contemporaneidades ameríndias
Wenía: o surgimento dos antepassados - Leitura e tradução de um canto narrativo ameríndio (Marubo, Amazônia Ocidental)
Wenía: the emergence of the ancestors - Reading and translation of an Amerindian narrative chant (Marubo, Amazônia Ocidental)
Wenía: el surgimiento de los antepasados - Lectura y traducción de un canto narrativo amerindio (Marubo, Amazonia Occidental)
Wenía: o surgimento dos antepassados - Leitura e tradução de um canto narrativo ameríndio (Marubo, Amazônia Ocidental)
Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, núm. 53, pp. 45-99, 2018
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea; Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB)
Recepção: 07 Março 2017
Aprovação: 17 Julho 2017
resumo: Este trabalho compreende a tradução bilíngue inédita, as notas e o estudo de apresentação da narrativa cantada Wenía, dos Marubo da Terra Indígena Vale do Javari (Amazonas). A narrativa, que trata do surgimento dos antepassados, é fundamental para a compreensão dos processos classificatórios e etiológicos envolvidos no pensamento xamanístico e na etnogênese marubo. No ensaio de apresentação, são abordados alguns dos problemas conceituais aí envolvidos, tais como o estatuto da metáfora, das formas de classificação e dos processos de surgimento sobre os quais se dedica a poética narrativa marubo.
Palavras-chave: narrativa, tradução, classificação, metáfora, literatura indígena.
abstract: This work is composed by the bilingual translation of the myth-song Wenía from the Marubo, a Panoan-speaking people of Vale do Javari Indigenous Reservation, Brazil. The annotated translation, which presents the origins of Marubo ancestors, is preceded by an introductory essay on the conceptual problems involved in the narrative, such as metaphor, formulaic composition, classification and etiology, all of them essential to the understanding of Marubo's processes of ethnogenesis and shamanistic poetics.
Keywords: narrative, translation, classification, metaphor, indigenous literature.
resumen: Este trabajo comprende la traducción bilingüe inédita, las notas y el estudio de presentación de la narrativa cantada Wenía de los Marubo de la Tierra Indígena Vale do Javari (Amazonas). La narrativa, que trata del surgimiento de los antepasados, es fundamental para la comprensión de los procesos clasificatorios y etiológicos involucrados en el pensamiento shamanístico y en la etnogénesis marubo. En el ensayo de presentación se abordan algunos de los problemas conceptuales involucrados, tales como el estatuto de la metáfora, las formas de clasificación y los procesos de surgimiento sobre los que se construye la poética narrativa marubo.
Palabras clave: narrativa, traducción, clasificación, metáfora, literatura indígena.
Caminhos, paradas e surgimentos: são esses alguns dos marcos fundamentais das poéticas ameríndias. Responsável por produzir seus contornos conceituais, estéticos e rituais, a tríade é ainda mal compreendida para além dos círculos antropológicos. Não que se trate propriamente de uma novidade: ao longo de sua obra, Claude Lévi-Strauss já havia apontado para sua centralidade no pensamento narrativo indígena, ao associar a presença dos deslocamentos e viagens à relação entre contínuo e discreto. Mário de Andrade, por sua vez, tomou tal esquema para si ao compor seu Macunaíma, no qual, como observou com perspicácia Lúcia Sá (2004), as dinâmicas etiológicas ocupam um papel central. Contudo, essa tripartição fundamental para os regimes intelectuais ameríndios rende assunto para reflexão e, ainda mais, quando analisada a partir do contato direto com traduções detalhadas de cantos e narrativas. Sem uma compreensão mais acurada de tal configuração, o que há de especial em tais poéticas, tão alheias quanto contemporâneas às nossas, torna-se obscuro.
