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				<journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Economia e
					Sociedade</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0104-0618</issn>
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				<publisher-name>Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas;
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1982-3533.2025v34n1.250989</article-id>
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					<subject>Artigo original</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Bergoglio e o contramovimento: uma interpretação Polanyiana do
					pontificado de Francisco<sup>1</sup></article-title>
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					<trans-title>Bergoglio and the countermovement: a Polanyian interpretation of
						the Pontificate of Francis</trans-title>
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						<surname>Barreiros</surname>
						<given-names>Daniel</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1">**</xref>
					<bio>
						<p>Professor Associado do Instituto de Economia da Universidade Federal do
							Rio de Janeiro </p>
					</bio>
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						<surname>Ciapparella</surname>
						<given-names>Gabriele</given-names>
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					<bio>
						<p>Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Economia Política
							Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro</p>
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					Janeiro</institution>
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					do Rio de Janeiro (IE / UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil</institution>
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				<label>***</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal do Rio de
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				<email>ciapparelly@yahoo.it</email>
				<institution content-type="original">Programa de Pós-Graduação em Economia Política
					Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro,
					RJ, Brasil</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p>Fabio Antonio de Campos</p>
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			</author-notes>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>No ano de 2015, a Igreja Católica Romana se posicionou de forma contundente no
					debate acerca da relação entre o paradigma técnico-econômico subjacente à
					economia capitalista industrial contemporânea e a catástrofe climática em curso,
					que coloca em risco todas as formas de vida no planeta. Com a Carta Encíclica
						<italic>Laudato Si’</italic> (“Sobre o Cuidado da Casa Comum”), o Papa
					Francisco defende uma radical revisão do funcionamento do sistema econômico
					global na perspectiva de uma economia substantiva, que tem como objetivo prover
					as necessidades elementares dos seres humanos em harmonia com os ecossistemas
					planetários. Neste artigo sustentamos a hipótese de que, em sua postura diante
					do capitalismo contemporâneo e da questão climático-ambiental, o pontificado de
					Francisco se apresenta como parte de um amplo movimento de autoproteção da
					sociedade, no sentido atribuído por Karl Polanyi, em contraposição às forças
					políticas e econômicas defensoras dos mercados autorregulados.</p>
				<p><bold>JEL:</bold> N0, P1, P4, P5, Z1.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>In 2015, the Roman Catholic Church took a strong stand in the debate about the
					relationship between the technical-economic paradigm underlying the contemporary
					industrial capitalist economy and the ongoing climate catastrophe, which places
					all forms of life on the planet at risk. With the Encyclical Laudato Si’ (“On
					Care for our Common Home”), Pope Francis defends a radical revision of the
					functioning of the global economic system in the perspective of a substantive
					economy, which aims at providing the basic needs of human beings in harmony with
					planetary ecosystems. In this article, we support the hypothesis that, in his
					stance towards contemporary capitalism and climatic-environmental issues, the
					pontificate of Francis presents himself as part of a broad movement for the
					self-protection of society in the sense attributed by Karl Polanyi, as opposed
					to political and economic forces defending self-regulated markets.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Papa Francisco</kwd>
				<kwd>Laudato Si’</kwd>
				<kwd>Karl Polanyi</kwd>
				<kwd>Economia substantiva</kwd>
				<kwd>Duplo movimento</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Pope Francis</kwd>
				<kwd>Laudato Si’</kwd>
				<kwd>Karl Polanyi</kwd>
				<kwd>Substantive economy</kwd>
				<kwd>Double movement</kwd>
			</kwd-group>
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				<ref-count count="48"/>
			</counts>
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		<sec>
			<title>Um futuro ameaçador</title>
			<p>Para Miguel Benasayag<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup>, a passagem de
				uma ideia do futuro, que contém em si uma promessa para a percepção do futuro como
				ameaça, é um dos problemas existenciais mais significativos da vida contemporânea. A
				promessa da Modernidade ocidental de um amanhã sem doenças, pobreza e injustiça, foi
				traída pela repressão nos <italic>gulags</italic>; pela técnica por trás da ação
				genocida em Hiroshima; pelos horrores de Auschwitz, todas elas, inequivocamente,
				frutos desse mesmo mundo moderno. Surgida do conturbado desenvolvimento histórico
				europeu, e imposta a ferro e fogo à humanidade global, a ideia de um futuro de
				emancipação pela técnica hoje enseja o luto, mesmo entre aqueles povos que dela se
				beneficiaram (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Benasayag, 2020</xref>).</p>
			<p>O tempo, diz ele, não é linear e o futuro não é o que acontecerá amanhã: o futuro é o
				que hoje, aqui e agora, podemos ver como possível virtualidade. E esse é um futuro
				ameaçador, porque vivemos em um presente em que cada vez mais o trabalho se torna
				precário, a saúde e a educação um privilégio; rompem-se os laços sociais, e, sob o
						Antropoceno<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup>, é a própria
				existência da vida - humana e não humana - que está em severo risco. O futuro no
				horizonte traz o problema do desenvolvimento - econômico, humano, social - mediado
				pelo discurso das finanças, deixando a sociedade desprovida de anteparos com os
				quais possa se proteger. Como evitar um futuro de rapinagem, diante de um presente
				já tóxico?</p>
			<p>O desafio - admite Benasayag - é de tamanho extraordinário. Precisamos, antes de
				tudo, reformular a pergunta: o que podemos ser, além de indivíduos? É necessário que
				sejamos capazes de vislumbrar um futuro em que nossa conexão com a natureza não
				humana - biológica, geológica - nos enseje perspectiva, nos ofereça
					<italic>contexto</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Benasayag,
				2020</xref>). A dicotomia entre um suposto universo humano e a “natureza” é uma
				construção histórica que, por séculos, levou mulheres e homens no Ocidente - e em
				regiões do mundo mais fortemente impactadas pelo pensamento ocidental - a observar a
				realidade não humana como pano de fundo inerte, alheio a todo tipo de consideração
				ética (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Massuno; Barreiros, 2020</xref>, p. 84-85).
				Aquela fração da humanidade entorpecida pelo especismo, pelo materialismo e pelo
				egoísmo antropocêntrico é convidada então a retornar do seu exílio autoimposto, e a
				ter oportunidade de reconhecer-se como parte inequívoca de um ecossistema
				planetário, de um contínuo entre a realidade biótica e abiótica. A compreender-se
				como membro de um todo, que é maior que a soma das partes. Nessa direção caminha o
				convite que, com a encíclica <italic>Laudato Si’</italic>, Papa Francisco se dirige
				aos seus interlocutores, buscando assim posicionar a Igreja Católica Romana no
				diálogo sobre nosso futuro planetário (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Francisco,
					2015</xref>, p. 13).</p>
			<p>De maneira radicalmente nova em relação à autorreferencialidade tradicional das
				encíclicas, o Papa convida de forma ecumênica “todos os homens de boa vontade” a
				contribuírem, cada um segundo sua própria cultura, experiência e capacidade, com a
				reflexão e ação no que diz respeito ao cuidado da “casa comum”. Valorizando também
				vozes externas ao mundo católico (da Igreja Cristã Ortodoxa e da teologia
				protestante, da tradição humanista leiga e do misticismo sufista), <xref
					ref-type="bibr" rid="B18">Francisco (2015</xref>, p. 18-48) propõe um
				diagnóstico sobre o que se passa com a “casa comum”: ao reconhecer a deterioração da
				vida humana, os intensos danos causados à biosfera e a degradação do contexto
				social, identifica-os como consequências:</p>
			<p><list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>1) da ideia de liberdade humana sem limites;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>2) do endeusamento do mercado (adorado como um ídolo);</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>3) da ganância estimulada pelo corrente paradigma tecno-econômico, insubmisso
						ao controle pelo coletivo;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>4) da mercantilização de toda natureza biótica e abiótica.</p>
				</list-item>
			</list></p>
			<p>Entre as novidades mais importantes neste diagnóstico da atual crise planetária está
				a clareza com que o Papa Francisco evidencia a profunda conexão que une os aspectos
				ambientais, sociais, econômicos, distributivos e políticos, bem como o desafio
				lançado pela busca de uma abordagem integral ao problema (<xref ref-type="bibr"
					rid="B3">Bianchi, 2015</xref>). Guerras, fome, desigualdades econômicas e
				injustiça social derivam da natureza predatória de um modelo de desenvolvimento que
				produz pobreza e causa a fragilidade dos ecossistemas.</p>
			<p>Através de uma releitura do “Evangelho da Criação”, Francisco insiste na dimensão
				relacional entre todas as coisas e no fato de que uma relação ética entre humanos e
				não humanos é inseparável da defesa da fraternidade, da justiça e da fidelidade em
				relação ao próximo (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Francisco, 2015</xref>, p. 57).
