planejamento regional de supera&#xE7;&#xE3;o dos indicadores perversos das disparidades sociorregionais parece uma <italic>ideia fora do lugar</italic> e do tempo hist&#xF3;rico do capital. Isso n&#xE3;o significa impossibilidade da a&#xE7;&#xE3;o hist&#xF3;rica de resist&#xEA;ncia, mas a disputa para mudar esse quadro envolve compreender mais densamente essa fase do capitalismo e porque as disparidades regionais s&#xE3;o alavancas para especula&#xE7;&#xE3;o.</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>Considera&#xE7;&#xF5;es finais</title>
<p>Esse pensamento sobre o <italic>empreendedorismo</italic> como estrat&#xE9;gia para a regi&#xE3;o introduz nova densidade &#xE0; <italic>quest&#xE3;o regional</italic>, na medida em que dissemina a especula&#xE7;&#xE3;o como din&#xE2;mica da vida comum. Essa inflex&#xE3;o aprofunda as diferen&#xE7;as sociais, potencializando as contradi&#xE7;&#xF5;es sociais que est&#xE3;o na base da <italic>quest&#xE3;o social</italic>. Na l&#xF3;gica do desenvolvimento espacial capitalista contempor&#xE2;neo, a competi&#xE7;&#xE3;o funciona como lei coercitiva, decorrendo da&#xED; um sistema urbano organizado de modo competitivo. As assimetrias deixam de ser negativas para o pacto federativo, mas impulsionadoras da competitividade.</p>
<p>Nesse quadro, os servi&#xE7;os coletivos, as pol&#xED;ticas sociais, a moradia e a qualidade do trabalho perdem proemin&#xEA;ncia na agenda p&#xFA;blica, exceto se servem para incrementar neg&#xF3;cios por meio de parceria p&#xFA;blico-privada.</p>
<p>A competi&#xE7;&#xE3;o &#xE9; uma lei tendencial da vida capitalista e nesse tecido social se insere a <italic>governan&#xE7;a urbana neoliberal</italic>, reproduzindo as necessidades da realiza&#xE7;&#xE3;o do valor, de modo que variados fermentos s&#xE3;o dosados para atrair e estimular o desenvolvimento, sob condi&#xE7;&#xF5;es locais espec&#xED;ficas e por meio de a&#xE7;&#xF5;es coordenadas de empresas, poder p&#xFA;blico e outras institui&#xE7;&#xF5;es. Isso se faz repondo o contraste entre o vigor superficial de diversos projetos de regenera&#xE7;&#xE3;o de economias urbanas debilitadas e as tend&#xEA;ncias subjacentes da condi&#xE7;&#xE3;o urbana, como cidade dupla com centro regenerado e um mar circundante de pobreza. Os resultados delet&#xE9;rios precisam ser pensados no quadro das consequ&#xEA;ncias macroecon&#xF4;micas, como o impacto regressivo sobre a distribui&#xE7;&#xE3;o de renda e o enfrentamento das refra&#xE7;&#xF5;es da <italic>quest&#xE3;o social</italic>.</p>
<p>Esse quadro te&#xF3;rico interpretativo sobre a regi&#xE3;o sugere desafios ao debate, no sentido de compreender a din&#xE2;mica regional especulativa como dimens&#xE3;o da <italic>quest&#xE3;o social,</italic> de car&#xE1;ter historicamente diferenciado, no atual contexto do capitalismo<italic>.</italic></p>
<p>A expans&#xE3;o das fronteiras decorrentes da mundializa&#xE7;&#xE3;o do capital dos tempos recentes &#x2013; que abre novos campos de valoriza&#xE7;&#xE3;o do valor &#x2013; se coaduna com esse processo especulativo das regi&#xF5;es, impondo-se como resposta neoliberal &#xE0; crise, mesmo que sem resolv&#xEA;-la. Nesse quadro, a quest&#xE3;o democr&#xE1;tica se imp&#xF5;e como um problema efetivamente esgar&#xE7;ado com a acentua&#xE7;&#xE3;o do poder do capital e a regressividade dos direitos sociais. Ou seja, o panorama da maior mundializa&#xE7;&#xE3;o determina o dilema da localidade como poss&#xED;vel estrat&#xE9;gia para atuar nesse quadro de volatilidade capitalista, aprofundando a concorr&#xEA;ncia urbana entre as regi&#xF5;es, o que esquenta ainda mais as desigualdades sociais e geogr&#xE1;ficas.</p>
