ARTIGO DE PESQUISA
Paquetá: os primórdios do Rio de Janeiro como balneário
Paquetá island: Rio de Janeiro’s beginnings as a beach resort
Paquetá: os primórdios do Rio de Janeiro como balneário
Oculum Ensaios, vol. 15, núm. 2, pp. 287-298, 2018
Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Recepção: 01 Outubro 2017
Revised document received: 30 Novembro 2017
Aprovação: 18 Dezembro 2017
RESUMO: O presente artigo busca compreender um momento de transformação da cidade em sua relação com o seu litoral, a partir de novos hábitos culturais que surgem na Europa no Século XVII, relacionados inicialmente ao uso das águas em termas e balneários naquele continente, e sua transposição para o Rio de Janeiro no século XIX, criando uma cultura de uso da praia e da natureza. Através do estudo de um álbum de fotografias de uma família alemã em Paquetá, uma pequena ilha na Baía de Guanabara, o trabalho visa analisar novos hábitos que estrangeiros trazem para a cidade, em especial em relação ao lazer e à natureza, e como isso influenciou a formação urbana da cidade. Utilizando as fotografias e a bibliografia sobre balneários, lazer, turismo e a história do Rio de Janeiro, o trabalho traz um olhar sobre as origens da relação entre a tradição e a transformação urbana partir de então.
PALAVRAS-CHAVE: Cidades litorâneas, História do Rio de Janeiro, Paquetá, Turismo e cidade.
ABSTRACT: This article is part of an effort aimed to understand a moment of change for the city in its relation with the coast, from the moment new cultural habits appear in Europe in the 17th century, based on European culture of medicinal use of thermal springs and resorts, and its transfer to Rio de Janeiro in the 19th century to create a culture of use of the beaches and contact with Nature. Based on the study of a collection of photographs of a German family resident on the island of Paquetá, in the Guanabara Bay, the work focuses on studying the new practices foreigners brought to the daily life of the city, especially regarding leisure and contact with nature, and how that influenced the urban growth of the city. With the use of photographs and the bibliography on resorts, leisure, tourism, and the history of Rio de Janeiro, the work focuses on the origins of the relation between tradition and urban transformations since then.
KEYWORDS: Resort, Seaside cities, History of Rio de Janeiro, Paquetá, Tourism and the city.
INTRODUÇÃO
O artigo é parte de uma pesquisa sobre as mudanças urbanas da cidade do Rio de Janeiro no século XIX, e como o lazer e novos hábitos culturais vão sendo incorporados na formação da cidade e na formação da cidade turística. A partir do estudo de um álbum de fotografias de uma família de origem alemã em Paquetá, pequena ilha na Baía de Guanabara, o trabalho busca compreender um novo momento da cultura da cidade, cada vez mais voltada para seu litoral, e de como isso tem ligação com os balneários surgidos na Europa no século XVII, e que iniciaram uma nova relação, inicialmente terapêutica, entre a sociedade ocidental e a natureza, através do uso medicinal das águas.
Ao se falar do Rio de Janeiro as praias surgem como um de seus principais elementos da paisagem. A imagem da cidade está diretamente relacionada ao seu litoral e ao uso que a população faz de suas praias. Nem sempre isso foi uma realidade. As benesses dos banhos de mar ainda eram pouco conhecidas na cidade até a chegada da família real, em 1808, quando uma peculiar mordida de carrapato fez com que os médicos da época indicassem banhos de mar como terapia para os males de seu mais nobre personagem, o príncipe regente Dom João (PERROTTA, 2015). Essa situação somente seguia o que já ocorria na Inglaterra e em outros países da Europa há tempos. Urry (2001) fala dos balneários na Inglaterra como lugares que surgiram ainda no século XVII para tratamentos de saúde, inicialmente ligados a tratamentos de águas termais, e que devido à localização de alguns desses conjuntos junto ao mar acabaram relacionando os usos termais com os banhos de mar, inicialmente voltados para os tratamentos de saúde.