				Francisco, assim, nos apresenta uma visão razoavelmente distante do supremacismo
				humano.</p>
			<p>As diferentes perspectivas que compõem uma visão ecológica integral estão
				entrelaçadas ao redor de dois eixos principais:</p>
			<p><list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>1) o apelo à <italic>conscientização</italic> em relação à insustentabilidade
						do atual sistema econômico e político mundial;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>2) o chamado à <italic>responsabilidade</italic> de cuidar do planeta, para
						que possamos entregar uma terra habitável para as gerações futuras.</p>
				</list-item>
			</list></p>
			<p>A noção de “cuidado com o mundo” é um importante ponto de suporte da proposta de
				intervenção do pontificado de Francisco (<xref ref-type="bibr" rid="B14">DeWitt,
					2016</xref>, p. 271-273) e repousa em princípios arraigados na teologia
				cristã:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>A humanidade entendeu-se (...) como aquela que coopera com Deus (cooperator Dei)
					que, sendo legitimada como a guardiã da Terra (dominium terrae) tal como na
					história da Criação, é dada a tarefa de moldar a Terra para conformá-la à ordem
					preordenada por Deus (...) uma consciência ética que se mostra ciente da
					responsabilidade pelas consequências de seus atos é indispensável para um
					progresso que seja compatível com as necessidades humanas (...). A perspectiva
					ética de uma nova definição de progresso inclui (...) o desenvolvimento da
					consciência a respeito dos limites, sejam ecológicos, sociais, ou econômicos na
					natureza (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Marx, 2016</xref>, p. 299; 301).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Essa dimensão econômico-antropológica presente no discurso do Sumo Pontífice remete a
				visões e conceitos de teóricos sociais do passado e da contemporaneidade. Segundo
				alguns observadores, como <xref ref-type="bibr" rid="B21">Horn (2013)</xref> e <xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Belluzo (2013)</xref>, o pensamento de Francisco
				dialoga com a análise de Karl Polanyi a respeito do colapso da civilização liberal
				na primeira metade do século XX, que parte de um entendimento multidimensional do
				processo histórico, culminando na busca de convergências entre fenômenos culturais,
				geográficos, políticos, econômicos e ecológicos. Polanyi articula fenômenos em
				temporalidades distintas ao diagnosticar as causas da crise civilizacional, que bem
				poderiam invocar a noção de durações segundo Fernand <xref ref-type="bibr" rid="B8"
					>Braudel (2009)</xref>. Isso porque recorre não somente à “espuma” dos eventos -
				os acontecimentos entre as décadas de 1870 e 1940, que levaram, em sentido estrito,
				ao colapso do sistema político-econômico internacional -, mas também aos fenômenos
				de longa duração, que retomam a dissolução das formas de vida comunitária
				tradicionais com a mercantilização da terra, a ruptura dos laços de solidariedade
				com a mercantilização do trabalho, e a devastação da natureza humana e não humana
				provocada por esses dois processos em retroalimentação desde pelo menos o século XVI
					(<xref ref-type="bibr" rid="B39">Polanyi, 2000</xref>, p. 18).</p>
			<p>O mercado, historicamente mediado pelas instituições sociais e tradicionalmente
				sujeito a normas morais, foge ao controle social na medida em que seus defensores
				passam a advogar por sua condição de mercado autorregulado, impondo-o como agenda no
				campo político. O resultado é um mundo em que uma economia “desenraizada” (ou seja,
				não mais submetida à regulação das instituições sociais em nome do interesse
				coletivo) se torna a chave para entender a realidade humana: um conglomerado de
				indivíduos atomizados, maximizadores de utilidade.</p>
			<p><disp-quote>
				<p>A característica fundamental do sistema econômico do século XIX foi sua separação
					institucional do resto da sociedade. Numa economia de mercado, a produção e a
					distribuição de bens materiais são efetuadas por meio de um sistema
					autorregulador de mercados, regido por leis próprias - as chamadas leis da
					oferta e da procura - e motivado, em última instância, por dois incentivos
					simples: o medo da fome e a esperança do lucro. Esse arranjo institucional
					separa-se das instituições não econômicas da sociedade, como a organização do
					parentesco e os sistemas políticos e religiosos. (<xref ref-type="bibr"
						rid="B40">Polanyi, 2012</xref>, p. 95).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Nessa dinâmica, é a utopia do mercado autorregulável, que reconhece apenas a lei da
				demanda e da oferta, que transforma humanos e não humanos, discursiva e
				institucionalmente, em “mercadorias fictícias”. Utopia no discurso, distopia na
				prática, tende a anular a substância da vida humana em sociedade e sua relação de
				inteireza com a natureza não humana, vinculando sua participação na vida material e
				simbólica a um mecanismo incontrolável de preços flutuantes (<xref ref-type="bibr"
					rid="B4">Blanco, 2016</xref>). A dimensão ilusória da autorregulação é tal que
				pouco se reconhece que</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) sociedades precisam constituir mercados porque instituições sociais são
					necessárias para criar e gerenciar mercados para bens não produzidos
					exclusivamente para a venda (...) instituições sociais são tão necessárias para
					transformar a terra, o trabalho e o dinheiro em mercadorias (fictícias) quanto
					para protegê-los de serem comoditizados como se não houvesse limites para tal
						(<xref ref-type="bibr" rid="B23">Kaup, 2015</xref>, p. 282-283).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Assim, a noção de autorregulação</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) foi produto da imaginação do século XIX mas na realidade foi uma ilusão uma
					vez que, tal como viu Polanyi, a política e várias instituições - o governo em
					particular - organizaram a forma pela qual o mercado opera em uma sociedade
						(<xref ref-type="bibr" rid="B46">Steinberg, 2019</xref>, p. 267).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Tais desenvolvimentos destrutivos suscitam a reação espontânea da sociedade, gerando
				um contramovimento de autoproteção com o objetivo de preservar a integridade do ser
				humano e da natureza não humana dos perigos inerentes a um sistema de mercado
				autorregulável. E segundo Polanyi, a experiência histórica mundial no século XIX
				pode ser interpretada como resultado de um duplo movimento: por um lado, a
				mundialização da economia de mercado e a comoditização da terra e do trabalho; por
				outro, o surgimento ou o fortalecimento de iniciativas de caráter político, cultural
				e social, visando mitigar os danos sociais, econômicos e ambientais provocados pela
				autorregulação, ou mesmo produzir economias substantivas alternativas que contornem
				a tendência totalizante dos mercados (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Polanyi,
					2000</xref>, p. 98).</p>
			<p>Assim sendo, em que medida as ações do pontificado de Francisco, em relação à crise
				social e ecológica do planeta, podem ser consideradas como parte do fenômeno global
				de autoproteção da sociedade? É a uma resposta para essa pergunta que se dedica o
				restante deste artigo. E para tal, nas seções seguintes, serão discutidos os
				seguintes temas: a) como Karl Polanyi compreendeu o lugar da economia na sociedade e
				como postulou a ideia de que os sistemas econômicos estão
					<italic>enraizados</italic> nos sistemas sociais; b) como o desenraizamento da
				economia capitalista produziu aquilo que Polanyi chamou de “contramovimento”
				(iniciativas de contenção aos danos provocados pelo mercado autorregulado liberal);
				c) de que modo a ideia de autorregulação dos mercados consiste em uma
				“pseudofilosofia”; d) de que modo o neoliberalismo retoma o projeto de
				autorregulação dos mercados e que relação esse fato guarda com a crise
				climático-ambiental em curso; e) de que modo o contramovimento produz potentes
				reações à comoditização da “natureza”; e, por fim, f) de que modo o pontificado de
				Francisco pode ser lido como um dos pilares desse amplo contramovimento.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Karl Polanyi: o lugar da economia</title>
			<p>Os primeiros a atentarem para as reflexões de Polanyi, nos anos 1960, vinham do campo
				da antropologia, interessados no estudo da lógica econômica distinta que organizava
				as sociedades não mercantis. Mais tarde, já nos anos 80, seriam os sociólogos a se
				interessar pelo pensamento polanyiano: enfatizando o conceito de
					“<italic>embeddedness”</italic> (enraizamento), lançaram luz sobre as relações
				sociais e as redes institucionais capazes de encapsular as atividades econômicas.
				Finalmente, na primeira década deste século, economistas e cientistas políticos
				redescobrem em Polanyi um defensor da noção de <italic>welfare state</italic> e um
				crítico das políticas ultraliberais, a ponto de torná-lo um ícone do pensamento
				crítico e da “globalização contra-hegemônica” nas tribunas de Seattle e Porto Alegre
					(<xref ref-type="bibr" rid="B26">Luban, 2017</xref>, p. 68-69).</p>
			<p>A maior parte das apropriações da obra de Polanyi incorre no problema de
				“disciplinarizar” seu programa de pesquisa. Comprimido nos limites de uma
				sociologia, antropologia ou história econômica, o pensamento polanyiano é alvo de
				críticas contraditórias que ora apontam um suposto idealismo, ora um demasiado
				empirismo (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p. 272). A
				originalidade de Polanyi reside em sua irredutibilidade a uma perspectiva
				disciplinar específica e em ser promotor de algo no sentido de “uma ciência
				unificada das sociedades humanas” (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Salsano,
					1974</xref>, p. VIII). Com um mapa da condição e da ação humana, fundado não
				apenas em bases filosófico-ideológicas, mas também em um alicerce
				histórico-antropológico de longa duração, Polanyi nos brinda com um esforço de
				interpretação da vida humana em sociedade com implicações fundamentalmente éticas.
				Esse esforço parece capacitado para desarmar a “objetividade translúcida” da
				civilização capitalista, denunciar sua pseudofilosofia e suas falsas ambições de
				universalidade. Para Polanyi, portanto, é urgente relançar o conhecimento e retomar
				um projeto político geral de longo prazo, no qual se possa repensar “o lugar da
				economia”, entendida como ferramenta e método para construir a felicidade dos seres
				humanos - uma economia substantiva, portanto.</p>
			<p><italic>A Grande Transformação</italic> representa um ponto de maturação do percurso
				de investigação histórica e econômica empreendido desde os anos 1930, e um ponto de
				partida teórico de suas imersões antropológicas, a que Polanyi irá se dedicar nos
				anos 1950. No texto, os dois planos movem-se juntos, com um nível de análise
					<italic>específico</italic>, de reconstrução histórica do processo de imposição
				violenta da economia de mercado sobre uma sociedade recalcitrante, em um contexto de
				crescente instabilidade, que se entrelaça com outro nível de análise mais
					<italic>geral</italic>, de investigação das diferentes formas históricas de
				sociedade e da maneira como, em cada uma, a economia está organizada. Como objetivo,
				tem o de entender as características mais profundas da sociedade capitalista, para
				além das categorias autorreferenciais com as quais se representa. Se, então, a
				revolução industrial do século XIX é causa e efeito do progresso técnico, do
				maquinismo, do aumento da produtividade e do consumo, em nenhum desses fatores, e
				nem mesmo no mercado como tal, está, segundo Polanyi, a causa originária do colapso
				das suas pretensões de civilização. Ela pode ser encontrada na utopia do mercado
				autorregulável, na qual se baseiam e se justificam as políticas econômicas
				liberais.</p>
			<p>Segundo Polanyi, o triunfo do mercado não se celebra no plano da realidade dos
					<italic>fatos</italic>, mas, mais sutilmente, na capacidade de traduzi-los em
					<italic>valores</italic>, ocultando-os no cotidiano do senso comum, no mito do
				individualismo, da competição, da onipotência das técnicas e da possibilidade de
				desenvolvimento sem limites (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Sobrero, 2012</xref>,
				p. 277). Nesse sentido, para Polanyi, a generalização da autorregulação dos
				mercados, paralela ao desenvolvimento da produção capitalista, constitui um divisor
				de águas na história da humanidade, uma ruptura histórica com respeito às sociedades
				pré-modernas, em que eram as instituições sociais que estabeleciam os objetivos, a
				justificativa e os limites sobre o que chamamos de economia.</p>
			<p>Nas sociedades de mercado, a função econômica tende a ser instituída
