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FEIRA DAS PULGAS NA CONTEMPORANEIDADE: CARTOGRAFIA NAS CIDADES DE BUENOS AIRES, MONTEVIDÉU E CURITIBA 1
FLEA MARKETS IN CONTEMPORARY: CARTOGRAPHY IN THE CITIES OF BUENOS AIRES, MONTEVIDÉU AND CURITIBA
Oculum Ensaios, vol. 17, e204370, 2020
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Urbanismo

Artigos


Recepção: 25 Setembro 2018

Revised document received: 18 Fevereiro 2019

Aprovação: 07 Junho 2019

DOI: 10.24220/2318-0919v17e2020a4370

RESUMO: As feiras na contemporaneidade transcorrem caminhos múltiplos e mutáveis através da reunião de cores, sabores, cheiros e sociabilidades. As feiras das pulgas, que serão abordadas neste artigo, compõem este cenário, posto que promovem a troca de culturas, memórias, histórias. Com o intuito de mapear a inserção das feiras das pulgas no espaço público, visando descobrir como elas modificam e/ou interferem no espaço da cidade e no cotidiano das pessoas, a presente pesquisa desenvolve-se através do processo de cartografia/corpografia, A partir das viagens para as feiras de San Telmo (Buenos Aires), Tristan Narvaja (Montevidéu) e Feira do Largo da Ordem (Curitiba), foi possível estabelecer encontros potentes entre o corpo que pesquisa e outros corpos que constituem a cidade. A cartografia das feiras das pulgas, junto às teorias do urbanismo contemporâneo e da filosofia da diferença, resultou nos agenciamentos de hospitalidade + hostilidade e estrutura + ruptura. Não capturadas pelos poderes hegemônicos, as feiras das pulgas resistem, tornam a cidade mais humana, viva e sensível. Como resultado, notou-se que mapear essas intensidades a partir de uma experiência corpográfica permitiu explorar essa essência em constante movimento.

PALAVRAS-CHAVE: Cartografia, Feira, Filosofia da diferença, Urbanismo contemporâneo.

ABSTRACT: Today’s flea markets follow multiple and changeable paths through the gathering of colors, flavors, smells and sociabilities. The flea markets to be addressed in this article make up this scenario, since they promote the exchange of cultures, memories and stories. Seeking to map the inclusion of the flea markets in the public space, aiming to discover how they modify and/or interfere in the city’s space and in people’s everyday life, this survey was based on the process of cartography/corpography. Visiting the flea markets of San Telmo (Buenos Aires), Tristan Narvaja (Montevideo) and Largo da Ordem fair (Curitiba), allowed to establish powerful links between the investigation corpus and the other corpus that constitute the city. The cartography of the flea market together with the theories of contemporaneous urbanism and the philosophy of the differences, yielded hospitality + hostility and structure + rupture negotiations. Uncaptured by the hegemonic powers, the flea market resist, making the city more human, lively and sensitive. Map intensities from a corpographic experience allowed exploring this essence in constant movement.

KEYWORDS: Cartography, Market, Contemporary urbanism, Philosophy of differentiation.

INTRODUÇÃO

As feiras são espaços emergentes de atuação. São formadas, muitas vezes, pelas relações estabelecidas por pequenos grupos. Mutáveis, transcorrem caminhos permeados por contradições. Compondo um universo cheio de cores, sabores, cheiros e sociabilidades, elas sempre tiveram uma importância muito grande, não só no papel comercial das cidades, mas também em questões de espaço, cultura e trocas sociais.

Para esta pesquisa, as feiras na contemporaneidade são diversas formas de reunião para venda, troca ou exposição dos mais variados produtos. As feiras podem ser de antiguidades, de animais, de frutas e verduras, orgânicas, hippies, literárias, das pulgas.

Assim, este artigo dedica-se a descobrir os aspectos socioculturais e as intervenções que ocorrem em feiras das pulgas, ou seja, reuniões destinadas à venda de diversos objetos e antiguidades. Essas feiras ocorrem em dias e horários pré-determinados, ao ar livre, no espaço público, ocupando a cidade de forma efêmera e atemporal. Além de atividade de comércio, elas promovem a troca de culturas, memórias e histórias. Por isso, despertam interesse quanto a um enorme complexo de fatores - econômicos, jurídicos, políticos e estéticos -, que interagem e produzem sentidos.

Foram experimentadas feiras das pulgas localizadas no sul da América do Sul - uma brasileira, uma uruguaia e uma argentina -, das seguintes cidades: Curitiba, no Brasil; Buenos Aires, na Argentina; e Montevidéu, no Uruguai. Isso foi feito tendo em comum suas mercadorias (bens antigos, usados, artísticos e de fabricação artesanal), a forma como ocupam espaços públicos e a periodicidade de montagem. Também se considera que elas já fazem parte da identidade cultural das cidades estudadas e que todas, mesmo sendo atrativos turísticos, serviram, em algum momento, ao comércio e à subsistência.

Analisando alguns processos de apropriação dos lugares que, pelos usos e pela construção da experiência urbana, conformam resistências ao contexto de desintegração da vida urbana contemporânea, simbolizando a luta pelo “direito à cidade”, tem-se que as feiras de antiguidades podem ser consideradas espaços de vitalidade. Trata-se de espaços que estão permeados pela espontaneidade, pela imprevisibilidade e pela diversidade do encontro, bem como pela pluralidade e pela heterogeneidade de atividades e de pessoas, que quebram o cotidiano da cidade.

O objetivo deste estudo foi mapear a inserção de Feiras das Pulgas nas cidades, a fim de descobrir como essa ocupação temporária modifica e/ou interfere no seu espaço e no seu cotidiano. A metodologia adotada foi a realização de cartografia/corpografia urbana, que tem como premissa o registro de processos e mudanças no corpo da cidade e do usuário (pesquisador), utilizando-se de mapas, caderno de campo e estudos de referenciais. Como análise do material coletado e experimentado, foram produzidos agenciamentos de escrita com as teorias da filosofia da diferença e do urbanismo contemporâneo: hospitalidade + hostilidade e estrutura + ruptura.

REVISÃO DA LITERATURA

Eça de Queirós, em Textos do Distrito de Évora (EÇA DE QUEIRÓS, 1980, p. 202), descreveu a riqueza da feira: “[…] a feira tem sempre um cortejo ruidoso de divertimentos, de teatros, de bailes, de galanterias, de touros e também um pouco de lucros e de comércio”. Desde a era medieval, perpassando pela época moderna e pela contemporaneidade, as feiras carregam grande diversidade e riqueza de possibilidades plurais de rituais, comportamentos, normas e apropriação do território urbano.

