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Tradição, Família e Propriedade (TFP), anticomunismo e a comunidade de inteligência dos EUA*
Tradição, Família e Propriedade (TFP), anticomunismo y la comunidad de inteligencia de Estados Unidos
Tradition, Family, and Property (TFP), Anti-Communism, and the US Intelligence Community
Tradition, Famille et Propriété (TFP), anticommunisme et communauté du renseignement des États-Unis
巴西的保守组织传统、家庭和财产保护会”(TFP)、反共产主义与美国情报界在巴西的活动
Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica, vol. 15, no. 2, pp. 264-282, 2023
Universidade Federal Fluminense

Artigos

Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos: mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.

Received: 15 March 2023

Accepted: 26 May 2023

DOI: https://doi.org/10.15175/1984-2503-202315204

Resumo: O presente artigo investigou os posicionamentos da comunidade de inteligência dos Estados Unidos da América (EUA) acerca do potencial alinhamento, ou não, do grupo católico integrista brasileiro Tradição, Família e Propriedade (TFP) à cruzada anticomunista empreendida por Washington durante o período de Guerra Fria (1947-1991). Foram selecionados como fontes de investigações os documentos desclassificados da Agência Central de Inteligência (CIA), disponibilizados pela própria agência, e do Departamento de Estado dos EUA, que foram publicizados pelo Projeto Opening the Archives da Universidade de Brown. As fontes foram abordadas a partir do método de análise documental e pelo prisma teórico mannheimiano de interpretação dos estilos de pensamento. Como resultados, identificou-se que os documentos desclassificados americanos reconhecem, por um lado, o potencial da TFP para o atendimento indireto aos interesses dos EUA em território brasileiro, por outro lado, a organização é apontada pela comunidade de inteligência estadunidense como incompatível com a visão de mundo do catolicismo brasileiro e sua atuação, por vezes irracional, também não era condizente com os padrões anticomunistas propostos por Washington.

Palavras-chave: serviços de inteligência, religião e política, Guerra Fria, pensamento conservador, ideologias.

Resumen: Este artículo investiga las posturas de la comunidad de inteligencia de Estados Unidos con respecto a la posible alineación (o no) del grupo católico integrista brasileño Tradição, Família e Propriedade (TFP) con la cruzada anticomunista emprendida por Washington durante el período de la Guerra Fría (1947-1991). Se seleccionaron como fuentes de investigación los documentos desclasificados de la Agencia Central de Inteligencia (CIA), facilitados por la propia agencia, y del Departamento de Estado de EE. UU., publicados por el proyecto Opening the Archives de la Universidad de Brown. Para abordar las fuentes, se recurrió al método de análisis documental y al prisma teórico mannheimiano de interpretación de los estilos de pensamiento. Como resultado, se identificó que los documentos desclasificados estadounidenses reconocen, por un lado, el potencial de la TFP para atender indirectamente los intereses de EE. UU. en territorio brasileño, aunque, por otro lado, la comunidad de inteligencia estadounidense consideraba a la organización incompatible con la visión del mundo del catolicismo brasileño y su actuación, a veces irracional, no se ajustaba a los estándares anticomunistas propuestos por Washington.

Palabras clave: servicios de inteligencia, religión y política, Guerra Fría, pensamiento conservador, ideologías.

Abstract: The following article investigates the positions of the United States intelligence community in terms of the potential alignment, or not, between the Brazilian fundamentalist Catholic group with anti-communist leanings, Tradition, Family, and Property (TFP) and the anti-communist crusade led by Washington during the period of the Cold War (1947-1991). Selected sources of investigation are documents declassified by the Central Intelligence Agency (CIA) available from the agency itself and the US Department of State, which were published by the Opening the Archives project at Brown University. The sources were approached according to the method of document analysis and from the theoretical prism of Mannheim’s interpretation of styles of thought. As a result, we identify that the American declassified documents recognize the TFP’s potential to indirectly meet the US’s needs in Brazilian territory, despite the fact that the organization was deemed by the American intelligence Community to be incompatible with Brazilian Catholicism’s world view and its sometimes irrational actions were also not aligned with the anti-communist standards proposed by Washington.

Keywords: intelligence services, religion and politics, Cold War, conservative thought, ideologies.

Résumé: Le présent article analyse les positions adoptées par la communauté du renseignement des États-Unis quant à l’éventuelle intégration du groupe catholique intégriste brésilien Tradition, Famille et Propriété (TFP) à la croisade anticommuniste menée par Washington à l’époque de la Guerre froide (1947-1991). Nous avons choisi comme source de nos recherches les documents déclassifiés de la CIA, mis à disposition par l’agence elle-même, et du Département d’État des États-Unis, publiés quant à eux par le projet Opening the Archives de l’Université de Brown. Ces sources ont été traitées à partir de la méthode de l’analyse documentaire et à traves le prisme théorique mannheimien d’interprétation des modes de pensée. Nous avons ainsi pu identifier que les documents déclassifiés étasuniens reconnaissaient d’un côté le potentiel de TFP à répondre indirectement aux intérêts des États-Unis sur le territoire brésilien, mais que de l’autre, l’organisation et sa vision du monde, parfois irrationnelle, basée sur le catholicisme brésilien étaient considérées par la communauté du renseignement étasunien comme incompatibles avec les préceptes anticommunistes défendus par Washington.

Mots clés: services de renseignement, religion et politique, Guerre froide, pensée conservatrice, idéologies.

摘要: 本文调查了美国情报界在冷战期间(1947-1991)对巴西的原教旨主义天主教团体“传统、家庭和财产保护会”(Tradição, Família e Propriedade—TFP)的接触与拉拢的活动。我们选择了一些来自美国中央情报局 (CIA) 的解密文件 (由该机构自己发布) 和来自美国国务院的解密文件 (由布朗大学开放档案项目发布),对它们进行了分析解读。分析结果发现,美国一方面承认巴西的TFP组织 有可能间接服务于美国在巴西的利益,另一方面,该组织被美国情报界认为与巴西天主教的世界观相左,它的一些不合理的行为也不符合华盛顿的反共标准。本文的研究方法是文献分析学和曼海姆(Karl Mannheim) 的知识社会学。

關鍵詞: 情报服务, 宗教和政治, 冷战, 保守思想, 意识形态.

