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                <journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
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                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="epub">1982-3533</issn>
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                <publisher-name>Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas;
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1982-3533.2025v34n1.260181</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00004</article-id>
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					<subject>Artigo original</subject>
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				<article-title>Gênese e expansão dos agentes do transporte rodoviário de carga no
					Brasil</article-title>
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					<trans-title>Origin and expansion of road freight transport agents in
						Brazil</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-1286-2295</contrib-id>
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						<surname>Huertas</surname>
						<given-names>Daniel Monteiro</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1">**</xref>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal de São Paulo</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Departamento Multidisciplinar (Eixo
					Comum)</institution>
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					<named-content content-type="city">Osasco</named-content>
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				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>dmhuertas@unifesp.br</email>
				<institution content-type="original">Professor adjunto do Departamento
					Multidisciplinar (Eixo Comum) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
					Osasco, SP, Brasil</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p><italic>Fabio Antonio de Campos</italic></p>
				</fn>
			</author-notes>
			<!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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                <month>12</month>
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                <year>2025</year>
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			<volume>34</volume>
			<issue>1</issue>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo pretende demonstrar, em uma perspectiva histórica, como o rápido
					crescimento do transporte rodoviário de carga (TRC), a partir dos anos 1930,
					pode ser considerado um elemento fundamental para a compreensão da substancial
					alteração na matriz de transportes do Brasil, consolidada duas décadas depois.
					Originado ainda no seio de um contexto dominado pelo sistema ferroviário, o TRC
					foi impulsionado com a criação do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem
					(DNER), em 1937, e a respectiva implantação de uma Seção de Tráfego, em 1945,
					que desempenharam papel relevante para organizar e regulamentar o setor, cuja
					representatividade empresarial aumentou exponencialmente com o surgimento da
					Associação das Empresas de Transportes Rodoviários de Cargas (NTC), em 1963, na
					capital paulista. Durante a ditadura civil-militar (1964-85), o empresariado em
					questão ganhou musculatura operacional e consciência de classe, agindo
					diretamente em prol de seus interesses e na defesa do rodoviarismo. Mas, ao
					caminhoneiro autônomo, conhecido em tempos pretéritos como carreteiro, não foram
					constatkkadas conquistas de relevo, mantendo esse importante agente à margem dos
					ganhos reais de todo o sistema e submetido aos desígnios das empresas
					transportadoras.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This article aims to demonstrate, from a historical perspective, how the rapid
					growth of road freight transport (TRC, acronym in Portuguese), from the 1930s
					onwards, can be considered a fundamental element for understanding the
					substantial change in Brazil's transport matrix, consolidated two decades ago.
					Originated even in a context dominated by the railway system, the TRC was driven
					by the creation of the National Department of Highways (DNER, acronym in
					Portuguese), in 1937, and the respective implementation of a Traffic Section, in
					1945, that played an important role in organizing and regulating the sector,
					whose business representation increased exponentially with the emergence of the
					Association of Cargo Road Transport Companies (NTC), in 1963, in São Paulo.
					During the civil military dictatorship (1964-85), the business community in
					question gained operational muscle and class consciousness, acting directly in
					favor of its interests and in defense of <italic>rodoviarismo</italic>. However,
					the autonomous truck driver, known in the past as a <italic>carreteiro</italic>,
					has not seen significant achievements, keeping this important agent at the
					margin of the real gains of the entire system and subject to the designs of the
					transport companies.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Transporte rodoviário de carga</kwd>
				<kwd>Organização empresarial</kwd>
				<kwd>Matriz de transportes</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Road freight transport</kwd>
				<kwd>Business organization</kwd>
				<kwd>Transport matrix</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
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            </counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>O “automobile”, grande sensação da Exposição Universal de Paris, realizada em 1889,
				rapidamente seria submetido a uma inovação que contribuiria para otimizar a relação
				custo-benefício do transporte de mercadorias por veículos automotores: o
						semirreboque<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup>. A invenção é
				creditada ao marceneiro e ferreiro estadunidense August Charles Fruehauf, filho de
				imigrantes alemães, radicado em Fraser, Michigan. Em 1914, ele aceitou a encomenda
				para construir uma carroça reforçada a ser acoplada ao Ford T, utilizando os mesmos
				chassis e motor do veículo, mas com toda a traseira removida e substituída por uma
				prancha apoiada em um eixo extra, transformando-se numa espécie de mini-picape
					(<xref ref-type="bibr" rid="B3">Anfir, 2015</xref>).</p>
			<p>A geringonça consegue viajar cerca de 600 km com um barco de madeira na “carroça
				improvisada”, demonstrando que o custo por tonelada seria reduzido pela metade se
				comparado ao transporte por caminhão convencional. No início, Fruehauf sofreu forte
				resistência tanto de Henry Ford quanto dos fabricantes de caminhões, mas sua
				empresa, <italic>Fruehauf Trailers</italic>, havia crescido exponencialmente com o
				lema “um cavalo pode puxar muito mais do que pode carregar”.</p>
			<p>Pouco tempo depois, tornou-se concessionário de nova empresa, a <italic>Martin
					Rocking Fifth Wheel -</italic> que tinha permissão para utilização da quinta
				roda, tornando fácil e prático o uso dos semirreboques -, pioneira na construção de
				semirreboques frigoríficos, de alumínio, aço inox, tanques para líquidos e gás,
				guinchos, carrocerias com elevadores hidráulicos e cegonhas<sup><xref ref-type="fn"
						rid="fn2">2</xref></sup> para transporte de automóveis (<xref
					ref-type="bibr" rid="B3">Anfir, 2015</xref>). Dessa forma, o transporte
				rodoviário estaria totalmente preparado para se tornar um ágil e eficaz instrumento
				de distribuição de mercadorias.</p>
			<p>Este artigo pretende demonstrar como se deu a origem e a expansão do transporte
				rodoviário de carga (TRC) no Brasil, levando-se em consideração que a atividade
				evoluiu na mesma medida da ocorrência do rodoviarismo no país, levada a cabo, em um
				momento inicial, por agentes particulares geralmente ligados à elite cafeeira
				paulista e a alguns fervorosos defensores da causa radicados no Rio de Janeiro
					(<xref ref-type="bibr" rid="B21">Grandi; Huertas, 2023</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B35">Sávio, 2014</xref>). Consideramos o rodoviarismo como
				todo o conjunto de ações e objetos direta e indiretamente relacionados aos vários
				elementos componentes do modal rodoviário (construção e pavimentação de estradas de
				rodagem, veículos, petróleo, políticas públicas, investimentos, base normativa,
				engenharia, mentalidade, entre outros), cuja compreensão demanda a análise de
				aspectos conjunturais e estruturais, técnicos e políticos, que tornaram possível a
				sua emergência, expansão e consolidação no Brasil, com profundos impactos em sua
				configuração territorial. Ou seja, o rodoviarismo precisa ser enquadrado na ótica da
				economia política e, mais além, envolvida por um conjunto simbólico e ideológico que
				remete à típica modernidade da 2ª Revolução Industrial - o entrelaçamento da
				indústria do petróleo com os valores ligados à velocidade e capilaridade territorial
				(transporte porta-a-porta).</p>
			<p>Segundo Rocha (apud Lagonegro, 2007, p. 40, grifo do autor), o rodoviarismo, ou
					<italic>ideologia rodoviarista</italic>, precisa ser entendido como “um projeto
				coletivo de adoção de um novo meio de transporte, o automóvel, que exigiu inovações
				técnicas, institucionais e sociais para sua viabilização”. Para eliminar outras
				modalidades e impor os interesses de seus adeptos, esta ideologia “induziu a
				formação de grupos de pressão política” e foi “assimilada pela administração pública
				da cidade, do estado de São Paulo e depois do país”, cuja “implantação e conservação
				do sistema viário tornaram-se <italic>programa tácito de governo</italic>,
				refratário a discussões, críticas ou alternativas”. Desse modo, presidiu “a formação
				do complexo <italic>automobilístico-rodoviário</italic>, conjunto de interesses em
				que assomam a produção automobilística, a indústria petroquímica e a construção
				pesada, os setores mais protegidos pelo Estado brasileiro” (Lagonegro, 2007, p. 40,
				grifos do autor).</p>
			<p>O período de quase 11 anos compreendido entre a queda do Estado Novo e a posse do
				presidente Juscelino Kubitschek, em 1956, representa um ponto de inflexão para o
				sistema de transportes brasileiro, pois é exatamente quando o modal rodoviário se
				impõe na matriz de transportes do país. Em 1950, a composição da matriz de
				transporte de carga do país já evidenciava o fato, com 38% do total movimentado pelo
				modal rodoviário, 32% pela cabotagem e 29% pelo ferroviário (<xref ref-type="bibr"
					rid="B37">Silva Jr., 2004</xref>). Nesse sentido, o TRC, e o caminhão por
				excelência, tiveram um significado que extrapola as questões técnicas, pois havia
				uma ampla demanda reprimida para este tipo de veículo, e muita quilometragem para
				rodar em um país de dimensões continentais e ainda carente de capilaridade
				territorial, em todas as escalas. Dessa forma, a alavancagem empreendida pelos
				agentes do TRC a partir dos anos 1930, no plano organizacional e político, precisa
				ser compreendida como um fato nevrálgico para a supracitada alteração da matriz de
				transportes do país, que acabaria consolidando o modal rodoviário, tanto para carga
				quanto para passageiros, como o seu dínamo mais relevante.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Momentos iniciais do TRC no Brasil</title>
			<p>Em um contexto amplamente dominado pelo transporte ferroviário, em 1916 surgiu a
				primeira organização dos transportadores de carga do Brasil, o Centro de
				Proprietários de Caminhões e Carroças do Rio de Janeiro. Seis anos depois foi criado
				o Centro de Proprietários de Veículos de Santos, dedicado à seleção, embalagem e
				transporte de café em grão até o porto da cidade. Era uma época, como nos explica
					<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria (1987</xref>, s.p.), que “proprietários
				de caminhões e carroças estavam ligados por interesses comuns”, totalmente
				submetidos aos horários e regulamentos das ferrovias. Apesar do advento do caminhão
				(muitos com armação coberta de lona), a carroça ainda era bastante utilizada como
				veículo transportador de mercadorias. Para se ter uma ideia, o chefe do Setor de
				Transportes da Mappin Stores, tradicional loja de departamentos na capital paulista,
				era o carroceiro Vicente Sgarro (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria,
					1987</xref>, s.p.).</p>
			<p>Diante do crescimento do mercado de transporte rodoviário, em 1933 foi criado o
				Sindicato de Transportadores Rodoviários do Rio de Janeiro. Na capital paulista não
				seria diferente. Em 14 de setembro de 1934, cinco empresários (Nívio Ribeiro dos
				Santos, Manoel Alonso, Manoel Diegues, Domingos Nastromagório e Carlos Froes)
				reuniram-se para esboçar uma entidade que pudesse organizar e defender os interesses
				do nascente setor. Assim, numa pequena sala na Rua Mauá, n. 135, ao lado da Estação
