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Motivações de docentes aposentados ao retorno às atividades laborais em uma universidade pública
Motivações de docentes aposentados ao retorno às atividades laborais em uma universidade pública
Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste, vol. 17, núm. 4, pp. 561-568, 2016
Universidade Federal do Ceará
Recepção: 19 Março 2016
Aprovação: 05 Maio 2016
Objetivo: compreender as motivações de docentes de uma universidade pública ao retornarem à docência após a aposentadoria.
Métodos: estudo qualitativo realizado com 13 docentes de uma universidade pública, que retornaram às atividades laborais após estarem aposentados. Dados coletados por entrevistas semiestruturadas e analisados por meio da análise de conteúdo.
Resultados: emergiram quatro categorias: saudades do contato com alunos, acréscimo financeiro, auge na carreira e vivenciando o ócio e a doença.
Conclusão: os docentes retornaram para a mesma atividade laboral após a aposentadoria pelo desejo de permanecer vivenciando os sentimentos de bem-estar que o trabalho proporciona, bem como prevenir o adoecimento decorrente de sua falta.
Palavras chave: Docentes+ Aposentadoria+ Trabalho.
Introdução
O envelhecimento da população é um acontecimento mundial, que vem ocorrendo de maneira sistemática e consistente. Na realidade brasileira, as mudanças na pirâmide populacional revelam que o número de indivíduos com 60 anos ou mais passou de 4,8% em 1991, 5,8% em 2000 e 7,4% em 2010, para 12,0% em 2015. Assim, há perspectiva de que esta população corresponderá a 22,0% em 2030(1).
Envelhecer é um processo natural e longo, durante o qual ocorrem mudanças que exigem adaptação constante das pessoas, o que para muitos é enfrentado com facilidade, mas, para outros pode se configurar como obstáculo. Nesse sentido, destaca-se a aposentadoria que, na maioria das vezes, é marcada pela inatividade e está relacionada ao surgimento de problemas de natureza física e emocional, como autodesvalorização, diminuição da autoestima, insatisfação, apatia, desmotivação, solidão, afastamento social, doenças crônicas degenerativas, dentre outros, prejudicando a qualidade de vida das pessoas(2-3).
Tais consequências podem ter raízes no sistema capitalista, em que o valor econômico e a produção são a ordem maior, e os idosos têm sido relegados a segundo plano, pois, dificilmente conseguem reingressar no mercado de trabalho por serem considerados “frágeis, improdutivos e obsoletos” pela grande maioria da sociedade, sendo substituídos por jovens, favorecidos de conhecimentos atualizados e com melhor condição, sobretudo física, para exercer as atividades profissionais(4).
Entretanto, dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios mostram que nas décadas de 1970 e 1990 havia alta participação do idoso brasileiro no mercado laboral, se comparada com os padrões internacionais, fato que está diretamente relacionado com o regresso dos aposentados ao trabalho. Entre 2006 e 2013 houve aumento de 9,4% no número de aposentados economicamente ativos ou ocupados; esses dados indicam que esta fração de pessoas aposentadas esteve sempre acima de 30,0% no período analisado(5).
Entre os fatores que levam as pessoas a decisão de retornar às atividades laborais após a aposentadoria está, principalmente, a complementação salarial, porém, a manutenção do vínculo também se dá pelo desejo de reconhecimento e de continuar sentindo-se útil em um conjunto social pautado pelo valor produtivo(6).
Isso ocorre porque o trabalho é tido como um dever do ser humano, e é por meio dele que o homem produz e reproduz. Sendo assim, o idoso também sente o desejo de manter-se ou de reinserir-se no exercício laboral, pois este representa realização pessoal, aumento da autoestima pelo reconhecimento social e da autoimagem assertiva originada a partir de um desempenho profissional com qualidade, sendo o trabalho uma maneira de ocupar o tempo e estabelecer relações interpessoais. Todavia, além de sua vontade própria, a sociedade também requer que ocorra produção por meio dos mesmos, para que não sejam “pesos” ou tenham uma ocupação e um espaço de liberdade(7-8).
Nesse sentido, a carreira docente também é permeada pelos sentimentos de reconhecimento e realização profissional, desenvolvimento de relacionamentos afetivos com os colegas de trabalho e educandos, entre outros. Além disso, a satisfação no trabalho docente está intimamente relacionada ao produto gerado: profissionais com conhecimento científico e habilidades filosóficas e técnicas aptos a atender às demandas do mercado de trabalho(9). Dessa maneira, é esperado o desejo em permanecer em uma profissão com vivências de prazer e satisfação tão significativas.