No Brasil, somente mais tarde a cidade irá desenvolver os usos de balneário (PERROTTA, 2011), com praias como Botafogo e Flamengo, sendo as mais procuradas. Somente no século XX, com Copacabana, a cidade desenvolve de maneira mais efetiva o culto ao mar como espaço de lazer. O presente artigo busca mostrar como Paquetá, uma pequena ilha no meio da Baía de Guanabara, foi um lugar em que a partir de meados do século XIX se desenvolveram novos usos referentes ao mar e à paisagem, como banhos, esportes nas águas, a fruição de passeios e da própria paisagem e seu registro, tanto através da pintura como em fotografias, um novo hábito que se relaciona diretamente com o turismo.
Este artigo surge do estudo sobre a presença de uma família de imigrantes alemães que estabeleceu sua segunda residência na ilha na última década do século XIX, e que deixou relatos e um álbum de fotografias mostrando momentos de lazer na ilha1 . A partir do que nos conta Joaquim Manuel de Macedo (1997) na obra “A Moreninha”, o uso da ilha como lugar de veraneio já era uma constante, e as fotografias e os relatos mostram como banhos de mar, passeios de barco e atividades ao ar livre eram frequentes na vida urbana das elites cariocas, mostrando como uma nova relação do carioca com suas praias e o mar foi sendo construída durante o século XIX, se popularizando a partir da descoberta da praia como lazer de massa, no começo do século XX.
Urry (2001) nos fala de como o olhar do turista é importante no processo de criação das atrações e mostra como os balneários na Inglaterra se relacionaram com aspectos de saúde desde o século XVII, e sua influência para a valorização das praias através dos banhos para tratamentos de saúde, o que Shields (1992) acompanha ao mostrar como o desenvolvimento do turismo de massas nas praias inglesas esteve ligado ao início do desenvolvimento dessas atividades na Europa.
O estudo se baseou inicialmente em uma análise das fotografias do álbum e relatos familiares, além da bibliografia referente à história do turismo e dos balneários, e da história da cidade do Rio de Janeiro e de sua formação urbana. A importância da fotografia aparece na obra de Sontag (2004), que mostra como essa nova tecnologia do século XIX se associa ao imaginário do turismo de massas. Autores como Pires (2002), Camargo (2007) e Perrotta (2015) apresentam um olhar sobre o turismo no Rio de Janeiro no século XIX, em um momento em que a cidade recebe muitos visitantes estrangeiros, já podendo ser considerados como turistas. O’Donnell (2013) traz importante visão sobre a cidade e sua cultura de praia, com o surgimento de Copacabana no final do século XIX e o desenvolvimento da cidade balneário no século XX. Coaracy (1965, 2009) mostra um panorama da ilha de Paquetá, com sua história no século XIX, incluindo as famílias estrangeiras que ali tinham chácaras, e que muitas se tornaram mais tarde hotéis, como foi o caso da residência dos Süssekind, apresentada neste artigo.
O TURISMO E OS BALNEÁRIOS
Urry (2001) fala que após o chamado Grand Tour, movimento da nobreza em que seus jovens viajavam pela Europa em busca de aperfeiçoamento cultural e conhecimentos durante os séculos XVII e XVIII, a natureza passou a atrair os mais ricos, começando a existir locais como estações de águas, balneários oceânicos e alpinismo em montanhas europeias. Essa movimentação relacionada à natureza continuou intensa durante o período do romantismo no século XIX, quando se buscavam locais históricos ou naturais. O crescimento do número de balneários por toda a Europa (URRY, 2001) com luxo e conforto visava proporcionar uma experiência urbana às elites rurais, ainda pouco afeitas aos novos hábitos urbanos. O turismo surge com efeito educativo, estimulando um novo consumo ligado a essa modernidade urbana que surgia.
Cidades como Bath, na Inglaterra, são exemplos dessa nova cultura que surgia. Antiga cidade romana com fontes termais, como seu próprio nome revela, teve no século XVIII um aumento expressivo dessa movimentação, com reflexos na arquitetura e no urbanismo da cidade (RIDDINGTON & NADEN, 2011).
