Resenhas

Perdidos na mudança?

José Costa
Instituto Federal de Minas Gerais, Brazil

Perdidos na mudança?

Sociedade e Estado, vol. 34, núm. 1, pp. 309-314, 2019

Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília

ABRANCHES Sérgio. A Era do Imprevisto: a grande transição do século XXI. 2017. São Paulo. Companhia das Letras

Recepção: 31 Março 2018

Aprovação: 20 Novembro 2018

A considerável ampliação da presença dos meios digitais de interação social em nossas sociedades aumentou a velocidade e a possibilidade de trocas de informações. Mais que o advento da telefonia em outros tempos, agora recebemos informações diversificadas, sobre os mais variados temas, que nos afetam de maneiras ainda não devidamente compreendidas. Um dos elementos que nos chegam por tais meios são comparações constantes entre nossos tempos atuais e um passado nem tão distante. Uma comparação popular nos últimos tempos envolve nossas atuais práticas e elementos culturais com aqueles de outros tempos. Nos chamados “memes” - construções gráficas que trazem algum conteúdo de informação -, vemos a comparação entre o que é “raiz”, tradicional, estável, organizado e seguro, e o que é “Nutella”, modismo desnecessário de uma inovação preguiçosa, enquadrado na figura de um doce industrializado que tenta realizar um duplo mais sofisticado de nossos doces caseiros. A comparação envolve vários elementos de nosso modo de vida - da chuteira preta do jogador “raiz”, à chuteira colorida do jogador “Nutella”, da mãe “raiz” que promove a educação das crianças de modo enérgico, e a mãe “Nutella”, que tenta promover tal educação em outras bases.

Por trás do riso fácil proporcionado pela comparação ao modo como fazemos as coisas hoje e ontem está um processo de transição intenso em nossas sociedades e os modos de vida contemporâneos. O processo de globalização, alimentado por mudanças tecnológicas intensas (entre outros fatores) e retroalimentando-se, promoveu mudanças culturais radicais nos agrupamentos sociais. Os estranhamentos exemplificados pela comparação dos memes não são mais do que uma reação promovida pelas rápidas alterações em nossa cultura, que muitas vezes acabam por promover tensões internas nas próprias sociedades. Conflitos entre o novo e o nem tão velho são cada vez mais recentes e constantes, com exemplos concretos nos hábitos de consumo, nas estruturações familiares, nas relações políticas, nas formas e nos meios da educação.

São essas mudanças, seus modos, peculiaridades e significados que o sociólogo Sérgio Abranches busca compreender em A Era do Imprevisto: a grande transição do século XXI, publicado em 2017. O autor publica trabalhos que abordam a relação do indivíduo com a política nas democracias liberais contemporâneas, as questões ambientais e seu impacto social e também é comentarista político. Escrito sob a forma de ensaio, A Era do Imprevisto é um interessante exercício reflexivo, com uma variedade de referências acadêmicas e literárias, compondo um quadro informativo para nossos tempos de mudanças culturais e sociais. De maneira geral, o autor defende que vivenciamos uma transição entre os modos e organizações de séculos diferentes, e ao pensar a transição, pensamos em nós mesmos, uma vez que estamos envolvidos nesse movimento. Por outro lado, parte considerável da compreensão da transição passa também por entender o esgotamento de paradigmas e modelos dos modos como vivemos e nos organizamos, o que pode gerar reações conservadoras e extremistas, oriundas de todos os espectros políticos.

Para efeitos de organização de nossa análise do ensaio de Abranches, podemos dividir as 49 seções que o compõe em quatro momentos. No primeiro temos uma descrição da natureza da transição, isto é, os motivos pelos quais podemos compreender a contemporaneidade como um tempo de mudanças. Podemos observar tais mutações em nossas práticas mais cotidianas (“contratar um serviço”), como as novas possibilidades de interação social (“mudanças em nossos costumes e comunidades”) e processos econômicos básicos (“pagar uma conta”). Parte dessa intensa movimentação se deve ao desenvolvimento tecnológico, que também nos disponibiliza grandes quantidades de informação. Nos “afoga em informação, mas deixa famintos por sabedoria”, conforme a apropriação que Abranches faz da análise do biólogo Edward O. Wilson.