				da Luz, foi fundado o Sindicato dos Transportadores Rodoviários do Estado de São
				Paulo (Setcesp), que no final daquele ano já contava com 46 sócios matriculados -
				embora apenas 23 quitaram pontualmente as mensalidades e 15 nunca haviam pagado.</p>
			<p>Mas as atividades só ganharam força com a adesão de transportadores da linha São
				Paulo-Santos, que se juntaram ao grupo em uma reunião na sede da Empresa de
				Transportes Brasileiros, no Brás, em 26 de janeiro de 1936. Esta é a data de
				fundação considerada oficial pela categoria, que firmou um acordo entre si para
				organizar os serviços de ida e volta no percurso para Santos, com compromissos,
				normas e condições pré-estabelecidas de preço. “Era medida precursora, estabelecendo
				um padrão ético e comercial, para evitar conflitos e prejuízos de concorrência
				descontrolada e irracional” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>,
				s.p.).</p>
			<p>O convênio determinou que o preço mínimo do frete para Santos seria entre 35 e 40
				réis por quilo, e entre 40 e 50 no sentido contrário. Prezou pelo respeito aos
				clientes de cada transportadora (válido apenas para os signatários do documento) e
				recomendou que os valores dos fretes praticados não redundassem em prejuízo no caso
				de livre negociação com clientes novos. Previu, também, assistência recíproca sempre
				que possível (nos casos de excesso de carga, por exemplo), prestação de socorro e
				comunicação entre si de ações de funcionários tidas como desabonadoras (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>).</p>
			<p>Neste momento inicial, algumas conquistas foram obtidas, como a liberação da licença
				especial municipal para operar fora dos horários previstos em lei para as casas
				comerciais, o relaxamento do horário de entrada e saída em Santos e o reconhecimento
				pela Cia. Docas de Santos (proprietária do porto), que recusava o armazenamento das
				cargas transportadas por empresas rodoviárias. Em 1937, foi fundado o Sindicato das
				Empresas de Transporte de Carga de Santos e, em 1939, o Ministério do Trabalho,
				Indústria e Comércio reconheceu o Setcesp como entidade sindical patronal do setor
					(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>).</p>
			<p>Mas a principal batalha dos empresários rodoviários ocorreu durante a Segunda Guerra,
				contra as discriminações da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB), “que obstava
				o carregamento e não fornecia vagões para várias transportadoras”, privilegiando
				apenas a Empresa Nacional de Transportes e a Empresa de Transportes Flecha de Ouro
					(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>, s.p.). Em uma época de
				racionamento de combustível e limitação de viagem a 150 km, os transportadores
				“ficavam subordinados à política ferroviária”, com denúncias de abusos e pressões
					(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>, s.p.). Ou seja, na
				prática não podiam carregar e descarregar na linha São Paulo-Rio.</p>
			<p>A ação do sindicato santista já havia conseguido, perante o governo federal, uma
				distribuição de senhas para entrega de combustível, vendido pelo preço oficial. A
				briga para anular o monopólio praticado pela EFCB, segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B16">Diaféria (1987)</xref>, seria fundamental para a união dos
				transportadores, aglutinando-se numa causa comum, além da campanha de isenção do
				imposto estadual.</p>
			<p>É interessante notar que desde os seus primórdios o transporte rodoviário de carga no
				Brasil registrou como ícone de sua expansão o empreendedorismo do pequeno
				transportador, identificado como motorista ou caminhoneiro autônomo. Uma primeira
				iniciativa de regulamentação dos agentes do transporte rodoviário de carga aparece
				entre as recomendações do VII Congresso Nacional de Estradas de Rodagem, de 1939,
				que sugere uma orientação no sentido da concessão ou licenciamento das empresas
				mediante um estudo prévio da conveniência das linhas, além de uma melhor definição
				quanto à obrigatoriedade do seguro contra os riscos de responsabilidade civil,
				aprovação das tarifas e horário de trabalho do pessoal empregado (<italic>A
					Rodovia</italic>, n. 7-8, 1939). Em 1942, o advogado Geraldo Nosé, então
				funcionário do Setcesp, redigiu a minuta de um projeto de regulamentação da
				atividade, que chegou a ser entregue a Lourival Fontes, chefe do Gabinete da
				Presidência da República. Mas não houve resposta do governo federal (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>, s.p.).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Expansão dos agentes do transporte rodoviário de carga e primeira tentativa de
				regulamentação do setor</title>
			<p>Até meados da década de 1940, a maioria das empresas do embrionário segmento não
				possuía frota própria, sendo comum recorrer ao serviço do autônomo. A supremacia do
				caminhão, portanto, fundou-se na livre iniciativa de pequenos e médios empresários
				(Ziegler; Russo <italic>apud</italic>
				<xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron, 2012</xref>), e décadas de coexistência
				entre autônomos e empresas acabaram por potencializar o mercado de carga em
				condições de livre concorrência (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron,
				2012</xref>).</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B36">Senço (1975</xref>, p. 3), a predominância do
				modal rodoviário sobre os demais conduziu a uma situação <italic>sui
					generis</italic>, criadora de um novo tipo de transportador: “[...] o
				carreteiro, o motorista que adquire caminhão e aluga seus serviços às grandes
				empresas de transporte ou, também, que pratica o comércio independentemente,
				adquirindo as mercadorias diretamente na fonte e entregando-a diretamente nos
				centros de consumo”. Está aí, portanto, a origem tanto do autônomo quanto do
				distribuidor. Ziegler e Russo (apud <xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron,
					2012</xref>) lembram, ainda, que a figura do “agenciador dos caminhoneiros” já
				aparece nos anos 1940 como um intermediário entre o comércio e o transportador.</p>
			<p>A região que engloba as serras gaúcha e catarinense, de colonização italiana, é
				reconhecidamente um “berço de caminhoneiros”, pois era prática comum o colono vender
				um lote para comprar um caminhão como uma das possibilidades de crescimento. A
				prática acabou gerando uma identidade, além de proporcionar o nascimento de muitas
				médias e grandes empresas transportadoras, que começaram com autônomos -
				posteriormente lançados à categoria de empresários (<xref ref-type="bibr" rid="B23"
					>Huertas, 2018</xref>). .</p>
			<p>É preciso chamar a atenção para um limiar na divisão social do trabalho que acabaria
				gerando situações específicas entre os motoristas, sobretudo a partir dos anos 1940:
				a sua existência como motorista assalariado, “em uma ‘condição proletária’ na
				prestação de serviço como empregados” (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron,
					2012</xref>, p. 37), ou como caminhoneiro autônomo, fator central nas relações
				de produção. Ainda sob a ótica capitalista, o crescimento empresarial do transporte
				rodoviário de carga deve ser demarcado por duas formas fundamentais de
				empreendimento, “ou se constituindo como empresa [...] que distingue capital e
				trabalho ou como um autônomo enquanto empreendedor individual” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B27">Kapron, 2012</xref>, p. 41-42).</p>
			<p>A reorganização do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER)<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></sup>, em 1945, criou a Seção de Tráfego,
				com atuação específica na área do transporte de passageiros e de carga, com poderes
				para fiscalizar e exercer o papel de polícia das estradas federais, além de
				estabelecer normas para concessão de transporte coletivo de passageiros -
				“Instruções para o licenciamento em caráter precário de veículos de transporte
				coletivo nas estradas de rodagem federais”. Na prática, as empresas tornaram-se
				permissionárias do serviço (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Brasil,
				1976</xref>).</p>
			<p>Quanto ao transporte rodoviário de carga, uma primeira forma de organização de nível
				nacional havia sido constituída em 12 de janeiro de 1954, quando um grupo de
				empresas transportadoras e de autônomos criou a Confederação Nacional dos
				Transportes Terrestres (CNTT), no Rio de Janeiro. Diz a ata de fundação:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>País de vasta extensão territorial até hoje, ou melhor, até ontem, se vira
					privado de um organismo que reunisse os transportes rodoviários, cujos serviços
					que vêm sendo prestados à Nação têm sido os mais relevantes, cobrindo as lacunas
					de outras atividades econômicas e propiciando a movimentação da riqueza em bases
					econômicas.</p>
				<p>[...]</p>
				<p>Se até hoje o nosso parque rodoviário tinha crescido tanto, isso se devia à
					coragem de bons brasileiros, que com a sua iniciativa particular, sem contar com
					qualquer apoio governamental, já que leis específicas para as suas atividades
					inexistem, com a criação da Confederação só podia ver dias melhores com um maior
					desenvolvimento, e também a solução de todos os nossos problemas de comunicação,
					já que em grande parte os mesmos dependiam de um órgão capaz de centralizar toda
					essa força econômica, em prol de um Brasil melhor (apud <xref ref-type="bibr"
						rid="B15">Castro; Ribeiro, 2014</xref>, p. 18-19).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Em 28 de janeiro de 1954, o decreto n. 34.986 reconheceu a CNTT como entidade
				sindical de grau superior e área de atuação em todo o território nacional<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></sup>. Os interesses do setor ficaram mais
				evidentes durante o 1º Congresso Nacional de Transportes Rodoviários, realizado em
				1960, em São Paulo, com foco no debate sobre a responsabilidade civil do
				transportador quanto à carga de terceiros, numa possível tabela referencial de
				fretes e na definição de rotas que orientariam um futuro Plano Rodoviário Nacional.
				A atuação incisiva das empresas transportadoras, em franco processo de crescimento
				por todos os cantos do país, contribuiu para que o caminhão assumisse a liderança do
				transporte de cargas em nível nacional, deixando o modal ferroviário em segundo
				plano. Em 1963, foi fundada na capital paulista a Associação das Empresas de
				Transportes Rodoviários de Cargas (NTC), com o intuito de se tornar o principal
				canal de acesso da classe empresarial às instâncias governamentais e à sociedade
					(<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC, 1965</xref>). No mesmo ano, em uma primeira
				tentativa de regulamentação do setor, o decreto n. 51.727, de 20 de fevereiro,
				instituiu no âmbito do DNER o registro e cadastramento das empresas e dos veículos
				autônomos de carga, cujos agentes eram divididos em cinco categorias: (i) empresas
				de transporte; (ii) carreteiros; (iii) transportadores autônomos; (iv) empresas de
				carga própria e (v) agenciadores de carga.</p>
			<p>Nota-se que a categoria dos autônomos também já era reconhecida pelo governo federal,
				pelo menos do ponto de vista administrativo, pois a realidade que se impunha à
				exploração dos sertões e à expansão das fronteiras agrícolas, simultaneamente ao
				crescimento urbano-industrial de largas zonas do país, também favorecia o movimento
				empreendedor individual a bordo de um caminhão de propriedade própria, fato que
				acabou se tornando uma atividade econômica cada vez mais comum e volumosa.</p>
			<p>Para Pierre <xref ref-type="bibr" rid="B29">Monbeig (1998</xref>, p. 364), foi um
				fator de consolidação da sociedade urbana pela introdução na sociedade de novos
				elementos: o motorista, “que muitas vezes é o proprietário do caminhão, pequeno
				artesão que consolida a classe média em suas camadas menos abonadas”, e o grande
				empresário de transporte, “que se enriqueceu depressa, constrói imóveis, compra
				fazendas e se torna um personagem muito importante”.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Crescimento vertiginoso do mercado e da organização empresarial do transporte
				rodoviário de carga</title>
			<p>Simultaneamente à construção de novas rodovias, o contexto era altamente favorável
				para a criação de inúmeras empresas de transporte rodoviário de carga, que se
				tornariam elos materiais do feixe de objetos e ações que tomavam conta do corpo do
				país, e um grande movimento de organização empresarial começava a surgir. “Foi em
				torno do problema da concorrência que os transportadores resolveram tentar uma
				aproximação e promover preços mais justos, a partir do final da década de 50”
				(Ziegler; Russo apud <xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron, 2012</xref>, p.
