Secciones
Referencias
Resumen
Servicios
Descargas
HTML
ePub
PDF
Buscar
Fuente


A questão urbana e o planejamento urbano e regional nas equipes de Lebret no Brasil1
The urban question and the regional planning in Lebret’s groups in Brazil
Oculum Ensaios, vol. 15, núm. 2, pp. 223-232, 2018
Pontifícia Universidade Católica de Campinas

ARTIGO DE PESQUISA


Recepção: 12 Maio 2017

Aprovação: 13 Dezembro 2017

DOI: 10.24220/2318-0919v15n2a3955

RESUMO: A discussão acerca do legado de Louis-Joseph Lebret, religioso dominicano francês e fundador do Economia e Humanismo, destaca a atuação dos organismos vinculados a ele, expondo o engajamento deles junto aos temas do desenvolvimento econômico, social e humano. No Brasil, é possível verificar também a contribuição de Lebret, por meio da atuação da Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, nos anos de 1950 e início dos 1960, em experiências acerca do planejamento urbano e regional. Assim, este trabalho busca apresentar, dentro das ideias vigentes sobre o legado de Lebret, o engajamento do dominicano frente às questões urbanas e o planejamento regional no Brasil.

PALAVRAS-CHAVE: Lebret, Planejamento Urbano, SAGMACS.

ABSTRACT: The discussion about the legacy of Louis-Joseph Lebret, a French Dominican religious and founder of Economics and Humanism, highlights the work of the organizations linked to him, exposing their engagement with the themes of economic, social, and human development. In Brazil, it is possible to verify Lebret’s contribution through the work of Society for Graphical and Mecanographical Analysis Applied to Socials Complexes in the 1950s and beginning of the 1960s, in experiences related to urban and regional planning. Thus, this paper seeks to present, within the current ideas on Lebret ‘s legacy, the Dominican’ s engagement with urban issues and regional planning in Brazil.

KEYWORDS: Lebret, Town Planning, SAGMACS.

INTRODUÇÃO

Dentro das ideias vigentes sobre o legado de Louis-Joseph Lebret, é possível verificar que no Brasil, por meio de sua atuação, a partir de sua primeira estada, em 1947, quando também visitou a Argentina, o Chile, a Colômbia e o Uruguai, as equipes formadas nestes países e vinculadas ao Centro de Economia e Humanismo francês, se destacaram pela atuação e engajamento junto aos temas do desenvolvimento econômico, social e humano e também, nos casos brasileiros, da Colômbia e no Uruguai, em experiências acerca do planejamento urbano e regional.

No Brasil, as ideias de Lebret foram difundidas dentro do meio cristão católico, mas também no campo do urbanismo e do planejamento urbano e regional, o que se deu a partir da criação da Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (SAGMACS), fundada em 1947 e que a partir de 1952, engajou-se em pesquisas e trabalhos na área do planejamento urbano e regional, resultando em trabalhos como: “Problemas de Desenvolvimento: Necessidades e Possibilidades do Estado de São Paulo” (1953-1955); “Estudo sobre o Desenvolvimento e implantação de indústrias no Pernambuco e no Nordeste do Brasil” (1954-1955); “Problemas de Desenvolvimento, Necessidades e possibilidades dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná” (1956-1958); estudo da “Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana: estruturas atuais e estruturas racionais” (1956-1958); pesquisa sobre os “Aspectos Humanos da Favela Carioca: estudo socioeconômico” (1958-1960); “Relatório sobre o problema de água e esgotos: análise da situação dos sistemas nas sedes de municípios do interior de São Paulo” (1962-1963); e vários planos diretores para cidades e estudo para o “Plano de Desenvolvimento do Paraná”, durante o governo de Ney Braga em 1963.