				“economicamente”, ou seja, a ser desempenhada por uma estrutura que se pretende
				autônoma das relações sociais, mas dominante sobre elas. A nova <italic>economia de
					mercado</italic> implica, portanto, uma <italic>sociedade de mercado</italic>,
				na qual “em vez de a economia estar enraizada nas relações sociais, são as relações
				sociais que estão enraizadas no sistema econômico” (<xref ref-type="bibr" rid="B39"
					>Polanyi, 2000</xref>, p. 77). Nesse sentido, o que caracteriza a sociedade de
				mercado não é tanto o livre mercado em si, mas o mito do mercado autorregulável: a
				enganosa pretensão de autonomia da economia em relação às relações sociais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Karl Polanyi: fatos e valores</title>
			<p>Na reconstrução histórica do advento da moderna sociedade de mercado, Polanyi
				concentra-se no complexo de transformações sociais que ocorrem na Inglaterra, entre
				os séculos XVIII e XIX. A novidade da introdução das máquinas fabris em processos
				até aquela altura desenvolvidos com métodos essencialmente artesanais exigia novas
				condições sociais, até então inexistentes. Todos os elementos necessários para a
				produção, incluindo trabalho, terra e moeda, deveriam estar disponíveis para a
				pronta venda no mercado (a chamada “prontidão da oferta”), a fim de que o
				investimento em tecnologia viesse a ser lucrativo. Tratava-se, portanto, de
				transformar em mercadorias os fatores centrais da produção, tornando negociável no
				mercado a própria espinha dorsal da comunidade humana, tendo como resultado a
				desarticulação das relações sociais e a implosão do equilíbrio ecossistêmico
				primeiramente em nível local, e no futuro, global.</p>
			<p>Aquilo que Polanyi coloca em jogo - fortemente inspirado pela antropologia de
				Malinowski e pela sociologia de Tönnies - é a díade <italic>Gemeinschaft -
					Gesellschaft</italic> (em linhas gerais, “sociedade de status” - “sociedade de
				contrato”). Esse par analítico também aparece subjacente à visão de mundo presente
				nas declarações públicas do pontificado de Francisco, como veremos, e funciona como
				um ponto de conexão firme com a arquitetura explicativa polanyiana. Em linhas
				gerais, o que Polanyi admite é o fato de que nas sociedades ditas “modernizadas”
				(desde os séculos XVII-XVIII), determinados processos históricos promoveram - em
				nome do “progresso” e da “eficiência” - a implosão da centralidade de instituições
				cuja importância na estabilidade social, na resolução de conflitos e na distribuição
				do produto do trabalho remontava à história que antecedia o próprio surgimento do
				Estado, da agricultura e da acumulação de excedente.</p>
			<p>Em suma, a progressiva noção de “privatização dos comuns”, que avançava na Inglaterra
				a passos lentos desde o século XVI, e o advento da ficção do mercado autorregulado
				ao final do século XVIII e início do século XIX, funcionaram como um elemento de
				dissolução acelerada de instituições historicamente cruciais na mediação de
				conflitos e na garantia da subsistência das comunidades. Como isso, os entusiastas
				da “modernização” e dos mercados livres pretendem que “(...) laços de sangue,
				obrigação legal, mandamentos religiosos, vassalagem ou magia [não mais criem]
				situações sociologicamente definidas que garantam a participação dos indivíduos no
				sistema” (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Polanyi, 2012</xref>, p. 95). As noções de
				reciprocidade, do dom e do contradom, desaparecem como categorias centrais na
				relação entre humanos, considerados apenas entes anônimos, padronizados, e movidos
				pela maximização de utilidade. As obrigações recíprocas, a busca da
				complementaridade com o próximo, da cooperação, a solidariedade, e a coordenação de
				ações voltadas para o bem estar coletivo voltavam-se para “minimizar a rivalidade e
				conflito”, e “suas motivações eram não econômicas - por exemplo, o orgulho pelo
				reconhecimento público das virtudes cívicas (....)” (<xref ref-type="bibr" rid="B40"
					>Polanyi, 2012</xref>, p. 99). Nas sociedades em que o espírito da
					<italic>Gemeinschaft</italic> se fazia presente na mediação entre necessidades e
				interesses particulares,</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) a produção e a distribuição de bens materiais [em alguma medida] estavam
					enraizadas em relações sociais de natureza não econômica. Não existia um sistema
					econômico institucionalmente separado, tampouco uma rede de instituições
					econômicas. Nem o trabalho, nem a maneira de dispor dos objetos, tampouco a
					distribuição deles realizavam-se por motivos econômicos, por desejo de ganho ou
					de receber pagamento, ou ainda por medo de passar fome como indivíduo. (<xref
						ref-type="bibr" rid="B40">Polanyi, 2012</xref>, p. 100).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Isso não significa dizer que sociedades institucionalmente organizadas sob forte
				presença da noção de <italic>Gemeinschaft</italic> são igualitárias, ou desprovidas
				de relações de poder. Significa somente que o pertencimento à comunidade é o
				critério fundamental que norteia as relações interpessoais, e não uma suposta noção
				de individualidade por trás das relações entre agentes mutuamente buscando maximizar
				utilidade.</p>
			<p><disp-quote>
				<p>O interesse econômico individual só raramente é predominante, pois a comunidade
					vela para que nenhum de seus membros esteja faminto, a não ser que ela própria
					seja avassalada por uma catástrofe, em cujo caso os interesses são ameaçados
					coletiva e não individualmente. Por outro lado, a manutenção dos laços sociais é
					crucial. Primeiro porque, infringindo o código estabelecido de honra ou
					generosidade, o indivíduo se afasta da comunidade e se torna um marginal;
					segundo porque, a longo prazo, todas as obrigações sociais são recíprocas, e seu
					cumprimento serve melhor aos interesses individuais de dar-e-receber. Essa
					situação deve exercer uma pressão contínua sobre o indivíduo no sentido de
					eliminar do seu consciente o autointeresse econômico, a ponto de torná-lo
					incapaz, em muitos casos (...) de compreender até mesmo as implicações de suas
					ações em termos de um tal interesse (...). O prêmio estipulado para a
					generosidade é tão importante, quando medido em termos de prestígio social, que
					não compensa ter outro comportamento senão o de esquecimento próprio (<xref
						ref-type="bibr" rid="B39">Polanyi, 2000</xref>, p. 65-66).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>A prática da solidariedade - instrumento fundamental na busca do objetivo maior, a
				paz social - era, em maior ou menor grau, “(...) cimentada por uma organização da
				economia que agia para neutralizar os efeitos da disrupção da fome e da busca do
				ganho, ao mesmo tempo em que explorava plenamente as forças socializadoras inerentes
				a um destino econômico comum” (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Polanyi, 2012</xref>,
				p. 105).</p>
			<p>Diante da desintegração dos mecanismos de coesão social, implícita na tentativa de
				impor com a força a autorregulação do mercado, desencadeia-se uma reação de
				proteção, visando salvaguardar a própria substância do humano da possível
				aniquilação. O duplo movimento entre o avanço das instituições sociais promotoras da
				autorregulação e da tentativa de homeostase promovida pela sociedade em sua
				autoproteção contra os efeitos disruptivos da troca utilitária com preços livres,
				resulta, na apreciação de Block, em um resultado híbrido, inquieto e fluido; ele
				reflete a mudança de equilíbrio de poder na disputa discursiva entre esses dois
				princípios organizacionais da sociedade, e, por sua vez, no choque político entre os
				agentes sociais a eles associados (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Block,
				2008</xref>, p. 20).</p>
			<p>Block recorre à dinâmica do duplo movimento com o objetivo de reconstruir uma teoria
				crítica para o século XXI, mostrando sob quais condições (em termos de
					<italic>poder, oportunidade</italic> e <italic>capacidade</italic>) os atores
				sociais podem desafiar e mudar as estruturas institucionais da sociedade de mercado.
				Parece-nos interessante, então, para uma interpretação do pontificado de Francisco
				em termos polanyianos, buscar a relação entre alguns aspectos da proposta
				interpretativa de Block (em particular, sua reflexão sobre a questão da
					<italic>ideologia</italic>) e as considerações já mencionadas de Alberto Sobrero
				a respeito da estratégia de pensamento (e de <italic>discurso</italic>) de
				Polanyi.</p>
			<p>A vitória do mercado não se celebra tanto no plano da realidade dos
					<italic>fatos</italic>, e mais na capacidade de traduzir esses fatos em um
				sistema de <italic>valores</italic>; na habilidade de estender a lógica da
				mercadoria, convertendo a subsistência da “gente comum” em algo a ser realizado nos
				marcos de lógica e expectativas de mercado. Nesse sentido, a oposição à
				comoditização do mundo e à mercantilização das relações sociais não deve interessar
				apenas a uma classe, mas a “diferentes segmentos da população”, no interesse “não de
				uma seção”, mas de toda a sociedade, já que “o desafio é para a sociedade como um
				todo” (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Polanyi, 2000</xref>, p. 186). A alternativa
				polanyiana, portanto, não é entre essa ou aquela classe, e nem mesmo entre
				democracia e totalitarismo, mas entre democracia e ruína de qualquer forma social e
				espiritual. Em jogo está o conjunto, não uma parte dele, e a “vitória” está na
				superação das falsas alternativas colocadas pelo sistema (<xref ref-type="bibr"
					rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p. 270).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Karl Polanyi: pseudofilosofia e paradoxo</title>
			<p>A perspectiva a partir da qual <xref ref-type="bibr" rid="B6">Block e Somers
					(2014)</xref> interpretam a crítica de Polanyi à teoria da luta de classes é
				menos filosófica e mais política. Polanyi nos convida - argumentam - a ampliar a
				análise das relações de produção entre as classes para o campo
					<italic>político</italic>, onde os conflitos se manifestam e produzem
				resultados. A intervenção do poder estatal, através de medidas regulatórias, de
				fornecimento de bens e serviços públicos e de interferência nos fluxos
				internacionais de trabalho, mercadorias e moeda, contribui decisivamente para
				modelar as relações de poder entre os atores sociais. E na base deste raciocínio
				está a convicção de que o sistema de mercado não existe, nem pode existir, sem que a
				ação do governo e o exercício dos poderes coercitivos do Estado cumpram a tarefa de
				produzir e manter a ordem econômica e social<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3"
						>3</xref></sup>.</p>
			<p>Segundo Block, essa é a razão pela qual Polanyi define como “utópica” a visão de um
				sistema de mercado autorregulável, por ser literalmente <italic>impossível</italic>
				de ser tornada real. Sobrero, retomando outro termo de Polanyi, fala de
				“pseudofilosofia”. A organização teórica desses conteúdos ilusórios, por sua vez, dá
				forma à “ideologia”, com a qual se constrói uma determinada compreensão da
				realidade, que esconde suas contradições. Nesse sentido, a ideologia é um recurso
				essencial no confronto entre interesses opostos no duplo movimento, obrigados a
				disputar o consenso dos diversos grupos sociais e o apoio dos responsáveis pelas
				políticas estatais. Graças a esse “mágico” expediente, iniciativas políticas que
				emanam de interesses particulares, oriundos de setores igualmente particulares, são
				legitimadas diante da sociedade, empacotadas em uma atraente visão de desejável
				ordem social.</p>
			<p>Segundo Polanyi, a contradição fundamental da sociedade de mercado reside em sua base
					<italic>fictícia:</italic> na impossibilidade de se fundar em um sistema de
				mercados autorreguláveis, sendo necessária a ação estatal para que se produza e
				mantenha a ordem econômica e social adequada para o funcionamento “natural” do
				mercado. Quando, nos momentos de crise, a contradição aflora, evidenciando o hiato
				entre ideologia e realidade, colapsam as certezas ilusórias das narrativas
				apologéticas que excluem <italic>a priori</italic> qualquer alternativa. São os
				momentos em que a quimera da liberdade ilimitada, prometida pelo mercado, revela-se
				como alienação e solidão. Nessas circunstâncias, estoura a tensão entre
					<italic>fatos</italic> e <italic>valores,</italic> e em favor do contramovimento
				de proteção abrem-se janelas de oportunidade, através das quais reformas podem ter
				sucesso e que atenuem a pressão do mercado sobre a sociedade.</p>
			<p>O engano em que caem todas as ideologias, segundo Polanyi, é o de modelar os fatos
				com suas próprias palavras, para depois trazê-las, como se fossem evidência dos
