Dossiê

Rir juntas é o melhor remédio contra os tempos temerosos: crítica e humor nas tiras de Thaïs Gualberto e de Fabiane Langona (2016-2018)

Marilda Lopes Pinheiro Queluz
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Brasil

Rir juntas é o melhor remédio contra os tempos temerosos: crítica e humor nas tiras de Thaïs Gualberto e de Fabiane Langona (2016-2018)

Revista Tempo e Argumento, vol. 12, núm. 31, e0108, 2020

Universidade do Estado de Santa Catarina

Recepción: 15 Marzo 2020

Aprobación: 08 Mayo 2020

Resumo: O objetivo deste texto é refletir sobre os mecanismos do humor gráfico produzido entre o impeachment de Dilma Rousseff, destituída do cargo de presidente em 2016, e o final do governo de Michel Temer, em dezembro de 2018. Durante um levantamento das tiras da sessão Folha Cartuns / Cartuns Diários da Folha de S. Paulo, feito de dezembro de 2015 ao final de 2018, foi possível observar posicionamentos contrários ao golpe, colocando em xeque a pretensa neutralidade do periódico. A mistura de elementos da charge e dos quadrinhos deu origem a um produto híbrido que procurava explicar, rir e criticar as situações inusitadas que se seguiram no temeroso panorama nacional. Para este artigo, foram consideradas apenas as tiras feitas por mulheres, especificamente os quadrinhos de Thaïs Gualberto e Fabiane Langona. O interesse é pensar sobre o modo como as personagens criadas por essas duas desenhistas dialogaram com as questões feministas e as pautas de luta das mulheres, em plena conjuntura de golpe. Foram analisadas as tiras com temáticas em torno das caracterizações do governo Temer, do olhar sobre o Brasil e a política marcada pela campanha eleitoral e pela eleição a presidente em 2018, levando em conta as escolhas de recursos e procedimentos técnicos que causavam o efeito humorístico. Na interpretação dos acontecimentos do impeachment e do governo de Temer, as quadrinistas buscaram inspiração nas notícias, no cotidiano das cidades e nas experiências pessoais, construindo outras narrativas, do ponto de vista das lutas e das práticas de resistência das mulheres.

Palavras-chave: Thaïs Gualberto, Fabiane Langona, Humor Gráfico, Quadrinhos.

Abstract: The purpose of this text is to reflect about the mechanisms of graphic humor produced between the impeachment of Dilma Rousseff, who was removed from office in 2016, and the end of Michel Temer's government in December 2018. During the survey of the strips of the section Cartoons / Daily Cartoons of Folha de S. Paulo, from December 2015 to the end of 2018, it was possible to observe positions contrary to the coup, challenging the alleged neutrality of the journal. The mixture of elements from the cartoon and the comics gave rise to a hybrid product that sought to explain, laugh and criticize the unusual situations that followed in the fearful national panorama. For this article, only the strips made by women were considered, specifically the comics by Thaïs Gualberto and Fabiane Langona. The idea is to think about the way in which the characters created by these two cartoonists dialogued with feminist issues and the women's agendas of struggle, in the midst of a coup. Strips with themes on the characterizations of the Temer government, the view on Brazil and the politics marked by the electoral campaign and the presidential election of 2018 were analyzed, taking into account the choices of resources and technical procedures that caused the humorous effect. In interpreting the events of the impeachment and the Temer government, the comic artists sought inspiration in the news, in the daily life of cities and in personal experiences, constructing other narratives, from the point of view of women's struggles and resistance practices.

Keywords: Thaïs Gualberto, Fabiane Langona, Graphic Humor, Comics.

O objetivo deste texto é refletir sobre os mecanismos do humor gráfico produzido entre o impeachment de Dilma Rousseff, destituída do cargo de presidente em 2016, e o final do governo de Michel Temer, em dezembro de 2018. Nesse conturbado e emblemático momento de virada nos rumos da política brasileira, colocava-se o questionamento sobre as funções contemporâneas do humor gráfico. Durante um levantamento das tiras da sessão Folha Cartuns / Cartuns Diários da Folha de S. Paulo[1], feito de dezembro de 2015 ao final de 2018, foi possível observar posicionamentos contrários ao golpe, colocando em xeque a pretensa neutralidade do periódico[2]. A mistura de elementos da charge e dos quadrinhos deu origem a um produto híbrido que procurava explicar, rir e criticar as situações inusitadas que se seguiram no temeroso panorama nacional.

Na tentativa de tornar mais visível a participação de mulheres no humor gráfico, para este artigo foram consideradas apenas as tiras feitas por mulheres[3], especificamente os quadrinhos de Thaïs Gualberto e Fabiane Langona, publicados na versão digital do jornal Folha de S. Paulo[4]. O interesse aqui é pensar sobre o modo como as personagens criadas por essas duas desenhistas dialogaram com as questões feministas e as pautas de luta das mulheres, em plena conjuntura de golpe. As análises voltaram-se para as séries temáticas em torno das caracterizações do governo Temer, do olhar sobre o Brasil e da política marcada pela campanha eleitoral e pela eleição presidencial de 2018, levando em conta as escolhas de recursos e procedimentos técnicos que causavam o efeito humorístico.

Enfatizar a produção dessas desenhistas implica não apenas preencher uma lacuna na historiografia brasileira sobre humor gráfico, mas questionar os fundamentos políticos da história da arte, as hierarquias de gênero, como salienta Griselda Pollock:

Los estudios de mujeres no se ocupan solo de las mujeres, sino de los sistemas sociales y los esquemas ideológicos que sostienen la dominación de los hombres sobre las mujeres dentro de otros regímenes de poder mutuamente influyentes, principalmente la clase y la raza. (POLLOCK, 2013, p. 19)

Como propõe Mariela A. Acevedo (2018), não se trata de buscar uma essência do humor feminino, ou “humor feito por mulheres” ou, ainda, um “humor feminista”, mas as “textualidades a partir de uma perspectiva de gênero”, contexto de produção, marcas sociossexuais de autoria e a interpretação derivada de uma leitura social da produção.

