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O RETORNO NO IMAGINÁRIO DA CIDADE DE IBARRA (EQUADOR)1
THE RETURN IN THE IMAGINARY OF THE IBARRA CITY (ECUADOR)
O RETORNO NO IMAGINÁRIO DA CIDADE DE IBARRA (EQUADOR)1
Oculum Ensaios, vol. 16, núm. 3, pp. 467-480, 2019
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Urbanismo
Recepção: 07 Maio 2018
Revised document received: 30 Setembro 2018
Aprovação: 13 Outubro 2018
RESUMO: A cidade de Ibarra no Equador sofreu uma grande catástrofe em 1868, quando um terremoto a devastou por completo. O evento obrigou os habitantes que sobreviveram a fugirem e se estabelecerem aos pés do vulcão Imbabura. Foram necessários 4 anos para a reconstrução de parte da cidade, em especial os dos prédios públicos e vias principais, o que promoveu “O Retorno” dos habitantes a Ibarra. Através de algumas representações simbólicas - tanto na história escrita, como em vestígios arquitetônicos, em monumentos e nas festas populares -, o presente trabalho busca identificar como “O Retorno” dos moradores ainda é presente e reproduzido no imaginário da cidade Ibarra. Identifica-se O Retorno presente no imaginário, porém, ainda existem alguns diferencias entre os vestígios antigos, em comparação as representações mais atuais. As ruinas da antiga igreja, os materiais que foram utilizados na reconstrução dos prédios públicos ou algumas das casas que ficaram em pé após a catástrofe, foram deixadas para trás. Sendo mais valorizados os elementos simbólicos após o evento, como representações plásticas, quadros, monumentos e murais contemporâneos. Marcando assim, uma maior importância ao fato de voltar e reconstruir a cidade, do que uma nostalgia da cidade antiga.
PALAVRAS-CHAVE: Cidade, Ibarra, Imaginário, Retorno.
ABSTRACT: Ibarra, a city in Ecuador, suffered a big catastrophe, the 1868 earthquake, that destroyed the entire city. This event forced people who survived to leave the city and find refuge in the lower parts of the Imbabura volcano. Four years later, the city was rebuilt, especially the public buildings and the main streets, allowing the return of its inhabitants. Through some symbolic representations - such as written history, vestiges of architecture, monuments raised and popular festivities - this study endeavors to identify how “O Retorno” (The return) of the inhabitants to the city is still present and reproduced in the imagination of Ibarra. The Return is identified in the imaginary of the city, however there are some differences between the ancient vestiges when compared with the most current representations. The ruins of the old church, the materials used for the reconstruction of public buildings, or the few houses standing after the catastrophe have long been forgotten. The most important symbolic elements after the event, such as plastic representations, paintings, monuments and contemporary murals, are the most valuable. The far most important aspect was to return and rebuild the city than the nostalgia for the old city.
KEYWORDS: City, Ibarra, Imagination, The Return.
INTRODUÇÃO
Ao ingressar a cidade de Ibarra, no Equador, depara-se com um grande cartaz com o lema “Ibarra, ciudad a la que siempre se vuelve”. O lema se deve ao retorno dos habitantes à cidade após um trágico evento que marcou a história desse local: o terremoto de 1868, que deixou a cidade totalmente devastada. Naquele momento, Ibarra talvez recapitulava a cidade de Argia, descrita por Ítalo Calvino na obra “As cidades invisíveis”.
O que distingue Argia das outras cidades é que no lugar de ar existe, terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro.
De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: ‘Está lá embaixo’ e é preciso acreditar; os lugares são desertos. À noite, encostado o ouvido no solo, às vezes se ouve uma parta que bate (CALVINO, 1990, p.116).
