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REPRESENTAĢOES DA CULTURA DE MASSA NA OBRA DE CLARICE LISPECTOR: A HORA DA ESTRELA

REPRESENTACIONES DE LA CULTURA DE MASAS EN LA OBRA DE CLARICE LISPECTOR: A HORA DA ESTRELA

REPRESENTATIONS OF MASS CULTURE IN CLARICE LISPECTOR'S A HORA DA ESTRELA

ANTONIO TEIXEIRA DE BARROS
Centro de Formacao da Cámara dos Deputados do Brasil, Brasil

REPRESENTAĢOES DA CULTURA DE MASSA NA OBRA DE CLARICE LISPECTOR: A HORA DA ESTRELA

Atenea (Concepción), núm. 519, 2019

Universidad de Concepción

Recepção: 14 Outubro 2017

Aprovação: 02 Maio 2018

Resumo: O objetivo do artigo é analisar como Clarice Lispector incorpora represen-tacoes da cultura de massa em sua célebre novela A Hora da Estrela. A obra em exame tem como protagonista uma migrante do Nordeste brasileiro, Macabéa, que reside no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro e tem como hábito ouvir rádio e colecionar anún-cios de jornais. Macabéa representa o protótipo do receptor pobre e pouco instruido, que se satisfaz com os produtos da indústria cultural, cuja principal funcao é o entretenimiento, a fim de preencher a lacuna deixada pelo tempo livre na sociedade urbana.

Palavras-chave: Literatura e cultura de massa, Literatura brasileira, Clarice Lispector, A Hora da Estrela.

Resumen: El objetivo del articulo es analizar cómo Clarice Lispector incorpora representaciones de la cultura de masas en su célebre novela A Hora da Estrela. La obra en examen tiene como protagonista una migrante del Nordeste brasileño, Macabéa, que reside en el suburbio de la ciudad de Rio de Janeiro y tiene como hábito escuchar radio y coleccionar anuncios de periódicos. Macabéa representa el prototipo del receptor pobre y poco instruido, que se satisface con los productos de la industria cultural, cuya principal función es el entretenimiento, a fin de llenar la brecha dejada por el tiempo libre en la sociedad urbana.

Palabras clave: Literatura y cultura de masas, literatura brasileña, Clarice Lispector, A Hora da Estrela.

Abstract: This article analyzes the way in which Clarice Lispector incorporates representations of mass culture in her acclaimed novel A Hora da Estrela. The novel's protagonist, Macabéa, is a migrant from the Northeast of Brazil who lives in the outskirts of Rio de Janeiro and has a habit of listening to the radio and collecting clippings of newspaper advertisements. Macabéa represents the prototype of a poor, unschooled consumer who finds fulfilment in the products of a culture industry whose primary function is to provide entertainment in order to fill the space left for free time in urban society.

Keywords: Literature and mass culture, Brazilian literature, Clarice Lispector, A Hora da Estrela.

introduģāo

Este texto analisa como Clarice Lispector inclui no enredo de sua novela A Hora da Estrela, aspectos relacionados com a emergente cul tura de massa na década de 1970 no Brasil1. Tal opcao justifica-se pelo perfil da protagonista da obra em questao, Macabéa. Uma jovem pobre que tra-balha como datilógrafa e interage com o mundo social por meio da audicao de uma emissora de rádio e da leitura de anúncios publicitários de jornais. Com essa personagem a autora nos oferece uma diversidade de elementos que nos permitem algumas leituras do universo simbólico da receptora, de sua visao do mundo, da acumulacao de conhecimentos e percepcoes, das mediacoes processadas, do discurso dos emissores e da própria receptora, além de sua condicao de migrante nordestina, do meio rural, que nao con-segue se adaptar ao contexto sociocultural suburbano da cidade do Rio de Janeiro, na década de 1970.

Macabéa torna-se ouvinte assidua da Rádio Relógio, uma emissora que "informava ininterruptamente a hora certa e curiosidades culturais e ne-nhuma música" (Guidin, 1996, p. 36). A análise do universo de Macabéa enquanto receptora de anúncios publicitários de jornais e de programas radiofónicos justifica-se pela inclusao do cotidiano dos pobres no enredo da obra, uma perspectiva politico-literária emergente na América Latina, com reflexos na producao sociológica e de demais campos das Ciencias Humanas, com enfoque principalmente nas situacoes de pobreza urbana e nas condicoes de sofrimento ambiental causado pelos bairros insalubres e distantes das periferias. As narrativas midiáticas passaram a retratar esses contextos (Martin-Barbero, 1995), transformando tais enredos em contos morais (Cole, 2003), ou seja, narrativas baseadas numa ordem simbólica cujos valores sociais sao utilizados para justificar determinados dramas pessoais e assim manter a ordem politica vigente.