O surgimento de locais destinados a novos visitantes nobres mostra um pouco o aumento da importância de se visitar novos lugares, além de outros exemplos na construção de moradias na cidade, para receber esses visitantes, como o Royal Crescent, também do final do século XVIII. A nobreza passava a frequentar essas cidades com maior assiduidade, gerando a necessidade de espaços para sua recepção.
Ao lado de Bath, que manteve mesmo durante a Idade Média sua importância como balneário, surgiram por toda a Europa lugares onde se podia, durante o século XVII, aproveitar as qualidades medicinais das águas minerais, tanto para banhos como para se beber (URRY, 2001). Urry fala que na Inglaterra, já em 1626, Scarborough era um lugar procurado por suas águas com propriedades curativas. E que sua localização junto ao mar2 acabou proporcionando o surgimento de prescrição médica para o banho de mar com indicações terapêuticas. A novidade que era o uso das águas do mar passou a atrair grande número de visitantes no século XVIII, prenunciando os balneários marítimos do século XIX. Ainda não era um uso relacionado diretamente ao prazer, mas à cura de doenças (URRY, 2001). Dessa maneira os balneários, especialmente os situados à beira-mar, passaram a ter grande importância também para a formação de um ideal de turismo, e a “praia” passou a ser considerada “o lugar de um conjunto de discursos ligados a atividades de lazer e de prazer” (SHIELDS, 1992, p.75).
Os estudos sobre turismo apontam Thomas Cook e sua agência de viagens, no século XIX, como responsável pela massificação das atividades, ao levar trabalhadores, de trem, a lugares não muito longe de Londres (JUDD & FANSTEIN, 1999), estimulando a criação dos balneários da costa inglesa (URRY, 2001). A criação de novas cidades e bairros com temas específicos para atrair esses novos visitantes gerou uma nova atividade (URRY, 2001) e fez com que as experiências turísticas virassem commodities3. (JUDD & FANSTEIN, 1999).
Urry (2001) fala que antes do século XIX as viagens por lazer eram preferencialmente atividades das classes abastadas, e as demais pessoas viajavam somente a negócios ou motivadas por trabalho. Essa é a grande diferença com relação ao surgimento do turismo de massa, em que todos, ou ao menos um grande número de pessoas, pode viajar por motivações que não de trabalho. O interesse em viajar passou a ser ligado ao status social, como uma necessidade do trabalhador, que se não viajar não pode se sentir bem, com saúde e descanso (KRIPPENDORF, 2009).
O turismo se espalhou por toda a Europa no século XIX. Steward (2006) fala de como entre 1840 e 1914 foi grande a movimentação de turistas ingleses na Itália. De certa maneira, a aristocracia que fazia o Grand Tour foi substituída pela nova classe que enriquecia com a industrialização, e que buscava um reconhecimento social através da cultura e das viagens. Era status para as novas classes médias viajar para a Itália, assim como antes fazia a aristocracia inglesa. O tempo de viagem deixou de ser de dois anos, como no Grand Tour, e passava a ser de quatro a seis meses, e vapores singravam através do Canal da Mancha e também pelos rios Reno e Danúbio, além de serem utilizados os trens que se espalhavam pela Europa (STEWARD, 2006).
DOM JOÃO E OS BANHOS DE MAR NO RIO DE JANEIRO
A chegada da família real portuguesa à cidade em 1808 trouxe muitas mudanças culturais, com novos hábitos que surgiam na Europa. A ideia dos banhos terapêuticos logo é colocada em prática em caso que viria a se configurar como paradigmático, e talvez represente esse início da importância do mar, ainda como relacionado à cura, no imaginário carioca.