<p>A <italic>quest&#xE3;o meridional</italic> brasileira &#x2013; das disparidades sociorregionais &#x2013; exige um pensamento te&#xF3;rico e pol&#xED;tico consequente no bojo da constru&#xE7;&#xE3;o de um novo bloco hist&#xF3;rico, por isso &#xE9; preciso aprofundar o entendimento de como as regi&#xF5;es se inserem nessa volatilidade recente do capital, que exige estrat&#xE9;gias de retorno de valor com a competi&#xE7;&#xE3;o dos lugares, esvaziando de sentido as premissas republicanas. Efetivamente, o dogma da austeridade fiscal e da competi&#xE7;&#xE3;o, como deslocamento da crise, d&#xE3;o novos contornos para a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> e enfraquecem as proposi&#xE7;&#xF5;es de planejamento regional p&#xFA;blico como estrat&#xE9;gia redistributiva. Ao contr&#xE1;rio, as regi&#xF5;es precisam buscar, principalmente, compet&#xEA;ncias end&#xF3;genas para inser&#xE7;&#xE3;o na din&#xE2;mica da divis&#xE3;o internacional do trabalho, do tempo presente.</p>
<p>Essa reflex&#xE3;o precisa avan&#xE7;ar ainda mais, no sentido de problematizar o Estado como agente da produ&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o, por onde sacramenta sua simbiose com o capital, seja criando as condi&#xE7;&#xF5;es da produ&#xE7;&#xE3;o seja o controle do territ&#xF3;rio. Como situamos brevemente aqui, a conex&#xE3;o da regi&#xE3;o com o plano mundial exige atua&#xE7;&#xE3;o do Estado, seja formulando os aparatos legais e normativos (desonera&#xE7;&#xF5;es, incentivos e desregulamenta&#xE7;&#xF5;es), seja criando situa&#xE7;&#xF5;es de seguran&#xE7;a (fiscal, monet&#xE1;ria e policial) que tornem interessante a invers&#xE3;o de capital.</p>
</sec></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>&#x201C;A no&#xE7;&#xE3;o de regi&#xE3;o (&#x2026;) remonta ao per&#xED;odo do Imp&#xE9;rio Romano, estando fortemente associada &#xE0; rela&#xE7;&#xE3;o entre centraliza&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica e sua extens&#xE3;o sobre um territ&#xF3;rio marcado por fortes diversidades, e essas s&#xE3;o as marcas fundamentais do conceito at&#xE9; hoje: centraliza&#xE7;&#xE3;o de um lado, diversidade do outro. O uso da no&#xE7;&#xE3;o no senso comum ressalta em geral o aspecto da diferen&#xE7;a &#x2013; com grande realce para as de cunho natural &#x2013; ao passo que omite o car&#xE1;ter pol&#xED;tico de controle do territ&#xF3;rio embutido nesta. Tamb&#xE9;m a geografia no seu nascedouro ressaltou o car&#xE1;ter da diversidade espacial e mascarou a natureza pol&#xED;tica da ideia de regi&#xE3;o, atribuindo grande import&#xE2;ncia &#xE0;s influ&#xEA;ncias do ambiente no desenvolvimento das sociedades, ao mesmo tempo em que eram escamoteados os interesses pol&#xED;ticos por tr&#xE1;s da organiza&#xE7;&#xE3;o centralizada do espa&#xE7;o. (&#x2026;) Dentro desta perspectiva, a regi&#xE3;o &#xE9; vista como um dado, uma unidade que tem exist&#xEA;ncia concreta&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B2">ALENTEJANO, 1998</xref>, p. 75). Essa orienta&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; na primeira fase do debate sobre regi&#xE3;o e de defini&#xE7;&#xE3;o das regi&#xF5;es do Brasil, delineadas em especial a partir do aspecto morfoclim&#xE1;tico (clima e vegeta&#xE7;&#xE3;o).