Partindo dos estudos propostos por Raymond Williams (2011), é importante tratar a obra de arte não como um objeto, um artefato isolado, mas como uma prática social, problematizando as condições materiais de produção e de consumo, as relações entre política e arte.

Un materialismo histórico feminista no se limita a sustituir la clase por el género, sino que busca descifrar la intrincada interdependencia entre clase, género, y también raza, en todas las formas de la práctica histórica. (POLLOCK, 2013, p. 27)

As representações presentes nos quadrinhos colocam em ação, com signos visuais e verbais, práticas culturais que nos fazem compreender processos sociais e relações de poder em que estamos imbricados e que nos constituem.

comprender lo que hacen las prácticas artísticas específicas, así como sus significados y efectos sociales, requiere un doble enfoque. En primer lugar, la práctica debe ser localizada como parte de las luchas sociales entres clases, razas y géneros, articulándola con otros lugares de representación. (POLLOCK, 2013, p. 30)

Nesse sentido, a perspectiva da interseccionalidade “pode ser vista como uma forma de investigação crítica e de práxis”, forjada pelas feministas negras ligadas a múltiplos movimentos sociais contra as estruturas/artimanhas da lógica capitalista neoliberal (COLLINS, 2017, p. 8). Para situar o contexto e as materialidades presentes nas representações é preciso enfrentar os múltiplos sistemas de opressão, visando a transformação da sociedade: “A promessa inicial do feminismo negro e a ideia de interseccionalidade que a acompanhou consistia em promover políticas emancipatórias para as pessoas que aspiravam a construção de uma sociedade mais justa.” (COLLINS, 2017, p. 15).

Entendemos o humor gráfico como prática cultural na qual as interações entre texto e desenho formam enunciados e estes, como define Bakhtin (2003), revelam a materialidade de uma situação comunicativa que depende do contexto histórico em que foi produzido e veiculado, transformando-se a cada leitura.

O humor gráfico é um espaço privilegiado para compreender diferentes modos de se representar a história, pois articula a ambivalência da linguagem e olhares alternativos sobre os discursos e as narrativas do país. Elias Thomé Saliba (2002) insiste na relevância de estudar as diversas conjunturas culturais que forjam representações humorísticas inusitadas, metáforas, tipos e estereótipos com grande poder de concisão e densidade, repletos de subentendidos, silêncios e omissões.

A política sempre esteve entre um dos principais alvos dos desenhistas na imprensa brasileira desde o século XIX. Caricaturas e charges compõem um rico e complexo espaço de disputas, tensionamentos, críticas, visões de mundo e posicionamentos político-ideológicos. As críticas feitas às autoridades e aos personagens eminentes da história colocaram o humor visual na mira da censura, o que também contribuiu para ver as publicações como poderosas armas de combate e instrumentos de formação da opinião pública.

Estudiosos como Antonio Luiz Cagnin (2014) e Paulo Ramos (2009) situam os quadrinhos como um grande rótulo que contém vários gêneros, como os cartuns, as charges, as tiras e as histórias em quadrinhos. A diferença entre charge e tira cômica estaria, de acordo com Ramos, no fato de que “a charge aborda temas do noticiário e trabalha em geral com figuras reais representadas de forma caricata, como os políticos; a tira mostra personagens fictícios, em situações igualmente fictícias.” (RAMOS, 2009, p. 16).

Os casos tratados neste artigo fogem à regra, borram esses limites, parecendo apontar que, em determinados contextos, o caráter político e a potência extremamente crítica e subversiva das tiras são acionados.

Thaïs Gualberto e Olga, a Sexóloga:

Formada em Arte e Mídia pela Universidade Federal de Campina Grande, a paraibana Thaïs Gualberto[5] passou a fazer quadrinhos ao final de 2009, quando criou sua personagem “Olga, a sexóloga”. As histórias eram postadas na internet e, em 2015, foram reunidas em um livro independente publicado pela Editora Patmos. A autora considera que Olga “É uma personagem com opiniões fortes e às vezes até um pouco agressiva, mas é porque é radical ao defender o que acha correto.” (GUEDES, 2016).

Em maio de 2016, Thaïs Gualberto passou a publicar as tiras de Olga nos quadrinhos diários da Folha Cartum, substituindo Angeli[6]. A artista explica a importância de dividir essa seção com outros cartunistas renomados: “O trabalho dele influenciou e influencia muitos quadrinistas da minha geração, tenho me esforçado esses dias pra dar o meu melhor e representar não só a Paraíba, mas também as mulheres do nosso País, que muitas vezes não têm acesso a espaços como esses.”(GUEDES, 2016). Ao comentar seu estilo, Thaïs destaca como uma de suas referências o trabalho do Henfil[7], cujos traços econômicos e o humor direto teriam influenciado algumas características de Olga (GUEDES, 2016).

Eram tiras cômicas, de duas a três cenas, geralmente em requadros sem delimitação, o que parecia/sugeria um contato mais próximo com os assuntos noticiados e com seguidores/seguidoras do jornal. O uso de balões sem contorno ajudava a reiterar essa cumplicidade. A estratégia era colocar a sexóloga em diálogo com outras personagens femininas, brancas ou negras e, em muitos momentos, Olga dirigia-se ao leitor/à leitora diretamente, colocando-se de frente, instigando um debate, dando conselhos, compartilhando ideias sobre sexo, sobre feminismo, sobre política.

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 maio 2016. Folha Cartum.

Em sua primeira tira (Figura 1), publicada na seção cartuns da Folha digital, Thaïs Gualberto cria um efeito rápido de piada, dirigindo-se ao público masculino para a primeira dica para dar prazer às mulheres. A referência às “nossas ancestrais” coloca a questão do corpo e do orgasmo em uma perspectiva histórica, uma conquista de várias gerações. Em um depoimento para a Folha, Thaïs confessa que a personagem “é muito parecida comigo, com minhas amigas, com mulheres que se identificam com a luta do feminino [...] gosto de fazer crítica social [...] E a Olga faz isso, sempre com ironia.” (VIANA, 2016).