				fatos. Em vez disso, é necessário voltar das palavras aos fatos, destacando sua
				natureza histórica, processual, relacional e sistêmica (<xref ref-type="bibr"
					rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p. 266).</p>
			<p>Polanyi percebe que na linguagem reflete-se a civilização, se oculta uma concepção de
				mundo. Sua estratégia, então, é a de proceder por contrastes<sup><xref ref-type="fn"
						rid="fn4">4</xref></sup> e agravá-los. Não se trata, no entanto, de escolher
				um extremo a outro, mas de contestar na íntegra a forma histórica que expressa a
				ambos. Novamente, não se trata advogar em nome desta ou daquela parte, mas de mudar
				o discurso; não mediar melhor o jogo entre as partes, mas, por meio de uma teoria
				crítica, redefinir os termos, para poder rejeitar a própria alternativa<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup>.</p>
			<p>Com respeito a Marx e aos liberais, Polanyi não propõe outra utopia a ser realizada,
				uma nova ilusão, um paraíso a ser trazido para a terra, seja ele comunista ou
				consumista. A natureza dicotômica da vida não se resolve, assim como não se resolvem
				suas muitas contradições. Nem a história pode ser parada ou pacificada. Como a vida,
				ela é um sistema em movimento, um território de encontros e confrontos. Torna-se
				claro, então, porque Polanyi quase nunca usa o termo <italic>dialética</italic> para
				descrever a dinâmica do duplo movimento.</p>
			<p>A tensão contínua e exasperada entre <italic>fatos</italic> e
					<italic>valores</italic>, entre o que o mercado faz e o que diz fazer, leva
				Polanyi a preferir o termo <italic>paradoxo</italic>, aquele estado de coisas que
				alimenta seu próprio contrário, no qual toda mediação revela-se impossível. Ele
				propõe, então, uma estratégia discursiva baseada em palavras
					<italic>simples</italic>, que permitam tornar visível o paradoxo e ainda mais
				evidente a possibilidade de superá-lo. Palavras <italic>plurais</italic>, que
				restabeleçam a complexidade dos fatos, que a palavra no singular inevitavelmente
				esconde. Palavras <italic>espaçosas</italic>, nas quais os historiadores possam
				reconhecer a pluralidade de formas, e os políticos os muitos caminhos possíveis
					(<xref ref-type="bibr" rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p. 290).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Neoliberalismo e modernização ecológica</title>
			<p>No último capítulo de <italic>A Grande Transformação</italic>, Polanyi profetiza o
				fim do sistema de mercado autorregulável e a afirmação do primado da sociedade sobre
				a economia, a partir do colapso da sociedade liberal e do mercado mundial durante as
				décadas de crise de 1930 e 1940, imaginando uma nova era em que a humanidade
				escolheria coletivamente re-enraizar os mercados na sociedade, submetendo-os à
				mediação e ao controle coletivo. O sistema monetário-financeiro internacional de
				Bretton Woods e o chamado <italic>embedded liberalism,</italic> corporificado nos
				Estados de bem-estar social, pareceram, por algum tempo, dar-lhe razão.</p>
			<p>Mas a previsão revelou-se errônea e a superação de uma sociedade que insiste em
				agarrar-se à ficção da comoditização e do mercado autorregulado mostrou-se apenas
				temporária. Mesmo com o chamado “liberalismo enraizado”, consubstanciado nos modelos
				econômicos de corte keynesiano e no Estado de bem-estar social do pós-Segunda Guerra
				Mundial, se por um lado impôs-se um forte componente regulatório ao capitalismo, o
				que incluía a regulação ambiental (<xref ref-type="bibr" rid="B33">McCarthy;
					Prudham, 2004</xref>, p. 278), por outro, aprofundou-se a comoditização da vida,
				e em especial, das mercadorias fictícias. Além disso, uma nova mercadoria fictícia
				ganhou contornos tenebrosos no pós-1945: o petróleo. Segundo Steinberg:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Para fazer avançar seus objetivos, o Estado norte-americano tinha de prover uma
					fonte prática de energia, especialmente para ajudar a recuperação dos Estados
					europeus. Isso então facilitou que as companhias internacionais de petróleo
					tomassem o controle de campos de petróleo no Oriente Médio, que permitiram aos
					Estados Unidos - previamente um fornecedor de petróleo para Europa - usar suas
					próprias fontes domesticamente. Isso também lançou as bases para a imensa
					demanda por energia por parte da cultura de consumo com seus carros, plásticos,
					fertilizantes e pesticidas (<xref ref-type="bibr" rid="B46">Steinberg,
						2019</xref>, p. 267).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Assim, em boa medida, o Antropoceno é fruto da Grande Aceleração, e essa última é
				tributária da sacralização laica da ideia de desenvolvimento econômico. “A era de
				ouro do que alguns polanyianos chamam de ‘capitalismo enraizado’ foi a Era do
				Carbono, em que a devastação ambiental avançou a passos largos” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Dale, 2020</xref>, p. 16). Então, mesmo sob todo o
				arcabouço regulatório do capitalismo entre o fim da Segunda Grande Guerra e os anos
				1970, a legitimação de uma dinâmica econômica de expansão, de crescente gasto
				energético e de consumo de matérias-primas, da busca a todo custo de um bem estar
				material de tipo consumista, em níveis crescentes, produziu um estado de coisas em
				que a crise climática apareceria como consequência inevitável.</p>
			<p>A partir do final dos anos 70, o movimento político em direção à legitimação da
				autorregulação (novamente) consegue importantes sucessos políticos na Inglaterra e
				nos EUA, reduzindo drasticamente a progressividade do sistema tributário,
				desmantelando uma parte significativa do sistema de regulamentação financeira e
				cortando os programas sociais para os setores mais pobres. Em particular, desde
				1980, através de uma política agressiva de liberalização do comércio e dos
				movimentos de capitais, a autorregulação impôs-se na cena mundial, com resultados
				políticos significativos<sup><xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref></sup>.</p>
			<p>Do ponto de vista econômico, a hegemonia exercida pela finança sobre a esfera
				produtiva representa a característica principal do novo paradigma neoliberal.
				Contextualmente, o valor desvincula-se do trabalho necessário para produzi-lo, para
				se ligar à informação e ao conhecimento incorporados nas mercadorias<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></sup>. Como afirma Christian <xref
					ref-type="bibr" rid="B28">Marazzi (2010</xref>, p. 54):</p>
			<p><disp-quote>
				<p>O próprio conceito de acumulação de capital não consiste mais, como na era
					fordista, em investimento em capital constante e em capital variável, mas em
					investimento em dispositivos de produção e captação do valor produzido fora dos
					processos diretamente produtivos.</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Do ponto de vista antropológico, assiste-se à transformação ontológica do indivíduo
				em capital humano, um sujeito econômico que faz empresa de si próprio, responsável
				por suas necessidades e escolhas estratégicas. Um sujeito supostamente livre, que
				faz de sua liberdade ferramenta e pressuposto de seu autogoverno (<xref
					ref-type="bibr" rid="B29">Marcenó, 2019</xref>, p. 107).</p>
			<p>O neoliberalismo, então, fez pouco para alterar a degradação climática que já se
				anunciava pela “civilização do petróleo” dos anos 1950-1960, e em verdade contribuiu
				para tornar a crise climática ainda mais acelerada e, definitivamente, fora de
				controle. Nem sempre fica clara a noção de que o neoliberalismo é ele, também, um
				projeto ambiental. Não só é mantida a tendência de uso intensivo de energia e de
				matérias-primas herdada dos modelos de capitalismo regulado das décadas anteriores,
				como se avança no sentido da “privatização dos comuns”, fonte da comoditização da
				terra, segundo Polanyi. Trata-se, sobretudo, de “libertar a natureza” das prisões
				regulatórias, e colocá-la inteiramente sob a égide do mercado autorregulado, o que
				envolve não somente comoditizar a terra e o que há em seu subterrâneo, mas outras
				formas de neomercadorias tais como códigos genéticos, material biológico, cotas para
				a emissão de gases de efeito estufa (mercados de carbono) entre outros<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn8">8</xref></sup>. Reforçando a natureza ilusória da
				autorregulação, e a indisfarçável necessidade de massiva intervenção política para a
				construção de “mercados livres”, afirmam McCarthy e Prudham:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Funções de estado voltadas para deter efeitos social e ambientalmente destrutivos
					provocados pela produção capitalista são escanteadas, atacadas por meio de
					discursos de competitividade econômica nacional, regional e urbana, e
					“reestruturadas” de várias formas, incluindo: (i) privatização através de
					esquemas supostamente baseados em práticas de mercado nunca alheias ao
					fisiologismo (...); (ii) incapacitação através de profundos cortes fiscais e
					administrativos; (iii) re-escalonamento da governança e “esvaziamento” do Estado
					nacional (...) (incluindo a devolução de responsabilidades regulatórias aos
					governos locais sem a transferência proporcional de poder ou capacidade,
					enquanto se aumenta as capacidade regulatórias de instituições internacionais
					com pouca ou nenhuma transparência ou <italic>accountability</italic> (...)
						(<xref ref-type="bibr" rid="B33">McCarthy; Prudham, 2004</xref>, p.
					276).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>A partir do Relatório do Clube de Roma (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Meadows,
					[1972] 1978</xref>), delineia-se uma crítica ao modelo de desenvolvimento, que
				indica no crescimento ilimitado a responsabilidade por uma crise ecológica iminente,
				alertando sobre os riscos de prejudicar as capacidades regenerativas da biosfera.
				Diante da manifestação da questão ecológica, assiste-se, então, a outro “duplo
				movimento”. Por um lado, figuras críticas como Edgar <xref ref-type="bibr" rid="B36"
					>Morin (1973</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B37">1993</xref>), identificam
				na ecologia um novo instrumento de conhecimento e na crise ecológica um ponto de
				vista crítico privilegiado sobre nossa civilização; por outro, à medida que o
				processo de modernização ecológica avança, são gradualmente removidos os temas das
				batalhas ecológicas, culturais e politicamente revolucionárias, estabelecendo o meio
				ambiente como um dos campos do direito e da política. Dessa forma, reconduz-se na
				esfera institucional o componente “aceitável” da crise ecológica, marginalizando o
				mais dissonante em relação ao modelo econômico neoliberal (<xref ref-type="bibr"
					rid="B35">Mol; Spaargen, 2000</xref>, p. 30). É o que Gareth Dale reconhece como
				uma postura “racional-liberal” em relação à questão climática.</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Ela advoga em favor de um capitalismo verde e de um crescimento verde, com
					emissões a serem controladas através de acordos internacionais, investimento
					tecnológico (notavelmente em energia renovável e carros elétricos), e na mudança
					de padrões de consumo. Ela identifica a responsabilidade ambiental corporativa
					como o principal motor da mudança (...). [A postura racional-liberal] fetichiza
					a tecnologia (...), ignora o problema dos efeitos-rebote, e anseia que as
					energias renováveis movam as engrenagens da acumulação de capital (...). A
					lacuna entre seus louváveis objetivos ambientais e seu abjeto fracasso em
					alcançá-los é preenchida pelo pensamento mágico (com relação à promessa da
					tecnologia) e por torrentes de <italic>greenwash</italic> (<xref ref-type="bibr"
						rid="B13">Dale, 2020</xref>, p. 17-18).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>O objetivo dos defensores da postura racional-liberal é de endossar a tese da
				compatibilidade do modelo de desenvolvimento ocidental com a conservação do meio
				ambiente e dos recursos naturais: seria possível, então, manter padrões de consumo e
				gasto energético através do desenvolvimento de novas tecnologias, encomendadas ao
				setor econômico, e da elaboração de novas regulamentações, delegadas ao setor
				jurídico. O resultado, então, é uma visão crítica do modelo de desenvolvimento que
				não consegue se emancipar da dominação da dimensão econômica. O objetivo passa a
				ser, então, de transformar a questão ambiental, de obstáculo à acumulação de
				capital, em uma nova oportunidade de extração de mais-valia (<xref ref-type="bibr"
					rid="B25">Leonardi, 2019</xref>, p. 64).</p>
			<p>O grande ausente na perspectiva da modernização ecológica é um plano propriamente
					<italic>político</italic> que solicite a rediscussão dos princípios e valores
				fundamentais das nossas sociedades e exija reflexões e respostas mais complexas.
