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As ideias históricas de Bartolomé Mitre e o Brasil (1870-1880)

Las ideas históricas de Bartolomé Mitre y Brasil (1870-1880)

The historical ideas of Bartolomé Mitre and Brazil (1870-1880)

Les idées historiques de Bartolomé Mitre et le Brésil (1870-1880)

巴托洛梅·米特雷的历史学思想及其对巴西的影响(1870-1880)

Ana Paula Barcelos Ribeiro da Silva *
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil

As ideias históricas de Bartolomé Mitre e o Brasil (1870-1880)

Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica, vol. 15, núm. 3, pp. 373-391, 2023

Universidade Federal Fluminense

Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos: mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.

Recepción: 12 Julio 2023

Aprobación: 23 Agosto 2023

Resumo: Neste artigo analisamos as ideias históricas de Bartolomé Mitre - general, historiador e presidente argentino entre 1862 e 1868. Propomos uma reflexão que as relacione com as experiências políticas que marcaram sua trajetória na segunda metade do século XIX e refletimos sobre o seu contato com o Império brasileiro, sobretudo, nas décadas de 1870 e 1880. O vínculo com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e suas redes de sociabilidade ganham destaque como aspectos que fundamentam e consolidam sua atuação historiográfica no Prata. Assim, seu projeto de histórica nacional é entrelaçado a suas ações políticas na defesa dos liberais unitários e da construção da unidade nacional argentina, bem como a suas relações com a monarquia vizinha. Como fontes, são utilizados seus trabalhos históricos, correspondências e a edição da Revista do IHGB que relata sua posse como membro do Instituto em 1871.

Palavras-chave: Bartolomé Mitre, ideias históricas, Argentina, Brasil.

Resumen: En este artículo, analizamos las ideas históricas de Bartolomé Mitre, general, historiador y presidente argentino entre 1862 y 1868. Proponemos una reflexión que las relacione con las experiencias políticas que marcaron su trayectoria en la segunda mitad del siglo XIX y reflexionamos sobre su contacto con el Imperio de Brasil, especialmente en las décadas de 1870 y 1880. El vínculo con el Instituto Histórico y Geográfico Brasileño y sus redes de sociabilidad ganan protagonismo como aspectos que fundamentan y consolidan su actuación historiográfica en la cuenca del río Plata. En efecto, su proyecto de historia nacional está entrelazado con sus acciones políticas en defensa de los liberales unitarios y la construcción de la unidad nacional argentina, así como sus relaciones con la monarquía vecina. Como fuentes, se utilizan sus trabajos históricos, su correspondencia y la edición de la Revista do IHGB que relata su incorporación como miembro del Instituto en 1871.

Palabras clave: Bartolomé Mitre, ideas históricas, Argentina, Brasil.

Abstract: In this article we analyze the historical ideas of Bartolomé Mitre – soldier, historian, and president of Argentina from 1862 to 1868. We propose a reflection connecting these ideas to the political experiences that marked his trajectory in the second half of the nineteenth century, reflecting on his contact with the Empire of Brazil, particularly in the 1870s and 1880s. The connection with the Brazilian Historic and Geographic Institute (IHGB) and its social networks stand out as features which supported and consolidated Mitre’s historiographical activities in the Platine region. His national history project is thus intertwined with his political activities in defense of Unitarian liberals and the development of Argentine national unity, as well as his relations with the neighboring monarchy. Our sources are his historical works, correspondence, and the publication of the IHGB Journal which reports on his becoming a member of the Institute in 1871.

Keywords: Bartolomé Mitre, historical ideas, Argentina, Brazil.

Résumé: Cet article analyse les idées historiques de Bartolomé Mitre, général, historien et président argentin de 1862 à1868. Il propose une réflexion qui les met en relation avec les expériences politiques ayant marqué sa carrière dans la seconde moitié du XIXe siècle et il explore son contact avec l’Empire brésilien, en particulier dans les années 1870 et 1880. Le lien avec l’Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro et ses réseaux de sociabilité sont soulignés comme autant d’aspects fondant et consolidant son travail historiographique dans la région de la Plata. Ainsi, son projet d’histoire nationale s’entremêle à son action politique en faveur des libéraux unitaires et de la construction de l’unité nationale argentine, ainsi qu’à ses relations avec la monarchie voisine. Les sources utilisées sont ses ouvrages historiques, sa correspondance et le numéro de la Revista do IHGB qui relate son investiture comme membre de l’Instituto en 1871.

Mots clés: Bartolomé Mitre, idées historiques, Argentine, Brésil.

摘要: 巴托洛梅·米特雷是阿根廷的一位将军,同时也是历史学家和政治家,1862 年至1868 年间担任阿根廷总统。本文研究了他的思想,将这些思想与他在 19 世纪下半叶的主要政治经历联系起来,并探讨他与巴西帝国的联系,特别是在 1870 年代和 1880 年代,他与巴西历史地理研究所的联系及其在研究普拉塔的史学活动中建立的社交网络。本文重点关注他的国家-民族历史计划,他捍卫国家自由、统一的政治行动,他努力建设阿根廷民族团结的政治举措以及他与巴西这个实行君主立宪制的邻国的关系。作为资料来源,我们使用了他的历史著作、信件和《巴西历史地理研究所学刊》(Revista do IHGB)所刊登的相关文章,该学刊曾经报道了巴托洛梅·米特雷于1871 年应聘就任巴西历史地理研究所成员的典礼。

關鍵詞: 巴托洛梅·米特雷, 历史思想, 阿根廷, 巴西.

