ARTIGO
Alepo, Mari e o projeto dinástico alepino-mariyanum na Síria antiga
Aleppo, Mari and the aleppine-mariyanum dinastic project in the ancient Syria
Alepo, Mari e o projeto dinástico alepino-mariyanum na Síria antiga
Varia Historia, vol. 41, e25048, 2025
Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais
Received: 4 February 2023
Revised document received: 24 April 2023
Accepted: 26 April 2023
RESUMO: Esta pesquisa tem por objetivo apresentar aspectos das relações diplomáticas do antigo Oriente Próximo no período protobabilônico, focando sobre o Estado territorial de Yamḫad, no noroeste do Levante, e o projeto expansionista de Mari, localizado no Médio Eufrates. Ao pactuarem seus respectivos reinos, Yarīm-līm e Zimrī-līm demonstram aspiração em controlar o noroeste do Levante. As políticas de guerra e os interesses comerciais ficaram sob o plano de fundo do casamento dinástico entre Zimrī-līm e Shibtu, filha de Yarīm-līm, motivo pelo qual essa aliança se tornou o fundamento da união entre as duas linhagens dinásticas de mesma origem amorrita. Nossa hipótese é que, na perspectiva levantina, Yamḫad se tornou o centro da civilização semita na mesma época em que Zimrī-līm subiu ao trono em Mari com pretensões político-militares que visavam à expansão territorial e à participação nas redes comerciais controladas por Yamḫad, pelas quais alcançaria as conexões com o Mediterrâneo oriental. No entanto, Yarīm-līm, como maior autoridade regional, não permitia paridade nem política nem religiosa. Esta pesquisa pretende historizar por meio de interseções contextuais as alianças e os ambientes – talvez culturalmente conflitantes, mas também capazes de gerar afecções – por meio dos quais duas casas dinásticas poderiam ter integrado vários grupos étnicos de universos semiautônomos, mantendo bordas dinâmicas.
Palavras-chave: Reino amorrita de Yamhad, civilização Siro-Mesopotâmia, alianças no mundo antigo.
ABSTRACT: This research aims to present aspects of diplomatic relations in the ancient Near East during the Proto-Babylonian period, focusing on the territorial state of Yamḫad, located in the northwestern Levant, and the expansionist project of Mari, situated in the Middle Euphrates. By establishing an agreement between their respective kingdoms, Yarīm-līm and Zimrī-līm conveyed an ambition to control the northwestern Levant. War policies and commercial interests were set against the backdrop of the dynastic marriage between Zimrī-līm and Shibtu, daughter of Yarīm-līm, which is why this alliance became the foundation for the union of two dynastic lineages of the same Amorite origin. Our hypothesis is that, from a Levantine perspective, Yamḫad became the center of Semitic civilization at the same time that Zimrī-līm ascended the throne of Mari with political and military ambitions aimed at territorial expansion and participation in the trade networks controlled by Yamḫad, through which it would reach connections with the eastern Mediterranean. However, Yarīm-līm, as the highest regional authority, allowed neither political nor religious parity. This research seeks to historicize, through contextual intersections, the alliances and environments – perhaps culturally conflicting, yet also capable of fostering affections – through which two dynastic houses may have integrated various ethnic groups from semi-autonomous spheres while maintaining dynamic borders.
Keywords: Amorite Yamhad kingdom, Syro-Mesopotamian civilization, alliances in the Ancient World.
Esta pesquisa busca apresentar processos políticos da construção de uma dinastia no noroeste do Levante da perspectiva historiográfica, especificamente de Alepo [ḫa-la-abki; Ḫalab] – reino da terra de Yamhad [Yamḫad] –, no quadro das relações diplomáticas. Por vezes, numa classificação de oxímaro, o interesse pelas afortunadas culturas materiais de Mari [ma-riki] – cidade que tem sido muitas vezes desassociada da Síria antiga, sobretudo por sua localização no Médio Eufrates e por sua relação linguística leste-semítica – e Ugarit [ug-ga-ra-atki; KURú-ga-ri-it], juntamente com os processos de territorialização envolvendo o reino de Arpad/Bit-Agusi [mgu-u-si KUR ia-ḫa-a-nu; Bīt-Agūsi], tem vinculado perifericamente tantas culturas e entidades políticas originárias do norte levantino.1 Essas entidades são subalternizadas em escalas que sobrepõem aqueles grandes produtores de índices culturais.
Assim tem sido o caso de Alepo. Antiga estrutura tribal e pastoril amorrita [MAR.TU; KUR a-mur-ri; Amurrû], Alepo emergiu como capital na época em que foi governada pelo sharrum Yarim-lim [ia-ri-im-li-im; Yarīm-līm]2 (c. 1780-1765),3 designado nos Archives Royales de Mari (ARM)4 como rei de Alepo e da terra de Yamhad, filho e sucessor de Sumu-Epuh [Sūmû-Epuḫ] (?-1780), o “amado de Haddu”, [n]a-ra-[amdIŠKUR].
Inicialmente, parece-me importante salientar, com os agentes históricos, a noção de geografia. Alepo e seus entornos já foram assim descritos:
O platô oriental consiste das estepes que cercam Alepo (antiga Ḫalab), banhada pelo rio Kuweik, e as áreas ao sul até Jabal Abū Rujmayn e Jabal Bishrī (antigo Bashar […]). O Kuweik, que passa por Alepo, é alimentado por fontes do norte de Kurt Dağ e é um paralelo ocidental para o Eufrates. Na verdade, Alepo fica aproximadamente no meio do percurso entre o Eufrates e o Orontes5 (Suriano, 2014, p. 12).
As bordas do norte do Levante, porém, não estão em escalas simples: Hamat [URU.ḫa-ma-ti; Ḫamat, Ḥama], no vale do Orontes, com contatos desde as cidades-Estado fenícias e suas conexões mediterrâneas norte-sul; nos limites sírios desde Sam’al [sa-am-al-la; šam’al], Karkamish [gar-ga-miš-a-a; karkamiš] e o platô de Alepo até o Médio Eufrates, com grandezas socioétnicas que participavam de sistemas mesopotâmicos, como os grupos de amorritas em Jezirah (as antigas tribos KUR.lab-du-du, tu’mūna e KUR.ḫa-ṭa-lu), Mari e Babilônia [KUR.kár-dun-ia-áš; bāb-ilī], avançando por entre o rio sagrado Balih [balīḫ] e o rio Habur [hābūr].