Embora o ideário urbano e as preocupações com o tema da cidade já se fizessem presentes em Lebret, desde 1941, por ocorrência de sua passagem pela École des cadres d’Uriage, onde apresentou um projeto para introduzir o estudo sobre a cidade, intitulado “La Cité: Projet d’un Programme d’enquête et d’un programme d’action” (LEBRET, 1942), a questão passou a figurar nos encontros e debates promovidos pelo Economia e Humanismo (EH), chamados de Semanas Sociais, somente a partir de 1945, coincidindo com o término da Segunda Guerra Mundial. Isso ocorreu no mesmo momento em que o Economia e Humanismo foi contratado pelo Ministério da Reconstrução e Urbanismo (MRU) o que culminou na criação de laboratórios de pesquisas locais, constituídos em forma de associações, que realizaram pesquisas a pedido do governo francês, por meio do MRU, a fim de responderem aos problemas de reconstrução das cidades francesas que haviam sido bombardeadas durante a guerra.

A criação do Centre Régional de Documentation et de Conjoncture (CREDOC), Institut Marseillais de Statistique et d’Analyse et de Conjoncture (IMSAC) e da Société pour l’application du graphisme et de la mécanographie à l’Analyse (SAGMA), no Pós-guerra, foi um importante marco para a disseminação das ideias da equipe de Lebret, sobretudo no engajamento de técnicos em trabalhos de aménagement du territoire na França, além de ter estabelecido um elo de ligação com o MRU. Assim, enquanto o Centro de Economia e Humanismo era o organismo central, responsável pela elaboração de métodos, discussão das ideias e disseminação do ideário lebretiano, os órgãos vinculados ao EH na França, que prestaram serviços para o MRU, funcionaram como laboratórios de pesquisas locais.

Porém, ao contrário do que se deu no Brasil, onde a SAGMACS - órgão criado por Lebret em 1947 e vinculado ao EH francês, que prosperou na década de 1950 e consolidou-se como uma instituição de urbanismo -, a questão urbana nas equipes francesas não se destacaram como a principal área de interesse do grupo. Este fato permite, assim, verificar que a preocupação com o urbanismo e o engajamento das equipes de Lebret, frente aos problemas do planejamento urbano e regional, se deram de forma mais efetiva no Brasil, além de experiências realizadas na Colômbia, no México e no Uruguai. Dessa forma, essas experiências podem ser consideradas como um legado de Lebret e do Economia e Humanismo para o Brasil e para os demais países sul americanos, em que o dominicano criou órgãos e instituições vinculadas ao Centre d’Économie et Humanisme francês.

Com base nestas informações e o percurso realizado por Lebret - estudado a partir da metodologia apresentada nos trabalhos realizados pela equipe, de documentos referentes a trabalhos realizados por Lebret e das contratações estabelecidas, bem como a cronologia de desenvolvimento de trabalhos pela SAGMACS -, este artigo propõe situar a inserção de Lebret acerca da questão urbana e do planejamento urbano e regional nas equipes da SAGMACS, instituição brasileira vinculada ao EH, que se consolidou durante a década de 1950. Dessa forma, será possível, elucidar tanto as preocupações do grupo de Lebret com o desenvolvimento humano, que buscava colocar as pessoas como centro das políticas públicas, quanto a teia de personagens que contribuíram para a formação do Economia e Humanismo e da SAGMACS, para aprimorar os métodos acerca da questão urbana e do planejamento urbano e regional, que permitiram assim inserir este órgão como uma instituição de urbanismo no Brasil dos anos 1950 e 1960.

A QUESTÃO URBANA E O PLANEJAMENTO REGIONAL NAS EQUIPES DE LEBRET

O Centro de Economia e Humanismo foi fundado por Louis-Joseph Lebret, em Marseille na França, em 1941, em conjunto com demais religiosos da Ordem dos Pregadores, Empresários e Intelectuais Católicos. Segundo a Ata de Fundação, (Archives Nationales de France, Pasta AN45 AS44) além de Lebret, outros cinquenta nomes participaram da composição inicial do grupo, dentre os quais destacamos os economistas René Moreaux, primeiro presidente do Economia e Humanismo e François Perroux, na vice-presidência; o empresário Alexandre Dubois, como tesoureiro, e os padres Lebret e Suavet, respectivamente, na secretaria geral e adjunta. O objetivo do grupo era formar um organismo voltado ao estudo das questões referentes ao desenvolvimento econômico, de forma a colocar o homem como elemento central da sociedade.