Uma doença de pele, provavelmente a mordida de um carrapato, fez com os médicos reais indicassem banhos de mar ao príncipe regente, em uma época em que os europeus ainda se mostravam refratários a esses usos (PERROTTA, 2015). Para tanto, Dom João passou a utilizar uma quinta que passou a ser conhecida como a Casa de Banhos do Cajú. A ponta do Cajú era uma área praieira da Baia de Guanabara, próxima ao Paço de São Cristóvão, então a residência real. Perrotta (2015) fala que mais tarde a imperatriz dona Thereza Christina e os netos também frequentavam esses banhos de mar, em uma atitude nova para a época (Figura 1).

O uso das praias e do banho de mar para o lazer do carioca logo foi se desenvolvendo, ainda que de maneira tímida. A presença estrangeira, em especial de ingleses, ajudou a criar uma nova sociabilidade como existia em praias como Brighton, desde o início do século XIX (FAGERLANDE, 2015). Mesmo assim, o uso ainda era bastante tímido, relacionado ainda diretamente com os usos terapêuticos, como no caso do próprio Dom João. Não se tinha ainda a noção de lazer ao ar livre, com as práticas esportivas, esportes náuticos ou banhos de mar como algo ligado ao lazer e à ideia de temporadas de férias, como vai surgir mais tarde.
A grande familiaridade que temos hoje com as praias, os banhos de mar e as práticas esportivas, com os esportes náuticos que continuam a multiplicar-se em modalidades, algumas aparentemente insólitas, ás vezes datadas apenas do espaço de uma temporada de verão, faz insuspeito o passado de temores do mar e da sua proximidade (CAMARGO, 2007, p.294).
Relatos de estrangeiros na cidade a partir dos anos 1830 mostram que as praias da Baía de Guanabara já eram utilizadas por algumas famílias (PERROTTA, 2015). Praias como a de Botafogo, ou ainda as do Centro, como as do Boqueirão do Passeio ou Santa Luzia ofereciam cais de madeira para os banhistas, repetindo o que ocorria em Brighton, além de cabines para a troca de roupas, como ocorria em diversos outros locais da Europa (O’DONNELL, 2013). Já no final do século, em 1883, aparecem anúncios de facilidades para o banho de mar, como quando o Grande Hotel Balneário de Botafogo oferece habitações higiênicas, seguindo os “hotéis marítimos dos Estados Unidos e da Europa” (O’DONNELLL, 2013, p.95).
A partir de 1835 (RODRIGUES, 2016), o serviço de barcas regulares na Baia de Guanabara passou a atender a ligação entre Rio e Niterói, e a ligação para Paquetá passava a ter linhas regulares, ligadas ao que o autor chama de passeios, o que hoje seria lazer. As barcas saíam do Cais dos Mineiros, e já mostravam o potencial da ilha para os banhos de mar, ainda que incipientes naquele momento (Figura 2).

A importância da ilha para as elites é bem demonstrada pelo romance “A Moreninha”, de 1844, em que Joaquim Manuel de Macedo traça um ingênuo retrato da juventude e dos novos hábitos que surgiam, não somente na corte (PIRES, 2002), mas nas temporadas de verão, que passavam a ocorrer na serra, em especial em Petrópolis, mas também em locais praianos, como Paquetá (MACEDO, 1942).
ESTRANGEIROS E AS NOVAS ATIVIDADES NA PAISAGEM DA CIDADE
Coaracy (1965) mostra que eram muitas as famílias estrangeiras em Paquetá no final do Século XIX. São citadas famílias americanas, francesas e alemãs. Essas famílias ali tinham suas chácaras, passando temporadas no verão, em busca de lugares fora da capital (Figura 3).

Perrotta (2015) fala da importância dos estrangeiros, sobretudo os ingleses, na chegada de novos hábitos à cidade, como os esportes, incluindo o futebol e os esportes náuticos, como o remo e a vela. Esses novos costumes mudam a vida cotidiana dos moradores, pouco afeitos a exercícios e à vida ao ar livre, que passavam a serem considerados saudáveis. Uma sociedade ainda escravocrata tinha o uso do corpo como algo ligado ao trabalho e pouco valorizado, como se fazer exercícios fosse uma atividade menor, pouco adequado à elite.
