RESENHA

101 REGRAS BÁSICAS PARA UMA ARQUITETURA DE BAIXO CONSUMO ENERGÉTICO

SANDRA HELENA MIRANDA DE SOUZA
Universidade Federal da Bahia, Brasil

101 REGRAS BÁSICAS PARA UMA ARQUITETURA DE BAIXO CONSUMO ENERGÉTICO

Oculum Ensaios, vol. 16, núm. 1, pp. 179-182, 2019

Pontifícia Universidade Católica de Campinas

. Huw Heywood. 2015. São Paulo. Gustavo Gili

Recepção: 02 Fevereiro 2018

Aprovação: 03 Março 2018


O livro é dividido em cinco capítulos que sugerem alternativas a serem consideradas na arquitetura, a fim de melhorar o desempenho térmico e energético da edificação. Denominadas de “regras”, o livro pretende colaborar passivamente:

  1. 1) no aquecimento de ambientes internos de edificações (para localidades de clima frio); e

  2. 2) no resfriamento de ambientes internos de edificações (para localidades de clima quente).

Para ambas as situações, a versão em português do livro procura orientar o projetista para acertar na adaptação da edificação para o clima local, sugerindo alternativas importantes de projeto que favorecem conforto aos usuários. As alternativas de projeto são propostas por meio de regras, apresentadas sucintamente e acompanhadas de ilustrações que exprimem os sentidos das regras correspondentes. Vale ressaltar que nem todas as regras esclarecem para qual característica climática está indicada: se para climas predominantemente frios ou predominantemente quentes.

Desde há algumas décadas que livros de autores originários de países nórdicos e predominantemente frios são traduzidos para o português brasileiro sem que haja o esclarecimento de que “parede de trombe” é uma técnica de bioclimatismo inadequada para ser adotada em edifícios inseridos em localidades de clima quente e úmido. Muito menos, a referida “parede de trombe” estar por trás de uma pele de vidro.

O livro aborda com propriedade uma sequência de técnicas construtivas para alcançar, tanto a calefação gratuita como a refrigeração gratuita em seu capítulo 4. O capítulo se detém em demonstrar como as reações termodinâmicas ocorrem entre meios e materiais com diferentes temperaturas, explicando com clareza a transferência de energia térmica por entre o ambiente interno edificado. Dentre as técnicas construtivas, sugere a parede de trombe com a pele de vidro adicionada e outras técnicas termoacumuladoras de calor, porém sem o devido esclarecimento para qual característica climática essa técnica e algumas outras estão recomendadas.

Pela a adequação de recomendações projetuais e construtivas em “regras”, sem os devidos esclarecimentos em todas as regras para qual característica climática está recomendada, a obra pode fragilizar a contribuição para uma arquitetura adaptada ao clima. Como, por exemplo: a Regra n° 8 - “Evite o superaquecimento no verão”, do Capítulo 1 “Trabalhar a situação e a localização”. A versão em português do livro compara as alturas máximas que o sol alcança no verão em algumas cidades: Londres, Pequim, Nova Iorque e Cairo, para o hemisfério norte; e, Sydney, para o hemisfério sul, e estima a profundidade de elementos de proteção solar. A partir da estimativa da latitude da localidade, conclui que: para localidades de latitudes intermediárias, a profundidade de uma “projeção instalada perto da verga da janela” medirá de 60 a 90cm; e, “pelo menos, 120cm nas latitudes perto da linha do equador, nas quais deveria ser empregada uma combinação entre projeções verticais e horizontais” (HEYWOOD, 2015, p.24).

Livros que trazem uma colaboração técnica na arquitetura, especialmente com uma abordagem voltada para o conforto térmico, por meio da otimização do desempenho térmico dos edifícios, precisam explicar as técnicas a serem adotadas pelos projetistas e relacionar a técnica ao clima local. A impressão que denota é que, nesse momento da leitura, acontece uma perda incalculável para a área do ensino e para o processo criativo de projetação em arquitetura. Além de fragilizar o empenho de professores e pesquisadores da área, em tornar o projetista conhecedor da técnica de projetar conscientemente com o sol, a fim de favorecer a melhor condição de desempenho térmico e energético de edifícios, por meio da modelagem da geometria da incidência solar em partes do edifício. O empenho de tornar a técnica difundida no meio acadêmico, também contempla o entendimento da interação termofísica que existe entre a intensidade de radiação solar incidente nos materiais construtivos especificados para as superfícies externas do edifício, mediante as especificidades de orientações dessas superfícies e características físicas e volumétricas da adjacência imediata ao mesmo.