Assim, o Estatuto da Associação2 apontava entre suas intenções: estudar por meio de enquetes e outros métodos de investigação as realidades humanas, econômicas e sociais do período, buscando provocar em seus membros, o olhar do trabalho científico para se alcançar a elaboração de uma doutrina econômica, espiritualista, que colocasse a economia a serviço do homem (CESTARO, 2015). E, por fim, suscitar o senso dos profissionais ou de algumas categorias econômicas, a respeito das técnicas e dos profissionais capazes de determinar as condições concretas do Bem Comum na sua profissão ou na sua região de trabalho.

O grupo francês pregava a maior regulação do mercado, afirmando que crescimento e desenvolvimento não eram sinônimos, e que mais importante do que promover o crescimento econômico era desenvolver a sociedade, perpassando áreas além da economia, como as questões sociais, por meio do desenvolvimento de programas e ações para a saúde, a educação e a cultura.

Dessa forma, contrariando a tendência dos economistas tradicionais, Lebret buscou, com o Economia e Humanismo, uma maneira de analisar a realidade social, de forma a deduzi-la e explicá-la concretamente, diferenciando o “homo aeconomicus” dos valores econômicos, abrindo espaço para uma economia das necessidades humanas e criando uma hierarquia dessas necessidades. Em 1944, Lebret publicou um manual, apontando para maneiras de interpretação da realidade social e econômica e apresentando o método de trabalho que o Economia e Humanismo introduziria em seus estudos para se compreender a vida em comunidade, a realidade social dessas comunidades e constituir uma economia das necessidades.

Embora o ideário urbano e as preocupações com o tema da cidade já se fizessem presentes em Lebret, desde 1941, por ocorrência de sua passagem pela École des cadres d’Uriage, a questão não foi abordada no primeiro manual publicado pelo grupo, passando a figurar nos encontros e debates promovidos pelo Economia e Humanismo, chamados de Semanas Sociais, somente a partir de 1945, coincidindo assim com o término da Segunda Guerra Mundial. Mesmo momento em que o Economia e Humanismo se aproximou do Ministério da Reconstrução e Urbanismo, que contratou estudos ao EH, culminando na criação de laboratórios de pesquisas locais, constituídos em forma de associações - como o CREDOC, o IMSAC e a SAGMA -, que realizaram pesquisas a pedido do governo francês, a fim de responderem aos problemas de reconstrução das cidades francesas que haviam sido bombardeadas durante a guerra.

Coube a Gatheron (1945) abordar na “Semana Social de La Tourette”, a comparação da cidade a uma organização familiar, apontando que devido a intensa migração das famílias para os centros urbanos, a cidade transformou-se no local da economia e da agregação de valores culturais, sociais e políticos, passando a ser o cenário principal das relações humanas.

Dentro dessa perspectiva, em 1946 foram realizados quatro estudos sobre condições de habitação nas cidades de Lyon, Marseille, Nantes e Saint-Etienne contratados pelo governo francês, que envolveu técnicos ligados ao Economia e Humanismo. Assim, podemos dizer que a criação do CREDOC, IMSAC e da SAGMA no pós-guerra foi um importante marco para a disseminação das ideias da equipe de Lebret, sobretudo no engajamento de técnicos em trabalhos de aménagement du territoire na França, além de ter estabelecido um elo de ligação com o Ministério da Reconstrução e Urbanismo.

Já no Brasil, em 1947, as ideias de Lebret foram difundidas dentro do meio católico, mas também no campo do urbanismo e do planejamento urbano e regional, o que se deu a partir da criação da Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, e que a partir de 1952 engajou-se em pesquisas e trabalhos na área do planejamento urbano e regional, resultando em estudos, planos e relatórios, conforme já apontados neste trabalho.

