Resumo: Este estudo compara o perfil da publicação científica brasileira e o da chinesa na área de Ciência da Informação indexada na Web of Science. Os objetivos específicos são: (a) levantar o número de artigos publicado por cada país; (b) identificar as características dos periódicos nos quais os artigos são publicados; e (c) identificar a nacionalidade e a tipologia dos publishers que editam os periódicos. A busca na Web of Science resultou em 6.417 artigos de autores vinculados às instituições brasileiras e chinesas, respectivamente, 2005 e 4.412, sendo 29,5% da publicação brasileira em inglês, e a maioria da chinesa (99,9%). Do total de 221 títulos, a produção brasileira é publicada em 99, e a chinesa em 122, majoritariamente via subscrição diferente do modelo de acesso identificado nos artigos: 91% dos chineses via subscrição e 76% dos brasileiros em acesso aberto. A maior concentração dos títulos ocorre na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Holanda, com Fator de Impacto inferior a 1. Editoras comerciais publicam a maioria dos artigos chineses (92,3%), enquanto os artigos brasileiros concentram-se em editoras universitárias de acesso aberto (72,3%). Conclui-se que a produção científica em Ciência da Informação brasileira e chinesa na Web of Science apresenta estratégias diversificadas: a brasileira se destaca pela indexação dos periódicos nacionais, publicando artigos em português e em Acesso Aberto, enquanto a chinesa pela publicação em inglês, em periódicos indexados na base e majoritariamente editado por editoras comerciais. Na China, há uma produção mais internacionalizada que a brasileira, porém com maior dependência do sistema por parte da comunidade científica.
Palavras-chave: Acesso Aberto, Brasil e China, Ciência da Informação, Periódicos científicos, Produção científica.
Abstract: This study compares the profile of Brazilian and Chinese scientific publications in Information Science indexed in the Web of Science. The specific objectives are: (a) to survey the number of articles published by each country; (b) identify the characteristics of the journals in which the articles are published; and (c) identify the nationality and type of publishers that edit these journals. The Web of Science search yielded 6,417 articles, with 2,005 articles authored by Brazilian institutions and 4,412 articles authored by Chinese institutions. Of these articles, 29.5% of the Brazilian publications and the majority (99.9%) of the Chinese publications were in English. Brazilian production is published in 99 of the 221 journals, while Chinese is published in 122. Different access models were identified for the articles. Specifically, 91% of Chinese publications were accessible via subscription and 76% of the Brazilians via open access. The highest concentration of journals is in England, the United States, and the Netherlands, with an Impact Factor of less than one. Commercial publishers publish most Chinese articles (92.3%) while Brazilian articles are predominantly available through university publishers with open access repositories (72.3%). It is concluded that the scientific production in the field of Information Science from Brazil and China, as indexed in the Web of Science, exhibits diversified strategies. Brazil stands out for the indexing of national journals and publishing articles in Portuguese that are available through Open Access repositories. On the other hand, China is notable for its publication of articles in English, in journals that are already indexed in the Web of Science, and predominantly edited by commercial publishers. A more internationalized production than the Brazilian one, but with greater dependence on the system by the scientific community.
Keywords: Open Access, Brazil and China, Information Science, Scientific journals, Scientific production.
ORIGINAL
A publicação científica brasileira e chinesa indexada na Web of Science: análise da área de Ciência da Informação
The Brazilian and Chinese scientific publication indexed on the Web of Science: analysis of the Information Science area
Received: 30 November 2022
Accepted: 29 March 2023
Uma das principais atividades da comunidade científica é a troca de informações sobre as pesquisas e seus resultados, permitindo aos cientistas discutirem novas ideias entre si, pois “[...] toda ciência é uma atividade social determinada por condições históricas e socioeconômicas” ( Le Coadic, 2004, p. 17).
