ARTIGO DE PESQUISA
Recepção: 26 Janeiro 2018
Revised document received: 28 Agosto 2018
Aprovação: 29 Setembro 2018
DOI: 10.24220/2318-0919v16n3a4150
RESUMO: Este trabalho apresenta um estudo sobre urbanidade, tendo como objeto de estudo o centro histórico de Florianópolis, Santa Catarina. A metodologia utilizada tem abordagem qualitativa e exploratória que busca compreender os espaços urbanos sob um olhar intimista, no sentido da apreensão da urbanidade. O método envolve a realização de cortes urbanos para a identificação urbano-arquitetônica da área em estudo, utilizando-se da técnica etnográfica do diário de campo. Os resultados introduzem um modo de estudar as cidades a partir do nível dos olhos, inserindo o pesquisador no mesmo contexto das pessoas que compõem a paisagem urbana, buscando dessa forma identificar os elementos na interface urbano-arquitetônica que definem as características de urbanidade.
PALAVRAS-CHAVE: Morfologia urbana, Urbanidades, Vivências urbanas.
ABSTRACT: This paper presents a study on urbanity, considering the historical center of Florianópolis (Santa Catarina, Brazil), as study object. The qualitative and exploratory nature of the study seeks to understand the urban spaces by closely analyzing the perception of urbanity. The method selects urban sections to identify the urban architecture of the study area through the ethnographic method of field research. The results introduce an approach of urban studies at eye level, placing the researcher within the same context of the people who are part of the urban landscape in order to identify the urban-architecture interface that defines the characteristics of urbanity.
KEYWORDS: Urban morphology, Urbanity, Urban living.
INTRODUÇÃO
Le Corbusier, em seus ensaios, se apresentava favorável ao conceito de que as cidades, quando vistas de cima, poderiam ser melhor compreendidas. Entretanto, às pessoas que almejam usufruir do espaço citadino, sem pretensões ao planejamento urbano, são nas ruas e calçadas, com suas texturas, materiais, ritmos, sons e odores que permitem a vivência e a experimentação do meio urbano. Ao evocar mentalmente a imagem de uma cidade, se é lembrado da sensação que o "habitar" as suas ruas evocam no imaginário, seja ele individual ou coletivo. Citando o arquiteto catalão Solá-Morales (2008, p.175): "Mover-se e caminhar continuamente, isto é pertencer à cidade. Sem nunca sair dela, porque não há fora".
As cidades podem ser entendidas como massas edificadas seccionadas por uma rede de espaços públicos, ruas, avenidas, praças e parques. Esses que, concomitantemente, são cortados pelas pessoas, diariamente, em seus percursos e sua constante apropriação dos espaços citadinos. É nesse contato das pessoas com a epiderme urbana que Solá-Morales (2008) explora o conceito de urbanidade material, a urbanidade das "coisas urbanas". O autor propõe a busca pela urbanidade na junção dos campos de arquitetura e urbanismo, que irá compor la piel de la ciudad.
SOBRE A URBANIDADE MATERIAL
[...] a urbanidade pode se dar em qualquer lugar onde convirjam pessoas e edifícios
(IBELINGS, 2008, p.13, tradução nossa)2.
Pode-se considerar a urbanidade como uma propriedade do espaço urbano. Substancial tanto quanto abstrata e, logo, de difícil apreensão. Muitos autores têm explorado o conceito de urbanidade como objeto de pesquisa e, como resultado, não tem sido revelada uma urbanidade completa, sólida, palpável; outrossim, são apresentadas abordagens disciplinares (algumas vezes conflitantes) sobre urbanidades complexas e de difícil compreensão. No Quadro 1 demonstra-se uma síntese dos autores e temas relacionados à urbanidade.

Ao se tratar urbanidade como um elemento inerente às cidades ou a partes dela, se pode admitir que não existe uma urbanidade única, universal e é na junção dos infinitos elementos que compõem o tecido urbano que se encontram os possíveis traços da urbanidade. Logo, entende-se que diferentes cidades, bairros e até mesmo ruas podem apresentar urbanidades características e singulares, de acordo com suas respectivas propriedades morfológicas.
