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Impactos sobre a corporalidade negra: as poéticas que resistem em Conceição Evaristo e Luedji Luna
Impacts on black corporeality: the poetics of resistance in Conceição Evaristo and Luedji Luna
Impactos sobre la corporalidad negra: as poéticas que resisten en Conceição Evaristo y Luedji Luna
Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, núm. 73, e7313, 2024
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB)

Dossiê Poesia, Pandemia e Estado de Exceção


Recepción: 11 Junio 2024

Aprobación: 22 Julio 2024

DOI: https://doi.org/10.1590/2316-40187313

Resumo: Este artigo tem como principal objetivo evidenciar consequências impostas ao corpo negro feminino por projetos/execuções dos sistemas econômicos brasileiros. Partindo da leitura do poema Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo (2017), passando pela das canções: Ain't Got No e Chororô, presentes no álbum Bom mesmo é estar debaixo d’água, da cantautora Luedji Luna (2020), analisa-se a miserabilidade à qual a população negra é socialmente relegada como resultado da escravidão, com seus resquícios ecoantes na contemporaneidade. Por meio da metodologia qualitativa, enseja-se corroborar o quanto a precariedade imposta a pessoas negras e as desigualdades que a provocam ganharam contornos evidentes durante a pandemia da COVID-19 no Brasil. O empobrecimento da população negra é analisado, à luz de pesquisas de Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg (1982) e Neusa Souza (2021), como uma configuração social, um lugar natural. Enquanto constatação, evidenciam-se mulheres negras subvertendo, por meio de suas intelectualidades, artes e Escrevivência, essas imposições sociais naturalizadas, resultando na resposta à seguinte indagação: é possível vencer a escassez econômica e a violência abundante as quais os sistemas econômicos brasileiros impõem aos corpos negros?

Palavras-chave: Mulher negra, Conceição Evaristo, Luedji Luna, sistemas econômicos.

Abstract: This article aims to highlight the consequences imposed on the black female body by projects/executions of brazilian economic systems. Starting with the analysis of the poem " Vozes-mulheres" by Conceição Evaristo (2017), and moving through the songs Ain't Got No and Chororô, from the album Bom mesmo é estar debaixo d’água by singer-songwriter Luedji Luna (2020), it examines the misery to which the Black population is socially relegated as a result of slavery and its lingering effects in contemporary times. Using qualitative methodology, the article seeks to affirm how the precarity imposed on Black individuals and the resulting inequalities became starkly evident during the COVID-19 pandemic in Brazil. The impoverishment of the Black population is analyzed, drawing on research by Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg (1982) e Neusa Souza (2021), as a social configuration, a naturalized place. As a finding, it underscores how Black women subvert these naturalized social impositions through their intellect, arts and Escrevivência, resulting in an answer to the following question: "Is it possible to overcome the economic scarcity and abundant violence imposed by Brazilian economic systems on black bodies?

Keywords: Black woman, Conceição Evaristo, Luedji Luna, economic systems.

Resumen: Este artículo tiene como objetivo principal evidenciar las consecuencias impuestas al cuerpo negro femenino por los proyectos/ejecuciones de los sistemas económicos brasileños durante la pandemia de COVID-19. A partir del análisis del poema Vozes-mulheres de Conceição Evaristo (2017) y de las canciones Ain't Got No y Chororô, del álbum Bom mesmo é estar debaixo d’água de la cantautora Luedji Luna (2020), se examina la miseria a la que la población negra es relegada socialmente como resultado de la esclavitud, con sus resonancias contemporáneas. Utilizando metodología cualitativa, se busca corroborar cómo la precariedad impuesta a las personas negras y las desigualdades que provoca se han vuelto evidentes durante la pandemia de COVID-19 en Brasil. El empobrecimiento de la población negra se analiza, a la luz de investigaciones de Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg (1982) e Neusa Souza (2021), como una configuración social, un lugar naturalizado. Como hallazgo, se destacan las mujeres negras que subvierten estas imposiciones sociales naturalizadas a través de su intelectualidade, artes y Escrevivência, respondiendo a la siguiente pregunta: "¿Es posible superar la escasez económica y la abundante violencia impuestas por los sistemas económicos brasileños a los cuerpos negros?"

Palabras clave: Mujer negra, Conceição Evaristo, Luedji Luna, sistemas económicos.

INTRODUÇÃO

A escolha e a execução de um sistema econômico — em cada nação, a cada tempo — atingem diretamente suas populações. No Brasil, da era colonial aos dias atuais, é possível perceber o quanto as opressões impostas aos povos originários e às pessoas negras não só os exterminaram, como também adoeceram os sobreviventes e seus descendentes, deixando heranças nefastas, as quais são ainda mais evidenciadas em contextos de exceção.

A escravidão, o capitalismo e o neoliberalismo com suas disparidades sociais causam violências que atingem diretamente a saúde física e mental, a autoestima, a maneira de consumir, todo o modo de vida das parcelas populacionais oprimidas, fato refletido de forma intensa em suas artes. É importante enfatizar o quanto os contornos dessas violações foram acentuados com/na pandemia da COVID-19. Por isso, para abordar mazelas deflagradas pelo coronavírus, é preciso refletir sobre os grupos minorizados. Este artigo aborda as consequências dos regimes econômicos brasileiros na população negra, especificamente em seu recorte feminino, porém é importante lembrar e registrar que as populações indígenas também são afetadas por esses aspectos.

As opressões impostas às pessoas negras começaram muito antes da COVID-19. O sequestro das/os ancestrais africanas/os foi orquestrado com requinte de desumanidade baseado no poder e visando a lucro, cujos benefícios ainda são colhidos pela branquitude na atualidade.

Ao chegar à colônia invadida por portugueses, os corpos negros sobreviventes à travessia marítima foram tratados como objetos a fim de desmemorizar, negar o pertencimento, impondo-lhes o silenciamento para assim lhes dizer: "vocês são mercadoria de baixo valor". Isso acontecia antes mesmo da travessia e reverbera na atualidade.

