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Religião, Religiosidade e a Felicidade Individual no Brasil

Religion, Religiosity and Individual Happiness in Brazil

Religión, Religiosidad y la Felicidad Individual en Brasil

Luiza de Mello Teixeira
Universidade Federal de Viçosa, Brasil
Laís de Souza Abreu Soares
Universidade Federal de Viçosa, Brasil
Evandro Camargos Teixeira
Universidade Federal de Viçosa, Brasil

Religião, Religiosidade e a Felicidade Individual no Brasil

Administração Pública e Gestão Social, vol. 17, núm. 4, 18982, 2025

Universidade Federal de Viçosa

Recepción: 03 Junio 2024

Aprobación: 29 Octubre 2025

Publicación: 31 Diciembre 2025

Resumo: Objetivo: O presente estudo analisa como a crença (fé) e a frequência de participação em atividades religiosas se associam com o nível de felicidade dos brasileiros.

Metodologia: Por meio da base de dados para da sétima onda da World Values Survey, referentes ao ano de 2018, foram estimados modelos Probit ordenados.

Resultados: Identificou-se que tanto a religião (fé) quanto a religiosidade (frequência em atividades religiosas) se associam diretamente com o nível de felicidade dos brasileiros.

Originalidade: Diferentemente de muitos estudos anteriores, que se concentram apenas em um desses fatores, esta pesquisa inovou ao examinar como a crença (fé) e a frequência em termos de participação em atividades religiosas podem se relacionar com o bem-estar subjetivo dos indivíduos conjuntamente, preenchendo, assim, uma lacuna na literatura nacional.

Contribuições teóricas e práticas: Por meio dos resultados obtido, espera-se que este estudo possa contribuir na formulação de políticas públicas voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.

Palavras-chave: Felicidade, Religião, Religiosidade, Bem-Estar Subjetivo, Probit Ordenado.

Abstract: Objective: This study examines how belief (faith) and the frequency of participation in religious activities are associated with the level of happiness among Brazilians.

Methodology: Using data from the seventh wave of the World Values Survey, referring to the year 2018, ordered Probit models were estimated.

Results: It was identified that both religion (faith) and religiosity (frequency of participation in religious activities) are directly associated with the level of happiness among Brazilians.

Originality: Unlike many previous studies that focus on only one of these factors, this study innovates by examining how belief (faith) and the frequency of participation in religious activities may jointly relate to individuals’ subjective well-being, thereby filling a gap in the national literature.

Theoretical and Practical Contributions: Based on the results obtained, this study is expected to contribute to the formulation of public policies aimed at improving the quality of life of the Brazilian population.

Keywords: Happiness, Religion, Religiosity, Subjective Well-Being, Ordered Probit.

Resumen: Objetivo: El presente estudio analiza cómo la creencia (fe) y la frecuencia de participación en actividades religiosas se asocian con el nivel de felicidad de los brasileños.

Metodología: A partir de los datos de la séptima ola de la World Values Survey, correspondiente al año 2018, se estimaron modelos Probit ordenados.

Resultados: Se identificó que tanto la religión (fe) como la religiosidad (frecuencia en actividades religiosas) se asocian directamente con el nivel de felicidad de los brasileños.

Originalidad: A diferencia de muchos estudios anteriores, que se centran solo en uno de estos factores, esta investigación innovó al examinar cómo la creencia (fe) y la frecuencia de participación en actividades religiosas pueden relacionarse conjuntamente con el bienestar subjetivo de los individuos, llenando así una laguna en la literatura nacional.

Contribuciones teóricas y prácticas: A partir de los resultados obtenidos, se espera que este estudio contribuya a la formulación de políticas públicas orientadas a mejorar la calidad de vida de la población brasileña.

Palabras clave: Felicidad, Religión, Religiosidad, Bienestar Subjetivo, Probit Ordenado.

1 Introdução

Um dos grandes objetivos da Economia é a análise do bem-estar dos indivíduos. Ao longo de décadas, diferentes abordagens surgiram com o intuito de explicá-lo e avaliá-lo. Nesse contexto, surgiu a teoria tradicional do bem-estar, que ganhou força no século XX e que continua influenciando o pensamento econômico. Nessa vertente teórica, o bem-estar é avaliado a partir das preferências do indivíduo, considerando, assim, o nível de utilidade gerado pelos bens disponíveis (Giacomelli, 2017).

Nesse âmbito, o bem-estar passou a ser relacionado a fatores objetivos, principalmente aqueles relacionados a níveis de renda. Entretanto, diferentes autores, como Hausman e Mcpherson (2006), apontaram críticas à teoria tradicional, questionando o comportamento do agente econômico descrito – considerado totalmente racional e maximizador de sua utilidade. Concomitantemente, surgiu a necessidade de atrelar o nível de bem-estar não somente ao nível de renda e ao consumo, mas também a indicadores subjetivos, como expectativas, emoções e sentimentos. Desse modo, o bem-estar utilitarista, abarcado pela Economia Tradicional, concedeu espaço à Economia da Felicidade a partir da contribuição de Richard Easterlin (1974).

