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                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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                <publisher-name>Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas;
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					<subject>Artigo original</subject>
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				<article-title>O resgate das teorias do imperialismo para a análise do
					neoliberalismo: um debate<sup>*</sup></article-title>
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					<trans-title>The rescue of the theories of imperialism for the analysis of
						neoliberalism: a debate</trans-title>
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				<institution content-type="normalized">Universidade Federal do Espírito
					Santo</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Departamento de Economia</institution>
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				<email>vinieco2016@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Professor adjunto do Departamento de Economia
					da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES,
					Brasil</institution>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>No momento em que se observa a recorrência de trabalhos na área da Economia
					Política que se dedicam a analisar o capitalismo contemporâneo a partir do
					enfoque da construção das subjetividades, para os quais o pilar fundamental do
					chamado sistema neoliberal é o advento de uma nova razão de mundo, ou de um novo
					espírito do capitalismo, o propósito primeiro deste trabalho é o de resgatar as
					teorias do imperialismo, especialmente as marxistas, como ferramenta teórica de
					estudo da sociedade contemporânea, mostrando que elas nos permitem manter a
					análise do neoliberalismo no campo concreto da sociedade de classe, sem por isso
					perder toda a amplitude de seus desdobramentos nas demais dimensões da vida e da
					consciência humanas. Suscitamos o pensamento de Marx e Engels acerca dos meios
					da produção espiritual, n’A Ideologia Alemã, para nos auxiliar nesse debate.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Precisely at the moment when it is observed the recurrence of works in the
					Political Economy dedicated to analyzing contemporary capitalism from the focus
					of the construction of subjectivities, for which the fundamental pillar of the
					so-called neoliberal system is the advent of a new reason for world, or a new
					spirit of capitalism, the main purpose of this work is to rescue the theories of
					imperialism, especially the marxist ones, as a theoretical tool for the study of
					contemporary society, showing that they allow us to keep the analysis of
					neoliberalism in the concrete field of class society, without losing all the
					breadth of its unfolding in other areas of human life and consciousness. We
					raise the thought of Marx and Engels about the means of spiritual production, in
					The German Ideology, to help us in this debate.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Capitalismo</kwd>
				<kwd>Imperialismo</kwd>
				<kwd>Neoliberalismo</kwd>
				<kwd>Economia política</kwd>
				<kwd>Marx e Engels</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Capitalism</kwd>
				<kwd>Imperialism</kwd>
				<kwd>Neoliberalism</kwd>
				<kwd>Political economy</kwd>
				<kwd>Marx and Engels</kwd>
			</kwd-group>
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		</article-meta>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Têm sido recorrentes, nas últimas décadas, os trabalhos na área da Economia Política
				sobre o capitalismo contemporâneo que realizam uma crítica a esse sistema a partir
				do enfoque das mentalidades, da subjetivação da ação humana, onde a ênfase recai na
				racionalidade humana, nos novos modos de pensar e agir que estariam a determinar o
				comportamento dos indivíduos. Assim, estaria em curso, desde os anos 1970, a
				construção de uma nova razão de mundo ou, ainda, o advento de um novo espírito do
				capitalismo, responsável pela materialização de uma nova sociedade. Para tais
				abordagens, o pilar fundamental do chamado sistema neoliberal são os processos que,
				operando por meio de técnicas e práticas de poder que não se limitam à ação do
				Estado, criam um tipo de subjetividade adequada à expansão do capitalismo.</p>
			<p>Os autores que se debruçam sobre essa perspectiva teórica conferem ao neoliberalismo
				um status de lógica normativa historicamente nova, ou seja, para eles, estaríamos
				diante de uma mudança completa de paradigmas, um novo sujeito, em cuja consciência
				generalizou-se a forma social da concorrência em todos os aspectos da vida humana. A
				partir daí, desenvolvem-se novos comportamentos que ditam outra forma societal,
				pautada no desempenho e na autoexploração (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Han,
					2015</xref>), baseada em uma racionalidade que domina a partir de novas formas
				de governamentalidade social (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot; Laval,
					2016</xref>), ou mesmo na capacidade individual de adaptabilidade ao novo
				espírito do capitalismo (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski; Chiapello,
					2009</xref>). Assim, por estarmos diante de um mundo novo, necessitaríamos
				também de uma nova abordagem teórica, mais completa e abrangente do que as teorias
				críticas até então em voga, que fosse capaz de captar, nesse todo complexo, as
				mudanças sociais que se operaram a partir dos anos 1970, sem negligenciar outros
				campos da vida social em favor da primazia da esfera econômica.</p>
			<p>Reconhecendo a importância de tais contribuições teóricas para se interpretar os
				impactos das mudanças no metabolismo social provocadas pelo neoliberalismo e os
				efeitos que a adaptabilidade humana à nova racionalidade provocam sobre o indivíduo
				comum, sobre seu comportamento individual e coletivo e sobre sua saúde física e
				mental, busca-se, preliminarmente, tecer uma crítica pontual sobre o risco da
				sobredeterminação política e ideal que tais interpretações podem despertar para, em
				seguida, propor a retomada da abordagem do imperialismo como ferramenta de estudo do
				neoliberalismo, trazendo assim a discussão para o campo onde operam as relações e a
				luta de classes.</p>
			<p>Assim, o propósito principal é mostrar que a análise teórica do imperialismo permite
				a apreensão totalizante do processo de expansão, exploração e dominação econômicas
				forjado pelo grande capital dos Estados que compõem o centro do sistema capitalista
				mundial. Isso significa que a abordagem leva em conta a dinâmica econômica desse
				processo de expansão sem desconsiderar o poderoso e opressivo discurso político,
				cultural, ético e moral que, transcendendo a manifestação aparente do fenômeno,
				molda um padrão de consciência social adequado aos interesses dos detentores do
				grande capital mundial, uma vez que a ação imperialista é acompanhada da
				disseminação de um tipo de ilusão, ou mistificação, que leva ao convencimento e
				acomoda as expectativas humanas frente às contradições geradas na sociedade pelo
				avanço desse processo que é predatório e violento.</p>
			<p>As teorias marxistas do imperialismo conseguem captar a essência do que Marx e Engels
				consideraram, n’A Ideologia Alemã, como sendo os meios da produção espiritual,
				aqueles utilizados como a expressão ideal da dominação por parte dos detentores dos
				meios da produção material. Como veremos mais à frente neste trabalho, se as ideias
				da classe dominante não podem ser separadas dos indivíduos que compõem a classe
				dominante e, se as ideias que dominam tomam, cada vez mais, a aparência de
				universalidade, então o imperialismo representa uma importante ferramenta teórica
				para a análise concreta do capitalismo contemporâneo.</p>
			<p>Para ilustrar essa forma de pensar, mostrar-se-á que, do final dos anos 1970 até os
				dias atuais, as mesmas condições materiais que beneficiaram economicamente os
				capitais oriundos do centro hegemônico do capitalismo mundial e levaram à
				precarização das condições de trabalho foram acompanhadas pela produção de uma
				consciência social adequada aos interesses dominantes, determinando os ideais e as
				representações simbólicas dos trabalhadores na era neoliberal.</p>
			<p>Desse modo, para alcançar os objetivos propostos, dividimos o texto em quatro seções
				que se seguem a esta breve introdução. Na primeira, apresentamos alguns aspectos de
				duas dessas abordagens sobre o neoliberalismo que se baseiam no advento de uma nova
				mentalidade como pilar fundamental de sustentação da sociedade contemporânea. Na
				segunda seção, tecemos uma crítica pontual a esse tipo de abordagem. Na terceira
				seção, fazemos um resgate do pensamento de Marx e Engels, especialmente do presente
				n’A Ideologia Alemã, para indicar como as ideias que emanam a partir dos interesses
				da classe dominante tomam, na aparência da sociedade, o contorno de universalidade e
				autodeterminação, criando uma falsa impressão de se tratarem de um espírito geral.