Mas para compreender a relevância dos estudos sobre o tema, torna-se necessário assimilar um fator chave: de que as cidades, em suas infinitas formas, compostas pela sobreposição de cores, ruas, texturas, pavimentações, escadas, guarda-corpos, rampas, entre outros, possuem uma notável força para afetar o modo de vida.
Em essência, o design e a arquitetura nos falam sobre o tipo de vida que deveria desenvolver-se mais adequadamente dentro e ao redor deles. Eles nos falam de certos estados de espírito que buscam incentivar e sustentar. Enquanto nos mantêm aquecidos e nos ajudam mecanicamente, eles nos convidam a sermos tipos específicos de pessoas. Elas falam de visões de felicidade (BOTTON, 2006, p.72).
O meio urbano pode ser entendido como um canal mediador dos atos, haja vista que a morfologia urbana - a forma das cidades, das ruas, praças e edifícios -, influencia diretamente o modo de experimentação do mundo; diferentes urbanidades geram diferentes experiências de vida.
Este conceito se aproxima do que afirma Solà-Morales (2008) ao apresentar uma "urbanidade material", que surge "na" cidade e "a partir" dela. Como o próprio menciona: "Me interessa a urbanidade do material, a urbanidade de tato e visão, de sensações e propostas" (SOLÀ-MORALES, 2008, p.23, tradução nossa)3. Para o autor, a arquitetura e o urbanismo devem ser vistos como extensões de si mesmos e não como disciplinas independentes. Essa relação entre arquitetura e urbanismo converge na "piel de la ciudad" (a pele da cidade) que compõe seu objeto de estudo.
Logo, Solà-Morales considera essa "epiderme urbana"4 como plano de trabalho para se encontrar a urbanidade material. Essa visão explora a epiderme como variante ativa nas dinâmicas urbanas e, desse modo, sua compreensão se torna essencial para o entendimento da urbanidade e também para a concepção de projetos urbanos.
OS CORTES URBANOS DE SOLÀ-MORALES
Ao realizar as análises morfológicas a partir dos cortes e elevações - em contraposição aos estudos usualmente realizados com base na planta cadastral -, o pesquisador se insere na cidade, permitindo uma compreensão similar à quando se vivencia o espaço urbano. Para Solà-Morales, a pele das cidades
[...] é feita de construções, texturas, contrastes; De ruas e espaços livres, de jardins e muros, de perfis e vazios. [...]. Também movimentos e encruzilhadas, veículos e fachadas, porões e bueiros, tendas, escritórios, terrenos, apartamentos, museus, teatros e todos os tipos de lugares vazios. Meios-fios e calçadas, lojas e armazéns, fábricas e mercados, monumentos e ruínas, estações, estádios, estúdios, etc. (SOLÀ-MORALES, 2008, p.23, tradução nossa)5.
Na Figura 1 podem ser visualizados exemplos de cortes urbanos. Os cortes exploram potencialmente estes elementos da superfície urbana, apresentando as relações entre as edificações e a rua, entre o velho e o novo, entre espaço público e espaço privado, sem nunca deixar de apresentar a escala humana. Para Solá-Morales (2008, p.79, tradução nossa)6, "A redução sequencial, o corte da forma urbana, é um mecanismo de descrição e uma estratégia de projeto" pois é no corte urbano que pode ser notada a paisagem e a identidade urbana.

A APLICAÇÃO DOS CORTES
Para este estudo, foram então elaborados dois cortes para a o recorte selecionado - no Centro de Florianópolis. Os cortes foram delimitados sobre trechos que compreendem aproximadamente 150 metros de extensão na instância paralela à orla, constituindo um levantamento preciso dos elementos urbano-arquitetônicos que, antes à construção dos aterros, definiam a relação entre a cidade e a água. A delimitação dos cortes longitudinais surge a partir do mercado público buscando conhecer os elementos edificados do seu entorno.