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>O conceito de desenvolvimento desigual e combinado &#xE9; abordado por <xref ref-type="bibr" rid="B37">Oliveira (2003)</xref>, a partir da formula&#xE7;&#xE3;o de Trotsky sobre a din&#xE2;mica dos pa&#xED;ses retardat&#xE1;rios do capitalismo que queimam etapas hist&#xF3;ricas, associando modernidade e arca&#xED;smo. Anteriormente, o tema marxiano da desigualdade geogr&#xE1;fica havia sido atualizado por L&#xEA;nin, no estudo do Imperialismo como etapa hist&#xF3;rica do sistema do capital, que engendra uma divis&#xE3;o internacional do trabalho peculiar com inser&#xE7;&#xF5;es diferentes das regi&#xF5;es geogr&#xE1;ficas mundiais, que lhe ofertam dado poder econ&#xF4;mico e pol&#xED;tico. Ou seja, a reprodu&#xE7;&#xE3;o ampliada do capital e do modo de vida social que lhe &#xE9; inerente reproduz tamb&#xE9;m uma perspectiva geogr&#xE1;fica de poder, conformando uma din&#xE2;mica que hipercentraliza a geopol&#xED;tica imperialista, polarizada em poucas grandes pot&#xEA;ncias.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p>Especifica-se, ainda, que a an&#xE1;lise da regi&#xE3;o absorve multidimens&#xF5;es e multiescalas. Isso quer dizer, por um lado, h&#xE1; muitas vari&#xE1;veis de an&#xE1;lise porque o meio ambiente (natureza) e a economia est&#xE3;o articulados a fatores pol&#xED;ticos, culturais e sociais. E, por outro lado, que exige a abordagem escalar, porque a regi&#xE3;o &#xE9; pass&#xED;vel de ser pensada como din&#xE2;mica supralocal, de &#xE2;mbito mais abrangente entre inst&#xE2;ncias subnacionais, ordenamentos nacionais e ainda blocos continentais supranacionais (Mercosul, Uni&#xE3;o Europeia, Alca, entre outras).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>Nessa linha, Gramsci evidencia tamb&#xE9;m a necessidade de o projeto transformador comunista lidar com a solidariedade dos trabalhadores a partir da <italic>quest&#xE3;o regional</italic>, imaginando-se alian&#xE7;as com os segmentos mais espoliados, colocando em cena a regi&#xE3;o e a pol&#xED;tica (GRAMSCI, 1987).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>O melhor a dizer &#xE9; que no per&#xED;odo do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) n&#xE3;o foi formulada uma pol&#xED;tica de desenvolvimento regional, mas data dessa &#xE9;poca a <italic>contrarreforma</italic> do Estado que difundiu o fortalecimento do desenvolvimento local em associa&#xE7;&#xE3;o com as premissas das ag&#xEA;ncias multilaterais como o Banco Mundial. O fetiche da localidade por suas virtudes supostamente cooperativas, acima dos conflitos de classe, foi instigantemente abordado por Francisco de Oliveira que demonstrou o contrassenso das proposi&#xE7;&#xF5;es na era de maior concentra&#xE7;&#xE3;o oligop&#xF3;lica do capitalismo, destacando inclusive como essa ilus&#xE3;o tomou segmentos da pr&#xF3;pria esquerda em busca de mudan&#xE7;as paradigm&#xE1;ticas da pol&#xED;tica, escorregando para a n&#xE3;o pol&#xED;tica (<xref ref-type="bibr" rid="B37">OLIVEIRA, 2003</xref>).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Essas superintend&#xEA;ncias foram criadas no ciclo desenvolvimentista, que expandiu a din&#xE2;mica urbanoindustrial no pa&#xED;s e provocou o debate sobre a concentra&#xE7;&#xE3;o espacial dos investimentos. A SUDAM foi criada em 1966 e extinta em 2001. A SUDENE foi criada em 1959 e extinta no ano de 2001. A SUDECO foi criada em 1967 e extinta em 1990. De certo modo, a data de cria&#xE7;&#xE3;o e de extin&#xE7;&#xE3;o diz muito sobre o contexto social e pol&#xED;tico, culminando os anos 1990 como base da interrup&#xE7;&#xE3;o das a&#xE7;&#xF5;es do Estado referidas &#xE0;s disparidades regionais.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn7">
<label>7</label>