A longa narrativa mítica cantada Wenía, que versa sobre o surgimento dos antepassados dos Marubo (um povo falante de língua pano, da Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas), elabora de maneira especial a referida tríade. Na tradução aqui apresentada, podemos perceber como ela exige dos cantadores uma notável destreza conceitual, mnemônica e poética, necessária para que as palavras cantadas sejam capazes de acompanhar os percursos que levam à formação dos primeiros humanos, ocorrido nos tempos em que esta terra ainda era jovem (mai vená). Mas não é apenas para isso que o esquema criado pelos caminhos, paradas e surgimentos se mostra produtivo. Ele pode, a rigor, ser utilizado para pensar sobre tantos processos de formação quanto forem necessários para que o real se instaure. É o que pode ser verificado, por exemplo, na tradução de “A formação da Terra-Névoa”, a longa narrativa cantada de formação do mundo pelos primeiros espíritos demiurgos, que tive a oportunidade de traduzir, acompanhada de outros textos, em uma antologia (Cesarino, 2013a).
Até onde sabemos, apenas os Marubo isolam episódios narrativos em cantos não engastados em outros gêneros, tais como os de cura ou os referentes a festivais. Isso é o que define cantos saiti tais como o Wenía, que segue aqui traduzido. Ainda que a associação com outros gêneros também ocorra com frequência e seja um aspecto central da poética marubo,2 é muito raro que a narrativa possa ser isolada em uma estrutura rítmica (com a métrica fixa em quatro sílabas, aqui como em outras artes verbais pano), melódica e temática própria. Essas características podem indicar, em uma primeira impressão, semelhanças com poemas épicos do antigo mundo indo-europeu, muito embora as matrizes conceituais, políticas e sociais dos cantos marubo sejam completamente distintas daquelas referências sobre o épico que povoam o imaginário clássico das tradições orais: não há, por exemplo, relatos sobre a trajetória marcante do herói, que serviria de construção para uma memória nacional ou coletiva assentada em conquistas bélicas e feitos extraordinários (Zumthor, 1983).3
Como já apontei outras vezes, a extensão e conexão dos diversos episódios que povoam as narrativas marubo é propriamente vertiginosa, passível de ser compreendida apenas por pessoas que já são consideradas como outras, que têm outro sangue, que são capazes de se “empajezar” ou “espiritizar”. Essas duas últimas expressões equivalentes foram criadas por mim (Cesarino, 2011a) para traduzir o termo marubo yove-a (espírito-verbalizador), cujo radical pode sofrer ainda acréscimo de outros morfemas de aspecto e de tempo verbal, assim indicando uma condição conectiva e transformacional da pessoa que está na base de seus modos de conhecer. O domínio das centenas (por vezes alguns poucos milhares) de versos que compõem as centenas de episódios referentes aos tempos antigos, que bem encheriam uma prateleira se traduzidos, é tarefa para poucos, cada vez mais escassos entre os povos das terras baixas sul-americanas. Para que sejam capazes de encadear essas longas e complexas narrativas cantadas, os xamãs marubo precisam alterar a sua pessoa através de rituais de iniciação que, muitas vezes, estendem-se por toda uma vida. Com isso, estabelecem contato com os magníficos espíritos yovevo, detentores originais do conhecimento verbal transmitido pelos humanos.