				76).</p>
			<p>O grande marco do setor empresarial naquela conjuntura foi o 2º Congresso Nacional do
				Transporte Rodoviário de Cargas, realizado na capital paulista entre 17 e 24 de maio
				de 1965, que agregou os empresários de todo o país em torno da recém-criada NTC. O
				ministro dos Transportes, Mário Andreazza, presidiu a abertura solene do evento, que
				contou com uma conferência de Eliseu Resende, diretor-geral do DNER. Na sessão de
				encerramento, diante de 762 presentes, o discurso de Attilio Giacomelli, gerente
				executivo da NTC, é esclarecedor e carregado de psicosfera - segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B34">Santos (2004)</xref>, trata-se do reino das ideias,
				crenças, paixões e lugar da produção de um sentido, fornecendo regras à
				racionalidade ou estimulando o imaginário -, pois os transportadores brasileiros
				“demonstraram estar em condições de enfrentar a nova soma que está por vir em futuro
				bem próximo”:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Por isto, o II Congresso [...] chega a seu termo enchendo de júbilo todos os
					transportadores brasileiros. E o Brasil todo esteve presente. Desde o longínquo
					estado caçula do Acre e o distante território de Rondônia ao bravo Rio Grande do
					Sul, sem que se permitisse uma só exceção. Aqui vieram delegações
					representativas do sistema rodoviário de cargas de todos os quadrantes
					participar dos estudos, atuar nos debates, sugerir, colaborar e decidir
					(Giacomelli apud <xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC, 1965</xref>).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>É interessante notar como, territorialmente, as entidades empresariais do setor já se
				esparramavam pelo país. A NTC, coordenadora e supervisora do evento, declarava-se de
				âmbito federal. Ao seu lado, compuseram a comissão organizadora do congresso os
				sindicatos das empresas de transporte rodoviário de carga dos Estados da Bahia,
				Guanabara, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo - este é tido como de empresas de
					<bold>transporte interestadual</bold> de carga, fato que por si só demonstra o
				papel do Estado como pólo dinâmico da economia nacional -, além de associações do
				Pará, Pernambuco e de Barra Mansa/Volta Redonda (RJ).</p>
			<p>O regime interno do Congresso previu, em seus artigos 11 e 12, a representação de
				todos os Estados e territórios e do Distrito Federal, com indicação de delegados de
				sindicatos, associações e federações de classe, representações estaduais e da CNT. O
				artigo 15 dispôs sobre as representações das Unidades da Federação, com 13
				preestabelecidas. Maranhão, Piauí, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Espírito Santo, Mato
				Grosso, Acre-Rondônia (em conjunto) e Amazonas aparecem a título de “representação
				estadual”, sem distinção de entidade representativa. Os então territórios federais
				do Amapá e Roraima não são citados.</p>
			<p>O evento ainda contou com 39 observadores cadastrados, dos quais 4 relacionados a
				empresas ferroviárias (Cia. Paulista, Mogiana, Santos-Jundiaí e RFFSA) e 4 a
				montadoras de veículos automotores (Fábrica Nacional de Motores, GM, Mercedes-Benz e
				Scania-Vabis). A pauta do Congresso, extensa e abrangente, debateu e analisou temas
				que demonstram a preocupação do empresariado com elementos considerados peças-chave
				de sua engrenagem técnica, financeira e política (<xref ref-type="bibr" rid="B7"
					>NTC, 1965</xref>).</p>
			<p>Todo esse cabedal gerou resoluções específicas para cada tema debatido,
				posteriormente ajustado em um conjunto de oito indicações aprovadas em plenário.
				Dentre elas, cabe destacar a recomendação às matrizes e filiais das empresas no
				sentido de apoiar as entidades de classe em suas respectivas regiões; a criação de
				uma comissão incumbida de estudar uma regulamentação para o setor e a constituição
				de uma comissão, a cargo da NTC, para entregar ao presidente da República as
				resoluções finais aprovadas. Fica visível, pois, a consolidação de um sentimento de
				classe entre os empresários do transporte rodoviário de cargas, justificada pelo
				crescente papel da atividade na economia nacional. “O que seria este
				país-continente, nos dias de hoje, do ponto de vista econômico e social, se não
				tivesse surgido e logo se desenvolvido a passos largos o transporte rodoviário,
				apesar da tímida rede de estradas pavimentadas que possuímos?” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">NTC, 1965</xref>, p. 116).</p>
			<p>Além da estagnação da cabotagem e do sistema ferroviário, a classe trouxe a público
				dados que realmente demonstravam a rápida e forte expansão do transporte rodoviário
				de carga em meados da década de 1960 (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC,
					1965</xref>):</p>
			<list list-type="bullet">
				<list-item>
					<p>Dos 3.700 municípios do país, apenas 1.131 eram servidos pelos sistemas
						ferroviário, fluvial e/ou marítimo e “de forma desalentadoramente incipiente
						e altamente onerosa aos cofres públicos e, por que não dizer, também ao
						bolso do povo” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC, 1965</xref>, p.
						116);</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Circulação de cerca de 70% dos bens de produção e consumo pelo sistema
						rodoviário;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Em junho de 1964, o país possuía 686.597 veículos de carga, com mais de 3 mil
						empresas, “com agências e filiais nos mais diversos e longínquos municípios
						do país” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC, 1965</xref>, p. 116);</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Mais de 1 milhão de empregados dedicados ao transporte rodoviário de
						cargas;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Com dados colhidos de mensagem presidencial ao Congresso Nacional (edição de
						2 de março de 1965 do diário do Congresso, fls.60), o crescimento do
						transporte rodoviário no período 1950-63 foi na ordem de 100 para 577,
						enquanto o sistema de transportes como um todo registrou elevação de 100
						para 338.</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>A força da representatividade do empresariado da atividade é expressa na primeira
				resolução do tema “projeção pública da classe”, na qual se recomenda a todas as
				entidades da classe e empresas que “procurem divulgar o sistema de transporte
				rodoviário de carga junto ao público e às autoridades, visando formar uma imagem
				realística de sua atividade econômica e estabelecer em clima de boa receptividade e
				compreensão para com os problemas da classe” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC,
					1965</xref>, p. 187). Tenta se projetar no imaginário coletivo nacional uma
				psicosfera que relacione diretamente a exploração dos sertões ao pioneirismo dos
				transportadores, tidos como verdadeiros elos do desenvolvimento econômico
				brasileiro.</p>
			<p>Para a NTC, entretanto, sem regulamentação devida a atividade teria como
				consequências os desequilíbrios periódicos entre oferta e procura; uma concorrência
				perniciosa entre empresas e autônomos; uma concorrência “desleal de aventureiros”; a
				sonegação de tributos e a fuga de capitais interessados em investir no setor pela
				falta de garantias mínimas à inversão (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC,
					1965</xref>).</p>
			<p>Em 1967, o Decreto-Lei n. 121 foi a primeira tentativa governamental de prover a
				matéria, mas não foi adiante por conta do vencimento do prazo de 90 dias para a sua
				regulamentação, além da falta de estudos e pesquisas sobre a operação do transporte
				rodoviário de cargas (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Brasil, 1976</xref>). A
				pressão do empresariado, entretanto, levou a cabo uma nova tentativa, agora amparada
				por uma comissão mista formada em 1968 com a tarefa de elaborar um anteprojeto de
				regulamentação. Do lado do governo estavam representantes dos ministérios do
				Transporte (MT) e Indústria e Comércio (MIC) e do DNER - este, pelo Decreto-Lei n.
				512, de 21 de março de 1969, ficaria com o encargo de concessão, permissão e
				fiscalização do serviço de transporte de cargas nas rodovias federais - enquanto CNT
				e NTC eram delegadas do setor privado.</p>
			<p>Os trabalhos foram concluídos em 1969, por ocasião do III Congresso Nacional do
				Transporte Rodoviário de Carga, resultando em um anteprojeto extenso, com 188
				artigos. Logo em seguida, o governo vetou a proposta: “[...] ressentiu-se da
				insuficiência dos diplomas legais que deram causa e da falta de um estudo técnico
				acurado que servisse de inspiração e suporte aos seus dispositivos, muitas vezes
				imprecisos ou contraditórios. Daí a impossibilidade de sua promulgação na data
				programada” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Brasil, 1976</xref>, p. 283).</p>
			<p>Apesar do “alto grau de essencialidade no complexo econômico do País”, o próprio DNER
				reconhecia que não dispunha de dados consistentes do setor e evidenciava a
				necessidade de uma completa regulamentação, “introdutora de tutela e disciplina,
				capaz de racionalizá-lo e otimizá-lo, com redução dos custos sociais e eliminação de
				eventuais perdas para a economia nacional” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Brasil,
					1976</xref>, p. 7).</p>
			<p>Aqui, uma questão precisa ser levantada: será que realmente interessava ao governo
				federal, naquele contexto, disciplinar o transporte rodoviário de carga? Ora, amplas
				zonas do Centro-Oeste e da Amazônia estavam sendo rasgadas por “rodovias pioneiras”,
				e para o sucesso das empreitadas correlatas que se propunham (projetos de ocupação e
				colonização) era altamente necessária aquela competição “desleal de aventureiros” a
				qual a NTC tanto condenava.</p>
			<p>Muito provavelmente, também não seria de interesse da União brecar o avanço dos
				autônomos (mais comumente chamados de carreteiros à época), que inundavam as áreas
				mais consolidadas e os rincões com uma determinação de rodar o Brasil sobre quatro
				rodas. Muitos deles, inclusive, acabariam se tornando no futuro pequenos e médios
				empresários. Outra hipótese a ser levantada reside na tentativa do governo em frear
				investidas que pudessem levar a oligopólios e economias de escala consideradas
				desnecessárias.</p>
			<p>Apenas em 1974, com a crise fiscal e orçamentária já sentida, que o DNER, em nova
				reestruturação, é dotado com a Diretoria de Transporte Rodoviário (Decreto-Lei n.