Logo, através da utilização dos cortes urbanos, realizados a partir de levantamentos fotográficos, foram estabelecidos parâmetros de análise de acordo com os seguintes elementos:
Análise da arquitetura: apresenta a leitura dos elementos arquitetônicos presentes nas fachadas dos edifícios: os ornamentos, cores, linhas, detalhes e texturas. Com isso, é possível apreender os possíveis modos no qual as edificações conformam os limites do espaço urbano, em paralelo aos conceitos apresentados por Solà-Morales (2008) e Gehl e Svarre (2013). Edificações com mais detalhes, texturas e cores variadas são mais atrativas, enquanto que edificações sem detalhes, fachadas planas e com poucas aberturas são menos interessantes sob a perspectiva do espaço público. Essa análise também destaca os conceitos de urbanidade da forma (KRAFTA, 2012), revelando as relações entre os componentes do conjunto edificado.
Análise da variedade: apresenta os usos do solo sobre as fachadas das edificações. Com este mapeamento, individualmente se pode conhecer as atividades que se desenvolvem em cada construção, enquanto que, paralelamente, na escala do conjunto edificado, se pode compreender a influência dos usos na diversidade e vitalidade urbana. Esse corte coloca em pauta questões levantadas por Jacobs (1961) e Gehl e Svarre (2013) que defendem a multiplicidade e coexistência de usos diversos sobre uma mesma área.
Análise da relação entre espaço público e edificado: possibilita compreender como são estabelecidos os fluxos entre os espaços internos da edificação e o espaço externo (público). Nesse caso, edificações posicionadas no limite frontal do lote, sem recuo de ajardinamento e com aberturas diretas para o espaço público apresentam melhores índices de acessibilidade enquanto, no outro extremo, edificações recuadas ou com acesso através de corredores ou galerias são menos acessíveis.
Análise da constitutividade: apresenta um mapeamento das portas e janelas das edificações. Seguindo os conceitos apresentados por Jacobs (1961) e Gehl e Svarre (2013), edificações com mais aberturas são responsáveis por manter a integração entre os espaços internos e externos das edificações e garantir a sensação de segurança nas ruas. Por outro lado, edifícios com menos aberturas, fachadas que ignoram a integração com o espaço público criam espaços hostis, inseguros e pouco atrativos.
Análise da relação entre as edificações: permite observar como as construções se inserem no lote e as relações de gabarito, altura e proporção do conjunto edificado.
VIVÊNCIAS URBANAS: LEITURAS ATRAVÉS DO DIÁRIO DE CAMPO
Complementando as leituras realizadas com os cortes urbanos, foi utilizada neste trabalho a técnica do diário de campo, como forma de entender a apropriação dos espaços sob o recorte analisado. Desse modo, este trabalho toca em conceitos da etnografia urbana para buscar o embasamento teórico-conceitual que permite estabelecer os parâmetros metodológicos para a aplicação do diário de campo (MAGNANI, 2002).
O que aqui se propõe, de acordo com Magnani (2002) é então classificado como etnografia de passagem, descriminado por (i) a definição do "pedaço ou recorte" onde será aplicado o método do diário de campo, (ii) criação de um percurso espontâneo, de acordo com os elementos balizadores pré-selecionados e (iii) observação do comportamento das pessoas e sua relação com os demais, em paralelo com a dimensão sinestésica e sensitiva do espaço (TUAN, 1983; AGUIAR, 2010; PALLASMAA, 2011, 2013).
ÁREA DE ESTUDO E DEFINIÇÃO DO RECORTE
Florianópolis é a capital do estado de Santa Catarina. O município possui população de 485.838 habitantes (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA ESTATÍSTICA, 2017), e está localizado no litoral do estado (Figura 2). O recorte de estudo está localizado no bairro centro, delimitado com a criação de um raio de 300m a partir do mercado público, desse modo compreendendo um trecho importante da orla marítima e outros elementos que são relevantes para essa pesquisa, como a Praça XV de Novembro e a Igreja Matriz, o Museu Cruz e Souza, o Trapiche Miramar e parte do aterro baía sul.

A análise também comporta trechos de ruas que são importantes para as dinâmicas do centro, dentre elas a Conselheiro Mafra, a Praça XV de Novembro e a Rua Felipe Schmitd. Na Figura 3, se apresenta a área analisada na cidade de Florianópolis. Também nota-se a localização dos dois cortes urbanos realizados na área (Segmento A e Segmento B)7, o percurso traçado com o diário de campo, a posição do mercado público, e dos demais elementos supracitados.