Porém, apesar da proximidade de organismos vinculados ao Economia e Humanismo em relação ao governo francês ter rendido a encomenda de alguns trabalhos no contexto do pós-guerra - ao contrário do que se deu no Brasil, onde a SAGMACS, órgão criado por Lebret em 1947, que prosperou na década de 1950 e consolidou-se como uma instituição de urbanismo no país -, a questão urbana nas equipes francesas não se destacou como a principal área de interesse do grupo. Esse fato nos permite verificar que a preocupação com o urbanismo e o engajamento das equipes de Lebret, frente aos problemas do planejamento urbano e regional, se deram de forma mais efetiva no Brasil, assim como na Colômbia, no México e no Uruguai. Assim, as experiências desenvolvidas pela SAGMACS no Brasil nos permitem inserir a instituição criada por Lebret dentro do hall de assistências técnicas e instituições de urbanismo, que estavam sendo criadas no país desde os anos 1940.

O período de criação da SAGMACS no Brasil, coincide com a fundação de demais órgãos de assistência técnica. De forma que, segundo Feldman (2009, p.3) “a década de 1950 pode ser considerada o momento de maior crença no planejamento regional e nas possibilidades do planejamento como atribuição privilegiada do Estado”. Pode-se dizer que há, portanto, um período de organização de instituições voltadas à assistência técnica no âmbito do urbanismo.

Criam-se, neste momento, instituições autônomas, como a SAGMACS (1947), o IBAM - Instituto Brasileiro de Administração Municipal (1952), instituições vinculadas às universidades, como o CPEU - Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos, na FAU USP (1955), o CEPUR - Centro de Estudos de Planejamento Urbano e Regional, na UFPE (1962), todas com atuação destacada na assistência técnica às administrações municipais, assim como instituições supragovernamentais, como a CIBPU - Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai (1952) (FELDMAN, 2009, p.5).

Essa crença no planejamento urbano e regional, e a necessidade de tratar dos problemas de urbanismo nas cidades brasileiras, bem como as necessárias reformas vigentes no Estado, permitem assim a SAGMACS atuar junto a governos estaduais, prefeituras, empresas estatais e também prestar serviços à iniciativa privada, por cerca de quinze anos.

OS PAÍSES SUL-AMERICANOS COMO FRONTEIRA PARA EXPANSÃO E DIFUSÃO DAS IDEIAS DO ECONOMIA E HUMANISMO

Lebret chegou ao Brasil, convidado por Ciro Berlink, diretor da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em São Paulo, num momento em que o país vivia um processo de transição de uma matriz agrária e rural para um país que se industrializava e começava a ser urbano. No campo político, o Brasil saía da ditadura Vargas e experimentava a redemocratização com eleições diretas para presidente. Era um período em que a atividade industrial brasileira havia se desenvolvido de maneira expressiva e obtido saldo na balança comercial, em decorrência tanto do aumento do mercado consumidor interno, impedido de importar produtos da Europa, quanto pelas demandas externas por produtos manufaturados. Assim, segundo Valladares (2005, p.79), “cristãos e elites anticomunistas buscavam um projeto político para uma sociedade em plena reconstrução”.

Essa situação abria campo para a constituição de ideias para além dos centros empresariais, mas que propiciassem a adoção de um discurso de conciliação social dos industriais com os trabalhadores, a fim de se afastarem as ambições socialistas presentes em alguns meios sindicais e em parte do clero católico alinhado a uma esquerda progressista. Para Lebret, tratava-se de um terreno fértil, pois seu discurso propunha uma alternativa humanista e solidária para solucionar problemas sociais, o que, segundo Valladares (2005, p.79) “tanto seduziu os jovens católicos, quanto uma grande parte da elite envolvida na busca de uma via ao mesmo tempo anti-imperialista e anticomunista que permitisse impulsionar as mudanças sociais e o desenvolvimento econômico”.

Embora o trabalho de Lebret como professor visitante da ESLP não tenha rendido a ele prestígio junto ao meio intelectual paulista, sua estada possibilitou, por meio de seu contato com alunos da instituição, com demais professores e com religiosos, disseminar no Brasil os métodos do Economia e Humanismo e sobretudo, criar em São Paulo a SAGMACS, um organismo vinculado ao grupo francês.

A Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais foi fundada em julho de 1947, em São Paulo, por Lebret, financiada inicialmente pelo Jóquei Clube, para ser um laboratório de pesquisas sociais. Contou em seus quadros iniciais com os professores da Escola Politécnica Luís Cintra do Prado e Lucas Nogueira Garcez, do advogado André Franco Montoro, do diretor do Hospital São Paulo Dr. Freitas e a Senhorita Chiara Pinheiro, estudante de Economia e membra da Ação Católica.

Além disso, segundo Albertini (2006, p.21), foi graças a sua visita aos países sul americanos que Lebret “percebeu os problemas postos pelos países em via de desenvolvimento e os considerou como mais importantes que o que se via na Europa”. Isso demonstra a importância da estada de Lebret no Brasil e nos demais países sul americanos para a própria formação do religioso, no sentido de aprimorar-se no entendimento dos problemas do mundo e principalmente na economia do Terceiro Mundo em relação às economias centrais.

O DEBATE SOBRE A QUESTÃO URBANA E O PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL NAS EQUIPES DA SAGMACS: UM PERCURSO PARA CONSOLIDAÇÃO DE UMA INSTITUIÇÃO DE URBANISMO

Fundada em 1947, a SAGMACS passa seus primeiros anos, como um órgão que reunia pesquisadores das áreas da economia, da sociologia e da engenharia, e que realizavam trabalhos de forma autônoma, os quais eram submetidos ao Centro de Economia e Humanismo na França. É importante lembrar que num primeiro momento, ou primeira fase de atuação, a SAGMACS não contou com a presença direta de Lebret atuando em seus quadros, uma vez que o religioso retornou à França em agosto de 1947, a pedido do Vaticano que atendeu o apelo da ala conservadora da igreja católica no Brasil, que mostrava-se preocupada com as ideias do Economia e Humanismo sobre o desenvolvimento harmônico.

Lebret só retorna ao Brasil em 1952, após intermédio de Lucas Garcez, engenheiro e professor da Escola Politécnica, que havia sido eleito governador de São Paulo. Na primeira fase de atuação do grupo, que segundo Pelletier (1996) e Cestaro (2015), se deu entre os anos de 1947 e 1952, a questão urbana e regional ainda não se apresentava como principal preocupação da equipe. Neste momento os membros vinculados ao grupo empreendiam trabalhos de consultoria e de assistência à empresários e industriais, bem como realizavam ensaios e análises sociológicas sobre as condições de vida dos empregados de algumas indústrias e comunidades determinadas.

A partir de 1952, inicia-se para Cestaro (2015) a segunda fase de atuação da SAGMACS. É neste período que a instituição passa a trabalhar em grandes pesquisas e em trabalhos voltados ao desenvolvimento das cidades, como o “Plano Diretor para a cidade de Ourinhos (1953-1954)”. O início deste percurso se deu em 1953, quando a SAGMACS foi contratada pelo governador Lucas Nogueira Garcez para realização de um plano de eletrificação do Estado de São Paulo, bem como para elaborar o diagnóstico sobre os “Problemas de Desenvolvimento: necessidades e possibilidades do estado de São Paulo (1952-1954)”, trabalho realizado dentro do escopo de ação da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai (CIBPU), que demandou a formação de uma equipe ampla, com profissionais das áreas da economia, sociologia e arquitetura, resultando na formação de uma equipe interdisciplinar.

Contratado para coordenar o estudo, Lebret viajou e conheceu todo o território paulista, e verificou de perto as condições de vida da população e suas necessidades básicas, percebendo as mudanças em relação às condições que estava acostumado a verificar no primeiro mundo, mas também constatando a diversidade de paisagem, economia e meios culturais que marcavam as diferenças entre a capital paulista, que figurava como a principal sede da indústria do país no período, e as cidades do interior do estado.