<p>O IBGE chama de microrregi&#xF5;es o espa&#xE7;o organizado por munic&#xED;pios lim&#xED;trofes e mesorregi&#xF5;es o agrupamento de microrregi&#xF5;es de um estado da federa&#xE7;&#xE3;o, em raz&#xE3;o de indicadores econ&#xF4;micos e sociais similares. As faixas de fronteira s&#xE3;o tamb&#xE9;m parte desses recortes regionais, evidenciando a particularidade dos espa&#xE7;os formados por munic&#xED;pios brasileiros situados na faixa interna de 150 km de largura, paralela &#xE0; linha divis&#xF3;ria terrestre do territ&#xF3;rio nacional e que t&#xEA;m suas din&#xE2;micas socioecon&#xF4;micas limitadas, por serem &#xE1;reas de seguran&#xE7;a nacional. Conforme o tempo passa, estudiosos e t&#xE9;cnicos de governo tamb&#xE9;m tentam precisar essas formula&#xE7;&#xF5;es inventando novas possibilidades de recortes do espa&#xE7;o, apurando situa&#xE7;&#xF5;es como Centro-Sul, Leste, Nordeste Setentrional, entre outros. As pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas tamb&#xE9;m foram aperfei&#xE7;oadas com estrat&#xE9;gias regionalizadas e/ou territorializadas para diagn&#xF3;sticos, oferta de servi&#xE7;os, estudo de impactos e articula&#xE7;&#xE3;o de setores. Os cons&#xF3;rcios de servi&#xE7;os p&#xFA;blicos, como os que envolvem implanta&#xE7;&#xE3;o e gest&#xE3;o de hospitais especializados, s&#xE3;o exemplos dessa fei&#xE7;&#xE3;o mais regionalizada da pol&#xED;tica p&#xFA;blica. Recentemente, em 2015, foi institu&#xED;do o Estatuto da Metr&#xF3;pole que visa &#xE0; gest&#xE3;o comum de territ&#xF3;rios interligados como os existentes nas regi&#xF5;es metropolitanas (Lei 13.089, 13/1/15), para a&#xE7;&#xE3;o interfederativa de problemas urbanos conexos, o que &#xE9; chamado de <italic>governan&#xE7;a</italic> metropolitana.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn8">
<label>8</label>
<p>Marx desnaturalizou as interpreta&#xE7;&#xF5;es sobre a popula&#xE7;&#xE3;o quando afirmou que cada modo de produ&#xE7;&#xE3;o tem seu pr&#xF3;prio modo de formar a popula&#xE7;&#xE3;o, e que no capitalismo ela est&#xE1; fundada na expropria&#xE7;&#xE3;o dos meios de produ&#xE7;&#xE3;o e libera&#xE7;&#xE3;o de contingente humano dispon&#xED;vel para o trabalho. Esse processo de expropria&#xE7;&#xE3;o, explora&#xE7;&#xE3;o e aliena&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; expresso nas pr&#xE1;ticas e rela&#xE7;&#xF5;es sociais nos lugares, conformando as concentra&#xE7;&#xF5;es urbanas em certos cantos e os vazios em outros. Essa diversidade do movimento do capital no territ&#xF3;rio brasileiro exp&#xF5;e a mobilidade do capital e do trabalho como parte da din&#xE2;mica societ&#xE1;ria.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn9">
<label>9</label>
<p>Se desde o s&#xE9;culo XIX a quest&#xE3;o nordestina era um desafio pol&#xED;tico no Brasil, a mesma se acentua em meados do s&#xE9;culo passado e perdura hoje, ainda que tenha sofrido transforma&#xE7;&#xF5;es relevantes. Todavia, nos &#xFA;ltimos 30 anos a <italic>quest&#xE3;o regional</italic> ganhou outros contornos no debate intelectual e pol&#xED;tico com os problemas do pacto federativo, da reprodu&#xE7;&#xE3;o de desigualdades no interior de regi&#xF5;es din&#xE2;micas, dos impactos da internacionaliza&#xE7;&#xE3;o dos mercados e da forma&#xE7;&#xE3;o da aglomera&#xE7;&#xE3;o Mercosul. At&#xE9; os anos 1930 preponderava certa autonomia das regi&#xF5;es e a articula&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica interna no pa&#xED;s era fr&#xE1;gil, predominando o que <xref ref-type="bibr" rid="B19">Furtado (1976)</xref> chamou de <italic>arquip&#xE9;lagos</italic> que se articulavam diretamente com o mercado externo. Ap&#xF3;s o incremento urbanoindustrial no pa&#xED;s, com a concentra&#xE7;&#xE3;o de atividades em S&#xE3;o Paulo e estados pr&#xF3;ximos, se imp&#xF5;e efetivamente a <italic>quest&#xE3;o regional</italic>, fruto da a&#xE7;&#xE3;o do capital para fins de sua acumula&#xE7;&#xE3;o no territ&#xF3;rio nacional, evidenciando-se o desdobramento da reconceitua&#xE7;&#xE3;o da divis&#xE3;o regional brasileira como hoje conhecemos pelo IBGE, associando os fatores natureza e din&#xE2;mica socioecon&#xF4;mica.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn10">