Com a aplicação do método misto - através da realização dos cortes urbanos e das leituras etnográficas do diário de campo -, este estudo busca (i) realizar um levantamento das características morfológicas da área de análise, e (ii) verificar a correlação entre as características morfológicas e as vivências urbanas.
CORTES URBANOS DE FLORIANÓPOLIS
Em Florianópolis, a seção longitudinal representa parte da Rua Francisco Tolentino, da Rua Conselheiro Mafra e do Largo da Alfândega. O trecho analisado compreende parte do território onde foi iniciada a ocupação de Florianópolis e que, a partir deste local, contribuiu com a definição da morfologia urbana do bairro centro.
Iniciando a análise com considerações sobre o conjunto edificado, observa-se, na Figura 4, que parte das construções mantém as propriedades originais do sítio, preservando as características de arquitetura Eclética, colonial Luso-Brasileira e do estilo Art Decó. Em Florianópolis, no entanto, a percepção do conjunto é rompida pelas edificações mais recentes, sendo que, dentre estas, algumas inclusive apresentam características modernistas. Como pode ser visualizado nas seções A e B do corte, não somente a linguagem arquitetônica é variada, como também as relações de proporção e volume estabelecidos por algumas construções - como o edifício da Caixa Econômica Federal, o Edifício Des. Antero Francisco de Assis.

Em algumas construções destacam-se as pichações nas portas e paredes, que em determinados momentos se sobressaem à linguagem arquitetônica transmitida e rompem com as propriedades de conjunto pré-estabelecidas. Essa condição é notada principalmente na porção direita do corte, próximo à Praça XV de Novembro. Ainda assim, na análise da cor (Figura 4) nota-se que a variação cromática das elevações produz um efeito bastante atrativo, aliado ao alto nível de ornamentação das edificações Ecléticas. Entretanto, o mesmo não pode ser afirmado sobre as construções mais recentes, que possuem fachadas sóbrias e menos ornamentadas.
A "análise da variedade" (Figura 5) apresenta a predominância de usos comerciais e de serviços. Não foram identificados usos residenciais, recreativos ou institucionais nessa seção do corte longitudinal. Os usos comerciais são compostos por grande variedade de lojas, sendo predominantes as lojas de tecidos, lojas de departamentos, óticas, farmácias, cosméticos, eletrônicos, entre outros. Como resultado dessa frequência de usos, em concordância com as verificações do diário de campo, o centro de Florianópolis possui grande número de pessoas transitando pelas ruas em dias úteis da semana - durante os horários comerciais - enquanto nos demais horários estas áreas passam por um processo de desertificação.

Sobre a "análise da constitutividade" (Figura 6), percebe-se as aberturas características das cidades luso-brasileiras, semelhante às analises realizadas em Laguna e São Francisco do Sul. Há uma grande quantidade de portas e janelas, que garantem a relação entre interior e exterior das construções. Entretanto, observa-se uma alteração na cadência do ritmo, criada pelos grandes portões metálicos no térreo de algumas lojas.

Na "análise da relação entre os edifícios" (Figura 7), se nota uma variação considerável nos gabaritos; enquanto predominam as construções com dois ou três pavimentos, o gabarito máximo chega na altura de 12 pavimentos no Edifício Des. Antônio Francisco de Assis - que se diferencia do entorno e é responsável pela ruptura do conjunto, tendo como consequência a criação de grandes empenas cegas nas laterais. Situação semelhante ocorre com o edifício da Fatma.

Uma característica interessante do conjunto edificado, apresentada na "análise da relação entre espaço público e edificado" (Figura 8) é a ausência de recuo lateral, que garante as relações de contiguidade entre as construções e mantém as propriedades dos gabaritos.

A ausência de recuo frontal, com as construções ocupando a frente do lote, garante uma integração entre espaço público e construído. Essa relação mostra-se favorável às atividades comerciais desenvolvidas na região. Ainda assim, nas edificações localizadas à direita do corte possuem frente para a Rua Conselheiro Mafra, de modo que as aberturas voltadas ao Largo da Alfandega não são utilizadas.