Com o desenvolvimento dos termos de bem-estar subjetivo e felicidade como intercambiáveis (Veenhoven, 1994), diversas pesquisas buscaram detectar a associação de diferentes fatores socioeconômicos e o nível de satisfação dos indivíduos. Nesse contexto, algumas pesquisas identificaram a relação entre religião, religiosidade e o bem-estar subjetivo (Kosmin & Lachman, 1993, Ferriss, 2002; Scalco; Araújo; Bastos, 2011; Ribeiro, 2015). Importante ressaltar que religião não é sinônimo de religiosidade. A religiosidade se refere à prática ritualística, podendo abranger a participação em atividades religiosas ou atos, como rezar. Ou seja, a religiosidade abarca o compromisso com uma doutrina religiosa (Zerbetto et al., 2017). Já a religião atrela-se à ideia de fé. Desse modo, um indivíduo conectado à religião é aquele que afirma acreditar em determinada crença.

Para avaliar a religião, comumente se questiona se o indivíduo tem alguma crença ou se se considera uma pessoa de fé (Scalco; Araújo; Bastos, 2011). Por sua vez, para mensurar a religiosidade, as perguntas tendem a abordar a frequência com que a pessoa participa de atividades religiosas (Rodrigues & Silva, 2010; Rizvi & Hossain, 2017). Contudo, são escassos os trabalhos que analisam a associação de ambos os fatores, religião e religiosidade, e a felicidade, como é o caso do estudo de Sander (2017).

Lewis e Cruise (2006) apontam que a religião promove uma maior sensação de bem-estar àqueles que cultivam a fé, uma vez que ela incentiva os indivíduos a terem atitudes e pensamentos mais positivos, ajudando-os a lidar com as adversidades. Além disso, pessoas religiosas tendem a evitar hábitos que podem influenciar o cotidiano negativamente, como o abuso de substâncias, tais como o álcool.

Dessa forma, as crenças se associam diretamente com o estado emocional e mental, permitindo que os religiosos se mostrem mais satisfeitos com suas vidas. A análise de Ferriss (2002) comprovam essa relação, apontando que a crença em uma religião está associada ao grau de felicidade, porém complementa que a religiosidade, ou seja, a frequência com que o indivíduo participa de eventos religiosos, também possui esse efeito sobre o bem-estar.

Para comprovar como a participação em atividades de cunho religioso se relaciona com o nível de felicidade, Ellison (1991) demonstra que a integração dos indivíduos a um grupo social aumenta suas relações e promove uma percepção de pertencimento, proporcionando, assim, uma maior sensação de bem-estar. Essa constatação corrobora com a análise de Lafitte e Ribush (2009), que afirmam que a religião é capaz de permitir que o indivíduo se sinta mais feliz ao fornecer uma rede de apoio e socialização entre os seguidores de mesma fé.

Na literatura nacional, apesar de pouco explorada, a associação entre religião, religiosidade e felicidade, é evidenciada em alguns estudos, tais como os de Scalco et al. (2011) e Portella et al. (2017), os quais confirmam que a crença em uma religião é capaz de promover uma maior qualidade de vida. Com relação à religiosidade, Ribeiro (2015) identificou que pessoas que frequentam cultos consideram-se mais felizes, em especial devido ao sentimento de pertencimento proporcionado pela comunidade religiosa. Conclusão similar foi verificada nos trabalhos de Oliveira (2019), além de Siqueira, Fernandes e Moreira-Almeida (2019).

Frente às questões levantadas, o presente estudo buscou avaliar a relação tanto da religião quanto da religiosidade com a felicidade autorreportada. Diferentemente de estudos anteriores, que se concentram apenas em um desses fatores, esta pesquisa inovou ao examinar como a crença (fé) e a frequência de participação em atividades religiosas se associam com o bem-estar subjetivo dos indivíduos de forma conjunta, preenchendo, assim, uma lacuna na literatura nacional. Além disso, buscou-se utilizar dados mais atualizados, coletados em 2018 para o Brasil, por meio da sétima onda do World Values Survey. Dessa maneira, foi possível obter resultados mais representativos e que reflitam de maneira mais fidedigna a realidade atual da sociedade brasileira.

A partir de seus resultados, o presente estudo também pode contribuir no fomento de políticas públicas, que podem ser implementadas com o intuito de de garantir qualidade de vida aos brasileiros, implicando no aumento da percepção de seus níveis de felicidade. Para sua consecução, além dessa seção introdutória, o trabalho possui mais quatro seções. Na próxima seção, são apresentadas evidências teóricas e empíricas relacionadas ao tema, seguida pela seção metodológica, resultados e conclusões.

2 Evidências Teóricas e Empíricas

Como anteriormente apontado, a religião se associa de forma importante com a percepção de felicidade. Esse é o caso, por exemplo, do estudo de Biswas-Diener, Diener e Tamir (2004). Os autores concluíram que aspectos religiosos estão correlacionados ao nível de satisfação com a vida dos indivíduos. Entretanto, o estudo não foi capaz de identificar se essa relação seria devido à participação dos respondentes nas atividades religiosas, gerando benefícios em termos de pertencimento a uma comunidade, ou se seria devido à intervenção da fé sobre a noção de bem-estar e qualidade de vida.

Nesse aspecto, faz-se importante esclarecer os conceitos de religião e religiosidade. O primeiro diz respeito a uma organização institucional que delimita certas crenças, rituais e comportamentos, permitindo que o indivíduo se aproxime da fé determinada (Inoue & Vecina, 2017). Por outro lado, a religiosidade está relacionada às manifestações realizadas por um indivíduo a fim de expressar essa fé - ou seja, como ele escolhe praticar sua religião - e pode ser definida em i) religiosidade organizacional, que abarca a participação em eventos da instituição religiosa; ii) religiosidade não organizacional, que engloba as atividades religiosas fora dos templos e igrejas (Abdala et al., 2013).

