Resumo: A relação entre tempo e poesia é a questão impulsionadora do presente texto, a fim de analisar especificamente como a pandemia de COVID-19 se efetiva em um “tempo suspenso” e de que forma isso reverbera na poesia contemporânea. Com esse objetivo, selecionamos alguns fragmentos da tese de Alice Sant’Anna (2020), Dobra, em uma leitura que evidencia esses ecos pandêmicos. Com base nas noções de poesia, tempo e pandemia discutidas por pensadores como Jean-Luc Nancy (2005) e Giorgio Agamben (2016; 2020), verificamos como a poesia contemporânea potencializa os diálogos entre literatura e sociedade, pois, por meio da vivência do isolamento social, se constroem os sentidos sobre estado de exceção, tempo bloqueado e poesia. Ainda, para aprofundar a discussão no contexto brasileiro, elencamos os apontamos de Eurídice Figueiredo (2022). Pela nossa leitura, podemos observar como se expressam as questões sobre isolamento social, pandemia, medo, contaminação, doença, vida, morte e tempo na poesia de Alice Sant’Anna.
Palavras-chave: Alice Sant’Anna, estado de exceção, pandemia, poesia contemporânea.
Abstract: The relationship between time and poetry drives this text, to analyze specifically how the Covid-19 pandemic manifests as a “suspended time” and how this reverberates in contemporary poetry. For this purpose, we selected some fragments of Alice Sant’Anna’s thesis (2020), Dobra, in a reading that highlights these pandemic echoes. Based on notions of poetry, time, and the pandemic discussed by philosophers such as Jean-Luc Nancy (2005) and Giorgio Agamben (2016; 2020), we verify how contemporary poetry enhances the dialogues between literature and society. Through the experience of social isolation, meanings about the state of exception, blocked time, and poetry are constructed. Also, to deepen the discussion in the Brazilian context, we return to the notes of Eurídice Figueiredo (2022). From our reading, we can observe how the issues of social isolation, pandemic, fear, contamination, disease, life, death, and time are expressed in Alice Sant’Anna’s poetry.
Keywords: Alice Sant’Anna, state of exception, pandemic, contemporary poetry.
Resumen: La relación entre tiempo y poesía concierne a la pregunta central de este texto, con el fin de analizar específicamente cómo la pandemia de Covid-19 se efectúa en un “tiempo suspendido” y cómo esto repercute en la poesía contemporánea. Para ello, seleccionamos algunos fragmentos de la tesis de Alice Sant’Anna (2020), Dobra, en una lectura que pone de relieve estos ecos pandémicos. A partir de las nociones de poesía, tiempo y pandemia discutidas por pensadores como Jean-Luc Nancy (2005) y Giorgio Agamben (2016; 2020), comprobamos cómo la poesía contemporánea potencializa los diálogos entre literatura y sociedad, pues, a partir de la experiencia del aislamiento social, se construyen significados sobre el estado de excepción, el tiempo bloqueado y la poesía. Además, para profundizar la discusión en el contexto brasileño, enumeramos los puntos de Eurídice Figueiredo (2022). A partir de nuestra lectura, podemos observar cómo se expresan las cuestiones sobre aislamiento social, pandemia, miedo, contaminación, enfermedad, vida, muerte y tiempo en la poesía de Alice Sant’Anna.
Palabras-clave: Alice Sant’Anna, estado de excepción, pandemia, poesía contemporánea.
DOSSIÊ POESIA, PANDEMIA E ESTADO DE EXCEÇÃO
Tempo suspenso: pandemia e poesia contemporânea
Suspended time: pandemic and contemporary poetry
Tiempo suspendido: pandemia y poesía contemporánea
Recepción: 27 Marzo 2024
Aprobación: 04 Julio 2024
É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras
Fuente: (
Agostinho, 1980, p. 270).
Afirmar que tempos difíceis exigem reflexão parece suficiente, entretanto assumimos aqui uma leitura de que os tempos difíceis exigem poesia. Uma exigência, na perspectiva apontada por Jean-Luc Nancy (2005), de acesso ao sentido que “não pode deixar de deter o discurso e a história, o saber e a filosofia, o agir e a lei” ( Nancy, 2005, p. 20).
