HOSPITALIZAÇÃO DA CRIANÇA: SENTIMENTOS E OPINIÕES DOS PAIS

HOSPITALIZATION OF THE CHILD: PARENTAL FEELINGS AND OPINIONS

Celeste Antão
Instituto Politécnico de Bragança, Portugal
Nicole Rodrigues
Instituto Politécnico de Bragança, Portugal
Filomena Sousa
Instituto Politécnico de Bragança, Portugal
Eugénia Anes
Instituto Politécnico de Bragança, Portugal
Ana Pereira
Centro de Investigação de Montanha, Portugal

HOSPITALIZAÇÃO DA CRIANÇA: SENTIMENTOS E OPINIÕES DOS PAIS

International Journal of Developmental and Educational Psychology, vol. 2, 1, pp. 125-132, 2018

Asociación Nacional de Psicología Evolutiva y Educativa de la Infancia, Adolescencia y Mayores

Resumo: Introdução: A doença e a hospitalização constituem uma situação de crise tanto para a criança como para a família pois implicam alterações financeiras, psicológicas, relacionais e sociais. Objetivos: Conhecer os sentimentos e opiniões de pais face à hospitalização de filhos numa unidade de pediatria e identificar os profissionais que mais os apoiaram nesse período. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, no qual foi utilizada uma amostra de 33 pais/acompanhantes. Após autorização do Conselho Diretivo do Hospital e o Consentimento informado aos inquiridos foi aplicado um questionário aos pais/acompanhantes de crianças hospitaliza- das no serviço de pediatria no Centro Hospitalar Trás-os-Montes e Alto Douro - Vila Real. Resultados: A idade dos participantes está compreendida entre os 21 e os 46 anos de idade, sendo que a maioria tem 30 e 35 anos. 87,9% das crianças estava acompanhada pela mãe e 15,2% das crianças já tinham sido internadas entre 3 (6,1%) a 5 vezes (9,1%). Durante o internamento, os pais vivenciaram sentimentos ambivalentes. Os sentimentos negativos mais expressivos foram a ansiedade, a tristeza e o medo. Evidenciam-se como sentimentos positivos a esperança, a segu-rança e o interesse. Verificamos que o internamento dos filhos implicou adaptação dos pais a novas rotinas (93,9%), bem como a mudanças na vida social e laboral. Os inquiridos consideram a sua relação com o enfermeiro como boa (48,5%) e 36,3% de muito boa. Salientamos que 9,1% apenas a considerou de suficiente. Conclusão: É fundamental numa situação de hospitalização compreender os sentimentos da família, onde os profissionais de saúde, nomeadamente os enfermeiros, devem contribuir para o desenvolvimento de estratégias que permitam à família e doente uma melhor adaptação à situação vivida.

Palavras-chave: hospitalização de crianças, sentimentos, pais.

Abstract: Introduction: Illness and hospitalization constitute a crisis situation for both the child and its family as it implies financial, psychological, relational and social changes. Objective: To know the feelings and opinions of the parents towards the hospitalization in a Pedriatrics unit) Method: It’s a descriptive study, in which was used a 33 sample of parents/other visitant. After the authorization of the Hospital’s Director Council and the inquired informed consent, we proceeded to collect data by conducting a questionnaire at the pediatric unit of the Central Hospital Trás-os- Montes e Alto Douro – Vila Real. Results: The age of the inquired is comprehended between the 21 and 46 years old, and its majority is 30 and 35 years old. 87, 9% of the childred were accompanied by its mother and 15,2% of the children had already been hospitalized from 3 (6,1%) to 5 times (9,1%). During the hospitalization, the parents experienced ambivalent feelings. The most expressive negative feeling were anxiety, sadness and fear. We verified that the children’s hospitalization has forced the parents to adapt to a new routine (93,9%), as well as changes in their social and work life. The inquired considered their relation with the nurse as good (48,5%) and very good (36,3%), with only 9,1% of the inquired considering it as sufficient. Conclusion: t’s crucial in a situation of hospitalization to comprehend the family feelings, where the health professionals, mostly the nurses, must contribute to the development of stratigies that will allow the family and the patient to adapt to the situation.

Keywords: nursing, parenting, feelings, hospitalization of children.

INTRODUÇÃO

A doença e a hospitalização provocam inevitavelmente sofrimento no seio das famílias podendo repercutir-se negativamente no desenvolvimento da criança que vivenciou este período. O internamento de uma criança é um acontecimento muito preocupante e traumático expondo a criança a uma enorme tensão emocional acompanhada por muita angústia.