Na América Latina, as pesquisas sobre recepcao desses contos morais adquiriram especial interesse com os estudos desenvolvidos por Martin Barbero (1987) e Guilhermo Orozco (1994), sobretudo no que tange ao conceito de mediacao. O primeiro destaca a cultura como mediacao, ou seja, como mediadora e produtora de sentido no processo de recepcao, o qual é entendido como ressignificacao dos discursos propostos e apresentados pela midia (Martin-Barbero, 1987). O segundo propoe que se enten-da recepcao como um processo estruturante que configura e reconfigura a interacao dos públicos com os meios (Orozco, 1994). Para Orozco, a me-diacao se origina em várias fontes, como cultura, politica, economia, classe social, genero, idade, etnia, meios, condicoes situacionais e contextuais, institutes e movimentos sociais. A mediacao também se origina na mente do sujeito, nas suas emocoes e experiencias. Cada uma destas instáncias torna-se fonte de mediates e pode também mediar outras fontes (Gomes e Cogo, 1997, p. 12). Orozco propoe ainda quatro grupos de mediacao: individual, situacional, institucional e video-tecnológica. Todos esses casos de mediacao, salienta, sao impregnados pela cultura (Orozco, 1994).

Diante dessa afirmacao do autor, podemos inferir que a mediacao individual é a mais importante no caso da literatura. Isso porque é a mediacao individual que diz respeito ao receptor em si. Ela surge do sujeito, tanto como individuo com um desenvolvimento cognoscitivo e emotivo espe cifico, quanto em sua qualidade de sujeito social, membro de uma cultura (Orozco 1993, apud Gomes e Cogo, 1997, p. 12). Destacamos aqui a mediacao individual por outra razao: É a que mais adquire importáncia no caso em estudo, ou seja, a recepcao de anúncios publicitários de jornais e programas de rádio pela personagem principal de A Hora da Estrela (Macabéa).

Os estudos citados apresentam o receptor como agente do processo de recepcao, capaz de imprimir seu gosto, de escolher, de aprovar ou rejeitar determinado tipo de mensagem midiática. Nesses estudos, os analistas conferem sentido, peso politico e significado histórico as práticas sociais, politicas e comunicacionais dos trabalhadores (Rabay, 1994, p. 38). Isto, na avaliacao da autora, foi importante, porque boa parte dos receptores que participavam da luta politica por mais liberdade se reconheciam como su-jeitos, mas, também porque tais estudos romperam com a tradicao anterior de tratar a recepcao de conteúdos culturais como um processo passivo. É nesta perspectiva que analisamos, aqui, o problema da recepcao na novela de Clarice Lispector.

Vilma Areas (2005) também ressalta a relacao da obra aqui analisada com o universo da cultura de massas. A Rádio Relógio, segundo a autora, além de oferecer noticias vagas, sobre temas distantes da vida de Macabéa -que fazem pouco sentido para ela e Olimpico-, produz experiencias estéticas marcantes no imaginário de Macabéa. Um exemplo disso é quando ela relata a Olimpico a sensacao que teve ao ouvir a música Una furtiva lacrima, "a única coisa belissima em sua vida", segundo a descricao do narrador. O momento em que ela ouve a música é destacado como "sua mais alta experiencia intelectual" (Areas, 2005, p. 101).

O assunto é discutido ainda por Regina Dalcastagné (2000, p. 85), mas com o propósito de acentuar a distáncia simbólica entre os intelectuais e os marginalizados. Clarice Lispector representa essa distáncia pela figura do narrador erudito e pela presenca de Macabéa, iletrada. Clarice Lispector inclui nessa critica o predominio da visao masculina no campo intelectual. Por essa razao a autora recorre a um narrador masculino chamado Rodrigo S.M, ao justificar, ironicamente, que mulher escreve de forma piegas. Com esse recurso, Lispector poe em cena "um intelectual falando sobre uma mulher do povo (e reafirmando seu preconceito)", uma forma de ampliar e superdimensionar a distáncia entre os intelectuais e o povo (Dalcastagné, 2000, p. 83).

Convém ressaltar aqui o diferencial do estudo proposto. Apesar de também focar nas representacoes da cultura de massas, ressalta tres aspectos ainda nao abordados. O primeiro diz respeito as condicoes de recepcao dos conteúdos midiáticos pelo público de pouca instrucao, ou seja, Macabéa como uma receptora de tais mensagens. O segundo refere-se aos aspectos especificos da publicidade, representado pela relacao de Macabéa com os anúncios publicados em jornais e revistas. Ao lado da Rádio Relógio, Lispector coloca a publicidade como um poderoso discurso da cultura de massas. O terceiro trata da perspectiva predominantemente masculina dos produtores da cultura de massas, ressaltado na obra de Clarice Lispector aqui examinada pelo narrador masculino. Com isso, a autora denuncia o uso dos dispositivos midiáticos para reforcar o machismo e os preconceitos contra a mulher. Tanto é que Lispector opoe a figura ingenua e vulnerável de Macabéa a de Olimpico, esperto e categórico em seu modo de falar, tal qual os meios de comunicacao.