O presente trabalho busca verificar na atual Ibarra - que já deixou para trás os escombros e a terra -, os elementos que vieram desse “lado de baixo”, os vestígios e lembranças dessa outra cidade. Busca ouvir os sons criados pelo deserto deixado por esse terremoto, procurando ouvir o que ainda bate as lembranças. Diferentes autores trabalharam nos relatos históricos do terremoto e da reconstrução da cidade. No entanto, poucos estudos foram feitos acerca da presença desse evento histórico tanto trágico pelo acontecimento, mas em especial o retornar no imaginário da cidade. De modo que cabe se perguntar: Quais são os elementos atuais e que representações relembram esse fato? Por que certos vestígios, monumentos e representações tornaram-se mais relevantes do que outros?
Para responder aos questionamentos, é necessário verificar alguns estudos acerca do imaginário da cidade, autores como Walter Benjamin, Sandra Pesavento e Cristiane Freire são trazidos para este estudo. Assim, parte-se ao presente objeto de estudo, Ibarra, verificando nos diferentes relatos históricos os dados sobre o terremoto e como foi a reconstrução da cidade. Dados que serviram de base para percorrer a cidade na procura dos elementos arquitetônicos e simbólicos que ainda perduram, assim como encontrar os monumentos pós-terremoto criados para relembrar este fato. Elaborando, assim, um registro fotográfico dessas representações. No final, descreve-se como surgiram as festas cívicas de El Retorno e como são as comemorações atuais.
O IMAGINÁRIO DA CIDADE
A cidade é palco de diferentes campos de estudo, no caso deste trabalho o enfoque é o imaginário. Entende-se o imaginário da cidade como “um sistema de ideias e imagens de representação coletiva, teria a capacidade de criar o real” (PESAVENTO, 2002, p.8). No caso de estudo de Ibarra, procura-se entender os elementos que fazem “O Retorno” um elemento crucial, ou seja, as imagens individuais e coletivas que fortalecem esse imaginário, durante mais de um século.
Um dos autores mais representativos acerca do imaginário é Walter Benjamin, que procura na literatura as imagens necessárias para reconstruir a cidade. No seu texto “Paris do Segundo Império”, encontra o flâneur na obra de Baudelaire, personagem que no seu percurso pela cidade é capaz de identificar as rápidas mudanças da época dentro das inovadoras galerias em Paris; nas inusitadas lâmpadas de gás; na multidão que era melhor apreciada de longe (BENJAMIN, 1989).
Para o presente trabalho, recorre-se a cidade de Ibarra a partir do passado, nos relatos históricos na procura dos personagens que revelaram os acontecimentos e imagens da época do desastre e da reconstrução. Os relatos históricos estão marcados pelas crenças, as personagens mais influentes, os valores e os registros que, para os autores, eram importantes manter e descrever. Para Pesavento (2002, p.8) “o discurso histórico é também uma espécie de ficção, quando levamos em conta a dimensão do imaginário, os critérios da escolha e seleção de montagem e desmontagem do enredo ou sua condição de ser uma representação do passado”. Procura-se identificar nesses relatos acerca do terremoto e reconstrução de Ibarra, as pistas para percorrer a cidade em procura das imagens, entre os vestígios arquitetônicos, nos elementos recriados e na representação das festas.
Dentro dos elementos recriados do acontecimento, se encontram os monumentos, para Freire, esses:
[...] longe de se referirem a traçados urbanos abstratos, carregam-na de sentido simbólico; testemunham sistemas mentais da época em que foram criados e solicitam, não raro, uma relação não apenas perceptiva mas também fabuladora, que mistura os tempos presente e passado, as histórias individuais e as coletivas [...]. Os monumentos estão, muitas vezes presentes e oferecem à percepção, ou estão ausentes e rementem às elaborações de memória, através dos seus vestígios (FREIRE, 1997, p.55).
E nessa mistura de tempos, que no trabalho de campo ao caminhar pela cidade de Ibarra, procurou-se registrar não apenas esses monumentos visíveis que simbolizam a volta para cidade, mas também, ir à procura dos vestígios dessa Ibarra de escombros, verificar o que permaneceu, assim como o esquecido. Fez-se assim, uma espécie de montagem entre o deixado, os vestígios, e os monumentos criados posteriormente, que configuram a memória do “Retorno” a cidade.