Introdução

Produções recentes acerca da perspectiva de atuação da comunidade de inteligência dos Estados Unidos (EUA), durante o período de Guerra Fria (1947-1991), têm evidenciado as distintas estratégias e operações intervencionistas (diretas ou indiretas) que caracterizam a relação da potência norte-americana com os países do Sul Global (BEVINS, 2021; PRASHAD, 2020; RIDENTI, 2022). O modelo contemporâneo da comunidade de inteligência estadunidense se erigiu a partir da promulgação do Ato de Segurança Nacional (1947), que, entre outras medidas, preconizava a criação da Agência Central de Inteligência (CIA) e a reformulação dos órgãos estatais responsáveis pela manutenção dos interesses da soberania dos EUA frente às novas dinâmicas de disputas que caracterizavam o período pós-II Guerra (WARNER; MCDONALD, 2005).

Objetivando fortalecer seu Projeto de Revisão Histórica (HRP), partindo de princípios de uma maior transparência em suas atividades, a CIA passou a disponibilizar, de forma pública e aberta no meio eletrônico, documentos que deixaram de ser classificados como sigilosos. Nos anos 2000, foi disponibilizada uma parte dos documentos desclassificados produzidos pela agência durante o período de Guerra Fria.1 O processo de desclassificação perpassa um crivo avaliativo cujos limites são delineados pelos interesses de soberania e segurança nacional dos EUA. Consequentemente, muitas fontes disponibilizadas possuem cortes ou censuras e, dado o caráter contínuo de publicização desses documentais, é pertinente indicar a possível existência de dossiês investigativos que ainda não foram disponibilizados para acesso público.

Neste sentido, a pesquisa buscou complementar seu horizonte analítico para os arquivos provenientes do Departamento de Estado dos Estados Unidos que abordam o Brasil, fontes que foram digitalizadas e disponibilizadas no endereço eletrônico da Universidade Brown.2 Assim, foi possível destacar a relevância das fontes documentais inéditas que representam uma análise primária de dois arquivos, produzidos pela comunidade de inteligência estadunidense, que permitiram a identificação de um conjunto de sete (7) registros que tratavam da TFP (Tradição, Família e Propriedade) e seu fundador, o intelectual integrista brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira.

Nesse sentido, o presente artigo mobilizou esses documentos inéditos como principal fonte de pesquisa sobre a atuação da TFP dentro e fora do Brasil, buscando apreender como a linha de pensamento tradicionalista brasileira se propagou, tanto dentro das delimitações nacionais quanto fora delas. As fontes foram abordadas pelo método de análise documental subsidiada pela perspectiva de análise dos estilos de pensamento (MANNHEIM, 1981).

Dentro desse prisma investigativo, indica-se que a abordagem “mannheimiana” dos estilos de pensamento implica o reconhecimento da existência de linhagens filosóficas e ideológicas (progressistas, reformistas, conservadoras e tradicionalistas) que subsidiam as formas de interpretação do mundo a partir dos interesses de determinados grupos em disputa em uma dada conjuntura (política, econômica, social, cultural, entre outras).

Nessa perspectiva teórica, Mannheim (1981) classifica o tradicionalismo como uma forma de interpretação do mundo tendencialmente vinculada a elementos da religiosidade que, de modo reativo às transformações sociais, apega-se a padrões arcaicos de vida social e que, em circunstâncias específicas, promove processos de complexificação em suas formulações, flertando e fundindo-se com formas de pensamento político conservador que viabilizem o atendimento de suas demandas imediatas na realidade por meio de ações em diferentes organizações e grupos sociais.

Desse modo, o presente artigo objetivou apreender os prismas interpretativos de órgãos da comunidade de inteligência dos EUA (mais especificamente da CIA e do Departamento de Estado) acerca das formas de atuação e potencial alinhamento da TFP ao projeto da cruzada anticomunista empreendida por Washington durante o período de Guerra Fria. Assim, buscou-se identificar as possíveis relações estabelecidas entre os estilos de pensamento conservador e reformista estadunidenses (representados, respectivamente, pela gestão presidencial dos partidos Republicanos e Democratas) e o tradicionalismo do integrismo católico de Plínio Corrêa de Oliveira.

Tradição, Família e Propriedade (TFP) no Brasil

Considerando que dentro da Igreja Católica Apostólica Romana há uma diversidade de grupos e perspectivas, inclusive antagônicas em alguns sentidos, enfatiza-se o destaque proposto à TFP, enquanto expressão da realidade e do pensamento tradicionalista católico. No Brasil, em 1960, a TFP passou a se constituir enquanto organização associativa, com estrutura burocrática, fundada pelo intelectual católico, professor e ex-deputado Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995), tendo como um de seus objetivos combater o comunismo.

Entendido enquanto fenômeno político complexo, o anticomunismo serviu como embasamento de luta ideológica para diferentes vertentes de pensamento do século XX, que se posicionavam em combate às efetivas ameaças de uma Revolução proletária ou, em muitos casos, a toda e qualquer mobilização e organização que, fundamentada em propostas tendencialmente progressistas, ameaçassem os interesses de reprodução do capital internacional (MOTTA, 2000). Nesse sentido, é pertinente ressaltar que, apesar de atuar como amálgama dos grupos conservadores e tradicionalistas, o anticomunismo assumiu diferentes roupagens de acordo com os grupos em que inseria.

