Resenhas
Diorama, de Carol Bensimon
Diorama, by Carol Bensimon
Diorama, de Carol Bensimon
Diorama, de Carol Bensimon
Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, núm. 70, e7007, 2023
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB)
| Dusse Fernanda. Diorama, by Carol Bensimon |
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Recepción: 03 Junio 2023
Aprobación: 04 Diciembre 2023
E havia também o pessoal que eu chamava de naturalistas. […] Eram movidos pela ideia fixa de recriar a natureza à perfeição. Nisso, se diferenciavam dos caçadores, os quais inevitavelmente caíam na tentação de exaltarem a si mesmos através do animal. O que quero dizer é que acontecia com frequência de os caçadores montarem suas taxidermias como se aqueles animais fossem mais imponentes e audaciosos do que de fato eram quando vivos ( Bensimon, 2022, p. 58).
Diorama, o quarto romance de Carol Bensimon (2022), aproxima a taxidermia das narrativas que inventamos para construirmos a nós e aos outros. Sua protagonista, Cecilia Matzenbacher, percebe seu trabalho de taxidermista como uma possibilidade de romper as divisões entre morte e permanência, entre o controle sobre o corpo do outro e a lembrança de que a vida é inapreensível. De forma semelhante, ao apresentar os motivos que a fizeram migrar para os Estados Unidos, a personagem reflete sobre o apagamento e a insistência da memória e investiga as possibilidades de recosturarmos nossa própria história.
O romance acontece do instante em que Cecilia recebe a notícia que seu pai sofreu um AVC ao momento em que desembarca no Brasil e chega à casa onde viveu na infância. Esse tempo cronológico é, porém, entremeado das lembranças de sua infância e juventude, especialmente por aquilo que circunda o assassinato de João Carlos Satti, caso irresolvido do qual seu pai fora um dos suspeitos. Dividido em quatro partes, o livro transita por diferentes momentos da vida da protagonista, sobrepondo a perspectiva da criança que acompanhou o crime e o espetáculo que o seguiu à da jovem que colecionava notícias sobre o caso tentando desvendá-lo, até, finalmente, a narrativa da mulher de 40 anos, que escolheria perder essas lembranças. Paralelamente, sua rotina como taxidermista a faz refletir sobre o desejo humano de controlar a história e preservar, de forma inerte, um mundo que agimos para destruir.
A inusitada aproximação entre o assassinato de um parlamentar brasileiro e a prática de caça e dissecação dos animais nos Estados Unidos é mobilizada pelo reconhecimento de que a cultura moderna se estabelece pela eliminação de qualquer diferença. Assim, ao costurar os fragmentos dos animais que remonta e as narrativas em torno do crime, Cecilia recria sua própria história e também a da tradicional família, a de um país construído pela violência e a de um mundo elaborado a partir do controle e da extinção.
O romance pode ainda ser lido por uma chave metalinguística que percebe a literatura como remontagem do mundo, abrindo frestas pelas quais podemos rever nossas experiências coletivas e imaginar outras combinações para os elementos que compõem o espaço onde vivemos. Nessa perspectiva, é fundamental observar a indistinção entre história e ficção proposta por Bensimon.
A família Matzenbacher não existe, mas coincide com tantas famílias das elites brasileiras, estabelecidas pela violência paterna e pela adequação da subjetividade de todos os membros ao desejo do pai. Mais ainda, como nossa formação sociológica, na esteira de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, constata, somos uma nação formada pelos caprichos desse patriarca, que pelos séculos de colonização, escravização, exploração do trabalho e regimes autoritários manteve a indistinção entre o espaço privado da casa e o espaço público da política. A família como alegoria nacional é fortalecida em Diorama pelo cargo parlamentar ocupado pelo pai quando este se torna deputado estadual. Ao refletir sobre essa trajetória, a narradora conclui:
Tentei muitas vezes explicar meu pai a mim mesma. Ele se tornara deputado quase sem querer em um momento histórico de muitas incertezas, mas também de alguma esperança. A esperança é insistente no Brasil. Raul Matzenbacher foi um parlamentar medíocre. Era mais um desses homens de ideias pequenininhas e ambiçõezinhas rasteiras que vão fazendo um país ( Bensimon, 2022, p. 234).
A proposta alegórica de Diorama não se encerra na semelhança do violento personagem com tantos políticos de ambições rasteiras que contabilizamos na história nacional. O crime que mobiliza o enredo é uma ficcionalização de um assassinato que comoveu Porto Alegre no ano de 1988: o deputado José Antonio Daudt foi morto com uma arma de caça em frente ao prédio onde morava; um crime que, apesar da cobertura insistente e sensacionalista, ficou sem resposta. Como no romance, um colega parlamentar do PMDB foi apontado como principal suspeito, mas o caso foi engavetado pouco depois de se descobrir que a vítima tinha uma relação amorosa com um homem mais jovem.
Ao reconstruir uma narrativa que faz parte de sua memória de infância, Bensimon elabora uma cronologia para a violência no Brasil contemporâneo. A reabertura política, normalmente percebida pela esperança do retorno democrático, é aqui apresentada como mais um período de ações arbitrárias e violentas protagonizadas por homens que atuam na política "mais por vaidade que por vocação" ( Bensimon, 2022, p. 65). Nesse sentido, é interessante perceber como o livro percorre as últimas três décadas da democracia no Brasil até apresentar a mãe da protagonista como uma entusiasta do governo Bolsonaro que, por meio de fotos no Facebook e mensagens em caps lock, apoia a pena de morte.