Os pais têm a difícil tarefa de lidar com as suas próprias preocupações e medos sobre o internamento, proporcionando apoio e conforto ao seu filho. A dor e o sofrimento de uma criança são sentimentos difíceis de suportar para a maioria dos pais, sentindo-se impotentes, culpados e frustrados (Children & Boston 2003).

Os pais experienciam sentimentos de revolta, tristeza, culpa e sensação de perda, provocados pela separação imediata, inevitável numa situação de internamento. O sentimento de medo é frequentemente associado às intervenções médicas, cirúrgicas de grande risco e medo da morte. Os pais sentem a hospitalização do filho como uma separação, uma quebra na organização do quotidiano (deslocação, despesas, faltas ao trabalho) e é acompanhada por sentimentos capazes de afetar o desempenho do papel parental (Hesbeen, 2000; Dionisio e Escobar, 2002; Jorge, 2004).

Reis (2007) salienta que o modo como a família se adapta à situação de ter uma criança doente e hospitalizada, depende dos seus recursos intrínsecos e ainda de suportes familiares e sociais disponíveis. A atenção dada pela equipa de saúde passa por conhecer os medos, dificuldades, sentimentos e necessidades da família respeitando o seu conhecimento sobre a criança e o seu direito a participar na tomada de decisões e no processo de prestação de cuidados.

O acompanhamento do filho é feito por incorporação de diferentes atividades no seu papel de pais. Estes acompanham e participam nos cuidados para proporcionar bem-estar, e segurança emo- cional mas também para afastar o tédio dos dias passados no hospital e serem seus intérpretes junto dos profissionais. A interação entre os pais e enfermeiros é um aspeto essencial na minimização desta preocupação (Machado, 2010).

METODOLOGIA

O estudo realizado é de natureza quantitativa e qualitativa de carácter observacional descritivo. Traçámos como objetivos do estudo: Conhecer os sentimentos e opiniões de pais face à hospitalização de filhos numa unidade de pediatria no Centro Hospitalar Trás-os-Montes e alto Douro de Vila Real e identificar os profissionais que mais os apoiaram nesse período. O instrumento de colheita de dados foi um questionário. A recolha de dados ocorreu entre os meses de dezembro 2015 e janeiro 2016. Estabeleceu-se como critério de inclusão, as crianças permaneceram no serviço de inter- namento no mínimo 48h.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A amostra em estudo (quadro1) apresenta maioritariamente (63,7%) uma idade compreendida entre os 30 e 40 anos. Em relação ao estado civil dos inquiridos, a maioria (75,8%) são casados e 24,2% são solteiros (12,1%) e divorciados (12,1%). No que diz respeito às habilitações literárias uma percentagem representativa (33,3%) tem o ensino secundário, 24,3% da amostra é licencia- do (18,2%) e 6,1% tem mestrado . Salientamos que 15,2% tem apenas o 2º ciclo. Quanto ao número de filhos 51,5% da amostra tem 2 filhos e 18,2% tem 3 a 4 filhos.

Caracterização sociodemográfica dos cuidadores: idade dos pais; número de filhos; estado civil e escolaridade.
QUADRO 1
Caracterização sociodemográfica dos cuidadores: idade dos pais; número de filhos; estado civil e escolaridade.

Foram vários os motivos que levaram ao internamento das crianças, destacando-se as infeções respiratórias como as bronquiolites (27,3%) e as pneumonias (6,1%), dados que corroboram os resultados apresentados no Plano Nacional de Saúde 2012-2016, relativamente aos principais motivos de internamento na idade pediátrica (Quadro 2).

No que diz respeito à questão “quem acompanha na maioria das vezes a criança no internamento?”, verificamos que a mãe (87,9%) continua a ser o elemento da família que acompanha os filhos nestas situações. Embora já se verifique que esta responsabilidade começa a ser partilha por ambos os progenitores (12,1%).

Bowlby (1984) realçou a importância da continuidade de cuidados maternos durante a hospitalizacao, considerando que a sua carencia se repercute no desenvolvimento infantil. Tal como refere Geller,, in Quiles et Carrillo (2000) p. 20, a crianca tem uma representacao do hospital como “um pais estrangeiro, a cujos costumes, linguagem e horarios deve habituar-se” onde o acompanhamento parenteral é fundamental.

Das 33 crianças internadas (63,6%) eram do sexo masculino, 72,7% tinham menos de dois anos e 21,2% apresentavam idade superior a seis anos. De realçar que 63,6% das crianças internadas, já tinham tido internamentos pelo menos uma vez e 9,1% já tinham sido internadas pela quinta vez ou mais.