Introdução

Em 1871, Bartolomé Mitre (1821-1906) se torna sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Indicado por Candido Mendes de Almeida, Olegario Herculano de Aquino e Castro, Francisco Baltazar da Silveira, Joaquim Antonio Pinto Junior, J. C. Fernandes Pinheiro e José Maria da Silva Paranhos (o Visconde do Rio Branco), Mitre teria sido “recebido por todos os membros do Instituto com a maior consideração, e tomou assento como sócio honorário” (REVISTA DO IHGB, 1871, p. 350) pessoalmente em sessão de 01 de dezembro daquele ano. Nela, o senador Candido Mendes afirmara que “além de distinto literato e notável historiador, [Mitre] muito se havia recomendado a esta respeitável corporação pela sincera amizade que votava ao Brasil, e ainda mais pelo desvelado interesse que tomava pela história e geografia da América” (REVISTA DO IHGB, 1871, p. 350). Em resposta, Mitre discursa agradecendo a nomeação e se dizendo discípulo da instituição. Segundo ele, o IHGB “perseverando em sua tarefa e trabalhando sem descanso, era a associação científica que mais alto se havia levantado na América do Sul, dando ao mundo um novo contingente que iluminara o horizonte da história, da geografia e da etnografia americana” (REVISTA DO IHGB, 1871, p. 350).

Estando no Brasil em 1871 e, posteriormente, em missão de negociação de territórios paraguaios, em 1872, Mitre aproveitou para visitar bibliotecas e arquivos e investiu no intercâmbio intelectual. O fez em meio às atividades políticas e diplomáticas. Seu interesse pelo Brasil e sua proximidade com o Império eram notáveis e lhe renderam críticas e acusações de traição na Argentina por parte dos seus opositores. General, historiador e presidente da Argentina entre 1862 e 1868, Mitre também manteve importante atuação nas esferas da diplomacia e da imprensa. Todos estes papéis se encontram e se relacionam com suas ideias aqui destacadas. Assim, buscamos contemplar neste artigo não apenas suas ideias históricas, mas também seus profundos vínculos com o contexto histórico e as experiências vividas, com as redes de sociabilidade nas quais se inseriu, com o IHGB e o projeto de uma história nacional no século XIX e, mais ainda, com o Império brasileiro e as questões territoriais no Prata.

Entendemos serem estes aspectos centrais no estudo das ideias de um sujeito que atuou diretamente na construção de uma unidade nacional na Argentina e na consolidação de uma leitura conjunta para as independências sul-americanas. Além disso, Mitre formulou e legitimou uma leitura do passado como instrumento de ação política e investiu na fundação de instituições históricas, na compilação de documentos e na formação de arquivos que serviriam a outros historiadores. Participou ainda de redes de sociabilidade intelectual que marcaram a escrita da história em toda a região do Prata desde a década de 1840 até o final do século XIX. Por isso, partimos da abordagem sugerida por Carlos Altamirano para a história intelectual, de modo a conectar os sujeitos entre si, através de redes formadas em grupos, em associações e em outras esferas de atuação. De acordo com o autor, “los intelectuales son personas, por lo general conectadas entre sí en instituciones, círculos, revistas, movimientos, que tienen su arena en el campo de la cultura” (ALTAMIRANO, 2008, p. 14). Mitre é pensado neste texto também por meio destas conexões que, como veremos, o vinculam ao Império brasileiro, ao IHGB e a importantes nomes dos estudos históricos no século XIX fora da Argentina.

Focalizamos no período posterior à Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), mais especificamente nas décadas de 1870 e 1880, as últimas da monarquia no Brasil. Neste contexto, ganham destaque as tratativas diplomáticas e territoriais oriundas da guerra (protagonizadas em grande parte por Mitre), acentuam-se os movimentos republicano e abolicionista no Brasil, Mitre se envolve na campanha eleitoral de 1874 na Argentina, na qual sua relação com o país vizinho é criticada, funda o jornal La Nación (em 1870), realiza viagens e missões ao Rio de Janeiro, encontra-se com o Imperador e figuras proeminentes como o Visconde do Rio Branco e, como dissemos, torna-se sócio do IHGB. Também nesse ínterim publica sua conhecida obra Historia de San Martín y de la emancipación sud-americana, em 1887, na qual, através de uma biografia (característica comum aos seus trabalhos), pensa de forma integrada as independências sul-americanas. Por fim, lembramos que estes eventos se desenrolam tendo como pano de fundo as históricas rivalidades entre o Império e as repúblicas hispano-americanas desde o momento das independências no início do século e a atuação de Mitre na aproximação estratégica entre Brasil e Argentina no contexto pós-guerra. Estas são as principais questões que percorreremos em um trabalho que visa pensar a escrita da história na região do Prata a partir das ideias e da trajetória de um sujeito histórico conectado a outros sujeitos, a instituições e às demandas e interesses políticos do seu tempo.

Breve panorama histórico

O período entre 1850 e 1880 na Argentina é caracterizado pelos conflitos entre duas forças políticas rivais: os liberais e os federais. Mitre teria arquitetado o chamado “consenso liberal” (SÁBATO, 2009, p. 14) em busca da ruptura com o passado rosista. Liderando o Partido de La Libertad, investiu em tornar a província de Buenos Aires a representação da unidade, da civilização e do progresso. Havia um “horizonte de unión nacional, en el cual los liberales porteños se reservaban el liderazgo” (SÁBATO, 2009, p. 15).

Este projeto tinha na imprensa um instrumento chave de ação política, criando e moldando identidades coletivas. Para Hilda Sábato, Mitre foi a figura mais emblemática deste processo. Não por acaso fundou o La Nación em 1870. No confronto com os federais, ao longo da década de 1860, os liberais avançaram por quase todo o território argentino, construindo uma trama que rendeu apoio a Mitre quando da entrada na Guerra da Tríplice Aliança, ainda que, posteriormente, com o desgaste no conflito, este apoio tenha sido perdido e seu poder abalado pelo surgimento de novas forças políticas provinciais. Mitre se tornou, então, em 1862, o primeiro presidente da nação unificada após disputas sangrentas e acordos com os opositores.