				E, na quarta seção, realizamos uma análise do imperialismo ontem e hoje,
				apresentando alguns de seus desdobramentos materiais na atualidade, bem como do
				conjunto ideal que lhe serve de justificação moral e convencimento social,
				particularmente no que diz respeito ao seu impacto no mundo do trabalho. Nossas
				considerações finais enceram o presente trabalho.</p>
			<sec>
				<title>1 Uma nova razão de mundo e um novo espírito do capitalismo</title>
				<p>Dentre os trabalhos que têm se dedicado à crítica do capitalismo contemporâneo e
					que depositam no advento de uma nova racionalidade, ou de um novo espírito
					humano, o pilar fundamental da sociedade neoliberal, destacamos duas
					contribuições de grande impacto acadêmico mundial. Tratam-se dos trabalhos de
					Pierre Dardot e Christian Laval, <italic>A nova razão do mundo</italic>, e de
					Luc Boltanski e Ève Chiapello, <italic>O Novo espírito do capitalismo</italic>,
					escritos, aquele, durante a crise financeira de 2008 e, este, pouco tempo antes,
					ao longo dos últimos cinco anos do século XX.</p>
				<p>Partindo de uma retomada do pensamento do filósofo Michel Foucault, mesclando
					elementos da psicanálise com a sociologia weberiana e utilizando aportes
					característicos das teorias críticas do capitalismo, <xref ref-type="bibr"
						rid="B13">Dardot e Laval (2016)</xref> apontam para uma mudança, ou “grande
					virada dos anos 1970/80”, da lógica normativa da sociedade capitalista, a qual
					teria sido capaz de reorientar não apenas políticas econômicas e sociais, mas de
					torná-las receptivas e aceitáveis, duradouras e incorporadas na maneira de
					pensar e agir do indivíduo contemporâneo. E isso porque, segundo os autores, o
					neoliberalismo revela técnicas de poder e governamentalidade inéditas sobre as
					condutas e as subjetividades.</p>
				<p>Defendendo a ideia de que a forma tradicional com que a “esquerda radical e
					alternativa” interpretam o capitalismo contemporâneo é insuficiente para
					entender o papel do Estado nessa nova ordem social, os autores franceses apostam
					na subordinação do ser humano a uma nova racionalidade política. Esta, por meio
					de práticas e técnicas de poder, generaliza a ideia de concorrência social para
					todos os âmbitos da vida, criando uma lógica normativa que reorienta as
					percepções econômicas e políticas, as ações do cotidiano, o comportamento
					individual e coletivo, aí incluídas as impressões individuais sobre liberdade,
					democracia, trabalho e mesmo sobre os relacionamentos interpessoais.</p>
				<p>Afirmam que o neoliberalismo seria “em primeiro lugar e fundamentalmente, uma
					racionalidade”, uma racionalidade política capaz de reorganizar “não apenas a
					ação dos governantes, mas a própria conduta dos governados”. Ao disciplinar os
					indivíduos e as instituições às novas regras do jogo econômico e social, as
					pessoas estariam se adaptando e, de certo modo, corroborando a construção de um
					novo padrão ético e comportamental, baseado na autovalorização e na
					“racionalização do desejo” individual (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot;
						Laval, 2016</xref>, p. 15, 327). Este novo padrão sustentaria as bases
					materiais, o método de ação e os objetivos que alimentam e fazem avançar o
					conjunto da economia capitalista, composta por indivíduos plenamente engajados à
					lógica do mercado.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>(...) só há “grande virada” mediante a implantação geral de uma nova lógica
						normativa, capaz de incorporar e reorientar duradouramente políticas e
						comportamentos numa nova direção (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot;
							Laval, 2016</xref>, p. 188).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Definindo o neoliberalismo como “o conjunto de discursos, práticas e dispositivos
					que determinam um novo modo de governo dos homens segundo o princípio universal
					da concorrência”, os autores afirmam que este sistema não emergiu apenas como
					resposta à crise de acumulação capitalista dos anos 1970, mas foi resultado de
					uma completa reformulação dos modos de governo que regem a vida dos indivíduos,
					ou seja, uma nova forma de “governamentalidade” baseada na ideia de biopoder e
					todo o conjunto de controle e orientação das condutas humanas que este conceito
					foucaultiano abrange. Nessa nova sociedade imperaria, então, a “concorrência e o
					modelo empresarial”, a lógica do empresário de si mesmo, o sujeito governado,
					dominado e controlado por si próprio.</p>
				<p>A relação hierarquizada e de domínio que se interpõe entre as classes operária e
					capitalista, ou entre o capital e o trabalho, transfere-se para o próprio
						<italic>neossujeito</italic>, esse novo indivíduo que emerge com a sociedade
					neoliberal. Em lugar do constrangimento externo, a autovigilância, a
					autodisciplina e a autopunição tomam o lugar do patrão, ou do Estado, e passam a
					constituir “um modo geral de governo muito além da esfera econômica”. Seguindo
					tal entendimento, o neoliberalismo se apresentaria então como “uma nova razão do
					capitalismo contemporâneo”, uma vez “desimpedido de suas referências arcaizantes
					e plenamente assumido como construção histórica e norma geral de vida” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B13">Dardot; Laval, 2016</xref>, p. 15-24).</p>
				<p>Trazendo ainda da psicanálise lacaniana a categoria do <italic>gozo de
						si</italic>, <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot e Laval (2016</xref>, p.