				74.606, de 24 de setembro), responsável pela fiscalização e fixação de normas para
				os serviços de transporte de carga e passageiros, em seções independentes. No ano
				seguinte, foram iniciadas as pesquisas necessárias ao amplo conhecimento do setor
				para identificação de sua organização (funcionamento e custos), problemas e
				pressupostos à regulamentação, com a visita de técnicos da autarquia a outros países
				para conhecer a realidade local. Daí emanou um anteprojeto de lei que deveria ser
				votado, mas não soubemos por qual motivo isso não aconteceu.</p>
			<p>Dados preliminares de 1975 indicavam grande concentração de matrizes de empresas no
				Sudeste (72,3% do total), seguido de Sul (14,6%) e Nordeste (8,2%). Quanto às
				filiais, registrou-se maior equilíbrio macrorregional, com Sudeste na dianteira
				(46,4%) e pouca diferença entre Sul (21,3%) e Nordeste (21,1%)<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup>. As pesquisas ainda apontavam como 9
				mil km a distância média mensal percorrida pelos veículos em operação no sistema,
				perfazendo 108 mil km anuais. No período 1959-74 a frota nacional de caminhões
				(leve, médio, semipesado e pesado) cresceu de 79.984 para 520.948 unidades (<xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Brasil, 1976</xref>).</p>
			<p>O documento ainda identificou a falta de uma “tutela legal para o transporte
				rodoviário de bens, mercadorias e materiais” e evocou a necessária elaboração de um
				“tratamento jurídico da matéria”, fundamentado no desequilíbrio entre oferta e
				procura e em tópicos como a padronização de documentos operacionais, fiscalização,
				disciplina tarifária, linhas regulares, veículos e equipamentos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Brasil, 1976</xref>). Daí emanou um anteprojeto de lei
				que deveria ser votado, mas novamente não soubemos por qual motivo isso não
				aconteceu. No aspecto tributário da atividade, porém, os estudos motivaram a
				implantação do Imposto sobre Serviços de Transporte Rodoviário (ISTR), autorizado
				pelo Decreto-Lei n. 1.438, de 26 de dezembro de 1975, previsto como uma fonte de
				recursos ao DNER e DERs para aplicação em conservação e restauração de rodovias e
				construção de terminais de passageiros e de carga.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A busca por maturidade e consciência de classe em âmbito nacional</title>
			<p>No intervalo de dez anos, entre 1965 e 1975, é inegável o reconhecimento da dilatada
				expansão do transporte rodoviário de carga no Brasil. Os transportadores, cientes de
				sua importância para os inúmeros projetos e programas colocados em marcha pela
				ditadura militar, encorajavam-se com um sentimento de classe de âmbito nacional.
				Prova disso pode ser encontrada no IV Congresso Nacional do Transporte Rodoviário de
				Carga, novamente sediado em São Paulo, sob a organização da NTC. Realizado entre 20
				e 23 de maio de 1975, no Anhembi, a sessão solene de abertura contou com a presença
				de Heraldo Alves da Costa, secretário-geral da Secretaria de Planejamento da
				Presidência da República. A de encerramento, presidida pelo ministro dos
				Transportes, Dirceu Araújo Nogueira, também teve a participação do diretor-geral do
				DNER, Stanley Fortes Baptista, e do secretário Estadual de Transportes, Thomaz
				Magalhães.</p>
			<p>A mensagem da comissão organizadora é esclarecedora acerca da força obtida pelos
				agentes do TRC naquela conjuntura:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Convencida de que os transportadores já haviam alcançado aquele grau mínimo
					desejável de conscientização e que a insistência no mesmo objetivo só traria
					resultados de modesta expressividade, dado o adiantado estágio operacional da
					classe, a Comissão Nacional Organizadora deliberou modificar a linha de conduta
					anteriormente traçada e orientá-la no sentido de uma nova filosofia: a projeção
					da importância da classe, no processo do desenvolvimento econômico do país,
					perante a opinião pública.</p>
				<p>Ou melhor, realizar um Congresso que testemunhasse de público, não só o “status”
					alcançado pelo setor, à revelia de qualquer amparo ou favores legais, como sua
					importância histórica e fundamental para o surto de progresso estabelecido no
					Brasil, ambos de uma forma geral, ignorados em suas justas dimensões.</p>
				<p>Iríamos, portanto, passar de uma fase do conclave tendo por objetivo o
					Transportador, para outra onde a meta fosse o Observador.</p>
				<p>Evidente que isto só seria possível com o apoio integral da classe (<xref
						ref-type="bibr" rid="B6">NTC, 1975</xref>, p. 5).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>O evento reuniu duas federações (Leste-Meridional e Sul), 10 sindicatos (RS, PR, SP,
				RJ, MG e BA e das cidades de Fortaleza, Recife, Blumenau e Caxias do Sul), 12
				associações (SE, AL, PE, RN, CE, PI, MA, DF e PA e das cidades de Campina Grande,
				João Pessoa e Juiz de Fora), oito representações (ES, GO, MT, AM, AC, RO, RR e AP) e
				cinco setores (transportes itinerantes, cargas líquidas e granéis, mudanças,
				transportes pesados e transporte siderúrgico), sinal da maturidade que o setor
				estava buscando, espalhando seus ideais e objetivos por todo o território nacional.
				Os temas discutidos no congresso também são outro indício de sua relevância e
				crescimento, englobando um espectro horizontal de variáveis e fatores de naturezas
				distintas: empresa, veículo, custos operacionais, terminais de carga, limitação do
				peso por eixo, regulamentação, seguro obrigatório e responsabilidade civil e
				generalidades (destaque para a participação do capital estrangeiro, políticas
				governamentais de transporte e economia e administração de transportes).</p>
			<p>Dos 33 trabalhos técnicos apresentados, quatro foram rejeitados e 29 aceitos (11
				memórias e 18 indicações), divididos em assuntos operacionais e legais. Os assuntos
				discutidos e aprovados no aspecto operacional foram manutenção de frota própria;
				formação de mão-de-obra especializada; uso do carreteiro; preço final; tarifas
				diferenciadas e custos marginais; planejamento; financiamento de veículos;
				embalagem; sistema tarifário e custo operacional. A lista dos aspectos legais é
				composta por regulamentação; comissão Norte-Nordeste (o setor ainda carecia de
				melhor organização e maior representatividade nessas regiões do país); seguro;
				imposto de renda; interveniência do capital estrangeiro e lei da balança.</p>
			<p>Dentre as resoluções aprovadas, gostaríamos de destacar duas:</p>
			<list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>(i) Interveniência do capital estrangeiro na atividade econômica do
						transportador (apresentada por Edgar Hony):</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>• As empresas estrangeiras devem ter suas sedes em território brasileiro, com
						gerência brasileira;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>• Participação societária do capital estrangeiro deve ser limitada ao máximo
						de 20% do total do capital social da empresa;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>• Se constituída na forma de S.A., seu capital social deve ser representado,
						na totalidade, por ações nominativas.</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>(ii) O uso do carreteiro perante uma regulamentação (apresentada por Orlando
						Monteiro):</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>• Regulamentação deve prever o uso de um percentual de carreteiros em regime
						de contrato permanente, “de modo que lhes sejam assegurados direitos de
						igualdade com os veículos da frota própria da empresa, no que couber” (<xref
							ref-type="bibr" rid="B6">NTC, 1975</xref>, p. 260);</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>• Em percursos com regime de permissão, os fretes deverão ser fixados pelo
						poder público;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>• Idem para o carreteiro, cujos fretes para os serviços prestados à empresa
						transportadora devem ter como base “um percentual sobre a parte do frete
						referente ao percurso rodoviário propriamente dito (de terminal a terminal)
						e considerando limites máximos e mínimos, de forma a atender às
						características dos serviços prestados” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">NTC,
							1975</xref>, p. 260).</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>Daqui decorrem duas observações. A primeira diz respeito ao explícito temor
				desencadeado no setor quanto à investida de empresas estrangeiras, pois a
				australiana Thomas Nationwide Transport, ou TNT, havia ingressado no mercado
				brasileiro com a compra da transportadora gaúcha Transpampa, em 1973, por US$ 2,5
				milhões, acrescidos de um investimento de US$ 500 mil, ampliada com a posterior
				aquisição da Ristar (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>). Este fato
				voltará à tona em 1980, como será visto adiante. A segunda demonstra claramente a
				preocupação das transportadoras em obter uma garantia jurídica para a relação com os
				caminhoneiros autônomos subcontratados.</p>
			<p>Um painel com a indústria automobilística, representada por SAAB-Scania,
				Mercedes-Benz, Chrysler, FNM, Ford e GM, serviu para estreitar laços do setor com os
				principais fabricantes de caminhões daquele momento. Houve ainda a realização de
				sete palestras ou conferências, das quais destacamos “O panorama atual do transporte
				rodoviário de carga”, apresentada por Deniser de Almeida Arneiro, presidente da NTC.
				Interessante notar que a entidade se posicionou frontalmente contra os investimentos
				ferroviários previstos para o II PND, em especial os da Ferrovia do Aço, na qual
				questionou se seria possível ao país arcar com os seus custos. De acordo com o
				dirigente da entidade, era uma “injustiça” a maneira como estavam sendo tratados os
				investimentos em rodovias:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>[...] se fala nela há 25 anos, e quanto à ferrovia, já se falou em 90 anos [...].
					Construiu-se durante 90 anos a ferrovia. De 25 anos para cá é que se constituiu
					a rodovia.</p>
				<p>Vamos dizer que se construiu pouca ferrovia no Brasil. Mas isto não é problema da
					nossa geração. É problema daqueles que não construíram, porque os outros países
					[...] construíram ferrovia. E agora, eles estão construindo é rodovia. A
					ferrovia lá está praticamente superada.</p>
				<p>Mais adiante nós vamos ver (<xref ref-type="bibr" rid="B6">NTC, 1975</xref>, p.
