MEDO DE FALAR EM PÚBLICO: ESTUDO PILOTO DA GLOSSOFOBIA EM CONTEXTO DE ALUNOS UNIVERSITÁRIOS
MEDO DE FALAR EM PÚBLICO: ESTUDO PILOTO DA GLOSSOFOBIA EM CONTEXTO DE ALUNOS UNIVERSITÁRIOS
International Journal of Developmental and Educational Psychology, vol. 1, núm. 1, pp. 263-272, 2020
Asociación Nacional de Psicología Evolutiva y Educativa de la Infancia, Adolescencia y Mayores
Recepção: 15 Abril 2020
Aprovação: 20 Abril 2020
Resumo: O medo de falar em público – glossofobia - é considerado um fator de grande ansiedade e stress, afetandouma elevada percentagem de pessoas. Sendo considerado um stressor psicossocial, pode levar ao isolamento e,desta forma, impedir o indivíduo de se comunicar. Este estudo exploratório do tipo descritivo, teve como objetivoprincipal, avaliar o real impacto da glossofobia em alunos, no contexto académico e profissional, a nível psicológico, emocional e físico. Vão ser apresentados os resultados recolhidos de uma amostra de 33 alunos universitários do curso de psicologia do 3ª ano na Universidade Autónoma de Lisboa. Verificados os resultados, verificou-se a existência do medo de falar, mesmo que muitas vezes não verbalizado ou camuflado com uma vergonha ou timidez tomada como traço de personalidade. No âmbito da Psicologia, considerou-se a criação de umplano de intervenção para minimizar o impacto negativo, levando no futuro a aumentar a confiança e a qualidadede vida dos alunos.
Palavras-chave: medo, glossologia, impacto, intervenção, stress.
Abstract: Fear of public speaking (glossophobia) is considered a factor of great anxiety and stress and affects ahigh percentage of people, being considered a psychosocial stressor, which can lead to isolation and thus preventthe individual from communicating.This work aims to evaluate the real impact of glossophobia on students, in the academic and professionalcontext, at a psychological, emotional and physical level. The results will be presented through an empirical pilot study, carried out on a sample of 33 university students from the 3rd year psychology course at the AutonomousUniversity of Lisbon. Once the results were verified, an intervention plan was considered to minimize the negativeimpact, leading to an increase of the confidence and quality of life of the students.
Keywords: fear of public speaking, glossology, impact in the life of people, future intervention.
INTRODUÇÃO
Falar, é uma palavra curiosa. Quando se reflete à cerca da sua origem, do seu significado, falar, pretendeexpressar, seja, um pensamento, um sentimento ou partilhar conhecimento; desprovido de medos, de bloqueios. Quando colocada esta ação de falar em público, algo que é feitos todos os dias, independentemente da profissão,do seio familiar, dos amigos, trabalho ou escola. Quando se fala tem-se como objetivo, comunicar, partilhar, estabelecer relações, colocar algo em comum. Esta ação, implica um conjunto de símbolos linguísticos, um processoque gera uma comunicação, utilizada desde sempre, faz parte da evolução humana (Mattelart, A., Mattelart, M.,Taponier, S. G., & Cohen, J. A., 1998).
A fala, poderia ser considerada como uma “dança” simples, entre pessoas numa interação social, da revisãode literatura, encontra-se na experiência dos autores enquanto seres sociais, bem como de um estudo pilotoempírico, uma realidade bem mais complexa; vividas por uma grande percentagem das pessoas contactadas,onde a “dança” se vai complexificando.
As qualidades comunicativas são apreendidas ao longo do tempo, atravésdas relações, sociais e culturais. É um processo natural do desenvolvimento, ao que se junta um conjuntode regras. Uma técnica que se pode melhorar e desenvolver esta capacidade humana. Falar para públicos é umanecessidade diretamente ligada à carreira escolhida, um fator muito significativo em estudos universitários.
Na elaboração, preparação e treino do discurso, os resultados são satisfatórios, no entanto quando chega omomento de o fazer junto do público, as coisas nem sempre corre como planeado, sendo por isso consideradoum stressor psicossocial (Marinho, Medeiros, & Teixeira, 2019).
DESENVOLVIMENTO
Glossofobia, a palavra grega tem em si, um significado de associação, ao medo ou pavor de falar em público,quando a dividimos na sua origem Glosso = língua, efobos = medo ou pavor (Hancock, A., Stone, D., Brundage,S., & Zeigler, M., 2010).