Diorama combina, de forma engenhosa, diferentes gêneros literários. Trata-se de um romance histórico que deixa indistinta a pesquisa da autora sobre a investigação inconclusa do assassinato de Daudt e a composição ficcional de uma trama familiar. Ao mesmo tempo, é um romance policial de linguagem ágil que entrega, pouco a pouco, as pistas para a elucidação do crime. É ainda um exemplar pós-moderno do romance de formação por acompanhar a trajetória de Cecilia da infância à maturidade, ressaltando os traumas que alicerçam a formação de sua subjetividade.
Por essa chave, é interessante verificar como o romance questiona a possibilidade de escaparmos de nossas comunidades — especialmente da família — e elaborarmos outras narrativas e outros sistemas de valor. Afinal, o título já indica o enclausuramento em uma composição familiar: como a narradora observa, os dioramas são normalmente montados de forma a enaltecer a família nuclear, apresentando uma versão de papai-mamãe-filhinho até para espécies conhecidas pela hostilidade do macho com os filhotes.
Essa imagem, contudo, não sustenta apenas a casa localizada em "um projeto de praça em um projeto de vizinhança em um projeto de país, cujo destaque vinha a ser um imenso reservatório de água bem no centro, uma espécie de cálice de concreto retorcido batizado em homenagem a um general qualquer" ( Bensimon, 2022, p. 37). A família Matzenbacher aparece também como alicerce de uma nação que luta para conservar os privilégios e as hierarquias que a fundaram.
Nesse ínterim, os investigadores do assassinato de Satti — tanto os oficiais quanto a imprensa em seu espetáculo sensacionalista — pouco se interessam por sua atuação parlamentar, ainda que ele tenha sido proponente de projetos polêmicos e progressistas, como a proibição de clorofluorcarbonetos pelo dano que causam à camada de ozônio. Na investigação que conduz alguns anos depois do crime, a narradora conclui que a morte de Satti não foi definida por nenhum desses "grandes temas", mas por "uma questão de honra" ( Bensimon, 2022, p. 204). Torna-se central na investigação a descoberta de um relacionamento homoafetivo do parlamentar, mostrando que, no Brasil da década de 1980, era razoável criar uma conexão entre um homem ser gay e ser morto a tiros.
Em Diorama, essa "questão de honra", que justifica um crime brutal, aparece também como metonímia de dois ideais de país. De um lado, está o patriarca a quem é sempre conferida autoridade e poder. Do outro, o parlamentar precocemente preocupado com o meio ambiente e que aparece como uma figura paterna acolhedora para o filho do amigo enquanto ele descobre sua orientação sexual. Entre a eliminação e o acolhimento da diferença, equilibra-se a frágil democracia brasileira, que, como Sérgio Buarque de Holanda (1995, p. 160) declarou, "foi sempre um lamentável mal-entendido.
A relação com o outro, com a diferença, é, portanto, o motor de Diorama. No trabalho com animais empalhados, na amizade que construiu com o irmão mais velho, no casamento com um norte-americano ou no encontro casual com uma mulher, a protagonista está sempre tentando encontrar uma conexão verdadeira e afetuosa. Mas ela é igualmente marcada pelas relações violentas que mantém com os outros membros da família, pela aversão ao pai, pelo antagonismo com os caçadores. Talvez por isso o verbo olhar seja usado com tanta frequência no romance. Desde criança, Cecilia olha para o mundo querendo entender como se estabelecem as relações entre os seres. Além disso, quando tenta resolver o assassinato de Satti, a protagonista se depara com os diferentes mistérios que envolvem ver e ser visto: o que as testemunhas viram na noite do crime, o que o pai viu da proximidade de Satti com o filho, o que representaria para um parlamentar ser visto com outro homem…
Analogamente, o romance apresenta um compilado de imagens que o aproximam do cinema ou mesmo de uma coletânea de fotografias. A escrita ágil e a sobreposição de períodos e descobertas sobre o crime elaboram cenas significativas que permitem ao leitor desvendar a história ao mesmo tempo que narradora. Assim como Cecilia, somos postos perante os outros e o que eles despertam: o fascínio, o respeito, o horror… A ideia de encenação — fundamental para a montagem de dioramas — expande-se para as instituições sociais e evidencia a rigidez e a artificialidade das figuras que as compõem.
Atenta à potência do olhar, a protagonista faz diferentes observações sobre os olhos dos animais inertes com os quais trabalha. Da piada de um colega que afirma que "a diferença entre meu urso-polar e um quadro de Monet é que a tela de Monet não tem olhos" ( Bensimon, 2022, p. 79) à citação de um artigo de Donna Haraway, onde se lê que "cada diorama tem ao menos um animal que captura o olhar do espectador" ( Bensimon, 2022, p. 25), ressalta-se sempre que os olhos são o que colocam esses seres em um estado indistinto de vida e morte.
Quando finalmente chega à casa de sua infância e encontra seu pai paralisado em uma cama, Cecilia reage como os animais que resistem nos museus de história natural. "Olhar bem nos olhos dele" não parece ser o gesto de quem perdoa nem de quem ressente. Sem capacidade de promover justiça, a personagem enfrenta seus traumas, mas também exige que o outro encare a si mesmo. Na chave alegórica que o romance compreende, a cena final — o olhar insistente e corajoso que enfrenta os horrores do passado — pluraliza-se nos milhares de olhos que observam agora os acontecimentos recentes da política brasileira. Como a protagonista do romance, reconhece-se a impotência de se garantir, na história do Brasil, o cumprimento da lei. Mas ao manter o olhar fixo, de quem não permite o apagamento dos crimes cometidos nos últimos anos, expressa-se o desejo por um destino diferente para o futuro do Brasil: sem anistia.
REFERÊNCIAS
BENSIMON, Carol (2022). Diorama. São Paulo: Companhia das Letras.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (1995). Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Notas de autor