Artigos de Pesquisa

GUARULHOS EM URBANIZAÇÃO: O PLANO PARA O PARQUE ESTRELLA E A CIDADE IMAGINADA

GUARULHOS UNDER URBAN DEVELOPMENT: THE PLAN FOR PARQUE ESTRELLA AND THE IMAGINED CITY

FERNANDO ATIQUE *
Universidade Federal de São Paulo, Brazil
GIORGIA BURATTINI SAAD MEDEIROS DA SILVA
Universidade Federal de São Paulo, Brazil

GUARULHOS EM URBANIZAÇÃO: O PLANO PARA O PARQUE ESTRELLA E A CIDADE IMAGINADA

Oculum Ensaios, vol. 17, e204374, 2020

Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Urbanismo

Recepção: 26 Setembro 2018

Revised document received: 14 Fevereiro 2019

Aprovação: 11 Março 2019

RESUMO: Aborda-se, historicamente, o Parque Estrella, loteamento projetado pelo engenheiro/agrimensor José Ciampitti para a Companhia Melhoramentos de Guarulhos Ltda em 1926. Até as primeiras décadas do século XX, Guarulhos era compreendida por três polos de assentamentos: Conceição, que corresponde, hoje, ao centro da cidade; Bonsucesso, que fica ao leste da área central, e São Miguel dos Guarulhos, que faz divisa com o anterior e com o atual bairro paulistano de São Miguel Paulista, na porção sudeste. Até a década de 1920, o crescimento da cidade era esparso e estava se consolidando ao redor do leito do ramal férreo do Tramway da Cantareira, que, em 1915, chegou a Guarulhos. Discute-se, então, as razões para a elaboração do Parque Estrella, procurando cruzar informações obtidas por meio de pesquisa biográfica acerca de José Ciampitti, que esteve envolvido com o mercado de terras e a projetação de outros espaços naquela localidade, bem como na capital paulista, com a análise formal do empreendimento. Intenta-se compreender as razões para a elaboração da proposta, bem como para a não implementação do projeto. Dessa forma, este artigo atenta-se para uma dimensão que é a das cidades imaginadas, muitas vezes existentes apenas na dimensão arquivística.

PALAVRAS-CHAVE: Guarulhos, José Ciampitti, Parque Estrella, Urbanização.

ABSTRACT: This article covers, historically, the Parque Estrella, a neighorhood designed by the “engineer/land surveyor” José Ciampitti for Companhia Melhoramentos de Guarulhos Ltda, in 1926. Until the first decades of the twentieth century, Guarulhos included three settlements poles: Conceição, that corresponds, today, to Guarulhos downtown; Bonsucesso, located to the east of the central area, and São Miguel dos Guarulhos, which borders on the former and on the current São Miguel Paulista neighborhood in the Southeastern portion. Until the 1920s, the growth of the city was sparse, and was being consolidated around the railway branch of the Cantareira Tramway, which in 1915 reached Guarulhos. The article then discusses the reasons for the elaboration of the Parque Estrella, searching for information obtained through a biographical investigation about José Ciampitti, who was involved with the land market and the projects of other spaces in that locality, as well as in the city of São Paulo, with the formal analysis of these ventures. The paper seeks to understand the reasons which led to the preparation of the proposal, as well as to the non-implementation of the project. Therefore, this article addresses a dimension that is the imagined cities, often existing only in the archives dimension.

KEYWORDS: Guarulhos, José Ciampitti, Parque Estrella, Urbanization.

INTRODUÇÃO

EXPONDO UM PROBLEMA: A HISTÓRIA DA URBANIZAÇÃO NOS ARREDORES PAULISTANOS

A análise da cidade impõe uma série de enfrentamentos de diversas ordens. São ponderações que tratam tanto de seus elementos palpáveis, construídos, mas, também, de reflexões sociais. Como pontuou o geógrafo Maurício de Abreu: “a cidade é uma das aderências que ligam indivíduos, famílias e grupos sociais entre si” (ABREU, 2014, p. 38). A cidade como artefato tem, em si, uma pluralidade de vivências e, consequentemente, de memórias que coexistem, dialogam e entram em disputa. A cidade é fruto e meio da ação humana. É o espaço onde ocorrem processos e é fruto de um processo. É heterogênea e singular. Cientes desses alertas, e em concordância com eles, percorreu-se um caminho de levantamento documental que auxiliasse uma aproximação histórica ao processo de urbanização da 8ª maior economia do país e 2ª do estado de São Paulo: Guarulhos, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, que desenvolve, com a capital, um dos maiores movimentos pendulares diários no Brasil (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010).

Entendendo a urbanização como um processo de (re)estruturação do espaço, produto de um embate social, político e econômico, buscaram-se fontes que abarcassem as diversas faces desse processo naquela localidade. Temporalmente, circunscreveu-se a investigação ao período compreendido entre 1880, quando, por meio da Lei Provincial nº34, Guarulhos se emancipou administrativamente de São Paulo de Piratininga e foi elevada à categoria de vila1, e 1951, data da inauguração da Rodovia Presidente Dutra, que serviu de indutor para a expansão territorial do município (GUERRA, 2014).

Territorialmente, a pesquisa questionou alguns marcos explicativos do processo urbanizador em Guarulhos, pois retomam “ritos” verificados, classicamente, na urbanização de outros lugares: fluxos imigratórios, a chegada da ferrovia por ação dos cafeicultores e a industrialização. Essas narrativas apresentam-se em Guarulhos numa chave que poderíamos denominar de “macro”, pois tratam os fenômenos numa escala territorial e em correlação com a capital, não permitindo uma visada em menor dimensão, capaz de revelar atores sociais e práticas que auxiliem a entender um território tão denso e complexo, surgido, em grande medida, por conta de ações particulares desenvolvidas à revelia de um plano forjado sob ação do poder público.