No final do terceiro milênio, a urbanização levou ao desenvolvimento de várias cidades; Hamat, Qatna [qa-ta-nimki; qaṭna], Ebla [’īblā], Karkamish, Mari e Alepo estavam entre as mais importantes no norte e noroeste do Levante. No início do período protobabilônico (c. 1800-1595/1792-1592), essas cidades, exceto Mari, passaram a fazer parte do território de Yamhad. Com uma inovadora política, estruturada num conjunto de poderes em torno do templo de Haddu, Alepo transformou-se no centro religioso do deus Haddu [iladad be-el ḫa-la-abki, “deus Adad, senhor de Alepo”] e exerceu forte influência na Síria-Mesopotâmia. Logo que chegou ao poder em Mari, Zimri-lim [zi-im-ri-li-im; zimrī-līm] (c. 1774-1762), o último rei de Mari independente, construiu pontes diplomáticas nas fronteiras com o noroeste sírio e o Alto Eufrates, estabelecendo uma forte aliança com Alepo. Na verdade, a ascensão de Zimri-lim ocorreu em meio a uma grande oposição por sua ilegítima afiliação consanguínea à dinastia fundada pelo amorrita Yaggid-lim [yaggīd-līm] (c. 1820), apesar de ambos pertencerem à mesma linhagem Simalita [banū sim’al]. Nesse contexto, o apoio oferecido por Eshnunna [èš-nun-naki; ešnunna], reino independente localizado no vale da Diyala com pretensões na Alta Mesopotâmia e governado por Ibal-pi’El II [Ibāl-pī’El] (c. 1779-1766), revelou-se insuficiente para a estabilidade no entorno da cidade. Eis, portanto, os motivos das queixas do rei de Mari em cartas e do pedido de socorro a Yarim-lim.6
As revoltas tribais ao longo das duas margens do rio Eufrates forçavam pactuações entre cidades ameaçadas. Zimri-lim enviou embaixadores para Alepo com a pretensão de marcar uma reunião para firmar acordos de segurança territorial. Esse encontro resultou no casamento dinástico com Shibtu [šibtu], filha de Yarim-lim. Os termos da aliança forjaram o grande evento diplomático que viria a fortalecer os dois reinos sírios com a singularidade consanguínea capaz de construir uma linhagem dinástica.7 Definitivamente, com esse casamento, tem-se um testemunho de construção conjuntural em que se visava buscar condições de convivência entre políticos urbanos e pastoralistas, grandezas sociais sedentárias e nomádicas.
Por meio de uma carta em que Zimri-lim explanou os motivos pelos quais rechaçou um pacto pela paz com o reino de Eshnunna, os tratos de lealdade foram fortalecidos. Ele escreveu ao rei de Alepo, a quem se dirigia como a seu “senhor” [be-lum] e “pai” [abīya], comunicando que havia recusado conversar por três vezes com embaixadores de Eshnunna porque chegaram sem o consentimento de Yarim-lim (ver Durand, 1997, p. 441-442). O ato de distinção, considerando a inexistência de juramento de lealdade à época, visava estrategicamente o acesso a novos mercados comerciais: participar do controle das rotas do noroeste levantino e receber guarnições para conter no sul mesopotâmico o avanço da Babilônia de Hammu-rabi [ḫa-am-mu-ra-pí; hammu-rāpi] (1792-1750) em direção ao Alto Eufrates.
Reinando numa época em que os maiores Estados territoriais contavam com grandes reis – Hammu-rabi na Babilônia, Shamshi-Addu I [šamšī-Addu] (c. 1807-1775) na Assíria [KUR da-šur; ’aššur] e seu filho Yasmah-Addu (c. 1795-1776) em Mari,8 sucedido por Zimri-lim –, Yarim-lim era considerado o rei mais poderoso da região (Whiting, 1995, p. 1237). No final do Período Amorrita (c. 1974-1795), Alepo, Mari, Karkamish, Tell Leilân [šeḫnâ, renomeada šubat-enlil], Ekallatum [é-kál-la-tim], Babilônia e Assíria constituíam-se em reinos importantes para o controle de cidades dos vales (Figura 1). Coube a Yarim-lim transformar uma entidade política local ou reino tribal em reino referencial da “terra de Yamhad”. A concepção de poder templo-palácio9 fora conduzida pela lógica de expansão por influência política, mas as responsáveis pelo controle territorial e principalmente pela evolução administrativa foram as alianças militares; com elas, acelerou-se na região o processo de transição entre tribalismo (cacicado), reino tribal, cidade-Estado e Estado territorial.10 No Estado territorial, as formas estruturais de poder refletiam as culturas das terras conquistadas, especialmente os modos de vida urbana que necessitavam dos suportes de defesa interna para o controle das bordas [pāṭum].

A influência política da cidade de Alepo ultrapassou, portanto, o território de Yamhad no contexto da integração regional, tendo como suporte a veneração a Haddu, o deus da tempestade. Isso ocorreu com a influência dos Yaminita [banū yamina], na conflituosa política de Mari, e em meio a assassinatos de reis Yaminita, em cerca de 1772,11 conforme indicação cronológica dos ARM (ver Barreyra Fracaroli, 2011, p. 190-194; Sasson, 1984, p. 250, 1987, p. 579). Nesse novo contexto conectivo entre reinos sírios, Yarim-lim e Zimri-lim estabeleceram a aliança matrimonial que contribuiu com o aumento da liderança do alepiano nas rotas do Eufrates. Empreendido como uma estratégia de expansão para o noroeste, visando alcançar o Mediterrâneo, o casamento com Shibtu fez de Zimri-lim um rei protegido pelo rei alepiano. Isso fica evidente nos tratos de extradição de refugiados, importantes para conter os conflitos internos causados pelas grandezas socioétnicas de origem amorrita que ocupavam cidades sírias e mesopotâmicas desde o final do terceiro milênio.