Este medo tem por detrás uma ansiedade, um nervosismo, que ocorre vários dias ou mesmo semanas antesde fazer uma apresentação, afeta uma grande percentagem da população.
Apesar de ser um medo consciente, não é fácil de controlar, afetando a autoestima e outras áreas da vida dapessoa. Este estudo verifica-se uma maior percentagem em mulheres (Khan, Ismail & Ali, 2015).
“A sessão de medo, de incapacidade, inibiu muitas vezes a minha expressão, a minha comunicação, em reuniões de trabalho, o rosto corava, quase que desejava que o mundo acaba-se naquele momento, não conseguiaexpressar o que pensava, cheguei mesmo a ficar com febre, uma defesa interna, para não o fazer. Foram muitasa situações em que este medo me acompanhou ao longo da adolescência e da vida adulta” (sic).
Darwin (2016) já se referia ao medo como um estado emocional irracional, parece derivar do que é reprimidoe perigoso, podendo mesmo ser intensificado surgindo o terror. O medo conduz claramente a uma alteração física captada pelos sentidos, podendo ser observado na expressão, como arregalar de olhos, respiração suspensa,aceleração do ritmo cardíaco e a respiração torna-se mais rápida, criando situações de imobilidade ou fuga.
Outros alterações inexplicáveis com transpirar” suores frios” a boca seca, voz torna-se hesitante, sintomas queforam muitos uteis ao longo do tempo como forma de sobrevivência do ser humano.
Como se pode constatar neste depoimento obtido durante esta investigação: “Estar no centro das atençõesnão é fácil, especialmente para aqueles que estão inseguros sobre si mesmos, surge uma timidez, uma insegurança pessoal. É o que acontece comigo. Tenho a certeza de que a minha timidez vem da minha insegurança, dafalta de autoestima, o que muitas vezes me levou a ficar ansiosa quando falava para uma audiência. Embora eu não pense em mim como uma pessoa tímida quando estou em família, no momento em que falo para uma planteia, ter os olhares todos em mim, fico muito envergonhada. O excesso de peso que tinha em criança foi talvezum dos fatores que tive que enfrentar, estava sempre a comparar-me com os outros, tinha sempre presente o julgamento. Por outro lado, fui sempre evitando situações de exposições publica. A entrada para a universidade,levou-me a lidar com outros medos, inseguranças, aprendi a transformá-los em forças, continuei a ficar com orosto rosado, mas conseguia controlar. Quando me candidatei ao programa Erasmus, enfrentei novas situações,estar isolada num país com outra língua, trouxe-me mais confiança. Hoje com 25 anos, continuo a ser tímida,mas sei lidar com o medo (sic).
Processos cognitivos e crenças. O medo de falar em publico está também relacionado com processos cognitivos, visto como uma pressãosocial, onde a presença de audiência amplia as memórias emocionais. Os padrões de pensamentos surgem decrenças, que se organizam através das experiências, normalmente têm uma forte carga emocional, vão-se enraizando desde crianças, instalam-se como ideias fixas, como verdades. As crenças interiorizadas têm relação diretacom aspetos negativos sobre os medos, uma dinâmica psicológica de pensamentos, de incapacidade, medo deerrar e humilhação, uma necessidade de ser aceite socialmente. A combinação das crenças emocionais com atensão de falar em público, leva a uma reduz das capacidades de comunicar (Gellatly, Beck, 2016).
Nas questões cognitivas, o medo de falar em público está relacionado com o sistema límbico, ligado aquestões emocionais de memórias que fizeram parte da aprendizagem, condicionando ou possibilitando comportamentos de respostas intuitivas. Na leitura referida entende-se o septo como uma estrutura do sistema límbicoonde se verifica uma associação do medo e da raiva, um processo inconsciente ligado à sobrevivência, quandoconsciente pode servir como motivação para enfrentar este medo (Sternberg e Sternberg, 2012).
Os fatores como novidade (conteúdo), o desconhecido (não conhecer o público), o número da audiência, sãotambém fatores muito relevantes no entendimento desta fobia. Sendo de considerar a variável cultural (Ajeng,Ariffudin & Mulawarman, 2017).
Os sintomas de ansiedade e stress, são os mais referidos, podendo desencadear ataques de pânico, estemedo tem muito impacto na vida da pessoa, sendo afetadas várias áreas de vida, familiar, escolar, trabalho, levando muitas vezes ao isolamento, impedindo em algumas situações a evolução na carreira, condicionamento nasatividades sociais, baixa produtividade, mexendo diretamente com a autoestima (D’El Rey, Pacini, 2005).