Na epígrafe de Chicas en tiempos suspendidos, Tamara Kamenszain (2021a) evoca Didi-Huberman: “Estamos diante de um tempo que não é o das datas”. No fragmento citado, ao propor certa arqueologia da história da arte, o filósofo e historiador toma-a como uma disciplina anacrônica e tensiona as discussões sobre o tempo e a imagem.
Em um sentido muito próximo ao do que a professora Eneida Maria de Souza (2021) pensa como o ato de “teorizar é metaforizar” — ao investigar o gesto analítico de Walter Benjamin, que, por sua vez, ao desenvolver seus conceitos introduz imagens, quadros, cenas, ou seja, teoriza por meio da metáfora —, pensamos também a construção de Didi-Huberman (2015, p. 41). Ele ao iniciar seu texto traz a imagem de “Diante da lei”, de Franz Kafka (1915), para refletir sobre como estamos diante desse tempo que não é o tempo das datas:
Sempre, diante da imagem, estamos diante do tempo. Como o pobre iletrado da narrativa de Kafka, estamos diante da imagem como
Diante da lei: como diante do vão de uma porta aberta. Ela nada nos oculta, bastaria entrar, sua luz quase nos cega, nós a respeitamos. Sua própria abertura — e eu não me refiro ao guardião — nos faz parar: olhá-la é desejar, é esperar, é estar diante do tempo. Mas que tipo de tempo? De que plasticidades e fraturas, de que ritmos e embates do tempo poderia se tratar nessa abertura da imagem?
Fuente: (
Didi-Huberman, 2015, p. 15).
Assim como o homem do campo de Kafka está diante da lei, estamos nós diante do tempo. Embora Didi-Huberman (2015) discuta a problemática do anacronismo na história da arte, retomamos a epígrafe utilizada por Tamara Kamenszain (2021a) considerando duas possibilidades: observamos que seu livro Chicas en tiempos suspendidos dialoga com seu texto “Las nuevas poetisas del siglo XXI” ( Kamenszain, 2021b), pois ambos encontram nas proposições de Didi-Huberman (2015) um “anacronismo fecundo”: “ Me acordé que Didi-Huberman dice/ que el anacronismo es fecundo/ y también que vivimos en un tiempo/ que no es el de las fechas” ( Kamenszain, 2021a, p. 85) 1; e devemos levar em conta que, publicado em 2021, o livro foi escrito no desenrolar de um tempo pandêmico, ou seja, um tempo que não é o das datas, um “tempo suspenso”, um tempo, em uma alegoria favorável a uma leitura fenomenológica, em “estado de exceção”.
De março de 2020 a maio de 2023 2, estivemos diante desse tempo suspenso, em decorrência da pandemia do vírus Sars-CoV-2, o novo coronavírus, causador da doença COVID-19. Desse modo, com a imagem de um tempo bloqueado, propomos refletir sobre a literatura, especificamente sobre a poesia contemporânea, a fim de explorar em que medida a poesia e a pandemia se imbricam, aproximando-se e/ou distanciando-se, e como os ecos pandêmicos se efetivam no pensamento poético. Muitas leituras em áreas afins discutem o papel do Estado diante da pandemia, de forma que expandimos a reflexão para pensar o papel da poesia na pandemia. Os caminhos ficam menos obscuros quando tomamos o tempo como o cerne dessa fratura, aquele que é ao mesmo tempo o ponto de sutura e a ruptura.
Os tempos literário e histórico muitas vezes se encontram imbricados. A literatura é pensada pelos autores num passo que acompanha o desfilar dos adventos da sociedade. No tempo presente, a necessidade de quarentena e isolamento social em decorrência da pandemia de COVID-19 ecoa nas artes, uma vez que as mídias, o cinema, a música, a poesia serviram de lugar de refúgio para que mesmo diante de tantas mortes e partidas a sociedade encontrasse uma cura, não para o vírus, mas para os deslocamentos e faltas de afeto e presença.
As transgressões do cenário pandêmico transformaram a relação dos sujeitos com as artes. À medida que para muitos leitores a literatura se expressou como refúgio, geradora de consciência e resistência, para os autores, essa intempérie histórica foi lugar para expandir as linguagens e questões sobre a literatura. Perante isso, propomos confrontar a experiência de quarentena na pandemia expressa na poesia.