A vitória na batalha de Pavón, em 1861, representou a conclusão das disputas por hegemonia na construção do Estado nacional na Argentina. Na ocasião, Urquiza abandonou a contenta, facilitando a vitória de Mitre e das forças políticas de Buenos Aires. Com isto, o espaço político estatal foi unificado e, após a eleição de Mitre, consolida-se a via portenha para a organização nacional. Assim, como historiador, Mitre atuou diretamente na construção de uma história da Argentina que era pela primeira vez a história de uma nação. As disputas políticas nas quais se envolvia são fundamentais na compreensão de suas ideias, já que entendia política e história de forma conjugada.

No contexto posterior à guerra, Brasil e Argentina se encontravam em meio a negociações que versavam sobre a divisão e os limites do Paraguai. Empenhado em evitar o domínio argentino sobre o Chaco, o Império assinou o Tratado Loizaga-Cotegipe, em 9 de janeiro de 1872, aliando-se ao vencido e ferindo os interesses da Argentina. Fruto de acordos em separado com o governo paraguaio, o tratado possibilitava que o Império brasileiro ficasse com a terceira parte do Paraguai, o que levou a uma forte oposição entre políticos e a imprensa argentina. De acordo com Francisco Doratioto (2014, p. 52), “as relações entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires atingiram, então, seu pior momento desde a guerra contra Rosas”. O ponto crítico da crise se deu quando, em 27 de abril, Carlos Tejedor, Ministro argentino das Relações Exteriores, publicou uma nota de protesto contra o acordo que infringiria as decisões do Tratado de Aliança, assinado em 1865. Apesar das autoridades brasileiras naquele momento estarem prevenidas contra Mitre, ele foi considerado por Sarmiento, então presidente, como o nome mais indicado para acertar as questões pendentes com o Império em razão do seu prestígio pessoal e dos contatos com o Brasil. Esta busca por conciliação diplomática seria a principal opção de Sarmiento diante da falta de condições militares de enfrentamento do Império (DORATIOTO, 2014). Além disso, como vimos, Mitre já havia estado no Rio de Janeiro em 1871, quando teve boa acolhida, encontrou políticos e intelectuais, realizou pesquisas e foi designado membro honorário do IHGB. Assim, em junho de 1872, foi designado como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário em missão especial ao Rio de Janeiro, a fim de alcançar, entre outros objetivos, o reconhecimento do Tratado de Aliança pelo governo brasileiro e a desocupação do território paraguaio por forças aliadas.

Para Doratioto, o fato da Argentina se encontrar em desvantagem militar e política a leva ao uso da diplomacia a fim de garantir o Tratado de Aliança. No entanto, os resultados teriam sido infrutíferos, pois no ano seguinte, ao se dirigir a Assunção, o negociante imperial, Barão de Araguaia, não apoiou Mitre e a definição da fronteira entre Argentina e Paraguai se deu apenas em 1878 com a interferência dos Estados Unidos em favor do Paraguai. Ainda que considerada infrutífera por Doratioto, podemos dizer que a atuação de Mitre em 1872 contribuíra para apaziguar as tensas relações entre os países, impedindo o que poderia ter se tornado um novo conflito direto e armado. Além disso, consideramos sua missão como importante janela de reflexão para as relações diplomáticas entre Brasil e Argentina no período posterior à guerra, com destaque para as tensões políticas e disputas territoriais. O episódio permite ainda pensar a relação entre Mitre e políticos brasileiros e a leitura mais amena, embora transpassada por interesses estratégicos, que faz do Império e repercute em seu país. Ao longo da década de 1880, até o final do Império, as relações seguem oscilantes e as históricas rivalidades e desconfianças mútuas são mantidas.

Mitre, o IHGB e a relação entre a Monarquia e as Repúblicas vizinhas

Manoel Salgado Guimarães (1988) apresenta o projeto de história nacional pensado pelo IHGB desde a sua fundação. O autor destaca sua relação com a formação de uma identidade nacional e a busca de um perfil para a nação brasileira a partir de uma escrita da história que enfrentasse os obstáculos da escravidão africana e da presença indígena, tendo em vista o alcance da ordem, do progresso e da civilização com inspiração europeia. Sob a proteção direta do Imperador, o Instituto traria as fortes marcas de uma cultura política luso-brasileira avessa à Revolução Francesa e defensora da dinastia dos Bragança e de suas ações nas Américas. A história possuía, portanto, o sentido político-pragmático de construção da nação brasileira e do passado seriam retirados exemplos e modelos para o presente e o futuro. O autor também reflete sobre a definição dos outros aos quais a nação deveria se opor. Internamente, estes outros seriam negros e índios. Externamente, seriam as repúblicas vizinhas entendidas e apresentadas como representação da instabilidade e da barbárie, em oposição à monarquia, exemplo de civilização nas Américas. Isto trouxe consequências para a política externa brasileira no Segundo Reinado. Nas palavras de Manoel Guimarães (1988, p. 7):

Na medida em que Estado, Monarquia e Nação configuram uma totalidade para a discussão do problema nacional brasileiro, externamente define-se o "outro" desta Nação a partir do critério político das diferenças quanto às formas de organização do Estado. Assim, os grandes inimigos externos do Brasil serão as repúblicas latino-americanas, corporificando a forma republicana de governo, ao mesmo tempo, a representação da barbárie.

[…] esta definição do nacional brasileiro em oposição às repúblicas do continente trouxe consequências políticas visíveis, por exemplo, na formulação da política externa do Segundo Reinado e nos desdobramentos futuros da história da região.