A partir dessa diferenciação, pode-se encontrar na literatura internacional trabalhos que clarificam o que foi exposto no referido estudo de Biswas-Diener, Diener e Tamir (2004). Assim, alguns pesquisadores buscaram explicar o motivo da correlação positiva entre religião - ato de ter fé - religiosidade - participação em atividades religiosas - e bem-estar subjetivo (Steiner; Leinert; Frey, 2010).

Guiso, Sapienza e Zingales (2003) investigaram o efeito da religião na economia e no nível de felicidade de 66 países entre o período de 1981 e 1997. Para tal, utilizaram o banco de dados da World Values Survey - um projeto internacional, iniciado nos Estados Unidos, cujo principal objetivo é compreender os valores culturais, políticos, econômicos, sociais e religiosos ao redor do mundo a partir da elaboração de uma pesquisa social comparativa (World Values Survey Association [WVSA], 2023). Os autores constataram que pessoas religiosas tendem a agir de acordo com suas crenças e moral de maneira mais intensa e que, em média, tais crenças estão associadas a “boas atitudes econômicas”, como a cooperação, confiança entre os agentes e maior probabilidade do cumprimento de contratos e leis. Essas atitudes podem, entre outros efeitos, reduzir os custos de transação e diminuir a criminalidade, proporcionando aumento do nível de renda e, consequentemente, elevação do nível de bem-estar.

Por outro lado, Abdel-Kahlek (2011) identificou que pessoas que seguem crenças, por viverem conforme seus princípios religiosos, costumam apresentar melhores condições de saúde física e mental, demonstrando-se mais contentes com suas condições de vida. Adicionalmente, alguns autores, como Koenig e Larson (2001) e Lehrer (2004), também indicaram que a religião interfere na promoção da saúde – considerada uma das principais determinantes do bem-estar (Steiner; Leinert; Frey, 2010). Nesse sentido, nota-se que pessoas religiosas, movidas pelos ensinamentos de suas crenças, tendem a usar com menor frequência algumas substâncias, como álcool e drogas ilícitas (Donahue & Benson, 1995).

O estudo de Francis, Robbins e White (2003) comprovam as prerrogativas supracitadas. Os autores realizaram uma análise com graduandos de universidades no País de Gales. Como resultado, atestou-se a existência de correlação positiva entre religião e felicidade. A mesma pesquisa foi replicada com estudantes da Inglaterra e dos Estados Unidos, proporcionando uma conclusão similar com relação à influência da religião sobre o bem-estar subjetivo.

No que tange a religiosidade, Ferriss (2002) analisou sua influência sobre a qualidade de vida dos americanos. Nessa perspectiva, foi averiguado que a frequência na participação em eventos religiosos também está associada ao grau de felicidade declarado. Como resultado, a pesquisa constatou que apenas 26,6% da amostra que afirma nunca participar de atividades religiosas se consideram muito felizes. Por outro lado, 46,6% daqueles que frequentam os eventos de sua religião se consideram muito felizes.

Esse resultado foi constatado similarmente na obra “Economia da Felicidade”, de Frey (2008), que aponta como muitos indivíduos identificam a obtenção de benefícios oriundos da fé e da prática religiosa. Entre eles, pode-se citar o pertencimento a um grupo, o suporte social, a criação de um propósito de vida e os diversos aprendizados frutos dos ensinamentos religiosos. Além disso, o autor observou como frequentar atividades religiosas está correlacionado com o bem-estar subjetivo de forma estatisticamente significativa.

O estudo de Steiner, Leinert e Frey (2010) também buscou averiguar o impacto da religiosidade na felicidade na Suíça. Foram entrevistados cerca de 5.000 adultos, que deveriam responder sobre a frequência com que participam de atividades religiosas e o quão satisfeitos estão com suas vidas (escolhendo um valor representativo entre 0 e 10, em que 0 é “nada satisfeito” e 10 é “completamente satisfeito”). Como resultado, identificou-se que frequentar a igreja pelo menos uma vez na semana aumenta o nível de satisfação com a vida dos indivíduos em 59 pontos percentuais (p.p.) em comparação com aqueles que nunca participam das atividades religiosas.

Conjuntamente, a literatura nacional contribui para a avaliação dos fatores determinantes do bem-estar social. Entretanto, são relativamente escassos os estudos que analisam a associação tanto da religião quanto da religiosidade e o bem-estar subjetivo. No que diz respeito à religiosidade, Murakami e Campos (2012) verificam que a comunidade religiosa fornece uma importante rede de apoio, permitindo que os indivíduos se sintam socialmente integrados. Concomitantemente, os grupos de mesma fé também determinam certas normas sociais, que regulam o modo de vida dos seguidores da religião, direcionando os religiosos a terem comportamentos mais saudáveis e protetivos. Como consequência, o envolvimento religioso proporciona uma melhoria na qualidade de vida e maior nível de felicidade.