perfil da receptora macabéa

A novela de Lispector, conforme ela mesma declarou em entrevista a Júlio Lerner, concedida em janeiro de 1977, relata a história de uma moca nordestina, "tao pobre que só comia cachorroquente"2. A novela é caracterizada ainda como "a história de uma inocencia pisada, de uma miséria anónima" (Lerner, 1992, sem paginacao). Trata-se de uma antiprotagonista, pois a personagem é visivelmente desajustada a vida na grande cidade, péssima datilógrafa, subempregada, vive mal e mora em local sujo e insalubre, na periferia pobre do subúrbio da Cidade Maravilhosa, um cortico na Rua Acre. Reside, portanto, "entre as prostitutas que serviam a marinheiros, depósitos de carvao e de cimento em pó, nao longe do cais do porto", como descreve o narrador (p. 45). Possui 19 anos, é alagoana, órfa e desnutrida. Ignora-se por que mudou para o Rio. Um dado importante, quase documental: "cole-cionava anúncios e fotos de artistas, recortados de jornais velhos, que colava num álbum". Uma vez por semana ia ao cinema, relata (p. 40).

Frágil físicamente, Macabéa é descrita como alguém que "mal tem corpo" (p. 27). Para falar assim da personagem, o narrador refere-se a outras mocas, aquelas que "vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduiche de mortadela" (p. 27). Como "mal tem corpo para vender", ninguém a quer, ela é virgem e inócua, nao faz falta a ninguém" (p. 13). Por essa mesma razao, quase ao final da história, Macabéa perde seu namorado que, sugestivamente, chamava-se Olimpico, para uma secretária muito bem nutrida, cujo nome também a distinguia em muito de Macabéa. Chamava-se Glória e era filha de um acougueiro. Além do nome glorioso, a secretária tinha comida farta, ao contrário de Macabéa.

Essa descricao da personagem sugere uma leitura que mostra a moca nordestina como um ser desprovido de qualidades fisicas, requeridas socialmente para sua inclusao em um mercado simbólico em que o corpo é a moeda e a beleza o capital simbólico. A razao para isso talvez seja o simples fato de Macabéa nao poder usufruir nem sequer de um bom jantar, como as mocas que "vendem o corpo". Isso a tornava cada vez mais frágil e cada vez mais privada de beleza fisica. Por isso permanecia "virgem e inócua", expressao encontrada pelo narrador para equiparar o corpo de sua perso-nagem a um terreno estéril. Terra virgem nao por nunca ter sido cultivada, mas por nao oferecer nenhum atrativo para ser amanhada. Por "quase nao ter corpo", Macabéa é privada de convivencia social, de relacoes, de amores. Seu cotidiano limita-se ao trabalho de datilógrafa, a audicao do rádio e a leitura de classificados de jornais. A ela, após o término do expediente, só resta a companhia do locutor da Rádio Relógio. Nem as colegas com as quais dividia quarto manifestavam interesse em sua companhia, em suas conversas. Como resume Vilma Areas, "a inacessibilidade dos bens materiais e culturais, a condicao de pária social, faz dela um ser inacabado pela impossibilidade de desenvolvimento adequado. Em suma, Macabéa nao é um ser humanizado em sentido profundo, e essa é a fratura que o livro quer expor" (Areas, 2005, p. 81).

É necessário ressaltarmos ainda o contexto sociocultural da receptora Macabéa, protótipo dos receptores da chamada cultura de massas. Migrante, oriunda do campo, ela deparase com uma realidade social e uma cultura estranhas a sua vida de camponesa nordestina. O conflito rural x urbano é marcante, portanto. Nesse novo cenário social, ela é obrigada a conviver com um conjunto de coisas que lhe sao desconhecidas, no que diz respeito ao ámbito do trabalho, ao uso do tempo livre e as formas de comunicacao e interacao humana e social. O cenário carioca suburbano, pobre e iletrado é o cenário sociocultural tipico dos receptores da cultura de massa, resultado da segmentacao económica, social e cultural operada pela indústria cultural.

Nessa segmentacao, podemos destacar dois polos. O primeiro é o da cultura de massas em si, centrado na recepcao dos produtos culturais dirigidos ao público de pouca ou média instrucao, desempregados, subempregados ou com empregos médios, que residem sobretudo nos cinturóes suburbanos. Trata-se de uma producao voltada para o entretenimento, a fim de preencher a lacuna deixada pelo tempo livre na sociedade voltada para o tempo de trabalho. O outro polo é o dos receptores de informacao para a tomada de decisóes, para a orientacao de atividades empresariais, industriais, politicas, financeiras e culturais. Ao contrário do primeiro, al-guns segmentos da sociedade tem acesso ou interesse a essa informacao estratégica, que funciona como a alavanca dos negócios, da politica, da educacao, da ciencia, da tecnologia e do próprio campo da informacao e da comunicacao.