Abranches recorre aos modelos de Zygmunt Bauman e Ulrich Beck para evidenciar o caráter “líquido” e “urgente” de nossa contemporaneidade, que aponta para uma nova realidade que ainda não é inteiramente visível. A “grande transição” na qual estamos imersos produz medo e insegurança, com consequências políticas e sociais, situação cujo reflexo podemos observar nas escolhas dos indivíduos em nossas democracias em crise. Um elemento que contribui para esse cenário é a ausência de experiência em relação a essa mudança tão intensa, como vivemos agora. Em tempos de pessimismo e ansiedade quanto ao trabalho e à política, um futuro estranho nos surge na imaginação e pensamos cada vez mais em distopias políticas e tecnológicas em lugar de utopias da mesma natureza. Para além do ceticismo dessa descrição, Abranches chama a atenção para o papel dessa mesma utopia em tempos de transição. Mais que um ideal “definitivo”, pode ser um ideal “regulador” em nossos tempos, onde a esperança também é fluída.

Os diferentes efeitos da transição podem ser alocados em três instâncias:

Entre mais instâncias, em meio à grande transição, estamos nós, humanos, lidando com novos cenários que nós mesmos criamos e que nos parecem arriscados. Muitas vezes, o autor soa alarmista para defender seu ponto e aqui podemos já questionar sobre as possibilidades de adaptação social aos novos cenários. Mesmo com insegurança e riscos, algumas tentativas de compreensão parecem acontecer, como no caso da preocupação que já mantemos em relação à substituição dos trabalhadores por máquinas e também em relação aos efeitos políticos das relações sociais digitalizadas. No entanto, Abranches tem razão quando aponta que ainda não temos respostas claras para tais mudanças, que ocorreram de forma abrupta e acabam por nos escapar.

Ao tratar exclusivamente do que chama de “pandemia digital”, o autor explora as possibilidades abertas pelo acesso à informação na ciberesfera, mas lembra que isso também gera efeitos de natureza dúbia. Na política, por exemplo, o indivíduo manifesta-se nas redes sociais, discutindo sobre os rumos das sociedades, porém, em interações sociais isoladas, sem contato com outras visões que não combinam com seu posicionamento, o que provoca reações e emoções intensas. Ainda não sabemos os efeitos disso, pois trata-se de um novo cenário. A “polis digital” é intensa, e mudou completamente as relações do indivíduo com o político. No entanto, o rumo dessa mudança ainda é desconhecido. Um dos riscos é tornar o ambiente político próprio para extremismos e violências devido ao caráter unilateral da experiência sociopolítica.

Num segundo momento do ensaio - conforme nossa divisão -, Abranches detalha a transição sociopolítica, abordando primeiramente seus traços econômicos. O domínio do modelo identificado como “neoliberal” torna a cenário mais instável, próprio dessa modalidade, que vê no mercado sua principal condição. Essa instabilidade atinge a vida das pessoas de maneira direta, uma vez que o constante cenário de crises afeta a todos. O próprio sistema político democrático, em sua tensão constante com o mercado, também é afetado. É nesse ponto que o autor localiza a crise das democracias contemporâneas, já que os indivíduos, perdidos entre o mercado e o Estado e atordoados pelas críticas mudanças de seu tempo já não a veem como algo seguro e necessário. Abranches especula que a saída para o revigoramento das democracias necessita de um novo projeto educacional, de caráter “neoiluminista”, e da participação dos indivíduos que, agora conectados, possibilitam novas vias de contato político. A intensa digitalização da vida social - quem diria? - pode propiciar o encontro e os debates entre os indivíduos. A polis digital, antes vista com ceticismo, passa a ser a esperança.

No que identificamos como terceiro momento do ensaio, Abranches aborda a transição socioambiental. Com o desenvolvimento e a sofisticação de nossas tecnologias, agora completamente necessárias ao nosso modo de vida, os impactos ambientais tornaram-se inevitáveis. Mesmo sob debates, as mudanças climáticas e alterações na biodiversidade envolvem de algum modo nossa ação sobre o mundo natural. Pela primeira vez, formas de vida apresentam o potencial de uma radical alteração no ambiente de forma global, com consequências ainda não conhecidas. Na grande transição, passamos a nos preocupar com isso, mas o que fazer? Somos capazes de promover alguma alteração em nossas práticas, pensando em questões ambientais? Para além do catastrofismo, o autor busca oferecer uma descrição e possíveis modos de lidar com esse importante traço da grande transição.