O intuito deste artigo não é reelaborar a narrativa cristalizada sobre Guarulhos, antes, importa ampliar a “história” da localidade, incorporando alguns agentes de transformação do território descobertos em pesquisa que procurava entender o município. Curiosamente, a investigação também revelou uma cidade que não se implementou totalmente, e é sobre um desses episódios, de um plano urbanístico frustrado, que este artigo irá se ater como forma de mostrar os (des)caminhos de sua organização urbana.

Metodologicamente, para tanto, historiam-se as atividades de um profissional que, embora tivesse seu nome atrelado à localidade, ainda era uma incógnita persistente diante das escassas informações passíveis de obtenção em trabalhos acadêmicos, em literatura sobre a cidade ou em documentos oficiais do município. Trata-se de José Ciampiatti, que será abordado à frente. A maneira de investigá-lo, dessa forma, apoiou-se na noção de paradigma indiciário, proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg, que mostrou a importância das experiências individuais para o fazer histórico (GINZBURG, 1989). Por meio daquilo que denominou de método nominativo, Ginzburg instrui acerca de umas das formas de se aproximar do que estava visto apenas fragmentariamente; ou seja, por meio da busca em diferentes documentos em que constem informações acerca do mesmo indivíduo, consegue-se amealhar rastros e pistas documentais que levam à escrita de uma micro-história que se relaciona com outras escalas da história.

Frisa-se, assim, que Ginzburg alerta que mais do que amealhar fragmentos documentais, o paradigma indiciário torna-se importante no fazer histórico pelo puzzle que se pode montar, no qual comparecem as peças documentais fragmentárias, mas, também, os vazios do quadro histórico, que podem ser lidos em diversas chaves, como, por exemplo: por que foram ocultadas determinadas “peças” desse mosaico?

A escolha por trabalhar com a trajetória de um indivíduo específico para entender o contexto maior da urbanização de Guarulhos buscou entrelaçar os indícios deixados pela experiência individual ao macrocontexto ao qual pertenceu. Nesse sentido, o indivíduo não é posto como independente do ambiente em que está inserido e nem determinado de forma passiva pelas estruturas que o compõe. Dessa maneira, percebe-se o quanto à postura biográfica dos profissionais atuantes sobre o urbano revela mais sobre a densidade do processo de urbanização do que a clássica imagem de uma trajetória “completa” de vida e atuação. O que chamou a atenção, metodologicamente, foi a possibilidade de perceber que, para um município da dimensão de Guarulhos, era muito difícil a escrita de uma história pela ótica e pelo método historiográfico “clássico” - ou seja, pelo tratamento de fontes tradicionais, sobretudo planos, plantas e projetos -, por conta de sua predominante autoconstrução. Assim, baseada em Ginzburg, a presente pesquisa compilou fontes diversas, ciente de que abririam trilhas investigativas e personagens inimagináveis em interação.

Um exemplo, nesse sentido, reside na obtenção de documentação cartográfica sobre o município. O mapa mais antigo do município de Guarulhos, sob guarda do Arquivo Histórico Municipal, data de 1932. Não foram encontrados mapas oitocentistas, muito menos coloniais. Este mapa de 1932, assim, tende a “oficializar” a existência territorial de Guarulhos apenas no século XX. Em se tratando de um artigo que intenta contribuir para o conhecimento de um personagem e de um projeto que foram olvidados no próprio campo do urbanismo, a busca documental revelou a existência de um mapa anterior a esse da década de 1930, e que, por não tratar a totalidade do município, pouco era utilizado e, consequentemente, compreendido nos estudos históricos acerca de Guarulhos. Trata-se de um projeto de loteamento de larga escala que se denominou Parque Estrella, datado de 1926. Compreendê-lo tornou-se tarefa desafiadora e prazerosa, pois revelou um pensamento sobre a cidade de Guarulhos que parecia desconhecido. Essa peça gráfica, também sob guarda do Arquivo Histórico Municipal, trazia a assinatura de seu proponente: José Ciampitti. Assim, para chegar à cidade de Guarulhos, passou-se por um de seus agentes, e incorporaram-se variadas fontes: de notícias de jornais a plantas e processos judiciais, além de livros de aforamentos, resquícios materiais e fotografias. Metodologicamente, também emergiu uma questão: como dar sentido a essas incursões a esses documentos? Como apontou Josianne Cerasoli:

[...] as questões e métodos de pesquisa de uma investigação biográfica são favoráveis ao encontro de aspectos indeterminados, de descontinuidades, de desvios. Vasculhar as bibliotecas pessoais, no caso de investigações sobre um profissional atuante na cidade, por exemplo, é, potencialmente, uma abertura ao inesperado (CERASOLI, 2014, p. 300).

E como também mostra a autora, “[...] a abordagem biográfica assim aberta, e não restrita à improvável linearidade da trajetória, deixa claras as possibilidades de construção de uma interpretação que permita compreender as relações e as tensões constituintes do campo, no lugar de fornecer uma explicação” (CERASOLI, 2014, p. 301).