Em análise comparativa da realidade sul-americana no período de Guerra Fria, por exemplo, Bohoslavsky (2016) aponta quatro principais linhas de pensamento anticomunista, sendo elas: o liberalismo conservador, reprodutor da lógica capitalista em defesa do individualismo e livre mercado (consequentemente, mais alinhado ao projeto de economia mundial proposto pelos EUA); os nacionalismos antiliberais, marcados pelo anti-imperialismo tanto capitalista quanto comunista; as doutrinas das Forças Armadas, comumente fundamentadas em preocupações paranoicas de manutenção da segurança nacional, e, por fim, o tradicionalismo católico oficial, representado por clérigos e leigos vinculados à Igreja Católica Latino-Americana.

É justamente nesta última vertente de pensamento anticomunista que a TFP se articulou (FORESTI, 2013). No contexto do golpe de 1964, a TFP foi colaborativa e fomentou ações que colaboravam para desestabilizar o governo democrático de João Goulart. Como destaque, é possível citar a “Marcha da Família, com Deus pela Liberdade”, organizada pela TFP, que ocorreu em São Paulo em março de 1964, inclusive, foi apreendida como aval da sociedade civil brasileira para a deflagração do Golpe militar que destituiu o poder de João Goulart.

No que tange às dimensões da análise aqui proposta, é pertinente, ainda, indicar o potencial expansionista das ideias de Plínio Corrêa de Oliveira em nível internacional. Dentro dessa perspectiva, a coletânea “O Pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira e a Atuação Transnacional da TFP”, organizada por Gizele Zanotto e Benjamin Cowan (2020), traz importantes contribuições para a apreensão das especificidades que a organização tradicionalista brasileira assumiu a partir de sua gradual inserção e consolidação institucional em países como Chile, Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Portugal, EUA, França, entre outros.

Ademais, indica-se que a legitimação da implementação de processos antidemocráticos por intermédio do refluxo de um discurso anticomunista contemporâneo,3 crivado de anacronismos e elementos do tradicionalismo religioso, contribui para validar a afirmação recente de Vincent Bevins (2021) de que o Brasil, pode ser tomado como um dos exemplos de maior sucesso das intervenções estratégicas que permearam a atuação da comunidade de inteligência estadunidense em sua cruzada anticomunista da segunda metade do século XX. Desse modo, evidencia-se a pertinência de apreender as interpretações dirigidas para Washington pelos agentes de inteligência dos EUA acerca do papel desempenhado pela TFP nesse projeto de cristalização do anticomunismo ocidental.

A TFP pelos olhos de Washington

Até o momento, os primeiros registros disponibilizados pela comunidade de inteligência estadunidense acerca da TFP, que foram identificados por esta pesquisa, constituem-se em dois aerogramas produzidos pelo Departamento de Estado dos EUA em setembro de 1968. O primeiro deles, datado de 5 de setembro, recebe o título “Sociedade Brasileira pela Defesa da Tradição, Família e Propriedade Amplia Atividade no Nordeste”4 e se inicia problematizando a forma como a campanha anticomunista da TFP estava intensificando os atritos com a ala progressistas da Igreja Católica que, liderada por Dom Hélder Câmara, era acusada de realizar o trabalho dos comunistas. Nessa primeira avaliação, os relatores estadunidenses informaram que

Um dos subprodutos infelizes da campanha da TFP seja talvez a inevitável tendência, entre os clérigos progressistas mais radicais da região, de vislumbrar o movimento como mais um esforço onipresente dos “fundos internacionais” para a manutenção do status quo e, assim, manter a nação em perpétua dependência econômica (UNITED STATES OF AMERICA [USA], 1968a, p. 4, tradução nossa).

A avaliação do agente responsável evidencia, assim, o descontentamento de Washington em relação às atividades desenvolvidas pela TFP em território brasileiro, que, apesar de atuar na linha de frente do combate ao comunismo, demonstrava tendências a suscitar críticas ao projeto imperialista estadunidense para a América Latina. Contudo, nos registros do aerograma, permanece velada a existência, ou não, do efetivo patrocínio dos mencionados fundos internacionais a essa campanha da TFP, responsável por subprodutos infelizes.

O informe segue problematizando o caráter polêmico da TFP no Brasil, indicando possibilidades de existência de vínculos entre as lideranças integristas e as Forças Armadas, elemento que, segundo o relator, merecia um “escrutínio mais próximo”. Tais investigações acerca da relação são retomadas em relatório produzido poucos dias após esse primeiro.

O segundo aerograma, de setembro de 1968, ocupa-se em avaliar o encontro promovido pela TFP na cidade de São Paulo, enfatizando ser “notável que nenhuma das figuras públicas militares chaves de São Paulo compareceram à reunião, apesar do fato de que numerosos convites foram distribuídos e anúncios de que a reunião seria aberta para o público foram emitidos” (USA, 1968b, p. 3, tradução nossa).

Determinado registro é concomitante com a avaliação, realizada por Prashad (2020), sobre a existência de uma tendência estratégica majoritária da comunidade de inteligência estadunidense em financiar lideranças militares (em detrimento das organizações políticas civis) para a difusão da cruzada anticomunista promovida por Washington. O informe elaborado sugere divergências entre a perspectiva de atuação política e ideológica da TFP e das lideranças militares brasileiras do alto escalão, que, em última instância, estariam mais alinhadas com os interesses estadunidenses para o Brasil.

Ademais, vale ressaltar a avaliação feita no segundo aerograma acerca das características das três principais lideranças brasileiras da TFP: Plínio Corrêa de Oliveira, Dom Geraldo de Proença Sigaud e Dom Antônio Castro Mayer. Indicando que a reunião foi muito bem-organizada, contando com a presença de aproximadamente seiscentas pessoas (provenientes de classes altas e médias), o documento informa:

Plínio Corrêa de Oliveira foi o primeiro palestrante. Ele descreveu as campanhas de sucesso anteriores da TFP contra os esforços de “radicais” que tentavam introduzir a reforma agrária e o divórcio no Brasil. Ele, então, descreveu a atual campanha da TFP contra a infiltração esquerdista na Igreja como um grande sucesso, denunciou o arcebispo Dom Hélder Câmara, o arcebispo de Fortaleza e o bispo de Crateús como comunistas e atacou os russos pela invasão da Tchecoslováquia. De Oliveira fez um discurso muito efetivo. Foi bem-organizado, bem direcionado e bem recebido pela audiência.