Vemos assim que cantos como os saiti não são frutos de uma imaginação literária individual nem de uma mensagem coletiva anônima da tribo. Trata-se de outras imaginações temporais e narrativas, assim como de outros vínculos autorais que, como bem mostrou Manuela Carneiro da Cunha (2009, p. 311 e seguintes), mal se submetem às dicotomias infernais dos modernos. O autor da presente versão do Wenía, o falecido xamã romeya Armando Mariano Marubo Cherõpapa, com quem convivi entre 2004 e 2009, é uma multiplicidade. Ele se desdobrava entre seu aspecto corporal, concebido como uma carcaça (shaká), bem como uma maloca homóloga à externa, habitada por diversos duplos que outrora eram propensos a sair para estabelecer relações de parentesco seja com os espíritos yovevo, seja com outros duplos de antepassados. Esses vínculos permitiam que sua memória se tornasse suficientemente eficaz para transmitir os diversos cantos que compõem o conhecimento verbal, sejam eles os narrativos, os agentivos (cantos shõki, empregados em rituais de cura e de feitiçaria), os exortativos (as falas de chefe tsãiki) e as falas de ensinamento (ese vana), além dos cantos iniki transportados pelos próprios espíritos através do corpo de Armando.4
Classificação e variação
Entre os vários episódios referentes aos tempos antigos narrados pelos saiti, aqueles de que trata o Wenía têm um sentido especial. Eles apresentam a formação dos primeiros antepassados que viriam a compor o povo Marubo, assim chamado pelos brancos ao longo de um processo de contato que se inicia provavelmente nos fins do século XIX (Ruedas, 2001; Welper, 2009). Os eventos apresentados pelo canto ainda não se referem, portanto, à “sociedade Marubo”, uma categoria criada pela necessidade de domínio e de classificação imposta ela sociedade envolvente. Eles tratam, antes, do surgimento de uma miríade de “povos” (nawavo), aos quais me refiro por vezes como “segmentos”. É que esses povos estabelecerão, ao longo da etnogênese marubo, relações específicas de parentesco e de aliança, atualmente cristalizadas em torno de um sistema classificatório de tipo kariera, que prescreve “casamentos de primos cruzados bilaterais e termos de parentesco distribuídos por gerações alternadas” (Melatti, 1977, p. 107). Para que tais casamentos e distribuições de termos de parentesco possa acontecer, é necessário que se estabeleçam distinções entre grupos (aqui chamados de povos ou de segmentos) que, nos tempos atuais, correspondem razoavelmente às distintas ocupações distribuídas entre as calhas e cabeceiras dos rios Ituí e Curuçá.
Tais segmentos passam, assim, a constituir um sistema classificatório até hoje determinante para as relações sociais e de parentesco. Esse sistema vai, então, se formar justamente a partir dos povos cujo surgimento é narrado no Wenía, que estabelecem distintas relações de proximidade por terem ou não “surgido juntos” ou “ao lado” (paso-). São eles o Povo Sol (Vari Nawavo), os primeiros a surgirem e, na sequência, Povo Azulão (Shane Nawavo), Povo Jaguar (Ino Nawavo), Povo Arara (Kana Nawavo), Povo Japó (Rovo Nawavo), e também o Povo Araraúna (Shawã Nawavo), outro Povo Japó (Isko Nawavo), Povo Pupunha (Wanĩvo), outro Povo Jaguar (Kamã Nawavo), Povo Macaco Barrigudo (Txonavo), Povo Flor das Árvores (Tama Owavo), entre outros.5 O Wenía serve, portanto, de base para a constituição do que se transformaria, mais adiante, na organização social dos Marubo. Uma pessoa que pertence a um ou outro desses povos (estruturalmente transformados em segmentos) estabelecerá, assim, relações prescitas com os outros demarcadas a partir de termos essenciais de parentesco tais como epa (tio paterno), koka (tio materno), txai (cunhado/primo cruzado), pano (prima cruzada). Desta forma, todo homem pertencente ao Povo Araraúna tratará por koka os do Povo Azulão, com cujas filhas ele poderá se casar, e assim por diante para os outros arranjos possíveis.6
Como se não bastasse, tal transformação estrutural não será utilizada apenas para os limites da sociedade e do parentesco. Ela passará a se valer do idioma do parentesco para produzir um modo de classificação propriamente cosmológico. Elementos diversos do mundo - tais como direções espaciais, rios, estratos celestes, classes de espíritos, animais, vegetais e alimentos cultivados, além de adornos corporais, estilos de arquitetura de malocas etc. - serão compulsivamente classificados como pertencentes ao segmento “sol”, “azulão”, “japó”, e assim por diante. Quando o gradiente cosmológico começa a se afastar desta humanidade, surgirão ainda outros classificadores, como “sangue” (imi), “névoa” (koĩ), “branco” (osho) e até mesmo “espírito” (yove). (Observo, bem a propósito, que os hífens usados ao longo desta tradução, criando espécies de nomes compostos, se referem justamente a tal lógica, em muito distinto de um processo de adjetivação.) É a partir daí que o pensamento marubo mostra-se especialmente complexo em sua tarefa de estabelecer cortes no contínuo através de inumeráveis classes e seus respectivos vínculos.