Dessa maneira, a análise do Parque Estrella, contida neste artigo, só faz sentido quando abordada como um fenômeno que altera a percepção historiográfica sobre Guarulhos, retirando-a dos “apriorismos” recorrentes na história urbana, apontados anteriormente, de que uma conjunção de eventos (a imigração, o dinheiro do café, a ferrovia e a industrialização) leva à formação de um espaço urbano, e nos apresenta um mosaico de atores sociais que interagiram (o projetista desconhecido, a municipalidade, as redes simbólicas, a várzea do Tietê), e que mesmo que não tenham uma suposta “glorificação do projeto” por meio da implantação, desvelam, como evocado por Cerasoli, “uma narrativa menos determinista, para compor-se como uma trama importante para se compreender uma intriga - aquela reiteradamente exposta nas dimensões plurais do urbano” (CERASOLI, 2014, p. 301).

Dessa forma, o entendimento de como o processo de ocupação e delimitação territorial de Guarulhos foi se desenvolvendo sem planos urbanos explícitos e das razões que levaram o Parque Estrella a ser produzido, em meados da década de 1920, passam pela compreensão de seu projetista.

JOSÉ CIAMPITTI: UM PROJETISTA (POLÍTICO) ESPACIAL

Em sua tese, denominada “A estruturação da grande São Paulo: estudos de Geografia Urbana”, Juergen Langenbuch asseverou que o período entre 1886 e 1900 é o de maior crescimento demográfico na capital São Paulo (445%). Ele aponta, consequentemente, uma diminuição da sua área rural circundante, destinada a abrigar loteamentos que iam crescendo. Nesse período, Langenbuch mostrou que localidades do “cinturão caipira”, que englobava Guarulhos, sofreram decréscimo populacional, pois indivíduos outrora dedicados a atividades comerciais e agrícolas nessas localidades buscaram emprego em atividades de transformação na capital (LANGENBUCH, 1968). Curiosamente, o mesmo autor mostra que entre 1900 e 1920, por sua vez, detectou-se aumento na população guarulhense, o que indicava “que uma vez exaurida parte da população de seus arredores, a cidade passou a repovoá [-los] através dos processos de ocupação do solo” (LANGENBUCH, 1968, p. 180). A carestia do preço das habitações em São Paulo e a atração de população do interior paulista e de outros estados vizinhos levaram à formulação de cidades-dormitórios, articuladas à capital por força dos modais de circulação, em especial do trem, que constituíram “subúrbios-estações”, onde foi acomodada a força produtiva paulista(na) (LANGENBUCH, 1968). Foi naquele momento de retomada de crescimento demográfico que se inseriu a projetação do Parque Estrella.

Esse projeto de loteamento foi feito por José Ciampitti, em 1926, ano em que a Cia de Melhoramentos de Guarulhos foi registrada nos órgãos de regulação comercial e na instância legal. Mas quem foi José Ciampitti? Essa pergunta é difícil de ser respondida. Nem ao certo se sabe se seu prenome era Giuseppe ou José. Todavia, é importante salientar que ele se intitulava “engenheiro” e como “agrimensor” nos documentos encontrados que comprovavam seus serviços ao governo do Estado e até mesmo à Igreja Católica2. Independentemente de ele ser diplomado ou não, socialmente era assim reconhecido, ou seja, havia uma chancela do poder simbólico envolvido nessa relação profissional (BOURDIEU, 2007).

Para se chegar à urbanização guarulhense, fez-se importante, antes, desvendar quem era Ciampitti. A montagem desse mosaico, a partir das informações colhidas, que foram planilhadas e cruzadas, não apenas desvela a presença e atuação de José Ciampitti, como abriu mais lacunas, as quais podem vir a ser cobertas exatamente porque - agora -, percebe-se sua atuação naquelas - e em outras - plagas3.

Até 1926, quando Ciampitti assinou o projeto do Parque Estrella, ele transitou por outras iniciativas em Guarulhos: em 1915, projetou, a partir de levantamento topográfico executado pelo engenheiro Luiz Felipe Gonzaga, a Vila Galvão, bairro de classe média, na porção noroeste de Guarulhos, que se constituiu território de lazer, por meio de suas chácaras, a partir de 1915, quando chegou o Tramway da Cantareira àquele lugar e, depois, bairro de elite (SANTOS, 2006).

Ainda na década de 1910, percebeu-se que Ciampitti estava inserido num círculo católico da elite dirigente de Guarulhos, pois, ao participar de um abaixo-assinado em defesa do vigário João Pedro Fusenig, fez-se constar num rol de membros da elite local (OS VIGÁRIOS..., 1917, p. 11)4. Corroborando essa ideia, ainda em 1917, foi registrada, no mesmo jornal, uma doação de 40$000 (quarenta mil réis) por Ciampitti para contribuir com a reforma da igreja da Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, edifício de origem colonial que era o centro da vila de Conceição e que, depois da criação do município, em 1880, foi transformado em centro daquela “cidade”5. Para além desse aspecto, fica bem claro que todos os que assinaram o abaixo-assinado eram residentes na cidade de Guarulhos, portanto, pelo menos naquele ano, Ciampitti ali residia. Note-se, também, que é no mesmo ano de 1917 que Ciampitti adquiriu outra propriedade em Guarulhos. A “Vila Zanardi”, conforme mostra a Figura 1, foi construída no ano de 1917 nos terrenos comprados do "Sr. Narciso Zanardi e S/M Maria Lucinda”, personagens sobre os quais não se obtiveram informações, mas que foram mobilizados por Ciampitti pelo fato de deterem a propriedade da terra em área circundante à matriz de Nossa Senhora da Conceição, o que demonstra a ampliação do núcleo urbano (ASSOCIAÇÃO DE REGISTRADORES IMOBILIÁRIOS, 1955). Com essa operação imobiliária, pode-se ver que o mercado de terras em Guarulhos estava vigoroso naquele momento, e Ciampitti, já conhecido nos círculos locais, estava alavancando sua carreira como projetista de bairros na cidade que se expandia.