O modo como Thaïs usa o espaço/a composição de suas tiras para evidenciar as relações entre a política e a luta pelos direitos das mulheres pode ser observado na tira da figura 2, que trata do momento em que se deu a votação pelo impeachment. O uso de onomatopeias, representando aplausos e vaias, contribui para indicar a hipocrisia do congresso, cujos membros falam em nome da família e, entretanto, não reconhecem a importância da licença-maternidade. Mostram-se as contradições e as assimetrias do mundo do trabalho, mesmo para uma deputada[8]. O destaque para a TV de tela plana e as linhas de expressão para a transmissão das falas, dão conta do espaço ocupado pelas grandes mídias televisivas[9]. A poltrona, de costas para nós, coloca-nos na mesma posição da personagem, como espectadores dos rumos temerosos da política.

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 maio 2016. Folha Cartum.

A sessão de votação aberta no plenário da Câmara durou quase dez horas, das quais seis correspondem à votação propriamente dita. Ela foi precedida por exaustivas exposições dos motivos a favor e contra e, no momento da votação, cada deputado expunha rapidamente os motivos e razões de seu voto, inflamados pelos altos índices de audiência em todo país. No rito do impeachment, cada deputado precedia seu voto referindo-se a sua base eleitoral e conclamava valores como família, vida, esperança e fé. Muitos iniciavam a fala com “Em nome de Deus, pela minha família [...]” (PRANDI, CARNEIRO, 2018).

Após o Senado instaurar o processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 12 de maio de 2016, Michel Temer foi empossado interinamente na presidência da República. No dia 31 de agosto de 2016, o fim do processo resultou na cassação do mandato de Dilma Rousseff[10]. Esse período também ficou conhecido como o golpe da direita neoliberal, golpe parlamentar ou golpe branco. De acordo com Carol Proner, a ciência política costuma distinguir as expressões «golpe de estado» e «golpe branco»:

Os primeiros são entendidos como ataque a um líder político e derrubada da ordem constitucional com o uso da força ou violência, normalmente com o apoio das forças armadas. Já o “golpe branco”, gênero do qual decorrem muitas espécies, ocorre quando a conspiração tem por objetivo a ruptura constitucional por meios parcial ou totalmente ilegais embora com aparência de normalidade. Os “golpes brancos” são novidades, neogolpismos que não obedecem a um único modelo, mas que possuem características semelhantes. São os chamados “golpes dentro da lei” feitos por setores do poder legislativo apoiados em outras instituições do Estado que dão consecução a uma série de atos de desgaste do poder constituído até o momento da ruptura da legalidade constitucional e a substituição por uma aparente legalidade. (PRONER, 2016, p.31)

Giovanni Alves também atribui a um golpe de Estado o que ocorreu no Brasil em 2016, com articulações entre Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal, Procuradoria Geral da República, Ministério Público Federal e Polícia Federal, juntamente com a Operação Lava-Jato e com intensa manipulação da opinião pública pela grande imprensa, com destaque para a TV Globo (ALVES, 2016).

A era Temer foi associada pelos quadrinhos a um retrocesso político e social, comparada à Idade Média, à Idade das Trevas, de modo recorrente na obra de vários quadrinistas. Inicia-se uma campanha conservadora e moralista por parte de vários setores conservadores da sociedade, com apoio e incentivo da Frente Parlamentar Evangélica, também conhecida como Bancada Evangélica, reunindo congressistas ligados a diferentes igrejas evangélicas. Houve uma série de ataques às pautas das lutas das mulheres e aos conteúdos sobre questões de gênero, sobretudo nas escolas, no ensino fundamental, alegando tratar-se de doutrinação ideológica, doutrinação feminista.

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 03 jun. 2016. Folha Cartum.

A quadrinista Thaïs Gualberto, através de monólogos de sua personagem Olga, a sexóloga, procurou abordar a contradição entre o discurso conservador e a realidade diária da violência contra a mulher no Brasil (Figuras 3 e 4). O uso da metáfora visual do muro de tijolos e das grades no cenário dos quadrinhos da figura 3 reitera a linguagem verbal e alude ao cerceamento dos debates, ao confinamento do saber científico e das informações, além de outras formas de opressão. As lentes de relógio podem sugerir que a cultura dos estupros cresce a olhos vistos, mas que os dados estatísticos estariam sendo subestimados[11].

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 01 jun. 2016. Folha Cartum.

A tira da figura 4 mostra a indignação da personagem aumentando a cada quadrinho, marcada pela mudança da expressão facial e pela gestualidade da última cena, quando Olga parece não saber que argumentos poderiam ser mais fortes e convincentes do que os dados sobre o surgimento de novos casos de estupro coletivo em todo o país.

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 20 nov. 2016. Folha Cartum.

A circulação de ideias retrógradas em relação às recentes pesquisas científicas sobre o meio ambiente, as alterações do clima, ou, ainda, teorias consolidadas como o evolucionismo e a Terra ser redonda, geraram muitas discussões e debates improdutivos nas redes e nas ruas (figura 5). As afirmações desprovidas de fundamentos ou dados de comprovação também fizeram com que a personagem Olga desistisse de participar de algumas conversas, insinuando que a tentativa de argumentar com essas pessoas seria uma perda de tempo. A expressão corporal dos personagens ao fundo leva a entender que se trata de um monólogo da personagem masculina, que parece não se interessar pelas opiniões da jovem negra.

O tema da crescente polarização política foi o mote de muitas charges e muitos cartuns dessa seção estudada. Já em 2014, durante o segundo mandato de Dilma e seu vice Temer, iniciou-se uma rede de manipulações por parte da grande imprensa e por meio das redes sociais contra os partidos de esquerda, alimentando a queda de popularidade da presidenta e elegendo o tema da luta contra a corrupção como uma grande bandeira política e como a salvação do país. Isso gerou um poderoso discurso de polarização entre esquerdistas (apelidados de mortadelas, petralhas)[12] e direitistas (apelidados de coxinhas).

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 31 maio 2016. Folha Cartum.