Como amálgama das leituras obtidas com a realização dos cortes urbanos, pode-se verificar a pouca variedade dos usos do solo, com predominância de atividades comerciais. As edificações em alinhamento com a frente dos lotes e a grande quantidade de aberturas voltadas para a rua favorece as atividades comerciais e a manutenção da relação entre espaço público e edificado.
APLICAÇÃO DO DIÁRIO DE CAMPO
Fazendo uso de técnicas etnográficas, foram definidos os respectivos pontos de observação, percursos e horários. Buscando compreender os aspectos da área em momentos urbanos distintos, as observações foram realizadas em uma quinta-feira pela manhã - por ser dia útil com o comércio em horário normal de funcionamento -, e em um domingo à tarde, por não haver atividades comerciais desenvolvidas na área.
Os pontos de observação foram balizados de acordo com os pontos de interesse da área, como o Mercado Público, a Praça XV de Novembro e as ruas Conselheiro Mafra e Felipe Schmitd (ambas caracterizadas pela forte atividade comercial). Terminal Integrado do Centro (TICEN), gera uma confluência de pessoas de todos os bairros de Florianópolis, assim como de São José e Palhoça, que se direcionam ao centro em busca de trabalho, serviços ou até mesmo para resolver alguma questão pessoal.
É interessante notar que os quase dez metros de largura do canteiro central da Av. Paulo Fontes abrigam estrategicamente alguns ambulantes, na tentativa de vender alguma mercadoria (óculos de sol, toalhas, camisetas, frutas) para os passantes. Esse cenário com os ambulantes se repete na frente do mercado público. São vendidos morangos (em caixas), camisetas (dispostas no chão), toalhas, mel etc.
Há muita gente passando, e o tempo todo. Poucos param para avaliar a mercadoria que está sendo vendida na rua. As pessoas são muito diferentes, percebe-se claramente a diferença entre renda, status e classes sociais na copresença desse espaço público.
Dentro do mercado público é notável o cheiro dos pescados, que se sobrepõe aos demais aromas. O movimento de pessoas é menor. Há uma exposição de artistas locais, com algumas imagens e pinturas expostas. Os bancos no interior do mercado estão vazios e poucas pessoas fazem uso das mesas no vão central. Ao sul do mercado, o movimento de pessoas é um pouco menor, quando comparado com o lado leste. Há algumas pessoas sentadas nos bancos de concreto dispostos à leste do mercado.
Na Rua Felipe Schmitd, o movimento de pessoas é intenso. Um grupo de homens joga baralho na esquina com a rua Trajano. Durante o desenrolar do jogo, vários homens se acumulam em volta da mesa para observar. Há pessoas sentadas nos bancos da rua Felipe Schmitd, um homem toca flauta enquanto, mais adiante, um outro toca violão. Uma terceira pessoa, com uma placa, se propõe a gravar o nome das pessoas em um grão de arroz. Adiante, um homem distribui poemas na espera de ser retribuído com alguns trocados. Não há dúvidas que essa é uma das ruas mais movimentadas de Florianópolis.
DIÁRIO DE CAMPO FLORIANÓPOLIS, 23 DE JULHO DE 2017, TARDE DE DOMINGO
Está um dia ensolarado e quente para o mês de julho. Um casal jovem sobe as escadarias em frente à Igreja Matriz de Florianópolis. O largo em frente à Igreja está parcialmente vazio. Um grupo de homens ocupa as mesas e bancos de concreto na lateral da praça. Nas ruas há veículos estacionados, e o tráfego é leve. O espaço está inclusive, um pouco silencioso quando comparado com os sons propagados em dias de semana.
A Rua Felipe Schmitd, que costuma ser cheia de vida durante a semana, enquanto o comércio está em funcionamento, hoje está praticamente deserta. O pouco movimento de pessoas ocorre por conta de alguns grupos esporádicos que por ali passam.
Traço meu percurso até o mercado público pelo largo da Alfândega. Antes de chegar no mercado, porém, sou novamente abordado por uma pessoa, pedindo ajuda para comprar medicamentos para o filho. O mercado público está praticamente vazio, com somente duas mesas ocupadas pelo público do único box que está aberto. Os demais estão fechados.