O que mais exatamente impulsiona tal processo? Tratar-se-ia de um sistema totêmico que classifica o mundo a partir das necessidades de subsistência do grupo, que projeta suas classes sociais sobre a natureza? Seria apenas uma proliferação irregular de classes ou a irregularidade teria sua coerência? Essas posições foram revisadas há tempos por Lévi-Strauss (1962) e, mais recentemente, por Philippe Descola (2005). Ora, como argumentava o antropólogo belga, a categoria “totemismo” é tributária das distorções semânticas, ilusões teóricas e metodológicas dos antropólogos, muito embora uma vontade de sistema esteja sim presente nos sistemas sociais e cosmológicos de povos ameríndios ou australianos. No caso Marubo, encontramos uma disposição classificatória que, no entanto, não poderia ser compreendida exatamente a partir de um vínculo especial ou privilegiado entre membros das séries natural e social. As classes mobilizadas (tais como as referidas acima) não apenas extrapolam tal bipartição moderna como também não conferem exatamente atributos ou privilégios a seus pertencentes (uma pessoa do Povo Sol não é solar, nem tampouco é agressiva aquela pertencente ao Povo Jaguar; elas não possuem quaisquer relações privilegiadas ou conhecimentos especiais sobre o astro ou o predador). Parece, então, que os termos (“sol”, “jaguar” etc.) permanecem apenas como uma propensão para disposição classificatória, como se fosse impossível deixar de demarcar os existentes neste ou naquele lote possível e extrair daí as potenciais relações de parentesco.
Tal disposição, portanto, é mais abrangente que os eventuais modos de identificação entre membros de séries distintas (Descola, 2005, p. 205). Mesmo que importante e recorrente, o problema da identificação não parece suficientemente central para definir o sentido geral dessa vocação sistemática, ela mesma uma espécie de pano de fundo a partir do qual se torna possível pensar as eventuais continuidades interespecíficas. Seria mais interessante, aliás, reformular o problema da identificação e da interespecificidade à luz do conceito deleuzeano de devir, menos atrelado ao binarismo moderno - natureza/cultura, humano/não humano - que permeia a reflexão comparativa de Descola e que obscurece a compreensão das particularidades ontológicas ameríndias. Ora, são outros os recortes e vínculos entre existentes, que postulam zonas de indiscernibilidade e de passagens entre séries potencialmente incompatíveis com o léxico analítico dicotômico fundamental do problema antropológico do totemismo. E é sobre isso que fala o Wenía.
Diríamos, pois, que tal propensão para a classificação tem a ver com necessidade de pensar e de manipular o fluxo interminável de pessoas que, desde sempre, compõe o mundo tal como vivido pelos Marubo.7 Esse fluxo implica devires constantes, entrecruzamentos entre o que os modernos concebem como séries distintas, mas que ali configuram heterogeneidades complexas, a todo tempo capazes de ameaçar a vida entre parentes. Após surgirem de suas mulheres - cena que o Wenía metaforizará através de imagens ctônicas -, os antigos, distribuídos em suas distintas seções, precisam aprender a viver em parentesco. Começam a viajar na direção das cabeceiras, vindo de uma região identificada pelos exegetas marubo como Manaus e Belém (noa taeri, “pé do grande rio”), e estabelecem contato com povos marcados justamente por sua ambiguidade ontológica: que tipo de gente será esta? Que relações sexuais podemos estabelecer com eles? O que podem nos ensinar? O que surgirá de tais encontros?