As feiras livres se consolidaram na Idade Média, pois, na época dos faraós, como período escravagista, e no feudalismo, a produção destinava-se somente ao consumo, visto que nem os faraós, nem os senhores feudais, tinham interesse em fazer comércio. Assim, é sabido que as referidas feiras livres só ganharam importância entre as classes mais populares a partir da Revolução Comercial (séc. XI), com o objetivo de expandir o comércio por meio dos produtos adquiridos no Extremo Oriente, os quais eram distribuídos através do Mediterrâneo. Dessa forma, foi possível a abertura dos grandes comércios junto às cidades como Gênova, Veneza e Pisa.

As feiras, contemporaneamente, estão deixando seu lugar inicial de subsistência e tornando-se atração turística das cidades. Apesar disso, percebe-se que continuam sendo termômetro da economia local - sobretudo na América Latina; quanto maior a crise econômica, maior é a quantidade de bancas, vendedores e compradores de utilidades e roupas usadas, consequentemente. Por outro lado, em locais onde a estabilidade econômica é maior, as feiras tendem a ser mais turísticas e a comportar outras práticas capitalistas.

O processo de “elitização” das feiras segue uma tendência que ocorre em todo o mundo. O poder público parece se abster de suas responsabilidades de interesse social, privilegiando cada vez mais a iniciativa privada. O espaço público, por sua vez, passa a ser também foco de especulação e, como a cidade, em geral, torna-se mercadoria (VAINER, 2002). No caso das feiras das pulgas, boa parte destas existe há muitos anos e, por causa disso, estão/estavam em lugares considerados “degradados”. Assim como o centro das cidades históricas, essas feiras passaram a ser consideradas foco de turismo, atraindo investimentos.

A partir do interesse de “qualificação”, o espaço público acaba, muitas vezes, imerso na lógica institucional, passando a ser normatizado e homogeneizado. De local de expressão e de manifestação de todos, esse espaço passa a ser pensado para poucos. Isso se opõe à compreensão do espaço público, assumida nesta pesquisa, como lugar de heterogeneidade e de diferença.

O importante aqui é perceber uma inversão de valores, de como esta pacificação de conflitos dos espaços privados securitários também passou a ser vista como um objetivo na construção das imagens dos novos espaços públicos, pensados como spots publicitários para turistas ou especuladores imobiliários (JACQUES, 2009, online).

Pode-se afirmar que as feiras das pulgas, assim como outras feiras comerciais que ocupam o espaço público, sobreviveram ao crescimento urbano, pois são atividades que se potencializam e lutam por seu direito à cidade. Sendo assim, a feira é, reconhecidamente, um espaço - um mundo -, de percepções, sentidos e interações. Nela, redes de sociabilidades e culturas são tecidas por feirantes e fregueses - sujeitos sociais que realizam a feira e constroem sua história trocando produtos, saberes, fazeres, estratégias de compra e venda. Trata-se de um espaço de resistência capaz de contribuir com a construção de identidades, bem como de regular e justificar práticas e condutas sociais. É um acontecimento que leva as pessoas a aproveitarem esses espaços, que fazem parte das suas cidades e que lhes pertencem. “De um lado, a city, impondo-se à cidade como espaço e objeto e sujeito de negócios; de outro lado, a polis, afirmando a possibilidade de uma cidade como espaço do encontro e confronto entre cidadãos” (VAINER, 2002, p. 100).

O espaço público das cidades na contemporaneidade não está definido e limitado pelos planos urbanísticos. Em muitas ocasiões, são os habitantes da cidade que decidem que espaço vai ser público e qual não vai ser; que espaço cumprirá uma função ou outra. Nesses espaços não regulados, anarquistas, produzem-se atividades que tendem a subverter as leis da economia tradicional, do urbanismo e das relações humanas, gerando mudanças importantes tanto teóricas como práticas na maneira de pensar e planejar a cidade. Esse aspecto informal efêmero, mas não ocasional, constitui uma regra importante no desenvolvimento de muitas cidades.

As feiras das pulgas são potentes experiências urbanas, pois são dispositivos capazes de produzir alteridade na cidade - hospitalidade e hostilidade. Através de trocas materiais ou culturais, as feiras das pulgas mudam o espaço público, dão vida ao lugar, resistem e profanam o sagrado -, a cidade consagrada pelo poder público (AGAMBEN, 2007).

Cidades são lugares de comunicação, criatividade e progresso; nesse sentido, devem ser capazes de receber e integrar as pessoas, possibilitando a construção de sentimento de orgulho, de cidadania e de identidade. Tendo a função de acolhimento e de integração do outro no próprio espaço, é possível, então, abordar as cidades a partir do conceito de hospitalidade, desenvolvido por Derrida (2003) e continuado nas formas de acolhimentos, por Fuão (2014). Alguns lugares tendem a ser mais hospitaleiros do que outros em uma cidade. A hospitalidade depende do fornecimento, sobretudo, de encontros e de formação de vínculos entre pessoas conhecidas ou não.

Cada experiência vivenciada perturba a identidade sem eliminá-la, levando-a à desterritorialização. Isso ocorre quando as feiras ocupam a cidade, mas também na convivência entre o eu e o outro. A hospitalidade se associa à interação entre as pessoas, ao encontro, sendo assumida de forma voluntária, sempre mantendo a mesma essência. Para que uma comunidade seja hospitaleira com o turista, ela deve, em primeiro lugar, ser percebida como hospitaleira pelos que a ela pertencem.

Segundo Grinover (2007), o fato de uma cidade ser ou não hospitaleira deve-se à coexistência de três dimensões fundamentais: a acessibilidade, a legibilidade e a identidade, intimamente relacionadas pela escala e pelas medidas geográficas e temporais, que proporcionam a compreensão da cidade para o próprio habitante, para quem dela se aproxima, se introduz e se apropria.

O visitante/viajante/errante interrompe o curso da existência cotidiana com a sua chegada, fazendo aparecer no eu (feirante) uma generalidade que o leva a acolher e a dar uma resposta à prática da hospitalidade, a aproximar-se do outro e a criar uma relação de acolhimento. Isso torna o espaço da feira propício para receber moradores e turistas, de forma que sejam re-acolhidos e simultaneamente hospedados. Acolher o visitante é recebê-lo a de forma imediata, sem preparo, na urgência de um instante, pois ele é o recém-chegado.