Ressaltamos as relações entre escrita da história e diplomacia no Oitocentos e a presença de importantes diplomatas do Império no IHGB, como Varnhagen e o Visconde do Rio Branco. Além disso, conforme já sugerimos, o reconhecimento do território foi preocupação do Instituto desde a sua fundação. Na década de 1850, sua produção sobre limites e fronteiras teve crescimento acentuado, seguindo os interesses do Império que voltava sua atenção especialmente para a questão, por meio da atuação de Paulino José Soares de Sousa (o Visconde do Uruguai), Ministro dos Negócios Estrangeiros, a partir de 1849. Assim, era forjada uma diplomacia imperial legitimada pelos estudos históricos. Em 1851, foram elaborados novos estatutos nos quais o tema dos limites territoriais ganhava destaque como parte de um projeto nacional. O IHGB “colaborou com o Ministério dos Estrangeiros, oferecendo subsídios para os estudos de demarcação de fronteiras”, como afirma Lúcia Maria Paschoal Guimarães (2006, p. 21). Ao mesmo tempo, para a autora, nele eram fortalecidos importantes laços políticos que perpassavam a política externa imperial.

As rivalidades entre os países eram fortalecidas por uma leitura de história que situava os vizinhos como opositores. Maria Lígia Prado (2001) identifica no Brasil um imaginário que, em diferentes momentos, os pensa como outra América. A autora lembra que nas interpretações sobre a história do Brasil desenvolvidas no IHGB, a monarquia era necessária e garantia da civilização, enquanto as repúblicas eram instáveis e caóticas. Prado menciona ainda a visão negativa de políticos e intelectuais argentinos e uruguaios sobre o Brasil, principalmente quanto à escravidão, como é o caso de Sarmiento. Deste modo, as diferenças entre “nós” e “eles” foram estabelecidas ao longo de todo o século fortalecendo as rivalidades que se intensificam em conjunturas de disputas territoriais e tensões diplomáticas.

Apesar das rivalidades e da visão negativa sobre os países republicanos, muitos dos seus representantes se tornaram membros do Instituto, como vimos ser o caso de Mitre a partir de 1871. Ao mesmo tempo, o IHGB inspirou a criação de instituições históricas pelas Américas, como o Instituto Histórico e Geográfico do Uruguai, em 1843, durante a Guerra Grande (1839-1851), pelo diplomata e historiador uruguaio Andrés Lamas, um dos principais interlocutores de Mitre e também membro do IHGB desde 1848. O projeto não vai à frente em razão da instabilidade política. No entanto, em 1854, Mitre o recria em Buenos Aires com a denominação de Instituto Histórico e Geográfico do Rio da Prata. Posterior à queda de Juan Manuel de Rosas, em 1852, este é um contexto no qual começam a ser gestadas na região do Prata as condições necessárias para o desenvolvimento das historiografias nacionais e de associações destinadas a diversos propósitos, como as letras e as ciências. Estas instituições permitiriam favorecer ou estreitar relações com personalidades e instituições afins da Europa e de outros países americanos, incluindo-se o Brasil. Embora importantes para a legitimação dos seus sócios, elas tiveram suas consolidações dificultadas por disputas políticas e regionais e por problemas financeiros, já que não eram diretamente apoiadas pelo Estado. Neste sentido, Wasserman (2008) aponta o contraste com o caso brasileiro no qual o Estado amparou e estimulou fortemente o IHGB.

Cabe destacar, neste ponto, o papel destes Institutos históricos. De acordo com Tomás Corbo, os historiadores argentinos e uruguaios estiveram relacionados por um intenso intercâmbio cultural, formando uma comunidade que ia além das fronteiras nacionais. Neste processo, constrói-se o que o autor denomina como um “espacio historiográfico rioplatense” (CORBO, 2011, p. 27) que deve ser pensado de forma multidimensional e dinâmica e que muito se fortaleceu na segunda metade do século XIX. Esta perspectiva coaduna-se com o que diz Wasserman (2008, p. 30) sobre a conveniência de se considerar o Rio da Prata, embora não homogêneo, “como unidad de análisis espacial”, já que prevalecia uma indeterminação sobre a organização política da região ainda em meados do Oitocentos.

É nesta ambiência que Mitre se forma como uma das mais representativas figuras da política e da história nacionais, atuando em diversas frentes entre as quais estavam o periodismo, a literatura, a jurisprudência, a docência e a diplomacia – “investidura que les permitía consultar repositorios documentales y materiales bibliográficos inaccesibles de otro modo” (CORBO, 2011, p. 29). Ao mesmo tempo, seu dinamismo nos impede de fechá-lo em fronteiras, já que indivíduos e famílias estavam constantemente em movimento por fatores políticos, econômicos e diplomáticos. As fronteiras no Prata se cruzavam e as solidariedades políticas construídas durante o regime rosista (nos anos 1830 e 1840) teriam fortalecido o sentimento de pertencimento às duas margens do rio (CORBO, 2011).

Daí a relevância de se pensar uma historiografia rio-platense e não apenas nacional nestes países. Ainda que em outro nível de desenvolvimento do trabalho historiográfico, fortalecido pelo investimento do Estado imperial, o Brasil também participa deste processo, já que o intercâmbio com o país era intenso. As redes de intercâmbio eram necessárias para sanar as dificuldades de acesso a materiais, de modo que o desenvolvimento da disciplina deve ser pensado a partir de uma dimensão dialógica. As amizades oriundas do exílio nas décadas de 1830 e 1840 duraram muitos anos. O pertencimento à maçonaria, a atuação em cargos governamentais e diplomáticos e na criação de instituições reforçavam ainda mais estes laços. Para Corbo (2011), um dos principais circuitos de trocas intelectuais que fomentaram o desenvolvimento do conhecimento histórico no período foi a relação entre Mitre e o já mencionado Andrés Lamas. Juntos, eles criaram os Institutos aqui analisados, sendo diretamente influenciados pelo IHGB. A inserção mútua nos Institutos históricos foi uma importante via por eles utilizada para participarem de diferentes meios e fortalecerem suas redes de intercâmbio. Lembramos que como a bibliografia e as fontes para o estudo do passado estavam muito mais sob domínio privado do que público, estes lugares de sociabilidade facilitavam trocas, doações e empréstimos. Mitre foi convidado por Lamas à participação no Instituto do Uruguai, criado, como dissemos, em 1843. O uruguaio, por sua vez, foi convidado por Mitre para ingressar no Instituto do Rio da Prata, em 1854. Responde ao convite demonstrando satisfação e prometendo o estreitamento dos laços com o IHGB, o que reforça a ideia de que Lamas foi fundamental na construção de uma ponte entre Mitre e o Instituto:

Inútil decir a usted que he sabido con satisfacción la creación del Instituto Histórico y Geográfico del Río de la Plata, y que aceptaré agradecido el honor de pertenecerle.