Num momento central da narrativa, estabelece-se uma distinção fundamental entre, por um lado, os xamãs e os chefes, mais sábios, e, por outro, uma derivação dos antigos mais insensatos e lascivos, encarnada na gente macaco-prego. A distinção esconde, na realidade, o incesto como problema fundamental da vida em sociedade. Nas Estruturas elementars do parentesco, Lévi-Strauss ensinava que o problema da proibição do incesto coincide com a própria possibilidade de existência da sociedade. Aqui, esse problema será também etiológico: ao longo das paradas que pontuam a longa viagem, entidades e eventos surgem a partir de distintos acoplamentos entre viventes que habitam o mundo ainda novo. É daí que começa a ganhar corpo o espírito sistemático e sua relação íntima com os eventos etiológicos, expressos através de um complexo arcabouço de fórmulas verbais dominado pelos cantadores.
Não por acaso, ao longo desses encontros incestuosos, entes e estados de coisas surgem em sincronia com estoques de nomes e ordens de classificação. Essa conjugação entre etiologia e classificação faz com que os atuais Marubo se reportem constantemente ao Wenía (mas também a outros dos diversos episódios narrados pelos saiti) em seus ensinamentos e especulações rituais, muitas vezes ocorridas ao longo das noites em que os espíritos visitam os corpos dos xamãs romeya. Voltando-se aos cantos, os xamãs pretendem resgatar a origem de seus esquemas sociais e intelectuais que, não raro, servem para neutralizar processos patológicos. Isso ocorre, por exemplo, quando os jovens atuais se comportam de maneira excessivamente lasciva e insolente, violando as proibições do incesto, “estragando o sangue” (imi ichná) e contribuindo assim para o “tempo ruim” (shavá ichná) em que vivemos. Uma das explicações para tal comportamento, capaz de desencadear doenças como hepatite (patiti) e melancolia (oniska), está em que os jovens são, com frequência, “atravessados” (tasavrã) pelos espíritos da gente macaco prego, surgida ao longo do trajeto descrito pelo Wenía.
Metaforização
É comum escutar dos jovens Marubo, bem como de outros não iniciados na interpretação de suas artes verbais, que seus antepassados surgiram de um buraco na terra. Trata-se, de fato, de um tema narrativo comum entre outros povos ameríndios - e também, aliás, entre aborígenes australianos (Descola, 2005, p. 206 e seguintes). O tema se faz presente entre os Katukina,8 um dos povos pano mais próximos dos Marubo, mas também, como notei em outro artigo (Cesarino, 2013, p. 465), entre os falantes de arawak Enawene-Nawê e os falantes de tukano do Rio Negro, além de aparecer nos relatos inca compilados por Garcilaso de la Vega e na História Tolteca-Chichimeca, um códice composto de escrita alfabética e pictográfica que narra o surgimento dos povos Nahuatl (América Central) do século XVI. Na História Tolteca-Chichimeca, encontramos uma imagem particularmente interessante, capaz de estabelecer uma conexão intermediária entre o caso do Wenía e o de outros povos das terras baixas, que atribuem uma origem ctônica a seus antigos. A imagem da caverna Chicomoztoc aí apresentada (figura 1) é um híbrido visual, uma paisagem-útero a partir da qual surgem ou migram os sete povos Nahua, entre os quais os astecas.