Ribeiro (2015) corrobora com a compreensão supracitada e determina, por meio da utilização de um modelo Logit ordenado, que homens e mulheres com religiosidade mais acentuada e que, portanto, frequentam mais os cultos religiosos, tendem a ser mais felizes do que aqueles que possuem religião, mas não frequentam os cultos. Análise similar foi realizada por Scalco, Araújo e Bastos (2011), cuja pesquisa determinou que mulheres que participam mais vezes durante a semana de cultos e outras atividades religiosas se consideram mais felizes do que aquelas que não possuem esse hábito.

Já avaliando como a fé impacta a felicidade, Portella et al. (2017) constataram que a crença é uma importante ferramenta para a promoção de bem-estar de adultos e idosos. Para tal, avaliou-se, a partir de um estudo qualitativo ancorado no método de grupo focal, 22 mulheres entre 49 e 81 anos em 2014. Atestou-se que a religião é extremamente importante para prevenir que o envelhecimento seja visto como uma fase de abandono e solidão. Além disso, a religião atribui significado à vida e gera certo suporte psicológico, influenciando, assim, o bem-estar subjetivo.

De forma complementar, Rocha e Ciosak (2014) detectaram, a partir de um estudo exploratório com metodologia qualitativa, que a religiosidade e a fé colaboram para que os indivíduos enfrentem com mais facilidade e resiliência as adversidades do envelhecimento, proporcionando melhoria na qualidade de vida. Reis e Menezes (2017) também demonstraram que as práticas religiosas permitem o fortalecimento de sentimentos de paz e felicidade, reduzindo a incidência de depressão e ansiedade.

Por sua vez, o estudo transversal de Siqueira, Fernandes e Moreira-Almeida (2019) averiguou, por meio da aplicação de regressões lineares, como a religião é um fator primordial para a promoção de bem-estar em pacientes em hemodiálise. Os autores atestaram que os pacientes com elevados níveis de fé também manifestaram maiores níveis de felicidade, o que possibilita que essas pessoas lidem melhor com seus processos de cura, ajudando, consequentemente, no tratamento das doenças.

Oliveira (2019) conduziu um estudo sobre os efeitos da religião na felicidade de crianças e adolescentes, no qual foi utilizado um questionário elaborado especificamente para a pesquisa. Os resultados indicaram que as crianças que responderam que sentem a presença de Deus “muitas vezes ao dia” tiveram 93% mais chances de se considerarem felizes do que aquelas que responderam que “nunca” ou “quase nunca" a sentem. Já para a afirmação "encontro força e conforto na minha religião", as crianças que responderam "muitas vezes ao dia" tiveram 86% mais chances de se considerarem felizes do que aquelas que responderam "ee vez em quando".

3 Metodologia

O presente estudo destacou como problema de pesquisa a análise da relação entre a religião, a religiosidade e a felicidade reportada pelos brasileiros. Para tal, foram utilizados dados extraídos da sétima onda da World Values Survey (WVSA, 2023), os quais contemplam as respostas de 1576 brasileiros após a eliminação de dados faltantes, entrevistados no ano de 2018.

Sendo um programa de pesquisa internacional, iniciado em 1981, a WVSA tem como objetivo analisar os valores sociais, políticos, econômicos, culturais e religiosos em 120 países. As entrevistas são conduzidas pessoalmente e no idioma oficial do país participante. Uma das perguntas abordadas nos questionários tem como objetivo captar o nível de felicidade dos indivíduos, solicitando que estes escolham a opção que melhor os descrevem no momento entre: “muito feliz”, “feliz”, “não muito feliz” e “infeliz” (WVSA, 2023).

A partir disso, a variável dependente deste trabalho, felicidade, originalmente na base de dados da World Values Survey, assumia quatro categorias de resposta: 1 para “infeliz”, 2 para “não muito feliz”, 3 para “feliz” e 4 para “muito feliz”. Como a categoria ‘muito feliz’ tinha poucas observações, optou-se por combinar as categorias 3 e 4 para simplificar a análise dos resultados. Portanto, para o presente estudo, a variável “felicidade” assumiu somente três categorias de resposta, sendo: 1 para “infeliz”, 2 para “não muito feliz”, 3 para “feliz” e “muito feliz”.

Ademais, percebe-se que a variável dependente possui características discretas e ordenadas, o que justifica a utilização do modelo econométrico Probit ordenado, o que torna possível a avaliação de cada fator determinante do bem-estar subjetivo de maneira individual, (Corbi & Menezes-Filho, 2006). Outrossim, a utilização da distribuição multinomial é necessária para estabelecer uma hierarquia entre as variáveis. Dessa maneira, a partir da regressão apresentada abaixo, o modelo é estimado, conforme recomendado por Cameron e Trivedi (2005) e Greene (2018):


Com o objetivo de destacar as associações individuais da religião e religiosidade com a felicidade autorreportada, este estudo definiu, inicialmente, duas equações a serem estimadas. A equação (8) teve como propósito fornecer uma compreensão mais precisa da relação da religião, relacionada à crença e à fé, com a variável dependente. Assim, a variável “Religião muito importante” assume valor igual a 1 caso o indivíduo aponte que a religião é muito importante e 0 caso ele diga que a religião é importante, pouco importante ou não é importante. Como a distribuição é fortemente assimétrica (com grande concentração em “muito importante”), a variável foi recodificada em dois grupos (“muito importante” = 1; demais = 0). Essa escolha evita pressupor equidistância entre categorias, reduz problemas de baixa contagem nas extremidades e produz efeitos marginais mais estáveis.