Segundo Guidin (1996, p. 71), a personagem Macabéa denuncia a existencia de uma classe social marginalizada, sem consciencia politica e que, por isso, nao está preparada para a luta de classes3. Esse perfil é o que me-lhor define o universo dos receptores pobres das comunicacóes de massa, como os que, no Brasil, sao fiéis telespectadores das telenovelas e leitores de revistas que giram em torno da televisao, como as operárias estudadas por Ecléa Bosi (1977), mulheres que lembram em muito o perfil sociológico de Macabéa. Como lembra Suzana Amaral, diretora da adaptacao de A Hora da Estrela para o cinema, Macabéa tem a cara do Brasil. Ela (...) É um Macunaima de saia, uma anti-heroina aqui do Brasil, mas com uma universalidade muito grande (apud Guidin, 1996, p. 96).

A problematizacao da linguagem é uma das caracteristicas da novela de Clarice Lispector a que estamos nos referindo. Tanto da linguagem da receptora Macabéa, como dos locutores da Rádio Relógio, como do próprio narrador da história, um narrador masculino, Rodrigo S. M., porta-voz da autora, que assume a funcao de um escritor-narrador-personagem (Gui-din, 1996, p. 45). Temos, entao os problemas de linguagem da migrante nordestina, ouvinte de rádio e leitora de anúncios de jornais; os problemas de linguagem da emissora, que fala para um público anónimo e indiferen-ciado, os ouvintes; e os problemas de quem escreve e conta essa história, "que tem dificuldade até mesmo para definir seu genero, classificando-a como relato, desabafo, literatura de cordel e melodrama de uma persona-gem miserável e de fatos ralos" (Guidin, 1996, p. 43).

A dificuldade confessa de comunicacao da própria autora, Clarice Lis-pector, é outro elemento emblemático a ser considerado. Com receio de soar piegas, ela, no papel de emissora de uma mensagem, recorre ao recur so de um heterónimo, Rodrigo S. M., "porque escritora mulher pode lacri-mejar piegas" (Lispector, 1982, p. 11). Ao optar por um narrador homem, que nao chora, Lispector está questionando seu próprio modo de escrever e narrar suas histórias, em que o olhar do narrador repousa sobre as im-pressóes subjetivas da personagem feminina. Além disso, "está pondo em discussao, sobretudo, a questao da autoria do texto literário que trata do feminino, como a escrita feminina trata do feminino e as condicóes socio-culturais desse tipo de discurso" (Guidin, 1996, p. 50).

A presenca de um narrador masculino representa, por outro lado, a nos-so ver, uma critica de Lispector a visao machista dos emissores midiáticos, regidos pela lógica da dominacao masculina (Bourdieu, 2002). Afinal, a Comunicacao, como campo simbólico está inserida no universo de me-diacao do poder e do saber, historicamente construidos como exclusivos do genero masculino. Foi esse universo que estabeleceu as regras para a essencia do ter e do ser, do tempo de trabalho e do tempo livre e da cultura de massa, temas tao presentes na obra em questao. Outro aspecto que me rece atencao é a ironia do narrador na comunicacao com o receptor/leitor da história de Macabéa. Ao mesmo tempo em que percebemos a funcao denunciadora da obra, é explicito o pressuposto de que a literatura (como a indústria da comunicacao) é impotente como instrumento de solucao de problemas sociais, como a miséria do mundo suburbano de Macabéa. O próprio narrador afirma:

... (se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é as vezes o outro. Se é pobre, nāo estará me lendo porque ler-me é supérfluo para quem tem uma leve fome permanente...). (p. 46)

Outra marca dessa ironia do narrador é o respeitoso pronome de tratamen-to utilizado para o leitor: vossa senhoria. Nas palavras de Guidin (1996), "nao estaria aqui (... ) a denúncia irónica de que a cultura letrada da escritora, de que o genero literário e o estilo de seu heterónimo Rodrigo nada fazem pelo oprimido?" (p. 73). Aplicada ao campo da cultura de massas, é clara, portanto, a critica aos emissores (representados na novela analisada pelos escritores) e aos receptores que nao estao incluidos no polo da miséria, em que está Macabéa.

a forģa da presenģa masculina

A forca da presenca masculina é emblemática tanto nas manifestacóes folk-comunicacionais como no relato-melodrama de Clarice Lispector. Macabéa projeta-se totalmente no espelho de Olimpico, personagem masculino. Sua história também é contada por um narrador masculino. Ainda temos os locutores da Rádio Relógio, que sao todos homens, os artistas, cujas fotos publicadas em jornais ela coleciona, o chefe, o médico, que ao constatar que ela está tuberculosa lhe recomenda comer macarrao. Assim, a autora póe em evidencia o predominio da perspectiva masculina que predomina nos meios de comunicacao de massa.