Ao analisar a base social brasileira — a qual não só ergueu, como também segue sustentando a economia nacional, embora não receba os devidos honorários por isso —, ainda é possível enxergar a contínua exploração: mulheres e homens negras/os relegadas/os ao lugar da subalternidade, cuja mão de obra é desvalorizada e para os/as quais as políticas nem sempre são planejadas, ou melhor, são muito bem planejadas, mas com a intenção de diminuir os parcos gastos que lhes são destinados, conforme evidenciam Silvio Almeida, Waleska Miguel Batista e Pedro Rossi (2020, p. 148, grifo nosso) na obra Economia pós-pandemia:

Do lado do gasto público, a Emenda Constitucional n.° 95/2016 reforça o racismo estrutural ao constranger gastos que beneficiam proporcionalmente mais a população negra e indígena, como os gastos com saúde, educação e assistência social. Além disso, como aponta o estudo de Bova, Kinda e Woo (2018), os ajustes fiscais, especialmente aqueles baseados nos cortes de gastos, tendem a aumentar a desigualdade e o desemprego. No mercado de trabalho, os impactos de ajustes recessivos prejudicam proporcionalmente mais a população negra que já está associada a uma taxa de desemprego e uma informalidade maior do que os brancos. Como mostra Teixeira (2018), de 2015 até 2017, a população negra foi fortemente afetada pelo desemprego e a informalidade aumentou mais entre as mulheres, especialmente entre as mulheres negras, cuja taxa de informalidade supera 50%1.

Conter investimentos justamente para as populações negra e indígena seria (e é) incoerente, já que a esses povos são negados direitos básicos há muito tempo. Da mesma forma, pareceria contraditório ajustes fiscais baseados em contenção de gastos, sendo essa ação elevadora da desigualdade e do desemprego, mas logo se entende essa contradição quando se percebe quais populações são prejudicadas e o quanto os projetos para continuar o extermínio dos povos originários e dos descendentes das pessoas africanas se perpetuam. Os diversos racismos ajudam a fomentar a desigualdade social compondo um cenário de morte e adoecimento, além de condicionar as pessoas racializadas ao lugar de pobreza.

Antes, durante e após a pandemia da COVID-19, mulheres racializadas foram e continuam sendo fortemente violentadas pelo excludente sistema econômico brasileiro. No Brasil, os números de mortes por COVID-19 alcançam índices elevados na população negra. Os primeiros e os mais altos registros foram tingidos por cor, gênero e classe social 2. Mulheres negras — as erroneamente chamadas empregadas "domésticas" — trabalhadoras das casas de família, as submetidas a regimes de exploração foram as primeiras levadas a óbito. Portanto, constata-se: "a carne mais barata do mercado" continua sendo a carne negra, como gritou a canção A carne composta por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti, popularmente conhecida na voz de Elza Soares em seu álbum Do Cóccix até o Pescoço (2002).

Porém, enquanto heranças da escravidão vigoram e se concretizam por meio de violências perpetradas contra pessoas negras há muito tempo, persistindo na desvalorização de seus corpos e de suas produções, as potências afroancestrais, bem antes de seus sequestros, que já se presentificavam em solo africano, continuam e continuarão lutando também em solos diaspóricos, de forma viva, contra a morte imposta por regimes econômicos brancos-patriarcais-masculinos.

Na diáspora afro-brasileira, a literatura e a canção com suas letras poéticas marcam as resistências em prol da vida negra. Já nos tumbeiros, os ritmos negros fizeram companhia às almas e aos corpos transportados; na colônia brasileira, as mães pretas contavam histórias para crianças perpetuando saber-fazer e tradições ancestrais. Seja por meio de receitas de remédios, receitas culinárias, das contações de história e das cantigas de ninar, a voz negra feminina esteve sempre presente, forte, vívida no anseio de fazer ecoarem as filosofias e conquistar a liberdade do/para povo preto.

Por isso, aqui invoco as Vozes-mulheres que me conduzem e me acompanham para juntas enunciarmos este texto na primeira pessoa do plural, na certeza de que "eu sou uma, mas não sou só", como canta a canção Povoada, da compositora baiana Sued Nunes. Assim, fazemos de nossa escrita um ato político-poético, como elucida a psicanalista, intelectual, artista multidisciplinar Grada Kilomba (2019, p. 58-59):

Escrevo da periferia, não do centro. Este é também o lugar de onde eu estou teorizando, pois coloco meu discurso dentro da minha própria realidade. O discurso das/os intelectuais negras/os surge, então, frequentemente como um discurso lírico e teórico que transgride a linguagem do academicismo clássico. Um discurso que é tão político quanto pessoal e poético.

Nosso artigo "pessoal-político-poético" extrapola os limites cartesianos ao transitar entre singular e plural e ao enxergar na união de poema e canção uma harmonia encantadora. Nossa proposta se ocupa de ler a poesia das letras de duas canções — tratadas aqui como texto — gravadas no álbum Bom mesmo é estar debaixo d’água, da compositora e cantora baiana Luedji Luna (2020), analisando também o poema Vozes-mulheres da literata e pesquisadora Conceição Evaristo (2017), portanto as técnicas musical e literária não são o centro desta leitura. Nossa análise busca apreciar as letras, encontrando o tom poético nelas contido. Para nos ancorarmos numa leitura mais cultural que técnica, recorremos aos estudos de Solange Ribeiro de Oliveira (2001, p. 296):

O estudo da obra de arte, produto cultural, historicamente condicionado, envolvendo várias formas, inclusive a confluência do literário com o musical, mostra-se crucial para a compreensão da própria história e da própria cultura. Essa convicção contribui para a análise de certos textos tanto críticos quanto literários associados a literaturas marcadas pela experiência da colonização, cuja leitura exige a discussão de referências musicais, geralmente híbridas, a partir de uma análise simultaneamente formal e cultural. O estudo desses textos à luz de suas metáforas musicais constitui uma contribuição ainda pouco desenvolvida pela Melopoética.

Ainda de acordo com Oliveira (2001), a Melopoética, conceito proposto por Steven Paul Scher, une o canto — do grego melos — à poética presente nas metáforas das letras e se divide em duas vertentes: uma técnica, responsável por estudar aspectos formais da canção, e a outra cultural, a qual busca se aprofundar nos contextos de produção. Nesta, ancoramos esta leitura.