O TERREMOTO E A RECONSTRUÇÃO DA CIDADE DE IBARRA
A cidade foi fundada como “Villa San Miguel de Ibarra” pela Coroa Espanhola, em 1606. Está localizada nos vales do povo Carange, onde ficavam terrenos que pertenciam a Ana Atabalipa, neta do último Inca Atahualpa. A fundação da vila teve como intuito criar um local de pousada para os que viajavam de Pasto à cidade de Quito, assim como um local de moradia para os colonizadores espanhóis e crioulos.
Depois de mais de dois séculos de fundação, já na época Republicana, a cidade de Ibarra foi uma das cidades mais pujantes do país. Segundo relatos da visita de Wolf, em 1831, havia na cidade templos com diferentes estilos: gótico, barroco e renascentista. Esse fato evidenciaria a existência de gostos arquitetônicos de sabor europeu na cidade, isso sem mencionar o templo da Companhia de Jesus, um dos mais belos da América (VILLACÍS, 2006). Após a catástrofe, desses templos ficaram apenas os relatos e as fotografias; como pode-se ver na Figura 1, que retrata as ruinas da Companhia de Jesus.

O trágico acontecimento que devastou a cidade foi na madrugada de 16 de agosto de 1868, depois de um dia de festas em homenagem à Virgem do Trânsito, a população já tinha experimentado alguns sismos, mesmo assim continuou com o festejo. O terremoto foi de uma magnitude aproximada de 7,8 na escala Richter, a possível causa foi a atividade do Vulcão Cotacachi (ESPINOZA, 1992).
Nos inescrutáveis destinos da Província Divina tinha chego o instante de uma grande tribulação; o Anjo de dor estendeu suas asas, e Imababura, a apreciada esmeralda da coroa da Pátria, jacente entre escombros: à uma da madrugada desse dia de infausta lembrança, formidável comoção do solo derrubou quase todos os prédios de Ibarra (TOBAR, 1985 p.144, grifos nossos, tradução nossa)2.
Havia um total de 16 mil habitantes na cidade dos quais, no terremoto, 6.300 morreram de imediato. Nos dias posteriores, faleceram em média 700 pessoas por dia esperando ajuda médica da capital. A estimativa é de que morreram em torno de 12 mil (VILLACÍS, 2006). No total, estima-se que em torno de 20 mil pessoas morreram por causa do terremoto; moradores não só de Ibarra, mas também das localidades vizinhas de Otavalo, Atuntaqui, Cotacahi e Ambuqui foram afetadas. A ajuda médica da capital chegou alguns dias mais tarde, impossibilitando salvar as vidas das pessoas carentes de auxílios e soterradas nos escombros:
[...] um dia voltaram para ver que a atmosfera tomava uma cor sinistra e experimentaram angústia em seus corações e se retiraram profundamente dentro de si mesmos e em silêncio ficaram esperando o que ia acontecer. Mas como gostaria que ninguém presumisse de profeta, o motivo do fim de suas sobrenaturais sensações estava oculto para todos. E em uma noite ganharam seus leitos como de costume: quando rompeu a aurora, as cidades eram sepulcros, cadáveres de seus donos, como impelidos por bocas de fogo, saíram disparados e se colocaram sobre os tetos (VILLEGAS, 1988, p.186, tradução nossa)3.