Deseo que usted sea más feliz que yo, esto es, deseo que las turbaciones y las miserias públicas no impidan la realización fecunda de su obra.

Usted puede contar con mi cooperación para la "Revista".

Me encargaré también de ponerlo en íntima relación con el Instituto de Brasil, del que soy miembro, como lo soy de muchas otras asociaciones europeas, consagradas a estudios históricos y geográficos (CARTA de Andrés Lamas […], 1854/1912, p. 129-130).

Lamas esteve exilado no Brasil em 1836 e, posteriormente, viveu no país por 15 anos, entre 1847 e 1862. Na primeira experiência, estabeleceu contatos e adquiriu muito conhecimento sobre as políticas interna e externa brasileira. Durante os 15 anos de moradia, exercendo cargo diplomático, aproximou-se de figuras como o Visconde do Uruguai e o próprio Imperador que o condecorou com a Cruz da Ordem de Cristo. Segundo Corbo, Lamas, Mitre e Sarmiento seriam os estadistas sul-americanos mais admirados pelo Imperador. O autor informa que durante a Guerra Grande, muitos intelectuais do Rio da Prata foram incorporados ao IHGB. Entres eles, estava Lamas. Destes ingressantes estrangeiros, exigia-se a doação de documentos históricos de seus países e regiões, materiais que acabavam também sendo utilizados pelos diplomatas imperiais a fim de obterem vantagens nas disputas territoriais com as Repúblicas vizinhas. Suas atuações no IHGB eram fortemente políticas, sobretudo investindo em uma propaganda para angariar apoio contra Rosas. Ao mesmo tempo, adquiriram conhecimentos práticos e historiográficos que procuraram aplicar depois no Uruguai e na Argentina. Neste contexto, em 1848, Lamas ingressa na instituição como sócio correspondente. A experiência foi fundamental na sua formação intelectual e nela se inspirou para a tentativa de institucionalização dos estudos históricos no Rio da Prata através das propostas de 1843 e 1854.

Apesar da curta durabilidade destas instituições, Corbo (2011, p. 117) chama a atenção para “la persistencia de Andrés Lamas y Bartolomé Mitre que, inspirados en el ejemplo brasileño, buscaron, y con el tiempo, lograron, crear condiciones favorables para el desarrollo del conocimiento histórico en Argentina y Uruguay”. Além disso, “la concepción brasileña, que suponía la construcción de la historia nacional como proyecto oficial y anclado en lo heurístico, influyó de manera determinante en los autores rioplatenses” (CORBO, 2011, p. 128). Para o autor, Mitre e Lamas teriam transformado a escrita da história nacional em projeto, fundamentado na ideia de verdade a partir de fontes documentais, justamente por influência do IHGB. Esta influência teria começado a se diluir nos anos 1870 com a consolidação dos Estados nacionais platinos e a definição de suas narrativas patrióticas. É neste momento que Mitre se torna sócio da instituição. A forte relação com Lamas certamente contribuiu para que ele se mantivesse conectado a ela ao longo das décadas e como parte de uma rede que o alçou à condição de sócio honorário. A influência de Lamas também pode ter pesado para que o olhar de Mitre sobre o Império brasileiro e o Imperador fosse menos agressivo que o de seus pares na Argentina.

Mitre ainda apresentava na Argentina uma leitura do Império brasileiro forjada no próprio IHGB. As aparentes características de unidade e conciliação interna o atraíam e, de certo modo, serviam de exemplo na busca por unidade nacional em seu país. Em carta endereçada ao Visconde do Rio Branco em 1875, Mitre declara afeto e estima ao amigo e elogia sua atuação na tentativa de impedir “el mal y la verguenza de las revoluciones violentas” no Brasil (CARTA de Bartolomé Mitre […], 1875/2005, p. 191). Diz que ele mesmo foi revolucionário na Argentina no sentido de “fundar cosas durables”, garantindo “la unidad nacional por primera vez” e criando meios “para que ellas [as revoluções] no tuviesen razon de ser” (CARTA de Bartolomé Mitre […], 1875/2005, p. 191). Para ele, o que vale é a “revolucion pacifica que se opera por el trabajo lento de todos los días” (CARTA de Bartolomé Mitre […], 1875/2005, p. 191). Concepção de revolução conservadora que alimentou a construção do Estado Imperial centralizado e formou boa parte do pensamento político brasileiro ao longo do século XIX. Lembramos que uma ideia de monarquia garantidora da unidade nacional foi elaborada e defendida pelos historiadores do IHGB desde sua fundação em 1838 no processo de escrita da história da nação que então surgia e se consolidava. Manoel Salgado Guimarães destaca que a “fisionomia esboçada para a Nação brasileira e que a historiografia do IHGB cuidará de reforçar visa a produzir uma homogeneização da visão de Brasil no interior das elites brasileiras” (GUIMARÃES, M., 1988, p. 6). Isto levará, inclusive, ao investimento nas províncias em vista do alcance de unidade e centralização política no Rio de Janeiro e do combate às revoltas e à possibilidade de fragmentação territorial. Para o autor, “articulada ao projeto de construção da nação, a escrita da história nacional tem assim os seus destinatários, não apenas no plano interno, como também no externo” (GUIMARÃES, M., 1988, p. 13). Deste modo, o discurso do IHGB visava também a um público externo que deveria perceber no Império um exemplo de estabilidade e civilização. As relações com a monarquia e alguns dos seus principais representantes e a circulação pelo IHGB certamente contribuíram para o olhar de Mitre sobre o país expresso na carta a Rio Branco.1