Dom Sigaud foi o segundo palestrante. Seu discurso foi pobremente organizado e direcionado. Ele equiparou o diabo e o comunismo e afirmou que as forças do diabo tinham invadido a Tchecoslováquia e se infiltrado na Igreja. Ele concluiu com uma nota otimista de que Deus expulsaria o diabo de ambos.

Bispo Mayer cobriu muitos dos mesmos temas que seus predecessores e foi bem recebido pela audiência (USA, 1968b, p. 2-3, tradução nossa).

Os trechos revelam uma aparente indecisão no que tange à possível oferta de suporte estadunidense à TFP – conforme elucida Ridenti (2022), o patrocínio-CIA a intelectuais latino-americanos, muitas vezes realizado de forma velada, era uma das estratégias de Washington para a difusão de suas ideias e interesses na região. Por um lado, o discurso de Plínio de Oliveira é apresentado como coerente e possivelmente favorável aos interesses anticomunistas de Washington. Por outro lado, Dom Sigaud é apontado como detentor de uma lógica simplória e maniqueísta da realidade internacional – perspectiva que, potencialmente, seria incongruente com os princípios político e ideológicos que fundamentavam o projeto de economia capitalista internacional estadunidense.

A transição do ano de 1968 para 1969 constitui um processo de mudança na perspectiva de direcionamento da política externa e interna dos EUA. Com a crise do Partido Democrata, decorrente das contradições do governo de Lyndon Johnson (1963-1969), ocorrem a vitória do Partido Republicano e a ascensão à presidência de Richard Nixon (1969-1974), que, em sua carreira política, destacou-se como um dos mais ferrenhos anticomunistas estadunidenses.

Dentro dessa perspectiva, evidencia-se que os demais quatro documentos produzidos sobre a TFP pelo Departamento de Estado dos EUA são referentes ao período do governo de Nixon. O primeiro destes documentos consiste em um breve telegrama, datado de junho de 1969, que informa a retomada das atividades da TFP no Brasil, apresentando o seguinte comentário final:

Para todas as aparências, a TFP é capaz de conduzir o seu discurso de rua proselitista arquiconservador sem medo da interferência das autoridades. A atividade renovada da TFP pode representar um esforço de trazer a pressão da direita no suporte da Assembleia Geral do Conselho Nacional de Bispos do Brasil que ocorrerá em São Paulo (USA, 1969, p. 1, tradução nossa).

O informe, apesar de não recomendar efetivamente o apoio do governo estadunidense à TFP, considera a atuação da organização tradicionalista potencialmente favorável aos interesses de pressão conservadora em meio à hierarquia clerical da Igreja Católica do Brasil. Nesse sentido, a despeito do não alinhamento com os princípios políticos e ideológicos ambicionados por Washington, a TFP é concebida como organização que, em determinadas medidas e situações específicas, não deveria ser desconsiderada no horizonte estratégico de manutenção da ordem estabelecida no Brasil, particularmente levando em conta o papel que poderia desempenhar no combate às possibilidades do exercício de força de pressão progressista nas decisões da hierarquia católica do país.

As disputas estabelecidas pelos representantes clericais das alas progressista,5 tradicionalista conservador (TFP) e moderados são abordadas de forma rasa em aerograma (disponibilizado de forma incompleta) que avalia a inserção desses grupos nos meios de comunicação brasileiros em defesa ou combate das novas posturas que estavam sendo mobilizadas no catolicismo latino-americano em decorrência do Concílio Vaticano II (1962-1965), tais como as Comunidades Eclesiais de Base e os Cursilhos (USA, 1973a).

O aerograma em questão, contudo, não exprime um posicionamento preciso da opinião oficial da comunidade de inteligência estadunidense acerca dessas duas vertentes de posicionamento católico no Brasil, ou seja, não explicita concordância ou divergência quanto às tentativas de modernização da visão de mundo católica frente às transformações da sociedade capitalista moderna (fundamentos do Concílio Vaticano II) ou às mobilizações reacionárias de combate a qualquer proposição de mudança interna na cosmovisão cristã que rompesse o tradicionalismo arcaico institucional da Igreja Católica Apostólica Romana.

Um posicionamento mais explícito de Washington sobre a TFP é apresentado, entretanto, em outro aerograma, produzido em fevereiro de 1973, que avaliava o conteúdo de textos elaborados por Gustavo Corção6 para publicação no jornal O Globo, na perspectiva avaliativa do Departamento de Estado dos EUA:

Corção, um convertido ao catolicismo na década de 1920 que se tornou um líder no movimento leigo da Igreja na época, tem sido cada vez mais cáustico e quase irracional em seus ataques à Igreja brasileira [...]

Corção está claramente distante da grande maioria do pensamento católico brasileiro e é um representante daquele pequeno grupo de leigos católicos que acreditam que a Igreja, mundialmente, deve rejeitar os princípios do Concílio Vaticano II (USA, 1973b, p. 2, tradução nossa).

Assim, torna-se explícito, após aproximadamente uma quinzena de avaliação, a tomada de posicionamento da comunidade de inteligência estadunidense quanto ao lado escolhido para suporte na disputa entre os extremos que tomavam forma na configuração do catolicismo brasileiro do período. Apesar de não assumir o apoio efetivo ao clero progressista, o aerograma reforça o caráter “irracional” da recusa integrista às propostas de transformação do catolicismo internacional que perpassavam os princípios do Concílio Vaticano II.

Determinado posicionamento, crítico ao anticomunismo do integrismo católico brasileiro, torna-se ainda mais problemático quando se leva em consideração tanto a conivência da comunidade de inteligência estadunidense com a perseguição de católicos progressistas na América Latina, quanto seu protagonismo no financiamento do islamismo no Oriente Médio como via de combate ao comunismo internacional (PRASHAD, 2020). Deste modo, as avaliações apresentadas pelo documento possibilitam aferir como, até mesmo para a cruzada anticomunista de Washington, a perspectiva de atuação da TFP no Brasil era considerada problemática e potencialmente inviável para o estabelecimento de parcerias e financiamento.