Epidemias ocasionadas pelo amontoado de cadáveres soterrados iam, cada vez mais, deteriorando a situação. O representante do governo nomeado para administrar o estado caótico em que se encontrava aquela região, foi o ex-presidente Gabriel Garcia Moreno, designado como Chefe Civil e Militar da Província; personagem que aparece como icônico nos diferentes relatos, responsável por restabelecer a ordem nas áreas afetadas e pela reconstrução da cidade. No seu primeiro pronunciamento, Gabriel Garcia Moreno declara:
Confiando em Deus, sempre paternal e misericordioso, mesmo nos momentos em que com justiça nos castiga e ajuda a cumprir em vosso proveito os nobres desejos de nosso benefício o Governo Os malvados que tremam! Caso continuem cometendo crimes, serão exterminados (RIVADENENEIRA, 1945, p.38, tradução nossa)4.
Gabriel Garcia Moreno é a personagem marcante desse evento. É o benfeitor mão-de-ferro, que organiza a cidade desolada pela dor e pelos violentos acontecimentos. Dentro da história do Equador, o ex-presidente é conhecido como um dos mais influentes políticos conservadores e por sua ligação e devoção à Igreja Católica.
Entre os moradores que sobreviveram, alguns se trasladaram a outras cidades do país. Os que decidiram ficar se instalaram num terreno denominado como “Santa Maria da Esperança”, com a esperança de algum dia reconstruir a cidade após os problemas das epidemias e dos escombros serem resolvidos. Um dos moradores define a sua estadia no local:
Três anos e mais nossos pais passaram as manhas e as tardes contemplando daqui o destroçado vale de Ibarra, onde foi sua florescente cidade. Ocultavam a vezes as suas ruinas, cortinas imensas de pó, ou brancas e densas nuvens: era um mar de lembranças de poderes atrativos, de onde suas mães chamavam a gritos os seus queridos filhos (RIVADENEIRA, 1945, p.38, tradução nossa)5.
O processo de reconstrução da cidade começou no mesmo ano de 1868, com o enterro dos mortos e a retiradas dos escombros. No começo, o traçado das ruas da cidade teve como ícone uma palmeira que resistiu ao terremoto, localizada na atual Esquina del Coco. A construção de novos edifícios públicos e eclesiásticos demoraram mais de três anos. As obras de traçado e de reconstrução das ruas foram feitas com a colaboração dos proprietários. A partir do mês de abril de 1872 o Governador da época, Juan M. España, firma os decretos para que os escritórios da prefeitura, do poder judiciário e do exército militar, voltem para a cidade de Ibarra (TOBAR, 1985). Esse evento marca então o início do retorno dos habitantes para sua cidade reconstruída, o que foi comemorado através da festa de “El Retorno” que se celebra o 28 de abril de 1872, agora comemorada cada ano.
A PROCURA DE “EL RETORNO” NA CIDADE ATUAL
A cidade atual de Ibarra, é considerada uma cidade média dentro do contexto nacional, abriga a mais de 144.994 habitantes (INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICAS Y CENSOS, 2010), e um ponto de articulação da região norte do país. O perímetro urbano está localizado no vale Caranqui, a 2.200 metros acima do nível do mar, o relvo aumenta ao sul com vulcão Imbabura que tem uma altura de 4.630 metros acima do nível do mar, esse forma parte Cordilheira Andina.
Nos primeiros traços da reconstrução de Ibarra na Época Republicana do Equador, se mantiveram alguns elementos antigos, como o traçado de tabuleiro de xadrez, mais desta vez ampliando a largura das vias, na medida que a cidade foi crescendo dita morfologia se modifica como mostra a Figura 2. No mapa se encontram localizados os distintos pontos que foram visitados em busca das representações simbólicas entre os vestígios antigos e os mais atuais.

O percurso da cidade começa na esquina que serviu como parâmetro para o traçado da atual cidade de Ibarra, La Esquina del Coco. Como foi descrito anteriormente, é a palmeira que resistiu ao terremoto que acabou sendo escolhida para ser o marco zero do novo traçado, que previa amplas ruas para a cidade. A Figura 3 contém duas fotos do mesmo local. A foto antiga data de quatro décadas após a reconstrução da cidade, percebe-se a palmeira embutida no edifício pertencente ao então prédio do Colégio Teodoro Gomez.