Armando Cherõpapa, desenhista e autor da presente versão do Wenía, também decidiu traduzir no papel sua narrativa (figura 2). Sua solução, entretanto, não é híbrida, muito embora seja capciosa. Ela apresenta a imagem ctônica de maneira mais direta, mostrando os antepassados dos distintos povos saindo de um buraco na terra, situado à esquerda. Os mais altos, à direita, são os mais velhos, com destaque para o chefe do Povo Sol, que foi o primeiro a surgir.10

A imagem de Chicomoztoc foi elaborada dentro de um contexto de comunicação pictográfica estabelecido, marcado por convenções visuais prévias. Armando, por sua vez, desenha os temas do Wenía a meu pedido e começa a inventar uma espécie de iconografia pictográfica, cujas consequências explorei em outros estudos (Cesarino, 2011b; 2013b). O que importa ressaltar aqui é que a imagem de Armando deve ser entendida, sobretudo, como uma metáfora. E que a própria noção de metáfora precisaria ser redefinida para que se compreenda melhor seu potencial estatuto nas poéticas xamanísticas. Os xamãs marubo distinguem a chinã vana, “fala pensada”, da veyô vana, “fala ordinária”. Essa última não serve para pensar os processos de surgimento, tampouco para potencializar a palavra. Excessivamente direta, ela não se estabelece através do uso das metáforas especiais que permeiam o conhecimento verbal expresso em seus distintos gêneros ou modos; um conhecimento que é objeto de processos árduos de transmissão. Grande parte do Wenía é, assim, composto por metáforas especiais associadas à composição formular que define este e outros cantos marubo.11
Dessa forma, como veremos, a cena inicial apresenta o processo de nascimento dos primeiros antepassados de maneira indireta, através da imagem de uma terra revolta, de formigas saindo de buracos no solo. E assim o faz pela transformação de um esquema formular prévio, que obedece um padrão rítmico e estrutural de base. Esse esquema vai além do uso pontual de fórmulas verbais, passíveis de serem distribuídas nos versos do canto, e se distribui por toda a forma de composição de cantos como o Wenía. Na realidade, os cantadores marubo passam a dominar tal arcabouço formular virtual, que será, então, atualizado neste ou naquele canto. A abertura do Wenía utiliza, por exemplo, os seguintes versos: Vari mai nãko / Nãko osõatõsho / Wení katsiinã (“Néctar da terra-sol / Dentro do néctar / Surgimento começa”). Note como o mesmo esquema formular se faz presente na abertura da “Fala da Terra-Névoa”, que trata do surgimento de um espírito demiurgo: Tene tewã nãkoki / Nãko osõatõsho / Pikashea wení (“No néctar-tene / Dentro do néctar / Pikashea surge”). Exemplos como esse abundam e evidenciam o modo de composição poética em questão, que se vale de alterações sintagmáticas e paradigmáticas para constituir longas sequências narrativas, de cunho eminentemente verbivisual, panorâmico, paratático e etiológico.
É comum, portanto, que os não iniciados sejam incapazes de compreender que o surgimento de um buraco da terra constitui apenas um “modo de falar” dos xamãs. E que sigam por aí dizendo que seus antigos surgiram mesmo de um buraco na terra, enquanto as palavras do canto, a rigor, se referiam a outra coisa. Ainda assim, a distinção entre sentido figurado e literal não é exatamente da ordem do desvio e da substituição. Anõsh taná, “um modo de entender”, anõ shovitirivi, “modo de fazer”, kẽchĩtxo akárvi, “jeito de pajé”, kẽchĩtxo ane, “nome de pajé”, awẽ ane anõ awe shovima, “o nome para dar surgimento a algo”: estas são algumas das expressões que tenho traduzido por “metáfora”, mas não sem fazer com que o conceito seja devidamente transformado a partir do regime especulativo xamanístico. Como já indiquei em outros momentos (Cesarino, 2011a; 2013b), o discurso xamanístico é metafórico, entre outras razões, por ser eficaz: conhecer o surgimento das coisas implica em ser capaz de manipulá-las, por exemplo, quando elas se tornam ameaçadoras para a saúde dos viventes. Se, em alguns casos, as fórmulas metafóricas parecem mais próximas de uma figura de linguagem (como na cena inicial do Wenía), empregada para falar de modo belo (vana roaka) sobre o que, em termos comuns, soaria excessivamente ordinário, em outros, os eixos se cruzam de maneira peculiar.