Thaïs Gualberto usou esse assunto como pretexto para propor reflexões sobre as questões de gênero, classe, raça e etnia sem perder de vista o caráter político desses debates e ironizando os binarismos (tanto no sentido heteronormativo como no sentido partidário). A figura 6 é um bom exemplo disso, valorizando a presença de uma personagem feminina negra falando sobre a política e o modo como Olga e, em certo aspecto, a desenhista se mostram implicadas na defesa das perspectivas feministas.

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06 out. 2016. Folha Cartum.

Os diálogos de Olga indicaram, muitas vezes, como as práticas sociais estão marcadas pela desigualdade de gênero, como apontam as diferenças salariais entre homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo, ou mesmo o peso da responsabilidade do registro e do cuidado com as crianças. Na figura 7, a sexóloga alerta para o paradoxo entre o discurso machista do então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), apelidado de “mito” por seus apoiadores, e a realidade da maioria das mulheres trabalhadoras no Brasil. É significativa a presença da personagem negra e sua mudança de expressão facial, pois remete às assimetrias ainda mais acentuadas – situação específica das mulheres negras no mercado de trabalho (CARNEIRO, 2019). Nesse sentido, os desenhos de Thaïs podem ser pensados em seu alinhamento às pautas feministas e atuam como uma espécie de intervenção artística.

Las intervenciones feministas demandan el reconocimiento de las relaciones de poder entre los géneros, haciendo visibles los mecanismos del poder masculino, la construcción social de la diferencia sexual y el papel que desempeñan las representaciones culturales en esa construcción. (POLLOCK, 2013, p. 34)

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 22 out. 2016. Folha Cartum.

A cartunista aproveita alguns diálogos para esclarecer, ironizar e criticar os comentários que circulavam pelas redes como a importância de se evidenciar a oposição entre os vários caminhos dos movimentos feministas e a visão conservadora e reacionária das apoiadoras de Bolsonaro (Figura 8).

Olga, a sexóloga
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Olga, a sexóloga
GUALBERTO, Thaïs. Olga, a sexóloga. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06 dez. 2016. Folha Cartum.

Uma das frentes de combate ao feminismo foram as críticas e os ataques à educação sexual nas escolas, às discussões de gênero e aos materiais didáticos (cartilhas e vídeos) envolvendo assuntos como a gravidez, os métodos contraceptivos, o movimento LGBT. Foram criados muitos boatos e fake news em torno do tema, fazendo circular ideias como as sugeridas pelo personagem masculino à Olga (Figura 9), que o interrompe rapidamente contrapondo outros conteúdos facilmente encontrados na internet. Nas entrelinhas, pode-se depreender a importância de se tratar de sobre o corpo, a sexualidade e as relações afetivas para a saúde emocional e o olhar crítico, para prevenir, inclusive, o assédio e a violência doméstica.

“Viver Dói”, por Fabiane Langona

Fabiane Bento Langona, gaúcha de Porto Alegre, iniciou sua carreira com quadrinhos por volta de 2005, quando trabalhou como assistente de redação e arte-finalista na revista Mad e estreou no Jornal do Brasil. Seu primeiro livro, Uma Patada Com Carinho, lançado em 2011 pela editora LeYa/BarbaNegra, recebeu o 24º Troféu HQ Mix (2012) na categoria “melhor publicação de humor gráfico”. Também publicou Algumas Mulheres do Mundo (2015, editora Mórula) e A Mediocrização dos Afetos (coleção UGritos nº 8, 2016, editora Ugra Press). Colaborou com a Folha, em 2014, primeiro no suplemento Folhateen e depois na seção Quadrinhas, dedicada ao trabalho de artistas mulheres. Durante muito tempo, assinou seus desenhos, reunidos na página "ChiqslandCORP", como Chiquinha, apelido que veio na adolescência por ser uma das poucas meninas do seu grupo de amigos, tal como a personagem do seriado Chaves. Recentemente decidiu assinar seu próprio nome (RIBEIRO, 2017).

No início de outubro de 2017, passou a publicar tiras diárias na série “Viver dói” na Folha de São Paulo, substituindo Allan Sieber[13]. As tiras trazem a marca "@chiqsland" e tratam de maneira irônica cenas comuns do cotidiano feminino, ironizando hábitos e padrões de comportamento naturalizados em nossa sociedade. Sobre o fato de estar ao lado de grandes referências do humor gráfico brasileiro e realizar o sonho de atuar como quadrinista de jornal, ela comenta: “Os quadrinhos, principalmente os humorísticos, sempre foram um território masculino. É recente que os homens não sejam os autores da piada, mas os alvos dela. Quero que a presença da mulher no campo seja normatizada” (RIBEIRO, 2017).

Viver dói
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Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 03 out. 2017. Folha Cartum.

Na tirinha de estreia (Figura 10), a artista brinca com o desafio de enfrentar a rotina da publicação de desenhos diários. Desconstrói o possível glamour da profissão de artista, o sucesso e o imaginário sobre o processo criativo, jogando-nos no espaço da intimidade da personagem, em um cenário simples de um quarto. A letra cursiva da legenda e do balão de fala, bem como a ausência de maiúsculas, reforça essa sensação de proximidade e embaralha os limites entre a narração e a ação. Em uma entrevista concedida a Rafael Spaca, para a revista Bravo!, Fabiane Langona responde como se sente em relação ao “fetiche” de ser uma mulher cartunista:

Fetiche é um termo meio dúbio. Mas acredito que há sim uma curiosidade pelo ponto de vista feminino. Não estou me referindo ao titubeante “universo feminino” que muitos costumam definir tão-somente como dramas que envolvem futilidades gerais. Me refiro às ideias, à sensibilidade… e, por que não?, à habilidade de tratar de questões um tanto caras sob uma perspectiva hormonal experiencial particular toda nossa. E me encontrei como cartunista justamente por isso, pra quebrar expectativas de todos os lados que viessem. Pra bater nesses padrões, mostrá-los ridículos. Imprimir clichês que de tão arraigados e persecutórios só vemos quando não estão refletidos diretamente no espelho. E não estamos falando aqui apenas de mulheres, e sim do humano. (SPACA, 2017)

É possível observar, de fato, que as tiras de Fabiane fogem de representações universais ou essencialistas de mulher ou do ser feminino. Maria da Conceição Francisca Pires (2019) pondera que o recurso estilístico, o traço e as temáticas de Fabiane Langona podem ser associados ao conceito de grotesco, como definido por Bakhtin, ou seja, algo que se opõe aos limites e às convenções estabelecidas, que desestabiliza a ordem social.