Na ciência, a comunicação formal é viabilizada principalmente na publicação dos artigos de periódicos, principal veículo para a disseminação do conhecimento científico ( Rodrigues; Fachin, 2010). Para assegurar a qualidade dos diferentes tipos de pesquisas, os resultados obtidos por um cientista são discutidos e revisados por seus pares ( Gingras, 2020; Pinfield et al., 2020). Neste processo, o autor faz a submissão do artigo seguindo as diretrizes para os autores da revista. Em seguida, o editor do periódico envia o conteúdo aos pares – revisores que possuem conhecimento da temática e área pesquisada –, que avaliam o manuscrito e o devolvem para o editor do periódico com seus pareceres ( Lopes; Borges, 2021). Somente após essa avaliação e posterior aprovação, um artigo científico é publicado.
Pela publicação contínua das novidades resultantes de pesquisas científicas, os periódicos registram a memória da Ciência, se constituindo como “[...] a fonte documental principal que registra, organiza e expressa a produção científica, produção esta que é medida a partir do número e impacto dos artigos e outras comunicações publicadas em periódicos científicos” ( Packer; Meneghini, 2006, p. 237), motivo pelo qual as “[...] áreas que se organizam e se estruturam para criar, manter, disseminar e preservar suas informações” ( Rodrigues; Fachin, 2010, p. 34), o que torna essencial que o periódico esteja indexado em uma base de dados para que tenha visibilidade, bem como seja identificado, lido e citado ( López-Cózar, 2017).
Na Ciência da Informação (CI), como campo do conhecimento cujo estudo engloba as “[...] propriedades gerais da informação (natureza, gênese, efeitos), e a análise de seus processos de construção, comunicação e uso” ( Le Coadic, 2004, p. 25), cabem estudos sobre a publicação científica, dentre os quais se incluem as características de tal produção. Para Arboit, Bufrem e Gonzáles ( 2011, p. 77), é “[...] por meio da análise das publicações distribuídas em uma determinada região e em períodos distintos, é possível detectar as transformações ocorridas na ciência, uma vez que a comunicação científica reflete o status do desenvolvimento de uma área”, inclusive da produção do próprio campo de CI.
Na CI, uma ciência social, os padrões de investimento e produção tendem a ser diversos das ciências exatas e naturais. A produção científica brasileira na área é objeto de estudos variados, enfatizando desde o interesse de pesquisa em tópicos ou assuntos específicos ao crescimento e à indexação da publicação em bases nacionais e internacionais ( Filippo, 2015; Rodrigues; Stubert, 2015; Pinto; Matias; Moreiro-González, 2016; Silva; Oliveira, 2021). O estudo da produção científica indexada serve para fornecer um panorama da área e proporcionar indicativos da visibilidade e internacionalização da produção nacional.
O acesso aberto é um movimento que visa constituir um corpo cada vez maior de literatura sem barreiras de preços e de permissão de uso, fornecendo uma alternativa acessível e aproveitando os recursos das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) para a redução de custos e a ampliação da distribuição e do impacto dos autores ( Suber, 2019; Abadal, 2021).
A produção científica chinesa vem se destacando por sua performance em publicação nos periódicos indexados na WoS, a principal base indexadora internacional. Conforme observado pela Unesco ( United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2021) as publicações chinesas em todas as áreas do conhecimento passaram a representar 24,5% do total mundial em 2019, fazendo jus ao investimento feito pela China, entre 2014 e 2018, responsável por quase metade (44%) do crescimento nos gastos globais com pesquisas nesse período. Trata-se de um contexto diferente do cenário brasileiro, que tenta manter a produção científica apesar dos cortes orçamentários no investimento em ciência, que ocorrem desde 2016 ( Negri, 2021).
No caso da China, estudos anteriores apresentam a dificuldade de identificação de periódicos chineses em bases de dados internacionais, o que também ocorre com periódicos editados em outras regiões consideradas periféricas, como é o caso da América Latina ( Hasan; Singh, 2015). Entretanto, a política científica chinesa de investimento em pesquisa tem elevado o volume da sua produção em bases de dados internacionais, especialmente na WoS, conforme estudos recentes têm apontado, a ponto de a China ser o país com maior número de artigos ( United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2021; Zhao; Pan; Hua, 2021).