Na ilha de Paquetá, essas novas atividades passavam a ser parte do lazer carioca. O álbum estudado é um registro das temporadas na casa de veraneio dos Süssekind no final do século XIX. Essa família tinha como patriarca Karl Fedor Süssekind, que chegou ao Brasil em 1861, se instalando na Bahia, onde foi industrial, com uma fábrica de charutos, depois vendida ao compatriota Dannemann. Veio para o Rio de Janeiro em 1879, onde a família cresceu, com doze filhos e filhas, e chegou a diretor da carteira de câmbio do Banco do Brasil, após 1891. Tratava-se de família abastada, com amplos contatos na elite carioca. Os casamentos de suas filhas com ilustres juristas, militares e advogados tornaram a casa de Paquetá um local de encontros dessa elite do Rio de Janeiro4 . Isso é demonstrado em algumas fotos do álbum.
As imagens do álbum da família Süssekind mostram como andar de bote, de barco a vela, passavam a ser parte do lazer. Fotos ao ar livre, em paisagens naturais, mostram como essa nova relação com a natureza passava a fazer parte dos hábitos dessa família no Rio de Janeiro. A presença de fotografias ao ar livre na vida quotidiana aparece também como novidade para essa elite, que passa a ser representar não mais somente na pintura, mas, sobretudo com as novas tecnologias, no caso a fotografia. Sontag (2004) mostra a importância dessa nova tecnologia para a sociedade, e em particular para o turismo e lazer (Figura 4).

A família morava no Flamengo, e tinha Paquetá como local de veraneio, com ampla casa onde os filhos, parentes, agregados e amigos se reuniam, trazendo para um lugar de praia os usos da nova elite urbana que ia se formando no Brasil (Figura 5).

A ilha, situada no fundo da baía de Guanabara, sempre teve suas atividades relacionadas às suas praias. Durante o século XVII ali se localizavam caieiras, com a produção de cal com suas conchas, e no século seguinte foi erigida a primeira capela, de São Roque (COARACY, 2009). Mais tarde ali se instalaram diversas famílias que passavam a residir ou ter ali suas segundas residências. Coaracy (2009) cita a presença do príncipe Dom João nos primeiros anos do século XIX, tendo se hospedado no que ficou denominado Solar d’El-Rei. Pouco mais tarde, em 1830, José Bonifácio de Andrada foi outro personagem que passou a ter residência na ilha, onde morou por muitos anos (COARACY, 1965).
Paquetá sempre se notabilizou pela paisagem bucólica e praieira. A partir de meados do século XIX passou a ser frequentada também por artistas, que passaram a realizar pinturas de paisagem, tendo a ilha como tema. Dessa maneira, a natureza passou a ser divulgada e valorizada. Castagneto foi um desses pintores, que ali passou a residir em 1896 (LEVY, 1982).
A compra da propriedade na ilha pelos Süssekind, de acordo com relatos familiares, se relacionava à doença de uma das filhas, e a sugestão de banhos de mar para a cura. Dessa maneira subsiste o uso médico dos banhos de mar. As fotos, no entanto, mostram novos usos, tanto os relacionados às aguas da baia, como outros como o uso da paisagem como tema para outra filha, pintora amadora, e que teve aulas com Insley Pacheco5 , importante fotografo do império, e que deixou uma série de portraits da família, mostrando como a fotografia e o registro, tanto dos membros da família como da paisagem era parte dos novos hábitos dessa elite (Figura 6).

O TURISMO DE PRAIA SE ESPALHA PELA CIDADE
Desde meados do século XIX, Petrópolis era um dos destinos mais procurados na serra, mas a praia começava a exercer atração nos moradores das cidades. A praia e as atividades ao ar livre passaram a se relacionar aos novos usos de uma sociedade em que as reformas urbanas estavam ligadas ao higienismo, e às novas condições de saúde. Urry (2001) fala de como o turismo a partir de meados do século XIX se desenvolveu, com o surgimento e a especialização dos balneários pela Europa, acompanhando o desenvolvimento da industrialização do século XIX, em mais um exemplo da relação direta entre o turismo e os costumes da sociedade daquele momento. A escolha de Brighton pelo Príncipe Regente britânico para ser seu lugar de veraneio, ganhando destaque e virando lugar da moda, gerou um grande crescimento urbano, com as classes abastadas escolhendo a cidade para seus momentos de lazer.