Além da introdução e conclusão, este artigo apresenta três outras divisões, a saber: "Das favelas para os condomínios: um percurso de desigualdades e mortes na pandemia", responsável por apresentar uma breve contextualização do cenário social durante o isolamento exigido pela COVID-19 e das desigualdades evidenciadas nesse contexto. Já o tópico "A Escrevivência ‘rumo à favela’: mecanismo de sobrevivência em tempos pandêmicos" aborda o quanto esse conceito cunhado por Conceição Evaristo foi relevante para a população negra também na luta contra a COVID-19. Por fim, em "É possível vencer a escassez imposta pelos sistemas econômicos brasileiros aos corpos negros?", analisam-se duas letras de canções presentes em álbuns da artista Luedji Luna (2020).

A arte foi, durante a pandemia — como também é em outros contextos de exceção — uma boia de salvação. Enquanto as violências econômicas nos assolam com as precariedades, a poesia e a canção produzidas por pessoas negras abençoam-nos com sua fartura.

DAS FAVELAS PARA OS CONDOMÍNIOS: UM PERCURSO DE DESIGUALDADES E MORTES NA PANDEMIA

Os índices de adoecimentos sempre foram altos entre a população negra. Nos períodos pandêmicos (antes e durante), esse quadro se intensificou. Durante a pandemia, alguns dos regimes de trabalho impostos às pessoas negras ganharam notoriedade nas mídias alternativas por meio de lives e vídeos caseiros, assustando por revelar o intenso teor de desumanização, vestígios da escravidão velados no dia a dia. Nesse período, a banalização da vida negra — sobretudo, da mulher — foi legitimada por um discurso que vela (e desvela) o racismo, o qual teve sua face escancarada. Algumas patroas, em pleno isolamento social e sem o menor pudor, diziam: "… mas ela é quase da família", quando questionada sobre alguma empregada que ia da favela para o condomínio.

O " quase da família" é uma frase de efeitos contraditórios, que marcam as relações trabalhistas brasileiras há muito tempo. Durante a escravidão, mulheres negras escravizadas, que aos olhos dos/das senhores/as foram domesticadas, trabalhavam na "casa grande", mas não tinham direito à liberdade, a salários dignos, ao acesso à educação formal, tampouco podiam exercer subjetividade e sexualidade, já que eram tratadas como objetos, inclusive, sexuais.

Sobre a expressão " quase da família" e suas contradições, a intelectual negra brasileira Juliana Teixeira 3 (2021, p. 41) assevera:

Esse discurso passou a ser ouvido em muitas casas que tinham suas empregadas residentes. […] Ao mesmo tempo em que a relação podia (e pode) envolver um clima de afetividade e proximidade, mantinha as divisões hierárquicas relativas aos acessos, aos espaços e às práticas dos patrões. O problema dessas contradições é que traduzir essas relações de trabalho em afetividade mascara relações de poder e desigualdades.

Durante a pandemia, enquanto as senhoras — patroas em seus condomínios de classe média — transmitiam seu " quase" afeto, mulheres negras de todas as idades num movimento de ida-e-vinda pelas cidades eram contaminadas com um vírus letal, tornando-se contaminadoras, e lá nas favelas, seus familiares, a quem esse "quase" afeto não chegava, também morriam.

Uma das contradições que atravessam as relações baseadas no " quase da família" é a confusão estabelecida na pessoa prestadora de serviço, pois como Teixeira (2021) afirma, essa afetividade pode existir, o que leva a funcionária a pensar na preocupação, cuidado, carinho por parte de seus empregadores, propondo-se a passar do horário combinado, exercer uma atividade que não fora estabelecida no momento da contratação, pernoitar realizando cada vez mais trabalhos em nome desse quase parentesco. Assim, é possível notar efeitos confusos na mente da trabalhadora, caso ela não atente, estabelecendo os limites necessários.

Algumas dessas relações contraditórias são passadas de uma geração à outra de mulheres/meninas negras. É comum ouvirmos histórias de avós, mães, filhas, netas que trabalharam na casa da mesma família "empregadora". Isso configura como afeto ou herança da escravidão? Essa configuração é tão forte que muitas das suas ações praticadas no dia a dia estão contaminadas pelo racismo, mas de tão naturalizadas podem passar "despercebidas" por quem as pratica.

No auge da pandemia, a história de Madalena Gordiano — mulher negra mantida sob a constante vigilância de uma família em Minas Gerais durante 38 anos, enquanto prestava serviços domésticos sem direito a salário nem folgas — ganhou repercussão 4. Ao ser resgatada, Madalena apresentava dificuldades em se comunicar verbalmente, pois desde a infância vivia em condições análogas à de escravidão (seria uma expressão rebuscada para disfarçar a violência?) ( Oliveira, 2022).

A exploração da mão de obra preta infantil passa pela promessa de uma condição de vida melhor que a de origem: comida, casa confortável, estudos, viagens e o " quase da família", que nos tira de nós, dos nossos, roubando-nos a vida. O " quase" da família esconde a miserável parcela de afeto e revela doses generosas de violência. Como diz Lélia Gonzalez (2018), é o tal "racismo à brasileira" 5. Tudo bem ser, só não pode transparecer, porém, o uso excessivo das redes sociais no isolamento pandêmico dificultou a ação de esconder tudo de todos.

Quando falamos da opressão econômica direcionada às mulheres racializadas, precisamos considerar algo que Lélia Gonzalez (2020) e Beatriz Nascimento (2021) já debatiam nas décadas de 1970 e 1980: a sobreposição de violências. A objetificação imposta ao corpo negro feminino somada à desigualdade social e aos diversos racismos encontram níveis de desumanização ainda mais profundos, pois revelam desdobramentos de raça, gênero e classe de forma interseccionalizada.

De acordo com Carla Akotirene (2020, p. 19) 6, a interseccionalidade:

visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado — produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais.

O aviltamento e a anulação aos quais mulheres negras foram/são submetidas ao longo da história estão associados às questões econômicas, pois desde a colonização, corpos negros femininos são fortes fontes de renda, seja para os senhores — na época da escravidão, passando pela fase de "escravizadas" de ganho —, seja para as famílias pretas, para as quais são os arrimos.