				Parece muito arriscado insistir em apostar em soluções técnico-científicas,
				supostamente neutras e objetivas, ou continuar confiando nas ilusórias virtudes de
				autorregulação do mercado. Se a natureza se rebela contra a civilização,
				questionando sua ideia de progresso, sua fé no produtivismo e seu individualismo
				extremo, então a crise ecológica deve ser pensada e interpelada como desafio aos
				paradigmas econômicos, políticos, jurídicos e científicos tradicionais, colocando em
				pauta também a perspectiva de uma descontinuidade radical.</p>
			<p>O apelo a uma transformação nos parâmetros institucionais que fundam as sociedades
				modernas e a desconfiança em relação a soluções tecnocráticas para a crise
				climática, que supostamente permitam manter os sistemas econômicos tal como existem,
				levam autores como <xref ref-type="bibr" rid="B41">Puggioni (2017)</xref>, Reinhard
					<xref ref-type="bibr" rid="B31">Marx (2016)</xref>, <xref ref-type="bibr"
					rid="B13">Dale (2020)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B47">Stuart, Gunderson
					e Petersen (2019)</xref> a discutir em que medida as ideias de Francisco e de
				Polanyi alinham-se com o conceito de decrescimento econômico. A noção de
					<italic>degrowth</italic> surge nos anos 1970 a partir de reflexões sobre a obra
				de Nicholas <xref ref-type="bibr" rid="B20">Georgescu-Roegen (1971)</xref>, fundador
				do campo transdisciplinar da bioeconomia (ou economia ecológica) que busca
				compreender os sistemas econômicos enquanto construtos sociais que funcionam no
				âmbito de ecossistemas. Segundo Dale, “os <italic>degrowthers</italic> advogam em
				favor de mudanças sociais e econômicas fundamentais, incluindo uma acentuada redução
				do consumo nos países ricos e uma mudança da agricultura industrial em direção à
				agroecologia e à permacultura” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dale, 2020</xref>,
				p. 17).</p>
			<p>O fundamentalismo de mercado - em especial em sua face neoliberal - é desafiado pelos
				economistas e ativistas organizados em torno da noção de decrescimento; mas,
				principalmente, o que é combatida é a cristalização ética do conceito de crescimento
				econômico, tornado um bem em si incontestável, axiomático e objetivo a ser alcançado
				a qualquer custo. Entendem então que “(...) o crescimento econômico não pode seguir
				para sempre dados os limites ecológicos e, então, sociedades ricas devem
				intencionalmente contrair suas economias de uma forma socialmente sustentável”
				(Stuart; Gunderson; Peterson, 2019, p. 95). E contrários às críticas que invocam o
				espectro da escassez caso um programa de decrescimento seja adotado, defendem que o
				atendimento às necessidades humanas para o bem viver nunca precisou nem nunca
				precisará de uma economia em crescimento; a obsessão com Produtos Internos Brutos em
				ascensão se deve a outros elementos, já muito distantes da preocupação com uma vida
				digna, saudável e em sintonia com o meio ambiente.</p>
			<p>Dale considera Polanyi um “<italic>degrowther avant la lettre</italic>” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Dale, 2020</xref>, p. 6); de fato, em <italic>A Grande
					Transformação</italic>, o que Polanyi busca sobretudo é, com o diagnóstico da
				crise estrutural provocada pela utopia da autorregulação, buscar caminhos capazes de
				permitir que a civilização das máquinas seja colocada a serviço da
					<italic>Gemeinschaft</italic>, fazendo assim convergirem o desenvolvimento
				tecnológico e a vida comunitária baseada na experiência humana de longa duração.</p>
			<p>Francisco e Polanyi não são primitivistas ou neoludistas no sentido dado por <xref
					ref-type="bibr" rid="B19">Gardenier (2016)</xref>. Buscaram caminhos para
				reconduzir a imaginação, a criatividade e o potencial inovador humano de volta em um
				campo sólido de limites éticos, que enraízem a tecnologia na sociedade, tornando-a
				um instrumento em prol da vida, e não um fim em si mesmo, ou mecanismo de promoção
				da acumulação. É nesse sentido, então, que convergem em direção ao que hoje
				concebemos como a ideia de decrescimento econômico:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>O Papa Francisco rejeita o crescimento em sua condição contemporânea de ser o
					principal objetivo nos debates políticos e econômicos. Estudiosos do
					decrescimento claramente fazem da noção de crescimento seu campo de batalha
					inicial e central, desmascarando suas falhas e sugerindo um caminho para
					mudança. [Tanto os <italic>degrowthers</italic> quanto o Papa] rejeitam o
					reformismo e ambos defendem uma guinada estrutural que envolva ao mesmo tempo
					pessoas e instituições (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Puggioni, 2017</xref>,
					p. 31).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Ainda que não empregue o termo diretamente, em <italic>Laudato Si’</italic>,
				Francisco demonstra extensiva preocupação com os limites ambientais do crescimento,
				critica o fetichismo dos mercados livres, defende a noção de desenvolvimento humano
				integral, crítica a noção de propriedade privada (noção essa que só pode se
				justificar diante de sua função social e da atenção em relação ao meio ambiente), e
				revela amplo ceticismo em relação ao chamado raciocínio tecno-utópico (<xref
					ref-type="bibr" rid="B27">Macaaran, 2021</xref>, p. 70-72; <xref ref-type="bibr"
					rid="B48">Zsolnai, 2017</xref>, p. 68-70).</p>
			<p><disp-quote>
				<p>[Francisco] sabe também que interpretações da Bíblia desgraçadamente levaram a um
					entendimento da relação entre humanos e a Terra em termos de dominação. (....)
					seres humanos precisam usar todo potencial tecnológico para um progresso humano
					socialmente orientado para todos. O que o Papa teme exatamente é a ‘tecnocracia’
					(...). Francisco relaciona negativamente a tecnologia ao crescimento, ou seja,
					[o fato de que] o avanço tecnológico é amplamente visto como válido somente
					quando fomenta o crescimento econômico material e os negócios. (<xref
						ref-type="bibr" rid="B41">Puggioni, 2017</xref>, p. 22)</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Polanyi igualmente não menciona o termo decrescimento, mas as estratégias políticas
				associadas à operacionalização desse conceito decerto</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) se assemelham às proteções adotadas pelo Estado para proteger a sociedade
					da comoditização, como descritas por Polanyi (...). Tal como acontece com as
					medidas de proteção voltadas ao trabalho e à terra, o Estado pode implementar
					políticas para proteger as pessoas e os ecossistemas da mudança climática por
					meio de políticas específicas que restrinjam a emissão de gases de efeito estufa
					(Stuart; Gunderson: Petersen, 2019, p. 96)</p>
			</disp-quote></p>
			<p>A noção de decrescimento econômico passa pela profunda crítica ao paradigma
				fóssil-industrial que orienta as economias modernas, e nela vemos a marca clara do
				contramovimento polanyiano. Segundo Stuart, Gunderson e Peterson (2019, p. 97):</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) o movimento de decrescimento econômico representa um genuíno
					contramovimento polanyiano, uma vez que seus princípios e caminhos podem
					conduzir o re-enraizamento dos sistemas energéticos na esfera socionatural
					(...). Energia pode ser concebida como um bem comum de propriedade e gestão
					coletiva (...). Objetivos sociais e ambientais específicos, em detrimento de
					objetivos econômicos ou mesmo de produção de energia, podem guiar os sistemas
					energéticos (...). A governança seria participativa - conduzida pela comunidade
					(...). E por fim, mudanças de estilo de vida incluiriam a redução do consumo
					energético e a adoção de uma gama de mudanças simples e de baixa tecnologia
					incluindo a caminhada e o ciclismo, uso de design solar passivo para aquecimento
					e resfriamento, isolamento térmico residencial (...).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>O imperativo do crescimento, a acumulação capitalista e o consumismo contemporâneo
				devem, então, ser reconsiderados em sua particularidade e excepcionalidade
				histórica, e não como destino. O fim deste modelo de desenvolvimento não marca o fim
				da civilização; é preciso focar na pluralidade de caminhos que se desenrolam no
				nosso passado, no nosso presente e no nosso futuro, em busca de visões do mundo
				capazes de reconciliar o ser humano com o seu contexto (<xref ref-type="bibr"
					rid="B10">Ciuffoletti et al., 2019</xref>, p. 9).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Francisco: o cuidado da “casa comum”</title>
			<p>Em vista da Conferência do Clima de Paris, no final de 2015, ocasião em que as
				chancelarias tentavam, pela primeira vez, passados vinte anos de negociações,
				assumir um acordo vinculante e universal sobre o clima, Papa Francisco lança a
				encíclica <italic>Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum</italic>, para entrar
				em comunicação com “todos os homens de boa vontade” e renovar o diálogo sobre como
				estamos construindo o futuro do planeta (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Francisco,
					2015</xref>, p. 13). O pontífice propõe uma visão ecológica
					<italic>integral</italic>, do ambiente à sociedade, à cultura, dos desejos aos
				projetos e à espiritualidade. Uma ecologia <italic>integral</italic>, inseparável da
				perspectiva da defesa do bem comum e enraizada na íntima relação entre o cuidado do
				planeta, a solidariedade com os mais pobres, a luta pela justiça social e a
				responsabilidade para com as gerações futuras.</p>
			<p>Francisco convida a humanidade a assumir o “ponto de vista de Deus” sobre a criação e
				solicita aos cristãos que encarem a realidade com o olhar divino, julguem-na com
				base no Evangelho e coloquem em prática ações concretas de transformação. Ver,
				julgar, agir. Adotando o “método da educação democrática”, que conta cinquenta anos
				de prática social cristã na América Latina, o Papa enquadra a crise atual, analisa
				suas causas e avança algumas linhas de ação, inspirando-se na figura de São
				Francisco de Assis, exemplo alegre e autêntico de cuidado devotado ao que é mais
				fraco: aquele que escolheu a pobreza para combatê-la.</p>
			<p>A <italic>realidade</italic>, que para o Papa precede sempre a ideia (<xref
					ref-type="bibr" rid="B17">Francisco, 2013</xref>, p. 175), é o ponto de partida
				da análise dos primeiros capítulos da encíclica. Francisco demonstra ceticismo em
				relação a toda forma de “ideologia” em consonância com a tradição da doutrina social
				católica, especialmente no que diz respeito ao neoliberalismo e sua ficção da
				autorregulação, em que “(...) uma noção específica de lógica econômica (...)
				expressa através da confiança nas forças invisíveis de mercado (...) foi posta acima
				da realidade (...)” (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Marx, 2016</xref>, p. 297).</p>
			<p>Desde a privatização da água até a destruição da biodiversidade, Francisco destaca
				como, nesse descaminho de mercantilização e espoliação ambiental, são sempre os mais
				pobres, os mais fracos e os mais vulneráveis que pagam pelas contradições de nosso
				modelo de desenvolvimento econômico, e são os que mais sofrem pela degradação
				ambiental. O clamor da terra e o clamor dos pobres, então, expressam,
				polanyianamente, a mesma sede de justiça, que ilumina a profunda
					<italic>conexão</italic> entre a fragilidade do planeta e o flagelo da pobreza.
