RESENHA
Martha Batalha: Chuva de papel
Martha Batalha: Chuva de papel
Martha Batalha: Chuva de papel
Martha Batalha: Chuva de papel
Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, no. 73, e7303, 2024
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB)
Received: 26 February 2024
Accepted: 09 July 2024
Publicado em 2023 pela Companhia das Letras, Chuva de papel é o terceiro romance da escritora recifense Martha Batalha. O primeiro foi A vida invisível de Eurídice Gusmão (2016) , e o segundo, Nunca houve um castelo (2018) .
Misturando tons cômicos e trágicos, Chuva de papel ( Batalha, 2023) traz um narrador em terceira pessoa (primeiro momento), que nos apresenta a história de um repórter policial, Joel Nascimento, de uma dona de casa, Maria da Glória, e sua amiga, Aracy, em um Rio de Janeiro (RJ) que viveu tempos áureos, mas que em 2020 se apresenta completamente diferente, sobretudo quando acometido pela pandemia da COVID-19, que deixou miséria e mortos.
O livro encontra-se dividido em duas partes. Na primeira (capítulo 1 ao 15), o leitor conhece o repórter aposentado e decadente Joel Nascimento, procurando o melhor local pelos bairros do Rio de Janeiro para praticar suicídio. A vida não faz sentido para esse homem solitário e endurecido pelo tempo: “Ninguém estaria esperando por ele em casa. Ele nem tem casa” ( Batalha, 2023, p. 8). Joel vivenciou os tempos de ouro do jornalismo carioca das décadas de 1960 a 90, cobrindo crimes e inventando outros, mas em pleno ano de 2020 se encontra à margem da sociedade.
Dos tempos de outrora, de um “jornalismo raiz”, que estava mais perto da realidade da população carioca, mas que na década dos anos 2000 prima por resultados para o jornal, não para o jornalista, sobraram-lhe o esquecimento e um único bem: um abajur, em seu “quarto alugado na Lapa” ( Batalha, 2023, p. 8). Joel está cansado de “acordar antes das oito”, vestir-se e deixar “a pensão como se fosse aguardado no jornal” ( Batalha, 2023, p. 8). O único contato que tem com suas ex-companheiras (Beatriz e Mathilde) é por telefone, quando elas ligam para cobrá-lo por dinheiro, ou para reclamar da falta de atenção ao seu único filho, Marceu.
Embora morasse na Lapa, um dos bairros mais tradicionais do Rio de Janeiro, conhecido por sua boemia, Joel resolveu tirar a sua vida em Copacabana, porque em sua concepção uma tragédia acontecida ali “seria abafada pelos excessos do bairro” ( Batalha, 2023, p. 8). Joel é, antes de tudo, um homem solitário que precisa conviver com uma cidade que ele não reconhece mais, por causa das inúmeras transformações ocorridas com o advento de novos tempos.
Esse fato faz-nos lembrar o poeta gauche da literatura brasileira Carlos Drummond de Andrade (1902–1987), que em seu poema “A Bruxa” é categórico ao afirmar: “Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, / estou sozinho no quarto, estou sozinho na América” ( Andrade, 2002, p. 93-94). O terreno da contemporaneidade implica a subjetividade do sujeito e exacerba sua solidão.
Joel é uma espécie de Édipo contemporâneo jogado ao mundo para sofrer: cedo, conheceu o medo e o desamparo em meio às reportagens que precisou fazer no jornal Luta Democrática, quando lhe foi oferecido em outubro de 1963 pelo chefe da redação, Cristiano Mota, “o turno da noite ouvindo rádio de polícia” ( Batalha, 2023, p. 8). O ideal de segurança, a felicidade e o desenvolvimento econômico a nós “prometidos” não foram cumpridos. O homem contemporâneo, acreditando ser autossuficiente, viu-se solitário em uma sociedade marcada por relações de interesse e de liquidez.
Atrelado à solidão de Joel, há o vício em álcool. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (2019) mostram que pessoas com 60 anos ou mais têm maiores dificuldades para se livrar do alcoolismo e que a família é uma peça-chave na prevenção da doença. Nossa personagem é filho de uma família desestruturada, com um pai abusador e vários casamentos fracassados, por isso Joel saiu cedo de casa e, segundo sua mãe, foi trabalhar com “cachaceiros”, “empregado por oportunistas” e casado “com uma louca” ( Batalha, 2023, p. 118). A vida não foi fácil para Joel.