Mitre, a história e a política

Como vimos, as redes de intercâmbio no Rio da Prata foram fundamentais no desenvolvimento dos estudos históricos no Uruguai e na Argentina, contribuindo diretamente para a criação de ideias nacionalistas ao forjarem relatos coerentes e coesionadores. Deste processo, participaram intelectuais em geral, políticos, artistas, historiadores e diplomatas, apoiados e incentivados pelo Estado. Corbo (2011) ressalta que os ritmos de consolidação dos campos historiográficos na Argentina e no Uruguai foram distintos e pautados pelos recursos que dispunham. Contudo, se desenvolveram a partir de uma relação de complementaridade entre seus agentes. Na Argentina, este processo se dá de forma mais rápida, no Uruguai apenas se concretiza em meados do século XX. Um dos pilares dessa historiografia rio-platense, que, segundo o autor, ainda é escassamente estudado, seria a geração de 1837, a qual pertencia Mitre. A ela pertenciam também pensadores como Sarmiento, Alberdi e Fidel López. Sentindo-se herdeiros da Revolução de Maio e influenciados pelo romantismo, estes homens buscavam explicar o predomínio da “barbárie” rural e caudilhista sobre a “civilização”. Inspirados em Cousin, Michelet e Victor Hugo, rechaçavam a tradição e a cultura hispânica. Opunham-se ao autoritarismo de Rosas e, por isso, muitos dos seus representantes se exilaram em Montevidéu de onde, através da imprensa, denunciavam o regime rosista. Estes políticos e intelectuais exilados, preocupados com uma nova organização nacional, teriam exercido papel significativo na articulação da oposição a Rosas.

Wasserman (2008) apresenta o papel do historicismo romântico entre as décadas de 1830 e 1860. A essência dos fenômenos sociais estaria em sua historicidade e a principal forma de compreendê-los seria a partir da história. Assim, o conhecimento do passado se tornou uma necessidade de primeira ordem para os que pretendiam entender, legitimar ou transformar a sociedade. Uma das principais inovações do romantismo neste período foi o chamado “princípio das nacionalidades” a partir do qual as nações são entendidas como expressão dos povos que foram amadurecendo ao longo do tempo. Porém, a nação encontraria forma plena por meio da institucionalização dos Estados nacionais. A história seria a única capaz de dar conta de uma trajetória e das principais características das nacionalidades. Não obstante, Wasserman aponta que este princípio, apesar da força do romantismo no Prata, não se fincou facilmente na região, já que durante boa parte do século XIX prevaleceu a ideia de que os poderes políticos seriam resultantes de acordos entre as províncias, entendidas como soberanas e capazes de decidir se queriam ou não se unir entre si. Assim, os românticos do Rio da Prata invocariam o romantismo em seus textos, mas não necessariamente na atuação política. Soma-se a isto, uma importante particularidade local do movimento: “sus miembros mostraron mayor interés por los problemas del presente y por dar forma a un futuro que por un pasado del cual solían abjurar” (WASSERMAN, 2008, p. 93). Ou seja, a nação e a nacionalidade eram entidades a serem construídas e não frutos de uma história anterior. Apesar disto, alguns românticos defenderam a pré-existência da nação argentina, e também da uruguaia, que fundamentaria o Estado nacional que pretendiam construir. O maior representante dessa perspectiva foi Bartolomé Mitre.

Em artigo no qual compara os casos do Brasil e da Argentina, Elías Palti (1996) afirma que as histórias nacionais ao longo do século XIX revelariam um curso unitário e evolutivo no qual a nacionalidade se desenvolve progressivamente através de períodos necessários ao seu desenvolvimento. Era preciso também encarnar valores que justificassem sua existência e sua defesa diante de ameaças internas e externas. Legitimar identidades nacionais seria ainda fundamental após o fim das guerras de independência para evitar novas guerras ou a dissolução política. Acreditava-se, e isto era central em Mitre, que a história continha “las claves para la edificación del nuevo ordenamiento institucional” (PALTI, 1996, p. 49). Na Argentina, segundo o autor, os jovens da geração de 1837, entre eles Mitre, não viam sentido em discutir um passado que levava a Rosas. O passado, para eles, seria o vazio. A revalorização do passado histórico teria se dado, portanto, como vimos, após sua queda. Mitre funda o Instituto Histórico do Rio da Prata, é iniciada a publicação da Galeria de Celebridades Argentinas e nela aparece o primeiro esboço de obra que pretendia preencher o vazio historiográfico argentino, a Historia de Belgrano. No entanto, as duas primeiras edições ficaram inconclusas e apenas a quarta (30 anos depois) alcançaria sua forma definitiva e seria rebatizada como Historia de Belgrano y de la independencia argentina.

Segundo Palti, após Rosas, ainda surgiu um forte contraste entre Buenos Aires e a Confederação Argentina. Apenas no final dos anos 1860 teria se instalado no país um clima mais propenso à produção historiográfica. A progressiva consolidação do Estado nacional teria tornado as controvérsias históricas menos dramáticas. Sobre o papel de Mitre neste contexto, Palti (1996, p. 60) diz que “en la figura de Mitre se sintetiza y simboliza este nuevo clima intelectual que tendía a hacer converger la historia y la política a la vez que alejaba a aquella de otras formas de narrativa literaria”. Para Mitre, de acordo com o autor, o despotismo espanhol teria se transformado na América Hispânica no gérmen da liberdade. Dessa forma, a história argentina ganharia unidade de sentido, de forma que seus diferentes períodos formassem uma trama homogênea. A busca por unidade está presente no próprio texto de Mitre ao prefaciar a Historia de Belgrano. Segundo afirma, na edição aqui utilizada de 1859, toda a ideia de independência é estruturada em torno da figura de Belgrano de forma organizada, unida e cronológica:

Combinada la biografía con la historia, el argumento del libro, es el desarrollo de la idea de independencia, desde sus orígenes a fines del siglo pasado, hasta la descomposición del sistema colonial en 1820, en que acaece la muerte de nuestro héroe; explicando en el curso de la narración lo que esa idea debe a Belgrano (MITRE, 1859, p. 6).