Chiquinha se autorrepresenta de forma grotesca – assimetria no olhar, nariz e orelhas avantajados, marcas e protuberâncias na pele – afirmando, de forma incisiva, sua contemporaneidade, afinal ela faz parte de um momento em que as categorias tradicionais de identidade (família, religião, nação) entraram em crise. Assim, ao apresentar um corpo feminino caótico e grotesco, muitas vezes próximo do abjeto, ela não só problematiza e revisa a noção de “natureza feminina”, como também lança luz sobre novas formas de subjetividades. (PIRES, 2019, p. 82-83)

As questões políticas e os rumos do país noticiados transpareceram em muitas das tiras de Langona, situados no corpo, nas relações pessoais, nas experiências cotidianas na cidade. A artista borra as fronteiras entre o público e o privado, demonstrando como a política nos atinge no dia a dia, na vida.

Um aspecto interessante que se pode inferir em seus quadrinhos é o modo como os significados dos símbolos nacionais, os sentimentos de identidade, identificação e pertencimento vão se constituindo historicamente, estando imbricados em determinados contextos sociais.

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Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06 fev. 2018. Folha Cartum.

A tira da figura 11 convida a perceber as relações entre as transformações no cenário nacional, as mudanças de comportamento e as marcas identitárias de determinados grupos. A cartunista ironiza certos padrões de beleza do corpo masculino, como a moda e o sucesso das barbas bem cuidadas, das tatuagens, e brinca com o julgamento das aparências. No primeiro quadrinho, as tentativas de adivinhar as filiações do personagem masculino expõem estereótipos da esquerda, da área de Humanas, das Artes, fazendo referências ao líder cubano Fidel Castro, aos representantes sindicalistas e, em última instância, ao próprio ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, ou Lula. O desfecho da tira traz o efeito surpresa, quando o personagem assume uma expressão mais sisuda, segurando a bandeira do Brasil e declarando sua simpatia ao MBL[14], ao candidato Bolsonaro, seguida da sugestão gráfica de palavrão. A desproporção entre o corpo musculoso e a dimensão reduzida da bandeira cria um efeito cômico e reitera a afirmação da legenda.

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Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 jun. 2018. Folha Cartum.

Os símbolos nacionais e as construções de sentido são ainda mais tensionados na tira sobre a Copa do mundo de 2018 (Figura 12), problematizando a ideia de patriotismo, de representação do Brasil e dos/das brasileiros/as. Opondo-se a uma visão de identidade fixa e homogênea, os quadrinhos demonstram como os usos dos artefatos, das roupas, da bandeira e de suas cores dependem do contexto e dos discursos associados a eles. São muitos os modos de expressar e vivenciar o pertencimento a uma determinada nação. Cores são signos plásticos que carregam valores convencionados socialmente. Em nosso país, por exemplo, o verde, o amarelo e o azul caracterizam os uniformes da seleção brasileira, mas também remetem ao período da ditadura militar e foram as cores adotadas pela ala conservadora da sociedade e pelos apoiadores de Bolsonaro durante a campanha de 2018.

Essas diferenças de significados estão marcadas no contraponto entre a expressão feliz e a explosão do contorno do balão para comemorar um gol, e a expressão corporal que se encolhe, com as costas curvadas e os olhos quase fechados, com o movimento curvo para baixo da bandeira e das bolinhas que ornamentam o arco de cabelo. As linhas de ação que marcam o ritmo comemorativo se opõem aos efeitos gráficos acompanhados da onomatopeia com a sonoridade “fuó”, criando a sensação “brochante” que contamina o balão com a sílaba que completaria a palavra golpe. A composição visual, a brincadeira com o signo verbal e o jogo de significados existente entre as sílabas criam possibilidades de se pensar as diferentes posições de sujeitos que assumimos, até simultaneamente, na sociedade. Lembram, também, a reflexão de Daniel Miller (2013), de como as coisas não só nos representam, mas nos constituem e são constituídas em nossas experiências cotidianas.

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LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 7 out. 2018. Folha Cartum.

Fabiane Langona zomba de algumas situações comuns entre os eleitores que se preparavam para as manifestações, ao mesmo tempo em que critica os posicionamentos machistas, a vigilância dos corpos, a opressão psicológica e o assédio contra as mulheres.

De acordo com Maria da Conceição Francisca Pires,

a padronização e a normatização do corpo feminino constituem importantes dispositivos de poder. Esse tema é colocado como central nas histórias de Chiquinha, corroborando com a crítica feminista ao sexismo de gênero, ao machismo e aos padrões normativos e convidando seus leitores e leitoras a produção de um riso também feminista. (PIRES, 2019, p. 87)

A reação da personagem feminina (Figura 13) e sua alteração de comportamento refletem-se na mudança da expressão do rosto, de espanto à indignação, no movimento corporal, que sugere dar as costas em retirada, na troca de roupa, com a inscrição da campanha «#ele não»[15] e com a cor lilás que simbolizava as manifestações feministas e de debates sobre gênero. A caracterização do personagem masculino, com o exagero dos traços na expressão facial, entre a raiva e a loucura, ganha uma dimensão de paródia política no segundo quadrinho. Além da mensagem violenta, o uso de letra em caixa alta no balão de fala infere hierarquia gráfica e autoritarismo, e os dedos apontados das mãos evocam o gesto de armas, popularizado nas mídias por Bolsonaro e seus seguidores. A linguagem chula no desfecho da tira aumenta o peso da irracionalidade apontada e o caráter grotesco da situação.

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Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 out. 2018. Folha Cartum.