Por outro lado, a equação (9) enfatizou a relação entre a felicidade e a religiosidade, que se refere à participação em atividades religiosas. Desse modo, a variável “Religiosidade pertence e participa” assume valor igual a 1 caso o indivíduo aponte que pertence e participa da igreja ou organização/grupo de religião e 0 caso ele diga que pertence, mas não participa ou que não pertence. Essa abordagem permitiu uma análise mais detalhada e distinta das associações dessas duas variáveis com o bem-estar subjetivo.


Por fim, uma última equação foi estimada com o objetivo de avaliar a solidez e a confiabilidade dos resultados. Desse modo, a equação (10) buscou identificar de maneira conjunta as associações tanto da religião quanto da religiosidade com o bem-estar subjetivo, o que também possibilita a comparação das duas relações.


A escolha das variáveis explicativas foi realizada com base na literatura concernente ao tema e suas descrições constam na Tabela 1. Importante ressaltar que nas estimações foram utilizados os pesos amostrais da World Values Survey para corrigir probabilidades desiguais de seleção e garantir resultados representativos da população brasileira. Ademais, a variância foi corrigida com erros-padrão robustos em todas as especificações.

Tabela 1: Variáveis explicativas utilizadas nos modelos Probit ordenado
Tabela 1: Variáveis explicativas utilizadas nos modelos Probit ordenado


Fonte: Elaboração própria.

4 Resultados

4.1 Análise Descritiva

Verifica-se a partir da Tabela 2, a distribuição da amostra, que totaliza 1576 observações, por cada uma das variáveis utilizadas nos modelos estimados. É possível atestar que a maior parte da amostra considera o estado de saúde como bom ou muito bom (65,66%). Quanto ao estado civil, 52,09% dos respondentes são casados, 11,80% são divorciados ou separados, 7,23% são viúvos e 28,87% solteiros.

Tabela 2: Distribuição da amostra por variável explicativa
Tabela 2: Distribuição da amostra por variável explicativa
Fonte: Elaboração própria

Em relação à ocupação, a maioria dos entrevistados está empregada (48,92%), enquanto aposentados, donas de casa e estudantes representam 18,46%, 11,48% e 5,07%, respectivamente, da amostra. A classe socioeconômica é predominantemente formada pelas classes baixa e média baixa, que juntas somam 65,91% da amostra. No que diz respeito ao nível de escolaridade, a maior parte dos respondentes possui ensino médio incompleto (41,75%), seguido por fundamental completo (19,54%) e fundamental incompleto (17,9%). Em termos de região, a maioria dos entrevistados está localizada na região Sudeste do país (43,46%), seguida pela região Nordeste (26,26%), Sul (18,59%), Centro-Oeste (7,23%) e Norte (4,44%).

Salienta-se aqui a relevância da religião e religiosidade na amostra, da qual 46,19% dos indivíduos consideram a religião muito importante, enquanto 53,81% consideram a religião importante, não muito importante ou apontam que ela não é importante. Além disso, 45,49%, afirmam participar ativamente de atividades e cerimônias religiosas; apenas 22,65% da amostra pertencem a uma religião, mas não frequentam os compromissos religiosos, e 31,86% dos respondentes afirmam não pertencer a nenhuma religião.

A Tabela 3 indica a média de felicidade entre os indivíduos que consideram a religião muito importante e aqueles que a consideram importante, não importante ou que não consideram que ela seja importante. Ressalta-se que a felicidade é uma variável categórica e pode assumir valores entre 1 e 3 e, desse modo, as médias calculadas se encontram nesse intervalo.

Tabela 3: Média de felicidade por relevância da religião
Tabela 3: Média de felicidade por relevância da religião
Fonte: Elaboração própria.

A média obtida para os indivíduos que consideram a religião importante, não importante ou que não consideram que ela seja importante foi de 2,11. Já para os respondentes da amostra que consideram a fé, ou crença, algo muito importante, a média obtida foi de 2,25. Adicionalmente, foi realizado um test t de Student para amostras independentes para analisar se as diferenças observadas entre as médias são estatisticamente significativas. O p-valor menor que 0,05 verificado indica que se pode rejeitar a hipótese nula de que as médias de felicidade são iguais entre os dois grupos e denota que há diferença significativa no nível de bem-estar entre eles. Dessa forma, pode-se afirmar que, na média, as pessoas que consideram a religião muito importante em suas vidas tendem a se considerar mais felizes do que aquelas que apontam que a religião é importante, não importante ou que não consideram que ela seja importante.

Já na Tabela 4, é possível identificar a média de felicidade entre os indivíduos que não possuem o sentimento de pertencimento a nenhuma religião ou que pertencem, mas não participam; e aqueles que pertencem e participam. Para os respondentes que admitiram não pertencer ou que pertencem, mas não participam, a média de felicidade obtida foi de 2,13. Por sua vez, para os indivíduos que se sentem pertencentes a uma religião e que participam de suas atividades, a média obtida foi de 2,23.