Basicamente, os assuntos que permeiam a problemática abordada envolvem ângulos solares compatibilizados aos ângulos norteadores do projeto arquitetônico. Esse estudo se faz a partir do uso de três instrumentos, considerados simultaneamente no ato de projetar em arquitetura: (1) a carta solar da localidade; (2) o transferidor de ângulos solares; e (3) o transferidor de ângulos do projeto arquitetônico.

O Sistema Mongeano, adotado no projeto arquitetônico, considera três dimensões projetadas em três planos de projeção: o plano vertical, o plano horizontal e o plano de perfil. A partir da combinação desses três planos, o projeto pode ser definido e se desenvolve a técnica de se projetar em arquitetura.

Da mesma forma, um elemento de proteção solar também precisa conter três dimensões para existir: altura, largura e profundidade. Apenas com a recomendação de medida da profundidade, o elemento de proteção solar pode até nem funcionar adequadamente para atingir o objetivo pretendido.

Tratando-se de projeto de elementos arquitetônicos de fachada, para a promoção de sombreamento, é preciso analisar a abóbada celeste real para o local do projeto. Sem o conhecimento da técnica, os elementos de proteção solar podem gerar gasto de material construtivo e dinheiro.

Inclusive, a forma das superfícies externas de um edifício também pode resultar em melhorias no desempenho térmico do mesmo, sem que seja necessário o uso de elementos externos de fachada. Ou, uma sequência de elementos de proteção solar com medidas menores também pode proporcionar o mesmo desempenho térmico que um único elemento de proteção solar com medidas maiores proporcionaria, e ainda tornar o edifício esteticamente mais harmonioso.

Os momentos em que o sol se encontra com alturas máximas nos dias de verão nem sempre são os momentos de maiores ganhos térmicos solares e superaquecimentos dos ambientes internos de uma edificação. Essa condição varia em função da característica climática, imprescindível ser considerada no contexto de uma publicação que se destine a assuntos relacionados com a arquitetura e com o conforto térmico.

Por se tratar de um livro publicado por uma editora de alta credibilidade, inclusive no meio acadêmico, é bem provável que existam professores de projeto arquitetônico que já estejam replicando essa “regra rápida” para os seus alunos, futuros arquitetos. É inegável o poder de repercussão que uma publicação pode gerar no meio acadêmico e profissional.

O desdobramento da escolha de uma leitura pode significar a colaboração involuntária do empobrecimento do ensino e, consequentemente, da área profissional à qual se destina à publicação. Para a área da arquitetura, é preciso se atentar para os detalhes e pensar de forma integrada com o clima. Compreender as características atmosféricas no decorrer do ano e perceber quais potencialidades que colaboram para o conforto térmico. Em seguida, modelar o edifício a fim de que sejam preservadas as potencialidades positivas ao conforto térmico, bloqueando de forma seletiva e consciente as potencialidades que provocam o desconforto.

Para o desenvolvimento dessa habilidade, o arquiteto precisa ser perspicaz em técnica de projeto e trabalhar de forma integrada com a tecnologia dos materiais construtivos e suas capacidades de respostas de desempenho térmico quando estimulados pela radiação solar direta. O conhecimento técnico bem orientado não só evita o superaquecimento nos ambientes internos às edificações, como também repercute para as áreas externas da cidade.

O livro é bem escrito, com uma excelente qualidade gráfica e apresenta excelentes sugestões para a aplicabildade de elementos arquitetônicos para a melhoria da eficiência energética, porém, justifica-se que sua adequação aos projetos arquitetônicos para regiões de clima quente e úmido seja criteriosamente avaliadas, sem que sejam usadas de forma indiscriminada.

REFERÊNCIA

HEYWOOD, H. 101 regras básicas para uma arquitetura de baixo consumo energético. São Paulo: Gustavo Gili, 2015.

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