Soma-se a tudo isso o fato de ele estar/sentir-se velho, para lembrar Simone de Beauvoir (1970), em sua obra A velhice. A filósofa, além de fazer um extenso estudo social, histórico e antropológico sobre ser velho, desde as civilizações da Grécia e de Roma, passando pelo Egito até chegar à França da década de 1970, questiona o comportamento da sociedade que valoriza o sujeito enquanto ele está produzindo, mas que o coloca em escanteio quando não pode vender sua força de trabalho.
Como se não bastasse, com a contemporaneidade veio o etarismo, ou seja, o preconceito em relação à idade de uma pessoa. Nesse sentido, o filósofo Gilles Lipovetski (2007), em ensaio A felicidade paradoxal, afirma que a sociedade atual vive o auge do hiperconsumo, ou seja, o consumo exagerado, com o propósito de alcançar a felicidade por meio da compra de objetos e serviços. Joel, por exemplo, em seu primeiro aumento de salário, fez uma parceria com “todas as cadeias de eletrodomésticos cariocas”: “Mesbla, Tele Rio, Ponto Frio, Casas Bahia...” ( Batalha, 2023, p. 21), contudo permaneceu solitário, além de devedor.
Jornalista aposentado, sem família e sem perspectiva de futuro, Joel vê seus planos frustrados ao se jogar de um prédio, cair em cima de uma Kombi e acordar no hospital com “a perna quebrada, dezoito pontos na testa e inúmeras escoriações” ( Batalha, 2023, p. 16). Leandro, que durante anos dividiu com Joel o café frio das salas das redações dos jornais, é a única pessoa que lhe estende a mão e leva o amigo para morar de favor “num prédio de pastilhas amarelas e pilotis na Tijuca, no apartamento da tia dele”, Glória ( Batalha, 2023, p. 31). A relação entre Joel e Glória é marcada pela ironia, humor, antipatia, troca de farpas, mas é isso que transforma a vida de ambos:
– Mas e a mudança? – Glória pergunta.
Leandro diz que trouxe tudo.
– Tudo? – Glória repetiu, de um jeito que deixa os pertences ainda menores.
– Eu tenho um abajur – diz Joel.
– Abajur todo mundo tem, ué. E os livros? ...
– Nunca vi intelectual sem livro... – Glória diz
Source: (
Batalha, 2023, p. 32-33).
Glória é uma dessas mulheres invisibilizadas pela sociedade. Ao narrar sua vida para a construção de um livro que deseja escrever, ficamos ciente de tudo o que ela não foi nem fez, o que nos remete a “Capítulo das negativas”, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, de Machado de Assis (1997). Glória não realizou seus sonhos e ainda se tornou a típica chefe de família que sustentou a filha, Cláudia, com empadão: “Não fui aeromoça. Não fiz faculdade. Não viajei. Ano entrando e saindo, fiz empadão” ( Batalha, 2023, p. 198). Mas, ao contrário de Brás Cubas, deixou uma descendência.
Pelo empadão de Glória, é possível ao leitor acompanhar a economia do país: quando melhorava, “ganhava azeitona. Piorava, eu engrossava o recheio com maisena, disfarçava o pouco de carne com ervilha” ( Batalha, 2023, p. 198). Nos governos de Sarney e Collor, ela “usava margarina na massa” ( Batalha, 2023, p. 198). “Itamar presidente, era empadão com massa de manteiga e camarão graúdo em cama de catupiry” ( Batalha, 2023, p. 198). A clientela muitas vezes chegou a reclamar, mas comprava. Foi dessa forma que Glória sobreviveu.
O Rio de Janeiro da década de 1960 não é o mesmo de 2020, especialmente pelo contexto da pandemia de COVID-19. “Quando as primeiras notícias da pandemia começaram a aparecer na TV, isolam do mundo um homem e uma mulher, vivendo juntos em quartos separados” ( Batalha, 2023, p. 71), isto é, Joel e Glória: ele sempre quieto, ela assistindo à televisão, escrevendo em seu caderno e repetindo-se ao telefone: “Ele nunca passou tanto tempo no mesmo lugar. O mesmo lugar do qual ela nunca saiu” ( Batalha, 2023, p. 74). Dessa relação, a princípio forçada, começa a desenvolver-se uma amizade, que é interrompida por uma queda de Glória, que a leva à morte.
Nesse ponto, inicia-se a segunda parte da obra (capítulo 16 ao 34, alternando-se entre a primeira e a terceira pessoa). A solidão, que já dominou romancistas, como Autran Dourado, em Solidão solitude (1972) , e Lúcio Cardoso, em Crônica da casa assassinada (1959) , contamina novamente o antigo e premiado jornalista, que na década de 1970 fora premiado no Jornal do Brasil.