					92-93).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Ao final do congresso, o ministro dos Transportes reconheceu que a atividade havia
				ensejado até aquele momento, “em termos pioneiros, desenvolvimento expressivo [...],
				com relevantes serviços prestados à Nação” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">NTC,
					1975</xref>, p. 52), em tom que certamente agradou ao empresariado - mas
				ajustado à conjuntura da hora, demarcada pelas consequências da crise do
				petróleo.</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Sem perda da autonomia, sem prejuízo da iniciativa, o próprio desenvolvimento
					nacional está a exigir a racionalização e melhor aproveitamento do sistema
					operacional de transporte rodoviário de bens e mercadorias, através de medidas
					regulamentares que se fizerem oportunas e necessárias (Dirceu Araújo Nogueira
					apud <xref ref-type="bibr" rid="B6">NTC, 1975</xref>, p. 52-53).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Desse modo, expressou que o governo federal estaria atento aos assuntos discutidos no
				evento, no qual as “empresas [...] bem como os valorosos carreteiros que transportam
				os bens agrícolas e industriais produzidos e consumidos em todos os quadrantes do
				país” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">NTC, 1975</xref>, p. 52-53) poderiam contar
				com o apoio e a ação do presidente Geisel. Afinal, tratava-se de uma atividade que
				já empregava cerca de 2,5 milhões de pessoas, cada vez mais relevante, mas que
				“continuava a padecer de uma improvisação inconcebível sem um diagnóstico preciso de
				sua realidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Diaféria, 1987</xref>, s.p.).</p>
			<p>Em 1980, como fruto das discussões operacionais levadas a cabo no evento, a NTC
				publicou um inédito manual do sistema tarifário, cujo objetivo era consolidar em um
				único documento os critérios e as normas gerais de orientação da sistemática de
				precificação e cobrança de fretes pelas empresas transportadoras. Como admitiu a
				própria entidade aos associados, um “poderoso instrumento de auxílio ao planejamento
				e administração de seu negócio, pela compreensão, em justa medida, da influência de
				certos procedimentos comerciais e operacionais nos resultados econômicos” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B4">NTC, 1980a</xref>, p. 2). O documento elencou 61
				cidades-pólo (capitais estaduais e as principais cidades ou entroncamentos
				rodoviários do Brasil) e as ligações mais importantes na escala interestadual e
				intraestadual (cidades-pólo e demais municípios do Estado). Aqui aparece nitidamente
				a visão territorial de país que os transportadores vislumbravam.</p>
			<p>A composição da tarifa, baseada em ton-km segundo a distância a ser percorrida e o
				peso a ser transportado, deveria resultar da combinação entre três variáveis: (i)
				frete-peso (ou frete-peso mínimo), (ii) frete-valor (proporcional ao valor da
				mercadoria e a distância) e (iii) taxas (serviços adicionais se efetivamente
				prestados). Quanto à sua classificação, a tarifa poderia ser comum (carga geral
				transportada em veículos convencionais) ou especializada (veículos com carroceria
				especial e/ou com meios especiais de operação, movimentação e proteção da carga). O
				DNER, pela portaria DG n. 05, de 15 de fevereiro de 1978, havia discriminado os
				serviços em 19 tipos, que serviriam de base ao manual da NTC.</p>
			<p>Uma questão de delicado cálculo contábil eram os possíveis acréscimos e decréscimos
				sobre a tarifa básica, ou seja, reduções ou aumentos introduzidos “em função de
				circunstâncias que agravam ou amenizam o custo operacional” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B4">NTC, 1980a</xref>, p. 5). Por exemplo, coleta e entrega, serviços e
				riscos adicionais, serviço especializado, cubagem, etc. O manual ainda dispunha
				sobre as condições gerais do TRC, determinada pelas obrigações do transportador e do
				usuário (cliente) e pelo preço dos serviços de transporte.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A luta contra o capital estrangeiro e as respostas do DNER quanto à
				regulamentação</title>
			<p>Em 1978, o IBGE editou um documento com ampla radiografia da classe empresarial do
				setor (<xref ref-type="table" rid="t1">Tabela 1</xref>) que evidencia o rápido
				crescimento do mercado<sup><xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref></sup>. Nesse
				sentido, Ziegler e Russo (apud <xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron, 2012</xref>)
				são enfáticos ao afirmar que na década de 1970 ficou visível a estruturação em bases
				empresariais do transporte rodoviário de carga. Entre os motivos citados estão o
				crescimento expressivo do número de empresas transportadoras atuantes em todo o
				território nacional, a implementação de ações de modernização empresarial, o
				incremento da concorrência e a já citada entrada do capital internacional em 1973
				pelo grupo australiano TNT.</p>
			<p><table-wrap id="t1">
				<label>Tabela 1</label>
				<caption>
					<title>Empresas de transporte rodoviário de carga (1978)</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" rowspan="2">Estado/<break/>região</th>
							<th align="center" colspan="4">Empresas</th>
							<th align="center" rowspan="2">Veículos<sup>1</sup></th>
							<th align="center" rowspan="2">Volume<break/>de
								carga<sup>2</sup><break/>(em mil ton)</th>
							<th align="center" rowspan="2">Pessoal<break/>ocupado</th>
							<th align="center" rowspan="2">Investimento<break/>(em mil Cr$)</th>
						</tr>
						<tr>
							<th align="left"><italic>até 1964</italic></th>
							<th align="center"><italic>1965-70</italic></th>
							<th align="center"><italic>1971-78</italic></th>
							<th align="center"><italic>Total</italic></th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">RO</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">4</td>
							<td align="center">4</td>
							<td align="center">13</td>
							<td align="center">9</td>
							<td align="center">23</td>
							<td align="center">303</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">AC</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">17</td>
							<td align="center">28</td>
							<td align="center">62</td>
							<td align="center">1.976</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">AM</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">6</td>
							<td align="center">5</td>
							<td align="center">11</td>
							<td align="center">258</td>
							<td align="center">363</td>
							<td align="center">321</td>
							<td align="center">50.345</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">RR</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">4</td>
							<td align="center">0</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PA</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">6</td>
							<td align="center">103</td>
							<td align="center">101</td>
							<td align="center">235</td>
							<td align="center">14.227</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">AP</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#f2f2f2">Norte</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">2</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">9</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">12</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">23</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">393</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">502</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">645</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">66.851</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">MA</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">12</td>
							<td align="center">12</td>
							<td align="center">44</td>
							<td align="center">36</td>
							<td align="center">57</td>
							<td align="center">5.347</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PI</td>
							<td align="center">3</td>
							<td align="center">6</td>
							<td align="center">27</td>
							<td align="center">36</td>
							<td align="center">169</td>
							<td align="center">118</td>
							<td align="center">320</td>
							<td align="center">17.835</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">CE</td>
							<td align="center">5</td>
							<td align="center">10</td>
							<td align="center">28</td>
							<td align="center">43</td>
							<td align="center">604</td>
							<td align="center">610</td>
							<td align="center">2.064</td>
							<td align="center">95.284</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">RN</td>
							<td align="center">3</td>
							<td align="center">16</td>
							<td align="center">46</td>
							<td align="center">65</td>
							<td align="center">376</td>
							<td align="center">401</td>
							<td align="center">689</td>
							<td align="center">60.381</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PB</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">8</td>
							<td align="center">11</td>
							<td align="center">108</td>
							<td align="center">128</td>
							<td align="center">258</td>
							<td align="center">10.880</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PE</td>
							<td align="center">4</td>
							<td align="center">9</td>
							<td align="center">22</td>
							<td align="center">35</td>
							<td align="center">673</td>
							<td align="center">2.089</td>
							<td align="center">1.984</td>
							<td align="center">57.382</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">AL</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">15</td>
							<td align="center">18</td>
							<td align="center">192</td>
							<td align="center">280</td>
							<td align="center">289</td>
							<td align="center">44.147</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">SE</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">4</td>
							<td align="center">25</td>
							<td align="center">29</td>
							<td align="center">306</td>
							<td align="center">762</td>
							<td align="center">387</td>
							<td align="center">25.497</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">BA</td>
							<td align="center">8</td>
							<td align="center">13</td>
							<td align="center">29</td>
							<td align="center">50</td>
							<td align="center">1.227</td>
							<td align="center">3.331</td>
							<td align="center">2.639</td>
							<td align="center">204.065</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#f2f2f2">Nordeste</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">26</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">61</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">212</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">299</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">3.699</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">7.755</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">8.687</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">520.818</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">MG</td>
							<td align="center">138</td>
							<td align="center">156</td>
							<td align="center">478</td>
							<td align="center">772</td>
							<td align="center">7.656</td>
							<td align="center">26.197</td>
							<td align="center">15.114</td>
							<td align="center">848.490</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">ES</td>
							<td align="center">10</td>
							<td align="center">33</td>
							<td align="center">154</td>
							<td align="center">197</td>
							<td align="center">1.244</td>
							<td align="center">1.044</td>
							<td align="center">3.076</td>
							<td align="center">118.996</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">RJ</td>
							<td align="center">107</td>
							<td align="center">143</td>
							<td align="center">245</td>
							<td align="center">495</td>
							<td align="center">9.684</td>
							<td align="center">18.417</td>
							<td align="center">23.969</td>
							<td align="center">849.838</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">SP</td>
							<td align="center">271</td>
							<td align="center">620</td>
							<td align="center">2.378</td>
							<td align="center">3.269</td>
							<td align="center">33.861</td>
							<td align="center">96.841</td>
							<td align="center">68.411</td>
							<td align="center">3.658.472</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#f2f2f2">Sudeste</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">526</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">952</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">3.255</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">4.733</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">52.445</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">142.499</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">110.570</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">5.475.796</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PR</td>
							<td align="center">33</td>
							<td align="center">144</td>
							<td align="center">633</td>
							<td align="center">810</td>
							<td align="center">6.051</td>
							<td align="center">16.495</td>
							<td align="center">11.984</td>
							<td align="center">549.361</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">SC</td>
							<td align="center">40</td>
							<td align="center">82</td>
							<td align="center">223</td>
							<td align="center">345</td>
							<td align="center">3.207</td>
							<td align="center">5.075</td>
							<td align="center">6.406</td>
							<td align="center">385.162</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">RS</td>
							<td align="center">99</td>
							<td align="center">124</td>
							<td align="center">364</td>
							<td align="center">587</td>
							<td align="center">6.525</td>
							<td align="center">20.556</td>
							<td align="center">18.471</td>
							<td align="center">998.730</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#f2f2f2">Sul</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">172</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">350</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">1.220</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">1.742</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">15.783</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">42.126</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">36.861</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">1.933.253</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">MS</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">6</td>
							<td align="center">18</td>
							<td align="center">24</td>
							<td align="center">412</td>
							<td align="center">484</td>
							<td align="center">876</td>
							<td align="center">47.797</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">MT</td>
							<td align="center">2</td>
							<td align="center">0</td>
							<td align="center">9</td>
							<td align="center">11</td>
							<td align="center">342</td>
							<td align="center">200</td>
							<td align="center">515</td>
							<td align="center">44.611</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">GO</td>
							<td align="center">5</td>
							<td align="center">11</td>
							<td align="center">67</td>
							<td align="center">83</td>
							<td align="center">790</td>
							<td align="center">1.086</td>
							<td align="center">2.086</td>
							<td align="center">97.853</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">DF</td>
							<td align="center">1</td>
							<td align="center">5</td>
							<td align="center">16</td>
							<td align="center">22</td>
							<td align="center">348</td>
							<td align="center">248</td>
							<td align="center">525</td>
							<td align="center">64.870</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#f2f2f2">C-Oeste</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">8</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">22</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">110</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">140</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2;">1.892</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2;">2.018</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2;">4.002</td>
							<td align="center" style="background-color:#f2f2f2">255.131</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#d9d9d9">Brasil</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9">734</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9">1.394</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9">4.809</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9">6.937</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9;">74.212</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9;">194.900</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9;">160.765</td>
							<td align="center" style="background-color:#d9d9d9">8.251.849</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: Elaboração própria com base em <xref ref-type="bibr" rid="B26"
							>IBGE (1981)</xref>.</attrib>
					<attrib>Obs.: 1. Carga geral, líquida e frigorificada; 2. Carga e
						encomendas.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Por outro lado, foi também a partir deste momento que se identifica uma tendência de
				compressão dos motoristas autônomos pela queda de sua remuneração média (Bertolazzi
				apud <xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron, 2012</xref>). Outra autora (Rosa apud
					<xref ref-type="bibr" rid="B27">Kapron, 2012</xref>), referindo-se aos anos
				1980, também constata o achatamento da remuneração dos autônomos e uma menor
				autonomia em relação aos agenciadores de carga, além da maior insegurança quanto à
				oferta do serviço e condições de trabalho. Rapidamente houve uma precarização das
				reais possibilidades de captação de carga da parte dos autônomos, fato que resultou
				em uma dependência quase que completa em relação aos agenciadores de carga, às
				empresas transportadoras e aos transportadores de carga própria.</p>
			<p>Dessa situação emanou uma ampla e complexa cadeia de subcontratações, variável-chave
				para entender a conformação dos agentes do transporte rodoviário de carga nos dois
				circuitos da economia urbana, como proposta por Milton Santos (<xref ref-type="bibr"
					rid="B23">Huertas, 2018</xref>). Pode-se dizer que, em meados dos anos 1980, os
				agentes reuniam condições para serem compreendidos como circuitos diferenciados, o
				inferior e o superior, embora as circunstâncias não sejam as mesmas do período
				atual.</p>
			<p>Atendendo a alguns anseios da NTC, o DNER preparou três documentos relativos ao
				“Estado do transporte de cargas no Brasil”. O primeiro consistiu na elaboração de um
				programa de unidades centralizadas de cargas rodoviárias e fretes que “busca o
				aumento da produtividade do setor e de participação do desenvolvimento local
				integrado de aglomerados urbanos, principalmente nas áreas das regiões
				metropolitanas” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">DNER, 1978</xref>, p. 8).