Tabela 4: Média de felicidade por pertencimento e participação religiosa
Tabela 4: Média de felicidade por pertencimento e participação religiosa
Fonte: Elaboração própria

Adicionalmente, um test t de Student também foi realizado para amostras independentes para analisar a diferença de médias de felicidade entre os indivíduos que pertencem e participam de atividades religiosas e indivíduos que não pertencem e que pertencem, mas não participam de atividades religiosas. O p-valor menor que 0,05 indica que se pode-se rejeitar a hipótese nula de que as médias de felicidade são iguais entre os dois grupos e indica que há diferença significativa entre eles. Desse modo, o resultado aponta que, na média, quem pertence a uma religião e participa de suas atividades é mais feliz do que o indivíduo que não pertence ou pertence, mas não participa de suas atividades.

A comparação, na média, fornece indícios das possíveis associações das variáveis proxies de religião e religiosidade e a felicidade autorreportada. No entanto, para obter conclusões mais precisas, é fundamental estimar o modelo Probit ordenado, que inclui outros controles relacionados à felicidade autorrelatada.

4.2 Resultados Econométricos

Inicialmente, como teste de robustez, foi comparado o Probit ordenado (efeitos paralelos) ao Probit ordenado generalizado (paralelismo relaxado) por meio do teste de razão de verossimilhança (LR), vide Tabela 5. Essa tabela reporta os resultados dos efeitos marginais somente relativos à categoria 3 , ou seja, referentes a probabilidade de os indivíduos reportarem que se sentem “felizes” ou “muito felizes” e para as variáveis explicativas centrais — “Religião muito importante” e “Pertence e participa de atividades religiosas”. Foi possível constatar que na especificação generalizada, as associações dessas variáveis com a variável dependente permaneceram positivas, estatisticamente significativas e de magnitude similar, corroborando a robustez dos resultados encontrados. Ademais, foi realizado o teste de razão de verossimilhança (LR) para o modelo Probit ordenado, comparando-o à versão ordenada generalizada (paralelismo relaxado). A estatística encontrada foi de χ²(2)=2,60, com p-valor = 0,27. Dessa forma, não se rejeita a hipótese de paralelismo, indicando que o Probit ordenado é adequado.

Tabela 5: Teste de paralelismo e robustez
Tabela 5: Teste de paralelismo e robustez
Fonte: Elaboração própria. Nota: *** significativo a 1%, ** significativo a 5%, * significativo a 10%, NS não significativo; erros padrão robustos entre parênteses.

Adicionalmente, por meio da Tabela 6, foram estimados três diferentes modelos Probit ordenado com o intuito de analisar a associação entre religião - representada pela importância da religião na vida - e da religiosidade - representada pela noção de pertencimento e de participação ativa em atividades religiosas - com a variável dependente – felicidade individual autorreportada. Ressalta-se que o primeiro modelo inclui apenas a variável “religião muito importante”, além das demais variáveis de controle, buscando verificar a relação entre religião e felicidade. Já o segundo modelo enfatiza a associação entre religiosidade e o bem-estar subjetivo. Por fim, o terceiro modelo considera as duas variáveis proxies de religião e religiosidade conjuntamente e possui como objetivo avaliar e comparar a associação conjunta de ambos os elementos com a felicidade, além de corresponder a um teste de robustez dos resultados encontrados.

Tabela 6: Efeitos marginais referentes ao modelo Probit Ordenado estimado
Tabela 6: Efeitos marginais referentes ao modelo Probit Ordenado estimado


Fonte: Elaboração própria Nota: *** significativo a 1%, ** significativo a 5%, * significativo a 10%, NS não significativo: erros padrão robustos entre parênteses; referências das dummies: "Classe 1", "Saúde muito boa", "Desempregado", "Sudeste" e "Educ1".

Foi possível atestar que a variável “religião muito importante”, nos modelos 1 e 3, apresentou resultado positivo e estatisticamente significativo em relação à variável dependente “felicidade”. Com relação aos efeitos marginais, no primeiro modelo, observou-se que o fato de se considerar a religião muito importante eleva em 8,00 pontos percentuais (p.p.), aproximadamente, a probabilidade do indivíduo se considerar feliz ou muito feliz em comparação àqueles que a consideram importante, não muito importante e que apontam que ela não é importante. Esse resultado confirma a importância da religião, relacionada à manifestação da fé e da crença, como fator associado à concepção de bem-estar subjetivo.

O resultado obtido corrobora com o que foi exposto por Koenig e Larson (2001), Francis, Robbin e White (2003), Lehrer (2004), Ribeiro (2015) e Portella et al. (2017). No geral, entende-se que a fé influencia positivamente o bem-estar do indivíduo, que passa a basear suas atuações na moral e nos valores religiosos. Nesse sentido, por exemplo, quem possui uma crença tende a ser mais responsável com relação à situação financeira, o que pode gerar elevação na condição de vida (Guiso; Sapienza; Zingales, 2003).

Ademais, pessoas que têm fé também costumam ser mais responsáveis com a saúde, utilizando com menor frequência, por exemplo, algumas substâncias, tais como álcool e drogas ilícitas (Donahue & Benson; 1995), o que garante melhores condições de saúde física (Abdel-Kahlek, 2011). Adicionalmente, a saúde mental também é preservada, visto que os ensinamentos religiosos permitem que os adeptos à religião atribuem um significado às suas vidas, gerando um olhar mais positivo sobre elas. Concomitantemente, a religião permite que seus seguidores lidem melhor com momentos de adversidades, o que tende a reduzir a incidência de transtorno depressivo (Kosmin & Lachman, 1993).