Justificando seu interesse por escrever a história a partir de biografias, Mitre afirma que deste caminho nasceria o movimento da vida, difícil de alcançar em uma história mais geral. A biografia, para ele, iluminaria a história e os caminhos do historiador. Mitre diz ainda que estudando homens que fizeram a “revolução Argentina” seria possível um “conhecimento perfeito” (MITRE, 1859, p. 9) da época. A vida de Belgrano traria união, remontando, inclusive, aos antecedentes coloniais. Ele era o princípio da cadeia que uniria as tradições coloniais aos princípios revolucionários. Seguindo o perfil de uma história genealógica da nação, Mitre afirma buscar a verdade sobre Belgrano com imparcialidade e sem apologia. Para isto, alega ter compulsado cerca de 5 mil documentos sobre ele. A fonte sustentaria e conferiria solidez ao trabalho histórico. Desta forma, sua obra teria, segundo ele, o mérito da verdade no que se refere à realidade dos fatos e às deduções deles retiradas. Termina dizendo: “[…] me he decidido a hacer esta publicación, que espero podrá ser de alguna utilidad para la historia nacional, y servir de ejemplo y de lección moral para las generaciones que se levantan” (MITRE, 1859, p. 53).

José Alves Freitas Neto (2011) analisa o lugar de monumento historiográfico ocupado pelo trabalho de Mitre na Argentina. Seus temas e aspectos teórico-metodológicos lhe conferem papel central e o diferenciam da tradição ensaística ou literária representada pela geração de 1837. Mitre buscava uma história total com temporalidades amplas desenvolvida, como vimos, a partir da biografia de grandes personagens. Utilizava-se de uma abordagem rigorosa das fontes documentais na busca da verdade e da comprovação histórica para seus argumentos que descreviam a história da nação. Nas biografias por ele escritas, os grandes temas são a independência argentina e a emancipação sul-americana. Cruza-os com as trajetórias daqueles que considera grandes personagens em um exercício no qual justifica a si mesmo e constrói um modelo de ação e pensamento que forneça exemplos para a posteridade. A tradição liberal argentina, ligada aos grupos unitários, fez uma leitura de Mitre na qual a violência que marcou sua presidência e a repressão às províncias é pouco questionada em nome da “necessidade histórica” de construção da nação. Com isto, em diferentes momentos, os crimes praticados pelo Estado acabaram sendo justificados. Tal leitura seria fruto de uma cultura historiográfica diretamente relacionada às visões do historiador-militar-presidente.

É importante acrescentar que Mitre pensava a história nacional como entrelaçada à história americana, pois um aspecto uniria a América: a busca e a defesa da liberdade. Assim, o tema da independência ultrapassaria fronteiras e deveria ser pensado na relação com os demais países americanos. Exemplo disto seria o livro Historia de San Martin y de la emancipación sud-americana (MITRE, 1887). Na obra, “o autor expõe que a história não é um processo isolado: ela possui vínculos com os acontecimentos em outros países” (FREITAS NETO, 2011, p. 89). Conjugadas, as independências seriam o fenômeno mais notável do século XIX e teriam dado origem a sociedades democráticas. Para ele, na análise feita por José Alves Freitas Neto, a história exerceria um papel magistral no processo de aproximação entre os povos. Ao mesmo tempo, sua escrita da história de caráter pragmático, positivista e preocupado com o presente, trazia as marcas de uma noção estratégica de que era melhor compor com o Império vizinho do que rivalizar.

Assim, em Historia de San Martín, a partir de extensa documentação, Mitre relaciona a vida de San Martín a “la independencia de una nación y la emancipación de un mundo [...]” (MITRE, 1887, p. 18-19). Para ele, San Martín comporia, em conjunto com George Washington e Simón Bolívar, um trio de libertadores republicanos do novo mundo. No livro, o autor trata, de forma integrada, dos casos da Argentina, do Chile, do Peru, da Venezuela, do Equador e da Colômbia. Apresenta uma unidade de ação nas independências com dois focos revolucionários nos extremos do continente: ao sul e ao norte. San Martín teria seguido de baixo para cima, a partir da Argentina e do Chile, e Bolívar de cima para baixo, a partir da Colômbia. Ambos, então, teriam movimentado forças que convergiram em um ponto central. Convergência e unidade de ação, interesses e ideias são aspectos que percorrem e amarram sua análise de modo a se pensar as independências, ou as revoluções sul-americanas (segundo o conceito por ele empregado), como um todo integrado. Busca ainda uma genealogia que aponta uma revolução que se operava no homem sul-americano antes do final do século XVIII, tendo a partir de então um sentido e um propósito. Estaria na ordem natural das coisas, sendo uma questão de oportunidade e de forma. Para ele, “la revolución estaba en la atmosfera, estaba en las almas, y era ya no solo un instinto y una gravitación mecánica, sino una pasión y una idea” (MITRE, 1887, p. 77).

Esta revolução seria essencialmente republicana, pois, apesar de haver projetos monarquistas nas independências, a república atuaria como uma lei natural para as Américas. Sobre o caso brasileiro, Mitre (1887, p. 105) diz: “El único hecho que parecería indicar que la monarquía era una planta que pudo haberse aclimatado en América, es la fundación del Imperio del Brasil, y es precisamente el que por antítesis prueba lo contrario”. Segue desenvolvendo o argumento de que o Brasil participou das influências do meio ainda que em menor grau que os demais países da região. Remonta ao século XVIII e fala da Inconfidência Mineira como exemplo de fermento republicano e de espírito de independência. Diz que o Brasil teria absorvido os reis quando o trono foi transladado para cá, sendo a “revolução de sua independência” feita pelo príncipe pacificamente através da transição entre o antigo e o novo regime. Quando este não respondeu ao “espírito nacional”, os súditos o despediram. Assim, Mitre (1887, p. 106) define o Império brasileiro como uma “democracia con corona”. Visão idealizada que condiz, em grande parte, com a formulada pelo IHGB.