<label>10</label>
<p>Joseph Schumpeter, economista austr&#xED;aco, estudando o desenvolvimento capitalista, evidenciou o processo de inova&#xE7;&#xE3;o na economia de mercado, destruindo antigos modelos produtivos e de neg&#xF3;cios. As inova&#xE7;&#xF5;es empresariais seriam a for&#xE7;a motriz do crescimento de longo prazo, mesmo que destruindo capitais. Introdu&#xE7;&#xE3;o de novos produtos, novos m&#xE9;todos de produ&#xE7;&#xE3;o, novos mercados, novas fontes de mat&#xE9;ria-prima e novos monop&#xF3;lios comp&#xF5;em a engrenagem que d&#xE1; vitalidade &#xE0; economia capitalista. Essas ondas de inova&#xE7;&#xE3;o seriam a alavanca do desenvolvimento (1982). Esse pensamento tem influenciado tamb&#xE9;m as vers&#xF5;es contempor&#xE2;neas do fetiche do empreendedorismo.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn11">
<label>11</label>
<p>Como se sabe a Escola ou Teoria da Regula&#xE7;&#xE3;o &#xE9; uma corrente de pensamento francesa de meados da d&#xE9;cada de 1970 e que, a partir dos anos 1990, interpreta a crise do capitalismo como inerente ao sistema que &#xE9; efetivamente inst&#xE1;vel, mas as experi&#xEA;ncias das ondas longas de desenvolvimento (1945-1970) demonstram que o aparato regulat&#xF3;rio pactuado pode servir como instrumento antic&#xED;clico. Um regime de acumula&#xE7;&#xE3;o que concatena a organiza&#xE7;&#xE3;o produtiva com o padr&#xE3;o de consumo intercepta crises de superprodu&#xE7;&#xE3;o, e, ao mesmo tempo, as leis, valores e institui&#xE7;&#xF5;es relacionados podem garantir a coes&#xE3;o social. As obras de Michel Aglietta e Robert Boyer s&#xE3;o express&#xF5;es dessa corrente de pensamento, que almeja conter as crises do capital e que foi analisada em profundidade por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Braga (2003)</xref>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn12">
<label>12</label>
<p>Para o que s&#xE3;o essenciais os variados aparelhos de hegemonia do capital, como Organiza&#xE7;&#xE3;o Mundial do Com&#xE9;rcio, a Organiza&#xE7;&#xE3;o para Coopera&#xE7;&#xE3;o e Desenvolvimento Econ&#xF4;mico, o Banco Mundial, o Fundo Monet&#xE1;rio Internacional e o F&#xF3;rum Econ&#xF4;mico Mundial.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn13">
<label>13</label>
<p>Alfred Weber foi um dos expoentes que no in&#xED;cio do s&#xE9;culo passado desenvolveu a teoria cl&#xE1;ssica da localiza&#xE7;&#xE3;o industrial, elucidando o papel dos transportes, dos fluxos de m&#xE3;o-de-obra e da aglomera&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica para a localiza&#xE7;&#xE3;o do capital e seu desempenho (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BENKO, 1999</xref>).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn14">
<label>14</label>
<p>Para a empresa, a mundializa&#xE7;&#xE3;o acelera o grau de liberdade do tr&#xE2;nsito (localiza&#xE7;&#xE3;o e relocaliza&#xE7;&#xE3;o) de ativos no espa&#xE7;o mundial, mas isso &#x201C;n&#xE3;o rima com dispers&#xE3;o das atividades no espa&#xE7;o mundial. Pelo contr&#xE1;rio, a polariza&#xE7;&#xE3;o (concentra&#xE7;&#xE3;o espacial) acelera-se a n&#xED;vel mundial e dentro dos pa&#xED;ses&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B34">MOUHOUD, 2007</xref>, p. 3).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn15">