Diante do exposto, evidencia-se que a aposentadoria é uma etapa ímpar na vida das pessoas, na qual os indivíduos vivenciarão uma nova situação, o que poderá provocar novos sentimentos e situações a serem enfrentadas. Assim, acredita-se que investigar as motivações de docentes para retornar às atividades laborais após a aposentadoria poderá fornecer subsídios para a implantação de Programas de Preparação para a Aposentadoria voltado para docentes e, assim, contribuir para o bem-estar físico, mental e psicossocial nesta nova etapa da vida desses indivíduos, elementos importantes para a área de saúde e enfermagem no seu compromisso de gerar conhecimento. Além disso, poderá colaborar para que os docentes reflitam sobre a importância de se planejar e preparar para a aposentadoria, pois é preciso que as pessoas compreendam esse processo de transição e tenham convicção e clareza de suas escolhas no tempo correto.
Perante o exposto, tem-se a seguinte pergunta de investigação: Quais os motivos que levaram os docentes, após a aposentadoria, retornarem às suas atividades profissionais exercidas anteriormente? Para responder a este questionamento, o presente estudo teve como objetivo compreender as motivações de docentes de uma universidade pública ao retornarem à docência após a aposentadoria.
Métodos
Trata-se de uma pesquisa qualitativa que buscou aprofundar a compreensão do fenômeno a ser investigado, com ênfase nos processos vivenciados pelas pessoas(10).
A população de estudo constituiu-se de docentes aposentados de diversas áreas de conhecimento e que voltaram as suas atividades laborais em uma universidade pública do norte do Estado do Paraná, Brasil. Os critérios para inclusão dos participantes foram: ser docente aposentado, ter voltado ao labor como docente por concurso público e até a terceira tentativa de agendamento.
Para identificar os possíveis participantes da pesquisa, a Pró-Reitoria de Recursos Humanos da universidade em estudo forneceu uma lista com o nome de todos os docentes aposentados e que voltaram às atividades laborais após prestarem concurso público novamente, totalizando 27 docentes.
Para determinação do número de participantes, utilizou-se o critério de saturação das falas, desta forma, as entrevistas foram realizadas até o momento em que houve reincidência de informações em relação ao fenômeno estudado, entretanto, sem deixar de considerar informações ímpares de cada um dos entrevistados(10), o que ocorreu com 13 docentes. Destaca-se que entre os docentes contatados, não houve recusa em participar da pesquisa.
A técnica de coleta de dados foi a entrevista semiestruturada, com questões para caracterização dos participantes de pesquisa relacionadas ao sexo, à idade, titulação, área de atuação na docência, ao tempo de trabalho na referida universidade e de aposentadoria e a volta ao labor; e para desvelar o objeto do estudo, utilizou-se a seguinte pergunta norteadora: que motivações levaram você a voltar ao trabalho como docente após aposentado?
As entrevistas foram realizadas individualmente no cenário do estudo, ou seja, nas salas de cada participante, sendo previamente agendadas por telefone e aconteceu entre junho e setembro de 2015. As entrevistas foram audiogravadas com a autorização dos participantes e tiveram duração aproximada de trinta minutos.
Os dados provenientes das falas das entrevistas foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo, na modalidade temática, em que se buscou constatar os núcleos de sentido que integram a comunicação, isto é, a presença ou frequência que expressasse algo para o objeto analítico a ser investigado. Assim, o processo de análise dos dados foi realizado em três etapas: a primeira foi a pré-análise, com a realização da leitura flutuante das falas, organização do corpus, sendo que o material foi explorado exaustivamente, com representatividade e homogeneidade. Nessa etapa, ainda, determinou-se as unidades de registro, as unidades de contexto, os recortes, a forma de categorização, a modalidade de codificação e as definições teóricas gerais para orientar as análises; na segunda etapa, procedeu-se à exploração do material, procurando classificar o conteúdo com o objetivo de alcançar o núcleo de compreensão do texto e classificar as categorias que representam as expressões, palavras e características que afloraram das narrativas dos docentes; por fim, na terceira etapa, realizou-se o tratamento e a interpretação dos resultados(10).