O último documento sobre a TFP que está disponível no arquivo digital do projeto Opening the Archives constitui um artigo da autoria de Thomas Quigley,7 publicado em abril de 1974 na revista quinzenal Christianity and Crisis (New York, 1941-1993). Apesar de não conter nenhuma nota investigativa de agentes da comunidade de inteligência estadunidense, o documento conta com os carimbos de desclassificação do Departamento de Estado dos EUA no canto inferior de cada uma de suas quatro laudas (QUIGLEY, 1974).

De forma sintética, indica-se que a matéria de Quigley (1974) problematiza, entre outros, os seguintes pontos principais: a perseguição e a censura imposta a lideranças católicas, como Dom Hélder Câmara, no Brasil; o alastramento do grupo tendencialmente fascista TFP na América Latina e nos EUA; o clima brasileiro de incerteza decorrente da ascensão de Ernesto Geisel à presidência (1974-1979); críticas aos discursos anticomunistas que estavam sendo proferidos pelo recém-instaurado ditador chileno Augusto Pinochet (1973-1990); reiteração da declaração dos bispos estadunidenses quanto à necessidade do governo dos EUA intensificar as pressões em prol da restauração dos direitos humanos em território brasileiro.

A inexistência de uma avaliação ou parecer, por parte da comunidade de inteligência dos EUA, sobre a matéria de Thomas Quigley implica na impossibilidade de reconhecer se seu arquivamento decorreu de uma percepção de recolhimento de mais informações acerca da disputa entre católicos progressistas e tradicionalistas em território brasileiro ou da vigilância exercida em território estadunidense na perspectiva de identificação de potenciais ameaças internas que compunham o quadro de inimigos elencado pelo horizonte de atuação da “caça às bruxas” anticomunista que caracterizou o macartismo.8

Torna-se pertinente, então, estender as análises desta proposta aos dois documentos, provenientes do processo de desclassificação da CIA, que abordam a TFP e seu fundador Plínio Corrêa de Oliveira. O primeiro desses documentos foi intitulado pela CIA “Memorando para o Major-general Vernon A. Walters de George W. Anderson, Jr.” e é constituído por uma carta redigida pelo almirante e diplomata George Anderson Jr.9 em janeiro de 1975. Seu conteúdo, porém, expressa outros elementos, seu cabeçalho indica que as informações devem ser encaminhadas à Casa Branca e a mensagem inicial da carta se dirige a “Querido Dick”, tendo sido posteriormente redirecionada aos cuidados do então vice-diretor da CIA Vernon Walters (1972-1976).10 A mensagem exprime o seguinte conteúdo:

Eu sinto informar que não fui capaz de persuadir você a permanecer por alguns minutos para encontrar e escutar os dois cavalheiros que tinham um compromisso marcado comigo.

Eles eram o Sr. Fred Schlafly, o presidente da Liga Mundial Anticomunista, e o General Tom Lane, EUA (Ret.), um antigo oficial da organização e o qual você provavelmente sabe está envolvido em todo tipo de atividades de segurança nacional.

O Sr. Schlafly afirmou que falava em nome de uma organização conhecida como Sociedad Brasilare de Defensa de la Tradicion, Familia y Propriedad [sic], com sede em São Paulo, Brasil [...]. Aparentemente essa organização, sob liderança de um Professor Plínio Corrêa de Oliveira, tem a capacidade e motivação de fazer algo para parar a propagação do comunismo em Portugal. Eu entendo que esta organização é proeminente na América Latina e disponibiliza publicações em diferentes países em português e espanhol a cada mês e, também, possui algumas outras publicações.

Evidentemente, eu não sei o que pode ser feito ou se, diante das presentes limitações que a Agência enfrenta no momento, você pode fazer alguma coisa diretamente. Eu suspeito que qualquer ação a ser tomada pela TFP provavelmente demandaria algum financiamento dos EUA. Em todo caso, é algo que deveria ser considerado, e se você desejar outras informações, por favor, contacte o Sr. Schlafly [...].

Eu gostei de falar com você e acredito que você vai “pegar a bola” para qualquer coisa que possa ser vantajosa nesta situação (CIA, 1975, p. 01-02, tradução nossa).11

Antes de dar procedimento à análise da mensagem, é importante destacar os personagens históricos referenciados por George Anderson Jr. Segundo informações da base de dados de medalhas militares dos EUA,12 o general Thomas Lane foi duas vezes condecorado com medalhas de distinção no serviço, tendo sido a primeira decorrente de sua atuação na II Guerra Mundial e a segunda, concedida em 1962, em consequência das atividades desenvolvidas durante a Guerra Fria.

Fred Schlafly, por sua vez, ficou mais conhecido na mídia por conta do ativismo político conservador de sua esposa, Phyllis Schlafly, cujas pautas eram, entre outras, a defesa antifeminista da hierarquia de gênero e supremacia masculina. O casal, enquanto membros ativos do Partido Republicano, possuía relações complexas com as lideranças conservadoras estadunidenses. Por um lado, a inimizade com Henry Kissinger, Secretário de Estado dos governos Nixon (1973-174) e Ford (1974-1977), implicou no posicionamento do casal em prol de uma cruzada separatista interna no Partido e, por outro, suas estreitas ligações com lideranças como o posterior presidente republicano Ronald Reagan (1981-1989) repercutiam na sociedade estadunidense (CRITCHLOW, 2005).