<label>15</label>
<p>Essa foi a abordagem de <xref ref-type="bibr" rid="B29">Alfred Marshall (1988)</xref> sobre os distritos industriais, demonstrando as vantagens da ind&#xFA;stria localizada pela proximidade da mat&#xE9;ria-prima e do mercado consumidor, al&#xE9;m da regi&#xE3;o concentrar m&#xE3;o-de-obra especializada e fluxo de conhecimentos para o dinamismo local, de modo que a regi&#xE3;o daria vantagens para variadas empresas do mesmo ramo ou similar.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn16">
<label>16</label>
<p>Cadeia produtiva &#xE9; o termo usado para designar o conjunto de etapas t&#xE9;cnicas sucessivas do processo de produ&#xE7;&#xE3;o e distribui&#xE7;&#xE3;o, que funciona de modo integrado entre v&#xE1;rias unidades intra e interempresas, envolvendo desde a mat&#xE9;ria-prima at&#xE9; a distribui&#xE7;&#xE3;o do produto ou mesmo at&#xE9; o descarte de efluentes e res&#xED;duos s&#xF3;lidos. Com a flexibiliza&#xE7;&#xE3;o produtiva, que horizontaliza a produ&#xE7;&#xE3;o em rede de subcontrata&#xE7;&#xE3;o de empresas e trabalhadores, o estudo da cadeia produtiva dos ramos &#xE9; fundamental para compreender o processo de produ&#xE7;&#xE3;o e de trabalho. Hoje, o estudo de uma empresa isolada diz pouco sobre o processo produtivo e do trabalho, que necessariamente precisa considerar o espa&#xE7;o.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn17">
<label>17</label>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B34">Mouhoud (2007)</xref> considera importante relacionar que essa liberdade de localiza&#xE7;&#xE3;o da empresa envolve uma heterogeneidade de pr&#xE1;ticas de deslocaliza&#xE7;&#xE3;o em termos estruturais e hist&#xF3;ricos, por isso sinaliza a situa&#xE7;&#xE3;o de v&#xE1;rias corpora&#xE7;&#xF5;es que retornaram aos pa&#xED;ses de origem depois de experi&#xEA;ncias de deslocaliza&#xE7;&#xF5;es, em geral por serem empresas de forte agregado tecnol&#xF3;gico que, no quadro atual, n&#xE3;o poderiam somente tirar vantagens de for&#xE7;a de trabalho mais barata, o que &#xE9; mais adequado ao ramo menos automatizado. Imperfei&#xE7;&#xF5;es de servi&#xE7;os deslocalizados ou dificuldade de coordena&#xE7;&#xE3;o das rela&#xE7;&#xF5;es subcontratadas tamb&#xE9;m est&#xE3;o entre os motivos da reviravolta, segundo o autor. Nesse sentido, as experi&#xEA;ncias de deslocaliza&#xE7;&#xE3;o seriam variadas e referidas &#xE0;s necessidades dos ramos e mercados.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn18">
<label>18</label>
<p>Os exemplos mais emblem&#xE1;ticos s&#xE3;o as disputas entre regi&#xF5;es para abrigar grandes corpora&#xE7;&#xF5;es realizando &#x201C;guerra fiscal&#x201D;, que significa disputa por oferta de subs&#xED;dios ao capital com desonera&#xE7;&#xF5;es fiscais e servi&#xE7;os p&#xFA;blicos (<xref ref-type="bibr" rid="B13">CARDOZO, 2014</xref>).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn19">
<label>19</label>
<p>Os eventos do Campeonato Mundial de Futebol (Copa do Mundo) no Brasil em 2014 e das Ol&#xED;mpiadas em 2016, no Rio de Janeiro, s&#xE3;o express&#xF5;es dessa expans&#xE3;o mercantil sobre as regi&#xF5;es, suspendendo os dispositivos constitucionais do direito &#xE0; cidade e das licen&#xE7;as ambientais, expondo o car&#xE1;ter predat&#xF3;rio do capital sobre as regi&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B27">MARICATO, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B42">ROLNIK, 2015</xref>)</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn20">