Existe uma linha tênue entre hospitalidade e hostilidade. Elas coexistem e podem, por vezes, ser confundidas, visto que o excesso de hospitalidade dos feirantes pode se tornar hostil. Essa ideia de hospitalidade não é incondicional; é interesse dos feirantes que os hóspedes comprem seus produtos, havendo reciprocidade e fazendo deste lugar um novo lugar. Esse provável hóspede, forasteiro, é sempre aquele que está de passagem. É um errante que está pronto para permanecer ou partir a qualquer momento. É ele que provoca o acontecimento e modifica o espaço, perturbando e transbordando os sentidos do lugar.

Nas feiras das pulgas, os feirantes passam a pertencer ao local; e o local, a eles, configurando uma hospitalidade mútua. O mesmo ocorre com a feira e os feirantes em relação aos visitantes, que são recebidos, acolhidos e integrados; assim se estabelecem vínculos entre eles. Também pode-se identificar hóspedes e hospedeiros, bem como espaços de hospitalidade e de hostilidade no movimento de acolhimento ou não do corpo-feira-das-pulgas nos casos que serão estudados.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O principal método utilizado neste processo de pesquisa foi a cartografia, conceito trazido pelos filósofos da diferença Deleuze e Guatarri (1997). Esse método procura percorrer a cidade em busca da diferença, de cenários não marcados em seu mapa habitual, como as feiras das pulgas. A cartografia não se configura como um método tradicional; é uma maneira de proceder que pode admitir as modificações temporais no espaço e busca mediar a experiência corporal do pesquisador com as feiras das pulgas e com as pessoas nelas envolvidas.

A cartografia consiste em mapear as dinâmicas da contemporaneidade. É possível construir mapas que representem muitas cidades não visíveis que convivem com as cidades conhecidas. São mapas que representam a vida cotidiana dos caminhos e dos eventos urbanos, daquilo que não é só estático, que não está cheio, do simultâneo, do híbrido, do que pode estar à margem, do que não é central, de tudo que está soterrado, abandonado nos lugares físicos e espaciais nas cidades.

Como afirma Rolnik (2014), o cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, apropriar-se, devorar e desovar. Seguindo sua sensibilidade sem nenhum protocolo, ele busca, para suas cartografias, elementos, experiências, descobertas, intensidades e encontros que afetem seu corpo. Como um dispositivo sensível, o corpo é o sujeito capaz de apreender e se relacionar com a cidade através de suas experiências. A cartografia foi método para uma aproximação humana do território, para experimentar e interagir com a cidade com o objetivo de reunir percepções mais próximas da realidade.

A abordagem cartográfica consiste numa experiência que se faz deixando marcas tanto no corpo quanto na cidade, ao que se chama de corpografia urbana (JACQUES, 2008), estudo ao qual se alia esta pesquisa e que permite a leitura do ambiente urbano a partir da experiência do corpo no seu espaço próprio de deslocamento e de vivência cotidiana - a cidade. A corpografia é um processo de corporificação em que o próprio corpo em movimento, deslocando-se, deixa e recebe marcas, movimentos, linguagens e sentimentos, como um registro da própria experiência do/no corpo.

Os praticantes da cidade, como os errantes, realmente experimentam os espaços quando os percorrem e, assim, lhe dão “corpo” pela simples ação de percorrê-los, denunciando a cidade contemporânea e resistindo a ela. Foi proposta uma caminhada - experiência -, errante pelas feiras das pulgas, na qual o corpo se relacionou com o espaço desconhecido, predispondo-se a realizar e a sofrer modificações. Dessa forma, o corpo-pesquisadora e o corpo-feira se uniram, criando um novo território.

Esse é um processo que orienta, desorienta e re-orienta, ou territorializa, desterritorializa e reterritorializa. Segundo Jacques (2008), o interesse do errante é precisamente se desterritorializar, ou se perder, colocar-se nesse estado efêmero de desorientação espacial, quando todos os outros sentidos, além da visão, aguçam-se possibilitando outra percepção sensorial.

Em meio a essa desterritorialização, realizou-se um experimento curioso na cidade; através dele, pisou-se e tateou-se o que se veste e se desnuda diante dos olhos, o que seduz e intimida. Isso muda os perceptos e os afetos durante o ato de caminhar. As experiências proporcionam encontros, marcados ou não intencionais, que provocam uma série de sentimentos e pensamentos que comportam diferenças extensivas.

O visual recria, como destacou Lefebvre (1991), possíveis engates entre os significantes móveis da cidade e os significados, também ambulantes, que movem o olhar do pesquisador. Uma cidade, em qualquer circunstância (e sem nenhuma preocupação com relativizações), nunca se reduz a um mapa fixo.

O corpógrafo se entrega às circunstâncias do ambiente vivido e o permeia, permite-se criar desvios de percurso como parte do processo. A própria dinâmica da cidade, repleta de criações e recriações de seus lugares, apresenta ao corpógrafo uma variedade de caminhos. Por isso, delimitar prioridades de olhares é um desafio. A cidade não pode ser reduzida a um mapa fixo; as fronteiras físicas possivelmente não representam até onde o olhar enxerga. A cidade também é representada pelas cenas urbanas dos sujeitos, pelas memórias, pelo vivido, pelo experimentado.

É tarefa do corpógrafo ver, ouvir, sentir e vivenciar, deixando-se afetar e permitindo que o olhar seja também guiado pelas experiências que a cidade pode proporcionar. Numa visão de ciência nômade, na reterritorialização dos conceitos e desconstrução dos olhares, as feiras têm potência, criando um novo e independente cotidiano.

Os procedimentos metodológicos escolhidos para o processo de investigação nas feiras das pulgas foram: revisão bibliográfica (referencial teórico), conversas de feira, captações de cenas, experimentações in loco (viagens), registro das observações em diário de campo e produção de mapas cartográficos. A análise dessa carto-corpografia das feiras das pulgas se desenvolve rizomaticamente desde a atenção do pesquisador até os movimentos e composições geopolíticas encontradas (PASSOS; KASTRUP; TEDESCO, 2015), tudo amalgamado e agenciado com as teorias da filosofia da diferença e do urbanismo contemporâneo.

RESULTADOS

Foram carto-corpografadas três feiras das pulgas, durante os anos de 2015 e 2016, quando realizadas as experiências corpóreas e urbanas, cada uma com suas especificidades, como se pode observar na figura abaixo (Quadro 1).

QUADRO 1
Tabela síntese sobre as feiras estudadas.

FEIRA DE SAN TELMO (BUENOS AIRES, ARGENTINA)

A feira de San Pedro Telmo foi inaugurada em novembro de 1970 na Plaza Dorrego, localizada em um bairro muito antigo, que estava deteriorado naquele momento e havia tido sua demolição completa ordenada anteriormente. Contudo, esta acabou não sendo levada adiante por falta de recursos governamentais.