Desse modo, indica-se que a articulação dessas três lideranças conservadoras estadunidenses (Fred Shlafly, Thomas Lane e George Anderson Jr.) tinha o sentido de angariar financiamento para a difusão internacional das ideias formuladas por Plínio Corrêa de Oliveira em prol da manutenção e reprodução dos interesses da cruzada anticomunista em curso. Conforme indica Ridenti (2022), era comum no período em questão a solicitação, por parte de civis estadunidenses (particularmente esposas de grandes empresários), de patrocínio da comunidade de inteligência dos EUA para intelectuais e artistas latino-americanos cujas produções estivessem, mesmo que de forma indireta, alinhadas aos interesses do capitalismo ocidental, estratégia que perpassa a lógica da “luta pela conquista dos corações e mentes” que caracterizou esse aspecto cultural da Guerra Fria.

A tentativa de realização da reunião dos representantes estadunidenses da TFP ocorre poucos anos após o início de estruturação da American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property, congênere da TFP brasileira nos EUA que começou a se organizar a partir de 1971. Entende-se, portanto, que a busca por financiamento perpassou um projeto amplo de contínua internacionalização dos ideais integristas da TFP. Dentro dessa problemática, é pertinente, ainda, destacar a mudança de posicionamento público de Plínio Corrêa de Oliveira em relação ao governo de Nixon que começou a tomar forma em fevereiro de 1973, com a publicação do artigo “Aplaudindo Nixon” que passava a reconhecer o presidente estadunidense como um dos principais defensores do Ocidente contra as ameaças do comunismo internacional (FORESTI, 2013).

Assim, é relevante problematizar, para futuras pesquisas sobre a temática, as possibilidades do não financiamento estadunidense à TFP durante os governos de Nixon e Ford, decorrentes do reconhecimento de sua incompatibilidade com os princípios políticos ideológicos que embasaram a orientação anticomunista de suas gestões, ou meramente como consequência do posicionamento crítico de Plínio Corrêa de Oliveira frente a Richard Nixon e das problemáticas relações estabelecidas entre Henry Kissinger e o casal Schlafly, (que, na ocasião, buscava representar os interesses da TFP nos bastidores do governo estadunidense).13

É somente durante o governo do republicano Ronald Wilson Reagan (1981-1989) que uma nova carta foi elaborada e enviada aos cuidados da CIA, objetivando tratar novamente sobre a relevância de disponibilização do financiamento, por parte do governo dos EUA, à TFP.14 Dessa vez, a carta produzida em setembro de 1986, que leva o título “Relatório da Sociedade Americana pela Defesa da Tradição, Família e Propriedade”, foi efetivamente dirigida ao diretor da CIA da época, William Casey (1981-1987). Assinado pelo intitulado presidente da TFP nos EUA, John Russel Spann, o documento informava ao diretor da CIA o seguinte:

Pelo seu interesse em assuntos mundiais, nós temos o prazer de apresentá-lo uma cópia de um importante novo estudo sobre a América do Sul, recém-publicado pela TFP Americana.

Pelo nosso contato com várias TFPs, nós descobrimos a situação interna de vários países latino-americanos. Nós notamos as enormes riquezas naturais e o desenvolvimento evidente da América Latina, particularmente do Brasil. Assim, ficamos estarrecidos com o impressionante contraste entre a atual realidade de lá e a concepção da situação desses países que é comumente difundida pelo Ocidente. O fato é que as pessoas normalmente imaginam que a América Latina seja miseravelmente pobre, com economias estagnadas deformadas pelo parasitismo e corrupção.

A TFP brasileira contatou a americana assim como as outras TFPs, com o intuito de esclarecer o assunto, lhes perguntando o que é dito e escrito sobre o Brasil em seus respectivos países. Esta discussão deu origem ao estudo anexado “Está o Brasil deslizando para a Extrema Esquerda? Notas sobre o Movimento da Reforma Agrária no maior e mais populoso país da América Latina”.

O estudo foi escrito pelo respeitado economista chileno, Carlos Patrício del Campo, cujo trabalho tem apreciado grande circulação na América Latina. Esta importante pesquisa disponibiliza um breve panorama do impacto da reforma agrária em muitos países latino-americanos. Baseado nesta experiência e nas realidades específicas do Brasil, ele fornece aos leitores objetivos e bem-intencionados informações sobre quais medidas precisam ser tomadas para ajudar esta vasta área do nosso planeta. Além do desenvolvimento do comércio cordial e relações econômicas vantajosas para o Brasil, nós também devemos pensar na importância política que esta nação tem para a América do Norte e, também, para os vários países da Europa Ocidental.

Existe no Brasil uma real ameaça de comunização, imposta por uma reforma agrária pela qual grandes, médias e até pequenas fazendas são ameaçadas de expropriação. Da mesma forma, reformas similares têm sido vigorosamente propostas para propriedades urbanas e para a indústria. Considerando o tamanho gigantesco e a grande população do Brasil, a possibilidade de sua comunização é da maior importância.

Nós publicamos esta primeira edição do estudo em inglês, tendo em vista ser uma linguagem virtualmente universal, para que as pessoas de todo o Ocidente possam receber uma atualizada e urgentemente necessária perspectiva da situação de nossos vizinhos brasileiros. Dependendo das circunstâncias, próximas edições em outras línguas europeias podem segui-la. Nós também estamos calculando a possibilidade de desenvolver estudos análogos sobre o mundo hispânico-americano (CIA, 1986, p. 2, tradução nossa).15

Faz-se interessante notar que, apesar da proximidade da família Schlafly com Ronald Reagan, não é mais Fred Schlafly o solicitante do financiamento estadunidense para a propagação dos ideais do anticomunismo integrista, mas, sim, a própria organização da TFP em território estadunidense. Ademais, ressalta-se que o enaltecimento da atuação da TFP em território brasileiro e latino-americano, assim como a exacerbação dos potenciais perigos de “comunização” da região são concomitantes com os primeiros anos de consolidação da democracia em território brasileiro (1985), o que permite entender a iniciativa como reação decorrente do temor de perda do espaço conquistado pelo conservadorismo anticomunista e tradicionalismo católico no Cone Sul.