O estudo respeitou as exigências formais contidas nas normas nacionais e internacionais regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos.
Resultados
Do total de participantes, nove eram do sexo masculino e quatro do feminino, com idades entre 60 e 64 anos e todos com titulação de doutor. A maioria exerceu atividades como docente na universidade por mais de 32 anos e o tempo de aposentadoria até concurso público e retorno às atividades como docente foi em média três anos. Quanto à área de conhecimento, pertenciam as seguintes categoria profissionais: enfermagem, medicina, biomedicina, psicologia, matemática, estatística e geografia.
A partir da identificação das unidades de registro, realizaram-se o agrupamento dos temas em quatro categorias, a seguir apresentadas:
Saudades do contato com alunos
Nessa categoria, apreendeu-se que os docentes retornaram as atividades após estar aposentados por sentir saudades de estar em contato com os alunos, conforme se identificou nas falas: Eu voltei principalmente porque senti muita falta do convívio com os alunos, era uma falta que nem consigo dimensionar (D3). Nunca pensei que sentiria tanta saudade dos meus alunos. Acho que a gente só descobre essa falta depois que se afasta (D6). Eu tenho vários motivos para ter voltado, mas eu gosto mesmo de estar com os alunos, eu senti um vazio sem estar com eles. A saudade era enorme, aí resolvi e prestei concurso público e aqui estou (D8). Reconheço que a saudade do cotidiano com os alunos me fez refletir e decidir a voltar para as atividades docentes. Eu sentia uma falta enorme e não dei conta de ficar sem eles ... Aí resolvi voltar (D11).
Acréscimo financeiro
Os docentes perceberam que retornar às atividades docentes depois da aposentadoria se configurava como uma possibilidade de aumentar os rendimentos financeiros, que consideravam insuficientes somente com os proventos advindos da aposentadoria. Claro que eu gosto de ser docente, mas o que mais me motivou a voltar às minhas atividades foi a possibilidade de aumentar meus ganhos. A gente sempre teve rendimentos pequenos isso não é segredo para ninguém e aí eu vi uma oportunidade de aumentar estes rendimentos (D1). Tudo pesou para a minha volta, mas como é permitido por lei o nosso retorno após estar aposentado, eu não hesitei em prestar concurso novamente e voltar, pois vi uma chance real de aumentar as minhas condições financeiras (D9). Todos sabem a gente sempre ganhou muito pouco e a minha volta foi uma oportunidade de somar os meus ganhos e ter uma qualidade de vida melhor. Eu tenho certeza que não fiz nada ilegal, o governo permite a nossa volta, aí eu enfrentei concurso público concorrendo com outros candidatos (D13).
Auge na carreira
A possibilidade de retorno ao mercado laboral por profissionais já aposentados está cada vez mais presente em nossa sociedade, principalmente exercendo a mesma profissão ou as mesmas atividades, o retorno se dá porque as pessoas sentem que ao longo de exercício profissional adquiriu e acumulou conhecimentos que devem ser compartilhados com outras pessoas, ou seja, ainda têm contribuição a oferecer. As falas expressam esse entendimento: Nós estávamos em uma fase de implantação do mestrado e eu sempre falei que era um sonho meu não aposentar sem antes abrir um mestrado. Eu estava no auge da minha carreira então decidi voltar (D2). Eu me encontrava e me encontro no auge da minha carreira, orientando alunos de mestrado e doutorado e publicando artigos científicos. Esse foi o motivo fundamental para a minha volta (D4). Depois de aposentado, percebi que tinha muito ainda a contribuir. Eu estava no auge da minha carreira, com esse entendimento, resolvi prestar concurso público novamente e retornar as minhas atividades a todo vapor (D5).
Vivenciando o ócio e a doença
O labor é importante para as pessoas como identidade, como oportunidade de crescimento, reconhecimento, sentimento de ser útil, dentre outros fatores. Porém, para os entrevistados somente foi possível dar importância a esses aspectos após a experiência de sair do mundo do trabalho. Nossa! A experiência de ficar em casa foi péssima, ficar sem fazer nada era um sentimento de vazio, de que algo estava faltando em minha vida. Este foi o motivo que me fez retornar as minhas atividades como docente da universidade (D3). Era um buraco, um vazio que nada preenchia, busquei outras atividades, mas eu queria mesmo era voltar a ser professor e aí voltei (D12).