Acima das expectativas pela conjuntura de incidentes envolvendo aquelas populações seminomádicas que estavam contando com o apoio da cidade-Estado de Emar no Alto Eufrates, o aparentemente vitimado Zimri-lim enviou caravanas de objetos preciosos para a cidade de Hazor [tell ḥāṣōr], no vale do Orontes. Dada a distância geográfica, talvez esse seja mais um lance político visando o Mediterrâneo, mas pode ser também, conforme inscrição no Tablete Hazor 10,12 uma ação diplomática por dotes recebidos de Hazor por ocasião de casamento dinástico com uma princesa mariyanum. À época, Hazor era “um centro de literatura e diplomacia”13 (Greenberg, 2019, p. 232). Com a crise envolvendo os prisioneiros, gerando conflito entre os governantes vassalos, o assassinato de pessoas e, portanto, prejudicando o comércio inter-regional entre o Médio Eufrates e Yamhad – notadamente com as importantes cidades de Qatna, Alepo, Emar e Karkamish –, os mercados mediterrâneos se tornaram as alternativas.
A CONSTRUÇÃO DINÁSTICA NA MAPOGRAFIA
O norte do Levante se transformou num mosaico de cidades independentes estruturalmente estatais. O padrão citadino – divisão do trabalho social ordenada pela elite governante, custos da propriedade particular, terceirização da defesa, consumo de bens concedido por compra e venda, tributação de bens, religião estatal –, num estágio inicial, atraiu grandes contingentes de aldeões e movimentou pequenas cidades dos entornos, nas quais se preservavam modos de vida do setor rural. A transformação da paisagem ambiental ocorreu pela concretização da ideia de distinção territorial por meio das construções de muralhas e torres limítrofes mesmo nas estepes. As primeiras cidades fortificadas foram identificadas na costa do Levante, em Yavneh-Yam, a trinta quilômetros de Ashqelon, e em Tel Burga, na região do Karmel. Nesses sítios, segundo a identificação de Raphael Greenberg (2019, p. 214-215), eram mantidas terras desabitadas para o cultivo de hortos e currais de animais.
Nessa época em que reis do noroeste faziam alianças a fim de aumentar o controle sobre governantes vassalos e anexar localidades do seu limite de influência, duas cidades-Estado desequilibravam a formação dos blocos geopolíticos: Qatna e Alepo. Correspondências dos ARM atestam o poder político das cidades sírias na formação de blocos:
A cidade de Mari estava localizada acima da Babilônia, no Eufrates, logo abaixo de onde o Ḫabur flui das colinas ao norte. Ao longo de várias décadas e duas administrações políticas separadas, o reino de Mari uniu as potências do leste da Mesopotâmia e os grandes centros sírios de Alepo e Qatna14 (Fleming, 2009, p. 228).
A adesão de reis e governantes vassalos da região a Alepo demonstrava reconhecimento ao poderio de uma cidade que passava a ter a mesma influência de um Estado territorial. A significância metafórica dessa adesão, qaran ṣubāt, “agarrar a barra de sua roupa”, testemunhava a busca pela proteção do grande rei Yarim-lim, responsável pela construção da estrutura monárquica de Yamhad (Lauinger, 2015, p. 4-5; Mieroop, 2020, p. 126-127). Ao mesmo tempo, outras potências estatais tentavam avançar para o noroeste levantino e participar das decisões nos âmbitos militar e econômico emergentes no norte. Burke (2023, p. 357) faz alusão ao fato de as disputas por terrenos produtivos na estepe envolvendo Yamhad, Mari e Assíria serem atestadas desde o final do século XX. Agora temos, no entanto, o caso de tentativas de apropriação por parte dos reis Ibal-pi’El II de Eshnunna e Hammu-rabi de Babilônia em diferentes territórios. Hammu-rabi enviou diplomatas para o reino de Yamhad com a finalidade de firmar alianças estratégicas no noroeste da Síria com Alepo e na Síria central, com Qatna (Charpin, 2019, p. 61).
Fontes acádias (Silva Castillo, 2007, p. 146-147) indicam que várias grandezas sociais nomádicas mantinham assentamentos no noroeste no início do segundo milênio; dois grupos amorritas, o yaminita e o simalita, formaram o assim chamado reino dos pastoralistas móveis de Hana [ḫana], ou Hananita das estepes [nawūm] (Porter, 2009, p. 203). Zimri-lim apresentou-se desde o início como filho de Yahdun-lim [ia-aḫ-du-ul-li-im; yaḫdun-līm] (c. 1810-1794) e designou-se como “o rei de Mari e māt ḫana” enquanto durou o seu reinado de cerca de treze anos e três meses.15 O sucesso da estratégia não isolou a cidade dos conflitos nas bordas provocados principalmente pela política expansionista de Eshnunna e Babilônia. Pelo contrário, despertou a admiração de reis, como o da cidade-Estado de Ugarit, que, numa carta não assinada enviada ao rei Hammu-rabi I (c. 1765-1760), sucessor de Yarim-lim em Alepo, pede aval para visitar o palácio de Mari: “Mostre-me o palácio de Zimri-lim! Desejo vê-lo”.16
Não obstante a evolução tecnológica de Mari, a grande potência regional continuava sendo Alepo, cuja expansão a fizera localizar-se “estrategicamente na rota comercial desde o vale do Eufrates até o mar Mediterrâneo”17 (Mieroop, 2020, p. 148). Nessa época em que muitos indivíduos das camadas dirigentes ostentavam o título de “feitores” de mercadores, que longe de suas cidades podiam atuar como “corporação” [AB:18tamkārū, kārū], esse amplo domínio para o vale do Eufrates teve início após vários conflitos na Síria central envolvendo cidades-Estado apoiadas pelos assírios, sendo que o controle de territórios da Alta Mesopotâmia ocorreu depois da morte de Shamshi-Addu I. A autoridade regional de Yarim-lim fez-se notar no relatório enviado por Zimri-lim para o seu comissário em Alepo, ao qual me referi anteriormente:
Diga ao meu senhor: assim [diz] seu servo Yatar-Kabkab.