Em vista de alçar nossos objetivos, elencamos para análise a tese de doutorado da poeta Alice Sant’Anna (2020), Dobra, trazendo à baila discussões sobre poesia e tempo abordadas por pensadores como Jean-Luc Nancy (2005) e Giorgio Agamben (2016; 2020), sobretudo a ideia de Agamben a respeito do estado de exceção e suas discussões mais atuais acerca da pandemia. Ainda, visando a uma leitura que expresse o contexto brasileiro, recorremos às discussões de Eurídice Figueiredo (2022). Por meio de nossa leitura, podemos observar como reverberam as questões sobre isolamento social, pandemia, contaminação, vida, morte e tempo na poesia de Sant’Anna (2020) e, de certa forma, na poesia contemporânea como um todo.
No âmbito da crítica literária atual, destacam-se muitos trabalhos de hibridismos literário e teórico, ou seja, muitos autores e poetas ocupam também o lugar da/na pesquisa para explorar as possibilidades da/na poesia. No sentido de expandir o estudo acadêmico, ressaltamos a tese de doutorado de Alice Sant’Anna (2005), defendida no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tomamos o texto como uma tese-poema, considerando a configuração do seu trabalho, uma pesquisa acadêmica escrita como poesia. Conforme explicado pela autora, trata-se de “um conjunto de poemas e uma sequência de textos em prosa” ( Sant’Anna, 2020, p. 6), que servem de convite para refletir sobre a passagem do tempo. A primeira parte é composta de 28 poemas, distanciando-se do que se tem como parâmetros de um trabalho de pesquisa.
Esses tratamentos diferentes da escrita suplementam-se, buscando avaliar suas próprias posições. O título faz referência à noção de dobra formulada por Roland Barthes, que aponta o instante em que se tem consciência de estar numa encruzilhada, no ponto de virada, quando se ingressa na “outra vida”, na “nova vida”. Ainda de acordo com Barthes, escolher a “nova vida” só é possível se essa decisão engendrar uma nova prática de escrita, por sua vez, dobrada em autocrítica
Fuente: (
Sant’Anna, 2020, p. 6).
O tempo — a passagem e/ou a pausa dele — é o mote central da reflexão e do questionamento da autora, que também é potencializado pela experiência (ainda que forçada) de quarentena e isolamento social durante a pandemia. Apesar de a noção usada pela poeta vir da ideia de “dobra” de Roland Barthes, como essa “suspensão do tempo”, potencializamos em nossa leitura aproximações com os termos discutidos por Giorgio Agamben (2016; 2020) sobre o tempo, especificamente “tempo messiânico” e “estado de exceção” 3, com base na hipótese de que se o mundo/referencial vivencia um tempo de estado de exceção isso também ecoa na poesia. Investigamos de que forma a experiência da pandemia, o isolamento social, o medo da/e a contaminação com o vírus, a morte (no sentido da biopolítica e tanatopolítica), a suspensão das atividades sociais e proibições de contato reverberam nos versos poéticos de Sant’Anna (2020).
Todos os poemas se chamam quarta-feira. Era uma brincadeira. Mal sabia que durante a pandemia, aí sim, todos os dias seriam o mesmo. Não era sempre quarta-feira nos poemas. Mas, já que em determinado momento assumi que era um diário performado, achei que não faria diferença dizer o mês, o dia, se fazia tempo bom ou não. Quarta-feira parecia um dia qualquer, sem a carga de uma segunda ou o otimismo de uma sexta. Quarta-feira é o dia em que o pessoal que mora na ocupação vem treinar os exercícios de circo na praça. É, ou era, o dia da semana mais festivo aqui
Fuente: (
Sant’Anna, 2020, p. 61).
A poética de Alice Sant’Anna (2020) abre para que reflitamos sobre a nossa própria experiência nesse cenário. Os versos ecoam aquilo que já está expresso no referencial e se desdobra para que discutamos o que isso de fato implica na vivência do tempo, como já colocado, um tempo suspenso, efetivando-se na construção de sentido. Para Jean-Luc Nancy (2005, p. 10), a “poesia não tem exatamente um sentido, mas antes o sentido do acesso a um sentido a cada momento ausente, e transferido para longe. O sentido de ‘poesia’ é um sentido sempre por fazer”. Ou seja, para o leitor contemporâneo o sentido reverberado no pensamento de Sant’Anna (2020) se consubstancia com a sua própria vivência da pandemia.