				Previa-se, com a construção de terminais rodoviários de carga, gerar condições para
				rebaixar o valor dos fretes “como reflexo da racionalização dos custos, contribuindo
				para a diminuição dos congestionamentos do tráfego, favorecendo a política de
				utilização do solo, e ainda colaborando para diminuir a poluição ambiental” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">DNER, 1978</xref>, p. 8).</p>
			<p>O segundo efetivou um levantamento analítico dos programas de crédito que compunham
				os financiamentos governamentais do mercado financeiro brasileiro, partindo-se do
				diagnóstico de que, “apesar de sua pujança e importância como atividade econômica”,
				o setor “não se encontra explicitamente classificado entre os que podem ser
				beneficiários das diversas linhas de crédito criadas pelo governo” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">DNER, 1978</xref>, p. 6). Os empresários utilizavam as
				linhas normais de crédito bancário a curto prazo, com juros normais reconhecidamente
				elevados, oferecendo como garantia o seu patrimônio. Por outro lado, o carreteiro,
				para adquirir um caminhão, procurava o Crédito Direto ao Consumidor, com juros
				geralmente elevados e prazos de pagamento nunca inferiores a três anos.</p>
			<p>Dos 115 programas avaliados, o governo selecionou 12 que poderiam oferecer alguma
				compatibilidade com o sistema de transporte rodoviário de carga no que diz respeito
				ao financiamento da implantação de terminais de carga e, para os empresários, oferta
				de recursos para equipamentos, investimentos fixos e capital de giro. O DNER
				admitiu, entretanto, que ao autônomo “torna-se difícil o enquadramento em qualquer
				dos programas estudados” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">DNER, 1978</xref>, p. 47),
				deixando o elo mais frágil da atividade sem qualquer benefício.</p>
			<p>O terceiro foi responsável pela criação de um modelo de anteprojeto idealizado do
				protótipo de um Centro Rodoviário de Cargas e Fretes, conjugado com um Terminal
				Rodoviário de Cargas (CRCF-TRC), delineando sua constituição física, zoneamento,
				setorialização e funcionalidade da vizinhança. O documento exemplificou uma unidade
				composta pelos setores comum (armazéns para locação de transportadoras), privado
				(módulos para venda), de fretes (central de fretes), administrativo e de serviços e
				apoio (estacionamento, comercial, abastecimento e manutenção, hospedagem e
				alimentação, recreação e lazer, assistência social e fiscalização) (<xref
					ref-type="bibr" rid="B17">DNER, 1979</xref>).</p>
			<p>Mas houve um fato marcante no início de 1980 que uniu e congregou as empresas
				transportadoras em uma causa comum, lideradas pela NTC. Um documento apócrifo
				circulava no Congresso Nacional, cujo conteúdo reunia argumentos para barrar o
				projeto de Lei n. 42/79, que, entre outras questões, restringia a participação do
				capital estrangeiro no TRC. Cabe destacar que os argumentos foram desenvolvidos pela
				TNT, embora o documento não tivesse autoria (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC,
					1980b</xref>).</p>
			<p>Em 28 de março, com assinatura de Oswaldo Dias de Castro, então presidente da NTC, a
				entidade divulgou um documento com a sua posição, refutando veementemente as
				colocações expressas pela TNT. Logo no sumário, a entidade expressa que o TRC
				brasileiro “está na iminência de sofrer um rápido e incontrolável processo de
					<underline>desnacionalização</underline>”, cujo mercado “poderá ser controlado,
				em curto espaço de tempo, por um pequeno grupo de empresas
					<underline>multinacionais</underline>”. Adverte para o fato de que a atividade é
				um serviço essencial, “de especial interesse para a <underline>segurança
					nacional</underline>”, e que a TNT estaria praticando “uma política condenável
				de <underline>aviltamento de preços</underline> (“dumping”) e de dilatação dos
				prazos de recebimento, com a finalidade de levar à insolvência as concorrentes
				nacionais e, rapidamente, dominar o mercado” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC,
					1980b</xref>, s.p., grifos do original).</p>
			<p>Cita, ainda, que as empresas estrangeiras do setor “não trazem <underline>capital de
					risco</underline>”, endividando as suas subsidiárias nacionais com empréstimos
				contraídos no exterior, a “<underline>juros a taxas muito superiores às praticadas
					no mercado interno</underline>”, contribuindo “para o agravamento de nossa
					<underline>dívida externa</underline>”. A NTC classifica como falsas as
				alegações produzidas pela TNT e expressa de modo explícito que “a única forma de se
				evitar a <underline>desnacionalização</underline> injustificável e desnecessária” do
				setor consiste, “com a máxima urgência”, na aprovação e transformação em lei do PLC
				n. 42/79, já em tramitação no Senado. Finaliza com a argumentação de que a Austrália
				“também adota <underline>legislação restritiva</underline> à entrada de capitais
				estrangeiros”, e que as relações comerciais do Brasil com aquele país “são
				insignificantes” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, s.p., grifos do
				original).</p>
			<p>Com 16 páginas e muito bem organizado e escrito, o documento, logo em seu primeiro
				item, coloca que a posição assumida pela NTC “constitui-se numa luta <underline>a
					favor</underline> de uma TESE, (...) para que seja possível um confronto
				imediato e direto com a peça produzida pela Thomas Nationwide Transport” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, p. 1, grifos do original). Em tom
				nacionalista, muitas vezes bastante caro aos militares, a NTC afirma que age “em
				nome de uma classe inteira”, enquanto a multinacional “postula em <underline>causa
					própria</underline>” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, p. 2,
				grifos do original).</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Os documentos aqui cotejados diferem de um aspecto essencial: enquanto, de nossa
					parte, defendemos <underline>princípios</underline>, que reputamos de
					transcendental importância para a <underline>economia e a segurança
						nacionais</underline>, aquela multinacional outra coisa não faz senão
					defender seus próprios <underline>interesses comerciais</underline>, que estão
					muito longe de se confundir com os interesses maiores da nação brasileira (...)
						(<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, p. 1, grifos do
					original).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>A NTC soube trabalhar, além da questão do nacionalismo, outros aspectos que naquele
				contexto estariam a seu favor, como a correlação entre o TRC e o conceito de
				segurança nacional - afinal de contas, o país estava sendo explorado por caminhões.
				Não hesitou, também, em desclassificar a multinacional, que autointitulava a sua
				representação no TRC brasileiro como uma “forte força estabilizadora”, com “elevado
				padrão de eficiência” e praticante de uma “política de fretes não aviltados”. Todos
				esses elementos foram contestados com o rigor de dados e provas apresentados pela
				NTC, que, em tom sarcástico, afirmou “que tal arenga não passa de grosseira
				mistificação” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, p. 11). E
				continua:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>A rigor, poder-se-ia dizer que a única alegação verdadeira, em todo aquele
					amontoado de mentiras, é a de que o Diretor australiano residente em nosso país
						“<underline>casou-se com uma brasileira e tem duas lindas filhinhas também
						brasileiras</underline>” ... (Doc. 1 - fls. 8).</p>
				<p>(...)</p>
				<p>Mas, convenhamos, este não é um argumento sério, capaz de justificar a rejeição
					do Projeto-de-Lei em exame (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, p.
					10, grifos do original).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>Alegando que, além da TNT, outras empresas multinacionais já operavam no país, a NTC
				finaliza a sua posição de forma alarmista, apelando para a aprovação do supracitado
				projeto de lei, “para que não tenhamos o dissabor de ver, em um futuro muito
				próximo, a produção nacional sendo transportada [...] em caminhões brasileiros,
				dirigidos por motoristas brasileiros, mas gerando lucros apenas para um punhado de
				empresas multinacionais” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">NTC, 1980b</xref>, p.