Na CI, a produção científica chinesa é historicamente tímida em relação a outras áreas do país, totalizando cerca de três centenas de artigos na WoS em três décadas, de 1979-2009 ( He; Wang, 2006; Wang, 2011), número que vem aumentando consideravelmente nos últimos anos, chegando a 541 artigos entre 2008-2017, especialmente pelo incentivo financeiro dado pelo governo chinês para a publicação em periódicos indexados na WoS ( Zhao; Pan; Hua, 2021).
A ascensão da publicação científica da China levanta questionamentos sobre o comportamento da produção indexada na WoS na área da Ciência da Informação, especialmente em relação à produção brasileira: qual é a semelhança ou a diferença entre o perfil da publicação brasileira em comparação com a chinesa, na área da Ciência da Informação? A WoS foi escolhida por ser referência internacional entre as bases de dados de periódicos científicos, considerada aquela que representa a produção da elite científica e por compor a estratégia de internacionalização e incentivo à publicação adotada pela China e pelo Brasil, que valoram a publicação nos periódicos indexados na WoS com maior peso do que em outras bases ( Packer; Meneghini, 2006; Zhao; Pan; Hua, 2021).
Este artigo tem por objetivo comparar a publicação científica brasileira e chinesa na área da Ciência da Informação publicada na WoS entre 2016 e 2021, com os seguintes objetivos específicos: (a) levantar o número de artigos publicados por cada país; (b) identificar as características dos periódicos nos quais os artigos são publicados; e (c) identificar a nacionalidade e a tipologia dos publishers que editam os periódicos.
Para responder ao objetivo, foi feito um levantamento dos artigos de autores vinculados a instituições brasileiras e chinesas nos últimos seis anos (2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e 2021) na Web of Science.
No procedimento técnico de coleta de dados, foi utilizada a pesquisa documental nos sites da Web of Science, referente aos periódicos e às editoras. Para a análise dos dados, foram usados métodos mistos, quantitativo e qualitativo, visto que os dois se complementam. Nessa abordagem, segundo Creswell ( 2014), tal associação fornece melhores possibilidades analíticas.
A coleta foi realizada utilizando a estratégia de busca para os dois países: (CU= ( nome do país) AND (SU= Information Science)). Restringiu-se o resultado pelo tipo de documento utilizando a opção “ article” e, quanto aos idiomas, optou-se por “ all languages”. O período estipulado foi de 2016 a 2021. A escolha desse período em particular surgiu em razão do relatório “ Unesco Science Report: towards 2030” publicado pela Unesco ( United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2015), o qual aponta o crescimento das publicações científicas da China que quase duplicaram entre 2010 e 2015, passando a representar 20% da produção científica global. Esta busca foi realizada em maio de 2022 e recuperou 4412 artigos válidos para a China e 2005 para o Brasil. Selecionando somente o idioma inglês, foi realizada outra pesquisa, com a mesma estratégia de busca, para analisar o volume de publicações em inglês. Nessa segunda etapa, foram recuperados 4406 artigos válidos para a China e 591 para o Brasil.
Para a tabulação dos dados, foi utilizada a planilha do Microsoft Excel. Cabe ressaltar que, para estudo das editoras, juntaram-se as filiais com a matriz das grandes corporações editoriais transnacionais.
Os artigos identificados somam 6.417 documentos publicados entre 2016 a 2021 na área da Ciência da Informação indexados na WoS, sendo 2.005 artigos de autores vinculados a instituições brasileiras e 4.412 artigos vinculados a instituições chinesas. Comparativamente, a produção chinesa é superior à brasileira, equivalente a pouco mais do que o dobro do volume de artigos, indicativa da liderança em produção científica da China relatada no Science & Engineering Indicators 2018, que registra sua performance a nível mundial, ultrapassando os EUA ( National Science Board, 2018). Ao longo do período analisado, a produção de ambos os países aumenta anualmente, exceto a produção científica brasileira em 2021 – inferior a 2020 (353 e 448 artigos respectivamente) –, conforme já observado em outros estudos ( Feitosa et al., 2020; United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2021).