Segundo relatos obtidos no site oficial da Feira de San Telmo2 , a feira começou devido à inauguração da Semana de Buenos Aires, instituída no ano de 1968. Foi então que surgiram 30 pessoas para participar da feira, vendendo seus antigos pertences. A partir desse dia, mais pessoas foram chegando e se deram conta de que era indispensável fazer um plano com divisões e uma regulamentação. Com três meses, havia 270 postos que permanecem até a atualidade. Comércios como fruteiras e casas de eletricidade foram fechados, dando lugar a antiquários.

Hoje, sem falhar um domingo sequer, independentemente do tempo, a Feria de San Telmo ocorre na parte central da Plaza Dorrego, na esquina da rua Humberto Primero com a rua Defensa. Esse ponto original se encontra repleto de antiguidades, anteriores a 1970, às quais se somam quase 1km de bancas de artesanato que foram surgindo com o decorrer dos anos. O evento recebe cerca de 20 mil visitantes e é controlado pelo Museo de la Ciudad, cujos inspetores vigiam a feira todos os domingos, buscando fazer as pessoas seguirem o regulamento proposto.

A feira foi visitada em um dia nublado, chuviscando; mesmo assim, não perdeu seu encanto. A primeira parada foi na Plaza de Mayo, centro da vida política da cidade e principal local do turismo argentino onde se encontra a Casa Rosada (sede do Poder Executivo da Argentina) e onde são realizadas as mais diversas manifestações que, por vezes, acabam por chamar mais atenção do que o próprio patrimônio histórico. Também na Plaza de Mayo encontram-se diariamente as típicas banquinhas que vendem comida para os pombos e os famosos regalos uruguayos.

Em seguida, percorreu-se a rua Defensa, estreita, com paralelepípedos e que atravessa o centro histórico da capital. Nela, estão localizados o Convento de São Francisco, o Museu Nacional, a Igreja de Santo Domingo, entre outros prédios pertencentes ao patrimônio da cidade. É nessa rua que, aos domingos, ocorre a feira de artesanatos (continuação da Feira de San Telmo), que se estende até 10 quadras, onde se encontra a Plaza Dorrego.

A Defensa em algum momento foi pensada para ser uma rua de pedestres, inclusive obras começaram a ser feitas. Porém, parte da vizinhança não aprovou a ideia, fazendo o governo abandonar o projeto inicial. Então, a rua recebeu de volta seus paralelepípedos e a exclusividade para pedestres foi mantida somente durante os fins de semana. Através dessa iniciativa, os vendedores de rua e os feirantes, que originalmente cercavam somente a Plaza Dorrego, expandiram-se, o que ocasionou uma mudança notável na aparência da rua (Figura 1).


FIGURA 1
Feira de San Telmo.
Fonte: Acervo pessoal da autora Rafaela Barros de Pinho (2015).

Entre 2009 e 2010, os comércios clássicos antigos, característicos da região, retiraram-se por causa da forte valorização da propriedade e foram gradualmente substituídos por lojas de vestuário e objetos de design. Com o tempo, o processo não parou, mas foi acentuado, com a instalação de lancherias internacionais e de luxo, que são os locais mais frequentados pelos turistas.

A cidade formal, vista com olhos de turista, causa estranhamento. A mesma rua que se enche de vida aos domingos, em dias de semana transforma-se em um túnel cinza repleto de carros. Por outro lado, sem a feira é que a arquitetura da metade final do século XIX e início do século XX se destaca.

O mobiliário urbano, quase nulo, só é encontrado na Plaza Dorrego, mesmo espaço ocupado pela feira aos domingos e que, na sua falta, é tomado de mesas e cadeiras dos bares que a cercam e de vendedores ambulantes que aproveitam esse ponto turístico para vender suas mercadorias.

Nos dias em que há feira, a montagem ocorre a partir de 7 horas da manhã, quando começam a chegar caminhões e carros carregados das mais diversas formas de estruturas. Cada feirante pode decidir como monta seu estande de venda. Alguns fazem isso por conta própria, enquanto outros contratam serviços de terceiros.

A feira se inaugurou com 30 postos, que possuíam uma estrutura de ferro com um teto de lona cinza. Atualmente, há lonas coloridas que se destacam em meio às paredes cinzas da cidade antiga, trazendo vida ao local.

A feira de San Telmo tem uma organização mista, dividindo-se em duas partes: uma parte linear, onde ela se estende por dez quadras da rua Defensa; e uma parte principal, localizada na praça, onde se concentram as antiguidades (considerado o verdadeiro Mercado de Pulgas). A feira ainda transborda com algumas bancas irregulares e, até mesmo, com o surgimento de outras feiras de cultura.

Essa feira abrange todos os tipos de público, desde moradores da capital argentina até visitantes de cidades vizinhas, como turistas de todos os locais do mundo. Os feirantes afirmam reconhecer de onde os fregueses são somente pelo que estão procurando para comprar. Mesmo com o idioma local sendo o espanhol, a maioria se arrisca com palavras em outras línguas, principalmente inglês e português

Na zona onde a feira se localiza, também foram encontrados diversos atrativos turísticos, que fazem o bairro ser um local muito procurado pelos estrangeiros, que tomam conta das ruas tirando fotos de prédios e monumentos ao redor, bem como dos personagens da feira - ícones do local, que chamam atenção por sua diversidade e criatividade e que talvez sejam a principal característica de San Telmo. Não há quem vá a feira sem parar para olhar pelo menos uma dessas atividades inusitadas que ocorrem quando se percorre as ruas.

A criatividade também é percebida nas estruturas dos postos dos feirantes. Algumas barracas são alugadas e, por isso, tem estrutura metálica semelhante, mas os feirantes parecem personalizá-las, levando lonas e toalhas com grande variedade de cores. Aqueles que não alugam acabam por inventar sua própria estrutura, que varia de lenços no chão a suportes de artes. Pôde-se notar, na feira, certa denúncia sobre a falta de equipamento urbano de qualidade.

Parece que, como acontece com certas obras clássicas, essa feira nunca se esgota. O mais interessante é que se encontram coisas inesperadamente valiosas: as histórias. A feira tem seus diferenciais, sua graça, e são esses os seus reais valores, a sua identidade.

TRISTAN NARVAJA (MONTEVIDÉU, URUGUAI)

Em 1878, Don Luis de la Torre propôs à Comissão de Agricultura do Conselho Econômico Administrativo de Montevidéu a criação de feiras semanais. Com isso, foi inaugurada naquele mesmo ano, na Praça da Independência, a primeira feira da cidade, que tinha a finalidade de promover a agricultura. Inicialmente chamada Yaro, esta feira migrou, em 3 de outubro de 1909, para a rua Tristan Narvaja e, com o tempo, acabou ficando conhecida como Feria Tristan Narvaja, como é chamada atualmente. Desde então, há feira todos os domingos, exceto quando coincide com datas de eleições nacionais ou feriados importantes, como Natal ou Ano Novo3.