O complexo contexto que levou a um acirramento da opinião pública envolvia a falta de representatividade política, a crise provocada pelo desaceleramento da economia, o crescente desemprego, as ideias conservadoras e moralistas pautadas pela bancada evangélica, a circulação de notícias falsas em massa e a radicalização dos discursos de ódio, como o de Jair Bolsonaro (PSL). Além disso, muitas estratégias controversas da Operação Lava-Jato nas investigações sobre a corrupção da base dos governos de Dilma Rousseff e Lula, acabaram por alimentar um sentimento antipetista que dividiu famílias, amigos, casais. Essa polarização entre partidos de esquerda e partidos de extrema-direita, durante a campanha presidencial de 2018, está representada na tira da figura 14. A separação entre os dois quadrinhos é bem marcada por uma divisória cinza, pelas cores das roupas e bandeiras. À esquerda, personagens masculinos barbudos e personagens femininas são caracterizados como petistas ou simpatizantes às lutas de trabalhadores e trabalhadoras. À direita, destacam-se dois personagens masculinos, sem barba, representando os bolsonaristas ou apoiadores das pautas mais conservadoras[16]. A presença do celular para fazer selfies e postar nas redes durante as manifestações passou a ser uma prática corriqueira de ambos os lados.

Viver dói
15
Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 out. 2018. Folha Cartum.

O cenário de intolerância, conservadorismo e a pretensa busca de moralidade na política foram tratados de forma contundente por Fabiane, tornando implicada a luta feminista pela autonomia das mulheres e pelo respeito aos corpos. Na figura 15, vemos como a cartunista ironiza os exageros da polarização, representando a irracionalidade dos eleitores bolsonaristas, as ofensas, ataques pessoais, as visões estereotipadas, os discursos de violência e ódio que tomaram conta das redes sociais e das ruas. Seus desenhos costumam mostrar pelos, fluidos e situações inusitadas da personagem, como neste caso, em que a mancha de sangue é traduzida como signo comunista. O absurdo da cena discute como o assédio político alcança os recônditos mais íntimos, traduz-se no desprezo e na discriminação dos corpos femininos. O efeito cômico de considerar tudo que é vermelho como símbolo da esquerda denuncia o esvaziamento das pautas e debates políticos. Fabiane parece atualizar as referências aos “movimentos de contracultura e ao lema ‘O pessoal é político’, tendo como foco principal os debates sobre corpo, sexualidade e política.” (CRESCÊNCIO, 2016, p. 111).

Viver dói
16
Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 out. 2018. Folha Cartum.

A postura feminista da personagem passa pela defesa e respeito às diferenças, pela existência dos mais variados tipos de feminilidades e pelo direito das pessoas serem como quiserem ser. Há uma referência a afirmações que circulavam nas redes, condenando as reivindicações feministas (sobretudo o aborto), definindo feminismo com conotações pejorativas, em oposição à ideia de ser feminina, associada a abstrações como delicadeza, fragilidade, beleza, sensualidade. O simbolismo das cores dos quadrinhos, das expressões faciais e da gestualidade do corpo é fundamental nessa tira. As mãos cruzadas em frente ao coração, os olhos fechados, a roupa sexy e o fundo rosa evocam o estereótipo da jovem romântica, sensível, delicada. Já o gesto do braço esquerdo erguido, com a mão fechada – símbolo de enfrentamento e resistência –, o lenço roxo no pescoço e o fundo lilás convidam para a luta pelos direitos de todos/todas.

Viver dói
17
Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 out. 2018. Folha Cartum.

A relação entre o sobrenome de Michel Temer e o verbo serviu de inspiração para muitas piadas e jogos de palavras a respeito dos atos presidenciais. A tira brinca com o significado ambíguo de “nada a Temer”, tanto no sentido de não reconhecer a legitimidade de seu mandato, como no sentido de não ter medo. É difícil precisar como ou quando começaram as representações de Temer como vampiro. Mas, as imagens de parasita e de Drácula se multiplicaram nos desenhos de humor e se alastraram pelas redes sociais. Quatro dias antes da eleição de Jair Bolsonaro, do PSL, Fabiane Langona fez uma caricatura de Temer (Figura 17), de frente para o leitor/a leitora, ajoelhado dentro de um pentagrama, com um sorriso sádico e olhar sinistro, sugerindo que o pior ainda estava por vir. A bandeira do Brasil ao lado e as cores das velas indicam a filiação partidária de quem seria o sucessor na presidência.

Viver dói
18
Viver dói
LANGONA, Fabiane. Folha de S. Paulo, São Paulo, 31 out. 2018. Folha Cartum

Após o resultado da eleição para presidente, em 28 de outubro de 2018, com a vitória do candidato da extrema direita, Fabiane Langona (Figura 18) conjugou a data de Halloween e do dia das bruxas com as comemorações pela nova etapa da política brasileira. De modo irônico e crítico, essa tira de um único quadro parece ilustrar o fato de que

cada fase da globalização capitalista, incluindo a atual, vem acompanhada de um retorno aos aspectos mais violentos da acumulação primitiva, o que mostra que a contínua expulsão dos camponeses da terra, a guerra e o saque em escala global e a degradação das mulheres são condições necessárias para a existência do capitalismo em qualquer época. (FEDERICI, 2017, p. 27).

A personagem, fantasiada de bruxa, ao lado de um gato preto, em meio às chamas coloridas, é colocada no centro da composição. A figura da bruxa, segundo Silvia Federici, era “encarnação de um mundo de sujeitos femininos que o capitalismo precisou destruir: a herege, a curandeira, a esposa desobediente, a mulher que ousa viver só, a mulher obeah que envenenava a comida do senhor e incitava os escravos à rebelião.” (FEDERICI, 2017, p. 23-24). A ironia do desejo de “Feliz Idade média” perde-se ao som dos gritos de “Glória a Deus”. Não há cor nas bandeiras, nas mãos estendidas, no cenário, sugerindo, graficamente, o início de um período cinzento.

Considerações

Em um contexto econômico neoliberal, de um golpe conservador e autoritário, as tiras de Thaïs e Fabiane estabeleceram algumas proximidades com o humor gráfico veiculado pela imprensa feminista brasileira do período da ditadura, entre os anos 1970 e 1980. Trataram de assuntos sérios com “um humor que ameaça a ordem vigente, desestabiliza a norma, desafia a autoridade, reforça a importância de se repensar uma estrutura política, social e cultural que é baseada na evidente desigualdade entre homens e mulheres.” (CRESCÊNCIO, 2016, p. 120).