					361-363) apontam para o fato de que o sujeito neoliberal, constantemente exposto
					à “depressão, à dependência e à perversão”, imprime em sua vida uma jornada
					incessante em busca de um gozo que “ultrapasse o prazer limitado e parcial”
					disponível na ordem social ordinária. Tal ímpeto levaria o indivíduo a perceber
					no trabalho assalariado uma forma de coerção que inexistiria sobre a pessoa do
					empresário de si. Livre da coação e das exigências do patrão, do salário
					limitado, do peso da hierarquia, da subserviência à disciplina do relógio e às
					metas preestabelecidas, o neossujeito reconstrói sua subjetividade tanto no
					trabalho quanto fora dele com base no “dispositivo desempenho/gozo”. Desaparece,
					portanto, no imaginário do indivíduo, a ideia de trabalho como castigo e o
					trabalhador passa a se autogovernar. Como extensão desse raciocínio,
					explicar-se-iam a perda da identidade coletiva, do sentimento de pertencimento e
					da consciência de classe, a desconstrução da luta sindical e o descaso, por
					parte do próprio trabalhador, em relação aos direitos e garantias historicamente
					conquistados.</p>
				<p>Com base em um método semelhante, i.e., a partir da análise centrada na
					construção de uma nova mentalidade e no conjunto de justificações que sustentam
					a manutenção da ordem capitalista, <xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski e
						Chiapello (2009</xref>, p. 20) apontam para uma incompletude da crítica
					radical ao capitalismo que tivesse sido capaz de compreender as mudanças desse
					sistema operadas nos anos 1960/70. Tal lacuna teria deixado “o campo livre para
					a reorganização do capitalismo”. Oriundos também da sociologia francesa, os
					autores sustentam a necessidade da existência de “poderosas razões morais”
					capazes de levar o indivíduo a se aliar ao capitalismo. Afinal, para eles, o
					sistema capitalista é “algo absurdo”, pois</p>
				<p><disp-quote>
					<p>(...) os assalariados perderam a propriedade do resultado de seu trabalho e a
						possibilidade de levar uma vida ativa fora da subordinação. Quanto aos
						capitalistas, estão presos a um processo infindável e insaciável, totalmente
						abstrato e dissociado da satisfação de necessidades de consumo, mesmo que
						supérfluas (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski; Chiapello,
						2009</xref>, p. 38).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Assim, ambos, trabalhadores e capitalistas, precisariam de uma justificação para
					se inserirem no processo capitalista. Necessitariam de uma “ideologia que
					justifique o engajamento no capitalismo”, em outras palavras, passam pela
					“necessidade de um espírito do capitalismo”, capaz de ordenar as condutas
					cotidianas nesse ambiente caótico. Mas, para os autores, o termo
						<italic>ideologia</italic> deve se “desvencilhar do sentido redutor (...)
					dado pela vulgarização marxista (...) de discurso moralizador voltado a velar
					interesses materiais”. Em substituição, defendem a definição de ideologia “como
					o conjunto de crenças compartilhadas, inscritas nas instituições (...) ancoradas
					na realidade”. Assim, o propósito da obra, segundo os autores, seria o de
					analisar “as mudanças ideológicas que acompanharam as recentes transformações do
					capitalismo”. (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski; Chiapello, 2009</xref>,
					p. 33). Ou seja, uma mudança na mentalidade.</p>
				<p>Tal espírito, ou “conjunto de crenças associadas à ordem capitalista que
					contribuem para justificar e sustentar essa ordem, legitimando os modos de ação
					e as disposições coerentes com ela”, teria passado por uma grande transformação
					a partir da falência do keynesianismo e do Estado de bem-estar social que
					perdurou desde após a Segunda Guerra até os anos 1970 (<xref ref-type="bibr"
						rid="B5">Boltanski; Chiapello, 2009</xref>, p. 42). A partir daí, dado o
					ceticismo social crescente frente a um cenário macroeconômico distinto, marcado
					pelo desemprego e pela precarização do trabalho, que colocava em risco a
					segurança em relação ao futuro e ameaçava os três elementos essenciais de
					compromisso do capitalismo até então, “diploma, carreira e aposentadoria”, o
					capitalismo precisaria de outro mote capaz de dar às pessoas condições de
					continuarem acreditando na garantia de “uma segurança mínima”, sem a qual o
					sistema não resistiria (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski; Chiapello,
						2009</xref>, p. 26).</p>
				<p>Uma nova ordem mundial que necessitaria de um novo espírito, capaz de criar no
					cidadão comum uma aposta no futuro e garantir a sobrevivência do próprio
					sistema, algo para além da simples <italic>motivação material</italic>, pois
					esta, segundo os autores, mostra-se “bem pouco estimulante”, no sentido de
					manter o sistema como um todo, assim como insuficiente também se mostra a
						<italic>coerção</italic> patronal, uma vez que a “adesão ativa ao propósito
					da empresa deve contar com iniciativas e sacrifícios livremente assumidos e
					aceitos” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski; Chiapello, 2009</xref>, p.
					38-40). Por isso, os autores encontram na expressão
						<italic>justificação</italic>, mais do que em <italic>espírito</italic>, o
					termo adequado para representar tanto as “justificações individuais”, que são os
					anseios e motivações subjetivos capazes de levar as pessoas a se empenharem na
					empresa capitalista, quanto “as justificações gerais”, responsáveis por manter
					esse empenho desmedido a serviço de um suposto bem comum. (<xref ref-type="bibr"
						rid="B5">Boltanski; Chiapello, 2009</xref>, p. 41).</p>
				<p>Em resumo, nesse mundo em transformação que emerge a partir dos anos 1970/80,
					completamente globalizado e pautado em tecnologias que se renovam
					incessantemente, para <xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski e Chiapello
						(2009)</xref>, um novo espírito do capitalismo estaria em construção,
					erguendo uma nova justificação, ancorada em princípios como a capacidade de
					mobilidade e de adaptabilidade do trabalhador às mudanças de ambientes
					institucionais diversos e também mutáveis; a flexibilidade para atender
					alternativas intermitentes do novo ambiente empresarial contratual; criatividade
					e reatividade do indivíduo para responder prontamente às exigências das
					empresas, bem como a aptidão necessária para encontrar novas possibilidades de
					trabalho dentro ou fora do ambiente corporativo. Um espírito capaz de preparar o
					indivíduo histórico, para que ele esteja pronto, no sentido técnico, emocional e
					afetivo do termo, para lidar com as novas habilidades e expectativas
					profissionais que o processo de acumulação assume a partir do advento de um
					padrão totalmente flexível de produção (<xref ref-type="bibr" rid="B5"
						>Boltanski; Chiapello, 2009</xref>).</p>
				<p>Fazendo um paralelo entre as duas interpretações citadas, acreditamos que a
					necessidade do advento desse novo espírito do capitalismo represente, para <xref
						ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski e Chiapello (2009)</xref>, papel
					semelhante ao da nova mentalidade, ou nova razão de mundo, presente em <xref
						ref-type="bibr" rid="B13">Dardot e Laval (2016)</xref>. Em ambas as
					interpretações, emerge a necessidade da construção de uma nova mentalidade, ou
					conjunto ideal de crenças e impressões sobre o mundo, capaz de ancorar o
					comportamento, as escolhas e mesmo as expectativas do indivíduo em relação ao
					futuro. Da mesma forma, o advento de uma nova sociedade para além do capitalismo
					neoliberal dependeria também da construção de uma nova racionalidade, ou um novo
					espírito.</p>
				<p>Importante aqui destacar as influências teóricas que servem de base metodológica
					e categorial aos autores em pauta, em especial, vindas da filosofia
					nietzschiana, da abordagem crítica de Foucault, além da sociologia de Weber.