As fontes mobilizadas evidenciam, assim, o caráter complexo e contraditório de apreensão da TFP pela comunidade de inteligência dos EUA. Os documentos desclassificados da CIA complementam a análise daqueles provenientes do Departamento de Estado dos EUA, permitindo indicar a avaliação estadunidense acerca das tendências irracionais de fundamentação religiosa comum aos membros da TFP. Há que se destacar as tentativas frustradas de angariar fundos estadunidenses para o financiamento da organização tradicionalista católica em nível internacional.

Ao considerar os dados identificados, permanece incerto, contudo, se houve ou não o direcionamento de verbas do governo estadunidense para a TFP brasileira no período que antecede essa efetiva tomada de posicionamento, de distanciamento das estratégias religiosas (tradicional com ações anticomunistas) pela comunidade de informações em relação à organização, especialmente considerando os informes que ponderam sobre os efeitos benéficos e infelizes da atuação da TFP para o atendimento dos interesses políticos e econômicos dos EUA no Brasil.

Conforme indicado anteriormente, os arquivos de fontes documentais mobilizados para esta pesquisa permanecem em processo de desclassificação (CIA) e publicização (Opening the Archives). Desse modo, recomenda-se o contínuo acompanhamento de novos dados que possam contribuir para a elucidação das lacunas que permanecem impostas à problemática levantada.

Considerações finais

O presente trabalho teve como proposta traçar uma análise da forma como a comunidade de inteligência dos Estados Unidos da América (EUA) interpretou a adequação, ou não, do grupo tradicionalista católico brasileiro Tradição, Família e Propriedade (TFP) a partir do prisma da cruzada anticomunistas travada durante o período de Guerra Fria (1947-1991).

Para tanto, foram mobilizadas fontes documentais provenientes de dois arquivos: os documentos do Departamento de Estados dos Estados Unidos, digitalizados e disponibilizados para acesso público virtual no endereço eletrônico do Projeto Opening the Archives (Universidade Brown-EUA), e o acervo de documentos desclassificados da CIA, disponíveis na página da própria agência de inteligência estadunidense.

Foram selecionadas de forma intencional, por abordarem a TFP ou seu fundador e principal intelectual Plínio Corrêa de Oliveira, um total de 8 (oito) documentos, sendo eles: 5 (cinco) aerogramas do Departamento de Estado; 1 (uma) matéria de jornal arquivada pelo Departamento de Estado e 2 (duas) cartas dirigidas à CIA. As fontes foram abordadas pelo método de análise documental subsidiada pelo prisma de investigação dos estilos de pensamento proposto por Karl Mannheim (1981).

As análises evidenciaram a existência de divergências interpretativas da comunidade de inteligência dos EUA em relação à atuação da TFP em alinhamento aos interesses estadunidenses no território brasileiro. Em determinados aspectos, as ideias de Plínio Corrêa de Oliveira chegaram a ser apontadas como bem-fundamentadas e a organização da TFP foi considerada como favorável ao exercício de pressões de direita nas decisões do Conselho Nacional de Bispos do Brasil (CNBB).

Por outro lado, o bispo Dom Geraldo Sigaud e o intelectual integrista Gustavo Corção foram interpretados como reprodutores de ideias incongruentes com a realidade brasileira e internacional da época, cujas fundamentações beiravam a irracionalidade. De forma similar, existe, já no primeiro registro, encontrado, da comunidade de inteligência estadunidense, a indicação de que o “subproduto infeliz” da atuação da TFP era a inerente vinculação feita de sua cruzada anticomunista interna com o atendimento dos interesses imperialistas dos EUA.

Assim, apesar de ponderar sobre o potencial intelectual de Plínio Corrêa de Oliveira e sobre a possibilidade de reflexos favoráveis aos EUA da atuação da TFP em território brasileiro (dentro do escopo de alinhamento aos interesses anticomunistas de Washington), as fontes até o momento localizadas indicam que a proposta de anticomunismo que fundamentava a visão de mundo tradicionalista do integrismo católico da TFP foi apreendida como demasiadamente extrema para o financiamento dos EUA – a despeito das tentativas realizadas por empresários e políticos estadunidenses em angariar patrocínio-CIA para os intelectuais sul-americanos da TFP (como Plínio Corrêa de Oliveira e Carlos Patrício del Campo).

Por fim, é importante ressaltar as limitações inerentes à presente proposta de pesquisa. Leva-se, especialmente, em consideração o fato de que ambos os acervos mobilizados para análise se encontram em processo lento e gradual de desclassificação e publicação das fontes documentais – sendo que, no caso da CIA, essa desclassificação é realizada de acordo com as restrições de atendimento aos interesses de soberania e segurança nacional dos EUA.

Desse modo, distante de objetivar o esgotamento da discussão apresentada, este trabalho teve o intuito de traçar novos prismas de análise da problemática em questão, mobilizando fontes inéditas que demandam novas e constantes investigações dos aspectos que configuraram o fenômeno da Guerra Fria cultural (RIDENTI, 2022) e das distintas formas de intervenção, direta e indireta, que foram desenvolvidas e aprimoradas pela comunidade de inteligência dos EUA durante sua cruzada anticomunista (PRASHAD, 2020. BEVINS, 2021).

Referências

BEVINS, Vincent. The Jakarta Method: Washington’s Anticommunist Crusade & the Mass Murder Program that Shaped Our World. New York: Public Affairs, 2021.

BOHOSLAVSKY, Ernesto. Organizaciones y prácticas anticomunistas en Argentina y Brasil (1945-1966). Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 42, n. 1, p. 34-52, 2016. https://doi.org/10.15448/1980-864X.2016.1.21822

BRASIL. Presidência da República. Secretaria-Geral. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). 2018. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm. Acesso em: 12 nov. 2022.

CRITCHLOW, Donald T. Phyllis Schlafly and grassroots of conservatism. New Jersey (US): Princeton University Press, 2005.

FORESTI, Luiz Felipe Loureiro. O Arauto da Contra-Revolução: o pensamento conservador de Plínio Corrêa de Oliveira. Dissertação (Mestrado em História Social).Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/12775. Acesso em: 12 nov. 2022.