Entretanto, nos quadrinhos estudados, a tentativa de desconstruir o modo como as marcações identitárias, as classificações e hierarquias entre homens e mulheres foram naturalizadas, dentro de um esquema heteronormativo e de uma conjuntura de dominação, apropriou-se da linguagem das mídias e das redes sociais, tendo como foco o próprio corpo, a subjetividade e a compreensão da alteridade. Propuseram opiniões e olhares dissidentes.

As tiras de Thaïs apoiam-se mais nos textos, pois sua personagem usou monólogos, diálogos e reflexões intelectuais como tática de convencimento, enfatizando a importância de repensar os argumentos, de analisar os dados e de multiplicar as visões de mundo. Olga, a sexóloga, abordou temas delicados, sérios, provocando questionamentos, deixando espaço para participarmos dos debates. As personagens de Fabiane, em seus traços exagerados e grotescos, atingiram-nos como um soco no peito, nas questões vitais, entre o nonsense e o escatológico, representando realidades mais cruas.

É possível constatar alguns pontos em comum nas tiras dessas duas quadrinistas, como o protagonismo das personagens femininas, a ironia, o diálogo com debates feministas, um posicionamento mais alinhado à esquerda, uma postura de combate constante ao machismo e a toda forma de opressão. De um modo geral, os personagens masculinos apresentaram comportamentos mais conservadores, autoritários ou alienados, dando a deixa para uma contra argumentação, para ampliar as perspectivas.

Nas estratégias discursivas encontradas nessas narrativas sequenciadas, percebe-se o uso de metáforas visuais e verbais, cuja dinâmica e ambiguidade implicam um complexo processo de interações intertextuais. Na interpretação dos acontecimentos do governo de Temer, as quadrinistas buscaram inspiração na imprensa, no cotidiano das cidades e nas experiências pessoais, construindo outras narrativas, do ponto de vista das lutas e das práticas de resistência das mulheres.

Os quadrinhos assumiram, em muitos momentos, características e funções de charges, ou seja, de construir um posicionamento e uma opinião sobre os fatos e as notícias, criticar e denunciar o desvario das decisões políticas, provocar um estranhamento. Muitas tiras fizeram referência diretamente a um personagem, fato ou acontecimento político, com uma delimitação temporal bem situada. Logo, para que o efeito humorístico acontecesse era importante que o repertório e o conteúdo ironizado fossem compartilhados. Nesse sentido, as tiras pediam leitores/leitoras atualizados/as e atentos/as às notícias e aos rumos políticos, agindo em cumplicidade e coautoria.

Ao definir o gênero cômico-sério, Bakhtin (1981) destaca o efeito da contemporaneidade inacabada e os desvios valorativos e temporais de personalidades históricas, quando o artista se apoia em suas experiências compartilhadas, nos repertórios comuns e é, ao mesmo tempo, interpelado pela pluralidade e pela variedade de vozes circulantes.

As representações estão ligadas a estratégias e práticas sociais que se constituem como uma arena de disputas, em meio às tensões e contradições da sociedade. As representações não são neutras, estão “sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e de dominação.” (CHARTIER, 1988, p. 17).

No lugar crítico, de indignação e de vigilância desses quadrinhos frente ao golpe, sobretudo a partir da campanha eleitoral presidencial, no segundo semestre de 2018, desenhava-se a luta pela liberdade de expressão, pelo respeito à constituição, à diversidade cultural, étnica, racial e de gênero, a defesa à preservação do meio ambiente.

As tiras colocaram as questões universais sob rasura, no plano concreto e prático da vida, evidenciando a impossibilidade de existir apenas um pensamento monológico, centralizador e autoritário. O riso provocado por essas duas autoras é dolorido, deslocando-nos de nossas zonas de conforto, inquirindo-nos sobre nosso papel na história contemporânea de nosso país e das lutas feministas.

Referências

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ALVES, Giovanni. O golpe de 2016 no contexto da crise do capitalismo neoliberal. Blog da Boitempo, [São Paulo], 8 jun. 2016. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2016/06/08/o-golpe-de-2016-no-contexto-da-crise-do-capitalismo-neoliberal/. Acesso em: 15 set. 2019.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981.

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JIMÉNEZ, CARLA et al. Mulheres quebram o jejum das ruas no Brasil com manifestações contra Bolsonaro. El país, [S.l.], 30 set. 2018. Eleições 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/30/politica/1538270819_523141.html. Acesso em: 22 ago. 2019.

MARTIN, Maria. Não é uma banda de indie-rock, é a vanguarda anti-Dilma. El País, [S.l.], 12 dez. 2014. Manifestações anti-Dilma. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/12/politica/1418403638_389650.html. Acesso em: 15 jan. 2020.

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RAMOS, Paulo. A leitura dos quadrinhos. São Paulo: Contexto, 2009.

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SALIBA, Elias Thomé. Raízes do riso. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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SOARES, Nana. Em números: A violência contra a mulher brasileira. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 07 set. 2017. Disponível em: https://emais.estadao.com.br/blogs/ nana-soares/em-numeros-a-violencia-contra-a-mulher-brasileira/. Acesso em: 22 jan. 2020.