A partir dos primeiros anos do século XX, o turismo na Europa teve grande desenvolvimento. As praias passaram a representar um ideal para o lazer, fazendo surgir balneários para as classes abastadas, com atividades tanto terapêuticas como ligadas ao prazer, como os cassinos. Lugares como Montecarlo e seu hotel e cassino mostram o glamour que isso passou a representar para as elites europeias. Os novos balneários franceses, como Cannes e Biarritz, a partir dos anos 1920, passaram a ser considerados da moda, com a valorização não mais das propriedades terapêuticas de suas águas, mas do sol e das novas tendências ligadas ao corpo e a sua exposição (URRY, 2001). A facilidade de transportes e esse deslocamento para o Mediterrâneo como local dos balneários trouxe decadência aos balneários do norte da Europa nos anos 1960 (URRY, 2001). Dessa maneira, as praias do sul da França, Espanha, Itália, Grécia e Iugoslávia passaram a ser os lugares da moda, o que foi sendo expandido para o norte da África e a Turquia (URRY, 2001).
A expansão urbana do Rio de Janeiro para a Zona Sul, com a criação de Copacabana e a abertura do túnel para o bonde em 1892 facilitou a transformação dessa área em balneário para a cidade. O novo bairro da elite carioca logo se tornou o paradigma da imagem da cidade, com sua praia logo exaltada em verso e prosa. O’Donnell (2013, p.57) fala que “em 1905, Copacabana entrava oficialmente no roteiro turístico do Rio de Janeiro”, citando guia editado naquele ano para um congresso, em que era sugerido que o viajante fosse visitar o bairro, mencionando não somente as novas casas, mas também a natureza local como atração.
A construção dos hotéis balneários no Rio de Janeiro seguindo o modelo francês, como o Hotel Balneário da Urca, de 1922, e do Copacabana Palace, inaugurado em 1923 (LEVY, 2010), reforçou essa importância das praias para a cidade, e para sua atividade turística.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Rio de Janeiro hoje em dia é conhecido em todo o mundo por suas praias. Copacabana e Ipanema são ícones mundiais para o turismo, e o banho de mar é parte da cultura carioca, em que se tem a liberdade de ir e vir da praia para casa em trajes sumários de banho, ou sentar para tomar um chope em um boteco em uma exaltação da vida solar da cidade.
Ao se trazer o resgate do início dessas atividades na pequena ilha de Paquetá, buscou-se mostrar a relação entre o que ocorreu no país e o que já vinha ocorrendo na Europa desde o século XVII, e a relação entre os banhos de mar e as transformações sociais e culturais do século XIX na cidade do Rio de Janeiro. Se o uso das águas teve um início medicinal, a relação desses hábitos com os banhos de mar trariam a valorização das cidades de praia e criação de balneários muito frequentados pelas elites, trazendo um maior contato com a natureza.
Uma cidade em que a história dos bairros vai sendo esquecida, e que a transformação do turismo em produto de consumo de massa é cada dia maior, não se deve perder de foco sua importância dentro da história da cidade, de como o Rio de Janeiro vem se moldando e construindo sua imagem não somente no século XXI, mas desde sempre, como um palimpsesto em que todo dia são escritas novas histórias sobre as antigas, em um processo contínuo de transformações urbanas, culturais e sociais.