<label>20</label>
<p>Nos &#xFA;ltimos anos, tivemos variadas a&#xE7;&#xF5;es dos governos do Partido dos Trabalhadores que respondiam a essa demanda de amplia&#xE7;&#xE3;o empreendedora das fronteiras do capital, promovendo crescimento econ&#xF4;mico e aprofundando as contradi&#xE7;&#xF5;es sociais nas regi&#xF5;es, como s&#xE3;o os casos dos projetos de infraestrutura com as Usinas Hidroel&#xE9;tricas na regi&#xE3;o norte (Belo Monte e Tapaj&#xF3;s, por exemplo), os complexos petroqu&#xED;micos como o Comperj (Rio de Janeiro) e a Refinaria Abreu Lima (Pernambuco). Todos esses projetos prometeram alargamento das oportunidades de trabalho, dinamiza&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica de neg&#xF3;cios e servi&#xE7;os nas regi&#xF5;es, mas a precariedade do trabalho e das condi&#xE7;&#xF5;es da vida urbana foram uma realidade efetiva, assim como o uso de dispositivos de exce&#xE7;&#xE3;o suspendendo as normativas de licenciamento ambiental, encobrindo a degrada&#xE7;&#xE3;o ambiental inerente aos processos em curso nessas regi&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B42">ROLNIK, 2015</xref>).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn21">
<label>21</label>
<p>&#x201C;Dificilmente, na atualidade, desenvolvimento algum em larga escala acontece sem que o governo local (ou a coaliz&#xE3;o mais ampla de for&#xE7;as que constitui a governan&#xE7;a local) ofere&#xE7;a, como est&#xED;mulo, um pacote substancial de ajuda e assist&#xEA;ncia&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B20">HARVEY, 2005</xref>, p. 175), incluindo for&#xE7;a de trabalho barata.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn22">
<label>22</label>
<p>&#x201C;Acima de tudo, a cidade tem de parecer um lugar inovador, estimulante, criativo e seguro para se viver ou visitar, para divertir-se e consumir&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B20">HARVEY, 2005</xref>, p.176). As artes, os festivais e os eventos culturais (o espet&#xE1;culo e a exibi&#xE7;&#xE3;o) passam a ser objeto de investimento, imaginando-se romper com a espiral descendente da economia e estimular as pessoas a &#x201C;acreditarem em si mesmas e em suas comunidades&#x201D;.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn23">
<label>23</label>
<p>Isso implica o desenvolvimento de uma s&#xE9;rie de servi&#xE7;os de apoio para coletar e processar informa&#xE7;&#xF5;es rapidamente que exigem investimentos e habilidades espec&#xED;ficas, o que tende a premiar as regi&#xF5;es metropolitanas com determinadas ofertas educacionais. Esses fatores facilitam setores hist&#xF3;ricos que tendem a ser supremos como setores aglomerados e monopol&#xED;sticos.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn24">
<label>24</label>
<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B16">Dardot e Laval (2016</xref>, p. 278), o termo <italic>governan&#xE7;a</italic> atingiu em cheio a gram&#xE1;tica neoliberal e tem sua raz&#xE3;o de ser na muta&#xE7;&#xE3;o da interven&#xE7;&#xE3;o governamental e de seus objetivos, marcada em especial pelas regras da concorr&#xEA;ncia e regida pelas medidas de efic&#xE1;cia semelhantemente &#xE0;s empresas privadas: &#x201C;Essa nova <italic>hibrida&#xE7;&#xE3;o</italic> generalizada da chamada a&#xE7;&#xE3;o &#x2018;p&#xFA;blica&#x2019; &#xE9; o que explica a promo&#xE7;&#xE3;o da categoria &#x2018;governan&#xE7;a&#x2019; para pensar fun&#xE7;&#xF5;es e as pr&#xE1;ticas do Estado, em vez de categorias do direito p&#xFA;blico, a come&#xE7;ar pela soberania. (&#x2026;) ela n&#xE3;o significa que o Estado se retira, mas que ele exerce seu poder de forma mais indireta, orientando tanto quanto poss&#xED;vel as atividades dos atores privados e incorporando ao mesmo tempo os c&#xF3;digos, as normas e os padr&#xF5;es definidos por agentes privados (empresas de <italic>Consulting</italic>, ag&#xEA;ncias de classifica&#xE7;&#xE3;o, acordos comerciais internacionais)&#x201D;.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn25">