O nome da personagem só é revelado quando ela conhece Olimpico. Até entao o narrador nao revela o nome de sua protagonista. Isso vai ocorrer somente quando ela tem um encontro com um homem que possui fluencia verbal, dente de ouro, trabalha como metalúrgico e é "muito sabedor das coisas". Olimpico tem no nome a referencia ao mito e ao épico, mas é filho sem pai, ladrao e assassino. Para Macabéa representa, entretanto, pulsao de vida e nao de identidade. A partir do ingresso de Olimpico na narrativa é que Macabéa recebe um nome. Seu nome, até entao omitido pelo narrador, mesmo balbuciado e esquisito, apresenta-se agora e a identifica (Guidin, 1996, p. 57).

Olimpico, na realidade, é tao marginalizado do universo da cultura letrada quanto Macabéa. A diferenca é que ele conhece, pelo menos superficialmente, alguns códigos da cultura urbana. Isso faz com que ele pareca, aos olhos de Macabéa, integrado aquela cultura que ela desconhece. Ele trabalha e convive com outros individuos em condicóes semelhantes. Trabalho e capacidade para comunicacao interpessoal tornam-se dois diferenciais decisivos no enredo.

Macabéa, ao contrário, nao conversa com ninguém além dele. Seu trabalho é mecánico e ela sequer tem competencia para a adequada execucao da tarefa de datilografia. A prova é que, segundo o relato de Lispector, "o chefe vivia reclamando das marcas de dedos sujos no papel" (Lispector, 1982, p. 27). Por isso Macabéa acaba sendo demitida. Ao longo da narrativa, Clarice Lispector faz questao de ressaltar o contraste entre Macabéa e Olimpico. Até mesmo pelo nome. O nome de Macabéa, ou seja, sua identidade, só aparece quando ela passa a se relacionar com Olimpico. Diante dele, Macabéa canta, ri, sonha e fala de si pela primeira vez. Para ele, declara textualmente que desconhece o sentido do próprio nome e que nunca fora pessoa importante (Guidin, 1996, p. 76). A falta de simetria entre os generos (masculino e feminino) está até nos próprios nomes: Olimpico x Macabéa.

MACABÉA E A CULTURA DE MASSAS

Macabéa representa toda a gama de receptores que vivem a margem da comunicacao burguesa. Clarice Lispector nos apresenta uma Macabéa que desconhece por completo os códigos midiáticos convencionais. Isso a torna quase impossibilitada de expressao, de uso pleno de suas faculdades discursivas. Macabéa é incapaz de utilizar a palavra até mesmo para co-nhecer-se, como declara o narrador: "Quero antes afiancar que essa moca nao se conhece senao através de ir vivendo a toa. Se tivesse a tolice de se perguntar 'quem sou eu?' cairia estatelada e em cheio no chao. 'Quem sou eu?' provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem indaga é incompleto" (Lispector, 1982, p. 15).

A falta de capacidade para conversar parece ter sido a segunda razao mais importante (a primeira, como já foi mencionada, foi o fato de "quase nao ter corpo") para Macabéa perder seu namorado Olimpico para a secre-tária Glória, os quais até pelos nomes eram mais afortunados que a pobre datilógrafa, considerada pelo seu chefe incapaz de escrever corretamente.

Macabéa nao consegue usar a palavra nem mesmo para assegurar seu misero salário.

Um trecho de um diálogo entre Olimpico e Macabéa é muito elucidativo para mostrar a escassez de palavras da personagem de Lispector. Antes do diálogo, o narrador diz que "Sentavam-se no que é de graca: banco de praca pública. Ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada..." (p. 64). Assim se inicia o diálogo:

Macabéa consegue ler algumas palavras, mas nao é capaz de ler o mundo no qual ela vive, de acordo com os códigos que regem a comunicacao por meio das palavras. Seus códigos sao outros. Sua comunicacao se dá por outros meios. Seu mundo é outro. A representacao explicita da dicotomia entre a comunicacao urbana e a linguagem de seu mundo rural de origem.

macabéa e a recepģāo do rádio e da publicidade

Talvez por quase "nao ter palavras", Macabéa era uma ouvinte assidua e fiel da Rádio Relógio e se impressionava com as palavras utilizadas pelos locutores (todos homens). Quase nada entendia do que eles falavam, mas achava fantástico alguém ter a capacidade de usar tantas palavras por ela desconhecidas. Diante de Olimpico falava de sua admiracao pelas palavras dificeis, como "Élgebra" (sic).