Documento mostrando o parcelamento do solo, visando à constituição da Vila Zanardi, em Guarulhos.
FIGURA 1
Documento mostrando o parcelamento do solo, visando à constituição da Vila Zanardi, em Guarulhos.
Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos (1917).

É preciso apontar que dois anos após o projeto da Vila Galvão, Ciampitti riscou esse “loteamento” da Vila Zanardi, cuja estrutura “regular” denotava, na verdade, um interesse em obtenção de lucros. Valendo-se de um fundo de vale que margeava um incerto córrego que viria ser drenado posteriormente, Ciampitti implantou uma “vila”, com 10 lotes retangulares de 8,66m por 25m e mais dois lotes de 270 e 277m2. A clientela, pelas dimensões do lote e pela área dentro do município, parece ser de trabalhadores urbanos6.

Esse pequeno empreendimento de Ciampitti explicita duas características encontradas na urbanização de Guarulhos: o desenvolvimento de empreendimentos isolados, pela iniciativa privada, que “retalhou” seu território e criou uma malha urbana muitas vezes desconectada entre si; e o aparecimento de casas simples, destinadas às classes laboriosas, quer fossem de empregados, quer de pequenos comerciantes (CARVALHO, 2015).

Pode-se notar, por meio de artigo publicado por equipe da Universidade Federal de São Paulo, em 2017, que houve uma “corrida”, após a criação do município, em obtenção de terras devolutas na localidade. Para tanto, o instrumento jurídico do aforamento foi muito utilizado. O artigo aponta que:

[...] o aforamento foi importante para o povoamento de muitos municípios brasileiros, por promover a ocupação de terras incultas ou impropriamente cultivadas. Mas sabemos, também, que com a promulgação do Código Civil de 1916 [...] a aplicação da enfiteuse ficou restrita a terras não cultivadas ou terrenos que se destinem à edificação. Com relação ao aforamento, os artigos 678 e 680 do mesmo código o definem como um contrato bilateral de caráter perpétuo, em que, por ato ‘intervivos’, ou disposição de última vontade, [...] o proprietário pleno cede a outrem o domínio útil, mediante o pagamento de pensão ou foro anual em dinheiro ou em frutos (ATIQUE; SILVA; DIAS, 2017, p. 181, grifo do autor).

O mesmo artigo traz mapas por décadas, mostrando como as áreas ao redor dos núcleos de Bonsucesso e São Miguel dos Guarulhos, que tradicionalmente não possuíam relações sociais sólidas com “Conceição”, foram sendo aforadas. O aforamento, no período de 1880 a 1920, ao permitir o “acesso” à terra, deu origem a um território mais rural, pois grande parte das propriedades aforadas transformaram-se em chácaras que, apenas décadas depois, viriam a dar origem a loteamentos (ATIQUE; SILVA; DIAS, 2017, p. 188).

No mesmo livro, os autores apontam que, por meio desses dados, “[...] podemos verificar que na década de 1890 encontram-se registradas 278 solicitações (ou seja, 16,89% do total das sete décadas analisadas). Essas solicitações foram feitas por 153 indivíduos ou grupos. Desses, 132 fazem solicitações para uma ou duas áreas” (ATIQUE; SILVA; DIAS, 2017, p. 183).

Procurando entender a dinâmica espacial, que permite compreender o próprio loteamento em questão, o Parque Estrella, a equipe mostrou que “espacialmente, o aglomerado de Bonsucesso se apresentou como o mais visado, depois, percebem-se solicitações advindas de São Miguel e Thomé Gonçalves, além de outras áreas” (ATIQUE; SILVA; DIAS, et al, 2017, p. 184). A região de Conceição, transformada em “centro” de Guarulhos, entretanto, foi ocupada dentro de um mercado de terras mais formal, antes das demais áreas do município. Dessa maneira, faz sentido a afirmação de Atique, Silva e Dias de que:

A partir da década de 1930, o número de aforamentos é demasiadamente menor em relação às décadas anteriores, portanto não há nenhuma região que se destaque. Entretanto, essa década também marca o início de uma nova relação com a terra. Talvez, por força da legislação de registro de imóveis, que foi revisada durante as décadas de 1920 e 1930 (ATIQUE; SILVA; DIAS, 2017, p. 188).

A década de 1920, dessa forma, cristaliza o mercado de terras, e a atuação de Ciampitti, que só se verifica por meio do trabalho em loteamentos, parece indicar um papel crescente do profissional habilitado para a produção de lotes.

A atuação de Ciampitti não se restringiu a Guarulhos. Percebe-se, ao traçar sua biografia, que, em 1918, o engenheiro recebeu 2:581$200 (dois contos, quinhentos e oitenta e um mil e duzentos réis) por trabalhos prestados à Secretaria de Agricultura de São Paulo. Dois anos depois, em 1920, ele recebeu a quantia de 5:842$152 (cinco contos, oitocentos e quarenta e dois mil e cento e cinquenta e dois réis), por serviços prestados à mesma secretaria (ACTOS..., 1920) e, a partir de registro encontrado no Diário Oficial de São Paulo, pode-se dizer que recebeu tal quantia pela entrega provisória das obras de reconstrução de pontilhões e bueiros na estrada de Guarulhos à Nazareth (DESPACHOS, 1920).