É importante relembrar o surgimento do feminismo e o quanto ele não enxergou mulheres negras. Dessa forma, ele serviu como força motriz para o sistema patriarcal capitalista, pois apesar de ter sido um movimento pensado/executado por/para mulheres, ele não contemplava, em suas pautas iniciais, questões raciais, muito menos sociais. Mulheres brancas feministas saíam para lutar pelo direito ao trabalho externo, mas mantinham dentro de suas casas "empregadas domésticas", ou seja, enquanto brancas lutavam para trabalhar fora, as negras já o faziam havia muito tempo, mas não de forma humana, pois eram vistas e tratadas como objetos que não precisavam de direitos para viver de forma digna.

As mulheres negras e indígenas, ao contrário das brancas, sempre estiveram presentes no mercado de trabalho desde o início da colonização e nos 388 anos de escravidão no Brasil, de modo que sobre elas pesa ainda mais a dupla jornada. Dados do primeiro trimestre de 2020, segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) Contínua, mostram que 21,2% das mulheres brancas tinham concluído educação superior, contra 9,79% das negras e 10,3% das indígenas ( Oliveira et al., 2020, p. 155).

As ideias das imagens de fortaleza da guerreira e da supermulher, associadas ao corpo negro feminino, são uma idealização para esconder a sobrecarga da responsável pelo sustento da casa, dos filhos e, às vezes, até de outros familiares. A mãe solo, com o acúmulo de funções, funciona como mais um arquétipo para a desumanização. A essa mulher, não é concedido o direito de ser humana; ela não pode descansar, pedir ajuda, sair com as amigas, tampouco tem poder aquisitivo para acessar a educação formal, dispor de cuidados com sua saúde física, mental nem com seu bem-estar.

Para os sistemas capitalistas, a negra serviu e serve como mão de obra barata na senzala, na casa-grande, nas cozinhas e nas camas dos ditos "donos de tudo", senhores da branquitude. À população negra hoje, é permitida a miséria, a solidão, o caminho da senzala à favela, da cozinha ao quarto; a nós, a ascensão não pode ser permitida, mas desobedecemos aos sistemas opressores, por isso escrevemos nossas histórias, nossas letras, nossos poemas, nossas pesquisas, fazendo da intelectualidade, da arte e da Escrevivência nossas rotas de fuga das desigualdades e da morte.

A ESCREVIVÊNCIA "RUMO À FAVELA": MECANISMO DE SOBREVIVÊNCIA EM TEMPOS PANDÊMICOS

Considerando a luta constante da população negra contra os diversos racismos, os quais dificultam e/ou impedem o acesso a uma tranquilidade econômica, corpos e mentes negros estão em constante adoecimento. A presença feminina é intensa nessa cena. Muitas vezes, mulheres negras subnotificam esses índices pela impossibilidade de irem às unidades de saúde para tratarem de si. Levam os filhos, os pais, mas dificilmente podem pensar no autocuidado por causa da sobrecarga de trabalho que lhe é imposta.

No poema Vozes-mulheres, a autora, pesquisadora e imortal da Academia Mineira de Letras, Conceição Evaristo (2017) traça o percurso da mulher negra: do histórico de luta ao seu anseio por uma vida melhor para a sua descendência. Apesar de não ter sido escrito durante os efeitos da COVID-19, esse texto exemplifica os impactos da economia no modo de viver de mulheres negras no Brasil também ao longo do contexto pandêmico, conforme elucidam as seguintes estrofes:

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome ( Evaristo, 2017, p. 24-25).

A voz da mulher preta foi obrigada a "ecoar obediência" também durante a pandemia. Essa reverberação pode ser considerada atemporal, uma vez que a subserviência é imposta às mulheres negras há muito tempo e continua(rá) sendo enquanto sistemas econômicos perpetuarem os tratamentos baseados na iniquidade. Não temos a intenção de criticar as mulheres negras, mas sim, o neoliberalismo, bem como os seus modos desiguais de movimentar a economia.

A falsa ideia de superioridade também é uma marca constante na sociedade brasileira denunciada no poema em análise por meio da expressão "aos brancos-donos de tudo". Foi com essa falácia que as patroas se sentiram no direito de exigir que "suas" funcionárias, durante o isolamento social, deixassem seus lares, seus filhos e se dirigissem às "casas-grandes", como se fossem propriedades das novas senhoras do engenho velho.

Vozes-mulheres é um texto que denuncia as mazelas sociais, a dor, a sobrecarga de gerações femininas. A voz lírica — a mulher da quarta geração — se con(funde) com a voz da autora, marcando a Escrevivência, conceito por ela cunhado. Assim como a voz que fala no poema, Evaristo, atravessada por sua condição social de mulher negra de origem empobrecida, também passou pelos caminhos empoeirados rumo à favela; teve seus versos escritos com rimas de sangue e fome, exerceu trabalhos domésticos…, porém sua escrita e sua vivência não se resumem a isso, não permanecem nesse lugar.

Vozes-mulheres nos apresenta também a potência da ancestralidade negra feminina. Sem romantizar as dores, tampouco cair na meritocracia, o eu lírico nos fala sobre os silenciamentos que se farão ouvir por meio de sua descendência:

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem — o hoje — o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade ( Evaristo, 2017, p. 24-25).

As Vozes-mulheres que compõem e acompanham Conceição Evaristo (2017) estão quebrando padrões de imposições/ciclos de violência ao se fazerem ouvir agora, no tempo em que a autora está fisicamente presente, e se farão ouvir durante muito tempo, pois sua escrita rasura o que outrora se considerava canônico: o branco, o masculino, o rico. A escrita evaristiana está registrada na historiografia literária e registrando o povo preto nos livros, isso é Escrevivência. Já não somos mais descritas/os sob o olhar branco do escritor que visa lucrar com nossas temáticas nos ridicularizando, como fez Monteiro Lobato com sua " quase da família", "negra de estimação", Tia Anastácia. Agora, somos protagonistas, narradoras/res, autoras/res de nossas histórias contadas na primeira pessoa.