Ela pergunta para ele:

- "O que é que quer dizer 'Élgebra'"? (p. 66)

E ele, que ela considerava muito sabedor das coisas, porque falava com desembaraco, respondeu:

-"Saber disso é coisa de fresco, de homem que vira mulher. Desculpe a palavra de eu ter dito fresco porque isso nao é palavrao para moca direita". (p. 66)

Um dos consolos de Macabéa era saber que os locutores também "fala-vam errado". Certa vez ela se atreveu a comentar um "erro" com Olimpico. Segundo ela, ao anunciar uma música "dos estrangeiros", o radialista dissera "lácrima" em vez de lágrima. Queria confirmar com Olimpico se estava equivocada a palavra, mas seu namorado nao demonstrava interesse nes-ses assuntos. O narrador é quem dá uma explicacao plausivel: "Nunca lhe ocorrera a existencia de outra lingua e pensava que no Brasil se falava brasi-leiro" (p. 51). Macabéa representa o sertanejo que, fechado em seu mundo, nao tem sequer nocao do que seja o Brasil em seu todo. As referencias para a comunicacao segundo a lógica da cultura rural estao sempre nos limites da cultura situada, cujos códigos também sao contextualizados.

Sempre que Olimpico calava, Macabéa falava sobre algo que ouvira na Rádio Relógio. O rádio supria até mesmo a falta da funcao fática, na lin-guagem de Macabéa. Servia de meio para manter o contato com seu namorado: "Na Rádio Relógio disseram uma palavra que achei meio esquisita: mimetismo" (Lispector, 1982, p. 55). Mas Olimpico sempre retrucava em tom de censura. Ele era a encarnacao do poder na vida de Macabéa. Além de ser homem, ele detinha conhecimento sobre muitas coisas. Por isso ela admitia a censura e a interdicao de seu discurso: "Isso é lá coisa para moca virgem falar? E para que serve saber demais? O mangue está cheio de raparigas que fizeram perguntas demais" (Lispector, 1982, p. 73).

Com esse tipo de censura Olimpico fortalecia seu poder e seu saber. Indiretamente, reforcava a necessidade de Macabéa continuar ignorando o sentido de determinadas palavras. "Era melhor nao saber" (p. 55). Assim, ela seria mais feliz. Isso servia de alento a ela. Mesmo assim, nao deixava de se espantar a cada palavra nova usada por seu namorado, o que legitimava ainda mais o seu dominio.

Ao ouvir a palavra mangue, logo perguntou: "mangue é um bairro?". E ele respondeu, com toda a onisciencia que Macabéa lhe atribuia: "um lugar ruim, para os para homem ir" (Lispector, 1982, p. 73).

Mas a resposta nao bastava para Olimpico, era necessário desqualificar cada vez mais Macabéa para reafirmar seu poder e seu saber. Assim, pros-seguiu ele: "voce nao vai entender, mas eu vou lhe dizer uma coisa: ainda se encontra mulher barata. Voce me custou pouco, um cafezinho. Nao vou gastar nada com voce, está bem?" (p. 55). Como sabia que Olimpico era um homem de muitas palavras e sempre reclamava de sua escassez de falas, mesmo tendo sempre a intencao de faze-la permanecer com pouca competencia discursiva, Macabéa empenhava-se em aprender o máximo com a Rádio Relógio.

Mesmo sendo leitora voraz de anúncios de jornais os quais ela recortava e colecionava para ver e rever em casa em suas noites vazias e solitárias, ela nao falava deles com seu namorado. Guardava tudo apenas para si. Os reclames faziam parte apenas de seu mundo de fantasia, de seu imaginário. E se deleitava com as fotografías dos produtos de beleza estampados nas páginas dos jornais, como as joias, os perfumes e os cremes.

Sentia apetite pelos cremes. Desejava come-los, degustá-los e nao passar na pele. Sabia que nunca seria bonita como as mocas que usavam tais pro-dutos. Mais do que pela fantasia da beleza, a publicidade lhe atingia pelo estómago, pelo desejo de comida. O paladar era quase sua fonte exclusiva de prazer, mesmo comendo tao pouco e tao mal. Á noite, tomava café frio por nao ter dinheiro para jantar. A sobremesa eram as fotos dos cremes anunciados nos jornais. O código visual, aqui, na visao de Macabéa, é dire-tamente associado ao paladar, demonstrando mais uma vez sua inadequa-cao aos apelos visuais da publicidade. A única fala de Macabéa com alguém sobre os anúncios foi com sua tia, quanto ela ainda vivia, lá no interior da Paraiba, antes de Macabéa mudar-se para o Rio de Janeiro.