A tese-poema é, nas palavras de Sant’Anna (2020), “um diário performado”, isto é, os poemas, que começaram a ser escritos em 2016 e finalizados em 2020, perpassam por diversas narrativas: mudança de cidade, a morte de um amigo e do avô, a gravidez e o nascimento do primeiro filho, o qual viveu seus primeiros anos nesse cenário de isolamento social etc. Na segunda parte, as reflexões já não são mais em versos, mas em texto corrido (corrido como o tempo), em contraponto aos poemas. “Talvez essa situação resuma um pouco o gesto de escrever poesia, isso de querer chegar perto, mas de um modo discreto, contido, sem chamar a atenção. Se alguém nota que você está ali, olhando, a coisa se quebra, você é obrigado a estabelecer uma relação” ( Sant’Anna, 2020, p. 66).
Em O tempo que resta (2016), Agamben propõe pensarmos o tempo messiânico como paradigma do tempo histórico. Ao encontro de outros termos já discutidos pelo autor (como Soberano, biopolítica e vida nua), pensar o tempo messiânico é, em certo sentido, pensar o pós-histórico. Na concepção cristã de tempo, a problemática de Agamben (2016) está em viver esse “tempo que resta”. Ou seja, o messiânico é a “espera pelo devir”, tendo em vista que desde o início da pandemia o que se esperava era o seu fim (seja o “fim” equivalente à contenção do vírus combatido com pesquisa, ciência e vacinas, ou o “fim” de teorias apocalípticas — no sentido preciso de teorias sobre o fim dos tempos). Esperava-se pelo devir, pelo tempo que vem depois, na ilusão de que a ordem das coisas retornaria a ser como antes da pandemia. Todavia, as mudanças sociais, referenciais e introspectivas deixadas pelos rastros da pandemia são profundas, principalmente ao considerar as tantas vítimas (contaminadas ou não) que sofreram com o vírus e com a morte de seus próximos.
Propomos que a busca pela literatura foi, em certa medida, uma busca pela “ilusão de refúgio”, no sentido de que as pessoas esperavam por uma humanidade mais fraterna após a pandemia, sendo esse discurso muitas vezes o de consolação: “Quando a pandemia acabar teremos nos tornado pessoas mais fortes, mais humanas” ( Agamben, 2016, p. 68). A vivência traumática, contudo, bloqueou (a grosso modo) essa “esperança messiânica”, considerando que, para Agamben (2016, p. 68), o tempo messiânico “é o tempo que o tempo leva para acabar — ou, mais exatamente, o tempo que empregamos para fazer acabar, para concluir a nossa representação do tempo”. Ou seja, o luto e/ou a não vivência desse luto, o impedimento de viver o luto, “como um estado de exceção dos velórios e enterros” 4 ( Agamben, 2016, p. 68) por causa da periculosidade de contaminação, podem ser tomados como expressões dessa vivência bloqueada de sentido e de tempo.
Retomando nossa questão de discussão, ponderamos em que medida isso ecoa na arte, na poesia. É o que propõe Alice Sant’Ana (2020): “todos os dias são quartas-feiras” na pandemia. Pensamos a poesia contemporânea que tem como mote a pandemia como uma poesia “messiânica”, não no sentido de esperar por um “salvador/Messias”, mas pela espera de um tempo messiânico, um tempo “pós-pandemia”, pós-histórico. Uma espera de que a vida cotidiana e a poesia retornem ao “antes”. Uma espera que não se concretizará, pois, assim como o tempo, a pandemia esteve em suspenso, mas não parou. Ainda que em suspenso, as imagens e os sentidos continuaram a jorrar em versos.
Parei de acompanhar as notícias. A avidez do início da quarentena para me manter a par da política foi aos poucos se transformando em apatia. No início ligávamos a televisão ao acordar e só desligávamos ao dormir. Agora, quase quatro meses depois, só recebo as manchetes no celular. O número de mortos das últimas 24 horas, uma cifra medonha, e isso é praticamente tudo
Fuente: (
Sant’Anna, 2020, p. 76).