				16).</p>
			<p>Em 10 de julho de 1980, foi promulgada a Lei n. 6.813, que dispõe sobre o transporte
				rodoviário de cargas e dá outras providências. Em texto curto e pouco elucidativo, a
				norma garante a exploração da atividade por empresas e/ou transportadores autônomos
				com sede no país e direção e administração confiadas exclusivamente a brasileiros,
				limitando a 20% a participação do capital social estrangeiro nas empresas. Além
				disso, ressalva os direitos de reciprocidade no caso de transporte internacional em
				acordos e convênios bilaterais ou multilaterais firmados pela União.</p>
			<p>Em poucas palavras, a regulação do transporte rodoviário de cargas continuou
				incipiente, muito aquém do crescimento do mercado e das necessidades dos agentes,
				embora tenha brecado uma abertura indiscriminada ao capital externo. “Foi um
				trabalho danado, de grande luta, mas quando baixou a regulamentação, ninguém seguiu
				e o governo não exigiu isso”, contou o empresário Thiers Fattori Costa<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></sup>, um dos protagonistas daquele momento
				como vice-presidente do Setcesp, afirmando que o próprio transportador não tinha
				interesse no funcionamento da regulação. Como explicou <xref ref-type="bibr"
					rid="B27">Kapron (2012</xref>, p. 70), no “decorrer das décadas [...] bastou ter
				a habilitação para dirigir um caminhão, ter a posse do veículo para ofertar o
				trabalho e ser um caminhoneiro autônomo ou constituir empresa de transportes para
				explorar o serviço utilizando o emprego da força de trabalho de caminhoneiros
				assalariados por tempo ou por peça”.</p>
			<p>A Lei n. 7.092, de 19 de abril de 1983, instituiu o Registro Nacional de Transportes
				Rodoviários de Bens (RTB) e fixou as condições para o exercício da atividade. O RTB
				condicionou os agentes que exerciam o transporte de bens, próprios ou de terceiros,
				à inscrição em cadastro próprio, produzindo autorização legal para o desempenho da
				função de transportador rodoviário. A lei ainda determinava que o Ministério dos
				Transportes poderia estabelecer quotas ou limites ao número de registros anuais de
				transportadores, além de fixar direitos e deveres das transportadoras e punições às
				infrações administrativas (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Tedesco, 2012</xref>).
				Esta norma (regulamentada pelo decreto n. 89.874, de 28 de junho de 1984),
				entretanto, esbarrou na precária situação econômica do país e na crônica falta de
				recursos para o controle e fiscalização de seu cumprimento, praticamente
				inviabilizando o RTB.</p>
			<p>Ao caminhoneiro autônomo, que já padecia de longas jornadas e baixos valores de
				frete, coube à singela Lei n. 7.290, de 19 de dezembro de 1984, que “define a
				atividade do transportador rodoviário autônomo de bens e dá outras providências”,
				sem quaisquer implicações mais profundas à sua atividade, ainda muito longe de
				qualquer forma de organização e de sentimento de classe. Ao empresariado, persistia
				um híbrido de necessidade intrínseca à cadeia da circulação e de desconfiança em
				relação ao transportador autônomo, tido como uma figura limitada e menor que “atua
				de acordo com interesses imediatos, jamais imprimindo regularidade às suas
				atividades” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NTC, 1965</xref>).</p>
			<p>E assim prosseguiu o transporte rodoviário de carga até os anos 1990, quando
				basicamente consistia em carregar e descarregar caminhões-baú e/ou carretas abertas
				com carga seca geral (bens de consumo), em atividades que “envolvem pequenos ajustes
				nas variáveis operacionais e de produção, no lado da oferta, e nos parâmetros que
				formam as variáveis de serviço, no lado da demanda” (<xref ref-type="bibr" rid="B31"
					>Novaes, 1986</xref>, p. 294). À exceção de granéis líquidos e sólidos e algumas
				cargas especiais com veículos apropriados, o serviço era contemplado com esquemas
				operacionais simples e pouco exigentes em informações coordenadas, além de prazos de
				entrega bastante elásticos.</p>
			<p>No entanto, ficou explícito como o crescimento das transportadoras, simultâneo ao
				próprio processo de urbanização e industrialização desencadeado no país a partir dos
				anos 1930, foi gradualmente colocando o caminhoneiro autônomo, mais conhecido
				naquela época como carreteiro, à margem dos ganhos gerais do sistema. E, pouco a
				pouco, o mercado entraria em uma etapa de falências, concorrência desleal e
				concentração empresarial, evidenciando as próprias contradições do capital. O
				romantismo de rodar o Brasil na boleia de um caminhão perderia o seu encanto, mesmo
				em um país que já havia tornado a sua matriz de transportes demasiadamente
				rodoviária.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>É notória a alavancagem do rodoviarismo no âmbito estatal a partir do Estado Novo
				(1937-45) - criação do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) pela Lei
				n. 467, de 31 de julho 1937, para planejar, construir e prover a manutenção das
				estradas federais; criação do Conselho Nacional de Petróleo (CNP), pelo Decreto-Lei
				n. 395, de 29 de abril de 1938; publicação da revista <italic>A Rodovia</italic>,
				editada pelo DNER, em janeiro de 1938; criação do Imposto Único sobre Combustíveis e
				Lubrificantes (IUCL) para compor o Fundo Rodoviário dos Estados e Municípios, pelo
				Decreto-Lei n. 2.615, de 21 de setembro de 1940; e criação do Código Nacional de
				Trânsito, pelo Decreto-Lei n. 3.651, de 25 de setembro de 1941 -, pois as elites
				ligadas diretamente aos órgãos e conselhos que pensavam o país, principalmente do
				ponto de vista econômico, já estavam se convencendo de que um sistema rodoviário
				robusto seria o melhor caminho, na perspectiva dos transportes, para deslanchar o
				impulso à urbanização e industrialização do Brasil. Além disso, já havia uma
				percepção, desde meados da Primeira República, de crescente preocupação em relação à
				saúde financeira das ferrovias, “transformando-se, com o tempo, em problema crônico
				que jamais veio a ser adequadamente resolvido” (<xref ref-type="bibr" rid="B19"
					>Galvão, 1996</xref>, p. 192). Tanto que, em 1945, a situação financeira
				(relação receita-despesa) do sistema ferroviário nacional chegou ao limite, com a
				passagem de um quadro geral superavitário para um deficitário (<xref ref-type="bibr"
					rid="B30">Natal, 1991</xref>).</p>
			<p>Velocidade, capilaridade territorial (o transporte porta-a-porta e para qualquer
				lugar, com amplas condições de configurar uma rede verdadeiramente nacional),
				flexibilidade nas operações de coleta e entrega e relação custo-benefício na
				amortização dos investimentos (a construção da infraestrutura rodoviária é mais
				barata do que a ferroviária) foram as principais variáveis que colocaram a rodovia
				em vantagem no planejamento do qual o país seria submetido até 1945, tendo o Estado
				como o principal artífice, com visão de conjunto aliada às condições gerenciais e
				executivas que estavam sendo gestadas para quase todos os setores da vida econômica
				nacional.</p>
			<p>Apesar da retração de obras rodoviárias entre 1942 e 1945 por causa da Segunda Guerra
				Mundial, o fato é que o rodoviarismo cresceu substancialmente durante o Estado Novo
				nos aspectso técnico, administrativo, político e simbólico, indicando que ônibus e
				caminhão desempenhariam papel crucial no futuro do Brasil. Naquele contexto de
				início da industrialização, a rodovia tornou-se uma “tendência espontânea”, e “não
				havia nenhuma opção a fazer, mas sensatamente organizar o movimento espontaneamente
				imposto pela vida” (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Rangel, 2005</xref>, p. 518).
					<xref ref-type="bibr" rid="B20">Grandi (2016</xref>, p. 389) tem razão ao
				afirmar que, no final do governo Dutra, o setor ferroviário perdeu a primazia nas
				prioridades dos órgãos do governo responsáveis pelas políticas públicas de
				transportes, cuja orientação, ao longo dos anos 1950, “pôs em xeque, de uma vez por
				todas, o predomínio exercido até então pelas ferrovias, particularmente no
				transporte de cargas a longas distâncias”.</p>
			<p>A lógica operacional do transporte rodoviário demonstrou, logo de imediato, uma
				vantagem adicional: a liberdade dada à iniciativa privada para adquirir e colocar em
				circulação o equipamento (material rodante), animando rapidamente a vida econômica
				de estradas abertas pelo Estado. Dessa forma, o capital empregado poderia
				corresponder às necessidades da demanda pelo serviço de transportes, garantindo e/ou
				ampliando a sua rentabilidade de acordo com a flutuação do movimento dos fluxos. Com
				o caminhão, viriam também novos estabelecimentos comerciais espalhados ao longo das
				estradas e no entorno das cidades: empresas transportadoras, oficinas mecânicas,
				borracharias, revendas de veículos, postos de combustível, restaurantes e
				mercearias. Em relação ao total de veículos do país, crescia a passos largos a
				penetração do caminhão - que saltou de 28,9%, em 1921, para 44,5%, em 1951<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn8">8</xref></sup> - demonstrando uma nítida alavancagem
				do transporte rodoviário de carga, cada vez mais utilizado pelos embarcadores de
				todo o país.</p>
			<p>O TRC, portanto, crescia simultaneamente à expansão rodoviária por todos os rincões
				do país. Para se ter uma ideia, os recursos públicos destinados a investimentos
				rodoviários (Fundo Rodoviário Nacional, Orçamento Geral da União e outros recursos)
				subiram, em valores correntes, de Cr$ 453,8 milhões, em 1946, para Cr$ 5,3 bilhões,
				em 1955<sup><xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref></sup>. Na comparação com os
				demais modais, o rodoviário registrou investimento bruto de 2,49% do Produto Interno
				Bruto (PIB) no período 1950-54, contra 0,80% do ferroviário; 0,13% do aéreo; 0,10%
				do marítimo e 0,05 do dutoviário (<xref ref-type="bibr" rid="B2">ARB,
				1961</xref>).</p>
			<p>Em seu ímpeto nacional-desenvolvimentista, o governo Juscelino Kubitschek evidenciou
				que era preciso dar um salto para o futuro, “desenvolver 50 anos em 5”, com um
				programa de investimentos distribuídos entre os setores de energia, transportes,
				alimentação, indústria de base e educação. Rasgar o território nacional com novas
				estradas, além de melhorar e pavimentar boa parte das existentes, tornou-se um
				imperativo, sobretudo após o anúncio da construção de Brasília, guinada radical no
				curso do desenvolvimento nacional. Apesar de contar com metas direcionadas aos
				demais modais (ferroviário, serviços portuários e de dragagem, Marinha Mercante e
				aéreo), o próprio governo admitiu a elevada prioridade ao rodoviário, justificada
				“pelas próprias exigências de crescimento do país e das falhas estruturais do
				sistema ferroviário” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Brasil, 1958</xref>, p. 165).