Meu senhor, me disse isso sobre Eshnunna: “Durante sua jornada rio acima, quando você se encontrar na presença de Yarim-lim, você falará com ele assim sobre Eshnunna: ‘[O rei de] Eshnunna não cessa de me enviar mensagens para um pacto de não agressão. Uma primeira vez, ele me enviou um mensageiro; mandei-o de volta para a própria fronteira. Ele me enviou uma segunda vez, e eu o enviei de volta para a própria fronteira. E, depois, um embaixador [râkib imêrim] veio e eu o enviei de volta para a própria fronteira, dizendo: Como, sem o consentimento de Yarim-lim, haveria um pacto de paz com Eshnunna[?]’”.19
As afiliações políticas entre os pastoralistas do início do segundo milênio eram fluidas, consequência das constantes mudanças ambientais, enquanto as relações citadinas se baseavam na cristalização das identidades de mesmo grupo. Em ambas, preserva-se a cultura de “consciência de localização histórica”,20 para usar uma expressão da arqueóloga Anne Porter (2013, p. 319), que desempenha um papel de plano de fundo na resposta de Zimri-lim aos representantes de Eshnunna – reino que foi grande explorador de minérios, a partir do século XX, e que avançou para a Assíria e a Alta Mesopotâmia quando governado pelo rei Naram-Sin [narām-sîn] (c. 1794-1785).
Em diversos momentos, as relações diplomáticas entre Alepo e Mari apresentaram concepções associadas à linhagem de parentesco, não exatamente a tratos internacionais. Talvez isso tenha acontecido pelo fato de a nova dinastia que chegou ao poder no Médio Eufrates, em meados do século XIX, ter a mesma origem amorrita dos reis alepianos. A influência de Shibtu como rainha e administradora com autonomia real pode ser avaliada pelas muitas cartas trocadas entre Zimri-lim e ela. Parte dessa documentação, que faz parte dos ARM, foi remetida quando o rei se encontrava em campanhas militares e viagens diplomáticas (Melville, 2007, p. 238). Ele noticia-lhe acerca de suas atividades, e ela transmite as informações aos funcionários palaciais [šarāḫu], ordenando-lhes tarefas que extrapolam os limites da cidade. Com esse casamento dinástico, mais do que o estabelecimento de relações diplomáticas e a legitimação do rei que chegava ao poder por linhagem de parentesco não reconhecida pelos súditos, ocorreu o início da construção de uma dinastia envolvendo dois Estados amorritas potentes, em que a aliança de troca de proteção militar evoluiu para uma dinastia, com lealdade ao grande rei alepiano por identidade de tempo e domínio territorial.
A IMAGEM DA DINASTIA ESCULPIDA NA CORRESPONDÊNCIA
A correspondência de Yarim-lim e de seu filho e sucessor Hammu-rabi I comprova a existência de um núcleo diplomático altamente qualificado em Alepo, capaz de encurtar as grandes distâncias geográficas e as distintividades étnicas. A territorialização do antigo Oriente Próximo no período protobabilônico mantinha reconhecidas as bordas edificadas por Estados territoriais, cuja hierarquia política se baseava no poder militar da autoridade real. Diante disso, a política entre Yarim-lim e Zimri-lim associava-se diretamente a projetos estatais em que os reinos locais, por manter as suas bordas, propunham novas formas de expansão por meio da diplomacia. A expansão de Mari ocorreu numa sucessão de eventos que permite ser designada, conforme Fleming (2009, p. 235-236), como “a construção do reino de Zimri-lim”.21 A afirmação designativa, a meu ver, é possível porque o reino de Yamhad já se encontrava com suas estruturas em funcionamento, e Alepo apresentava-se como um potencial adversário regional. A estratégia diplomática a que me refiro permitia que uma amálgama de socioetnias de culturas de mobilidade se assentassem à direita [banū yamina] e à esquerda [banū sim’al] do rio Eufrates e governassem centros urbanizados associados ao antigo reino de Hana.
A estabilidade de Yamhad tornou-se uma espécie de parâmetro para a organização dos distritos cujos governantes deveriam atuar como representantes do rei ou reis-vassalos, combinando nômades pastoris com citadinos e agricultores sedentários. As circunstâncias eram mais do que propícias para o encontro entre os dois mais importantes reinos siro-mesopotâmicos. Apesar de “as boas palavras” terem sido estabelecidas por meio de cartas trocadas em várias etapas, a aliança entre os dois reis não tem sido classificada como se fora concluída à distância. A legitimidade diplomática de Asqudum permitiu-lhe realizar em Alepo os juramentos diante do rei alepiano e imolar um potro [hayaram qaṭâlum], como sói ocorrer, em festival amorrita dedicado ao deus Haddu.22
A construção da aliança alepino-mariyanum viabilizou duas estratégias complementares. A favor de Alepo, além da já mencionada liderança nas rotas do Eufrates, garantiu uma via comercial segura com cidades eufratênias e lhe manteve o contato com a costa levantina, canais de difusão do poder templo-palácio. A favor de Mari, funcionou como um horizonte diplomático de proteção contra conflitos que lhe poderiam atingir a partir do Alto Eufrates, porque as potências regionais pactuavam para assegurar as bordas internas e marcos nas rotas costeiras.23 Como propôs Porter (2013, p. 26), o pastoralista Zimri-lim não adotou a vida palacial pura e simplesmente; ele se apropriou do mundo sedentário. Ao tomar a iniciativa pela integração de dois mundos, a mobilidade e transumância das estepes e a estrutura estatal, o rei mariyanum operou uma simbiose econômica. O processo de representação iconográfica e produção de imagens verbais alcança três tratos: (1) casamento diplomático; (2) veneração a Haddu, deus tutelar de Alepo; (3) apoio político-militar externo. A aliança fora, no entanto, concluída pelo rei de maior poder e idade:
Sobre o juramento dos deuses, sobre o qual você me escreveu, estabeleçamos as modalidades do juramento dos deuses! Eu quero ser seu aliado [tillatum] e você, meu aliado! Quando houver sinais de fogo em Yamhad, venha apagá-los! E quando houver sinais de fogo no [reino de] Mari, eu estou disposto a vir e apagá-los.24
Na carta, faltou a expressão amorrita ṣimdatam ṣamâdum, “avançar engatados”. O epigrafista Dominique Charpin (2019, p. 49-50) lembra que fora Zimri-lim quem pediu a conclusão da aliança, certo de que caberia ao rei mais idoso fazê-lo. Isso fica evidente, contudo, nas correspondências pelo fato de Yarim-lim receber tratamento de “pai”. A aliança é, portanto, um evento de nível hierárquico.