Quanto ao idioma, há, comparativamente, comportamentos distintos: uma fração da produção científica em ciência da informação brasileira é publicada em inglês (29,5% (591)), enquanto a chinesa é majoritariamente (99,9% (4.406)) publicada em inglês. Nos anos de 2016, 2017 e 2021, todo o volume de publicações chinesas na WoS foi publicado em língua inglesa (Figura 1). Mesmo nos outros anos, é possível identificar uma constância na publicação em inglês, com uma diferença de apenas 2 artigos no total da produção anual publicada em outros idiomas. Estudos apontam a importância de as pesquisas científicas serem publicadas em inglês, língua franca da ciência, a fim de ampliar a visibilidade da produção científica no cenário global ( Guédon, 2011; Manual de Santiago, 2007; Santos, 2015; Di Bitetti; Ferreras, 2017). Assim, é coerente a estratégia de investimento em Ciência adotada pela China ( United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2021).
No caso da produção científica brasileira em língua inglesa, observa-se um percentual maior em 2016 (54,4% dos artigos anuais) que foi decrescendo a 36% em 2021 (Figura 1). Esse resultado pode ser justificado pelo aumento da presença de periódicos brasileiros na base e pelo padrão de publicação da produção científica brasileira majoritariamente em português ( Neubert, 2020). As discussões sobre o uso da língua inglesa são correntes na ciência ( Meneghini; Packer, 2007; Rosa; Alves, 2011; Alcadipani, 2017; Sauvé; Mongeon; Larivière, 2022), pois tendem a priorizar questões globais em detrimento de temas e visibilidade locais. Os dois países apresentam modelos distintos, como se pode observar na Figura 1.

A análise do tipo de acesso dos periódicos (Tabela 1) identificou que os autores com vínculo institucional brasileiro publicaram em 99 títulos diferentes, sendo 64 (65%) via subscrição, 30 (30%) em acesso aberto diamante e 5 (5%) em acesso aberto com cobrança de taxas para os autores. Os autores com vínculo com instituições chinesas publicaram em 122 títulos diferentes, sendo 96 (79%) por subscrição, seguido de 17 (14%) títulos, cujo acesso é aberto diamante ou sem APC e 9 (7%) de acesso aberto com cobrança de taxas para os autores.
Conforme Xiaolin Zhang – presidente do Comitê de Planejamento Estratégico da Biblioteca Nacional de Ciência e Tecnologia no Ministério da Ciência e Tecnologia em Pequim –, desde 2014 o governo chinês tem promovido o acesso aberto em seu país, incentivando e financiando a publicação de pesquisas científicas via A.A ( Schiermeier, 2018). Todavia, 70% da produção científica chinesa publicada em periódicos internacionais, financiados pelo Natural Science Foundation of China (NSFC), está bloqueada por paywall, sendo certo que a China deve comprá-los de volta com subscrições caras ( Schiermeier, 2018). Os resultados obtidos confirmam a afirmação: os dados apontam que 96 (79%) dos títulos nos quais a China publica sua produção, equivalente a 91,4% (4033) dos artigos, são destinados a periódicos protegidos por subscrição.

A descrição das características dos periódicos mostrou os títulos com maior número de artigos, o que revela uma concentração importante em poucos títulos. O número de artigos é um indicador importante para retratar o desempenho dos periódicos científicos em determinada área do conhecimento ( Rodrigues; Stubert, 2015; Koshikawa, 2020).
Da produção científica chinesa, 3,3% (144) dos artigos está em acesso aberto; da brasileira, o acesso aberto representa 76,1% (1.526) dos artigos. Os títulos com maior número de artigos de autores brasileiros são 917 (45,7%) dos 2005, sendo 279 (13,9%) Em Questão, 225 (11,2%) Informação & Sociedade, 221 (11%) Perspectivas em Ciência da Informação e 192 (9,6%) Encontros Bibli, todos editados por universidades públicas federais. Esse resultado corrobora Babini e Rovelli ( 2020), segundo os quais as universidades são as principais protagonistas do acesso aberto sem cobrança de taxas das publicações científicas, sendo essa uma tendência da América Latina, que é a região que mais promove a ciência aberta no mundo. Björk e Korkeamäki ( 2020) destacam que o acesso aberto prevalece em países onde o inglês não é o idioma principal de publicação científica.