Durante a pandemia, Vozes-mulheres antes e além do poema, configurou como um mecanismo de sobrevivência, uma força motriz para pessoas negras, sobretudo nas favelas onde a precariedade aglomerou nos barracos. Pensar que nossas ancestrais sequestradas de África, separadas das/os suas/seus, impedidas de usar seus idiomas, de contar suas histórias… e mesmo assim conseguiram nos legar seus conhecimentos, fez nossa fé aumentar, pois passamos a acreditar que nós também poderíamos sobreviver ao vírus e às suas sequelas.

No isolamento social, pensar nas nossas avós foi uma forma de encontrar dentro de nós sabedoria para seguirmos vivas. Portanto, Vozes-mulheres, além de ser um coerente título para essa obra ora em análise, é também uma forma de viver, um meio de ouvir aquelas que vieram antes e araram a terra para nossa colheita de hoje.

Manuela Dias (2023), pesquisadora da obra de Conceição Evaristo, em sua dissertação, aborda Vozes-mulheres como uma confluência de saber (Bispo, 2015):

São vozes-mulheres que se erguem e apresentam perspectivas que foram e ainda são ignoradas, mas precisam ser ouvidas. A literatura, escrita por mulheres negras, carrega nuances que seus corpos experimentam, compartilham e imprimem em suas personagens. São textos que sangram e vazam vidas marcadas pelo sistema opressor racista, machista e misógino, sem contar a inovação artística e estética que carregam ( Dias, 2023, p. 59).

A escrita evaristiana sangra porque é mulher. É mãe de personagens construídas à nossa imagem e semelhança. Evaristo nos apresenta fontes de representatividade e pertencimento, logo ela nos apresenta cura para adoecimentos causados durante tanto tempo, quando só nos víamos associadas a personagens e lugares de subalternidade. Abrir as obras de Conceição Evaristo é para pessoas negras como um encontro com um espelho no qual nosso reflexo é humano, não mais objetificado. Os sistemas econômicos existentes na história do Brasil não possibilitaram ascensão de mulheres negras ao lugar de escritoras, mas as Vozes-mulheres subvertem essas imposições e narrativas.

A inovação estética mencionada por Dias (2023) impressiona até os "brancos-donos de tudo". As pessoas que não estão centralizadas nas páginas das obras evaristianas apreciam esse fazer e sua Escrevivência, mas não admitem a sedução do primor literário de Evaristo, uma vez que ele não foi levado em consideração quando uma petição popular a levou à candidatura à Academia Brasileira de Letras, uma instituição marcada pelo branco poder hegemônico e seu antigo medo de ter que abrir mão de seus privilégios. Daí constatamos que uma mulher negra incomoda muita gente, ou melhor, muita gente se incomoda com a presença negra feminina, sobretudo, quando esta sabe seu potencial.

Portanto, mesmo quando conseguimos ascender na hierarquia social, ainda precisamos lidar com os incômodos da branquitude. Ao sair do lugar de miserabilidade, ao qual os tentáculos do capitalismo nos jogam, há um estranhamento por parte dos beneficiados e privilegiados ainda desprovidos de consciência de classe. Uma explicação possível para isso seria a, já mencionada em nosso artigo, superioridade assumida pela branquitude. Do período colonial ao presente, a pobreza é socialmente considerada um lugar natural para pessoas negras, conforme asseveram a intelectual Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg (1982, p. 15-16):

As condições de existência material dessa população negra remetem a condicionamentos psicológicos que devem ser atacados e desmascarados. Os diferentes modos de dominação das diferentes fases de produção econômica no Brasil parecem coincidir num mesmo ponto: a reinterpretação da teoria do lugar natural de Aristóteles. Desde a época colonial aos dias de hoje, a gente saca a existência de uma evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados. […] É por aí que se entende que o outro lugar natural do negro sejam as prisões e os hospícios 7.

Aos dominadores, os melhores bairros/casas/cargos, oportunidades, as cadeiras na ABL; "aos dominados", além das prisões e hospícios, citados pela pesquisadora, acrescentamos as favelas, as ruas e as covas, pois somos alvos da Necropolítica, que de acordo com Achille Mbembe (2016, p. 123) é a "soberania, pautada no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer".

O lugar natural ao qual somos (socialmente) relegadas abrange também a inferioridade, a baixa autoestima, a falta de dignidade, a escassez financeira. A psicanalista Neusa Santos Souza (2021) explica essa inferiorização:

A sociedade escravagista, ao transforar o africano em escravo, definiu o negro como raça, demarcou o seu lugar, a maneira de tratar e ser tratado, os padrões de interação com o branco e instituiu o paralelismo entre cor negra e posição social inferior. […] A definição inferiorizante do negro perdurou mesmo depois da degradação da sociedade escravocrata e da sua substituição pela sociedade capitalista, regida por uma ordem social competitiva ( Souza, 2021, p. 48-49).

A inferiorização nos tem sido imposta de muitas formas, atingindo-nos em diversos âmbitos, mas temos resistido, vivemos e escrevemos: escrevivemos! Desde o sequestro de nossos ancestrais de África, não nos limitamos aos preceitos sociais, vivemos, escrevemos, rompemos barreiras, conquistamos, ocupamos e criamos espaços para naturalizar nossa presença em diversas instâncias; mais uma vez ressaltamos: nossas conquistas não podem ser romantizadas, muito menos associadas à meritocracia. Todo esse processo nos desgasta e poderia ser mais fluido se houvesse a real intenção de incluir as diversas identidades; caso os sistemas econômicos tivessem a preocupação com a equidade, e não apenas com o lucro.

Durante a pandemia, escrever as nossas negras vivências foi uma forma simples e ancestral de não sucumbimos. Usar a Escrevivência nos permitiu colocar para fora algumas sufocantes angústias. A escrita de nossas dores foi como um processo terapêutico em meio a um período em que foi preciso reinventar a forma de trabalhar, de comprar, de (sobre)viver. Outro mecanismo que nos ajudou a passar pelos tormentos pandêmicos foi a canção. Ouvir música, sentindo as vibrações sonoras com intensidade e sensibilidade foi uma maneira de acolher algumas de nossas emoções naquele tempo de morte. Tirar a dor para dançar; sambar com o medo; cantar com a ansiedade foram ações necessárias e recorrentes às populações negras cujos corpos compõem música de forma orgânica há muito tempo.