A rotina cotidiana mudou abruptamente. A imagem construída por Sant’Anna (2020) realça que uma quarta-feira não durou apenas um dia, mas meses. Cronologicamente, o tempo desenrolava-se, porém a experiência temporal estava bloqueada; aumentavam-se os dias concomitantemente ao número de mortos. O paradoxo da vida que corria, mas não se vivia. Logo, podemos pensar o relato de Sant’Anna (2020) como uma espécie de tempo messiânico bloqueado, no sentido que debate Agamben (2016, p. 103) sobre a desconstrução: “A desconstrução é um messianismo bloqueado, uma suspensão do tema messiânico”. Ou seja, essa vida que passa é pensada somente como histórica, tudo é temporalizado, mas é só isso mesmo. Tudo é histórico e, portanto, só há o tempo a passar. Entretanto, na pandemia, em decorrência das medidas sanitárias adotadas, essa experiência esteve bloqueada.
Nesse mesmo lugar de reflexão tempo-linguagem, podemos retomar como exemplo Chicas en tiempos suspendidos. Tamara Kamenszain (2021a) potencializa essa “experiência pessoal”, seja com questionamentos sobre a linguagem e o fazer poético, seja com narrativas de situações da vida cotidiana e privada, principalmente os acontecimentos do tempo/agora e dessa “suspensão” do tempo, refletindo sobre a pandemia que “parou o tempo”.
eu digo enquanto vou me retirando.
E no entanto e no entanto
como se não me pertencesse
de repente deixo cair colada
aos dias da pandemia
uma data.
Março-dezembro de 20205
Fuente: (
Kamenszain, 2022, p. 48).
As experiências reais dos sujeitos nesse “tempo suspenso”, tempo de isolamento e deslocamento, ecoam nas inquietações poéticas de Kamenszain (2022), afinal os dias de pandemia representam um tempo que parece não nos pertencer.
Em uma série de artigos de opinião, Agamben (2020) pontuou algumas questões sobre o que chama de “invenção” de uma pandemia, polemizando contra as medidas adotadas como contenção da propagação do vírus, em uma leitura paradigmática com sua noção de estado de exceção, criticando arduamente as medidas dos meios juristas, como a proposta de quarentena. As reflexões do teórico, embora muito criticadas diante do contexto da pandemia — consideradas por críticos como uma análise superficial do ponto de vista da saúde publica —, correspondem com seu trabalho, pois quando se compreende minimamente o seu percurso se observa que a ideia de “invenção” da pandemia reflete a sua análise mediante os aparatos de uma legislação/não legislação pelo estado de exceção.
Em contrapartida, se a visão de Agamben (2020) nos parece distante das consequências da doença, do alto contágio e do número de mortes, podemos encontrar no trabalho de Eurídice Figueiredo (2022), mais especificamente no texto “A peste de Camus em diálogo: epidemias do passado, pandemia do presente”, uma leitura que toma a literatura e a pandemia com um olhar muito mais sensível à fragilidade social das minorias expostas ao vírus, numa relação entre política e vida biológica, a biopolítica de Michel Foucault (2012) e, também, a necropolítica: “Para que uma minoria rica prospere, é preciso considerar as vidas dos pobres descartáveis, sobretudo no momento de crise econômica” ( Figueiredo, 2022, p. 150).
A análise de Eurídice Figueiredo (2022) se encontra com uma leitura preocupada com os impactos da crise sanitária no contexto brasileiro. Assim, vale ressaltar as ideias contrapostas, que abrangem esses dois contextos distintos: por um lado, o pensamento de Agamben (2020) se desenvolve atento à sua própria filosofia e à sua construção sobre a noção de estado de exceção como uma problemática na Itália; por outro, Figueiredo (2022) detém-se ao contexto universitário brasileiro, em um momento de grande embate e crise educacional, de ataques às instituições e ao saber científico, potencializados por discursos negacionistas.