				Entre 1955 e 1959, as taxas de investimento em relação ao PIB foram de 2,87% no
				modal rodoviário; 0,86% no ferroviário; 0,14% no aéreo; 0,12% no marítimo e 0% no
						dutoviário<sup><xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref></sup>.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B9">Bastos (1955</xref>, p. 11) nota que havia um novo
				momento em termos rodoviários, já que os problemas no sistema (aperfeiçoamento,
				pavimentação e ampliação) não eram mais desconhecidos, “faltando apenas mais
				decisão, mais dinheiro, mais tempo para resolvê-los”. O governo JK mantinha-se
				amplamente favorável ao privilégio concedido ao sistema rodoviário (<xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Huertas, 2022</xref>), e sua obsessão em montar um
				parque automotivo no país era compreensível: o que seria da “meta rodoviária” sem
				carros, ônibus e caminhões?</p>
			<p>O Brasil importava cerca de 15 mil veículos por ano e já totalizava uma frota de
				cerca de 530 mil unidades em 1950 (276.845 carros de passeio, 236.732 caminhões e 16
				mil ônibus), onerando a sua balança de pagamentos. Em 1955, estimava-se em 50 mil o
				número de tratores no Brasil. Todos importados. Havia um cálculo de que, entre 1958
				e 1960, a produção em território brasileiro de veículos proporcionaria ao país uma
				economia de cerca de US$ 225 milhões em importações, que subiria para US$ 300
				milhões se incluída a produção nacional de peças e acessórios<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn11">11</xref></sup>. A produção de veículos automotores
				no Brasil cresceu de 30.542 unidades, em 1957, para 224.609, em 1966<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn12">12</xref></sup>. No decênio 1950-1960, a matriz de
				transportes brasileira foi alterada substancialmente. O percentual de movimentação
				de carga pelas rodovias foi de 38,2% do total para 60,6%, enquanto o das ferrovias
				decaiu de 29,3% para 18,8%, e a cabotagem, de 32,5% para 20,6% (<xref
					ref-type="bibr" rid="B33">Rodrigues, 1975</xref>).</p>
			<p>Logo no início da ditadura civil-militar o já decadente sistema ferroviário foi alvo
				de duras críticas e um grupo de trabalho, ao longo de 1965, listou uma relação de
				6.086 km de linhas e/ou ramais a serem eliminados. Desse total, 942 km já se
				encontravam erradicados, 1.522 km estavam com os trilhos sendo arrancados e em 1.413
				km o tráfego havia sido suspenso (Ministério dos Transportes <italic>apud</italic>
				<xref ref-type="bibr" rid="B30">Natal, 1991</xref>). Em 1966, a União estabeleceu
				uma lista de prioridades para a extinção de 10.104 km de ramais deficitários. Por
				outro lado, a nova política de transportes indicou que à rodovia caberia o papel de
				integrar e desbravar o território nacional, pois entre 1969 e 1974 houve uma
				“centralização relativa e temporária” no modal rodoviário em termos de
				responsabilidade administrativa, mecanismos de financiamento e tomada de decisões
				“motivada pela ideia de que, em matéria de planejamento dos transportes, o interesse
				predominante deveria ser o nacional” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Barat,
					1996</xref>, p. 208).</p>
			<p>E as rodovias, melhor do que os fixos dos demais modais, cumpririam essa função em um
				cenário macroeconômico marcado pela modificação profunda na demanda dos serviços de
				transporte - crescimento anual de 9,2% entre 1950-1965, superior à taxa de elevação
				anual do PIB de 5,2% no mesmo período -, com alteração na estrutura dos serviços e
				na distribuição espacial dos fluxos. Esse processo, emoldurado por expressivas taxas
				de migrações internas e de urbanização, além da incorporação de novas áreas ao setor
				agropecuário, era economicamente favorável ao transporte rodoviário, sobretudo
				diante de um desequilíbrio na estrutura de demanda do setor de transportes pela
				ausência de condições necessárias à integração dos modais (<xref ref-type="bibr"
					rid="B14">Carneiro, 1970</xref>). Cabe destacar que a rede rodoviária do país,
				incluindo estradas federais, estaduais e municipais, foi ampliada de 803.028 km, em
				1965, para 1.371.554 km, em 1980, crescimento de 70,79% (<xref ref-type="bibr"
					rid="B24">IBGE, 1966</xref>, v. 27). A frota nacional de veículos não ficou
				atrás: eram 647.573 e 398.349 unidades de passageiros e carga, respectivamente,
				alteradas para 2.464.285 e 645.417, em 1970 (IBGE apud <xref ref-type="bibr"
					rid="B30">Natal, 1991</xref>, p. 256).</p>
			<p>Apesar dos investimentos contemplados pelo II Plano Nacional de Desenvolvimento, a
				situação do sistema ferroviário brasileiro não era nada confortável, com alta taxa
				de ociosidade da indústria de equipamentos ferroviários e instabilidade dos
				investimentos e manutenção recorrente das dívidas da Rede Ferroviária Federal S.A.
				(RFFSA) - que havia sido criada durante o governo JK, em 1957, exatamente para dotar
				o sistema ferroviário federal de uma nova racionalidade organizacional. Nos
				estertores da ditadura civil-militar, os principais produtos transportados pelos
				trilhos da RFFSA, em 1983, eram minério de ferro (para exportação e mercado
				interno), carvão, calcário, produtos agrícolas, adubo, derivados de petróleo,
				cimento e produtos siderúrgicos. Em relação a 1981, houve crescimento de 348,41%
				quanto à receita do movimento de carga - este ampliado em 8,49%. Entretanto, o
				desempenho econômico-financeiro da empresa foi diagnosticado como negativo em Cr$
				4,2 bilhões (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Brasil, 1983</xref>).</p>
			<p>Mesmo com um balanço considerado “equilibrado”, o saldo devedor das operações de
				financiamento, de Cr$ 2,41 trilhões, teria reflexos no passivo da empresa. Como
				resultado, o estoque da dívida da RFFSA (cerca de Cr$ 3 trilhões) havia crescido 8%
				a.a. no quadriênio 1980-1983, de “valor idêntico ao seu patrimônio líquido” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Brasil, 1983</xref>, p. 45). Em outras palavras, a
				situação chegou a um ponto tal que, para honrar toda a sua dívida, era necessário
				vender todo o seu patrimônio. Contabilmente falando, a RFFSA estaria à beira da
				situação de insolvência real, tanto que o governo precisou editar um Decreto-Lei (o
				de n. 2.178, de 4 de dezembro de 1984) para estabelecer que a União absorveria todos
				os compromissos assumidos pela RFFSA até 31 de dezembro daquele ano.</p>
			<p>A análise da dicotomia entre rodovia e ferrovia no Brasil é muito mais complexa, e
				envolve uma trama encadeada de múltiplos fatores, é verdade, mas o fato é que o
				caminhão acabou substituindo em larga escala os vagões para o transporte de carga,
				amplificando a atuação dos agentes do TRC. Entretanto, se trata de um processo
				histórico repleto de erros, acertos e, sobretudo, contradições - e, antes de mais
				nada, é preciso compreendê-lo como um sintoma do subdesenvolvimento.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>(1)</label>
				<p>Reboques e semirreboques são implementos rodoviários (carroceria) não fabricados
					pelas montadoras, que acoplados à estrutura de um veículo trator formam uma
					combinação de veículos de carga (CVC). Os reboques possuem eixos na frente e
					atrás e são puxados por um caminhão. Os semirreboques em geral deixam o veículo
					com maior capacidade de carga e contêm eixos apenas na parte traseira, já que a
					dianteira é apoiada na quinta roda do caminhão - que neste caso é tido como
					unidade tratora ou trator (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Huertas,
					2018</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>(2)</label>
				<p>Caminhão específico para o transporte de veículos automotores, novos ou
					usados.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>(3)</label>
				<p>O DNER havia sido criado pela Lei n. 467, de 31 de julho de 1937. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>(4)</label>
				<p>Apenas em 1990 a CNTT se tornou a Confederação Nacional dos Transportes (CNT),
					com sede em Brasília, ampliando o seu foco para a multimodalidade.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>(5)</label>
				<p>O próprio estudo indicou que não existiam dados consistentes do número e
					localização das empresas de transporte rodoviário de carga sediadas no país,
					apesar da previsão legal (Decreto n. 51.723, de 1963) para o seu registro e
					cadastramento, sob responsabilidade do DNER. O estudo ainda considerou a
					distribuição das agências das empresas, mas não explicou qual era a diferença
					entre filial e agência. Quanto à última, curiosamente o Sul liderava, com 34% do
					total, contra 27% do Sudeste e 22,4% do Nordeste (<xref ref-type="bibr"
						rid="B12">Brasil, 1976</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>(6)</label>
				<p>O documento também expõe os dados das empresas de transporte rodoviário de
					passageiros e das empresas tidas como de “transporte misto”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>(7)</label>
				<p>Em revista <italic>Maiores &amp; Melhores do Transporte</italic>, editada pela
					OTM Editora, ano 24, n. 24, p. 17, nov. 2011. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>(8)</label>
				<p>Revista <italic>Rodovia,</italic> n. 148, p. 18, 1952. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>(9)</label>
				<p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B1">Brasil (1956)</xref> e <xref ref-type="bibr"
						rid="B10">Bittencourt (1960</xref>, p. 13-76).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>(10)</label>
				<p>Idem.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>(11)</label>
				<p>Dados obtidos na revista <italic>Rodovia</italic>, n. 216, 1958.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>(12)</label>
				<p>Anuário Estatístico da Indústria Automobilística Brasileira 2019. Não inclui
					veículos desmontados (CKD).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other">
				<p><bold>JEL:</bold> N76.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>BRASIL. <italic>Política de transportes e comunicações do governo do
						presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira no quinquênio 1956-60</italic>.
					Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional/MVOP, 1956.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<collab>BRASIL</collab>
					</person-group>
					<source>Política de transportes e comunicações do governo do presidente
						Juscelino Kubitschek de Oliveira no quinquênio 1956-60</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Departamento de Imprensa Nacional/MVOP</publisher-name>
					<year>1956</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>ASSOCIAÇÃO RODOVIÁRIA DO BRASIL (ARB). <italic>O transporte
						rodoviário no Brasil:</italic> o plano federal de obras rodoviárias. Rio de
					Janeiro: ARB, 1961.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<collab>ASSOCIAÇÃO RODOVIÁRIA DO BRASIL (ARB)</collab>
					</person-group>
					<source>O transporte rodoviário no Brasil: o plano federal de obras
						rodoviárias</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>ARB</publisher-name>
					<year>1961</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS FABRICANTES DE IMPLEMENTOS RODOVIÁRIOS
					(ANFIR). <italic>Anfir: 35 anos (1980-2015)</italic>. São Paulo: Ponto &amp;
					Letra Comunicação, 2015.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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					<source><italic>A natureza do espaço</italic>. Técnica e tempo. Razão e
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				<mixed-citation>SÁVIO, Marco Antônio C. Há liras de Orfeu em todos os automóveis: as
					feiras automobilísticas e as seduções do automóvel em São Paulo, nos anos 1920.
						<italic>Cadernos do CEOM</italic>, Chapecó, ano 19, n. 24 (Cultura
					Material), p. 217-236, 2014.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>SENÇO, Wlastermiler de. <italic>Estradas de rodagem:</italic>
					projeto. São Paulo: Grêmio Politécnico/DLP, 1975.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>SILVA JÚNIOR, Roberto França. <italic>Geografia de redes e da
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					(Unesp), Presidente Prudente, 2004.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>TEDESCO, Giovanna Megumi Ishida. <italic>Transporte rodoviário de
						cargas:</italic> contribuição conceitual e metodológica à análise e
					classificação de mercados. Tese (Doutorado em Economia)-Universidade de Brasília
					(UnB), Brasília, 2012.</mixed-citation>
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