É POSSÍVEL VENCER A ESCASSEZ IMPOSTA PELOS SISTEMAS ECONÔMICOS BRASILEIROS AOS CORPOS NEGROS?

Durante a pandemia, Luedji Luna gestou e pariu três filhos: um álbum visual, outro musical e um bebê. Dayo e os dois discos homônimos — Bom mesmo é estar debaixo d’água — compõem aspectos marcantes na restituição da subjetividade da artista, que oferece ao público um mergulho nas profundezas de águas negras uterinas. O itinerário desenhado pelos álbuns refaz a trajetória "objetificação-subjetivação" percorrida por mulheres negras: da Tirania8 de amores vãos à abundância do amor interno e seus frutos prenhes de afeto.

Em tempos sombrios, nos quais o vazio da morte nos isolava, o segundo trabalho da autora veio cheio de vida. Por meio dele, podemos falar de sororidade, feminismo negro, amor em suas diversas formas. Como nossa análise apresenta um recorte econômico, selecionamos Chororô e Ain't Got No, duas canções cujas temáticas nos permitem navegar por esse viés. São elas, respectivamente, terceira e quarta faixas dos álbuns.

Essas duas obras musicais possibilitam analisar críticas relacionadas às ausências afetivas e materiais/financeiras impostas à população negra, especificamente às mulheres. Chororô, composta por meio da parceria de Luedji e François Muleka, já em seu título apresenta a essência de toda a letra: a lamentação. A voz lírica, com frases construídas majoritariamente na negativa, expõe a escassez presente em sua vida, denunciando carências financeiras e afetivas marcantes na trajetória de uma mulher negra.

As duas primeiras estrofes de Chororô marcam a ausência de pertencimento da voz lírica que nos canta:

Eu não tenho chão

Nem um teto que me queira

Nem parentes que me saibam

Nem família que me seja

Tenho apenas uns amigos

Mas talvez só tenha um

Não tenho um amor que me ame

Um homem que aconchegue e guarde

Nem uma mulher eu tenho ( Luna, 2020, grifos meus).

Ela lamenta a ausência de um amor conjugal, de um homem ou de uma mulher, mas antes expõe a falta de uma casa, de parentes, de família e a escassez de amigos. A mulher escondida e revelada nessa voz não pertence a lugar algum, como também não tem quem lhe seja amor. A falta de pertencimento é adoecedora, acometendo constantemente pessoas diaspóricas, pois estas carregam traumas ancestrais, como o banzo.

Para o pesquisador Davi Nunes Reis (2019):

O banzo — acúmulo de traumas sucedidos na história do negro na diáspora — como o desmembramento de várias enfermidades é algo que carcome a existência de pessoas negras. (2019, p. 24) O banzo […] remete a um estado de desassossego na alma, convulsionadas por uma exterioridade de terror, morte, escravidão, tortura. É a síntese profunda de uma existência moída em dor por uma estrutura social, política e econômica aterrorizadora.

Sobreviver sob a égide da iniquidade, não tendo acessos, garantias de direitos, é mesmo lamentável. Os diversos racismos, sobretudo o estrutural, arrancam de corpos negros oportunidades que lhes possibilitariam o alcance de uma vida menos desgastante, mais confortável e saudável. Todavia, enquanto sujeitas/os às tensões raciais, nossos corpos permanecem em estado constante de atenção, vigilância, sujeição, dificultando a elevação da autoestima e a restituição da subjetividade e colaborando para o adoecimento e a falta de pertencimento.

No artigo "Racismo e iniquidade racial na autoavaliação de saúde ruim", pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca-ENSPS/Fiocruz constatam serem pessoas negras as que mais apresentam desvantagens relacionadas à saúde e maior mortalidade por praticamente todas as causas quando comparadas aos brancos. Os adoecimentos da população negra estão associados a diversas causas, entre elas a dificuldade de ascensão social e a exposição a trabalhos desgastantes, conforme o citado artigo assevera:

Ressalta-se que pretos e pardos, além de possuírem menor acesso a recursos educacionais, econômicos, ocupacionais e, consequentemente, menor mobilidade social, também possuem menor acesso a moradia de qualidade, vivem em vizinhanças mais economicamente segregadas, possuem menor capital social e político, menor acesso aos serviços de saúde, são mais expostos a trabalhos desgastantes e são mais expostos ao estresse psicossocial devido à exposição e à discriminação racial. Todas essas exposições restringem as opções de vida e trabalho em ambientes saudáveis, estão associadas à maior adesão a comportamentos de risco e aumentam as adaptações fisiológicas nos sistemas nervoso, endócrino e imunológico, desencadeando inúmeras alterações metabólicas que aumentam o risco de adoecimento e morte ( Camelo et al., 2022, p. 11).

Provavelmente, os sistemas que regem as economias mundiais não enxergam como "lucro" a possibilidade na movimentação das camadas populacionais indígenas e negras. Será que a permanência na escassez e os constantes adoecimentos das populações indígenas e negras são mais lucrativos que sua ascensão social?

Voltemos à canção ouvindo sua terceira estrofe:

Não tenho dinheiro no banco

Nem guardado nalgum canto

Quase que não tenho nada ( Luna, 2020, grifos meus).

Ela reitera a escassez financeira já apresentada anteriormente, reforçando o quanto o sistema econômico brasileiro, ao exercitar seu tratamento desigual 9, é cruel com pessoas negras e pouco se preocupa com as dificuldades financeiras dessa parcela populacional nos últimos anos:

Desde 2015, o Brasil tem sabotado seu incipiente Estado de Bem-Estar Social, com um desmonte de diversas políticas que contribuíam para a redução da desigualdade de gênero. No mundo da economia e da política fiscal, dominada por homens, não houve preocupação com o fato de que a austeridade ampliaria desigualdades de gênero ( Oliveira et al., 2020, p. 156).