O casamento
No conjunto de eventos mais importantes de Yamhad, o casamento de Shibtu ganhou proeminência por causa do serviço diplomático de Mari,25 assim como pela capacidade político-administrativa de Shibtu, mais tarde tornada pública. Jean-Marie Durand (2000, p. 304) afirma que Shibtu é a mulher que mais vezes aparece nos ARM, destacando a sua presença na tradição cuneiforme em que se incluem as rainhas hititas. Zimri-lim já houvera casado outras vezes e não era mais jovem; além disso, fazia das alianças matrimoniais uma política palacial exitosa. Com efeito, os projetos são particularmente diferentes, miram lados opostos do antigo Oriente Próximo: enquanto a política alepiana visava à expansão através do controle de cidades eufratênias com sistemas administrativos autônomos, o projeto político mariyanum tencionava a formação de bloco comercial plurissocial no Mediterrâneo,26 sendo Ugarit o marco inicial da integração amorrita.
O evento tornou-se uma missão para Asqudum, correspondente oficial mariyanum, preocupado com os perigos das rotas siro-eufratênias em vista aos variados testemunhos desencorajadores: o rei de Terqa [ter-qa] disse que a época seria inadequada para a rainha seguir para Mari, o governante de Saggarātum lembrou do aparato de segurança que teve de preparar para um comboio comercial e até Emar, cidade mais próxima de Alepo para o acesso ao Eufrates, fora incluída nas medidas de segurança.27 Por outro lado, ainda em início de reinado, Zimri-lim precisava garantir a solidez do trono:
Zimri-lim não se casou com Shibtu antes de retornar ao trono ancestral. Casado com outras mulheres de origem ainda desconhecida, mães das princesas que deu como esposas aos seus principais vassalos, só depois de ter seu poder relativamente afirmado em seu próprio reino é que obteve a conclusão da aliança dinástica com a grande monarquia ocidental28 (Durand, 1988, p. 95).
Com “grande dinastia ocidental”, no que diz respeito aos semitas ocidentais, Jean-Marie Durand (1988, p. 95) refere-se a Yamhad. O início dos acordos entre os embaixadores e o rei de Mari deve ser datado no mês 10 [bêlet bīrī, aproximadamente 15 de setembro a 15 de outubro], época em que Asqudum viajou para Alepo.29 A propósito do cuidado, trata-se de garantir para Shibtu a segurança necessária na viagem transregional e no palácio. Apesar de o calendário lunar envolver acidentes atmosféricos e deslocamentos físicos contínuos, Durand (1988, p. 97) afirma “acreditar que sua partida deve ser colocada entre 15 de dezembro e 15 de janeiro do nosso calendário, portanto, em um momento relativamente favorável: é antes do frio extremo, e a chegada da enchente torna o rio navegável”,30 com as correntes ainda fracas.
Zimri-lim viajou a Alepo para pedir Shibtu em casamento no final de 1774; após os acordos com o rei alepiano, ele retornou a Mari. Antes do casamento, porém, o rei firmou acordos internacionais em Mari, orientou ministros e sacerdotes, e até interveio em conflitos envolvendo Karānatum, a então maestrina palacial, e Rīšiya [rîšiya; ri-ši-ia], maestrina do rei antecessor, Yahdun-lim. Rishiya pode ser considerada a promotora artística do palácio, tendo transformado a sua casa num conservatório para a formação de músicos e produção de instrumentos musicais (Podany, 2022, p. 254). Em adição, Zimri-lim retornou a Alepo às pressas no início de 1773 com a intenção de fazer com que o casamento ocorresse a tempo de encontrar com vida a rainha-mãe Sūmūn-na-Abī [su-um-un-na-a-bi], mulher do rei Sumu-Epuh, pai e antecessor de Yarim-lim. Em seguida, ele promoveria o substituto de Shimrum [šimrum], comissário morto, em meio às negociações para o casamento, pelo novo comissário Tab-balati [ṭāb-balāṭī] (Durand, 1988, p. 96-97).
O casamento foi o evento fundante para tempos futuros envolvendo os dois reinos, e tudo seguiu obedecendo ao rigoroso planejamento cronológico e financeiro, tanto dos oficiais locais quanto dos embaixadores de Mari. Notadamente, Shimrum havia exigido várias vezes o seu pagamento no negócio. Asqudum, o comissário de Zimri-lim, posicionou-se a favor de Yarim-lim quando este requereu o seu biblum, “dote” [mu-tù, em Mari; šūbultum ou šūrubtum, em Alepo], e quando inquiriu se fora enviado o carregamento contendo quatro colares, fios de pérola e ouro, louças, muitas roupas e objetos de couro (calçados e outros), touros, centenas de vacas e milhares de ovelhas (Durand, 1988, p. 101-102). Michèle Casanova (2014, p. 419) alude ao dote como sendo apenas um conjunto de “quatro colares de contas de lápis-lazúli e fechos de ouro, medalhões e uma fíbula incrustada de lápis-lazúli”,31 o que não reflete a distinção do casamento dinástico envolvendo reinos poderosos. Quanto ao casamento, Durand (1988, p. 103) afirma:
A própria sanção do casamento, ou a conduta simbólica que prova que ele realmente aconteceu, é, por outro lado, a tomada do véu pela jovem. O véu é colocado na cabeça da noiva pelos mensageiros do rei de Mari, e não por seu pai. Uma vez que o biblum foi trazido e aceito, a mulher deixou, portanto, a casa paterna e passou a fazer parte de um outro grupo social. Todas essas indicações são extremamente valiosas. Uma outra peculiaridade muito interessante do casamento de Šibtu e de Zimri-lim é, por outro lado, o fato de que a presença do noivo não é necessária. Basta que ele tenha constituintes. Em certo sentido, o casamento de Šibtu pode ser considerado o exemplo mais antigo de “casamento por procuração”. Podemos, portanto, supor que, durante a cerimônia na presença do marido, foi este quem efetuou a entrega do véu à sua esposa.32
O que enuncia a fonte literária33 da aliança concluída com o casamento de Shibtu:

De acordo com o documento, em meio aos intensos preparativos para o casamento, os funcionários mariyanum passaram a se considerar súditos ou “filhos” de Yarim-lim e desejavam assento junto da rainha-mãe na cerimônia de casamento. Cronologicamente, o casamento aconteceu no ano seguinte ao início dos preparativos, no terceiro ano de reinado de Zimri-lim, em cerca de 1773. Em seguida, a rainha Shibtu partiu no Hibirtum – o mês de maio na datação epônima – para Mari num comboio, em viagem de quase um mês, após a época das enchentes no rio Eufrates.