Nos arredores do mercado, o fluxo é composto por pessoas que aparentemente residem nas ruas. Não há turistas e não há estabelecimentos comerciais abertos. Um homem de meia-idade procura por restos de comida em uma lixeira. Há um pequeno fluxo, bastante tímido, de pessoas na direção do terminal TICEN, e do terminal Rodoviário Rita Maria.
No monumento do Trapiche Miramar, um grupo de pessoas - um homem, duas mulheres e uma criança -, estão parados, em pé, observando o entorno. Na Av. Gov. Gustavo Richard o fluxo de veículos é constante, porém não muito intenso.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A paisagem urbana, abordada como objeto deste estudo, é composta por elementos múltiplos e suas inter-relações. De um lado, se tem os componentes físicos e morfológicos; as ruas, largos e edificações, aqui mapeados através dos cortes urbanos; e de outro lado, há o componente humano, as pessoas e as dinâmicas sociais geradas ao habitar os espaços citadinos.
A relação entre morfologia e uso do espaço é um fator-chave para a determinação das características de urbanidade, conforme pode ser visto por meio do quadro síntese (Quadro 1), essa questão é abordada por vários dos autores relacionados ao tema.
Logo, a utilização dos cortes e do diário etnográfico se mostrou uma ferramenta apta a capturar aspectos dessa relação e permitem uma compreensão sobre os processos encontrados nas nossas cidades. Não obstante, para futuras pesquisas seria interessante incluir a esses procedimentos metodológicos, algumas das técnicas provenientes da sintaxe espacial, buscando com isso correlacionar a frequência de utilização dos espaços e a vitalidade urbana à questões de integração global e local.
A utilização dos cortes urbanos permite que o observador, urbanista ou planejador urbano compreenda os espaços a partir da mesma perspectiva das pessoas que o vivenciam diariamente, substituindo a comum visão e análise realizadas em planta. Este método reflete uma busca por um urbanismo mais humano, coerente com a realidade vivida diariamente das cidades, que em muito se distancia de visões mais antigas - como o olhar modernista sobre a problemática urbana. O corte, além disso, como instrumento metodológico, permite que os elementos buscados na análise sejam visualizados simultaneamente: estilo das fachadas, relações entre as edificações, as relações entre o interior e o exterior das edificações. Dessa forma, proporciona uma leitura mais dinâmica do conjunto edificado.
Sem embargo, se reconhece uma questão elementar: apesar de o método dos cortes inserir o pesquisador na visão cotidiana citadina, ele ainda permanece na condição de observador. Não está, portanto, caracterizando participação ativa nos processos e dinâmicas urbanas. A respeito disto, surge como complemento o diário de campo, que mesmo partindo de premissa semelhante, coloca o pesquisador em maior contato com as pessoas e atividades que ocorrem na cidade e possibilita verificar a apropriação das pessoas e a correlação encontrada com os fatores morfológicos.
A respeito disso, se pode afirmar que existe correlação entre os fatores morfológicos e as vivências urbanas, e que os segmentos analisados no trecho de Florianópolis apresentam características que reforçam a utilização intensa dos espaços somente em horários e dias comerciais, em contraste com a desertificação nos finais de semana e horários noturnos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises realizadas foram validadas por apresentarem os elementos que contribuem com aspectos de urbanidade da área. Dentre estes elementos, destaca-se o uso do solo. Florianópolis apresenta um cenário peculiar; predomina a exclusividade dos atividades comerciais e de prestação de serviços, estas que são característica marcante do bairro Centro. Na área analisada não existem usos relacionados ao lazer, moradia ou atividades recreativas. A região carece de atrativos que não funcionem estritamente em horário comercial, em contraste com a realidade atual. Como fator positivo foram destacados alguns elementos que garantem vitalidade e movimento intenso de pessoas nas ruas, porém, fato este que ocorre somente durante dias úteis, sendo aqui destacados o terminal de transporte, a rodoviária, o comércio informal que ocorre nas ruas e os produtos expostos nas feiras.
A dicotomia existente entre o movimento intenso de pessoas e veículos durante os dias de semana e o isolamento da área nos sábados e domingos é mensurável e uma propriedade de terrain vague (SOLÁ-MORALES, 2008).