A concentração no volume de artigos chineses destaca o número de publicações na Scientometrics, com 464 unidades (10,5%), na Information Processing & Management, com 339 (7,7%), na International Journal of Geographical Information Science, com 283 (6,4%) e na Information & Management, com 198 (4,5%), todos publicados por editores comerciais, que juntos publicam 1.266 (29,1%) dos 4.412 artigos. Segundo os dados da Tabela 1, 91,4% (4.033) dos artigos chineses concentram-se em periódicos cujo acesso se dá via subscrição. Essa assimetria no volume de publicações entre Brasil e China é observada pela Unesco ( United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2021), que aponta a China responsável, em 2019, por 24,5% do total mundial das publicações de todas as áreas do conhecimento, enquanto o Brasil representou 2,8% do total global no mesmo período. No entanto, os resultados da pesquisa indicam, conforme Tabela 2, que os artigos do Brasil foram publicados majoritariamente em periódicos brasileiros, não sendo identificados periódicos chineses na base.

Quanto à nacionalidade dos periódicos, a maior concentração dos títulos ocorre na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Holanda (Tabela 3), coerente com o padrão observado na cobertura geográfica dos periódicos indexados na WoS em estudos anteriores ( Mongeon; Paul-Hus, 2016; Rodrigues; Salm; Neubert, 2017). Esse resultado é também observado por Rodrigues e Stubert ( 2015), ao analisarem os periódicos da área de Ciência da Informação na WoS, praticamente todos vinculados às grandes editoras comerciais, embora se observe, em Emerging Source Citation Index, a ampliação da cobertura geográfica dos periódicos da área ( Repiso, 2019). Zhangz e Siverstsen ( 2020) destacam que a maioria dos artigos científicos são publicados em periódicos cujas editoras são da Holanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos.

Comparativamente, é possível perceber distintos comportamentos e estratégia de indexação na WoS: na brasileira, nota-se o aumento da produção pela indexação de seus periódicos na base ( Neubert, 2020); e na chinesa, nota-se o aumento da produção pela publicação em periódicos já indexados em WoS, justificada inclusive pela dificuldade em indexar periódicos editados em países tradicionalmente fora da mainstream science ( Guédon, 2011). Tal comportamento implica a avaliação da produção científica pela associação do FI às publicações. Na Tabela 3, observa-se que 54,5% dos periódicos com publicações brasileiras e 47,5% dos chineses têm fator de impacto menor que 1, ocorrência comum na área das Ciências Sociais Aplicadas e na CI ( Repiso, 2019). Também se observa que os maiores FI são de periódicos editados na Inglaterra, nos EUA e na Holanda, tradicionais sedes de editores comerciais que têm sua produção indexada em WoS, conforme observado em uma série de estudos anteriores ( Pinto; Matias; Moreiro-González, 2016; Repiso, 2019; Rodrigues; Neubert; Araújo, 2020). Comparativamente, a produção chinesa é publicada em periódicos com FI mais elevados do que a brasileira, conforme os dados da Tabela 3.
A identificação das editoras que publicam os periódicos nos quais os artigos brasileiros e chineses na área de CI indexados na WoS são publicados permitiu constatar um padrão já identificado em outros estudos ( Rodrigues; Stubert, 2015; Rodrigues; Salm; Neubert, 2017; Björk; Korkeamäki, 2020; Rodrigues; Neubert; Araújo, 2020), com a maioria dos títulos ligados às grandes editoras comerciais, responsáveis por 65 (65,7%) e 94 (77%) títulos com artigos de autores brasileiros e chineses, respectivamente.
As editoras comerciais são também as entidades editoriais que mais publicam artigos de autores chineses (4072), sendo 92,3% do total de publicações. Por outro lado, com 1450 (72,3%) artigos, as publicações de autores brasileiros da CI seguem o padrão identificado por Rodrigues, Neubert e Araújo ( 2020): concentram-se majoritariamente em editoras universitárias. Cabe destacar que as editoras comerciais publicam quase 10 vezes mais artigos de autores chineses do que de brasileiros, sendo certo que o total de publicações é pouco mais do que o dobro.