Além da viagem, a residência destinada a Shibtu preocupava a Yarim-lim. Eis o relato de Zimri-lim:
Yarim-lim se aproximou de mim com estas palavras: “Eu ouvi muitas vezes que os deuses são poderosos no palácio. Para onde vão os pertences de minha filha?”. Eu respondi: “O palácio de sua filha é maravilhoso”. Ele disse: “Que os pertences de minha filha sejam guardados em sua residência, [mas] que minha filha resida com seu marido, mas que 5 ou 6 dias ela saia [do palácio] e que ela cuide da residência dela”.34
A sequência da carta demonstra certa impessoalidade, como se o escriba tivesse escrito longe da presença do rei. O envio de funcionários palaciais de Alepo para servir a Shibtu mostra, contudo, que o pai desejava garantir que a filha fosse mantida longe dos santuários e parafernálias cúlticas, i.e., livre das funções e riscos dos fenômenos religiosos comuns em Mari. Ele buscava, igualmente, garantir a sua liberdade social na nova cidade.
Assumindo cada vez mais poder régio em face das frequentes atividades externas do marido, Shibtu tornou-se uma grande rainha, como atesta a sua grandiosa documentação: administrou os negócios internos do palácio; negociou a aquisição de utensílios; liderou negociações diplomáticas envolvendo Terqa, Eshnunna, Ida-Maraş, Elam, Babilônia; debateu com Ishme-Dagan sobre o envio de guarnições de Zimri-lim para guerras; presidiu atividades cúlticas; comunicou a situação estrutural de construções reais; ocupou-se dos seus filhos; cuidou de epidemia no palácio; arbitrou conflitos envolvendo Hammu-rabi I, sucessor de seu pai em Alepo; esteve no centro da solução de conflitos militares acerca das rebeliões encetadas por guerreiros Yaminita.35
Um aspecto ainda por ser mais amplamente pesquisado diz respeito ao ambiente musical de Mari no reinado de Zimri-lim, contexto que deve ter proporcionado a formação de uma camada social em torno do conservatório musical – a “Casa do tigum-instrumento” –, com função organizacional em cerimônias no palácio. Para o reino repleto de novidades no qual se processa a construção do que designo de dinastia alepino-mariyanum, a historiadora Amanda Podany (2022) destaca em sua fascinante obra a agência de jovens mulheres como musicistas e de outras como professoras, escribas, serventes, cozinheiras e babás. Muitas delas eram membros da realeza que viviam no palácio e constam de registros documentários oficiais. De acordo com Podany (2022, p. 251-252), a fortuna das fontes se deve “provavelmente porque muitas delas viviam em um conjunto de mais de sessenta cômodos agrupados em torno de pátios na área dos aposentos reais, logo após o pátio das palmeiras e a sala do trono do rei”.36 Entre elas, havia jovens princesas, mulheres cativas e escravizadas, membros de famílias das elites locais etc., vivendo nesse complexo residencial feminino chamado tubqum, o que lhes garantia alguma proteção em uma sociedade marcada por formas de poder masculinas e de restrição alimentar.
Na história do político, convém mencionar a autoridade da rainha Shibtu, porque essa afecção social aparece nas fontes à maneira de transmissão de poder paterno e etnomonárquico, seja pela exigência de um palácio particular, seja pela liberdade religiosa, mas sobretudo porque, ao transformar a paisagem do reino, ela acaba por caracterizar a cultura. Em uma carta, Zimri-lim pede para Shibtu selecionar mulheres com potencial para a música entre as capturadas e cuidar da alimentação delas (Podany, 2022, p. 254-255). É precisamente pela autoridade assegurada que a realeza de Shibtu – parte dos acordos do casamento dinástico que lhe manteve o estado sociopolítico de rainha – garantiu de certa forma alguns privilégios para as mulheres, inclusive cuidado com a saúde de funcionárias e até atividade intelectual para aquelas em situação de escravismo inseridas no palácio.
Atividade cúltica dirigida a Haddu, deus tutelar de Alepo
Antes mesmo do casamento com Shibtu, Zimri-lim havia-se comprometido com a veneração ao deus Haddu, cujo grande templo se encontra em Alepo. A imagem divina tutelar da união das duas dinastias e na cabeça de vários panteões será a do deus da tempestade Haddu, sendo que a homenagem ao deus levantino Li’m ficou restrita a algumas elites governantes, porque predominaram os espaços sagrados dedicados a Haddu, sempre acompanhado por seu touro [būru].