Desejava ser gorda. Registrou como um slogan publicitário que ouvira de um rapaz na cidade de Maceió para uma moca gorda: "a tua gordura é formosura" (Lispector, 1982, p. 78). Decidiu, entao, motivada pelos anún-cios, pedir que a tia lhe comprasse óleo de bacalhau. Mas mesmo assim, nao falou á tia sobre os anúncios que lia e guardava em seu mundo de fantasia. Ela acreditava piamente nos anúncios. A credibilidade era o capital simbólico da publicidade no reino fantasioso de Macabéa. Cria que ao tomar óleo de bacalhau ficaria cheia de corpo, de gordura e de formosura. O discurso da publicidade era, portanto, um discurso altamente eficiente. Nao apenas persuadia a receptora Macabéa, mas, principalmente, a seduzia. Mas recebeu a seguinte resposta da tia: "voce pensa lá que é filha de familia querendo luxo"? (Lispector, 1982, p. 78). Talvez por isso nunca mais se atre-veu a conversar com ninguém sobre qualquer assunto ligado á publicidade. Muito menos com Olimpico. Ele também acharia que se tratava de luxo. E isso nao cabia em seu corpo, nem em suas palavras. Só em sua fantasia. O discurso da tia, como o de Olimpico eram marcados pela interdicao. Afinal, a mensagem implicita, era a de que eles sabiam de mais coisas do que ela. Por isso se conformou quando perdeu Olimpico para Glória, a secretária filha de um acougueiro.

Como relata o narrador: "Macabéa entendeu uma coisa: Glória era um estardalhaco de existir. E tudo devia ser porque era gorda" (Lispector, 1982, p. 78). Aliás, toda a sua vida foi afetada pela dificuldade de entender os códigos da cultura urbana. Até mesmo no final da história, quando ela morre atropelada, ao atravessar a rua atordoada com as palavras que ouvira de uma cartomante. O discurso do narrador é emblemático:

Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a cruzar a rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras. Desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. uma pessoa grávida de futuro. (p. 79)

Os anúncios publicitários que Macabéa lia e as mensagens da Rádio Relógio também, muitas vezes, lhe "engravidaram de futuro" ou pelo menos de esperanca de ter futuro. Eram todos discursos eficientes, sedutores.

A presenca da cartomante é um recurso de Clarice Lispector para uma releitura do conto de Machado de Assis, intitulado A cartomante, como analisam Passos (2009) e Simon (2013). Da mesma forma que no mencionado conto, a cartomante faz previsao de um futuro glorioso. Macabéa fica embevecida com a fala de Madame Carlota. Da mesma forma que na narrativa machadiana, a tragédia ocorre logo após a previsao. Em ambos os casos, ironicamente, as promessas de felicidade feitas pelas cartas resultam em morte.

Além do paralelo com o conto machadiano, a previsao da cartomante poderia ser encarada ainda como uma irónica metáfora do discurso publi-citário, que impregna a indústria cultural e seus produtos. Cabe salientar que se trata de uma voz feminina, representando a forca de Eros, ao ofere-cerlhe felicidade, formosura, amor e um futuro. O homem prometido pela cartomante, além de muito rico, "vai lhe dar muito amor e voce, minha enjeitadinha, voce vai se vestir com veludo e cetim e até casaco de pele vai ganhar!" (pp. 95-96). A cartomante lhe oferece felicidade através das palavras. A eficácia discursiva de suas predicoes "fertilizam os óvulos murchos de Macabéa" (Guidin, 1996, p. 77), que se torna "grávida de futuro", como relata o narrador.

Mas a metáfora de Lispector é apocaliptica. Ao atravessar a rua, extasiada com as predicoes e promessas da cartomante, "grávida de futuro", é atropelada por um automóvel e pela voracidade do futuro, como descreve o narrador. É necessário destacarmos a simbologia representada por esse icone da modernidade, da era da velocidade, do avanco da técnica e das comunicacoes.

Foi seduzida pelas palavras do discurso quase "publicitário" da carto-mante que Macabéa tornouse noiva da morte, outra simbologia forte na narrativa de Clarice Lispector. Curiosamente, casamento e morte sao igualmente dois temas dos relatos melodramáticos do universo dos contos morais da cultura de massa, como a literatura de cordel, as lendas e os causos. Macabéa morreu atropelada pelo futuro, a velocidade, o avanco técnico, o discurso de promessa de felicidade.

A estrela da Mercedes que a atropelou foi interpretada por ela como sendo a sua "hora da estrela". Ao ver o carro que a atropelou, acreditou piamente que todas as predicoes da cartomante estavam se cumprindo, por se tratar de um carro bonito, conduzido por um homem louro, forte e viril. A publicidade é como essa morte retratada por Clarice Lispector. Uma bela dama, sensual, toda Eros. Mas tem alma de homem. Thanatos que se traves-te de Eros. Essa é a fórmula da eficácia do discurso sedutor da publicidade. O feminino embalado e ornamentado com as armadilhas da dominacao masculina, que faz com que Macabéa morra só e ignorada, esmagada pelo mundo urbano que nao conseguiu conquistar (Guidin, 1996, p. 41). Mundo urbano que lhe ofereceu discursos sedutores, pelo rádio e pela publicidade. Seducao que nao implica compreensao, mas exclusao. Tanto é que Maca-béa, representante emblemática da cultura rural, foi excluida e morta pelos códigos urbanos. Metaforicamente, a cidade expulsa a cultura camponesa.