Num aspecto mais amplo sobre a montagem das equipes da SAGMACS, podemos dizer que o trabalho para o estado de São Paulo, ocorreu num momento em que o grupo crescia e contava com diferentes frentes de apoio. Além do governador Garcez, Lebret também gozava de bom trânsito entre os setores mais progressistas da igreja católica, como o então Arcebispo do Rio de Janeiro D. Hélder Câmara; André Montoro, da Ação Católica, e Plínio de Arruda Sampaio, da Juventude Universitária Católica. Porém, foi de Recife que Lebret recebeu reforço para atuar no campo da formação técnica das equipes, através da aproximação com o engenheiro e professor Antônio Bezerra Baltar, que colaborou com o trabalho realizado para o governo paulista, entre 1953 e 1955.

A aproximação de Lebret com Baltar permitiu à SAGMACS uma ampliação física de sua área de atuação, que até então era limitada ao Rio de Janeiro e a São Paulo. No Rio, o dominicano contava com o apoio de Josué de Castro e de José Arthur Rios, que tinham trânsito junto ao governo de Vargas. No estado de São Paulo, a permeabilidade de Lebret se dava por seu vínculo com setores empresariais, o governador paulista e a ELSP. A parceira com Baltar abriu espaço para Lebret atuar no estado do Pernambuco, onde realizou um estudo para o desenvolvimento do Estado, aliando economia com fatores sociais e urbanísticos, resultando no trabalho “Estudo sobre o desenvolvimento e implantação de Indústrias no Pernambuco e no Nordeste do Brasil”, encomendado pela Comissão de Desenvolvimento do Estado do Pernambuco (CODEPE), entregue em 1955.

Segundo Pelletier (1996), o trabalho da SAGMACS, em Pernambuco, se deu como reflexo do momento político e econômico brasileiro, pois havia no período, grande interesse e preocupação sobre o fraco desenvolvimento do Nordeste brasileiro. De forma que o governo Vargas lançou uma política de reequilíbrio regional para área carentes, fundando o Banco do Nordeste em 1952.

Em 1956 a SAGMACS iniciou novo contrato com a CIBPU para dar continuidade à pesquisa, estendendo a análise para os estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. O trabalho foi concluído em 1958, mesmo ano em que a equipe concluiu a pesquisa contratada pela Prefeitura de São Paulo intitulado “Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana: estruturas atuais e estruturas racionais”. O acúmulo de experiências e o desenvolvimento de novos contratos no âmbito do planejamento urbano e regional, obtidos no final da década de 1950, apontam para a consolidação da SAGMACS como uma instituição de assistência técnica em urbanismo. Estes trabalhos da equipe dirigida por Lebret no Brasil, coincidem com o lançamento do exemplar do 4° Guia Prático para orientação de Pesquisa Social (LEBRET, 1958), que é destinado as enquetes voltadas ao aménagement regional.

A partir destes trabalhos a SAGMACS atuou no desenvolvimento da primeira pesquisa sobre os “Aspectos Humanos da Favela Carioca”, apresentado em 1960, no estudo da “Estrutura Urbana de Belo Horizonte (1958-1960)”, que resultou na elaboração do “Plano Diretor de Belo Horizonte” (1962), de pesquisas para o estado de São Paulo e demais órgãos estatais, como a Usiminas e a Companhia Vale do Rio Doce, entre outros contratos voltados à elaboração de planos diretores, estudos sobre problemas de desenvolvimento de cidades e regiões, relatórios técnicos e propostas para novos loteamentos.