MANNHEIM, Karl. O pensamento conservador. In: MARTINS, José de Souza (Org). Introdução crítica à sociologia rural. São Paulo: Hucitec, 1981.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: anticomunismo no Brasil (1917-1964). Tese (Doutorado em História Econômica).Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2000.

PRASHAD, Vijay. Balas de Washington: uma história da CIA, golpes e assassinatos. São Paulo: Expressão Popular, 2020.

RIDENTI, Marcelo. O segredo das senhoras americanas: intelectuais, internacionalização e financiamento da Guerra Fria cultural. São Paulo: Edunesp, 2022.

WARNER, Michael; MCDONALD, Kenneth. US intelligence community reform studies since 1947. Washington: Center for study of intelligence, 2005. Disponível em: https://apps.dtic.mil/sti/pdfs/ADA499560.pdf. Acesso em: 26 dez. 2022.

ZANOTTO, Gizele; COWAN, Benjamin A. (Org.). O Pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira e a Atuação Transnacional da TFP. Passo Fundo: Acervus, 2020.

Fontes

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Notas

* Pesquisa realizada com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Araucária, vinculada ao Laboratório de Estudos sobre as Religiões e Religiosidades da Universidade Estadual de Londrina (LERR-UEL).
1 Para maiores informações, acessar o endereço da Central Intelligence Agency (CIA) ([entre 2000 e 2010])Historical Collections: https://www.cia.gov/readingroom/historical-collections.
2 Os documentos, sistematizados e publicizados pelo projeto Opening the Archives, estão disponíveis no endereço eletrônico: https://repository.library.brown.edu/studio/collections/bdr:318399/ (BROWN UNIVERSITY LIBRARY, [entre 1963 e 1973]).
3 No caso brasileiro, os retrocessos democráticos foram impetrados a partir do reavivamento do pavor cristão em relação ao comunismo (agora materializado nos representantes políticos do PT e seus aliados) culminando na ascensão à presidência do líder de extrema direita Jair Messias Bolsonaro (2019-2022).
4 O título do documento sugere a existência de relatórios que antecedem esse acerca da TFP brasileira, apesar de não terem sido identificados, até o momento, nos arquivos investigados – não deixando de reforçar que tanto o projeto Opening the Archives quanto o arquivo desclassificado da CIA permanecem em processo de alimentação de novas fontes em suas plataformas digitais.
5 Desde meados do século XX, ocorrem, dentro da América Latina, formulações teológicas cristãs inéditas e especificamente contextualizadas, dentre elas as formulações da Teologia da Libertação.
6 Intelectual integrista católico brasileiro, Gustavo Corção foi um dos principais representantes do Centro Dom Vital, suas ideias reacionárias partiam do princípio de combate ao liberalismo e às transformações da Modernidade, entendidos como estágio inicial na pavimentação do caminho ao comunismo. A partir de 1968, após abandonar a carreira docente, Corção passou a contribuir com publicações em jornais da imprensa burguesa e em revistas vinculadas à TFP, como a Permanência e Hora Presente.
7 Entre os anos de 1962 e 2007, Thomas Quigley atuou como consultor de política externa da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (U.S. Conference of Catholic Bishops) sendo responsável, principalmente, por assuntos latino-americanos.
8 Apesar do descrédito que o fenômeno da paranoia anticomunista do senador estadunidense Joseph McCarthy recebeu após os escândalos decorrentes do caráter antiético de atuação do político, seus princípios foram amplamente difundidos e internalizados não somente no funcionalismo público como, também, no imaginário da sociedade civil do país.
9 No período em questão, George Whelan Anderson Jr. atuava, desde 1973, como membro do Conselho Consultivo de Inteligência do Presidente (President’s Intelligence Advisory Board) estando, portanto, diretamente subordinado ao então presidente em exercício Gerald Ford (1974-1977).
10 Determinadas informações levam a uma problematização complexa do real destinatário da mensagem, que demanda investigações posteriores, ao passo que se considera constituir-se enquanto um documento voltado para a orientação de decisões oficiais da presidência dos EUA, cujo interlocutor aguardado seria “Dick”, diminutivo de Richard comumente utilizado em referência ao anterior presidente estadunidense Richard Nixon (1969-1974).
11 Os trechos suprimidos são referentes à designação de endereços, os quais julga-se pertinente não explicitar em vista ao atendimento das diretrizes de anonimização de informações previstas pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (BRASIL, 2018). Por conta desse mesmo critério, o trabalho preocupou-se em apresentar apenas nomes de figuras confirmadamente públicas que perpassam as fontes documentais analisadas.
12 Disponível em: https://valor.militarytimes.com/advanced-search. Acesso em: 10 dez. 2022.
13 As limitações inerentes ao espaço e à pertinência do tema aqui abordado inviabilizam um maior aprofundamento nesta questão, sendo mantida, contudo, a pretensão de retomar posteriores investigações acerca da problemática levantada.
14 É relevante destacar que o intervalo entre as cartas corresponde ao período de gestão do presidente eleito pelo Partido Democrata James Carter (1977-1981), cujos posicionamentos em defesa dos Direitos Humanos (ONU-1948) direcionaram militares e militantes anticomunistas da América Latina a denunciá-lo como representante dos interesses de Moscou.
15 A capa do mencionado livro encontra-se anexada ao documento desclassificado, sendo perceptível a indicação do “posfácio de Plínio Corrêa de Oliveira” na edição original estadunidense.

Author notes

** Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Marília). Atualmente realiza Estágio Pós-Doutoral pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina, tendo recebido financiamento de Bolsa de Pós-Doutorado Júnior pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) durante o ano de 2022 (processo nº 152219/2022-6).
*** Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professor Associado do Departamento de Ciências Sociais, docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina e do Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional. Atualmente realiza Pós-Doutorado junto ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Faculdade Getúlio Vargas (CPDOC-FGV) sob supervisão do Prof. Dr. Américo Freire.

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