Se, como já exposto, a austeridade fiscal com seus cortes atinge propositalmente as populações negra e indígena de modo geral, inviabilizando a ascensão delas, isso se intensifica ainda mais quando se analisa o recorte de gênero dessas parcelas populacionais. Essa forma de opressão leva a mulher racializada a recorrer a trabalhos informais como medida para sobreviver e manter seus dependentes, fato que se intensificou no contexto da COVID-19: "a informalidade aumentou mais entre as mulheres, especialmente entre as mulheres negras, cuja taxa de informalidade supera 50%" ( Almeida; Batista; Rossi, 2020, p. 148).

Na quarta estrofe da canção, as ausências não desaparecem por completo, mas ganham sutis toques de algo que nos lembra esperança, anunciando a exposição da quinta e última estrofe:

E quase tudo que tenho

Levo guardado dentro

Alguns sonhos guarnecidos

Um ventre de parir três filhos

E um passaporte vencido

Sementes, sementes de girassol

Sementes, sementes de girassol

Sementes, sementes de girassol

Sementes, sementes de girassol ( Luna, 2020, grifos nossos).

As sementes de girassol repetidamente clamadas na última estrofe já não nos remetem à escassez do início. Semente, enquanto princípio de vida, leva-nos ao simbolismo da prosperidade, fartura e abundância. Ao cantar as sementes e o desejo de felicidade fecundo em seus ventres, o ritmo da canção que apresentava notas tensas em seus lamentos anteriores cadencia uma dança fluida em seu desfecho, marcando a aglutinação na canção seguinte.

De acordo com o sitePintando Música (2010), Ain't Got No foi escrita por Galt MacDermot (1928–2018) e James Rado (1932–2022) e musicada por Gerome Ragni (1935–1991) para o musical Hair: The American Tribal Love-Rock Musical (1967), mas ficou mundialmente conhecida por meio da versão interpretada pela potente voz da pianista, compositora e cantora Nina Simone, que aglutinou duas canções ( Ain't Got No/ I Got Life) do Hair, de modo a parecer uma única. Ain't Got No denuncia, por meio das frases negativas, as ausências na vida da enunciadora, já I Got Life expõe justamente o que a voz lírica tem, conforme podemos constatar na livre tradução de seus títulos: "Eu não tenho / Eu tenho vida".

O período histórico no qual a letra Ain't Got No foi escrita é o da Guerra do Vietnã (1959–1975), no qual as forças armadas dos Estados Unidos tiveram uma intensa participação. É possível inferir um contexto bélico marcado pela dificuldade econômica, pois os olhares se voltaram para armamentos, recursos alimentícios e humanos exigidos para o confronto, portanto, a economia norte-americana não funcionou de forma natural no período em questão, ocasionando assim uma grande escassez nos produtos, nas relações, nas crenças,

A gravação de Ain't Got No, por Luedji Luna (2020), não apresenta a letra completa. A versão da cantautora 10 expõe justamente ausências semelhantes às expostas em Chororô, expressando o aspecto de continuidade entre as duas canções:

I ain't got no home, ain't got no shoes

Ain't got no money, ain't got no class

Ain't got no skirts, ain't got no sweater

Ain't got no perfume, ain't got no bed

Ain't got no man

Ain't got no mother, ain't got no culture

Ain't got no friends, ain't got no schoolin’

Ain't got no love, ain't got no name

Ain't got no ticket

Ain't got no God

Ain't got no love

Ain't got no love ( Luna, 2020).

Ao ser interpretada por vozes de mulheres negras, algumas conotações presentes em Ain't Got No se intensificam, pois o cenário de guerra não é mais analisado enquanto acontecimento histórico, mas sim cotidiano. As ausências explicitadas pela voz lírica vão do dinheiro ao amor; entre essas duas extremidades estão: bens, acessos, objetos, alimentos, identidade…, aspectos negados à população negra.

Ao final da justaposição de Chororô e Ain't Got No, ocorre a declamação do poema "A noite não adormece nos olhos das mulheres", de Conceição Evaristo (1996). A voz calma se contrapõe às verdades rígidas declamadas no poema sobre a realidade da vida de uma mulher negra em constante estado de vigília. Assim como em Vozes-mulheres, nesse segundo poema, a escrita evaristiana apresenta acalantos, dois novos aspectos que rechaçam a escassez exposta nas duas canções anteriores, a saber: a maternidade enquanto possibilidade de restituição da subjetividade negra feminina e a sororidade, ou melhor, a dororidade11 entre mulheres negras, irmãs unidas pela dor e pelo amor, conforme ilustram as estrofes a seguir:

Vaginas abertas

Retêm e expulsam a vida

Donde Ainás, Nzingas, Ngambeles

E outras meninas luas

Afastam delas e de nós

Os nossos cálices de lágrimas

[…]

Pois do nosso sangue-mulher

De nosso líquido lembradiço

Em cada gota que jorra

Um fio invisível e tônico

Pacientemente cose a rede

De nossa milenar resistência ( Evaristo, 2017, p. 26-27).

O amor é uma possibilidade também para os corpos negros! E no enredar da história apresentada em Bom mesmo é estar debaixo d’água, A noite não adormece nos olhos das mulheres (Evaristo, 1996) marca um ponto crucial: a transição da negra — outrora tratada como objeto sexual — para sua subjetivação. A mulher se (re)descobrindo sujeita, ávida por exercer sua subjetividade, assenhorando-se de si. O poema preambula a performance da canção seguinte, Ain't I a Woman?, a qual apresenta uma mulher que, ao (re)descobrir sua potência, apresenta-se sedenta por vingança, mas essas são cenas para próximos artigos.

CONCLUSÃO

Antes e além da falácia defendida pela meritocracia, mulheres negras conseguem romper a miserabilidade socialmente imposta com muita luta, suor e sangue. Esse processo não pode ser romantizado nem negligenciado, por isso os projetos de impor pobreza, adoecimento e morte à população negra precisam ser denunciados e a arte é uma potente maneira de expor essa situação. As letras das canções analisadas neste artigo demonstram o quanto o lugar natural ao qual a população negra é relegada interfere na qualidade de vida das mulheres negras. As vozes líricas presentes em Chororô e Ain't Got No gritam ausências que lhes atravessam por meio dos impactos de sistemas econômicos e suas desigualdades sociais.