Mesmo sem desejar a morte de Macabéa, nao há outro jeito para terminar a história, na visao do narrador, que afirma: "Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estómago para ver se é bom. A vida é um soco no estómago" (Lispector, 1982, p. 83). Mas como na visao do mesmo narrador, "a vida come a vida" (Lispector, 1982, p. 85), nao houve saida para Macabéa a nao ser a morte.

Além do sangue, do sexo, há, portanto, um terceiro elemento marcante na história da datilógrafa: a morte. Assim, completa-se a triade dos relatos melodramáticos da cultura de massa, no formato de contos morais. Mas há ainda uma "certa sensualidade no modo como se encolhera", após o acidente (Lispector, 1982, p. 84). A razao para isso está em uma indagacao do narrador: "Ou é porque a pré-morte se parece com a intensa ansia sensual?" (Lis-pector, 1982, p. 84). Macabéa teve toda a sua trajetória marcada por elementos tipicos das narrativas da cultura de massa: sangue, sexo, morte e poder.

COMENTARIOS FINAIS

A associacao entre sangue, sexo e morte na história de Macabéa lembra hoje como a midia relaciona esses elementos com o gosto da audiencia. O narrador da história encerra o drama de sua protagonista interpelando ironicamente seu receptor/leitor: "o final foi bastante grandiloquente para vossa necessidade?" (Lispector, 1982, p. 106). Essa necessidade, sem dúvi-da, pode ser encarada como sendo a demanda do público da midia por tra-gédias, dramas, mortes, sangue, dor e sofrimento, como vemos atualmente nos telejornais, nas telenovelas, nas revistas semanais e nos jornais diários: a gratificacao do receptor pelas narrativas dos contos morais midiáticos.

A própria narrativa da morte de Macabéa poderia se transformar em manchete, em noticia-drama, relato da morte de uma pobre datilógrafa, atropelada por carro importado, após ouvir previsoes de um futuro brilhante. Com certeza, seria noticia de primeira página e iria comover mul-tidoes de receptores ávidos por esse tipo de produto-noticia. Em suma, o drama da receptora Macabéa revela nao só a mazela brasileira da miséria, da nao integracao dos migrantes rurais ao contexto urbano, sobretudo na década de 1970, mas também o fato universal da apologia da midia ao grotesco, ao inusitado para atender s necessidades dos receptores, bem como a natureza cruelmente sedutora da eficácia do discurso publicitário.

Convém salientar que estamos nos referindo em especial ao universo da recepcao que é alvo da cultura de entretenimento e de consumo de produtos cujos anúncios sao pautados no discurso da felicidade, como as promessas da cartomante feitas a Macabéa. Mesmo que o discurso da cartomante seja entendido como o de alguém que teve pena de revelar á moca a verdade, nao deixa de ser um discurso enganoso, uma falsa promessa de felicidade.

É necessário destacar ainda a leitura presente na visao de Clarice Lis-pector a respeito da publicidade. Leitura essa que se coaduna com aque-la realizada por grande parte dos teóricos latino-americanos citados na primeira parte do texto, como Luiz Beltrao, Martin-Barbero e Guilhermo Orozco.

É oportuno retomar aqui a discussao teórica apresentada na primeira parte do artigo, que ressalta o papel da mediacao individual, tao importante no caso da literatura e dos meios de comunicacao de massas (Orozco, 1993; Gomes e Cogo, 1997). Lispector exemplifica bem esse tipo de mediacao cultural, acentuando a recepcao de anúncios publicitários de jornais e programas de rádio por sua personagem. A autora coloca em cena um caso tipico de recepcao de produtos culturais voltados a um público de periferia urbana de pouca instrucao, que vive á margem da cultura erudita e da própria sociedade, como ressaltam Guidin (1996), Bosi (1977) e Beltrao (2001), cujas ideias serviram de guia para a análise aqui proposta.

Por fim, é cabivel ressaltar a problematizacao da linguagem realizada por Clarice Lispector. A linguagem é representada como um agente de in-clusao e de exclusao, um operador da dominacao simbólica. A linguagem é seu material de trabalho como escritora e também um elemento importante na cultura de massas. Curiosamente sua personagem quase nao consegue falar. É desprovida de beleza e de competencia comunicativa. Talvez por isso ela seja tao encantada com o universo da linguagem radiofónica e dos anúncios publicitários.

referencias

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Notas

1 Aqui está sendo usada a edicao de 1982, publicada pela editora José Olympio.
2 A autora terminou de escrever a obra em 1977, cuja publicacao ocorreu em dezembro do mesmo
3 Cabe o registro de que Alencar (2009) apresenta leitura diferenciada, ao apontar para a possibili-dade de que a novela de Clarice Lispector é uma metáfora sobre a ascensao das massas ao poder. Aqui adotamos o primeiro enfoque.
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