Na partilha de dois testemunhos (nas suas experiência enquanto estudantes) observaram de perto o impactodeste medo nas apresentações de trabalhos na faculdade, sendo evidente a perturbação dos colegas a nível emocional e psicológico, impedindo de mostrar as suas verdadeiras competências. Depreendemos dessa forma anecessidade de Intervenção Psicológica, para um maior entendimento das questões que estão por de trás destas distorções emocionais, podendo assim levar a uma tomada de consciência, permitindo desenvolver competênciaspara superar esse medo, e dessa forma promover a mudança. As questões mais práticas tais como: a) preparação;b) conhecimento do conteúdo; c) treino; d) conhecer a audiência, são algumas das técnicas que podem ajudar aminimizar o impacto (Beck, 2013; Silva, 2014)
METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO
Objetivos do estudo piloto. Este estudo piloto empírico, teve com objetivo, conhecer o real impacto do medo de falar em publico em alunos universitários do curso de psicologia do 3ª ano na UAL, em respostas as questões: (a) Qual o real impactodo medo de falar em público? (b) Quais os recursos que podemos utilizar para minimizar esse impacto? (c) Queprocessos internos (físicos e psíquicos) estão envolvidos?Estas questões conduziram à necessidade, criar planos de intervenção futuro, para aumentar a satisfação equalidade de vida dos alunos.
Método. O estudo foi realizado através de um questionário online com questões que permitem identificar os sintomaspsicológicos,físicos e emocionais, impacto na vida das pessoas, assim como dados demográficos, em estudantes universitários de ambos os géneros, com idades compreendias entre os 20 e os 63 anos. O questionário con-tinha 16 perguntas.
Apresentação e discussão dos resultados. Neste estudo, verificou-se que os impactos considerados mais relevantes para o objetivo proposto foram aonível psicológico, físico, emocional e limitações.











Quando questionados na possibilidade de participar em formações/workshops (60,6%) responderam quesim, (36,6%) talvez. Validando assim a importância da intervenção para a superação deste medo.
Sendo um estudo piloto, pretendeu-se indagar e procurar fazer uma primeira análise mais orientada noimpacto do medo de falar em publico, e nas motivações para o superarem, com o objetivo de se criar uma metodologia a partir dos resultados; que permita intervir nas necessidades indicadas pelo estudo. Procurando minimizar o impacto do medo de falar em público, permitir desenvolver recursos internos e externos, como os seusefeitos a nível físico, e psíquicos.
Possa este estudo inicial ser o trampolim para se desenvolver novos estudos empíricos, para apurar outrasnecessidades, com uma amostra de maiores dimensões e posteriormente a respetiva divulgação dos resultadosna comunidade académica para que juntos se possa pensar mais e melhor!
CONCLUSÃO
Fazer este trabalho foi também uma viagem a várias memórias, várias experiências dos participantes (sic); omedo de falar um publico é efetivamente um bloqueio que impede as pessoas de viverem, de serem livres. A psicologia tem um papel fundamental neste caminho de ajuda, na intervenção e prevenção destes condicionamentos,nestes “muros” de sistemas que não nos ensinam a comunicar, a expressar, a pensar, apenas a seguir, cumprirum conjunto de pressupostos
Ser um psicólogo é estar disponível, flexível para proporcionar a que cada pessoa seja responsável pelassuas escolhas; escolhas conscientes, escolhas com opções, de preferência que não tenham condicionamento. Ser um psicólogo é sem querer ter a chave de toda as soluções é promover a inteligência emocional, querer contribuir para que cada pessoa conheça o seu mundo interno, para se poder relacionar no seu meio social. Para quese comunique cada vez mais e melhor de uma forma assertiva, como pessoas realizadas e felizes!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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D’El Rey, G. J. F., & Pacini, C. A. (2005). Medo de falar em público em uma amostra da população: Prevalência,impacto no funcionamento pessoal e tratamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 21(2), 237–242. Disponívelem: https://doi.org/10.1590/S0102-37722005000200014
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Khan, F., Ismail, S., Shafique, M., Ghous, K., & Ali, A. (2015). Glossophobia among Undergraduate Students of. 2
Marinho, A. C. F., Medeiros, A. M. D., Lima, E. D. P., Pantuza, J. J., & Teixeira, L. C. (2019). Prevalência e fatoresassociados ao medo de falar público. In CoDAS (Vol. 31, No. 6). Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia.
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