<label>25</label>
<p>Uma das fortes tend&#xEA;ncias da mundializa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; a aquisi&#xE7;&#xE3;o de terras por investidores estrangeiros e o Brasil tem express&#xE3;o nisso, seja como territ&#xF3;rio de aquisi&#xE7;&#xF5;es seja como nacionalidade original de grandes corpora&#xE7;&#xF5;es do agroneg&#xF3;cio, que tem destaque em compra de terras na Austr&#xE1;lia, &#xC1;frica e Am&#xE9;rica Latina (JBS, Monica Semillas, Asperbras Pinesso, entre outros). Vinte grupos estrangeiros americanos, chineses, japoneses, franceses e holandeses est&#xE3;o entre os que adquiriram terras no Brasil, somando, em conjunto, 2,74 milh&#xF5;es de hectares. As corpora&#xE7;&#xF5;es brasileiras que se projetaram no mundo adquiriram 124 mil hectares (<xref ref-type="bibr" rid="B14">CASTILHO, 2017</xref>).</p></fn></fn-group>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<name><surname>ACSELRAD</surname> <given-names>H.</given-names></name></person-group>
<chapter-title>De &#x201C;bota fora&#x201D; e &#x201C;zonas de sacrif&#xED;cio&#x201D;, um panorama dos conflitos ambientais no estado do Rio de Janeiro</chapter-title> <person-group person-group-type="editor"><name><surname>ACSELRAD</surname> <given-names>H.</given-names></name></person-group>
<source>Conflito ambiental e meio ambiente no estado do Rio de Janeiro</source>
<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
<publisher-name>Relume Dumar&#xE1;</publisher-name>
<year>2004</year></element-citation>
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<chapter-title>O conceito de regi&#xE3;o e a problem&#xE1;tica dos assentamentos rurais</chapter-title>
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<publisher-name>UNESP</publisher-name>
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<name><surname>ALMEIDA</surname> <given-names>Alfredo Wagner B. de</given-names></name></person-group>
<source><bold>Capitalismo globalizado e recursos territoriais</bold>: fronteiras da acumula&#xE7;&#xE3;o no Brasil contempor&#xE2;neo</source>
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<publisher-name>Lamparina</publisher-name>
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<article-title>Os desafios a uma Pol&#xED;tica Nacional de Desenvolvimento Regional no Brasil</article-title>
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<article-title>Arranjo produtivo local, pol&#xED;tica do espa&#xE7;o e flexibiliza&#xE7;&#xE3;o do trabalho</article-title>
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<name><surname>BARBOSA</surname> <given-names>Rosangela N.C.</given-names></name></person-group>
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<issue>2</issue>
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<article-title>crise da pol&#xED;tica regional de desenvolvimento e a guerra fiscal</article-title>
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<article-title>20 grupos estrangeiros t&#xEA;m 3 milh&#xF5;es de ha de terras no Brasil</article-title>
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