Não se descobriu muito de sua atuação entre o final da década de 1910 e o final da década de 1920. Porém, sabe-se que em 1922, o “engenheiro” [sic] Ciampitti se candidatou ao cargo de vereador de Guarulhos e que, após apuração dos resultados em 1923, ele não conseguiu se eleger7. Sua tentativa de se candidatar demonstra mais uma vez que estava estreitamente ligado ao círculo político-institucional guarulhense e que fazia parte de uma classe mais abastada da cidade. Ciampitti, então, transitava entre poderes municipais consolidados (Igreja Católica, Prefeitura e Câmara) e pode-se afirmar que era uma figura de destaque na cidade que se expandia por meio de loteamentos.

PARQUE ESTRELLA: RISCANDO O CHÃO NA VÁRZEA DO TIETÊ

No contexto profissional da década de 1920, aparece o registro de uma nova atuação de Ciampitti em Guarulhos. Trata-se, exatamente, da criação da Companhia Melhoramentos de Guarulhos8 e do planejamento do Parque Estrella, um dos maiores loteamentos propostos para Guarulhos, exatamente após a cristalização da compra e venda de lotes no município, reproduzido na Figura 2 (ATIQUE; SILVA; DIAS, 2017). Sua planta, arquivada no Arquivo Histórico Municipal da cidade, data de 1926, como já apontado. O selo com as informações de autoria contido no documento informa que o escritório de Ciampitti já se localizava em São Paulo9. Deve-se notar, então, que se a citada moção em defesa do vigário, em 1917, revelava o pertencimento do “engenheiro” à vida local, o endereço do escritório, anos depois, em São Paulo, pode mostrar enriquecimento do ator social pelas atividades da construção civil, em especial da projetação e comercialização de loteamentos - tarefas, de fato, de um “agrimensor” -, em escala regional.

Plano do Parque Estrella, em Guarulhos.
FIGURA 2
Plano do Parque Estrella, em Guarulhos.
Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos (1926).

Para compreender o impacto que o Parque Estrella teria sobre o território de Guarulhos, convém analisar o que significava uma empresa propor um grande empreendimento para a localidade, que, como visto, tinha sua urbanização baseada em aforamentos e em pequenos empreendimentos sem a regulamentação de um plano de urbanismo pelo poder municipal.

O Parque Estrella revela como a criação de uma cidade moderna estava ocorrendo, de fato, em Guarulhos nos anos 1920. O loteamento, com mais de 700 mil m2, ladeava a antiga área da Vila de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, denominado, na peça gráfica, de “Cidade de Guarulhos”, como mostra a Figura 3. Esse loteamento foi pensado para expandir aquilo que no imaginário regional era a “cidade de Guarulhos”: o território da antiga vila de Nossa Senhora da Conceição. Embora, como vimos, aglomerados como Bonsucesso e São Miguel dos Guarulhos já existissem desde o período colonial, sua incorporação ao antigo núcleo de Conceição se deu apenas após a criação do município, em 1880. Mesmo assim, Bonsucesso e São Miguel tiveram suas expansões populacionais por meio de aforamentos, gerando áreas de feição rural, que pouca relação morfológica guardava com o “centro” de Guarulhos.

Pormenor do Plano do Parque Estrella, em Guarulhos, mostrando a “Cidade de Guarulhos”.
FIGURA 3
Pormenor do Plano do Parque Estrella, em Guarulhos, mostrando a “Cidade de Guarulhos”.
Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos (1926).

Assim, na peça gráfica do Parque Estrella, a “Cidade de Guarulhos” mostrada - enfatiza-se que esta é uma das poucas representações que se tem de Guarulhos, com desenho de lotes e arruamento, até 1932 -, organiza-se de uma maneira tradicional àquelas que os portugueses desenvolveram: em cima de uma colina, com um eixo “diretamente” traçado ligando a matriz de Nossa Senhora da Conceição à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, e com ruas transversais, organizadas de forma regular. Uma localidade com estrutura urbana assemelhada, na região, é Atibaia. Mas há diversos outros casos como este pelas cidades nascidas na América Portuguesa, como mostrou Reis Filho (2000).

Na representação da proposta de loteamento, de 1926, em análise, a antiga Rua Direita já estava denominada “Rua Dom Pedro II”, nome que sobreviveu à implantação da República, contrariando a lógica de substituição de toponímia religiosa ou imperial com o fim da monarquia, no Brasil. A rua Dom Pedro II, da direção Oeste para Leste, era entrecortada pelas ruas Barão do Rio Branco (aos fundos da igreja matriz, atualmente, Engenheiro Prestes Maia), Capitão Gabriel, Felício Marcondes, Treze de Maio (atualmente, Luiz Gama) e Quinze de Novembro. Outros dois logradouros, apesar de representados, não foram denominados, sendo, atualmente, chamados de João Gonçalves e Luiz Faccini.

Olhando-se em pormenor o mapa, percebem-se alguns imóveis demarcados, como uma escola aos fundos da Matriz, a então sede da prefeitura, a igreja do Rosário dos Homens Pretos: espaços simbólicos numa cidade que ainda guardava uma estrutura física pequena e concentrada, e com apelo colonial.

Abaixo dessa colina, o mapa, reproduzido em detalhe na Figura 4, mostra outros elementos importantes para a articulação: a avenida Guarulhos, antiga estrada da Conceição, que levava ao “Largo da Matriz”, cujo trecho final foi designado como “Ladeira” (hoje, Ladeira Campos Salles) e sua derivação, em sentido nordeste, denominada “Avenida Guarulhos”, que desembocava na “Rua da Estação”. Essa via, sabemos, era recente. A Revista de Educação de Guarulhos, editada em 2012, trouxe a seguinte elucidação:

Pormenor do Plano do Parque Estrella, em Guarulhos, mostrando a área da Estação Guarulhos do Tramway da Cantareira.
FIGURA 4
Pormenor do Plano do Parque Estrella, em Guarulhos, mostrando a área da Estação Guarulhos do Tramway da Cantareira.
Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos (1926).