Ao se analisar um álbum de fotografias em que novos hábitos trazidos por seus personagens, com uma formação cultural vinda da Europa, pode ser percebido como esses hábitos vão passando a fazer parte da vida diária dos moradores do Rio de Janeiro, modificando e impondo novos hábitos. A presença da fotografia é uma dessas mudanças, que ao mesmo tempo em que representa a memória dessa transformação serviu para realçar a necessidade de uma diferenciação dos hábitos, pois a própria fotografia era significativa entre essas mudanças de hábitos. O registro de barcos, passeios ao ar livre, uso da fotografia em ação, quando se fotografa não somente a paisagem e as pessoas, mas a ação de se fotografar, mostra um novo momento na cidade.
Se a chegada da família real trouxe novidades urbanas como o surgimento de uma casa de banhos em uma praia próxima à Quinta da Boavista, a presença de famílias estrangeiras buscando as águas da Baía de Guanabara para seus momentos de lazer e descanso vai trazer para a cidade um início de transformações que serão parte de um amplo processo urbano de valorização do litoral e de uma posterior expansão urbana relacionada a essa valorização trazida por esses novos hábitos, com as elites buscando praias como Copacabana ainda no final do século XIX para seu lazer e moradia, em um crescimento ligado ao litoral praiana que no século XX alcançaria Ipanema, Leblon e depois a Barra da Tijuca.
A vida quotidiana de uma família de estrangeiros, em um momento de formação da cultura carioca, mostra como é complexa a cidade, e seus processos, que vão se costurando em pedaços, como uma colcha de retalhos em que cada parte pode aos poucos ser descoberta e explicar mais um pouco do que vivemos nos nossos dias.
REFERÊNCIAS
CAMARGO, H.L. Uma pré-história do turismo no Brasil: recreações aristocráticas e lazeres burgueses (1808-1850). São Paulo: Aleph, 2007.
COARACY, V. Paquetá: imagens de ontem e de hoje. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965. (Coleção Rio 4 séculos, v.4).
COARACY, V. Paquetá. 3. ed. Rio de Janeiro: Documenta Histórica, 2009.
FAGERLANDE, S.M.R. A construção da imagem em cidades turísticas: tematização e cenarização em colônias estrangeiras no Brasil. Rio de Janeiro: RioBooks, 2015.
JUDD, D.R.; FANSTEIN, S. (Ed.). The tourist city. New Haven: Yale University Press, 1999.
KOSSOY, B. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotografia e oficio da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.
KRIPPENDORF, J. Sociologia do turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. 3. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
LEVY, C.R.M. Giovanni Battista Castagneto: 1851-1900: o pintor do mar. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.
LEVY, R. A Exposição do Centenário e o meio arquitetônico carioca dos inicios dos anos 1920. Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, 2010.
MACEDO, J.M. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1942.
MACEDO, J.M. A moreninha. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997.
O’DONNELL, J. A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro (1890-1940). Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
PERROTTA, I. Desenhando um paraíso tropical: a construção do Rio de Janeiro como um destino tropical. 2001. 217 f. Tese (Doutorado em História, Política e Bens Culturais) - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Rio de Janeiro, 2011.
PERROTTA, I. Promenades do Rio: a turistificação da cidade pelos guias de viagem de 1873 a 1939. Rio de Janeiro: Hybris Design, 2015.
PIRES, M.J. Raízes do turismo no Brasil: hóspedes, hospedeiros e viajantes no século XIX. 2. ed. Barueri: Editora Manole, 2002.
RIDDINGTON, M.; NADEN, G. In and around Bath. Hampshire: Pitkin Publishing, 2011.
RODRIGUES, A.E.M. A Costura da Cidade. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2016.
SHIELDS, R. Places on the Margin: Alternative geographies of modernity. London: Routledge, 1992.
SONTAG, S. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
STEWARD, J. Actuación em el extranjero: los turistas britânicos em la Italia y sus prácticas, 1840-1914. In: LASANSKY, D.M.; MCLAREN, B. Arquitectura y Turismo: perception, representación y lugar. Barcelona: Editorial Gustavo Gilli, 2006.
URRY, J. O olhar do turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. São Paulo: Studio Nobel: SESC, 2001.
NOTAS