A relação com o Brasil e com o Império, portanto, tão presente por questões políticas e militares em sua trajetória, também era refletida em sua obra histórica. Reforçamos o que dizem autores que trabalharam o pensamento mitrista a respeito da intrínseca relação entre o político, o general e o historiador. Inegavelmente, nesta relação, o Império brasileiro se impunha como um tema a ser enfrentado em termos historiográficos e político-pragmáticos, considerando-se as tensões entre monarquia e repúblicas no século XIX sul-americano. Estavam em jogo não apenas leituras do passado, mas sim fronteiras, territórios e o controle da região, especialmente no rio da Prata. Historiograficamente, vemos também como a escrita de uma história nacional pautada na objetividade e na verdade, alcançadas através da análise de fontes, muito presente na produção do IHGB, percorreu o olhar sobre o passado desenvolvido por Mitre. Os considerados grandes personagens históricos também marcaram esta produção sendo biografados como sujeitos exemplares cujas trajetórias eram apresentadas entrelaçadas aos acontecimentos políticos. Tendências de uma escrita da história que também se dava na Europa, estas preocupações envolveram o IHGB e as instituições históricas e os historiadores da região do Prata que nele se inspiraram na construção de uma narrativa para a nação e a nacionalidade.

Considerações Finais

Neste artigo, analisamos as ideias de Bartolomé Mitre a partir da sua relação com o Império brasileiro. Além das suas ideias históricas, procuramos apresentar sua atuação diplomática, especialmente no período posterior à Guerra da Tríplice Aliança, e sua aproximação com o IHGB, instituição histórica de caráter monarquista, financiada pelo Imperador e promotora de uma leitura do passado brasileiro – atravessada pelas ideias de civilização, unidade e estabilidade política – que muito repercutiu nos países vizinhos. Próximo a membros do Instituto e um deles a partir de 1871, Mitre inspirou-se na instituição para a criação de outras congêneres na Argentina e no Uruguai. Com isto, buscava viabilizar e consolidar a produção de um conhecimento histórico na região visando à elaboração de uma história nacional que legitimasse suas ações e a nação unificada e de caráter liberal que defendia. O fez, no entanto, a partir de uma leitura conjunta da região, principalmente no que se refere aos processos de independência no início do século XIX.

Nosso foco foram as décadas finais do Império (embora para isto tenhamos por vezes percorrido um período anterior), suas relações com a monarquia, suas ideias históricas e sua atuação diplomática, especialmente em um momento marcado ainda por rivalidades e pelos binômios civilização e barbárie, estabilidade e instabilidade nas interpretações mútuas entre os países. Daí o analisarmos de forma conectada a outros sujeitos, países e instituições. Ainda que de forma estratégica, ao temer a dimensão e o poderio do Império na região, Mitre construiu pontes com o Brasil que foram utilizadas, como vimos, até mesmo por Sarmiento, seu então rival, em 1872. Sua entrada no IHGB e com figuras proeminentes como o Imperador e o Visconde do Rio Branco contribuíram diretamente para isto. Ao mesmo tempo, internamente, este aspecto alimentou as críticas por parte dos seus opositores.

Entendemos, portanto, que pensar Mitre é, em grande medida, refletir sobre as interconexões entre os países da região em um período de nacionalidades fluidas e em construção; é refletir sobre o próprio processo de formulação destas nacionalidades; é trazer para a discussão a profunda relação entre escrita da história e diplomacia que formou parte diretamente deste processo; é, por fim, pensar as rivalidades entre o Império e as repúblicas vizinhas, mas combatendo a perspectiva do isolamento. Ainda que com estruturas políticas distintas e disputando o controle da região, o Brasil e seus vizinhos não se encontravam isolados entre si. Ao contrário, era imperativo se comunicar e estabelecer diálogos diplomáticos (oficiais ou extraoficiais) na tentativa de atender aos próprios interesses e solucionar os conflitos. Aqui participam também a escrita da história, a inserção em instituições históricas, o intercâmbio de documentação, livros, mapas, entre outros materiais, as viagens para a formação de redes e pesquisas e a troca de correspondências entre historiadores.

Fontes

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CARTA de Bartolomé Mitre ao Visconde do Rio Branco, 12 de fevereiro de 1875. In: FRANCO, Alvaro da Costa (Ed.) Cadernos do CHDD. Brasília: FUNAG, 2005. p. 191-192.

MITRE, Bartolomé. Historia de Belgrano. Buenos Aires: Imprenta de Mayo, 1859. t. 1.

MITRE, Bartolomé. Historia de San Martin y de la emancipación sud-americana. Buenos Aires: Imprenta de “La Nación”, 1887.

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WASSERMAN, Fabio. Entre Clio y la Polis: Conocimiento histórico y representaciones del pasado en el Río de La Plata (1830-1860). Buenos Aires: Teseo, 2008.

Notas

1 O jornal La Nación também é uma fonte relevante para se pensar o olhar de Mitre sobre o Brasil e o Império brasileiro. Nas décadas de 1870 e 1880, aqui destacadas, aparecem frequentemente a imagem de um Imperador culto, respeitado e tolerante e de uma monarquia democrática e em vias de extinção da escravidão.

Notas de autor

* Professora Associada do Departamento de Ciências Humanas e do Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Faculdade de Formação de Professores (UERJ/FFP). Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O projeto de pesquisa que dá origem a este artigo foi desenvolvido com bolsa de Prociência-UERJ (2015-2018; 2019-2021; 2022-2024) e bolsa Jovem Cientista do Nosso Estado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) (2018-2022).

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