Na década de 1960, Lebret não é mais uma figura tão presente entre os técnicos da SAGMACS, visto suas atribuições junto ao Concílio Vaticano II, onde assessorava o Cardeal brasileiro D. Hélder Câmara, bem como das demais atividades desenvolvidas junto ao Institut de Recherche et Formation pour Économie et Développement (IRFED). A instituição reformula seu Estatuto e torna-se uma cooperativa de técnicos, ainda vinculada ao Centro de Economia e Humanismo, mas com mais autonomia para desenvolver seus trabalhos e metodologia. Os trabalhos da equipe foram interrompidos após o golpe civil militar de 1964, que destituiu o presidente constitucional e instaurou no país uma ditadura militar, que durou até o início dos anos 1980. A sede da SAGMACS em São Paulo, foi desativada em 1969, e o acervo bibliográfico foi vendido à biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 1973.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A SAGMACS atuou no Brasil entre os anos de 1947 e 1964. Em quase vinte anos de atuação da equipe de Lebret, alguns trabalhos se destacaram devido à complexidade e abrangência do objeto de estudo. Além de trabalhos voltados ao desenvolvimento urbano e planejamento regional, que ganharam destaque a partir da década de 1950, a equipe de Economia e Humanismo no Brasil também atuou em pesquisas voltadas à modernização de organismos estatais, propondo a reforma administrativa das estruturas dos governos do estado de São Paulo, entre 1959-1962, e do Paraná, em 1963.

Quanto aos pontos de inovação trazidos pela atuação da SAGMACS, sob a supervisão de Lebret, ao quadro do urbanismo no Brasil, pode-se apontar para o fato de o trabalho do grupo diferir das demais instituições de urbanismo, uma vez que introduziu a prática da pesquisa urbana enquanto uma importante ferramenta do planejamento das cidades. Implantou-se a pesquisa sociológica e a pesquisa de campo como procedimentos obrigatórios realizados nos trabalhos das equipes de Lebret, o que expôs maior preocupação com a questão social entre os urbanistas da época e abriu espaço para a discussão, no campo do urbanismo e do planejamento regional, da questão do desenvolvimento econômico e dos problemas sociais encontrados nas principais cidades do Brasil naquele período.

Dessa forma, a atuação da SAGMACS instaurou uma técnica reflexiva, que questionava as bases da urbanística moderna, que priorizava investimentos em determinadas áreas da cidade em detrimento do desconhecimento das demandas existentes em regiões mais afastadas da área central. E essa prática rendeu à equipe da SAGMACS a consolidação enquanto organismo de assistência técnica no quadro do urbanismo. Além disso, a atuação de Lebret no Brasil rendeu a formação de quadros atuantes no campo do planejamento urbano e regional, a partir das décadas de 1960.

REFERÊNCIAS

ALBERTINI, J.M.L.J. Lebret. Revista Oikonomia, Ano 5, n.2, p.18-26, 2006.

CESTARO, L.R. A atuação de Lebret e da SAGMACS no Brasil (1947-1964): Ideias, planos e contribuições. 2015. 376 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Carlos, 2015.

ÉCONOMIE ET HUMANISME. Statuts et Composition de l’Association. Marseille: Centre d’Économie et Humanisme, 1941.

FELDMAN, S. 1950: a década da crença no planejamento regional no Brasil. In: ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL, 13., 2009, Florianópolis. Anais... Florianópolis: Ceap, 2009. p.1-24.

GATHERON, J.M. La Méthode d’Enquête pour la prise en charge d’un village. L’Arbresle: Économie et Humanisme, 1945. Rapport: Semaine Sociale de La Tourette.

LEBRET, L. La Cité. Projeté d’un Programme d’Enquête et d’un Programme d’Action. Pierrefitte-sur-Seine: École des Cadres d’Uriage, 1942. (Archives Nationales de France, Pasta AN45 AS44).

LEBRET, L. Guide pratique de l’enquete sociale IV: l’enquête en vue de l’aménagement régional. Paris: Presses Universitaire de France, 1958.

PELLETIER, D. Économie et humanisme: de l’utopie communautaire au combat pour le tiers monde (1941-1966). Paris: Les Éditions du Cerf, 1996.

VALLADARES, L.P. A invenção da favela: do mito de origem a favela.com. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005. p.79.

NOTAS

1 Artigo elaborado a partir da tese de doutorado de L.R. CESTARO, intitulada “A atuação de Lebret e da SAGMACS no Brasil (1947-1964): ideias, planos e contribuições”. Universidade de São Paulo, 2015.
2 Ver “Statuts et Composition de l’Association” do Économie et Humanisme (1941).


Buscar:
Ir a la Página
IR
Visualizador XML-JATS4R. Desarrollado por