Dados relativos à criança: acompanhante/sexo e idade/patologia e nº de internamentos
QUADRO 2
Dados relativos à criança: acompanhante/sexo e idade/patologia e nº de internamentos

Quando se pedia para classificarem as condições proporcionadas pelo hospital para o acompanhante poder ficar com a criança no internamento, a maioria (60,6 %), dos participantes respondeu “Boas”, 30,3% responderam ser “Muito boas” e 9,1% dos inquiridos consideraram ser “razoáveis”. Os estabelecimentos de saúde devem proporcionar condições para a permanência, em tempo inte- gral dos pais/ acompanhantes, nos casos de internamento de crianças e adolescentes. No entanto, verifica-se que, a família, muitas vezes, não tem as condições ideais pois, as normas e rotinas das unidades hospitalares, geralmente, são elaboradas em função das necessidades dos serviços onde os horários de alimentação e outros não são adequados de modo a favorecer o familiar cuidador (Gomes, Erdmann,2005)

 Condições proporcionadas aos acompanhantes
FIGURA 1
Condições proporcionadas aos acompanhantes

Da análise das respostas da questão aberta sobre os sentimentos vivenciados pelos pais durante o internamento dos filhos, emergiram duas categorias: sentimentos negativos e positivos. Os sentimentos negativos mais expressivos manifestados pelos pais são a ansiedade e a tristeza, seguida do medo. A esperança e a segurança são sentimentos positivos relatados pelos pais das crian- ças perante a hospitalização dos seus filhos. É de realçar que 11 dos participantes manifestam terse sentido seguros, 9 expressaram gratidão e 6 com interesse durante o internamento dos filhos.

Hockenberry et al (2006), sustentam que quando uma criança é hospitalizada, é comum os pais manifestarem sentimentos de medo, ansiedade e frustração que podem estar relacionados com a gravidade da própria doença e com o tipo de procedimentos envolvidos no tratamento. A frustração está frequentemente relacionada com o facto de não se sentirem desejados pela equipa, com o des- conhecimento de normas e rotinas da instituição e com a falta de informação acerca de procedimentos e tratamentos.

Os achados reforçam a ideia de que os profissionais deverão estar preparados para reconhecerem os pais como seres também vulneráveis, permitindo que estes se sintam seguros e parceiros no cuidado à criança, tornando o atendimento humanizado e permitindo uma boa qualidade e continuidade de cuidados após o regresso ao domicílio.

Neste estudo verificou-se que o internamento dos filhos implicou adaptação dos pais a novas rotinas (93,9%),mudanças na vida social e laboral. Como se pode observar pelas respostas apre- sentadas no quadro 4, 33,3% dos inquiridos apresentam saudades dos outros filhos e 39,4% real- ça o absentismo no trabalho. Para Machado (2010) as preocupações profissionais, a doença do filho, a presença em ambiente que não lhes é familiar e que não conseguem controlar, justificam situações de ansiedade vividas pelos pais. Reis (2007, p. 24) defende que perceber o papel paren- tal significa “estar atento ao conflito e angústia que os pais podem desenvolver tendo em conta a mudança sentida no seu papel em resposta a fatores como a doença e a hospitalização da criança”.

Sentimentos vivenciados pelos pais
QUADRO 3
Sentimentos vivenciados pelos pais

Mudanças com o internamento do filho
QUADRO 4
Mudanças com o internamento do filho

Apoio dos profissionais de saúde Na figura 2 podemos observar que os profissionais de saúde que mais o apoiaram os pais durante o internamento foram os enfermeiros, seguido dos médicos. Salienta-se a importância da interação pais/criança/enfermeiro durante a hospitalização e em todo o processo do cuidar pois como defende a OE (2015:p.14), “os pais, no hospital, querem continuar a ser pais e cabe aos enfermeiros, inseridos numa equipa, serem os ativistas deste processo: com aceitação e integração de forma sólida, com informação e orientação em tempo oportuno, aumentando a autoconfiança dos pais para que consigam eles próprios gerir as suas emoções e organizar-se em função da hospitalização do seu filho”. O sucesso da resposta dos pais a hospitalização dos filhos e amplamente influenciada pelo trabalho executado pelo enfermeiro, uma vez que e o profissional que mais de perto os acompanha (DHSS,1999).

Distribuição das respostas à questão “Qual o profissional de saúde que mais o apoiou?”
FIGURA 2
Distribuição das respostas à questão “Qual o profissional de saúde que mais o apoiou?”