Se na Itália Agamben (2020) questiona as restrições severas de uma política que, segundo o autor, forçou um estado de exceção pelas privações; no Brasil, a sociedade enfrentou o negacionismo (não só do Estado, mas também de parte da população), políticas que negligenciaram a situação desde o começo, como por exemplo o atraso na vacinação, aumentando massivamente o número de mortos. De acordo com Figueiredo (2022), se nos países europeus (como Itália) a dedicação dos profissionais da saúde foi aplaudida, no Brasil “a postura negacionista de parte da população levou-a a comportamentos incompreensíveis, tais como a agressão a enfermeiras, a invasão de hospitais e o bloqueio de ambulâncias nas ruas” ( Figueiredo, 2022, p. 149).
Ações como recusar o isolamento, organizar festas “clandestinas” com aglomerações, manifestações, carreatas, entre outros, de acordo com Figueiredo (2022), representam uma pulsão de morte. “ Performances com caixão e ataques a expressões de luto, como as cruzes arrancadas na areia de Copacabana, são figurações de um culto à violência e, em última instância, à morte” ( Figueiredo, 2022, p. 149). A experiência pandêmica efetivou-se nesses dois cenários. Por alguns, foi trivializada; por outros, o risco de alto contágio e a grande escala de mortes significaram a real experiência do medo, como evidente no fragmento de Alice Sant’Anna (2020, p. 77, grifo nosso):
a morte é um número que chega diariamente no boletim, e só faz crescer. A morte deixou de ser algo particular e se transformou num medo coletivo, num risco real . Não sair de casa para não morrer, nem matar, mesmo que por omissão. Já isso aqui é o registro da vida estagnada, o exercício radical de um ponto de vista fixo, em que o mundo aparece da janela como um quadro distante e incomunicável.
Em diálogo com o trecho “Não sair de casa para não morrer”, podemos relacionar a crítica de Agamben (2020) sobre esse medo da morte; seus textos discutem muito mais as consequências éticas e políticas da epidemia do que a ideia de morrer ou não pela contaminação. De acordo com suas proposições, “a primeira coisa que a onda de pânico que paralisou o país [Itália] mostra claramente é que nossa sociedade não acredita em nada além da vida nua” ( Agamben, 2020), de modo que, para Agamben (2020), a vida nua (e o risco de perdê-la) não une as pessoas, mas cega-as e separa-as: “Os italianos estão dispostos a sacrificar praticamente tudo — as condições normais de vida, as relações sociais, o trabalho, até mesmo as amizades, as afeições e convicções religiosas e políticas — pelo perigo de adoecer” ( Agamben, 2020). Embora Agamben (2020) parta do cenário italiano, diversos países que vivenciaram o lockdown adotaram as medidas com base nesse sentimento do “medo”.
A gente não sai por nada. De uma hora para outra, temos medo de tudo. Medo de encontrar alguém, de ver gente. Espirrar ou tossir virou a maior ameaça. Vejo muitos gestos solidários, colaboramos também, mas é uma generosidade distante, através do vidro. De repente passamos a ter medo da proximidade, de nos contaminar ou contaminar os outros. E o outro pode ser um desconhecido, mas também a sua avó, as suas tias. Todos viraram um risco, nós também
Fuente: (
Sant’Anna, 2020, p. 57).
Em outra perspectiva, Eurídice Figueiredo (2022) pensa a negligência da pandemia como um “gerenciamento da morte”, o que também esbarra nas reflexões sobre direito, violência e justiça. A contaminação pelo vírus, o medo de ser contagiado, de contagiar e, como consequência, de morrer se tornou um exímio exemplo dessa vivência no entrelugar da lei-violência-justiça, como expresso em outro fragmento de Alice Sant’Anna (2020, p. 15):
mas pensar em ter medo de morrer
é uma certa vaidade
e pensar que se morrer morreu
também é
a gente se conheceu no avião
era um domingo à noite e eu estava na dúvida
se o que tinha era medo de morrer
ou tristeza de deixar a minha casa
A construção de sentido com base na experiência do medo conota certa ambiguidade entre preservar a vida mantendo-se no isolamento ou arriscá-la saindo de casa, por exemplo. Por todos esses aspectos, podemos pensar os fragmentos de Alice Sant’Anna (2020) em seu “diário performado” como a poesia que ecoa o tempo suspenso, afinal os versos expressam a leitura daqueles que optam por respeitar as medidas de contenção do vírus, na esperança pelo pós-pandêmico, mesmo que isso implique sujeitar-se ao estado de exceção sem embates.