O trabalho pode contribuir para promover saúde, porém deve estar de acordo com as reais necessidades das pessoas, pois ao contrário, pode se configurar em sofrimento e desencadear doenças de qualquer natureza. O reconhecimento da importância no trabalho para a saúde dos participantes está evidenciado nas falas: Eu comecei a ficar deprimida, infeliz, ou seja, estava adoecendo pela falta do trabalho (D7). Como enfrentar a depressão que se instalou na minha vida após a aposentadoria? Descobri o quanto o trabalho é promotor da minha saúde e esse foi o motivo porque eu voltei (D10).
Discussão
Embora os objetivos do estudo tenham sido alcançados, houveram limitações relacionadas ao fato da coleta ter sido realizada com docentes aposentados de apenas uma universidade pública. Outra limitação refere-se à escassez de investigações com essa temática dificultando a discussão com estudos mais recentes. Sugere-se o desenvolvimento de outras pesquisas, diante da longevidade da população brasileira e, por consequência, aposentando-se e os gestores e trabalhadores precisam planejar-se para enfrentar esta realidade.
Os achados desta pesquisa colaboram para o avanço do conhecimento nas áreas de saúde e enfermagem, pois oferece subsídios para implementação ou adequação dos Programas de Preparação para a Aposentadoria. É preciso que esses programas sejam realizados para os todos os docentes, focando as interfaces dessa nova etapa da vida e mostrando a liberdade que as pessoas têm de decidir e controlar a própria vida, mas com responsabilidade e respeito ao outro.
É preciso estar muito bem preparado para se aposentar, pois, muitos são os problemas enfrentados pelos professores que não se preparam para esta etapa da vida. Aposentar não é apenas se desvincular do meio profissional e do seu labor, mas também se desvincular de um ambiente de troca de conhecimento, experiências, prazer, desafios, amizades, vínculos, dentre outros, fazendo com que muitos voltem ao trabalho(11).
A aposentadoria é uma etapa em que as pessoas encerram as atividades que foram desenvolvidas por um longo período em suas vidas, e, esta ruptura pode provocar sentimentos, como angústia, perda da autoestima, perda da identidade, vivências de nostalgia, medo de perder os amigos, ou seja, temor que as relações sociais sejam interrompidas. Assim, é importante realizar planejamentos que visem preparar os indivíduos para esta nova condição, bem como promover apoio social externo e na instituição qual trabalha, a fim de minimizar a ansiedade e o receio pela exclusão social advindos com a aposentadoria(12).
Neste estudo, verificou-se que a falta de relacionamento social com os discentes foi uma das motivações para os docentes retornarem à atividade laboral, o que pode estar relacionado às recordações positivas deste vínculo. A relação aluno-professor é uma das expressões de satisfação laboral, pois na convivência com os estudantes, o docente transmite conhecimentos e acompanha o crescimento do aluno, bem como tem o trabalho reconhecido pelos discentes(9).
O acréscimo financeiro propiciado pelo vínculo de trabalho e os valores pecuniários do benefício de aposentado foi indicado pelos entrevistados como uma oportunidade de ter melhores condições de vida. Esses achados são semelhantes à pesquisa realizada com professores aposentados ao revelar que o voltar ao trabalho após a aposentadoria foi motivado pela oportunidade de melhorar a qualidade de vida, visto que os rendimentos provenientes de dois salários proporcionam a chance de realizar alguns desejos que não eram possíveis pelos baixos salários recebidos(13).
Em outra perspectiva, a situação financeira leva os docentes a retornarem ao trabalho após a aposentadoria, pelo fato da renda não possibilitar a concretização de alguns sonhos, como viajar e passear. Assim, acumular o salário de aposentados e os vencimentos de professor em exercício pode contribuir para realização de algumas destas aspirações(14).
Os ganhos financeiros voltando ao trabalho após a aposentadoria é uma realidade. Todavia, os fatores de natureza subjetiva caracterizam-se como as principais causas para a manutenção do vínculo com o trabalho, visto que, por meio do mesmo, pode aflorar sentimentos de continuar sentindo-se útil e de reconhecimento, valores, que estão cristalizados na sociedade, dificultando que as pessoas percebam que a vida é mais que um valor de produção propiciado pela atividade laboral(15).