No dia 20 de maio de 1914, o engenheiro da ‘Tramway da Cantareira’, José Carlos de Almeida Tibagy, comunica a construção da Estação Guarulhos e pede ao prefeito da época abertura de uma rua que ligasse a Estação à antiga Rua Direita, atual Dom Pedro II. A rua foi aberta com o nome de ‘Rua da Estação’, atual Cerqueira César. Em quatro de fevereiro de 1915, foi inaugurado o ramal ‘Tramway da Cantareira’ bem como a Estação Guarulhos (antiga Praça IV Centenário, Jardim Santa Francisca). A Estação de Guarulhos foi tombada pelo Decreto Municipal nº21.143, de 26 de dezembro de 2000 (REVISTA DE EDUCAÇÃO, 2012, p. 30).

Essa via levou ao desvio, mais tênue, do traçado da Avenida Guarulhos, o qual chegava, então, após 1914, na Rua da Estação. De fato, o mapa em questão dá destaque ao ramal férreo Tramway da Cantareira, enfatizando a “Estação Guarulhos”, mostrada na Figura 5. Até o ano de feitura do mapa, 1926, o leito do Tramway da Cantareira era encerrado ali. Sabe-se que, na década de 1940, ele atingiria a Base Aérea de São Paulo, na Fazenda Cumbica, onde hoje está o aeroporto internacional (ATIQUE; SILVA; DIAS, 2017). A Rua da Estação corria diretamente do edifício-tipo instalado pelo Tramway até a Rua Dom Pedro II. Constituiu-se, então, nova “porta de entrada” da cidade, instaurando nova lógica ao município no que competia às questões simbólicas, mas, sobretudo, industriais. Ao longo da rua da Estação instalou-se importante fábrica têxtil, a Carbonel10. A fábrica Carbonel e a rua Coronel Portilho eram, até a proposição do Parque Estrella, os limites da “cidade”, compreendida como a área coincidente com a mancha urbana, e ladeavam o leito e a estação Guarulhos do Tramway da Cantareira, com pouco mais de 10 anos de inauguração.

Cartão Postal mostrando a Estação Guarulhos do Tramway da Cantareira.
FIGURA 5
Cartão Postal mostrando a Estação Guarulhos do Tramway da Cantareira.
Fonte: Acervo pessoal dos Autores (c.1915).

A FORMA DA NOVA CIDADE EM CRIAÇÃO

O loteamento proposto por Ciampitti trazia diversas inovações; uma delas era o traçado urbanístico. Assemelhado a duas matrizes morfológicas, dialogava com aquilo que estava em franca discussão no cenário nacional e no internacional. Invocava-se o projeto de Pierre Charles L’Enfant (1754-1825), para Washington DC, reproduzido na Figura 6, e sua interpretação em La Plata, na Argentina, feita por Pedro Benoit (em 1880), assim como em Belo Horizonte, em plano assinado por Aarão Reis (em 1894), como mostra a Figura 7.

Plano de Washington, proposto por L’Enfant.
Figura 6
Plano de Washington, proposto por L’Enfant.
Fonte: Wikimedia / Wikipedia (c.1800).

Plano de Belo Horizonte.
Figura 7
Plano de Belo Horizonte.
Fonte: Wikimedia / Wikipedia (1897).

A ideia de um traçado geométrico, retangular, entrecortado por diagonais que tinham em seus cruzamentos praças, está claramente colocada aqui e é visivelmente tributária da leitura do Plano de La Plata. De Belo Horizonte, entretanto, é possível ver a implantação de uma “Rua Circular”, que desempenhava a mesma função que a “Avenida do Contorno”, projetada por Aarão Reis. O engenheiro Aarão Reis estipulara a Avenida do Contorno como estrutura física que divisaria a zona suburbana da zona urbana. Ciampitti propunha que a “rua circular” definisse o limite entre a área da várzea do Tietê e a “nova cidade em criação”.

Na organização urbanística do bairro também compareciam elementos formais de diversos bairros-jardins que se constituíam na capital, incluindo os bairros denominados Parque Edu Chaves, nas imediações, mas em território paulistano, datado do mesmo ano, e o Jardim Japão, de 1922, ambos projetados por Jorge de Macedo Vieira (STEINKE, 2002; BONFATO, 2003).

É interessante apontar que Ciampitti não incorre na formulação de seu projeto replicando os mesmos problemas que são apontados para a planta de Belo Horizonte desde sua época de inauguração. Em especial, podemos apontar a falta de correlação entre a topografia e o traçado. O fato de o Parque Estrella estar ocupando a várzea do rio Tietê, com declividade suave, garantia que o traçado urbano pudesse ser contemplado pelo transeunte, como, também, por aqueles que estivessem na colina histórica. O seu local de implantação era a área mais baixa da cidade, hoje conhecida como região da Praça IV Centenário, até onde está situado o batalhão do exército em Guarulhos.

Esse jogo de escalas verticais é perceptível desde o título da peça gráfica: “Planta Topographica e Arruamento do Parque Estrella”. Convém não esquecer que Ciampitti apresentava-se como agrimensor, tendo na produção topográfica parte de seu métier.

Também convém apontar a incorporação de traçado existente de caminhos ao plano de Ciampitti. No extremo leste do projeto, a via denominada “Corredor”, hoje, rua São Vicente de Paula, era usada para acessar um porto fluvial, o qual foi incorporado nos limites da nova ocupação, demonstrando a importância do Tietê na circulação regional (JORGE, 2006).