Durante a pandemia, os racismos não conseguiram se esconder diante de câmeras, que atentas registraram famílias-patroas pertencentes às classes média e alta sujeitando mulheres negras ao regime de " quase da família". Enquanto o neocapitalismo e suas novas-antigas modalidades de opressão davam as caras, as artes subiam os morros e favelas para amenizar o contexto de perdas. Assim a Escrevivência se fez voz e ecoou nos álbuns Bom mesmo é estar debaixo d’água, assim Vozes-mulheres cantaram ecos da vida-liberdade que tanto desejamos para escrever nossas histórias com mais fartura, abundância, prosperidade de dinheiro e de amor.

Nós, mulheres e homens negras/os, podemos sim subverter as imposições sociais e ocupar lugares de destaque, mas não precisamos nos sujeitar às armadilhas neocoloniais. Precisamos lembrar que, mesmo quando alcançamos o tão estimado poder aquisitivo, ainda somos tratadas/os de forma desrespeitosa, pois incomodamos também quando saímos do lugar da pobreza. O racismo enquanto instituição da sociedade brasileira não nos quer nos espaços de poder, não nos quer saudáveis, não nos quer vivas/os, já que é lucrativo para o capitalismo e seus beneficiados nos manter na base social, exercendo serviços, sendo mão de obra barata, adoecendo e morrendo.

A economia do Brasil nasceu soterrando corpos pretos e continua exercendo a lógica da exploração para se manter viva, portanto, "Racismo e economia são temas intrinsecamente ligados. A economia é uma condicionante do racismo e o racismo, por sua vez, impacta na organização econômica" ( Almeida; Batista; Rossi, 2020, p. 142).

No contexto pandêmico, quando famílias negras estavam lidando com perdas ainda mais intensas que as econômicas, as vozes de Conceição Evaristo e Luedji Luna entraram nesses lares denunciando violências contra mulheres, como também apresentando esperança, busca pelo amor interno, restituição da subjetividade negra feminina, possibilidade de continuação da vida e prosperidade. Precisamos denunciar as desigualdades econômicas — que começam antes e vão além do material —, mas para isso, precisamos continuar vivas. Denunciar as mazelas e encontrar meios para subvertê-las é o que a poética negra feminina nos ensina.

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Notas

1 Trecho retomado no tópico referente à análise das canções de Luedji Luna (2020).
2 A título de exemplo: "Primeira vítima do RJ era doméstica e pegou coronavírus da patroa no Leblon", matéria escrita por Maria Luisa de Melo (2020).
3 Juliana Teixeira (2021) estuda o Trabalho doméstico — título de sua obra — e seus efeitos. Além dela, podemos citar também Joyce Fernandes, conhecida como Preta Rara, e Janaina Costa, mulheres pretas que foram empregadas domésticas e hoje teorizam sobre essas vivências.
4 Essa notícia foi veiculada em diversos veículos jornalísticos. No Portal Diário, a matéria escrita por Jocivan Pinheiro (2022) foi publicada com o seguinte título: "Mulher negra resgatada de trabalho escravo chora ao tocar na mão da repórter: ‘Fico com receio’". Disponível em: https://www.portaldiario.com.br/noticias/cidades/575715/video-mulher-negra-resgatada-de-trabalho-escravo-chora-ao-tocar-na-mao-da-reporter-fico-com-receio.html.
5 "Racismo à brasileira", expressão utilizada por Kabengele Munanga (2003, p. 118; 2017, p. 33-34) e que já havia sido mencionada em análises de Lélia Gonzalez (2018, p. 322; 2020, p. 127).
6 Akotirene (2020) nos informa que o conceito de interseccionalidade foi elaborado pela intelectual afro-estadunidense Kimberlé Crenshaw. É importante evidenciarmos: essa tripla discriminação já estava presente em análises sobre a divisão social do trabalho realizadas pelas intelectuais negras brasileiras Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento nas décadas de 1970 e 1980. Elas já apresentavam essa ideia, mas não a nomeavam como conceito.
7 No artigo intitulado "O golpe de 64, o novo modelo econômico e a população negra", Gonzalez faz uma análise das consequências do arrocho salarial, entre elas o decréscimo da participação da população negra na renda nacional (de 18% em 1960 para 11% em 1976) e o aumento da participação do negro na força de trabalho, atingindo 40% em 1976. A pesquisadora apresenta a constatação de que o aumento não significou melhoria de vida dessa população. A análise da pesquisadora opera especificamente no âmbito da moradia — lugar físico —, porém é possível pensar nesses aspectos também em âmbito social/simbólico.
8 Título da segunda faixa dos álbuns.
9 Não podemos esquecer: enquanto famílias de pessoas ex-escravizadas, logo após a assinatura da abolição, tiveram que vagar em busca de trabalho, moradia e sustento, sem nenhum auxílio governamental, famílias de imigrantes europeus receberam, por meio da Lei de Terras, ajuda do governo brasileiro para se instalarem no Brasil em 1850. Além disso, mulheres negras movimentaram a economia nacional com esforço e inteligência de seu trabalho — vide a história das ganhadeiras, as quais, além de "comprar sua liberdade", adquiriam as de alguns familiares, sustentando a si e a sua família com seus empreendimentos.
10 O uso da expressão cantautora é inspirado em análises da pesquisadora Marilda Santanna (2021a), ( 2021b).
11 "Dororidade carrega no seu significado a dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo. Contudo, quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa dor. A Pele Preta nos marca na escala inferior da sociedade. E a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado. É só verificar os dados…" ( Piedade, 2017, p. 17). "Tem uma dor constante que marca as Mulheres Pretas no cotidiano — a dor diante de uma perda. E, nesse jogo cruel do Racismo, quem perde mais? Quem está perdendo seus filhos e filhas? Todos Pretos. Todas Pretas. A resposta tá estampada nos dados oficiais sobre o aumento do Genocídio da Juventude Preta. Dororidade" ( Piedade, 2017, p. 17-18).
Programa de Bolsa de Pesquisa (PROGPESQ).

Notas de autor

Editor: Paulo César Thomaz


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