No entanto, o incentivo à permanência dos professores mais experientes em suas atividades laborais é uma realidade em outros países, cujos os docentes com idades mais avançadas são estimulados a permanecer na profissão, oferecendo-lhes tempo parcial e redução das horas de trabalho sem ameaçar seu emprego de longo prazo e seus direitos previdenciários. Embora no Brasil não haja estes estímulos, a legislação prevê que qualquer profissional pode usufruir do direito de permanecer no trabalho ou a ele retornar, após a aposentadoria e por tempo indeterminado(16-17).
A possibilidade de compartilhar a experiência docente adquirida ao longo dos anos e contribuir com a formação de profissionais, também foi mencionada pelos participantes como um dos fatores motivacionais de retorno ao trabalho. Dentre as razões para o retorno ao trabalho, estão presentes os aspectos individuais, como a necessidade de atualização e de se sentir produtivo. Entretanto, os motivos de caráter interpessoal, como a necessidade de conviver com outras pessoas e repassar os conhecimentos e experiência acumulada durante atividades laborais foi evidenciada pelos pesquisados(18).
Com relação ao sentimento de vazio pela ausência do trabalho docente, pesquisa acrescentou que estar aposentado pode despertar sentimentos de inutilidade, bem como o receio de não participar mais de atividades consideradas importantes para a sociedade, repercutindo em sentimentos de desvalorização que, por sua vez, geram o vazio e a sensação de que está faltando alguma “coisa” na vida, e acabam voltado às atividades laborais(19).
A aposentadoria para uma grande parcela de pessoas pode significar a perda do sentido da vida, ou uma morte social, por afastar-se do labor que se configurava como um espaço promotor de relações sociais e afetivas. Dessa maneira, a ausência desse vínculo promove, em determinados casos, o aparecimento de angústia, depressão e outros distúrbios psíquicos que em longo prazo podem se desdobrar em problemas físicos(11).
Os docentes participantes deste estudo evidenciaram que a estratégia utilizada para prevenir esse adoecimento mental foi o retorno ao trabalho. O entendimento das pessoas de que a saúde pode ser mantida por meio do trabalho, tem se tornado fator determinante para a permanência das pessoas no mundo do trabalho, bem como para o retorno às atividades laborais após a aposentadoria(4).
Há relação positiva em ter melhor condição de saúde e o exercício do trabalho, visto que a independência e a flexibilidade física e os aspectos mentais estão preservados. Enquanto que a inatividade tem sido relacionada às piores condições de saúde, altas taxas de morbimortalidade e grande predomínio de sintomas psiquiátricos, hipertensão arterial e consumo de bebidas alcoólicas(8-9).
Assim, enfatiza-se que é necessário planejar a aposentadoria, para que no momento de desfrutá-la, as pessoas não sejam acometidas pela angústia, solidão e depressão, desânimo, decorrentes das dificuldades de vivenciar sentimentos de prazer e realização pessoal após o desligamento do labor, mesmo que tais atividades de trabalho tenham sido permeadas pelo sofrimento em alguns momentos, pois nenhum trabalho é isento de sentimentos de prazer e de sofrimento(20).
É fundamental que os docentes, quer sejam da enfermagem ou não, se preparem para a aposentadoria, visto que, que pode se configurar em um momento singular em que o significado pode ser mais amplo do que o encerramento de uma carreira profissional. Planejar e se preparar para o momento de aposentar-se contribuirá para elucidar e ter a certeza que quando isso acontecer a pessoa terá condições para apoderar-se e vivenciá-la em todos os sentidos.
Conclusão
No presente estudo pôde-se concluir que os motivos que levaram os docentes a retornarem para as mesmas atividades laborais foram desde as necessidades materiais, psicológicas e sociais, a falta de relacionamento social com os alunos, a possibilidade de aumentar os rendimentos e possuir melhor qualidade de vida, o sentimento que ainda pode contribuir com conhecimentos acumulados durante o longo tempo de exercício profissional, ademais do vazio que não pode ser preenchido e os problemas de natureza psicológica, como a angústia e a depressão que os acometeram.
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Autor notes
Santos ACS, Ribeiro BGA contribuíram para o planejamento e a concepção do projeto, análise, interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada. Martins JT, Galdino MJQ, Robazzi MLCC e Ribeiro RP contribuíram com a interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada.
Autor correspondente: Maria José Quina Galdino Rua Geraldo Bernadelli, 161, Vila Moretti, CEP: 86.360-000. Bandeirantes, PR, Brasil. E-mail: mariagaldino@uenp.edu.br.