Tal especificidade encontra-se, por exemplo, na longa sequência que começa nos versos 313 e seguintes: ali, homens e mulheres em cópula são descritos por meio de imagens vegetais, mas o que se revela não é uma mera metaforização vegetal do humano, algo como um totemismo poético mal definido, e sim um entrecruzamento mais complicado entre séries. Afinal, é justamente de tais relações que surgem entes como as palmeiras cocão e murumuru. Desta forma, se a relação sexual parece ser descrita de maneira figurada, seus efeitos denunciam que os alcances das relações entre homens e mulheres são outros, passíveis de se desdobrarem em palmeiras e demais fenômenos concebidos por relações de vizinhança com o que ali vai se definindo como humano (justamente nesta época em que “humano” é ainda, na direção do pensamento de Viveiros de Castro, muito mais um processo de conexão intensiva que prerrogativa de um gênero extensivamente definido). Tudo se passa, assim, como se o que pretendia ser apenas metáfora (em chave substitucionista) acabasse, em alguns momentos das narrativas, por se desdobrar em novos estados de coisas, desta forma invertendo ou invalidando um suposto processo original de purificação, ou de separação entre o liteal e o figurado, que é uma característica do pensamento moderno (Latour, 1991). Em outros termos, o discurso especial xamanístico, assentado na conjunção entre fórmulas verbais e imagens metafóricas, não pressupõe que a língua ordinária seja a pedra de toque do real e do significado, sempre passível de ser resgatada pelos esforços de purificação interpretativa, mas, bem ao contrário, estabelece com ela uma relação de desconfiança. Apenas as palavras especiais é que podem levar a compreender a formação das coisas, pois são elas que permitem acompanhar a flutuação da referência decorrente da variação entre tempos e mundos. Nisso está assentada a necessidade de redefinição do regime xamanístico de significação, ainda em elaboração por mim e outros autores (Castro, 2004; Heurich, 2015).
Tradução
A presente versão inédita do Wenía é a primeira traduzida inteiramente a partir de uma narrativa cantada - única na etnografia marubo e, provavelmente, entre outros estudos sobre povos das terras baixas da América do Sul. Longas narrativas referentes ao surgimento dos antepassados já foram registradas, por exemplo, pelos povos falantes de tukano, como no caso da Coleção narradores indígenas do Rio Negro. No entanto, não se trata de versões originalmente cantadas e metrificadas como esta. A versificação que adoto aqui na solução escrita, portanto, acomoda bem o ritmo do canto, muito embora não tenha sido mantida a métrica original ou alguma outra complementar. Tentei, em vez disso, recriar um ritmo próprio na versão em português, a fim de transmitir algo da música interna reproduzida pelo encadeamento das sequências formulares - um procedimento já adotado por mim em outros trabalhos e que se estende para o presente caso.
A escrita ortográfica utilizada na transcrição do original (gravado por mim em performance na comunidade Alegria, alto rio Ituí, no primeiro semestre de 2005) foi aqui estabelecida a partir daquela adotada pelos Marubo e estabelecida pelos missionários, que a utilizam desde os anos 1950. Tomei a liberdade, entretanto, de modificar algumas soluções que não me pareciam muito compatíveis com o caráter eminentemente aglutinante dessa língua. Assim como outras da família Pano, ela faz amplo uso da união de morfemas em torno de um radical, através dos quais se exprimem, por exemplo, as marcações de caso, de tempo e de aspecto. O trabalho de tradução foi realizado em diversas etapas, que contaram com a colaboração do autor da presente versão, assim como do jovem xamã e professor Robson Dionísio Doles Marubo e de outros xamãs cantadores experientes. Sem tal colaboração, teria sido impossível compreender o sentido metafórico de muitas passagens, além de outros termos que pertencem ao uso antigo e ritual da língua. As decisões conceituais e estilísticas finais, entretanto, são minhas.