				A opção pelos pobres é, assim, parte desse movimento “em direção ao mundo real”, e
				“distante das ficções” (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Martins, 2018</xref>, p.
				411). Ecologia integral significa, portanto, iniciar um caminho para repensar o
				humano e a sua comunidade, a partir de uma refundação ética, capaz de reconhecer a
				criatividade e o progresso e, ao mesmo tempo, salvaguardar a dignidade dos seres
				humanos. A visão ambiental de Francisco é de importância fundamental em um momento
				em que se reconhece uma crescente e perigosa convergência entre discurso e prática
				ambientalista, e os marcos do pensamento neoliberal.</p>
			<p>Assim, o entendimento da questão social e da questão ambiental como parte de um mesmo
				problema - similar à noção polanyiana de convergência entre mercantilização do
				trabalho e da terra - distingue tanto Polanyi quanto Francisco na constelação de
				ideias a respeito da corrente crise climática global.</p>
			<p>As raízes mais profundas da crise são identificadas no domínio absoluto do paradigma
				tecnocrático sobre a natureza e a vida, brutalmente submetidas ao lucro. Técnica e
				tecnologia se impõem como únicas dimensões para interpretar a existência, com graves
				efeitos em termos de degradação ambiental, ansiedade generalizada, perda de senso da
				vida e da convivência social. O ser humano é chamado urgentemente a responder pelo
				poder que deriva da tecnologia, solicitado a restabelecer uma ética sólida, que o
				contenha “dentro dum lúcido domínio de si” (<xref ref-type="bibr" rid="B18"
					>Francisco, 2015</xref>, p. 82).</p>
			<p>Se a tecnologia despreza a permanência, já que seu reinado é o do tempo curto, da
				novidade e do consumo, a troca entre fé e cultura e o diálogo inter-religioso
				representam, por outro lado, um terreno fértil de longa permanência, onde é possível
				meditar e fazer florescer os compromissos ecológicos, implícitos em toda fé. É
				necessário ligar Deus e natureza - sugere o misticismo sufista - pois a
				espiritualidade caminha em direção à recomposição, e não à separação. Eucaristia
				como casamento entre Deus e o universo - acrescenta a religião cristã. Voltar à
				ideia de um Deus criador, senhor do mundo, intuindo que a <italic>criação</italic> é
				algo mais que a natureza, porque brota dentro de um projeto de amor, no qual cada
				criatura tem um valor e um significado para Deus (<xref ref-type="bibr" rid="B22"
					>Jiménez, 2016</xref>, p. 191). A ênfase não está mais no indivíduo, em seu
				solipsismo angustiante, mas na <italic>relação</italic> com Deus e com a criação,
				dentro de um contexto de amor, a ser cultivado e preservado. O retorno à “casa
				comum”, em companhia dos pobres e dos deserdados, para Francisco, é um caminho de
				alegria e paz.</p>
			<p>Francisco propõe organizar o cuidado com a casa comum através da noção de que humanos
				e não humanos estão unidos em uma relação fraterna, sob o signo da criação divina,
				“uma ordem ecológica orientada em direção à verdade, à bondade, e à beleza” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Flores, 2018</xref>, p. 463). A imagem da
				“fraternidade da criação” invoca a família, e esse elemento tem profundo significado
				se lido sob a lente da análise polanyiana. O Papa claramente sugere uma narrativa
				remitologizante, na qual humanos e não humanos estão unidos pela Terra, na condição
				de mãe. É nítido que “Francisco articula um plano para a solidariedade ecológica que
				se distingue por sua rica visão de relações familiares” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B16">Flores, 2018</xref>, p. 464).</p>
			<p>É essa ecologia relacional, que recorre à imagem fraternal, que Francisco apresenta
				como contraponto à comoditização de toda a existência, consubstanciada na “cultura
				do descarte”, como ele mesmo designa. É notório, ainda, que a arquitetura familiar
				que ilustra a relação entre humanos e não humanos (entendidos como outros seres
				vivos, mas também como entes geológicos) seja a da família extensa, contraposta à
				família nuclear própria do mundo burguês modernizado e ocidental. A família
				extensa</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) incorpora primos, tias e tios, bem como membros da comunidade fora dos
					laços biológicos ou das concepções legais de família (...). Densas redes
					familiares tornam possível (...) distribuir recursos sociais para além dos
					domicílios particulares. Essas relações formam a base de uma comunidade de
					resposta e resistência ás injustiças sociais, econômicas e políticas (<xref
						ref-type="bibr" rid="B16">Flores, 2018</xref>, p. 466).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Assim, humanos e não humanos - que por critérios convencionais pertenceriam a duas
				esferas distintas - formam, segundo o Papa Francisco, uma rede de solidariedade e
				reciprocidade. Note-se, então, que Francisco invoca a imagem da
					<italic>Gemeinschaft</italic> polanyiana, da sociabilidade
				<italic>folk</italic>, como padrão institucional na relação entre a humanidade e a
				natureza não humana, e não a relação utilitária, contratual e impessoal própria das
				sociedades de mercado; vemos, então, uma clara iniciativa de contramovimento, de
				autoproteção da sociedade, entendida em sua dimensão pós-humana. Em relação
				comunitária e familiar com toda a natureza além de si, a humanidade deve pautar-se
				pelos princípios da reciprocidade e do afeto; se a Mãe Terra provê a subsistência
				humana, e permite a operação de uma economia substantiva, é justo e esperado que “os
				seres humanos retribuam os serviços prestados pela biosfera com serviços realizados
				por eles mesmos” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">DeWitt, 2016</xref>, p. 273). Ou
				ainda, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B22">Jiménez (2016</xref>, p. 192):</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) a pessoa humana é responsável por sua própria vida e por suas relações com
					a natureza. Nenhuma outra criatura pode ser feita responsável por suas ações;
					pelo contrário, ao humano sim, ele pode e deve dar conta deles. A mais clara
					recusa em assumir esta responsabilidade é a resposta que Caim dá a Deus depois
					de assassinar Abel, “Por acaso sou guardião do meu irmão?” (Gn 4, 9). O ser
					humano recebeu uma dádiva muito grande para que pudesse dela tirar proveito
					dela, a Terra. No entanto, enquanto cada comunidade pode tirar da bondade da
					Terra o que dela precisa para sua sobrevivência, elas também têm o dever de
					protegê-la e garantir a continuidade de sua fertilidade para as gerações
					futuras.</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Não é fortuita a escolha de Francisco; ela representa uma forma de enquadrar e
				interpretar a relação entre os seres humanos e a natureza não humana que rejeita o
				supremacismo, o especismo e o “antropocentrismo desviante” que marcaram a postura
				das civilizações industriais desde seu nascedouro. O Papa defende uma postura que
				recorre a uma genuína “bioética da esperança” (<xref ref-type="bibr" rid="B22"
					>Jiménez, 2016</xref>, p. 190-192)<sup><xref ref-type="fn" rid="fn9"
					>9</xref></sup> que, através de sua “ecologia integral”, promova o
				“reencantamento do mundo” em contraposição ao utilitarismo simplista proveniente da
				modernização. “Para os cristãos, a fé em Deus definitivamente inclui o amor pela
				criação divina. Aqueles que não amam a criação não podem ser realmente, portanto,
				bons cristãos. A dimensão transcendental-espiritual é então parte e parcela de uma
				ecologia integral” (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Marx, 2016</xref>, p. 305).
				Reencantar, recorrer ao discurso mítico, não implica rejeitar a ciência, muito pelo
				contrário. “Um entendimento integral e transdisciplinar do mundo une ciência aos
				valores humanos e vê o mundo como uma ecologia e economia sistemicamente conectadas,
				com equidade e justiça acessíveis através das ciências naturais e sociais, artes, e
				humanidades” (<xref ref-type="bibr" rid="B48">Zsolnai, 2017</xref>, p. 68).</p>
			<p>Em tempos de crise climática, o Papa busca unir-se ao mundo científico na busca de
				conscientização e transformação, e lançar mão de estruturas míticas na construção de
				uma grande narrativa que reforce um lugar sustentável da humanidade na biosfera.
				Essa narrativa, ao assumir poder institucional (ou seja, de mediação de conflitos e
				de arbitragem na imposição de responsabilidades e concessão de direitos em uma
				sociedade), deve ser capaz então de funcionar como mecanismo de regulação capaz de
				enraizar a economia e os mercados, postos assim a serviço da continuidade da vida no
				Planeta. “Apenas um mercado que é obrigado a respeitar valores pode assegurar que a
				natureza ou os direitos das presentes e futuras gerações serão respeitados” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B31">Marx, 2016</xref>, p. 303). E isso não seria
				reinventar a roda:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>(...) todos os sistemas econômicos conhecidos por nós, até o fim do feudalismo na
					Europa Ocidental, foram organizados segundo os princípios de reciprocidade ou
					redistribuição, ou domesticidade, ou alguma combinação dos três (...). Dentro
					dessa estrutura, a produção ordenada e a distribuição dos bens era assegurada
					através de uma grande variedade de motivações individuais, disciplinadas por
					princípios gerais de comportamento. E entre essas motivações, o lucro não
					ocupava lugar proeminente. Os costumes e a lei, a magia e a religião cooperavam
					para induzir o indivíduo a cumprir as regras de comportamento, as quais,
					eventualmente, garantiam o seu funcionamento no sistema econômico (<xref
						ref-type="bibr" rid="B39">Polanyi, 2000</xref>, p. 75).</p>
			</disp-quote></p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Contrapoder: articulação e credenciamento</title>
			<p>O caminho de análise e reflexão feito até aqui nos fornece alguns elementos, com base
				nos quais podemos buscar uma resposta para a nossa pergunta inicial: é possível
				interpretar determinadas ações empreendidas pelo pontificado de Francisco como uma
				engrenagem da chamada autoproteção da sociedade? Combinando a reflexão de Sobrero
				sobre a contradição entre discurso e prática do mercado (<xref ref-type="bibr"
					rid="B44">Sobrero, 2012</xref>) com a análise de Block sobre as condições, em
				termos de poder e discurso, a partir das quais os atores sociais podem alterar as
				estruturas institucionais da sociedade de mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B5"
					>Block, 2008</xref>), a ideia é tentar decompor a dinâmica polanyiana -
				movimento e contramovimento - ao longo da linha de tensão entre
					<italic>fatos</italic> e <italic>valores</italic>, identificando desta forma
				quatro possíveis campos de análise:</p>
			<p><table-wrap id="t1">
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left"/>
							<th align="center" style="background-color:#d9d9d9;">Movimento</th>
							<th align="center" style="background-color:#d9d9d9;"
								>Contramovimento</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#bfbfbf"
								><bold>Fatos</bold></td>
							<td align="center">Poder</td>
							<td align="center" style="background-color:#a8d08d">Contra-poder /
								Resistência</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#bfbfbf"
								><bold>Valores</bold></td>
							<td align="center">Discurso</td>
							<td align="center" style="background-color:#a8d08d">Contra-discurso /
								Desconstrução</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</table-wrap></p>
			<p>Ao nos concentrarmos na última coluna do quadro, é possível, então, destacar como
				também a dinâmica do contramovimento, que intervém para proteger a sociedade do
				impacto das forças do mercado, vive uma tensão interna entre realidade e
				representação: entre uma ação de <italic>resistência</italic> e oposição material ao
				avanço do processo de mercantilização da terra, do trabalho e da moeda, e uma
				operação intelectual de <italic>desconstrução</italic> e desmascaramento da utopia
				do mercado autorregulado.</p>
			<p>Consideremos as ações de Francisco destinadas a apoiar e credenciar a organização e a
				articulação desde baixo de jovens, fiéis, movimentos sociais e povos indígenas.