VIANA, Rodolfo. Thaïs Gualberto, criadora de 'Olga, a Sexóloga', assume espaço de Angeli. Folha de S. Paulo, São Paulo, 8 maio 2016. Ilustrada. Disponível em:

WILLIAMS, Raymond. Cultura e materialismo. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

Notas

[1] Folha Cartuns / Cartuns Diários da Folha de S. Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/cartum/cartunsdiarios/. Acesso em: 22 ago. 2019.
[2] A Folha existe desde 1921 e a versão online, criada em 1995, publica cerca de 160 notícias por dia. “O site da Folha conta com uma audiência média de 28 milhões de visitantes únicos e 200 milhões de páginas vistas por mês, na média do ano de 2018, segundo o Google Analytics”. Embora a linha editorial tenha como premissa “a busca por um jornalismo crítico, apartidário e pluralista”, o jornal assumiu posturas bastante controversas durante a ditadura e defende medidas econômicas neoliberais, colocando-se ao lado das elites conservadoras e autoritárias do país. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/institucional/linha_editorial.shtml?fill=2. Acesso em: 22 jan. 2020.
[3] No período estudado e nesta seção do jornal foram encontradas apenas essas duas autoras. Há uma participação de Laura Lannes na sessão “Quadrão”, publicada às segundas-feiras, que apresenta uma história única, de cartunistas como Laerte, Angeli, Luiz Gê, Ricardo Coimbra, entre outros. Laura Lannes é uma ilustradora e cartunista carioca, formada em Artes Visuais e vive em Nova Iorque. Em 2018, publicou John, Dear pela Retrofit Comics. As tiras de Laerte Coutinho (1951) não entraram nesta análise em função de ser uma cartunista consagrada e com uma carreira consolidada desde os anos 1980, com publicações de sucesso em revistas como Chiclete com Banana e a série Piratas do Tietê, por exemplo.
[4] Folha de S. Paulo. Disponível em: https://www.folha.uol.com.br/. Acesso em: 22 ago. 2019.
[5] Em 2010, formou o Coletivo WC com outros quadrinistas paraibanos, com quem publicou em 2012 a primeira edição da revista Sanitário. Teve trabalhos selecionados para as edições de 2012 e 2015 da exposição “Batom, Lápis e TPM”, organizada pelo Salão de Humor de Piracicaba. Publicou tirinhas no jornal A União entre 2013 e 2014. Em 2014, tornou-se Coordenadora de Quadrinhos da Fundação Espaço Cultural da Paraíba e participou de mesa-redonda no 1º Encontro Lady’s Comics, um evento criado para discutir a representação feminina nos quadrinhos, realizado na cidade de Belo Horizonte (GUEDES, 2016).
[6] Arnaldo Angeli Filho é um dos mais importantes chargistas e quadrinistas brasileiros. Nascido em São Paulo, em 1956, é autor de personagens famosos como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Mara Tara, Wood & Stock, entre outros. Sua revista de grande sucesso, Chiclete com Banana, foi lançada em 1983 pela Circo Editorial.
[7] Henrique de Souza Filho (1944-1988) foi jornalista, escritor, chargista. A partir de 1969 colaborou com o Jornal do Brasil e o Pasquim. Nos anos 1970, publicou a revista Fradim, com os personagens fradinhos Cumprido e Baixim, a Graúna, o Bode Orelana, o nordestino Zeferino, com traços rápidos, quase caligráficos e fortes críticas à ditadura.
[8] Provavelmente seja uma referência às vaias dadas pela ausência da deputada Clarissa Garotinho (PR-RJ) que estava de licença-maternidade.
[9] A transmissão ao vivo da votação do impeachment foi feita por todos os principais canais de TV aberta, exceto o SBT. A audiência da rede Globo, por exemplo, apontou picos de 37 pontos, o que representa cerca de 7 milhões de casas acompanhando a votação. Foram cerca de 500 minutos sem interrupções com a cobertura direto da Câmara dos Deputados (MENDONÇA, 2016).
[10] Para Beatriz Vargas Ramos e Luiz Moreira, tratou-se de um golpe parlamentar já que Dilma não foi acusada de “ter cometido crime de corrupção, não responde por desvios de recursos, por enriquecimento ilícito, por sonegação tributária, por manter contas no exterior, por lavagem de dinheiro, ou por participação em associação criminosa, ou ainda por recebimento de propina e doações ilegais”, gerando ainda mais polêmica sobre seu impeachment (RAMOS; MOREIRA, 2016, p. 57).
[11] O Brasil registrou um estupro a cada 11 minutos em 2015, de acordo com os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2016. Havia uma média de 10 estupros coletivos notificados todos os dias no sistema de saúde do país, pelos dados do Ministério da Saúde de 2016 (SOARES, 2017).
[12] Mortadela é um termo depreciativo usado para descrever os simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e às ideologias mais à esquerda. Refere-se ao hábito de operários e trabalhadores comerem pão-com-mortadela, devido ao baixo custo. Petralha é um termo pejorativo para associar o PT ao comportamento dos irmãos Metralha, famosos ladrões de Patópolis dos quadrinhos de Tio Patinhas, da Disney. Coxinha é uma gíria para descrever pessoas da classe média com posturas conservadoras.
[13] Allan Sieber nasceu em Porto Alegre, em 1972. Trabalha com animação, quadrinhos e ilustrações e já foi premiado várias vezes com o Troféu HQmix, como em 2010, na categoria Melhor Publicação de Humor pelo livro É Tudo Mais ou Menos Verdade - O Jornalismo Investigativo, Tendencioso e Ficcional de Allan Sieber.
[14] O Movimento Brasil Livre surgiu ao final de 2014 com a organização de duas manifestações nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul em apoio às investigações da Operação Lava-Jato e por mais liberdade de imprensa. É antipetista, posicionado à direita, com visões políticas e sociais conservadoras, apesar de ser formado em sua maioria por jovens com menos de trinta anos. Realizou protestos a favor do impeachment de Dilma Rousseff (MARTIN, 2014).
[15] Movimento iniciado nas redes sociais com campanhas e manifestações populares lideradas por mulheres que ocorreram em diversas regiões do Brasil e do mundo, com o objetivo de protestar contra a candidatura à presidência da República do deputado federal Jair Bolsonaro. A marcha do dia 29 de setembro teve a maior concentração popular durante a campanha da eleição presidencial no Brasil em 2018, com cerca de 500 mil pessoas, segundo os organizadores do evento, e aconteceram em mais de 60 cidades de todos os estados do país e também em cidades como Nova Iorque, Barcelona, Berlim, Lisboa e Paris (JIMÉNEZ, CARLA et al, 2018).
[16] Essas imagens lembram algumas fotos feitas durante as manifestações do impeachment, em 2016, quando, pela primeira vez na história de Brasília (DF), um muro de metal dividiu ao meio a Esplanada dos Ministérios, tentando manter a segurança de grupos de posições contrárias, simbolizando a divisão ideológica do país (RAMALHOSO, 2016).
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