A título de exemplo, anexo à tradução do canto um trecho segmentado e acompanhado das convenções linguísticas, que pode ser usado como um norte para leitores mais interessados em tal etapa do trabalho tradutório. A tradução principal, contudo, não se imagina como documento ou dado linguístico, mas antes como um esforço de tradução criativa de uma expressão poética distinta, em vários aspectos, dos gêneros literários modernos. Além dos problemas da composição formular e da metaforicidade já comentados, valeria destacar também o aspecto marcadamente paratático do canto, que se desenvolve a partir de uma sucessão de cenas divididas em estrofes e blocos (nomeados por mim para facilitar a compreensão do texto), a partir de uma montagem paralelística comum a esta e outras artes verbais ameríndias (Franchetto, 2003; Cesarino, 2006). Essa lógica de montagem, a propósito, alia-se ao próprio jogo das sequências formulares, também elas intercambeáveis de maneira razoavelmente maleável pelo cantador, sobretudo na primeira metade da narrativa. Tentei, assim, valer-me também de tal plasticidade paralelística (seja no interior das fórmulas, seja entre versos, estrofes e blocos) na versão em português. Não é demais lembrar que o paralelismo não é mera repetição gratuita mas, antes, o cerne de tais expressões poéticas, cujo efeito reiterativo e, por vezes, hipnótico, representa um desafio para a tradução criativa. A imagem do caminho construída pelo texto deve, portanto, aliar-se a uma construção rítmica capaz de conduzir o leitor pelos trajetos dos antepassados, que são narrados através de uma estética da repetição, facilmente confundida como tédio ou prolixidade por um leitor ocidental. Mas essa poética da reiteração faz parte da tríade caminho/parada/surgimento, que se vale da variação entre as distintas classes de pessoas para desenvolver seu panorama narrativo.
A presente versão não está completa. Outros episódios se sucedem ao momento em que o canto foi interrompido, como o encontro com o antepassado que ensinará a técnica funerária da cremação. Contudo, a incompletude é uma condição comum das artes verbais narrativas e, sobretudo, entre os Marubo, para os quais um canto como o Wenía dificilmente pode ser realizado por inteiro. São poucas, de fato, as condições que permitiriam tal feito, mesmo que os atuais cantadores sejam virtualmente capazes de levar a tarefa a cabo. As festas nas quais os cantos saiti são realizados (pequenas sequências são entoadas por um puxador de canto e, em seguida, repetidas pelos participantes, que dançam-caminham em uma coregrafia de viagem), assim como as performances solitárias ou para grupos menores de parentes (desta vez sem intervalos e repetições de estrofes ou versos pela audiência), nem sempre são suficientes para que as diversas etapas da narrativa sejam expostas. Uma versão integral cantada talvez durasse um dia ou mais para ser realizada; não é incomum que o ponto interrompido seja depois retomado em conversas paralelas, nas quais a história segue através de outro modo de contar, ou seja, pela fala dramatizada (yoã vana) que prescinde da associação com frases melódicas, como é o caso dos saiti. O que lemos aqui, entretanto, já é suficientemente denso e original para que se tenha uma ideia da destreza poética dos Marubo.
Wenía: o surgimento dos antepassados
I. Filhos do Povo Sol (Varĩ Vake Nawavo)

II. Filhos do Povo Azulão (Shane Vake Nawavo)

III. Filhos do Povo Jaguar (Ino Vake Nawavo)

IV. Filhos do Povo Arara (Kana Vake Nawavo)

V. Filhos do Povo Japó (Rovo Vake Nawavo)

VI. Segunda geração

VII. A Viagem

VIII. Gente Macaco-Prego

IX. Ponte-Jacaré

Referências
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Anexo - Segmentação dos versos 545-585


Siglas
ABS - AbsolutivoASS - AssertivoAUX - Verbo auxiliar (transitivo, intransitivo)CMPL - CompletivoCON - ConjunçãoCONfin - Conjunção finalidadeDB - Dativo-benefactivoDEMdist. - Demonstrativo distânciaDIRcentrip. - Direção centrípetaDIRcentrif. - Direção centrífugaENF - EnfáticoERG - Caso ergativoEV - EvidencialFC - FocoFIN - FinalidadeGENR - GenéricoHIP - HipotéticoHSAY - Hearsay, reportativoINT - InterrogativoIMP - ImperativoLE - Termo da língua especialLOC - LocativoMov.sing - Movimento singularMov.pl - Movimento pluralNEG - NegativoPAS1 - Passado imediatoPOSS - PossessivoPR - ProgressivoPRF - PerfectivoRLZ - Ação realizadaSML - Similitivo3DEM - Terceira pessoa neutra demonstrativo1s - Primeira pessoa singular1pINCL - Primeira pessoa plural inclusiva2p - Segunda pessoa plural3pDEM - Terceira pessoa plural demonstrativoNotas
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