Enquanto o rei não retomava suas viagens diplomáticas, Asqudum encarregou-se de fazer uma excursão pelo reino de Yamhad durante quinze dias e, portanto, representar oficialmente o rei no festival sacrificial de hi’ārum [siskur2-re hi-ia-ri-im] – uma celebração da realeza com duração de cinco dias. Para isso, Asqudum viajou para Alepo levando um ālum,37 talvez um instrumento musical, como objeto votivo de Zimri-lim ao deus Haddu de Alepo [hddḥ lb]. Dimensionando o tamanho do objeto votivo, oito homens conseguiriam apenas movê-lo, mas não o carregar a média distância: ele tinha cerca de 240 quilos ou 8 talentos de bronze com proteção de couro (Dossin, 1938, p. 109; Durand, 1988, p. 119):
Zimri-lim testemunhou a veneração que tinha pelo deus de Alepo, dedicando sua estátua a ele, como evidenciado pelo nome de um de seus anos de reinado: MU Zi-im-ri-li-im | ṣalam-šu a-nailAdad | Ḫa-la abki | ú-še-lu-[ú], “O ano em que Zimri-lim dedicou sua estátua ao deus Adad de Alepo”38 (Dossin, 1938, p. 115).
Foram enviados de Mari para Alepo muitos bens votivos, animais e objetos de luxo para a veneração a Haddu. Ao chegar a Alepo e após cumprir o segundo trato mais importante, Asqudum escreveu para Zimri-lim informando que havia participado do festival religioso. Na carta, seguiram reclamações contra governantes de cidades do itinerário da viagem por não ajudarem no transporte, o cansaço da comitiva, a necessidade de abastecimento e a solicitação de cinquenta ovelhas. É importante sublinhar que no contexto se desenrolam intelectivamente os desacordos entre culturas, mas a correspondência mencionada tinha por motivo informar sobre a adesão ao deus tutelar Haddu. O enunciado inicial é significativo:

Não raro, os diplomatas de Mari se conflitavam mutuamente. Em carta datada do ano 3 do reinado (c. 1773, ZL 1’), Yasim-Sumu [yasīm-sūmū] aparece como agente de conflito interno com o administrador palacial Sammētar, da província de Ashnakkum [ašnakkum], porque desejava imiscuir-se das questões administrativas enquanto o rei estava ausente da cidade e as decisões ficavam sob a responsabilidade de Asqudum:
os dois personagens muito importantes que são Sammētar, o šâpiṭum [juiz ou governador distrital, ou ainda “chefe do palácio”] e Yasīm-Sūmū, o mordomo, entraram em conflito aberto. Asqudum ficou do lado de Yasīm-Sūmū, contra alguém que pertencia a uma das principais famílias de Terqa41 (Durand, 1988, p. 75).
Ao partidarizar o conflito,42 Asqudum posicionou-se contra quem combatia os Yaminita. Com isso, ficaram destacados os partidos políticos de agentes do palácio de Mari.
Apoio político-militar externo
Aqui, retomo a questão da sustentação do projeto expansionista de Mari posto em prática enquanto tinha em suas bordas, à direita e à esquerda do rio Eufrates, tribos contra o Estado. No momento em que demonstrava como estratégia política a obtenção de apoio dos reis de Yamhad, Zimri-lim esforçou-se para saber da necessidade de conter as incursões das guarnições de Eshnunna. Nesse sentido, Asqudum interpretou o plano corretamente. Entre os anos 3 e 5 (ZL 1’-3’) de seu reinado, o rei presidiu pelo menos duas cerimônias de entronização de vários príncipes, “membros de uma família real”, por ocasião do festival anual dedicado à deusa Ishtar [ištar, equivalente à deusa inana de Sumer].43
Pode-se atestar a transmissão de legitimidade por parte de Ishtar, consorte do deus Tammuz, na pintura mural de têmpera sobre argila do palácio amorrita de Mari (século XVIII): a encenação principal ocorre no painel central superior – a cela do templo –, onde a deusa tem por pedestal um leão e oficializa a investidura real de Zimri-lim, entregando-lhe os símbolos do poder – o círculo e o bastão.44 Com atos administrativos de lealdade realizados diante da deusa, desejava-se pragmaticamente transmitir aviso de poder a Eshnunna, tendo em vista o aumento do número de suas cidades satélites e seu avanço para a Alta Mesopotâmia. De fato, as atividades características em Mari projetam um contexto em que as famílias das bordas e os grupos de apátridas passaram a ser bem-vindos no reino.
A noção de valor da lealdade mantinha uma diretriz que beneficiava os refugiados. O trato de não extradição tem origem na tradição oral, uma lei mental, e o cruzamento de etnias fazia parte da constituição tanto do antigo reino de Hana, agora integrado a Mari, quanto do reino de Yamhad. Após um conflito regional, Zimri-lim escreveu uma carta a Yarim-lim na qual propôs um trato para a solução do problema. A proposição indica que a lei vigente sobre a extradição deveria ser reformada. Ocorre, por evidência, que a cidade-Estado de Hazor participava do amplo sistema comercial que estava sendo prejudicado pelo conflito. A Yarim-lim resta, assim, a intervenção. Eis os enunciados:
5] Você escreveu o seguinte sobre um ferreiro: “Este homem tirou de Hazor prata, ouro e uma pedra fina [preciosa] e se dirigiu até você. O povo de Hazor está segurando os jumentos e o pessoal que está em uma missão comercial, dizendo, ‘O ferreiro pegou prata, ouro e uma pedra fina [preciosa] e foi em direção a Zimri-lim’”. Isso é o que você me escreveu.
15] Este homem não trouxe absolutamente nada para mim, seja prata, ouro ou uma pedra fina [preciosa]. Este homem foi apreendido e humilhado em Emar. Libertaram-no de tudo o que foi transportado e até tiraram-lhe o documento (comprovativo) de que este homem pagou pelo que comprou. [Ou: “até tirou dele o selo que este homem havia comprado” (Durand); kunukkam ša ana kaspim awīlum šū išālimu itbalūšu.] Na verdade, foi para salvar sua vida que este homem correu em minha direção.45
26] Meu pai me escreveu sobre este homem, sobre o retorno de um homem que, como um pássaro trêmulo à frente de um falcão, veio até mim. Este é um homem que devo libertar? Se eu libertar este homem, depois disso qualquer um que ouvir, ele buscará abrigo como se estivesse intercedendo por uma divindade?