					Ademais, não se pode desprezar a experiência histórica por eles vivenciada,
					tributários que são do legado de 1968, um período revolucionário marcado pelas
					mudanças comportamentais, culturais, políticas e sociais e pelo o entusiasmo
					crítico com o idealismo progressista de esquerda que se disseminava entre os
					jovens e os intelectuais, sobretudo na Europa e, mais especificamente, na
					França.</p>
				<p>Pierre Dardot, em uma entrevista conjunta com Christian Laval a <xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Andrade e Ota (2015</xref>, p. 282), afirma que
					“nós nos apoiamos na crítica nietzschiana a toda teleologia histórica, levando a
					sério particularmente o tema da morte de Deus: tal morte significa que ‘a
					história está vazia como o céu’”. Tal comprometimento teórico, segundo o próprio
					Dardot, o fez realizar “uma crítica radical à ilusão de autossuperação do
					capitalismo como resultado de suas contradições internas e à crença progressista
					pela qual todo passo dado pelo capitalismo é um avanço em direção ao momento de
					sua autossuperação”. E assevera que “a recuperação dessa ideia de Nietzsche nos
					aproximava de Foucault”, referindo-se à sua metodologia baseada na abordagem
					genealógica.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Mas o que contribuiu de modo decisivo à nossa proximidade intelectual com a
						genealogia tal como Foucault a pratica foi a leitura de <italic>Nascimento
							da biopolítica,</italic> em 2004, bem antes da publicação de
							<italic>Sauver Marx?</italic><sup><xref ref-type="fn" rid="fn1"
							>1</xref></sup> Foi para nós um verdadeiro choque, cujo efeito retardado
						ocorreu cinco anos depois, com a edição de <italic>La nouvelle raison du
							monde</italic>. Em 2007 nós já havíamos começado a dedicar muitas
						sessões do <italic>Question Marx</italic><sup><xref ref-type="fn" rid="fn2"
								>2</xref></sup> a esse curso de Foucault e a nos apropriar do
						procedimento genealógico (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dardot; Laval,
							2015</xref>, p. 283, itálicos no original).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Para Lopes, em seu prefácio à obra de Christian Laval sobre as interpretações do
					neoliberalismo a partir das ideias de Foucault e de Bourdieu (<xref
						ref-type="bibr" rid="B26">Laval, 2021</xref>, p. 7), Foucault foi decisivo
					na elaboração de Laval e Dardot sobre o neoliberalismo. E completa,</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Como afirmam Laval e Dardot em diversos textos, eles se apoiaram nas análises
						foucaultianas para mostrar que o neoliberalismo não é só reflexo do capital
						financeiro: não diz respeito apenas à economia e ao monopólio das receitas
						de políticas econômicas, mas ao caráter geral de um modo de governo dos
						homens que afeta todas as instituições (<xref ref-type="bibr" rid="B27"
							>Lopes, 2021</xref>, p. 8).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Tal percepção se evidencia também na afirmação de Dardot, na mesma entrevista
					acima citada.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Mas a nossa análise do neoliberalismo tende a mostrar que o capital não
						consegue isso com os seus próprios meios, que ele não é dotado dessa
						potência autônoma que Marx lhe atribuía. E é justamente aí que Foucault -
						como Polanyi - é precioso, por lembrar até que ponto, ainda hoje, as
						relações sociais próprias do capitalismo não se estendem por meio de uma
						dinâmica econômica passível de ser isolada das relações de poder, das
						construções institucionais, das formas jurídicas (<xref ref-type="bibr"
							rid="B12">Dardot; Laval, 2015</xref>, p. 285).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Além dessas inspirações, a concepção de neoliberalismo presente no pensamento de
					Dardot e Laval traz também um sentido de racionalidade que os aproxima da
					sociologia de Weber, em especial, da percepção de uma “razão-mundo”, uma ética,
					um cosmo social reconfigurado, especificamente capitalista, que constrói novos
					valores e sentidos nas diferentes dimensões da vida (<xref ref-type="bibr"
						rid="B2">Andrade; Ota, 2015</xref>, p. 283) Nesses termos, segundo Laval, “a
					ideia weberiana de um cosmos-capitalista que está no fim da <italic>Ética
						protestante</italic> e que denomina esse encerramento na jaula de ferro dos
					mecanismos econômicos, dos quais não se pode mais sair, é retomada por nós”
						(<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dardot; Laval, 2015</xref>, p. 284). Mas,
					segundo ele, com diferenças em relação à investigação realizada pelo sociólogo
					alemão sobre o espírito do capitalismo, pois, para Laval,</p>
				<p><disp-quote>
					<p>É uma ideia diferente da análise que ele (Weber) faz dos processos de
						racionalização religiosa, jurídica e científica que, por serem
						historicamente plurais, conferiram uma nuance própria ao Ocidente
						capitalista e utilitarista. Retomamos a fórmula estendendo-a da ordem
						econômica à social, o que nos parece que não trai a inspiração da sociologia
						weberiana ao mostrar, por exemplo, a extensão da calculabilidade a todas as
						esferas da sociedade moderna (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dardot; Laval,
							2015</xref>, p. 285).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Essa inspiração weberiana, sobre o surgimento de uma nova forma de pensar e agir
					por parte dos sujeitos históricos, da construção ideal de uma nova razão do
					mundo, alimenta também a perspectiva teórica dos autores que anunciaram o
					surgimento de um novo espírito do capitalismo, Luc Boltanski e Ève Chiapello.
					Para eles, sem a ambição de querer explicar a gênese do capitalismo, mas apenas
					compreender as condições e as mudanças que foram necessárias à sustentação
					histórica desse sistema até os nossos dias, a noção de espírito do capitalismo
					que evocam, apesar de inspirada em Weber, se difere um pouco do enfoque canônico
					do termo, ou seja, aquele que diz respeito à constituição de um novo
						<italic>ethos</italic>, que rompe com o comportamento e as práticas
					racionais tradicionais. Nesse sentido, os autores afirmam que</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Nosso propósito é o estudo das variações observadas, e não a descrição
						exaustiva de todos os constituintes do espírito do capitalismo. (...) No
						entanto, <italic>ao longo desse percurso histórico, permaneceremos fiéis ao
							método do tipo ideal weberiano</italic>, sistematizando e ressaltando o
						que nos parece específico de uma época em oposição às épocas precedentes,
						dando mais importância às variações que às constâncias, mas sem ignorar as
						características mais estáveis do capitalismo (<xref ref-type="bibr" rid="B5"
							>Boltanski; Chiapello, 2009</xref>, p. 43, grifos nossos).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Segundo os autores, a “persistência do capitalismo não pode ser entendida sem a
					consideração das ideologias que, justificando-o e conferindo-lhe sentido,
					contribuem para suscitar a boa vontade daqueles sobre os quais ele repousa”
						(<xref ref-type="bibr" rid="B5">Boltanski; Chiapello, 2009</xref>, p. 41).