Observa-se também na Tabela 4 uma situação comum na produção indexada em bases de dados internacionais: a liderança da Elsevier ( Larivière; Haustein; Mongeon, 2015; Stoy; Morais; Borrell-Damián, 2019; Rodrigues; Neubert; Araújo, 2020). Essa empresa é responsável por 1132 artigos das publicações de autores chineses, o que equivale a 25,7% do total da amostra. A Elsevier publica 97 (4,8%) dos artigos de autores brasileiros, ficando atrás da Springer, que concentra 113 (5,6%) publicações de autores com vínculo brasileiro, abrigando um percentual menor de periódicos (6,1%) em relação à Elsevier (11,1%).

Toda a produção de artigos de autores da China indexados na WoS é publicada por editoras de outros países. Esse resultado remete à observação feita por Zhangz e Siverstsen ( 2020), que apontam que, apesar de a China ser atualmente o país líder em produção científica em todas as áreas do conhecimento na WoS, tem poucos títulos indexados na Web of Science. De acordo com a lista de 2021 do Journal Citation Reports ( JCR), as editoras brasileiras publicam 410 (1,9%) títulos, o que representa 1,9% do total de 21.428 periódicos presentes na WoS. Nesse mesmo ano, 403 (1,9%) periódicos eram provenientes de editoras da China ( Clarivate Analytics, 2022).
O levantamento dos dados referente à publicação científica de autores com vínculo institucional brasileiro e chinês na área da Ciência da Informação mostrou o modelo de publicação fomentado no Brasil com percentual importante de títulos brasileiros e em português, sendo evidente ainda que a China tem prioridade de publicação no idioma inglês e em títulos estrangeiros.
Nos dois modelos a política pública de internacionalização científica do país se materializa no reconhecimento do trabalho dos cientistas que publicam em inglês em periódicos com alto Fator de Impacto (a maioria de propriedade dos oligopólios comerciais), o que se reflete nas escolhas dos pesquisadores. Trata-se de duas alternativas de internacionalização que podem geram consequências importantes para a segurança do acesso às suas próprias publicações. Os pesquisadores chineses publicam o dobro de artigos do que os brasileiros e praticamente todos no idioma inglês e em títulos por subscrição publicados pelas grandes editoras comerciais transnacionais que compõem o oligopólio dominando a publicação da ciência em praticamente todas as áreas e em todos os países. O modelo brasileiro se materializa em duas ações concomitantes: a publicação de artigos em títulos dos grandes oligopólios e no investimento em periódicos próprios de qualidade (indexados na WoS), muitos com publicações também em inglês, com o suporte essencial do SciELO, que atua também como um indexador.
Além das alternativas de subscrição e do acesso aberto dourado e diamante, deve-se considerar que, para trabalhos futuros, a emergência dos acordos transformadores e suas consequências ainda não são suficientemente identificadas e mensuradas, em acordos que devem ter causas de sigilo como os Big Deals, dos quais derivam.
Considerando as publicações de autores brasileiros e chineses da Ciência da Informação, a análise das editoras por país não identificou periódicos ou editoras chinesas na área da Ciência da Informação. A distribuição dos artigos e periódicos mostrou que, em relação às publicações de autores brasileiros, mesmo as editoras comerciais sendo responsáveis pelo maior número de títulos (65,7%), a maioria (72,3%) dos artigos de autores brasileiros são publicados por editoras universitárias e brasileiras. No caso da China, os artigos (92,3%) e títulos (77,0%) concentram-se em editoras comerciais.
Conclui-se que o domínio em publicações de Acesso Aberto, característica comum do Brasil, contrasta com a realidade da China que, apesar de protagonista no quesito produção científica em Ciência da Informação, concentra as publicações de autores chineses nas mãos das editoras comerciais, reforçando, assim, a dependência do sistema dos oligopólios editoriais, comprometendo a própria segurança da ciência que produz.
Correspondência para/Correspondence to: L. L. S. SANTOS. Email: laura.santoos79@gmail.com