A “Avenida Central” do Parque Estrella, a qual contém a praça de maior dimensão - Doutor Jorge Tibyriçá -, ligava a estação do trem aos limites do loteamento por meio de larga avenida que enunciava a tentativa de conexão com São Paulo, entrecruzando o rio Tietê, correndo ao sul. Ali também estava uma “área reservada” que poderia explicar a intenção de “continuação” da cidade. Vale rememorar que a ponte que permitia a ligação entre o bairro da Penha de França a Conceição dos Guarulhos existia ao lado de onde hoje está construída a Ponte Nordestino. A proposta indicada na planta do Parque Estrella permitiria uma nova conexão, e não muito distante de onde a ligação colonial estava.

O Parque Estrella era um loteamento que contava com mais de 30 quadras, e correspondia a duas vezes o tamanho da área pré-existente grafada no mapa de sua apresentação. Em outro mapa existente no acervo cartográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo, sem data, mas com carimbo do Instituto Geográfico e Geológico do Estado de São Paulo, reproduzido na Figura 8, pode-se ver o processo de constituição de loteamentos na cidade de Guarulhos e nos bairros da Zona Norte paulistana, que se mostravam em processo de conurbação. O dado curioso é notar que o Parque Estrella aparece desenhado na peça gráfica, com o traçado proposto por Ciampitti, em 1926, embora se tenha apurado que, de fato, ele nunca fora implantado como demonstrado no projeto em questão. A suposição é a de que esse mapa tenha sido feito por volta de 1926, uma vez que o Jardim Japão e também o Parque Edu Chaves, já citados, estão ali desenhados.

Mapa da Cidade de Guarulhos e Zona Norte de São Paulo.
FIGURA 8
Mapa da Cidade de Guarulhos e Zona Norte de São Paulo.
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, sem data, estimado c.1926.

O fato de o Parque Estrella ter sido representado como no projeto de Ciampitti revela a compreensão de que o loteamento estava em processo de divulgação, e essa hipótese está subsidiada tanto pelas quadras identificadas por letras quanto pela toponímia já presente. Há, contudo, outra dimensão a ser notada: o fato de que no Parque Estrella não estão identificados os lotes em cada quadra. Isso permite ver que o traçado era regulado, mas a arquitetura, ao contrário do que se sabe sobre Belo Horizonte, não era uma preocupação, em especial nas esquinas angulosas do Parque Estrella, como mostrou Pereira (2000), em sua dissertação sobre a capital mineira. Há, então, uma possibilidade de interpretar a arquitetura que seria ali colocada como de “livre escolha” do comprador.

Por fim, convém discutir a ideia de parque. Obviamente, não se tratava de uma área livre e pública, mas a ideia de uma área arborizada, que remetesse aos espaços de matriz anglo-saxã, vinculada às cidades-jardins que estavam despontando pelo território paulistano não deve ser obliterada. Embora na peça gráfica que analisamos não seja possível ver representações de arborização urbana, as bem-sucedidas experiências do Jardim Japão e do Parque Edu Chaves parecem mostrar que a designação de parque tinha grande proximidade com estas experiências. Em termos compositivos, assim como aponta Bonfato, comentando a obra de Jorge de Macedo Vieira, “quando a topografia permitia essa liberdade”, recorria-se “a traçados geométricos, em uma combinação de várias figuras tais como semicírculo, triângulos, retângulos e diagonais, onde surgem carrefours e avenidas radio concêntricas, numa clara influência do modelo city beautiful norte-americano” (BONFATO, 2003, p. 82). Ciampitti, dessa maneira, demonstrou um repertório sofisticado ao projetar o Parque Estrella, o que o ombreava com projetistas importantes da Pauliceia, já consagrados pela historiografia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Parque Estrella, como proposto por Ciampitti por meio da Cia Melhoramentos de Guarulhos Ltda, nunca se implantou. Sabe-se, por meio de um documento de registro de imóvel em Guarulhos, que, em 1953, oficialmente, o Parque Estrella existia ao lado da Estrada de Rodagem Presidente Dutra. O imóvel estava, mais precisamente, na esquina das Ruas Circular e do Matadouro, no Parque Estrela. Já que um matadouro da cidade estava localizado no sentido Rio de Janeiro da Estrada de Rodagem, pode-se ver que os limites do Parque Estrella passavam pela atual localização da estrada mencionada.

Essa informação é preciosa e, ao ser cotejada à luz de uma aerofotogrametria datada de 1958, percebe-se que o Parque Estrella foi implantado, mas com traçado e dimensões completamente diferentes da intenção original. A causa dessa modificação? A instalação da Rodovia Presidente Dutra, autoestrada que o Governo Federal implantou na várzea do rio Tietê, nos anos 1940, e que cortou a área.

A foto de 1958 (Figura 9) mostra a presença apenas de um conjunto de diagonais, mas ainda não consolidadas: ruas “Ametysta” e “Agatha”, e a referida avenida circular; rua “Turmalina” também estava demarcada. A imagem aérea de 1958 mostra a Dutra cortando a várzea, com diversas lagoas criadas, as quais foram aterradas e transformadas em áreas loteadas, e o rio afastado da rodovia, como visto na Figura 10, por nós preparada.

Aerofotogrametria de 1958, mostrando a área do Parque Estrella ainda em processo de arruamento.
FIGURA 9
Aerofotogrametria de 1958, mostrando a área do Parque Estrella ainda em processo de arruamento.
Fonte: Geoportal (1958).

Sobreposição da estrutura do Parque Estrella, como prevista no Plano de 1926, sobre Aerofotogrametria de 1958.
FIGURA 10
Sobreposição da estrutura do Parque Estrella, como prevista no Plano de 1926, sobre Aerofotogrametria de 1958.
Fonte: Elaborada pelos autores (2018).