Hoje, percorrer essa feira é uma verdadeira aventura, já que ela é considerada como um dos eventos mais típicos de Montevidéu, com uma identidade forte e expressiva. É a feira mais peculiar estudada, pois não há nela somente curiosidades e coisas utilitárias, mas se encontra também espaço para o inusitado. Além de alimentos frescos ou mesmo itens de matadouro, é possível encontrar ali objetos excêntricos, que fazem parte da sua identidade, que está também marcada pela desordem.

O controle, o monitoramento e a limpeza da feira estão a cargo do município de Montevidéu. Existe também a história de que muitos dos objetos que são restaurados e vendidos na feira teriam, antes, sido roubados e/ou comprados por uma verdadeira pechincha. Algumas pessoas afirmam que não são poucos os uruguaios que recuperaram um objeto que tinha sido roubado na feira, gastando alguns pesos.

A feira sai do espaço óbvio, dobrando a avenida principal, dando lugar ao incomum, a uma reunião de singularidades, à produção de uma centena de sentidos e ao caos. A mistura proporcionada por esta feira é a principal característica que supre o gosto dos consumidores de alguma forma. Os visitantes podem ir atrás de algo específico ou aceitar perder-se, desconcertar-se, indo à deriva ao encontro do novo. Trata-se de um lugar em que se pode comprar o necessário e voltar para casa, onde se pode sentir ameaçado ou protegido. Um local que gera estranheza e repugnância, onde o visitante se coloca em contato com rostos estranhos, ouve conversas alheias e pode aproveitar ofertas singulares. A feira é múltipla, heterogênea. Encontram-se lá desde os itens mais baratos até coisas valiosas; ela é visitada por indivíduos de todas classes sociais, desperta interesse tanto daqueles que gostam de encontrar pequenos “tesouros” quanto dos que pretendem comprar frutas para seu dia a dia. Os estímulos proporcionados são infinitos; desde o encontro com o desconhecido, com o inusitado, com as obviedades, até os flashs visuais, odores mistos, ruídos, encontros contraditórios e agradáveis.

Aos domingos, a Feria de Tristan Narvaja não só ocupa a rua de mesmo nome, mas também abrange várias outras ruas, tanto paralelas como perpendiculares, ocupando várias quadras do bairro Cordón, onde também se encontra o antigo edifício da Faculdade de Direito da Universidade da República, a Faculdade de Belas Artes e o Palacio Peñarol.

A feira foi visitada em um domingo de manhã chuvoso, feriado de Páscoa, e a pesquisadora estava aberta a descobrir um novo local cheio de curiosidades. O encontro com essa feira foi como se perder no tempo, perder-se em si. Pode-se acessar a feira por qualquer rua, porém há um caminho natural a se seguir, começando pela esquina que une a Tristan Narvaja com a 18 de Julio. Desde esse ponto inicial, já se encontram barracas com aparências tão diversas quanto suas mercadorias. Para o visitante, deve ficar claro que se vai entrar em um espaço de resistência, repleto de diferentes sons, cheiros e ofertas que podem variar de uma alface fresca a uma escultura (Figura 2).


FIGURA 2
Feira de Tristan Narvaja.
Fonte: acervo pessoal da autora Rafaela Barros de Pinho (2016).

Os primeiros passos proporcionam o encontro com frutas, legumes, peixes em aquários, plantas de todas as formas, diversas raças de cachorrinhos, coelhos e buquês de flores. Esse contato inicial dá a impressão de que o espaço configura uma grande feira hortifrutigranjeira. Mais adiante, entretanto, começou-se a perceber a presença de uma categoria tradicional da feira: livros novos e usados. Nessa parte, os proprietários das livrarias instaladas nas quadras trazem para calçada suas mercadorias; em dias de chuva isso ocorre com menos intensidade, pois muitos livreiros preferem não sair de suas lojas para não prejudicar os itens.

A partir da esquina da rua Colonia, começam as barracas de artesanato, venda de roupas novas e usadas, DVD, CD, brinquedos e comidas variadas. Começa-se a observar as ruas laterais e logo se tem a certeza de que as barracas vão se tornando cada vez mais improvisadas quanto mais próximas estiverem dos espaços periféricos da feira. Nas posições centrais, os feirantes têm suas tendas e mesas para exibir suas diversas mercadorias, enquanto na periferia normalmente há bugigangas espalhadas na calçada aparentemente sem qualquer pretensão estética.

Logo pela manhã, começam a chegar os carros repletos de estruturas metálicas e de madeira. Em poucos minutos, esse material é descarregado, e a feira passa a ganhar vida.

Nesse dia atípico, nem todas bancas foram montadas, e o público era um tanto quanto reduzido. Mas era notável a quantidade de vendedores, que, diferentemente das outras feiras estudadas, estavam ali por necessidade. Visivelmente os feirantes estavam pensando se iriam embora devido à chuva, assim como as pessoas que visitavam o local. A feira de Tristan Narvaja não é uma feira feita para turistas; ela ocorre para garantir a sobrevivência dos feirantes. Moradores da cidade visitam a feira todos os domingos para fazer compras de produtos de uso cotidiano, como frutas, pasta de dentes, carnes e todos os tipos de necessidades básicas.

A feira acabou se tornando um ponto turístico por ser a maior feira de Montevidéu e por conter antiguidades de valor. Tirando proveito disso, várias bancas vendem lembranças da cidade, como camisetas e cuias. Nesse aspecto, ela se assemelha a outras feiras que ocorrem na capital uruguaia. Ao entardecer, o volume dos ruídos aumenta por causa da disputa pela venda. De repente, a rua esvazia.

FEIRA DO LARGO DA ORDEM (CURITIBA, BRASIL)

A Feirinha do Largo da Ordem teve seu início em 1970, aos sábados, na Praça Zacarias. Naquela época, denominada Feira Hippie, era uma feira popular que contava com a participação de artistas e estudantes de arte. Posteriormente, foi transferida para a Praça Tiradentes e, depois, para a Praça Rui Barbosa, onde permaneceu até 1996 quando, finalmente, foi transferida para o Largo da Ordem. Essa última mudança também alterou o perfil da feira, que passou a ser de arte, artesanato e antiguidades.