Outrossim, averiguando a associação entre religiosidade e felicidade, identificou-se que a variável “pertence e participa de atividades religiosas” também é positiva e significativa nos modelos 2 e 3, apontando que quanto mais ativo o indivíduo é em seus compromissos religiosos, mais feliz ele se considera. Assim, ao se analisar os efeitos marginais indicados no modelo 2, entende-se que aqueles que pertencem e participam das atividades religiosas têm suas probabilidades de se autodeclararem mais felizes elevadas em 6,6 pontos percentuais (p.p.) comparativamente ao que não pertencem a nenhuma religião ou que pertencem, mas não participam.

A relação direta entre religiosidade e felicidade observada reafirma as análises encontradas em estudos anteriores para o Brasil, por Ribeiro (2015) e Oliveira (2018), e internacionalmente, por Biswas-Diener, Diener e Tamir (2004) e Steiner, Leinert e Frey (2010). Este último aponta como a promoção da religiosidade desperta no indivíduo a sensação de pertencimento a um grupo, uma vez que a pessoa passa a frequentar de maneira constante atividades coletivas, gerando, assim, uma rede de apoio social.

Ellison (1991) também aponta a importância da prática religiosa para o aumento da satisfação com a vida. Para o autor, participar dessas atividades pode melhorar a percepção de bem-estar individual de quatro formas distintas. A primeira refere-se à oportunidade que as igrejas e outras configurações institucionais religiosas oferecem com relação às interações sociais entre pessoas que possuem concepções e valores similares, nutrindo, dessa forma, amizades e outros laços sociais.

Ademais, as organizações religiosas provêm uma grande rede de apoio em tempos de adversidades, muitas vezes fornecendo informações e a devida assistência para ajudar os indivíduos com dificuldades. Além disso, a comunidade religiosa promove normas sociais sobre comportamentos interpessoais, de saúde, sobre relações familiares, negócios, entre outras dimensões, o que facilita a promoção do bem-estar individual. Por fim, a experiência de expressar a fé em grupo pode reforçar as crenças individuais, intensificando a interpretação religiosa sobre as experiências de vida pessoais e, consequentemente, levando o indivíduo a considerar que possui uma vida digna e feliz.

Quanto ao terceiro modelo, foi possível explorar a relação conjunta da religião e da religiosidade e a felicidade autorreportada. Ao incluir simultaneamente “religião muito importante” e “pertence e participa de atividades religiosas”, ambas mantiveram associações positivas e estatisticamente significativas com a felicidade autorreportada, indicando estabilidade e confiabilidade dos resultados. Em termos de magnitude, nota-se que um indivíduo que considera a religião muito importante eleva em 2,00 p.p. a probabilidade de se considerar feliz ou muito feliz em comparação ao indivíduo que considera a religião importante, não muito importante ou que aponte que ela não é importante. Já uma pessoa que pertence e participa de uma religião eleva em 1,90 p.p. a probabilidade de se considerar feliz ou muito feliz em comparação a quem pertence a uma religião, mas não participa de suas atividades ou a quem não pertence e não participa.

Em relação às demais variáveis de controle consideradas nos três modelos estimados, pode-se afirmar que a classe socioeconômica tem associação estatisticamente significativa com a felicidade autorreportada. Em outras palavras, quem se autodeclara pertencer às classes socioeconômicas “média baixa”, “média” e “média alta e alta” têm maior a probabilidade de se considerar feliz ou muito feliz comparativamente aos que se consideram pertencentes à classe socioeconômica “baixa”. Essa mesma constatação foi encontrada no estudo de Frey e Stutzer (2002). Com base em pesquisas anteriores realizadas nos Estados Unidos e em países europeus entre 1985 e 1995, os autores identificaram que os indivíduos pertences a classes socioeconômicas mais elevadas acreditam que seu trabalho árduo está sendo recompensado e tem trazido maiores benefícios. Isso leva as pessoas a se sentirem mais satisfeitas e contentes com suas vidas.

Da mesma forma, o melhor estado de saúde autorreportado se associa de forma positiva e estatisticamente significativa com a felicidade. Isso significa que indivíduos que relatam ter condição de saúde “muito boa” têm maior probabilidade de se considerarem felizes ou muito felizes em comparação com aqueles que afirmam ter um estado de saúde "bom”, “razoável”, “ruim” ou “muito ruim”. Essa relação entre estado de saúde e felicidade pode ser explicada pelo fato de que melhores condições de saúde física e mental estão associadas a um maior nível de bem-estar e satisfação com a vida. Estudos anteriores, como os de Koenig e Larson (2001) e Lehrer (2004), encontraram resultados similares, destacando a importância da saúde na percepção de felicidade das pessoas.

No que tange as variáveis de ocupação, é possível inferir que pessoas “empregadas” e “aposentadas” tendem a se considerarem mais felizes do que as desempregadas. De acordo com Nery (2014), a condição de desemprego acarreta perdas que vão além dos custos financeiros, como a redução do status social, autoestima, relacionamentos, entre outros fatores. Tudo isso corrobora para que o indivíduo se considere menos feliz. Esse resultado também vai ao encontro com o que foi encontrado por Frey (2008), cujo estudo aponta que pessoas empregadas reportam maior nível de felicidade em relação às que estão desempregadas.