Na atualidade, existe uma pequena praça revitalizada denominada como Praça da Esquina do Coco, projeto que foi desenvolvido em 2006. Este pequeno espaço público é bastante utilizado por pessoas de todas as idades, é ponto referencial da cidade, onde se encontra tanto a palmeira como o monumento do Dr. Gabriel García Moreno (Figura 4).

Este monumento de escala humana representa o principal personagem deste evento, o ex-presidente que com um compasso simula o traçado da cidade. No mapa se encontram representados o centro da cidade com as principais praças e avenidas mantendo o estilo tabuleiro de xadrez da cidade antiga, porém com ruas mais largas que marcam a malha atual da cidade.
Outro importante símbolo de resistência ao terremoto de 1868 é a Igreja da Companhia de Jesus, de estilo barroco, como se verifica na Figura 1; igreja que ficou bastante afetada. Foi possível recuperar apenas alguns elementos da fachada, como as colunas e o pórtico principal do templo. Parte da estrutura da igreja que resistiu ao terremoto foi destruída no ano de 1928 com dinamite (VILLACÍS, 2006).
A moldura talhada em pedra de estilo barroco, que fazia parte do pórtico da igreja dos jesuítas, encontra-se atualmente na capela do Colégio El Oviedo, como mostra a fotografia à direita da Figura 5, localizado em uma rua por onde todos os dias passam centenas de estudantes. As colunas e as pedras que também compunham o pórtico, se encontram na entrada da capela do Colégio Diocesano Bilíngue, fotografia esquerda da Figura 5. Antigamente, com essas colunas, também estava a porta de madeira pertencente à igreja original. No entanto, com o passar do tempo a porta ficou deteriorada e foi retirada - o seu paradeiro atualmente é desconhecido. Observa-se também na fachada que as pedras para a construção foram retiradas dos prédios caídos durante o terremoto.

Todos os dias passam por estas ruas centenas de pedestres, pois os dois colégios localizam-se no centro da cidade. Lamentavelmente, não existe nenhum tipo de sinalização ou placa indicativa que descreva, para o público em geral, a presença desses elementos que outrora fizeram parte da cidade antiga.
No processo de encontrar esses vestígios procurou-se também as ruínas da Companhia de Jesus, localizadas no interior do Colégio Bilíngue. Essa estrutura que algum dia foi uma significativa representação de um estilo barroco, agora está abandonada no fundo do pátio do colégio, atrás de uma construção recente, mas totalmente abandonada e deteriorada, também está adoçado ao Banco Pichincha (Figura 6).

Enquanto os alunos brincam no pátio do colégio, esta ruína encontra-se esquecida e descaracterizada nos fundos. Relembra-se, assim, as palavras de Ruskin:
A maior glória de um edifício não está em suas pedras, ou em seu ouro. Sua gloria está em sua Idade, e naquela profunda sensação de ressonância de vigilância severa, de misteriosa de compaixão, até mesmo de aprovação ou condenação, que sentimos em paredes que há tempos são banhadas pelas ondas passageiras da humanidade (RUSKIN, 2008, p.68).
A glória histórica que esta ruína possui não conseguiu ser admirada, ou pelo menos reconhecida, porque foi apagada pelas construções vizinhas, cercada por prédios que não a deixam aparecer com as lembranças que veicula. Talvez sejam justamente estas as ondas passageiras da humanidade que escondem os vestígios originais do que aconteceu e enaltece os monumentos recriados.
As casas que resistiram ao terremoto também compõem a seleção dos locais que são as lembranças materiais da cidade anterior. Essas casas localizam-se na rua El Alpargate. Algumas destas moradias ainda estão de pé e formam parte da morfologia urbana atual. Como se pode observar na Figura 7, a casa do fundo na curva com a varanda marrom é a moradia que menos sofreu com o terremoto.