					Para ter sobrevivido às crises que pareciam anunciar seu fim, o capitalismo
					precisou, defendem os autores, apoiar-se em representações e justificações
					morais, tanto individuais quanto em relação ao comum, que, uma vez
					interiorizadas e justificadas pelos indivíduos, moldaram uma nova forma
					societal.</p>
				<p>Esse enfoque predominante no campo das transformações morais, ideológicas e
					cognitivas, capazes de favorecer o surgimento de novas mentalidades em
					diferentes momentos históricos do desenvolvimento do capitalismo, presentes em
					trabalhos como os dos quatro autores acima citados, tornar-se-ia, para eles, o
					método mais adequado para o entendimento ampliado de fenômenos históricos como,
					por exemplo, o neoliberalismo, dada a sua capacidade de abarcar as mais diversas
					dimensões da vida, indo muito além da esfera econômica e das motivações e
					justificações materiais.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2 Uma ponderação crítica</title>
				<p>Acolhemos a importância e pertinência de análises críticas como as acima tratadas
					por apresentarem o neoliberalismo como uma realidade concreta, um momento
					histórico específico do capitalismo; por discutirem a expansão da lógica
					mercantil para todos os âmbitos ou dimensões da vida humana; por contribuírem
					para o debate sobre as formas de subsunção do trabalho ao capital, neste caso, a
					subsunção imaterial do trabalho ao capital (<xref ref-type="bibr" rid="B42"
						>Prado; Pinto, 2014</xref>); por desconstruírem os discursos superficiais ou
					falaciosos que identificam o neoliberalismo com a defesa de um conjectural
					Estado mínimo e com a lógica meramente aparente da meritocracia e do
					comportamento empreendedor; por despertarem a preocupação para com as
					implicações do neoliberalismo sobre a saúde física, emocional e mental dos
					indivíduos, uma vez inseridos no redemoinho da competição e da concorrência; por
					contribuírem com o debate sobre a necessidade da emancipação social para além do
					capitalismo e outras propostas que expandem a agenda de pesquisa da Economia
					Política.</p>
				<p>No entanto, na esteira do desenvolvimento desse método de interpretação centrado
					no advento de uma nova racionalidade, tornou-se comum a impressão de que tal
					abordagem seria mais abrangente, ou menos limitada, do que as análises
					marxistas, estando assim mais apta e qualificada para compreender esse momento
					da história do capitalismo, pois apresentaria a vantagem de se expandir para
					além do campo de influência da economia ou da esfera material. <xref
						ref-type="bibr" rid="B13">Dardot e Laval (2016</xref>, p. 15), por exemplo,
					enfatizam uma superioridade explicativa desse modelo ao afirmarem que algumas
					das recentes interpretações marxistas sobre o neoliberalismo seriam
					insuficientes para “captar a novidade do capitalismo neoliberal”, pois se
					“fecham numa concepção que faz da ‘lógica do capital’ (expressão que aparece
					entre aspas no texto dos autores citados) um motor autônomo da história” e,
					assim, estariam sempre a “reduzir a história à repetição dos mesmos roteiros com
					as mesmas personagens, porém novos figurinos”. Em seguida, decretam que a
					interpretação marxista do neoliberalismo “é estreita demais para captar a
					extensão das transformações sociais, culturais e subjetivas introduzidas pela
					difusão das normas neoliberais em toda a sociedade” (<xref ref-type="bibr"
						rid="B13">Dardot e Laval, 2016</xref>, p. 23-24), dada a incapacidade dessa
					abordagem de compreender em toda sua extensão a crise dos anos 1960/1970.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Assim, não podemos nos contentar com as lições de Karl Marx nem de Rosa
						Luxemburgoo para desvelar o segredo dessa estranha faculdade do
						neoliberalismo de se estender por toda a parte, apesar de suas crises e das
						revoltas que suscita em todo o mundo. Por razões teóricas básicas, a
						interpretação marxista, por mais atual que seja, revela-se de uma
						insuficiência gritante nesse caso (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot;
							Laval, 2016</xref>, p. 19).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Em seção intitulada <italic>Os limites do marxismo</italic>, os autores tecem
					críticas às abordagens de Gérard Duménil, Dominique Lévy e David Harvey sobre o
					neoliberalismo, afirmando que o marxismo adere a “esquemas explicativos pouco
					originais”, que consideram a economia como a “única dimensão do neoliberalismo”
					e a “burguesia como um sujeito histórico que perdura no tempo”. Apontando
					incoerências, contradições e inconsistências, especialmente em <xref
						ref-type="bibr" rid="B20">Harvey (2008)</xref>, afirmam, na intenção do que
					acreditam estar corrigindo o geógrafo marxista, que “a sociedade neoliberal em
					que vivemos é fruto de um processo histórico que não foi integralmente
					programado por seus pioneiros”, ao atribuir a Harvey a suposta defesa de um
					processo teleológico tramado pelos capitalistas e governantes, “um complô ou
					doutrina pré-fabricada que os políticos teriam aplicado para satisfazer as
					expectativas de seus poderosos amigos do mundo dos negócios” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B13">Dardot; Laval, 2016</xref>, p. 21-22).</p>
				<p>Como alternativa, apresentam a lógica da “estratégia sem sujeito”, ou “estratégia
					sem estrategista”, resgatada do pensamento de Foucault e que se refere a um tipo
					de “lógica das práticas”, onde, de tanto generalizadas e multiplicadas, certas
					técnicas e práticas de poder acabam por se tornarem comuns e se espalham pelos
					micropoderes, passando a constituir o amplo <italic>sistema de poder</italic>,
					num processo que resulta na construção das subjetividades. Espalhadas e globais,
					as novas técnicas e práticas de poder se reproduzem pela sociedade sem que
					ninguém seja o responsável primeiro por elas, “nem um Estado-maior”, “nem a
					classe burguesa como sujeito pré-constituído”. Advogam assim:</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Um outro sentido do termo “estratégia”, um sentido que não a faz proceder da
						vontade de um estrategista nem da intenção de um sujeito. (...) sem que
						ninguém seja o instigador desse ‘impulso na direção de um objetivo
						estratégico’” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot; Laval, 2016</xref>,
						p. 189-190, destaques no original).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Pela interpretação da <italic>estratégia sem estrategista</italic>, entendemos
					que o objetivo para uma nova regulação, aos moldes do neoliberalismo, teria
					emergido ao longo do “próprio confronto”, por obra das diferentes forças
					“relativamente dispersas” que, a partir, e em razão das “condições de um
					confronto já iniciado”, bem como por “pressão dessas condições, sem que ninguém
					sonhasse ainda com um novo modo de regulação em escala mundial”, uma nova
					racionalidade brotaria como “fruto de ‘novas práticas que instauram técnicas de
					poder’ que se multiplicam e se generalizam, contagiando a todos e impondo, pouco
					a pouco, uma direção global”, sem a intenção de um sujeito, ou sujeitos (<xref
						ref-type="bibr" rid="B13">Dardot; Laval, 2016</xref>, p. 189).</p>
				<p>Nesse sentido, para <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot e Laval (2016</xref>,
					p. 22), essa nova sociedade neoliberal não seria “reflexo de uma lógica do
					capital que suscita as formas sociais, culturais e políticas que lhe convém à
					medida que se expande”, mas, ao contrário, que a “originalidade do
					neoliberalismo” estaria justamente no fato de “criar um novo conjunto de regras
					que definem não apenas outro “regime de acumulação”, mas também, outra
					sociedade”. Atacando o conceito de “<italic>modo de produção
					econômico</italic>”, que, segundo eles estaria presente na concepção marxista,
					os dois autores pontuam que, a seguir por esse modelo de interpretação derivado
					de Marx, o capitalismo teria uma noção muito limitada, pois seria “independente
					do direito” e geraria a “ordem jurídico-política de que necessita a cada estágio
					de seu autodesenvolvimento”.</p>