A feira, que atualmente ocorre aos domingos, trouxe para o Setor Histórico da Cidade, até então pouco frequentado, artistas, artesãos, antiquários, colecionadores e famílias, transformando-se, no decorrer dos anos, no maior ponto de encontro (e desencontro) da cidade. O comércio do entorno, sofreu alterações em função da Feira. O local concentra hoje a sede da Fundação Cultural, galerias de arte, lojas de artesanato, antiquários, restaurantes e bares com mesas na calçada, o Memorial de Curitiba, a Igreja da Ordem, o Museu de Arte Sacra, a Feira do Poeta, a Casa do Artesanato e livrarias.

Segundo pesquisa feita pelo curso de História, Memória e Cidade da UFPR (SILVA, 2013), a Feira do Largo da Ordem, que em 1972 contava com 57 expositores, conta agora com mais de 700 feirantes autorizados; e 70% vivem exclusivamente dessa atividade econômica. No início, a Feira de Arte e Artesanato tinha como atividades principais o escambo ou a venda de objetos de segunda mão. Com o passar dos anos, voltou-se exclusivamente para o artesanato de alta qualidade, contando inclusive com um órgão que fiscaliza a qualidade dos produtos vendidos para que a feira não perca seu objetivo.

A Feira do Largo da Ordem é um dos principais atrativos turísticos da capital paranaense. A cada domingo, aproximadamente 21,5 mil pessoas visitam o local. Curitiba conta com mais 25 feiras, mas a disputa para fazer parte da feira do largo é a maior. Segundo a Fundação de Ação Social (FAS), atual responsável pela administração da feira, existe uma fila com mais de 100 nomes de artesãos inscritos que aguardam uma vaga para participar dela.

A intenção da feira é a valorização do próprio artista ou produtor, capaz de produzir mercadorias exclusivas com a marca registrada curitibana. Além da implantação de um zoneamento, que fixa regras para a instalação das barracas por tipo de produto, também há uma vistoria rigorosa ao endereço de produção para que os itens à venda tenham mesmo características artesanais.

A Feira do Largo da Ordem não tem uma sequência lógica, ao contrário das outras feiras visitadas. Ela percorre as ruas do centro histórico, ocupando um trajeto irregular e, por vezes, interrompido. O cruzamento entre as ruas São Francisco e Barão da Serra Azul, local onde fica “a ponta da feira”, por onde se começou a caminhada, é marcado por um prédio alto, laranja, com uma fotografia enorme do Paulo Leminski (escritor tradicional de Curitiba).

Logo que se pisou no largo, foram encontradas as barraquinhas do tradicional caldo de cana. Também se viu, em seguida, um estacionamento de bicicletas, visto que, em dia de feira, não é fácil encontrar vagas públicas para estacionar carros. A primeira impressão que se teve da feira foi encantadora devido às ruas de paralelepípedos, ao cenário repleto de prédios históricos e às barraquinhas brancas padronizadas, cheias de artesanatos coloridos. Ao se olhar mais profundamente, notou-se que vários desses prédios estão abandonados e que a pichação toma conta de vários deles.

A padronização acaba onde produtos de algumas lojas são dispostos nas ruas e se nota a presença de vendedores ambulantes (Figura 3). Nesse ponto, o artesanato colorido também deixa de dominar as bancas que, a cada passo, diversificam mais as suas mercadorias, incluindo objetos industrializados, obras de arte, antiguidades, máquinas de costura, materiais de limpeza etc. Essa diversidade que, por vezes, parece uma bagunça, cria a identidade da feira e faz esse local pertencer a todos.


FIGURA 3
Feira do Largo da Ordem.
Fonte: Acervo pessoal da autora Rafaela Barros de Pinho (2016).

Chegando a uma parte mais ampla da feira, deparou-se com outro local repleto de antiguidades dispostas no chão. Ali, havia também bancas de comidas variadas, como acarajé, bolos e pastéis. Nesse mesmo ponto, localiza-se a Casa Romário Martins, patrimônio da cidade, que hoje é um museu, e a feira do poeta.

Percebe-se um cuidado da cidade de Curitiba com seu patrimônio através de casarões reformados, que contam sua história, de placas turísticas nas ruas e da ênfase à produção local. Esse cuidado também pode ser notado nas lojas de antiguidades e nos sebos, que se encontram próximos aos locais de realização das feiras.

Continuando a caminhar, nota-se mais uma mudança de “setor” na feira. Agora as obras de arte, que estão sobre cobertas no chão ou penduradas em estruturas de madeira e ferro, começam a tomar conta da rua. O colorido passa, então, a se concentrar nas tintas sobre a tela. Os vendedores sentam-se na grama, de maneira despojada e informal. É nesse setor que se encontra o Memorial de Curitiba. Nessa parte, localiza-se também a igreja e, à sua frente, o antigo bebedouro dos cavalos, que hoje são representados por estátuas. Em volta da igreja, encontram-se lojas de alto padrão, que ficam abertas aos domingos com a intenção de atrair os turistas que visitam a Feira do Largo da Ordem.

A partir desse espaço, o traçado da feira começa a ser interrompido por vias carroçáveis, mas, atravessando a rua, a feira segue. A arte vai acabando e começa a dar lugar novamente ao artesanato. Os caminhos tornam-se mais estreitos, contendo agora quatro fileiras de bancas. Com isso, torna-se difícil caminhar, o que se agrava também com a presença de árvores, o meio-fio, o chão irregular e a grande quantidade de pessoas que circula no local. A multidão deixa o espaço ainda mais apertado e, por isso, é fácil se perder. As horas passavam; na feira também é fácil perder-se no tempo. Perto do meio-dia, nem o calor de Curitiba espantou as pessoas que estavam passeando por lá. No meio do caminho, havia bancas de comida com ventiladores improvisados. Para proteger as pessoas do sol, havia árvores, um dos maiores charmes da capital paranaense, que se misturavam às bancas da feira.

Logo a feira começou a perder força. As bancas foram diminuindo e, no fim da rua, havia um cavalete indicando seu ponto final. Na rua ao lado, encontravam-se carros antigos e motos, bem como um local com arquibancada para apresentações artísticas ao lado de uma galeria de arte, barracas de pinhão e sorvete, surpresas de feira, combinando com o público eclético que tomava conta daquele espaço.

DISCUSSÃO

A partir das análises do material coletado, foram realizados dois agenciamentos que nasceram dos encontros com as feiras das pulgas e as teorias estudadas: hospitalidade + hostilidade e estrutura + ruptura. Esses encontros se agenciaram mais pela soma do que pela oposição, mais pela heterogeneidade do que pela homogeneidade.

HOSPITALIDADE + HOSTILIDADE

Um local hostil também pode ser acolhedor. As feiras das pulgas podem ser analisadas a partir dessa ótica; sendo aqui consideradas uma soma de pequenas enseadas; análise realizada a partir de desenhos de formas de acolhimento feitos por Fernando Fuão.