Seguindo pela rua a virar a esquina também existem duas pequenas casas com suas simples características que também conseguem ser lembranças do terremoto. Pelo fato dessas casas terem resistido à terrível força da natureza, esse pequeno canto da cidade ainda possui o traçado urbano do século XIX, perceptível pela estreita rua que ainda se faz presente.
Dentre as representações plásticas sobre o terremoto está o quadro elaborado por um dos principais expoentes de pintura republicana do país: Rafael de Troya (1845-1920). O quadro sobre o terremoto data do ano de 1895 e faz parte da coleção do autor que se encontra no Centro Cultural El Cuartel de Ibarra, com exposição permanente Figura 8.

No dia da visita, se deparou com uma excursão de crianças, a fotografia mostra os estudantes aprendendo a História da cidade através da arte. Na mesma Figura 8 está a foto aproximada do dito quadro. A obra representa entre ruínas e escombros aos moradores socorrendo as pessoas soterradas, crianças levantadas dos escombros, expressões de dor pelos falecidos.
Existem também aqueles elementos plásticos mais recentes acerca do retorno à cidade, como se observa no mural localizado na fachada da Prefeitura de Ibarra, na frente da praça principal como mostra Figura 9. O mural foi elaborado por diferentes artistas. Podem ser reconhecidos pela assinatura: Suarez e Lumuico.

No mural são representados vários símbolos da cidade como o vulcão de Imbabura, algumas das principais edificações de Ibarra e a comunidade andando com os seus pertences, sem rostos que os identifiquem; enquanto se vê Gabriel Garcia Moreno representado no alto, como representante da reconstrução da cidade. Chama atenção também que as representações arquitetônicas no mural são da cidade nova, não foram representados os prédios antigos.
AS FESTAS DO RETORNO
Na cidade de Ibarra existem duas datas festivas por ano que podem ser consideradas as mais representativas. A primeira é a Fundação de Ibarra, comemorada no dia 28 de setembro. A segunda é a denominada Fiesta del Retorno comemorada no dia 28 de abril.
Entre os diferentes decretos que existem do Governador Juan M. España, existe um que marca a data de 22 de abril de 1872 como o restabelecimento da cidade, designando-a como data festiva a ser comemorada pelos servidores públicos do exército, do poder judicial e da fazenda. São previstas também no ato as cerimonias religiosas, como as missas e a iluminação das igrejas da cidade (TOBAR, 1985) para elaboração de comemoração. No dia 28 de abril de 1872 se celebrou a benção da cidade na Igreja de La Merced, com uma festa marcada por uma peregrinação em direção ao parque central da cidade.
Na atualidade, as festas são marcadas pelo desfile cívico que parte da Av. El Retorno - continuação da estrada que vem desde os pés do Vulcão Imbabura -, que passa pelo centro da cidade, até chegar à Prefeitura de Ibarra, mostrando assim, o percurso de volta à cidade dos antigos refugiados do terremoto de 1868. As principais características do desfile são a parada militar, as bandas de guerra e as bastoneras e os abanderados dos colégios e escolas, símbolos que representam a disciplina e a ordem presentes na educação. Além do desfile, outros eventos culturais, esportivos e religiosos tomam conta da cidade.
Esta comemoração que ocorre a mais de um século e é de responsabilidade da Prefeitura de Ibarra tem caráter institucional, o que a princípio foi levado como uma obrigação apenas para os servidores públicos e forças armadas, contudo, agora também é dos estudantes de ensino básico e médio. Os participantes do evento percorrem o caminho que os antigos morados recorreram para voltar à sua cidade. Na atualidade, foram implementados novos eventos culturais e também esportivos, mas as características religiosas também se mantiveram, em específico da Igreja Católica, com as missas realizadas nas principais igrejas do centro da cidade como a Igreja de La Merced e a Catedral.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verificou-se que “O Retorno” faz parte do imaginário da cidade de Ibarra através da sua história escrita, dos diversos vestígios, monumentos presentes na cidade. A celebração anual reservada ao evento histórico completa esse conjunto de imagens ainda muito presentes na memória, coletiva e individual, dos habitantes de Ibarra.