				<p>Não se trata aqui de dedicar-se a uma minuciosa crítica às teses de Dardot e
					Laval em relação às suas impressões e imprecisões sobre a análise marxiana e
					marxista do capitalismo contemporâneo. Nem mesmo de travar uma defesa dos
					argumentos dos teóricos marxistas por eles citados. Afinal, nosso foco é o de
					resgatar as teorias marxistas do imperialismo como ferramenta teórica
					fundamental de investigação do neoliberalismo. Mas, antes, consideramos
					importante debater a ideia da <italic>estratégia sem estrategista</italic>, pois
					permeia a ideia central do argumento de Dardot e Laval em relação à construção
					de uma nova razão do mundo. Para tanto, na próxima seção, buscamos apoio no
					pensamento de Marx e Engels sobre a origem da produção das ideias que dominam em
					um dado tempo histórico.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3 Marx, Engels e os meios de produção espiritual</title>
				<p>Temos acompanhado, desde os anos 1970, a desconstrução paulatina de todo o
					conjunto de direitos coletivos do trabalho, conjunto este forjado historicamente
					por meio da conquista de garantias sociais advindas da luta de classes. Os
					mecanismos para a destruição dessa rede de proteção social se alternam entre
					aqueles que operam na estrutura material da sociedade, diretamente sobre as
					forças produtivas, como é o caso das renovadas tecnologias da produção e da
					informação, poupadoras de mão de obra, e os que atuam na estrutura
					institucional, portanto, ideal, como as reformas constitucionais, os novos
					modelos de contratações e demissões, etc.</p>
				<p>A fragilização das relações de trabalho daí resultante criou o ambiente propício
					à disseminação de um novo discurso que vem transformando os mesmos direitos e
					garantias sociais, outrora inquestionáveis por parte da classe trabalhadora, em
					alegados obstáculos à retomada das contratações, da empregabilidade e do
					crescimento econômico. Exaustivamente replicado em diferentes espaços da
					sociedade, pronunciado por governantes e empresários, repetido em escolas e
					universidades, difundido em palestras, aplacado em templos religiosos,
					justificado pela lógica matemática dos intelectuais de plantão, uma nova
					racionalidade se constrói, tornando-se a ideia universalmente aceita. Mesmo
					entre a classe trabalhadora, a principal afetada, a ilusão sobre o fim da
					sociedade do trabalho, ilusão esta provocada pelo novo discurso liberal, ganha
					adesão.</p>
				<p>A história parece se repetir. Em meados do século XIX, momento em que “reina
					atualmente no continente uma verdadeira epidemia de greves e se levanta o clamor
					geral por aumento de salários” (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Marx,
						1982</xref>, p. 135), o discurso da Lei dos Salários tornou-se dominante e
					ardorosamente defendido e propagado por Nassau Senior, John S. Mill e outros
					arautos do pensamento burguês em Inglaterra. Baseada em uma premissa matemática
					que condicionava o aumento salarial à redução dos salários médios, redução esta
					dada pelo aumento do tamanho da classe trabalhadora e pela diminuição do fundo
					de salários devido à queda dos lucros, essa “lei econômica” trazia, em sua
					essência, o efeito de arrefecer a luta sindical trabalhista, ainda que a
					intenção de seus propagadores se apoiasse na mais sincera profissão de fé.
					Apesar dos efeitos dessa suposta lei serem perniciosos aos rendimentos dos
					trabalhadores, o discurso dominante contagiou não apenas o operário inglês, John
					Weston, como também grande parte da classe trabalhadora naquele momento da
					história da luta de classes. Tal fato despertou em Marx a necessidade de
					rechaçar a ideia de que a elevação dos salários seria prejudicial aos operários,
					intento que ele levou a cabo em um importante pronunciamento nas seções do
					Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 20 de junho de
					1865 (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Marx, 1982</xref>, p. 135-138).</p>
				<p>Nossa intenção, a partir dos relatos acima, é fazer a crítica à tese da “ideia
					sem a intenção de um sujeito”, ou da estratégia sem estrategista. Defendemos que
					tal argumento oblitera a realidade da sociedade de classe. Em ambos os casos
					narrados, de ontem e de hoje, a nova ideia dominante teve como origem um sujeito
					histórico, um lócus de poder econômico e político, a classe dominante, antes de
					se tornar universalmente aceita. Portanto, trata-se de uma crítica ao idealismo
					filosófico, para a qual nos apoiaremos na crítica de Marx e Engels à ideologia
					alemã realizada em meados do século XIX.</p>
				<p>Quando escrevem <italic>A ideologia alemã</italic>, Marx e Engels estão, na
					verdade, fazendo um acerto de contas duplo, isto é, com os pensadores hegelianos
					de esquerda, a exemplo de Ludwig Feuerbach, mas também, e principalmente, com a
					própria herança filosófica da qual ambos foram depositários, o que significa, na
					prática, um esforço de se libertarem da forma mais clássica de idealismo, o da
					primazia da consciência sobre a realidade (<xref ref-type="bibr" rid="B44"
						>Sader, 2007</xref>, p. 12). Portanto, pode-se arriscar que, nessa obra,
					Marx e Engels fazem a superação da tradição idealista da filosofia alemã,
					tecendo uma crítica ácida ao que existia de mais recente na filosofia alemã e
					seus representantes, prova-o o subtítulo da obra.</p>
				<p>A concepção materialista da história na qual Marx e Engels se apoiam compreende a
					formação da consciência humana, das ideias que fazemos sobre nós mesmos e sobre
					o mundo, da compreensão que pensamos ter da história, como resultado ou condição
					de uma forma específica de se apropriar da natureza e da produção da vida
					material em dado período histórico. Isso significa que eles colocam o trabalho
					humano, as formas de produção material da sociedade, no cerne das condições de
					vida e de consciência humanas (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Sader,
						2007</xref>, p. 14).</p>
				<p>Nesse sentido, torna-se adequada a retomada dessa obra de Marx e Engels, na qual
					eles tecem uma crítica materialista às interpretações idealistas vindas da
					filosofia alemã de seu tempo, para nos auxiliar em nossa crítica atual à
					ideologia progressista, pois um paralelo pode ser feito, em que os ideólogos
					franceses do século XX aparecem como um tipo de repetição dos ideólogos alemães
					de meados do século XIX, aqueles contra os quais Marx e Engels direcionaram a
					crítica presente n’<italic>A ideologia alemã</italic>.</p>
				<p>Destarte, Marx e Engels, n’<italic>A ideologia alemã</italic>, alertavam que a
					classe dominante, aquela que tem à sua disposição os meios materiais de produção
					têm, ao mesmo tempo, “os meios da produção espiritual”, o que significa que a
					ela estão submetidos os pensamentos e as ideias daqueles para os quais estão
					ausentes tais meios de produção espiritual e material.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>As ideias dominantes não são nada mais que a expressão ideal das relações
						materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como
						ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a
						classe dominante, são as ideias de sua dominação (<xref ref-type="bibr"
							rid="B35">Marx; Engels, 2007</xref>, p. 48).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Assim, “os indivíduos que compõem a classe dominante possuem perfeita consciência
					de sua dominação e, por isso, pensam”. A sua dominação enquanto classe determina
					o conjunto superestrutural que abrangerá “todo o âmbito de uma época histórica”
						(<xref ref-type="bibr" rid="B35">Marx; Engels, 2007</xref>, p. 48). Chamamos
					a atenção aqui para a expressão “todo o âmbito”, o que significa que essa
					sociedade, historicamente determinada, produzirá suas próprias impressões sobre
					família, liberdade, propriedade, Estado, trabalho, sexo, cultura, vizinhança,
					amizade, instituições políticas e jurídicas, conforme as ideias produzidas pela
					classe dominante.</p>
				<p>Na obra citada, há um exemplo esclarecedor que Marx e Engels apresentam para