				Neste caso, trata-se de iniciativas que, embora lançadas em nível global, tendem a
				produzir resultados políticos dentro das várias realidades nacionais, sem afetar
				significativamente as relações entre os Estados e a dinâmica política internacional.
				Na realização dessas iniciativas, Francisco aposta tanto na solidariedade
				democrática, resultado da ação coletiva e voluntária, inspirada no valor da
				reciprocidade e na ajuda mútua, quanto na solidariedade redistributiva, fruto da
				ação pública em prol do bem-estar, visando garantir a coesão social e reduzir as
				desigualdades sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Laville, 2009</xref>, p. 63).
				Nos dois casos, a partir da mobilização e do exercício do conflito amadurecem
				consciência social e projeto político, ingredientes essenciais para ativar - em
				escala nacional - a dinâmica do contramovimento. Tanto Polanyi quanto Francisco
				acreditam em uma perspectiva de mudança radical, mas não repentina, que se
				desenvolve em termos <italic>homeostáticos</italic>. E também no terreno do
				contradiscurso, o objetivo é bloquear o avanço das forças do mercado; no entanto, a
				estratégia muda: não uma queda de braço, mas uma sutil operação intelectual, para
				desconstruir a utopia do mercado autorregulável, visando desmascarar seu conteúdo
				ideológico.</p>
			<p>Que analogias podemos sugerir na estratégia contradiscursiva de Polanyi e de
				Francisco? Vejamos:</p>
			<p><table-wrap id="t2">
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" colspan="3" style="background-color:#aeaaaa;">Analogias
								encontradas nos contradiscursos de Polanyi e Francisco</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#aeaaaa">Com relação a: </td>
							<td align="center" style="background-color:#aeaaaa">Analogia: </td>
							<td align="center" style="background-color:#aeaaaa">Imagem:</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Origem</td>
							<td align="center">Periferia</td>
							<td align="center" rowspan="2" style="background-color:#a8d08d"
								>Sotaque</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Atitude</td>
							<td align="center">Solidariedade</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Método</td>
							<td align="center">Longa duração</td>
							<td align="center" rowspan="2" style="background-color:#a8d08d"
								>Timbre</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Linguagem</td>
							<td align="center">Paradoxo</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Política</td>
							<td align="center">Liberdade versus Sociedade</td>
							<td align="center" rowspan="2" style="background-color:#a8d08d"
								>Palavras</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Antropologia</td>
							<td align="center">Indivíduo versus Criatura</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</table-wrap></p>
			<p>Passemos então a elas.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Contradiscurso: sotaque, timbre, palavras</title>
			<p>Tanto Polanyi quanto Francisco vivem o imperativo de desarmar a ilusória utopia do
				mercado autorregulável. Para ambos, existe uma relação <italic>reflexiva</italic>
				entre história e teoria: a história gera teorias; as teorias condicionam a história.
				Portanto, é essencial, sobretudo em tempos de crise, vigiar o espaço da
				representação, para desmascarar as ideologias e devolver dignidade aos fatos. Nesse
				esforço constante de desconstrução, talvez seja possível discernir o
					<italic>sotaque</italic> de quem vem das margens do mundo e, tendo alcançado o
				centro, continua querendo ser “descentrado”, de si mesmo e do discurso do poder.
				Polanyi, vindo da <italic>Mitteleurope</italic>, já periferia, faz parte dessa
				geração de intelectuais<sup><xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref></sup> que, de
				repente, com a queda do Império, acharam-se sem história.</p>
			<p>No exílio contínuo, que o tornará cidadão do mundo, passa a maior parte da vida no
				compromisso com a educação dos trabalhadores, de Budapeste a Londres. Bergoglio,
				chamado a Roma desde o “fim do mundo”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn11"
					>11</xref></sup>, traz consigo, do Sul do planeta, toda a potência criativa das
						periferias<sup><xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref></sup>. Ambos
				acreditam no reconhecimento social dos mais humildes - os trabalhadores para
				Polanyi, os pobres para Francisco - como última chance de salvação para uma
				humanidade perdida, prisioneira das ficções do mercado. É com esse discernimento,
				que apostam estrategicamente no empoderamento.</p>
			<p>É a longa duração da pesquisa etnológica que dá profundidade ao <italic>timbre de
					voz</italic> de Polanyi, com a qual denuncia o que o mercado autorregulado não
				é, mesmo pretendendo ser. A perspectiva etnográfica lhe permite dar conta da
				especificidade do sistema capitalista, como novidade recente na história da
				humanidade, que contrasta com milênios de mediação com o meio físico,
				institucionalizada por processos sociais coletivos. Em Francisco, é a longa duração
				de uma sabedoria milenar, capaz de revelar a falsidade da neutralidade do mercado e
				sugerir um caminho de humanização, feito de ternura, gratidão, escuta e diálogo
					(<xref ref-type="bibr" rid="B18">Francisco, 2015</xref>, p. 167). Ressoa em
				ambos o apelo para superar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, reconhecendo a
				antiga lei da subsistência humana, distorcida pelas pretensões dos últimos dois
				séculos, para a qual à natureza é comandada e obediente (<xref ref-type="bibr"
					rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p. 293).</p>
			<p>Voltar à vida, ocultada por trás da univocidade das palavras: Polanyi serve-se da
				lógica do <italic>paradoxo</italic>, com a qual consegue manter aberta a
				interrogação, desafiando a universalidade da ideologia e instando-nos a um salto de
				nível. Por outro lado, responde Francisco, com a prática de um pensamento que aspira
				ser aberto e <italic>incompleto</italic>, esquivando-se de toda síntese. Para
				permanecer em movimento, sem ilusórias pacificações, no caminho de uma eterna
				busca.</p>
			<p>O liberalismo proclamou seus princípios como naturais: que todo humano é por natureza
					<italic>homo oeconomicus</italic>; que o desejo de ganho e lucro pessoal é uma
				disposição natural da espécie; que o mercado autorregulável é uma forma natural de
				troca e, como tal, a base da sociabilidade humana; que a sociedade capitalista é a
				expressão final e mais alta da história. Mas o que aconteceu com a
					<italic>natureza</italic>, vítima do sequestro por parte da retórica liberal?
				Reduzida a dispositivo de legitimação ideológica e despojada de toda fisicidade, a
				natureza é hoje um conceito abstrato, desprovido de substância, sem espacialidade,
				corporalidade e relações.</p>
			<p>Diversamente, na pesquisa etnográfica de Polanyi e nas palavras de Francisco, a
				natureza está sempre <italic>encarnada</italic> na cultura: ela é
					<italic>contexto</italic> e <italic>limite</italic>, capaz de nos conter, de nos
				dar a medida, fonte de sabedoria e maturidade. O pensamento liberal deu origem à
				ilusão de uma liberdade sem limites, mas paradoxalmente é o próprio mercado que
				precisa de regras para gerenciar suas tensões internas: a exploração extrema da
				força de trabalho; o esgotamento acelerado dos recursos naturais; a multiplicação
				perversa da riqueza fictícia. O capitalismo vive na medida em que for possível deter
				essas contradições. No entanto, precisamente em relação ao poder, a ideologia
				liberal espalhou a ideia de um mundo no qual a força não teria mais nenhuma função:
				uma sociedade livre de coerção. No entanto, afirma Polanyi: “O poder e a compulsão
				fazem parte da realidade e não seria válido qualquer ideal que os banisse da
				sociedade” (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Polanyi, 2000</xref>, p. 299).</p>
			<p>O poder existe e é essencial, <italic>in primis,</italic> para garantir o
				funcionamento do mercado autorregulável; no entanto, se o reduzimos a instrumento de
				ordem pública, o esvaziamos de seu valor mais alto, privando-nos da própria
				possibilidade da política, entendida como lugar e ocasião privilegiados para a
				definição do horizonte de desenvolvimento geral da sociedade e para a construção do
				bem comum. Esse é o risco que corre a democracia em uma sociedade burguesa, onde a
				uma teoria econômica abstrata e ilusória corresponde uma ilusória e abstrata prática
				da democracia (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p. 282). Uma
				sociedade e uma economia eficazes precisam de mercados, regulamentação governamental
				e instituições de mediação social. Nesse sentido, Polanyi e Francisco reivindicam
				uma <italic>institucionalidade</italic> que permita à sociedade se empenhar para
				alcançar objetivos políticos coletivos.</p>
			<p>As classes sociais, a partir de interesses econômicos conflitantes, alimentam a
				dinâmica da mudança, mas são incapazes de determiná-la. Pelo contrário, são as
					<italic>instituições</italic>, entendidas como conjunto de mecanismos concretos
				para a realização de objetivos coletivos, o elemento-chave, capaz de promover ou
				bloquear a mudança, de abrir ou fechar desenvolvimentos políticos novos e
				inovadores. E de fazer prevalecer, na tensão perene entre mercado e sociedade, um
				conceito substantivo de liberdade positiva. À utopia liberal de uma liberdade sem
				limites, a qual muitas vezes corresponde uma realidade social de solidão e
				alienação, Francisco responde com o convite a nos reconhecermos como
					<italic>criaturas</italic> de Deus: capazes de relação, cuidado e
						gratuidade<sup><xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref></sup>; conscientes
				da beleza da vida, da inter-relação profunda entre todas as coisas e da riqueza
				inestimável da biodiversidade.</p>
			<p>Descobrir-se como criaturas de Deus, filhos queridos em sua própria singularidade e
				unicidade, destinatários de amor e cuidado, transforma indivíduos solipsistas em
				sujeitos ativos. A partir dessa faculdade de relação e amor, que começamos a
				aprender graças aos cuidados que recebemos na infância, nasce o material social, a
				partir do qual é possível forjar relações de solidariedade e realizar ações que
				nunca se justificariam através de cálculos puramente egoístas. E, desta maneira,
				começar a construir contramedidas coletivas de proteção.</p>
			<p>A antropologia relacional, proposta por Francisco na encíclica <italic>Laudato
					Si’</italic>, converge com as críticas de Polanyi ao individualismo liberal e à
				visão da vida social, como simples conglomerado de átomos, maximizadores de
				utilidade. Ao indicar um caminho para uma vida em plenitude, em equilíbrio
				harmonioso com a natureza viva e não viva, a exortação de Francisco estabelece uma
				relação íntima também com a filosofia e a prática do “<italic>buen vivir</italic>”,
				enraizadas na cosmovisão dos povos indígenas dos Andes. É o reconhecimento comum da
				dimensão <italic>sagrada</italic> da vida na Terra que coloca em relação saberes e
				cosmologias radicalmente diferentes, abrindo a possibilidade de um diálogo
				intercultural em torno da própria ideia de natureza, bem-estar, economia, riqueza,