Através do campo elaborado, percebe-se que determinadas imagens são mais valorizadas do que outras. Os vestígios arquitetônicos e as ruínas que deixaram este terrível evento, têm pouca relevância. Como o caso das ruínas da Igreja Companhia de Jesus ou seus portais relocados nos colégios católicas da cidade, não contém nenhuma informação acerca do seu significado histórico permanecendo oculto. O contraste pode ser constatado com os monumentos elaborados pós-retorno em locais específicos, que oferecem placas informativas sobre o seu significado para a população da cidade, os murais enaltecendo o personagem marcante e caravana das pessoas.
A festa do retorno mantém algumas das celebrações culturais valorizadas na antiga cidade. É o caso das missas religiosas e do destaque da disciplina e do espírito coletivo presente no desfile cívico, onde crianças e jovens marcham em fileiras para tocar em bandas de guerra. Também se adaptando a atualidades fazendo shows culturais na cidade e eventos esportivos.
O estudo de campo foi uma grande oportunidade para aprofundar a análise acerca do imaginário da cidade, caminhar de novo pelas ruas de Ibarra, desta vez com o objetivo de buscar o que fico da cidade antiga encontrando taipa, pedras, e algumas das casas, torno evidente a necessidade de um projeto que além de reforçar este imaginário com esculturas ou murais atuais, também valoriza o que ficou da cidade antiga.
AGRADECIMENTOS
À Profa. Valeria Cristina Pereira da Silva pela lição, motivação e inspiração dentro das aulas da disciplina “O Imaginário da Cidade”, que repercutiram no presente trabalho.
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, W. Paris do segundo Império: a boêmia; Flâuner; a modernidade. São Paulo: Brasiliense, 1989.
CALVINO, I. As cidades invisíveis. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.116.
FREIRE, C. Além dos mapas: os monumentos no imaginário urbano contemporâneo. São Paulo: SESC, 1997. p.23-155.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICAS Y CENSOS. Censo Nacional del Ecuador. Quito: SNI, 2010. Disponible en: <http://sni.gob.ec/proyecciones-y-estudios-demograficos>. Acceso en: 20 sept. 2015.
ESPINOZA, J. Terremotos tsunamigenicos en el Ecuador. Acta Oceanográfica del Pacífico, v.7, n.1, p.21-28,1992. Disponible en: <https://www.inocar.mil.ec/web/phocadownloadpap/ actasoceanograficas/acta7/OCE701_3.pdf>. Acceso en: 20 sept. 2017.
PESAVENTO, S. Visões literárias do urbano: Paris, Rio de Janeiro: o imaginário da cidade. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2002. p.8.
RIVADENEIRA, C. Breves apuntes históricos sobre el terremoto de Ibarra del 16 de agosto de 1868. In: Gaceta Municipal. Ibarra: Archivo Histórico-Ibarra, 1945. p.33-46.
TOBAR, C. El Terremoto de Ibarra: restauración de la ciudad. In: Centro de Ediciones Culturales Imbabura. Monografía de Ibarra. Ibarra: Centro de Ediciones Culturales Imbabura, 1985. v.2, p.144-180.
RUSKIN, J. A lâmpada da memória. Cotia: Ateliê Editorial, 2008. p.68.
VILLACÍS, F. El terremoto de Ibarra 1868 y el Retorno de sus habitantes 1872. 6. ed. Ibarra: Grafin, 2006.
VILLEGAS, R. Terremoto de Ibarra: reconstrucción de la ciudad. In: Centro de Ediciones Culturales Imbabura. Historia de la Provincia de Imbabura. Ibarra: Centro de Ediciones Culturales Imbabura, 1988. p.185-220.
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