Enseada, no “Minidicionário Aurélio” (HOLANDA FERREIRA, 2002, p. 352), significa: “Curvatura de costa, reentrância que forma pequeno porto abrigado; recôncavo”. Enseadas puxam e repelem; são abrigos que acolhem e protegem em suas reentrâncias e repelem em suas extremidades.

Para Fuão (2014), o sentimento de recolhimento que a enseada proporciona vem de sua intensidade de fechamento - mais ou menos fechada, mais ou menos aberta -, e de quando e quanto existe a percepção de estar em sua interioridade, em segurança. Na concavidade da enseada, é possível observar tudo o que está ao lado, tudo participa da visão de um golpe só.

A hospitalidade-acolhimento se dá na passagem, na ponte, na união, na abertura, no realmente aberto, na igualdade, na aceitação e na integração das diferenças produzidas. As feiras das pulgas estão sempre à espera de surpresas, de alguém que as penetre; sua abertura permite a chegada de outros, de outras possibilidades. Mas, ao mesmo tempo em que a feira chama, convida e instiga a curiosidade, ela pode também causar aglomerações, que podem assustar, afastar e repelir.

Sobre a ocupação da feira no traçado da cidade, por mais que as ruas sejam retas - e que, através de Fuão (2014), na reta só seja possível perceber as coisas uma atrás da outra durante o trajeto -, percebe-se que é uma série de pequenas enseadas, o que permite compreender “de que alguma forma somos ela e nela estamos”.

Notou-se que as feiras que têm traçado reto podem ser mais hospitaleiras pelo fato de evitarem tantas angústias e surpresas. A reta é, ao mesmo tempo, uma forma acolhedora e controladora, por oferecer controle visual. Como afirma Fuão (2014), a dobra é revelação e encobrimento; pode nos causar desconforto com a espera, com o fato de não saber o que está por vir. Por causa disso, põem-se as extremidades das enseadas nas esquinas, onde não existem bancas da feira, onde os carros voltam a tomar conta das ruas e onde não se sabe o que se vai encontrar de repente. Essas esquinas se diferem dos centros de quadra, onde os corpos-feira, como a parte côncava da enseada, abraçam e acolhem as pessoas, fazendo elas sentirem-se parte do lugar.

Nas visitas aos lugares sem as feiras, as dobras causaram medo e preocupação. Naqueles locais semidesertos, a angústia tomou conta; ao contrário do que aconteceu nas ruas retas, onde era possível enxergar logo à frente. Já durante as visitas às feiras, a angústia tornou-se desejo de ver mais, de ir além, de fazer descobertas e encontrar surpresas pelo caminho. Esse sentimento de prazer favorece o sentimento de acolhimento.

Todo ato de hospitalidade pressupõe um encontro. O encontro com a feira permitiu a esta pesquisadora se sentir ora acolhida, ora espantada. Isso configura o encontro do hóspede com o hospedeiro, o ser da espera e o ser errante, espera e errância, um em direção ao outro. Para Derrida, o movimento de acolhimento é sempre um ato ético.

Não é possível pensar em hospitalidade levando em conta somente o território. É necessário haver hóspede e hospedeiro. É como se o local em questão não pertencesse nem ao que hospeda, nem ao convidado; mas ao gesto através do qual se realiza o acolhimento; sobretudo ao errante. Hospitalidade é dar lugar à diferença. Na feira das pulgas, a hospitalidade veio da parte dos feirantes e vendedores locais, que acolheram turistas e nativos. A cidade sem feira, por vezes vazia, gerou medo e agonia, pelo fato de possibilitar saber o que pode surgir de repente e porque, nesse caso, não se tem sensação de estar protegido pelo outro.

A hospitalidade, vista por Derrida (2003) como condição fundamental à ética contemporânea, aponta a alteração de valor da moral, e não a sua ausência, passando da ideia de bem para a de bem-estar. Diversos estilos de vida são tolerados, regras e normas são aceitas desde que se volte para o melhor de si, sendo importantes ou necessárias para a experiência.

A hospitalidade nunca é um terreno vazio. É a relação entre as pessoas e os “ambi(entes)”. É o lugar que edifica o lugar (FUÃO, 2014). A feira edifica a cidade e é uma soma de corpos, de intensidades, de cheiros, de pessoas e de equipamentos.

Uma vez acolhido pela feira das pulgas, penetra-se no seu interior. Os hospedeiros tentam determinar a disposição dos hóspedes na feira. A troca ocorre, a soma das diferenças cria a identidade do local. E é então que a feira acontece.

ESTRUTURA + RUPTURA

Giovanni La Varra criou um conceito chamado Post-it citys, um dispositivo de funcionamento da cidade contemporânea que consiste em dinâmicas da vida coletiva fora dos padrões convencionais, que podem ser consideradas ocupações temporais de espaços públicos para diversas atividades. As feiras das pulgas então podem ser pensadas como Post-its que são colados em cima do desenho urbano formal da cidade, podendo também ser estudadas com o termo Collage, usado por Fuão (2014).

Ao serem “coladas” nas ruas, as feiras das pulgas rompem não só com o cotidiano das pessoas, mas também com a estrutura física das cidades. Ao se instalarem no local, as feiras passam a dividir espaço com os carros, com as lojas locais, com as pessoas, com os estacionamentos etc. Através desse rompimento, nasce algo novo e floresce a potência do pensamento, que faz as pessoas pensarem mais sobre seu lugar, além de fazer a cidade pensar mais sobre ela mesma (FUÃO, 2014).

A feira invade as ruas de maneira temporal; toma conta, traz uma nova identidade; desterritorializa e reterritorializa (Figuras 4, 5 e 6).


FIGURA 4
Buenos Aires sem e com a Feira de San Telmo.
Fonte: Acervo pessoal dos autores (2015).


FIGURA 5
Montevideo sem e com a Feira de Tristan Narvaja.
Fonte: Acervo pessoal dos autores (2016).


FIGURA 6
Curitiba sem e com a Feira do Largo da Ordem.
Fonte: Acervo pessoal dos autores (2016).

Deleuze (2005) já dizia que só resta experimentar a cidade pela diferença, não por oposição ao estruturalismo ou ao mecanicismo, mas coexistente neles. A diferença foge da regra, mas pertence à estrutura. Segundo o filósofo francês, essa diferença é rebelde e anárquica, e a razão clássica não pode rendê-la. Portanto, ela não trata de opostos, mas pertence à estrutura racional e homogênea. É preciso descobrir artifícios para lidar com ela e experimentá-la.