Na questão “como considera a sua relação com o enfermeiro”; a maioria (48,5%) respondeu ser “Boa, e 36,3% consideraram-na de muito boa. Salientamos que 9,1 apenas a considerou de suficiente.

Distribuição das respostas à questão “como considera a sua relação com o enfermeiro”
FIGURA 3
Distribuição das respostas à questão “como considera a sua relação com o enfermeiro”

Foi pedido aos pais que registassem aspetos que em seu entender deveriam melhorar na hospitalização do(a) seu/sua filho (a). Uma percentagem de 66,7% respondeu que não deveria mudar nada. Realçamos no entanto que 9,1% “ referiu que a alimentação poderia ser melhor. Alguns dos pais referiram que deveria haver “Mais acompanhamento médico”, “Mais atenção de algumas enfermeiras”, ”Mais atenção de algumas auxiliares” e “Mais informação”.

CONCLUSÕES E SUGESTÕES

Um dos aspetos evidenciados nesta pesquisa é de que os pais vivenciam um vasto número de sentimentos que implicam transições familiares com a chegada da doença e que muitas vezes obriga ao internamento hospitalar da criança.

O impacto da doença na família provoca desequilíbrio a nível social e laboral e afeta todos os membros, devido à mudança abrupta e indesejada da condição da criança saudável para criança doente. A situação de uma doença e da hospitalização de um filho está repleto, tal como indicam os resultados obtidos, de sentimentos, como medo, tristeza, angustia, ansiedade, incertezas e mudanças que, de uma forma geral tornam difícil e desgastante.

O momento da hospitalização pode ser considerado de sofrimento para a família, pois implica uma adaptação a um ambiente que lhe é completamente desconhecido.

Neste sentido, o enfermeiro precisa de compreender que a família é o sistema mais importante a que a criança pertence. Considerando a família como única, averiguando as suas necessidades e atitudes e valorizando os seus papéis e funções perante a situação de doença e hospitalização. Os enfermeiros deverão ainda intervir de forma adequada e centrada nas necessidades da criança e da família. Potencializar e compreender os sentimentos vivenciados pela família quer estes sejam positivos ou negativos, fortalecendo os seus sentimentos de gratidão e de confiança deve ser uma função prioritária do enfermeiro. Em suma, o enfermeiro precisa oferecer ajuda aos pais perante situações de doença e hospitalização para que estes saibam lidar e planear estratégias de enfrentamento.

BIBLIOGRAFÍA CONSULTADA

Bowlby, J. (1984), Apego, Martins Fontes, Brasil: S. Paulo.

Cardoso, A.C. A. (2010). Experiências dos pais na hospitalização da criança com doença aguda dissertação de mestrado em ciências de enfermagem apresentada ao instituto Ciências Biomédicas de Abel Salazar Universidade do Porto

Children, C.;Boston, H.(2003). Helping Your Child With Medical Experiences : A Practical Parent Guide disponível em: file:///C:Users/User/Dowloads/parent_guide2.pdf

DGS (2013). Plano Nacional de Saude 2012-2016 Disponivel em: http://pns.dgs.pt/files/2012/02/Bibliografia-Geral1.pdf

DHSS (1999). Nursing Services for the Acutely Ill Child in Northern Ireland: Report of a Working Group.

Dionisio, R.; Escobar, E. (2002). Importancia da presenca e participacao dos pais durante a hospi- talizacao da crianca. Revista de Enfermagem UNISA. No 3 p. 23-26.

Gomes G.C.; Erdmann A.L. (2005). O cuidado compartilhado entre a família e a enfermagem à crian- ça no hospital: uma perspectiva para a sua humanização, Rev Gaúcha Enferm;26(1):20-30.

Hesbeen, W. (2000) – Cuidar no hospital: enquadrar os cuidados de enfermagem numa perspetiva de cuidar. Loures: Lusociência.

Jorge, A. M. (2004). Família e hospitalização da criança, (re) pensar o cuidar em enfermagem.Loures: Lusociência.

OE (2015). Guia Orientador de Boa Prática – Adaptação à parental idade durante a hospitalização, Lisboa: OE

Reis, G. (2007). Expectativas dos pais durante a hospitalização da criança. Dissertação Mestrado em Ciências de Enfermagem. Instituto Ciências Abel Salazar

Quiles, J.; Carrillo, F. (2000), Hospitalizacion Infantil, Madrid, Biblioteca Nueva, pp. 3-50.

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