					ilustrar essa forma de pensar, inclusive por mostrar que as ideias dominantes
					aparecem sempre separadas dos poderes dos quais emanam, o que as confere uma
					posição de aparente independência e de ser fruto de uma vontade geral. Além
					disso, o advento de uma nova ideia depende da época histórica em que a mesma se
					evidencia, do estádio das condições materiais e do momento específico dos
					embates entre as classes sociais.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Por exemplo, numa época e num país em que o poder monárquico, a aristocracia
						e a burguesia lutam entre si pela dominação, onde portanto a dominação está
						dividida, aparece como ideia dominante a doutrina da separação dos poderes,
						enunciada então como uma “lei eterna” (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Marx;
							Engels, 2007</xref>, p. 47, destaques no original).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B35">Marx e Engels (2007</xref>, p. 48), é no
					interior da própria classe dominante que os “criadores de conceitos”, os
					“pensadores dessa classe, seus ideólogos ativos”, “pagos para produzirem
					trabalho espiritual e que, para sua sobrevivência, dependem da produção dessas
					ideias novas”, produzem a “ilusão dessa classe sobre si mesma” e, ao fazerem,
					criam, nos outros indivíduos dessa mesma classe dominante, um comportamento
					passivo e plenamente receptivo.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>(...) assim como a ideia da divisão do trabalho, uma das forças principais da
						história que se deu até aqui, se expressa na classe dominante como divisão
						entre o trabalho espiritual e o trabalho material” (<xref ref-type="bibr"
							rid="B35">Marx; Engels, 2007</xref>, p.47).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Daí, tal comportamento tende a se espalhar como norma natural, moral e ética
					entre a população em geral, o que não retira do discurso dominante a sua
					condição de ter sido conscientemente gerado. Considerar as ideias como autônomas
					seria como retirar da classe dominante o poder de determinar o pensamento de uma
					época histórica. Marx e Engels perceberam-se diante de semelhante argumento e
					assim responderam:</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Ora, se na concepção do curso da história separarmos as ideias da classe
						dominante da própria classe dominante e as tornarmos autônomas, <italic>se
							permanecermos na abstração e no plano da afirmação de que numa época
							dominaram estas ou aquelas ideias, sem nos preocuparmos com as condições
							da produção nem com os produtores dessas ideias</italic>, (...) então
						poderemos dizer, por exemplo, que durante o tempo em que dominou a
						aristocracia dominaram os conceitos de honra, fidelidade, etc., enquanto
						durante o domínio da burguesia dominaram os conceitos de liberdade,
						igualdade, etc. A própria classe dominante geralmente imagina isso. Essa
						concepção da história (...) <italic>deparar-se-á necessariamente com o
							fenômeno de que as ideias que dominam</italic> são cada vez mais
						abstratas, isto é, ideias que <italic>assumem cada vez mais a forma da
							universalidade</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Marx; Engels,
							2007</xref>, p. 48, destaques nossos)</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Cabe à classe dominante fazer do seu interesse o interesse comum a todos.
					Expressando de forma ideal, como afirmam <xref ref-type="bibr" rid="B35">Marx e
						Engels (2007</xref>, p. 49), a classe dominante “é obrigada, para atingir
					seus fins, a dar às suas ideias a forma da universalidade, a apresentá-las como
					as únicas racionais, universalmente válidas”. Como interesse ou “vontade geral”,
					a ideia dominante se apresenta desligada da classe dominante, dos indivíduos que
					dominam e de suas razões materiais, como se fosse “a dominação das ideias ou das
					ilusões na história”.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Uma vez que as ideias dominantes são separadas dos indivíduos dominantes e,
						sobretudo, das relações que nascem de um dado estágio do modo de produção
						(...) é muito fácil abstrair dessas diferentes ideias “<italic>a
							ideia”</italic> como o dominante na história concebendo todos esses
						conceitos e ideias singulares como “autodeterminações” do conceito que se
						desenvolve na história (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Marx; Engels,
							2007</xref>, p. 50)</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Evidente que não se trata aqui de propor a defesa de um processo teleológico
					perfeito, “elaborado a partir de um projeto longamente amadurecido”, como um
					“complô” da burguesia (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot; Laval,
						2016</xref>, p. 189), em que uma classe se reúne e decide os detalhes da
					estratégia a ser posta em prática para alcançar objetivos já completamente
					pré-determinados. Mas, daí à crítica da interpretação marxiana e marxista da
					burguesia como sujeito histórico, há um abismo intransponível.</p>
				<p>Tomemos o exemplo usado por <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dardot e Laval
						(2016</xref>, p. 190), extraído por eles do pensamento de Foucault, sobre a
					moralização dos operários nos anos 1830, em plena Revolução Industrial, segundo
					o qual “o objetivo da moralização da classe trabalhadora” teria produzido “a
					burguesia como agente de sua instauração”. Em outras palavras, “as técnicas
					disciplinares de poder e as práticas cotidianas que ela engendra”, não tendo
					sido escolhidas objetivamente por um “Estado-maior” ou classe qualquer,
					produziriam, elas mesmas, a classe dominante.</p>
				<p>Nesse sentido, não teria sido “a classe burguesa como sujeito pré-constituído”,
					formada por indivíduos beneficiários econômica, política e financeiramente de
					processos históricos antecedentes ao século XIX, nem o Estado, o sujeito
					histórico responsável, por exemplo, pela origem das atas dos cercamentos de
					terras na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX; ou da rigorosa legislação contra a
					vagabundagem; da regulamentação da extensão das jornadas de trabalho, da divisão
					do trabalho em tarefas, nem das exigências de desempenho e disciplina no
					interior das fábricas; nem mesmo da separação entre o trabalho braçal e o
					intelectual, ou da longa lista de multas e penalidades disciplinares impostas
					aos operários dentro das fábricas. Nem mesmo a Reforma da <italic>Lei dos
						Pobres</italic> de 1834, a criação das <italic>workhouses</italic> e o fim
					de qualquer ajuda humanitária financiada com recursos públicos teriam um sujeito
					histórico responsável por suas existências, mas sim, teriam sido frutos das
					práticas díspares que, por tantas vezes repetidas, instauraram novas técnicas de
					poder que criaram o agente de sua instauração.</p>
				<p>Insistimos na importância dos instrumentos objetivos de poder que desempenham o
					papel de criar subjetividades propícias aos interesses materiais da classe
					dominante. Referimo-nos aqui, por exemplo, aos projetos pedagógicos e às
					estruturas curriculares implantadas nas universidades, que subordinam a ciência
					e o conhecimento à lógica pragmática do mercado; aos manuais de treinamento de
					condutas comportamentais e aos <italic>coaches</italic> que se dedicam a talhar
					o perfil do profissional desejado pelas corporações; às palestras, encontros e
					congressos promovidos e presididos por grupos e associações da classe dominante,
					aqueles que muitas vezes se autointitulam os herdeiros naturais do poder e
					líderes do amanhã, com o claro intuito de difundir ideias políticas e
					comportamentais calcadas em interesses de classe; aos concursos com prêmios
					pecuniários concedidos por fundações e associações de classe às narrativas
					persuasivas que referendem a ideologia da classe dominante; ao papel da
					imprensa, da arte e da cultura utilizados como mecanismos objetivos de
					reprodução das ideias dominantes, ao estilo <italic>soft power</italic>, ou
					mesmo dos discursos afetivos e irrefutáveis ensinados nos templos religiosos.