A partir de Nietzsche, Deleuze (2005) propõe que a diferença precisa fazer parte do que as pessoas pensam, sendo a própria natureza que rompe com o pré-estabelecido e com o que é de difícil representação. A diferença grita e insiste; resiste; coexiste. A coexistência nunca é pacífica, ela está sempre resistindo. As identidades não são fixas ou imutáveis. Existir é sempre estar em modificação, fazendo parte da própria coexistência e da coexistência outras pessoas.

Pode-se definir cada pessoa ou lugar a partir da sua capacidade de coexistir, de sua capacidade de aumentar as experiências, de abrir-se ao mundo, ser tocado pela diferença e pela potência produzida. Essa potência pode ou não criar o novo.

Esse corpo resiste, aceita, reage sobre o outro que atua. É provocado pelos sons, cheiros e cenas da cidade. Por vezes anestesiado, não percebe as obviedades e as singularidades da rua: mal vê, não sente, tampouco reage. Responde apenas aos estímulos da rotina. Sobrevive. Cotidiano remete à rotina, que remete a atividades banais que se vivem diariamente. Cotidiano é a mescla plural dos acontecimentos/atividades/forças presentes na vivência diária. A feira das pulgas é uma mistura de cotidianos - e entenda-se que aqui cotidiano é diferente de monotonia.

As feiras pulsam rompendo a estrutura formal da cidade, deixando-a em segundo plano. Os prédios que atraem pessoas em dias normais, nos dias de feira são mascarados pela mistura de pessoas e cores. As feiras reinventam o espaço, apropriam-se dos sentidos dos lugares e os multiplicam; não excluindo o estruturado, mas somando-se a ele.

Trata-se de uma memória urbana ativa, conformada pela coexistência de mundos, por atravessamentos e heterogêneos. Atemporal, as feiras se constituem de momentos que, em determinada duração, entrelaçam-se em uma multiplicidade já existente nas cidades, criando uma nova identidade. Essa identidade sofre o processo de ritornelo: começa no território, que se desterritorializa com a presença da feira, e se reterritorializa após sua ida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todas essas potências experimentadas nas feiras de San Telmo (Buenos Aires), Tristan Narvaja (Montevideo) e Feira do Largo da Ordem (Curitiba), por terem sido experimentadas em paisagens variadas, revelam possibilidades, aspectos e entendimentos plurais, podendo ser ampliadas para outras feiras das pulgas, outros tipos de feiras e outras atividades de ocupação de rua que ocorram no espaço público.

A metodologia da cartografia foi utilizada nesse trabalho com o objetivo de mapear - corporificar -, a experiência que ficou inscrita no corpo, e que foi se formando através das caminhadas e dispositivos utilizados nas ruas da cidade, na percepção dos pequenos detalhes - pequenos, porém intensos -, que vão se transformando com a mesma rapidez da vida contemporânea; e para contribuir com uma leitura mais sensível sobre essas atividades que ocorrem no espaço público e urbano na contemporaneidade.

O trabalho também teve como intuito representar uma dinâmica das feiras das pulgas, reconhecendo a importância da compreensão desses eventos de rua para o arquiteto e urbanista, esperando assim que, ao proporem a realização ou requalificação de espaços urbanos, tenham consideração pela multiplicidade e heterogeneidade que constam nesses locais. São esses acontecimentos urbanos que recriam a cidade, reativam lugares e se propõem a dar novos sentidos à estrutura urbana e à sua arquitetura, visto que a paisagem da cidade permanece mesmo nos detalhes de todas as coisas que as constituem.

É importante que o profissional reconheça os lugares para que tenha condições de interferir neles; é preciso reconhecer de forma mais profunda, observando e conversando com as pessoas, compreendendo que existem as diferenças, as contradições e complexidades, sem homogeneizar a vida, para assim oferecer melhores condições para aqueles que o habitam; descobrindo as micro resistências e potências que resistem e interferem no local, para que cada vez mais se busque desacomodar e aproveitar a imensidão de cenários que a cidade oferece.

Com eventos como as feiras das pulgas, ainda não capturados pelos poderes hegemônicos, que resistem, a cidade se torna mais humana, mais colorida e sensível. Mapear essas intensidades a partir de uma cartografia, diferente do mapa cartesiano, formal, é explorar as transformações, a essência, configurando uma experiência em constante movimento.

AGRADECIMENTOS

À colaboração e apoio de Lorena Maia e Luana Detoni.

REFERÊNCIAS

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DERRIDA, J. Da hospitalidade. São Paulo: Escuta, 2003

EÇA DE QUEIRÓS, J. M. Textos do Distrito de Évora. Lisboa. Círculo de Leitores, 1980. p. 202. v. 1 e 2.

FUÃO, F. F. As formas do acolhimento na arquitetura. In: SOLIS, D. E.; FUÃO, F. F. (org.). Derrida e a arquitetura. Rio de Janeiro: EdURJ, 2014.

GRINOVER, L. A hospitalidade, a cidade e o turismo. São Paulo: Aleph, 2007.

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JACQUES, P. B. Notas sobre espaço público e imagens da cidade. Arquitextos, ano 10, n. 110.02, 2009. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.110/41. Acesso em: 23 abr. 2014.

LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

PASSOS, E.; KASTRUP, V.; TEDESCO, S. Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Editora Sulina, 2015.

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SILVA, L. G. História do artesanato em Curitiba: a feirinha do Largo da Ordem. Curitiba: [s.n.], 2013. Disponível em: https://docs.ufpr.br/~coorhis/keittyenadia/afeira.html. Acesso em: 4 abr. 2017.

VAINER, C. B. Pátria, empresa e mercadoria: notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano. In: ARANTES, O.; VAINER, C. B.; MARICATO, E. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 75-103.

NOTAS

Artigo elaborado a partir da dissertação de R. B. Pinho, intitulada “Feira das Pulgas: cartografia da cidade na contemporaneidade”. Universidade Federal de Pelotas, 2017. Apoio: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
2 Site oficial da Feira de San Telmo. Disponível em: http://www.feriadesantelmo.com/. Acesso em: 04 abr. 2017.
3 Informações sobre a Feira de Tristan Narvaja encontradas no site da cidade. Disponível em: http://www.montevideo.gub.uy/ciudad-y-cultura/ferias/feria-de-tristan-narvaja. Acesso em: 4 abr. 2017.

Autor notes

COLABORADORES R. B. PINHO e E. ROCHA colaboraram na concepção e desenho do estudo, análise de dados e redação final.

Correspondência para/Correspondence to: E. ROCHA | E-mail: amigodudu@yahoo.com.br



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