Por certo, não se pode afirmar que o Projeto do Parque Estrella tenha sido uma iniciativa frustrada para a Companhia loteadora, uma vez que a passagem da Via Dutra deve ter fornecido recursos financeiros por meio da desapropriação de suas terras. Mas em termos de organização urbanística do território, é certo que a cidade perdeu em qualidade espacial. Hoje, embora existente, a multiplicidade de autoconstruções em pequenos loteamentos de “última hora” faz de Guarulhos um território de difícil compreensão e com um dos piores índices de Gini do país (0,51), apesar de ser a 8ª economia do Brasil e a segunda do Estado de São Paulo.

A história, então, do Parque Estrella mostra que cidades imaginadas e nunca implantadas também ajudam a entender nossos rumos. No caso analisado, a dimensão arquivística da cidade está mais que detectada.

AGRADECIMENTOS

À Wagner Pacífico (Geoportal), Araci Borges (Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos), Janaína Yamamoto (Arquivo Público do Estado de São Paulo) e Leonardo Novo (Unicamp) pelo suporte na produção final deste artigo.

REFERÊNCIAS

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NOTAS

1 . O site do IBGE Cidades estabelece como marco da organização político-administrativa de Guarulhos, no período que aqui interessa, as seguintes datas: elevação “à categoria de vila com a denominação de Conceição de Guarulhos pela lei provincial nº34, de 24-03-1880, desmembrado do município de São Paulo. Sede na antiga povoação de Conceição de Guarulhos. Constituído do distrito sede. Instalado em 24-01-1881. Pela lei estadual nº1021, de 06-11-1906, o distrito de Conceição de Guarulhos tomou a denominação de simplesmente de Guarulhos. Elevado à condição de cidade com a denominação de Guarulhos (ex-Conceição de Guarulhos), pela lei estadual nº1038, de 19-12-1906. Em divisão administrativa referente ao ano de 1911, o município é constituído do distrito sede. Em divisões territoriais datadas de 31-XII-1936 e 31-XII-1937, o município permanece constituído do distrito sede. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 1-VII-1960” (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010, online).
2 . Dentre eles, destacamos: Atos (ATOS, 1391) e A Justiça e o Foro (A JUSTIÇA..., 1934).
3 . O pouco que se conseguiu juntar de informações sobre José Ciampitti reforça a imagem de um indivíduo extremamente articulado na política e no mercado paulista de terras. Não foi possível encontrar nenhuma informação sobre sua vida pessoal. Contudo, isso não impossibilitou a escrita de uma história em que sua presença foi efetiva e notada em Guarulhos.
4 . Ao se analisar o contexto, pode-se entender que ele estava inserido em um círculo social católico e de considerável influência, já que assina a moção ao lado de Zeferino Pires de Freitas, então prefeito da cidade, Felicio Marcondez Munhoz, presidente da Câmara, à época, entre outras figuras de clara influência na cidade.
5 . Diz a matéria: “Vão bem adeantadas as obras de reforma da egreja matriz de Conceição dos Guarulhos. Graças á generosidade do povo aos varios donativos feitos por pessoas caridosas, aquelle santuario já foi levantada a parede que desabou no desastre ocorrido no dia 26 de abril proximo passado. Os donos das varias olarias deste municipio forneceram gratuitamente os tijolos e telhas necessarios para a sua reconstrucção. Precisando a egreja mais de uma reforma completa, foi aberta, por iniciativa do vigario, uma seundasubscripção, cujo resultado abaixo publicamos. [...]. Eis a lista dos subscriptores: [...] José Ciampitti, 40$ [...]” (MATRIZ..., 1917, p. 4).
6 . Pela cartografia atual da cidade, referendada pelo Google Maps, a rua Scavone foi rebatizada de Soldado Almir Bernardo, e a Rua Silvestre, de Vasconcelos Calmon. Os terrenos marcados como pertencentes à família Scavone foram posteriormente loteados e a rua passou a ser chamada de Ana Balzani (GOOGLE MAPAS, [20--]).
7 . O nome de Ciampitti está atrelado ao qualificador profissional “engenheiro” no documento Acta da apuração de Vereadores à Camara Municipal de Guarulhos realizada no dia 14 de dezembro de 1922 (ACTA..., 1923, p. 42).
8 . A empresa foi registrada na Junta Comercial no dia 16/03/1926 (JUNTA..., 1926).
9 . José Ciampitti tinha “escriptorio technico a rua Genebra 6, S. Paulo” (NOTAS, 1926, p. 4).
10 . Conforme Santana et al. (2014), esta foi uma das pioneiras fábricas implantadas no município por conta da chegada do trem. A Revista de Educação, já citada, informou que a “Fábrica Carbonell de Fiação e Tecelagem” se fixou no município “dois anos após a inauguração da Estação Guarulhos, a aproximadamente 300 m dela”. Essa indústria “foi fundada em 1917 por Henrique Carbonell”. Fabricava “fios e tecidos de algodão cru, alvejados e tintos, lonas, brins, lonitas, etc.” (REVISTA DE EDUCAÇÃO, 2012, p. 30).

Autor notes

COLABORADORES F. ATIQUE realizou levantamento de fontes; redação acerca da cidade de Guarulhos; análise histórica e análise do projeto e da trajetória de José Ciampitti. G. B. S. M. SILVA realizou levantamento de fontes; redação acerca da biografia de José Ciampitti e análise histórica.

Correspondência para/Correspondence to: F. ATIQUE. E-mail: fernando.atique@unifesp.br

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