Nesse instante, Joel, que viveu “mais de meio século lidando com as histórias dos outros” ( Batalha, 2023, p. 118), diz para si mesmo: “Vai ser impossível viver estes dias vazios dedicados somente a mim” ( Batalha, 2023, p. 118). Ele lembra-se do caderno em que Glória escrevia dizendo ser o livro que seria em breve publicado. Começa a procurá-lo. “Ele se convence de que lerá por distração. Para ter o que fazer” ( Batalha, 2023, p. 118). Após achar o caderno de capa azul, guarda-o, porque naquele instante ele se sente sua melhor versão. Ler a história de Glória é para esse repórter arredio a possibilidade de dar à amiga um final feliz, ao menos na ficção que, quem sabe, escreverá.
Joel procura aproximar-se de Aracy, melhor amiga de Glória, e começa a fazer várias perguntas sobre Glória. Inicia a leitura do caderno deixado por sua antiga companheira de apartamento e descobre a perda repentina do pai (Vinícius), a vida dura financeiramente e sem afeto da mãe (Mariza), em busca de um segundo casamento para poder sustentar ambas. À medida que Glória vai tornando-se mais conhecida de Joel, ele dá-se conta, ao escutar o rádio, de que é “quarta-feira, 4 de maio de 2020” ( Batalha, 2023, p. 134), dia de seu aniversário. Nesse entremeio, ele escuta também:
Novecentos infectados com covid morrem na fila para internação
Secretário de Saúde é preso por superfaturamento na compra de respiradores
Nova quadrilha frauda concursos públicos
Pastor evangélico será o novo ministro da Educação
Servidores públicos fraudam licitação de hospital de campanha na Zona Oeste
Source: (
Batalha, 2023, p. 135).
Três pontos devem ser destacados em Chuva de papel ( Batalha, 2023). A primeira é a atualidade de fatos históricos, políticos e econômicos ocorridos no Brasil, como se observa nas frases destacadas. O trio, Joel, Glória e Aracy, precisa lidar com seus problemas em meio a uma sociedade em transformação dividida entre aqueles que batem panelas na janela e aqueles que negligenciam os fatos ocorridos: “ Perguntado sobre o número de mortos pela covid, o presidente responde: E daí?” ( Batalha, 2023, p. 136). O segundo diz respeito à importância do jornalismo e do repórter na construção/desconstrução das narrativas. Por fim, a cidade do Rio de Janeiro, que não só é o cenário em que ocorre a história, mas também o protagonista da narrativa. O espaço urbano assume em Chuva de papel “dimensões existenciais” ( Scarlato; Costa, 2017, p. 2).
Falar de Joel é falar do Rio, “bucólico, elegante, charmoso, que pelo ângulo superior e remoto de um mirante parece desfrutar de um profundo sono de beleza...” ( Batalha, 2023, p. 15). Entre Joel e o Rio nasce uma relação controversa: de dia, Joel enxergava uma cidade “encantadora e inofensiva”, mas à noite ela se tornava “feia e má” por meio dos relatos da rádio da polícia ( Batalha, 2023, p. 17). No decorrer da narrativa, fica difícil saber a linha tênue que separa Joel e o Rio.
Chuva de papel ( Batalha, 2023) é um romance-crônica com uma linguagem fluida, personagens machucadas por acontecimentos individuais e coletivos, eivado de humor e ironia e que nos faz pensar em temas como a solidão, o companheirismo, a velhice etc.
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de (2002). Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.
BATALHA, Martha (2016). A vida invisível de Eurídice Gusmão. São Paulo: Companhia das Letras.
BATALHA, Martha (2018). Nunca houve um castelo. São Paulo: Companhia das Letras.
BATALHA, Martha (2023). Chuva de papel. São Paulo: Companhia das Letras.
BEAUVOIR, Simone de (1970). A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
CARDOSO, Lúcio (1959). Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL (CISA) (2019). Álcool e a saúde dos brasileiros: panorama 2019. Brasil: CISA. Disponível em: https://www.sbponline.org.br/2019/05/centro-de-informacoes-sobre-saude-e-alcool-cisa-um-panorama-de-2019. Acesso em: 27 jul. 2024.
DOURADO, Autran (1972). Solidão solitude. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
LIPOVETSKY, Gilles (2007). A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Lisboa: Edições 70.
MACHADO ASSIS, Joaquim Maria (1997). Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo.
SCARLATO, Francisco Capuano; COSTA, Everaldo Batista da (2017). A natureza do urbano. Confins, n. 30, p. 1-21. https://doi.org/10.4000/confins.11676
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