Com relação aos aposentados, Fidelis, Fernandes e Tisott (2018) identificaram resultados similares, apontando que a maioria deles definiu seus empregos como missão de vida e os descreveram como prazerosos, identificando que o sentimento de bem-estar está intimamente relacionado com as realizações no trabalho. Por outro lado, as variáveis “dona de casa” e “estudante” não apresentaram associação estatisticamente significativa com a felicidade autorreportada.

Ademais, nos modelos estimados, a idade apresentou coeficiente negativo e idade ao quadrado positivo, configurando relação em “U” entre idade e felicidade. Ou seja, há declínio do bem-estar subjetivo até a meia-idade e recuperação na velhice. Consequentemente, jovens e idosos relatam, em média, mais felicidade do que adultos de meia-idade, em consonância com Blanchflower & Oswald (2008). Uma interpretação plausível é que jovens enfrentam menos encargos financeiros e familiares, exibem maior otimismo, redes sociais mais amplas e melhor saúde; já os idosos tendem a valorizar o presente, ajustar expectativas e contar com maior maturidade emocional, frequentemente associada à estabilidade financeira e familiar.

No que diz respeito à localização geográfica, o fato de residir nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil não apontou relação estatisticamente significativa com a felicidade em comparação aos moradores da região Sudeste. Entretanto, para quem reside na região Sul, o efeito marginal encontrado foi negativo e significativo. Isso significa que residentes dessa região do país tendem a se considerar menos contentes com suas vidas do que moradores do Sudeste. Essa diferença na percepção de felicidade entre as regiões pode ser atribuída a uma série de fatores socioeconômicos e culturais, como o nível de desenvolvimento econômico, a disponibilidade de oportunidades de trabalho, o acesso a serviços públicos, entre outras questões, influenciando a sensação de bem-estar e satisfação dos indivíduos. Além disso, diferenças culturais, valores e traços sociais específicos de cada região podem desempenhar um papel importante na forma como as pessoas avaliam sua felicidade (Neri & Schiavinatto, 2014).

Por sua vez, as variáveis “fundamental incompleto”, “fundamental completo”, “ensino médio incompleto”, “ensino médio completo” e “superior incompleto” não foram estatisticamente significativas, tendo como referência a variável “sem instrução”. Por fim, no que tange o estado civil, indivíduos casados tendem a se declarar mais felizes do que os não casados, como apontado também por Kim (2011). O autor aponta que o casamento pode aumentar a sensação de segurança financeira e emocional, além de proporcionar um senso de propósito e conexão social.

5 Conclusões

O presente estudo teve como objetivo investigar a associação entre religião e religiosidade com o bem-estar subjetivo dos brasileiros, tendo como proxy a felicidade autorreportada. Nesse sentido, compreende-se que o conceito de religião está intrinsecamente ligado à ideia de fé e crença, enquanto o conceito de religiosidade refere-se à prática religiosa e ao compromisso com as atividades ritualísticas.

Nesse contexto, dados para o Brasil relativos à sétima onda do World Values Survey de 2018 foram utilizados para a realização das análises descritiva e econométrica, a partir da estimação de modelos de Probit ordenado. Como principal resultado, verificou-se a existência de relação positiva entre as variáveis religião, religiosidade e felicidade. Desse modo, brasileiros que apontam a religião como fator muito importante em suas vidas e que participam com frequência de compromissos religiosos tendem a se considerar mais felizes em relação aos que consideram a religião apenas importante, não tão importante e não importante, além dos que pertencem a alguma igreja ou grupo religioso, mas não participam ou não pertencem, respectivamente.

São diversos os motivos para que tanto a religião quanto a religiosidade tenham associação positiv com o nível de bem-estar subjetivo da população. Com relação à primeira variável, percebe-se que a fé leva o indivíduo a basear suas ações em valores religiosos, o que gera um senso de responsabilidade com relação à situação financeira e às condições de saúde, por exemplo, em comparação àqueles que não possuem nenhuma crença.

Já com relação à religiosidade, entende-se que frequentar atividades religiosas permite que o indivíduo conte com uma rede de apoio e o faça se sentir pertencente a um grupo social. Dessa forma, o religioso conta com a assistência de um ciclo social que possui princípios similares e que proporcionam, por exemplo, ajuda em tempos de adversidades. Tudo isso contribui para que a pessoa que tenha fé e que participa de compromissos religiosos se sinta mais feliz.

Importante ressaltar que o estudo apresenta uma limitação importante. A análise é transversal e está sujeita a endogeneidade — por possível causalidade reversa (pessoas mais felizes podem praticar mais religião) e variáveis omitidas. Tal associação não foi controlada, dada a dificuldade de se encontrar instrumentos válidos para contornar esse problema. Dessa forma, sugere-se que estudos futuros se atentem para a possibilidade de tratar essa possível relação endógena.

Ademais, os resultados desta pesquisa fornecem informações importantes para o desenvolvimento de políticas públicas. Nesse sentido, a ampliação de espaços de convivência e apoio social, o estímulo à participação comunitária e a atenção a demandas culturais/espirituais quando o indivíduo desejar, especialmente no que se refere às condições de saúde mental, podem replicar mecanismos de pertencimento, suporte e sentido de propósito associados a maiores níveis autorreferidos de felicidade. Seria fundamental que essas ações viessem acompanhadas de salvaguardas contra a intolerância religiosa e de garantias de não discriminação para pessoas sem religião.

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