				humanidade, responsabilidade e sustentabilidade.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Na tentativa de aprofundar a atualidade do pensamento de Karl Polanyi, através da
				análise do pontificado do Papa Francisco, recorremos às trajetórias existenciais e
				intelectuais de duas figuras, que apresentam mais de um traço em comum. A análise da
				obra <italic>A Grande Transformação</italic> e o estudo da encíclica papal,
					<italic>Laudato Si’</italic>, nos permitiram estabelecer uma relação entre
				agenda, estratégias e políticas de Francisco e algumas categorias do pensamento de
				Polanyi. Combinando a tensão contraditória entre realidade e representação, ocultada
				na utopia do mercado autorregulável, com as formas, em termos de poder e discurso,
				através das quais se produz a resposta de proteção do contramovimento, identificamos
				dois campos de interesse, o <italic>contrapoder</italic> e o
					<italic>contradiscurso</italic>, declináveis respectivamente como espaços de
					<italic>resistência</italic> e <italic>desconstrução</italic>, dentro dos quais
				relemos a ação do Papa Francisco.</p>
			<p>A ação de apoio e credenciamento, realizada pelo pontífice em prol da
				auto-organização desde baixo de jovens, fiéis, movimentos sociais e povos indígenas
				- iniciativas de <italic>contrapoder</italic> - pode ser considerada como engrenagem
				do contramovimento, entendido por Polanyi como fenômeno social. Semelhantemente, na
				categoria <italic>contradiscurso</italic>, achamos diversas analogias entre Polanyi
				e Francisco, no que diz respeito a pontos de vista, atitudes, metodologias,
				linguagem, visão política e perspectiva antropológica envolvidas nas duas
				narrativas, e escolhemos três imagens metafóricas - sotaque, timbre de voz e
				palavras -, para apresentá-las. Novamente, os resultados da analise nos levam a
				responder positivamente à pergunta inicial de pesquisa.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>(1)</label>
				<p>Miguel Benasayag, nascido em Buenos Aires, Argentina, em 1946, é um filósofo e
					psicanalista conhecido por suas contribuições profundas e multifacetadas para o
					pensamento contemporâneo. Sua obra abarca uma ampla gama de temas, desde a
					filosofia política até a psicanálise, passando pela ética, epistemologia e
					questões relacionadas à saúde mental. Benasayag emergiu como uma figura
					proeminente no cenário intelectual da América Latina e além, trazendo uma
					perspectiva única e interdisciplinar para suas análises. Um dos aspectos mais
					marcantes de seu trabalho é sua abordagem crítica às estruturas de poder e
					dominação, tanto a nível social quanto psicológico. Ele desafia as normas
					estabelecidas, questionando as relações de poder e as formas como elas moldam
					nossas vidas e identidades. Sua visão engajada e provocativa busca promover a
					emancipação individual e coletiva, inspirando-se em correntes como o pensamento
					crítico e a psicanálise.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>(2)</label>
				<p>O Antropoceno designa uma nova era geológica iniciada entre meados do século XIX
					e o fim da Segunda Guerra Mundial, em que o elemento determinante dos ciclos
					geológicos, climático e bióticos são as sociedades humanas posicionadas no topo
					da pirâmide de poder e riqueza global, com menor participação de sociedades
					semiperiféricas em sua “luta” pelo desenvolvimento de uma ampla base tecnológica
					e industrial. Em suma, no Antropoceno, a economia fóssil-industrial orientada
					pela noção de “desenvolvimento econômico” é entendida como o mais importante
					elemento perturbador dos ciclos geo-biológicos planetários A crise climática e a
					provável “sexta extinção” na história natural do Planeta estão associadas,
					portanto, à dimensão termodinâmica do funcionamento de sociedades humanas
					complexas. Há estudos clássicos sobre o Antropoceno que tendem a minimizar o
					impacto geológico desigual produzido por economias ditas “desenvolvidas” e
					economias na periferia do capitalismo. Entretanto, uma compreensão precisa sobre
					o Antropoceno deve apresentar sensibilidade em relação a problemas típicos da
					Economia Política Internacional, visto que o poder de perturbação geoclimática,
					e, por sua vez, a responsabilidade pela catástrofe ambiental, estão
					assimetricamente distribuídos entre as sociedades em nível global. Para exemplo
					da primeira orientação ver <xref ref-type="bibr" rid="B45">Steffen et al
						(2011)</xref>. Para exemplo da segunda ver <xref ref-type="bibr" rid="B46"
						>Steinberg (2019)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>(3)</label>
				<p>O direito de propriedade, verdadeira instituição do livre mercado, não se impõe
					sozinho, mas exige uma ação política em vários níveis para que seja reconhecido,
					implementado e protegido na sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Block,
						2008</xref>, p. 25).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>(4)</label>
				<p>A oposição liberdade <italic>versus</italic> sociedade torna-se oposição entre
					comunidade e sociedade; entre política e economia; entre o presente, como
					segurança do nosso lugar no mundo, e o futuro, como mudança; entre humanos e
					sociedade de máquinas; entre possibilidade de escolha e consumos de massa.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>(5)</label>
				<p>Polanyi toma como referência Owen e sua capacidade de colocar o problema da
					democracia não de maneira abstrata e parcial, mas como conquista geral no
					contexto dos problemas econômicos, sociais e éticos de um ambiente
					urbano-industrial (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Sobrero, 2012</xref>, p.
					283).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>(6)</label>
				<p>Com respeito a diferenças e semelhanças no funcionamento do duplo movimento na
					fase de hegemonia dos EUA em relação com o período histórico da hegemonia
					britânica, veja (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Silver; Arrighi,
					2003</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>(7)</label>
				<p>Ayse Bugra e Kaan Agartan (<xref ref-type="bibr" rid="B9">2007</xref>) propõem
					considerar o conhecimento como quarta nova mercadoria fictícia.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>(8)</label>
				<p>No âmbito dos estudos polanyianos discute-se em que medida os mercados de carbono
					consistem em uma iniciativa de autoproteção ou de defesa dos mercados
					autorregulados. Acompanhamos aqui a opinião de <xref ref-type="bibr" rid="B47"
						>Stuart, Gunderson e Petersen (2019</xref>, p. 95): “A criação de mercados
					de carbono representa uma manobra defensiva por parte das elites econômicas para
					preservar o status quo e prosseguir a acumulação de capital de uns poucos
					ricos”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>(9)</label>
				<p>A encíclica <italic>Laudato Si’</italic> tem uma nítida dimensão bioética no
					sentido seminal dado ao termo por Fritz Jahr, nos anos 1920. Jahr pensou a
					bioética como uma “busca pelo respeito pelo biológico, pela vida humana, animal
					e vegetal”. Invocou a importância da empatia e da compaixão para com a natureza
					não humana, e, principalmente, a atitude de socorro, de ajuda, de acolhimento a
					animais não humanos e vegetais. Seriam essas atitudes “parte das obrigações
					morais e sociais que os humanos devem uns aos outros”. Jahr compreendia a
					necessidade da aceitação de um imperativo bioético que contrastasse com o
					imperativo moral kantiano, fundamentalmente formal e que desconsidera tudo para
					além dos humanos (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Jiménez, 2016</xref>, p.
					188-190).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>(10)</label>
				<p>Junto com, entre outros, Joseph Schumpeter, Karl Mannheim, Franz Kafka, Karl
					Popper e Ludwig Wittgenstein.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>(11)</label>
				<p>“Bergoglio diz que seus colegas escolheram uma pessoa vinda “do fim do mundo”
					para ser papa. Fin del mundo é uma expressão casual na América Latina, tanto em
					espanhol quanto em português, que as pessoas usam para se referir a regiões que
					são tão distantes que ninguém se importa ou sabe a respeito” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B30">Martins, 2018</xref>, p. 410).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>(12)</label>
				<p>Como contrapartida às classificações de territórios “desprovidos”,
					“desfavorecidos”, “marginalizados”, “excluídos” ou “carentes”, opõe-se ao
					paradigma da ausência, “o poder inventivo” das periferias - traduzido por
					potência, ou pela capacidade de gerar respostas práticas e legítimas, que se
					configuram como formas contrahegemônicas de vida em sociedade (<xref
						ref-type="bibr" rid="B15">Fernandes; Silva; Barbosa, 2018</xref>, p. 8).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>(13)</label>
				<p>Gratuito não significa “de graça”, sem preço, mas refere-se a algo de valor
					infinitamente grande, que nem tem nem pode ter preço.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Bibliografia</title>
			<ref id="B1">
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						Francisco</italic>. Entrevista. 2013. Disponível em: <ext-link
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						>http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/526440-polanyi-tem-mais-afinidade-com-opensamento-da-igreja-entrevista-especial-com-luiz-gonzagabelluzzo</ext-link>.
					Acesso em: 12 jul. 2020.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="webpage">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BELLUZZO</surname>
							<given-names>Luiz.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Polanyi e o pensamento econômico do Papa
						Francisco</article-title>
					<source>Entrevista</source>
					<year>2013</year>
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					jul. 2020.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="webpage">
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							<surname>BENASAYAG</surname>
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						</name>
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					<article-title>Dal Futuro come Promessa al Futuro come Minaccia</article-title>
					<source>Memos: Il promemoria sull’attualità di Radio Popolare</source>
					<date-in-citation>Episódio de 29/01/</date-in-citation>
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					<date-in-citation content-type="access-date">Acesso em 12 jul.
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				<mixed-citation>BIANCHI, Enzo. L’enciclica Laudato Si’. <italic>Incontri a Palazzo
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				<element-citation publication-type="webpage">
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					<article-title>L’enciclica Laudato Si’</article-title>
					<source>Incontri a Palazzo Ducale</source>
					<year>2015</year>
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					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date">Acesso em: 12 jul.
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					<source>Karl Polanyi y la hybris economicista de la Modernidad</source>
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						<collab>CONVERSATORIO Karl Polanyi: crítica política y económica ante la
							descomposición mercantil del mundo</collab>
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