35] Se isso agrada a meu pai, meu pai não deve requerer este homem. A posse deste homem, tudo o que ele tirou de Hazor, agora está mantida em Emar. Meu pai deve escrever para Emar, para que a propriedade do homem seja colocada à [disposição?] de meu pai.46
Um problema diplomático entre Estados estava sendo solucionado à maneira tribal, o que lançava um pressuposto de acordo de paz. O acontecimento envolveu as cidades-Estado de Emar e Hazor. Eis a questão: o ferreiro acusado de assaltar um carregamento de objetos de luxo fugiu para Mari, e a solução do conflito coube ao grande rei regional Yarim-lim.47 Ele exigiu a extradição do ferreiro. Zimri-lim inverteu respeitosamente a acusação quando afirmou que o ferreiro foi, na verdade, vítima e tentou preservar a vida desse refugiado. Dessa forma, o rei mariyanum teve a intenção de evitar que Mari fosse visto como um reino sem autoridade para decidir sobre questões legais envolvendo pessoas em seu território, por isso tentava estabelecer um princípio administrativo na diplomacia com o reino de Yamhad.48 Os respeitosos pedidos de extradição de prisioneiros revelam-se sobretudo como pedidos de apoio militar, em nome do deus Haddu, como solução possível para conter as invasões dos Yaminita e de outras grandezas rivais.49 A carta enviada por Yarim-lim mostra quem lidera a região: “Tem Zimri-lim se esquecido do comando de Addu? Na verdade, temo que Zimri-lim não saiba que na Terra de Addu um refugiado não pode ser extraditado!”.50 Uma resposta que parece teologicamente retórica, deixando escassa propensão indiciária acerca de uma decisão posterior, mas com forte base jurídica.
Nos limites da documentação preservada, a aliança entre os reinos de Yamhad e Mari demonstrou ser estrategicamente uma evolução na história política do antigo Oriente Próximo. Yarim-lim estendeu sua influência até o Eufrates e, como as cidades lideradas por Alepo restringiram a circulação de nômades Yaminita, Zimri-lim passou a estacionar guarnições nas cidades vizinhas a Eshnunna e Babilônia. Lá estavam os elamitas, mas então o rei mariyanum apoiou Hammu-rabi, a fim de manter a paz nos seus limites geográficos.51
CONCLUSÃO
O grande projeto político entre os dois mais importantes reinos do Levante foi abruptamente interrompido cerca de oito anos depois do seu início com a morte de Yarim-lim, muito sentida por Zimri-lim. Na interpretação de Jack M. Sasson (1984, p. 251):
Um relato conciso nos diz que Zimri-lim ordenou o envio de presentes para o túmulo de Yarim-lim no décimo quinto dia do oitavo mês [1765], duas semanas depois de entreter os oficiais babilônicos. O novo rei de Halab (infelizmente para nós também chamado de Hammu-rabi) sucedeu a seu pai e deu início a uma regra que parece, se não abertamente hostil a Zimri-lim, certamente mais calorosa com seu homônimo na Babilônia. Sabemos agora que, menos de uma década depois, essa relação direta entre os dois Hammu-rabis levou à agressão de Babilônia contra Mari.52
Sasson (1984) enuncia uma aporia. Contra a sua interpretação, entendo que as regras praticadas inicialmente por Hammu-rabi I de Alepo preservaram as antigas alianças. Quanto à homenagem ou distinção, a prática era comum e tinha por intenção manter uma aliança ou proceder a um tratado circunstancial. Charpin (2019, p. 208) apresenta um texto53 encontrado em Mari no qual consta que o rei de Terqa teria enviado “um objeto precioso por ocasião da morte do rei de Alepo Yarim-lim”, literalmente “1 arma-katappum de prata”. A homenagem de Zimri-lim por ocasião da morte de Yarim-lim foi “1 disco solar de ouro fino, pesando 48 siclos”.54
Em que pese dedicar-se por quase uma década a ações que visavam a uma espécie de subalternização síria que alcançasse a costa do Levante e a Alta Mesopotâmia – região de onde “recebeu numerosas mensagens” e “onde comandou seus vassalos ou governadores”55 com suas cidades (Dossin, 1938, p. 115) –, Zimri-lim não alcançou o seu objetivo ao aliar-se com o reino de Yamhad, apesar de conquistar o acesso para a costa levantina. Isso podemos apor com base na pesquisa das fontes e suas entrelinhas contextuais na perspectiva alepiana. Assinto com Sarah C. Melville (2007, p. 240): “casando-se com Shibtu, a filha do governante do poderoso Estado de Yamhad, Zimri-lim adquiriu apoio militar suficiente para recuperar o trono de Mari e implementar seu esforço ao longo da vida, mas, em última análise, sem sucesso para estender seus territórios”.56
Após a morte de Yarim-lim, os ideais dos Estados territoriais sobrepuseram as antigas fronteiras físicas e tradições culturais amorritas, deixando fortemente indicada a invalidade do terceiro tratado que visava à construção da dinastia: tornaram-se desnecessários os apoios militar e da política comercial de Yamhad para Mari. Ainda que Mari tivesse às suas portas a potência da Baixa Mesopotâmia, Zimri-lim aceitou pactuar com Hammu-rabi contra o reino de Elam. Pode ter havido uma grande confiança entre as partes na declaração de Hammu-rabi: “Desde sempre, a cidade de Mari e Babilônia [são] apenas uma Casa e apenas um dedo!”.57 Por outro lado, aproveitando o momento crucial, Elam tentou obter o apoio do novo rei de Alepo, mas o recém-coroado Hammu-rabi I preferiu “retomar as alianças de seu pai”58 (Charpin, 2019, p. 87), em uma decisão honrosa.
Por fim, um epitáfio ao grande rei: despertos, todos os reis e rainhas amorritas podiam proteger-se no abīya Yarim-lim de Yamhad – qaran ṣubāt –, aquele que viveu sob o comando do deus Haddu [ṭēm Addu]!
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Apêndice 1

Apêndice 2

Notes
Author notes