O autor faz uma breve análise sobre a “natureza humana”, com base em duas hipóteses evolucionistas: o modelo genético de Richard Dawkins (autor de O gene egoísta) e o modelo biossocial de Steven Rose. Defensor do modelo biossocial, por este atribuir à nossa natureza um caráter mais plástico e não determinado, em detrimento de uma visão determinista, que define uma “natureza humana” eterna e imutável, Abranches mostra não compreender o rico debate aqui envolvido. No entanto, esse debate parece deslocado em relação à finalidade da obra e destoa em relação ao restante, devido ao pequeno arcabouço teórico considerado. Abranches parece desconhecer a rica produção científica sobre as relações entre cultura e genética ao apresentar o modelo de Dawkins como “redutor”, isto é, uma explicação da humanidade com base em considerações genéticas que aponta para a existência de estruturas comportamentais inatas e imutáveis. Tal característica, segundo Abranches, tornaria inviável uma mudança de comportamento em relação ao meio ambiente. As relações entre biologia e política são necessárias e relevantes para o debate, porém é necessário um cuidado maior do que aquele oferecido por Abranches, sob o risco de simplificação e inadequação conceitual. Talvez uma análise das investigações neurocientíficas e psicológicas contemporâneas e suas implicações políticas fosse mais relevante para uma discussão sobre as mudanças sociais que vivenciamos.

Ao fazer uso da descrição de Garret Hardin da “tragédia dos comuns” - um cenário no qual a intensa exploração dos “bens públicos” leva ao esgotamento de um recurso -, Abranches mostra como nossa organização socioeconômica pode produzir um cenário parecido em termos ambientais na atualidade. Contra esse fantasma, somente um programa de formação de viés informativo e emancipatório pode oferecer novas expectativas e possibilidades, diferentemente do modelo tradicional voltado para a produção e para o consumo. A análise sobre a relação entre educação e meio ambiente leva Abranches a sugerir uma proposta bastante interessante a reconhecer nossos processos educacionais como datados e poucos efetivos em relação aos desafios da grande transição. No entanto, uma “reeducação dos desejos”, que envolva uma reflexão sobre nossas formas de consumo, sobre nossa ânsia por status e sobre o modo como lidamos como nosso “eu” não parece ser o objeto dos conteúdos que ensinamos aos nossos jovens.

Por fim, numa última parte do ensaio, Abranches aborda o mal-estar inerente à grande transição, a expectativa de que “nada será como dantes”. Política, economia, meio ambiente, educação, sociedades, costumes, “tudo em volta está deserto”, como canta Gal Costa na canção “Como 2 e 2”. Sujeitos cada vez mais ansiosos e com sua autonomia e soberania impactadas correm sérios riscos de ficar à deriva em meio à transição. As saídas possíveis envolvem a compreensão das circunstâncias e a motivação para a estruturação de novos padrões, em novos contextos e cenários. Abranches manifesta dúvidas quanto ao que virá na transição e evita exercícios de futurologia e isso é interessante, em tempos onde todos exibem opiniões e soluções fáceis para nossos difíceis problemas. Porém, mais do que nunca, o processo cooperativo envolvido nos processos deliberativos e democráticos parece essencial. Com esse processo em risco, atacado por discursos violentos e extremistas, acabamos por ficar cada vez mais perdidos na mudança.

Conforme apontamos, A Era do Imprevisto é um estimulante ensaio sociológico, que nos ajuda a compreender os desafios impostos a nós e ao nosso modo de vida nesse início de século XXI. Em meio à “grande transição” identificada pelo autor, é relevante que tenhamos consciência de nossos limites e possibilidades, frente aos novos cenários e problemas que se impõem. Para quem vivencia tais mudanças e transições e tem reticências quando ao futuro, um meme que poderia ocupar a capa do informativo e reflexivo livro de Abranches com o seguinte comunicado:

“Em caso de medo das mudanças, abra esse livro”.

Referências

ABRANCHES, Sérgio. Nem seres livres, nem cidadãos: o dilema político do indivíduo nas democracias liberais. Dados, v. 28, n. 1, p. 5-25, 1985.

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

RICHERSON, Peter; BOYD, Robert. Not by genes alone: how culture transformed human evolution. Chicago (IL): Chicago University Press, 2005.

MERTON, Robert King. Sociologia: teoria e estrutura. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

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