A morfologia das edificações contribui para com as atividades comerciais que ali se desenvolvem: sendo característica dos assentamentos luso-brasileiros, as construções ocupam as frentes e laterais do lote, sem recuo de ajardinamento. Dessa forma o conjunto edificado delimita o espaço público e mantém proximidade com a rua, criando interação entre o interior e o exterior das edificações.
O estilo das edificações - predominantemente eclético, colonial luso brasileiro e art-decó -, é uma das características das cidades litorâneas luso brasileiras. Entretanto, o conjunto analisado, apesar de apresentar grande valor arquitetônico, é costurado por edificações mais recentes - algumas de caráter modernista -, e que rompem a unidade do conjunto. De forma semelhante, muitas construções possuem fachadas alteradas em virtude dos novos usos ali implantados, sendo justamente estas construções mais recentes que rompem o ritmo de constitutividade estabelecido pelas mais antigas - que possuem as fachadas com várias aberturas voltadas para a rua.
As leituras realizadas no trabalho - os cortes urbanos, a aplicação do diário de campo e as pesquisas documentais e iconográficas -, formaram um método que permitiu compreender múltiplos aspectos dos espaços analisados. Essa forma de leitura do espaço urbano mostrou-se válida e apta a capturar os aspectos de urbanidade e vivência buscados com o objetivo do trabalho, podendo também ser aplicado em contextos e cidades com morfologias urbanas diferentes.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, D. Alma espacial: o corpo e o movimento na arquitetura. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2010.
AGUIAR, D. Urbanidade e a qualidade da cidade. In: AGUIAR, D.; NETTO, V.M. (Org.). Urbanidades. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2012. Capítulo 2, p.61-80.
ALEXANDER, C. et al. A pattern language. New York: Oxford University Press, 1977.
APPLEYARD, D. Livable Streets. Berkeley: University of California Press, 1987.
BOTTON, A. A arquitetura da felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
FIGUEIREDO, L. Desurbanismo: um manual rápido de destruição das cidades. In: AGUIAR, D.; NETTO, V.M. Urbanidades. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2012. p.209-234.
GEHL, J.; GEMZØE, L. Novos espaços urbanos. Barcelona: GG, 2002.
GEHL, J.; SVARRE, B. How to study public life. Washington: Island Press, 2013.
GEHL, J.; SVARRE, B. Cidades para pessoas. 2. ed. São Paulo: Perpectiva, 2014.
HOLANDA, F. Urbanidade: arquitetônica e social. In: AGUIAR, D.; NETTO, V.M. (Org.). Urbanidades. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2012. p.163-188.
HILLIER, B. The social logic of space. Cambridge: Cambridge, 1984.
IBELINGS, H. Urbanidad. In: SOLÀ-MORALES, M. De cosas urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. p.10-15.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo de Florianópolis. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sc/florianopolis/panorama>. Acesso em: 10 ago. 2017.
JACOBS, J. The death and life of great american cities. New York: Random House, 1961.
KRAFTA, R. Impressões digitais de urbanidade. In: AGUIAR, D.; NETTO, V.M. (Org.). Urbanidades. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2012. p.115-134.
LYNCH, K. A imagem da cidade. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
MAGNANI, J.G.C. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.17, n.49, p.11-29,2002.
NETTO, V.M. Urbanidades. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2012. p.135-162.
PALLASMAA, J. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos. Porto Alegre: Bookman, 2011. p.76.
PALLASMAA, J. A imagem corporificada: imaginação e imaginário na arquitetura. Porto Alegre: Bookman, 2013. p.152.
SOLÀ-MORALES, M. De cosas urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008.
TUAN, Y.F. Espaço e lugar: a perspectiva da experiencia. São Paulo: Difel, 1983.
WHYTE, W.H. The social life of small urban spaces. New York: Project for Public Spaces, 2001.
NOTAS
Como citar este artigo/How to cite this article
Autor notes
T. OLIVEIRA colaborou na concepção, redação e análise de dados e J.A. ZAPATEL na concepção, revisão e aprovação da versão final do artigo.
* Correspondência para/Correspondence to: J.A. ZAPATEL | E-mail <project@arq.ufsc.br>.