Reiterando a sincronia entre tempo e poesia, destacamos que os ecos do cenário pandêmico brasileiro não aparecem somente na poética de Alice Sant’Anna (2020), mas em diversos poetas contemporâneos que também evocam em seus trabalhos as preocupações com o agora, mediante esse diálogo entre literatura e o referencial, tais como João Gabriel ( Vende-se um elefante triste, 2021 ), José Antônio Cavalcanti ( A era das manadas, 2021 ), Raquel Reis ( A dor cotidiana, 2021 ), Marília Garcia ( Expedição: nebulosa, 2023 ), entre outros. Utilizamos o poema “XXII”, de Raquel Reis (2021), para ilustrar como outros elementos marcantes da pandemia, como o uso de máscaras de proteção, também contribuem na construção dessa reflexão sobre a vivência desse tempo pandêmico, mais uma vez expresso no sentimento do medo/da impotência:
Tento andar e respirar
Andar e respirar, porém me sufoca
A máscara me sufoca
No instante desse pensamento
Percebo
Não somente a máscara me sufoca
Me sufoca a incerteza
Me sufoca o desprezo
A pilha de mortos
Sobre mim
Me sufoca
O que mais me sufoca além da máscara?
A impotência de transformar
Fuente: (
Reis, 2021, p. 40).
Dessa forma, pensamos a ideia de estado de exceção não apenas como um aparato da legislação/não legislação do soberano, porque no cenário da pandemia o estado de exceção não significou apenas as regulamentações de contenção visando à saúde pública; a necessidade de cessar todas as atividades sociais implicou a suspensão dessa vivência social. Isso acarretou que a experiência temporal também significasse enquanto “bloqueada”, no sentido da impossibilidade de interação, de afeto, de trabalho/estudo e, também, de liberdade.
O tempo é vivenciado pela experiência. Ou seja, conforme as interações acontecem, o tempo também acontece. É por isso que concebemos que se essas interações estavam bloqueadas a experiência do tempo também esteve suspensa. Sobre essa experiência do tempo, Giorgio Agamben (2016, p. 66) retoma as ideias do linguista e filósofo francês Gustave Guillaume sobre o que ele define como “tempo operativo”. “Segundo Guillaume, a mente humana tem a experiência do tempo, mas não a sua representação e deve, por isso, recorrer, para representá-lo, a construções de ordem espacial” ( Agamben, 2016, p. 66). Ou seja, de acordo com Agamben (2016, p. 67), “Guillaume define como ‘tempo operativo’ o tempo que a mente emprega para realizar uma imagem-tempo”.
Com base nisso, podemos tomar a poesia e o seu modo de construção de sentido como uma das possibilidades de representação do tempo. Isto é, o poeta vivencia a experiência do tempo, e essa experiência ecoa em seus versos. Como no poema de Raquel Reis (2021), a obrigatoriedade do uso de máscaras que dificultavam a respiração livre com que o homem estava habituado ecoou na poesia como a sensação de sufocamento. Se no referencial o uso das máscaras era difícil porque sufocava a respiração, na literatura, a construção de sentido poético potencializa esse abafamento, como o sentimento de impotência diante da pandemia, da contaminação, da doença e da morte.
No pós-pandemia, embora o esperado fosse retornar aos hábitos anteriores, a forma como foi necessário reorganizar e ressignificar as experiências estabeleceu mudanças e novos modos de vida, potencializando a vida virtual, reuniões online, compras por aplicativos, alimentação por sistema de entrega, entre outras mudanças. O mundo transformou-se para que não fosse necessário sair de casa, o que acarretou que, mesmo após o fim dos decretos legislativos, essas mudanças perdurassem e se efetivassem como um novo modo de vivência.
Então, a relação entre pandemia e poesia efetiva-se na construção de sentido pela experiência do tempo, manifestamente no tempo suspenso. Por meio das discussões, podemos afirmar que o estado de exceção emergiu nessa suspensão do tempo porque a vivência da quarentena, do isolamento social, da pandemia como um todo, suspendeu a forma de vida anterior. As pessoas deixaram de viver como estavam habituadas, por isso que para Agamben (2020) o estado de exceção bloqueia a vida e o tempo, na medida em que se preocupa apenas com a vida nua, deixando em suspenso a vida social, ética e política.