					Longe de se tratarem de ideias autoconcebidas ou autodeterminadas, existem
					produtores reais dessas ideias, interessados em sua propagação, que, uma vez
					disseminadas, criarão um novo comportamento social e uma nova mentalidade que as
					justifiquem.</p>
				<p>Portanto, retomar hoje a pertinência das teorias do imperialismo e realizar a
					análise desse fenômeno concreto é a forma que encontramos de colocar em destaque
					a preponderância das estratégias e interesses materiais emanados pelo centro
					econômico hegemônico do capitalismo sem, no entanto, perder sua essência
					sistêmica, holística. A abordagem marxista do imperialismo, desde suas primeiras
					interpretações, leva em conta a construção ideal que, na consciência social,
					serve de justificação à ação imperialista e preenche o vazio deixado no campo
					material pelas práticas violentas e coercitivas que lhe dão forma. Assim,
					iniciamos a próxima seção apresentando alguns exemplos de intérpretes do
					imperialismo que destacam a existência de um discurso dominante, a “produção
					espiritual” que acompanha o processo material em si, antes de nos dedicarmos a
					expor alguns dos desdobramentos materiais e ideais do imperialismo
					contemporâneo.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4 O imperialismo ontem e hoje</title>
				<p>Convém iniciar esta seção, primeiramente, demarcando o significado de duas
					expressões cuja apreensão é essencial para os propósitos deste trabalho. A
					primeira, diz respeito à nossa compreensão sobre <italic>imperialismo</italic>,
					o qual não é uma política, nem mesmo um conjunto de ações coordenadas por grupos
					da classe dominante com o propósito de usar o poder bélico, político e
					diplomático do Estado para elevar seus ganhos materiais e defender seus
					interesses internos e externos. Também não se trata de uma fase que ficou no
					passado histórico do capitalismo.</p>
				<p>Alinhados à contribuição de <xref ref-type="bibr" rid="B29">Lenin (2011</xref>,
					p. 217), sustentamos que o imperialismo é a forma essencial de expansão que o
					capitalismo assume quando este modo de produção atinge um determinado estágio de
					seu desenvolvimento em que a concorrência foi substituída, nos setores-chave da
					economia, pela dominância do capital monopolista em torno do capital financeiro,
					isto é, a fusão dos interesses do capital bancário com as outras formas
					autônomas que o capital assume, seja industrial, comercial, agrário, formando
					uma verdadeira oligarquia financeira.</p>
				<p>Ora, a contribuição de Lenin está fundamentada nas interpretações de Marx e
					Engels sobre a forma de expansão do capitalismo. Como afirma <xref
						ref-type="bibr" rid="B28">Löwy (1998</xref>, p. 2), apesar de Marx não ter
					escrito especificamente sobre o imperialismo, uma vez tratar-se de fenômeno que
					ainda estava por tomar sua forma histórica, isso não o impediu de antecipar
					argumentos originais que influenciariam uma gama de pensadores, tais como Lenin,
					Hilferding, Kautsky, Luxemburgoo, Bukharin, para citar apenas aqueles que se
					destacaram nas primeiras três décadas do século XX e que são considerados os
					autores clássicos do imperialismo.</p>
				<p>Entre esses argumentos destacamos um que, indissociável do método de análise de
					Marx, diz respeito ao caráter contraditório, desigual e desequilibrado da
					expansão e do desenvolvimento do processo de acumulação de capital, uma vez que
					a lei do valor tende a avançar mundialmente, criando novas arenas para a
					valorização ampliada do capital. Ao longo desse percurso, não reconhece ou
					respeita limites impostos, seja por fronteiras geográficas ou disputas
					políticas, pois “o próprio mecanismo da produção capitalista elimina os
					empecilhos que ele temporariamente cria” (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Marx,
						1983</xref>, p. 192).</p>
				<p>Indispensável elevar também a ideia presente em Marx de que a concentração e a
					centralização de capital, um desdobramento necessário da concorrência
					capitalista, fazem do capitalismo um modo de produção mundial, conformando assim
					uma divisão social do trabalho em escala mundial, o que fica explícito quando
					apresenta suas teorias da colonização como processos necessários à expansão
					capitalista (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Marx, 1983</xref>, p. 295 et.
					seq.). Sem falar no argumento que dá título a um artigo escrito por Marx, em
					fevereiro de 1850, de que no processo de ampliação da área de atuação do
					capital, as mudanças de direção do comércio mundial provocam “deslocamentos do
					centro de gravidade da economia mundial” em torno do qual orbitam “países
					civilizados em plena dependência industrial, comercial e política” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B32">Marx, 1976</xref>).</p>
				<p>Nesses termos, a forma imperialista de expansão do capital está presente no
					pensamento marxiano e traduz a própria natureza dinâmica do desenvolvimento do
					capitalismo desde o momento em que alcançou esse estágio de sua história, ou
					seja, últimas décadas do século XIX, até a sua conformação nos dias atuais. Ao
					longo desse processo de expansão, o imperialismo se baseia na retirada dos
					obstáculos ao avanço da acumulação ampliada de capital sobre o maior número
					possível de nações ou regiões do globo, usando, para tal, meios militares,
					diplomáticos, econômicos e culturais para o efetivo exercício de dominação. A
					coerção e o consentimento estão sempre presentes, ora aparentes, ora
					ocultos.</p>
				<p>Pode-se afirmar, por exemplo, que a maneira como o capital se expande pelas mais
					diversas regiões do globo domina parte da obra de Rosa Luxemburgoo. Para a
					economista e ativista política marxista polaco-alemã, essa forma essencial de
					expansão do capitalismo inclui métodos e estratégias que apelam ao assassinato,
					roubo e saque com o intuito de expulsar populações nativas de suas terras e,
					principalmente, destruir completamente as tradições e culturas estranhas ao
					mundo do capital, particularidade que guarda importância ímpar para o foco deste
					artigo. Eram as chamadas “áreas externas”, às vezes, “países exóticos”, que
					estavam disponíveis à invasão e rapina do capital europeu, prontas para
					adequarem suas “relações sociais primitivas” à “civilização (ou cristianização)
					dos povos” (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Luxemburgo, 1985</xref>, p. 215).
					Portanto, defendemos que, a partir das análises de Marx e Engels sobre a
					dinâmica do desenvolvimento do capitalismo, inicia-se uma extensa e profícua
					teoria marxista do imperialismo capitalista que influencia pensadores desde a
					virada do século XIX para o XX até os nossos dias.</p>
				<p>A segunda expressão a que nos referimos no início desta seção diz respeito ao
					termo <italic>hegemonia</italic>. Para nosso entendimento, seu sentido refere-se
					ao binômio de dominação e consentimento, guardando, pois, uma interpretação
					gramsciana do termo, em que a coerção empreendida pelo líder conta com a
					aceitação, a anuência e o envolvimento espontâneo do dominado. Assim, pegamos de
					empréstimo a citação de Giovanni Arrighi, na qual o mesmo diferencia a hegemonia
					de um Estado do simples ato de dominar.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>O conceito de hegemonia mundial aqui adotado (...) refere-se à capacidade de
						um Estado exercer funções de liderança e governo sobre um sistema de nações
						soberanas. Esse poder é algo maior e diferente da dominação. É o poder
						associado à dominação, ampliada pelo exercício da “liderança intelectual e
						moral”. Como enfatizou Antonio Gramsci em referência à hegemonia no plano
						nacional (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996</xref>, p. 28,
						destaque no original).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>O imperialismo capitalista é, portanto, indissociável do discurso moral que o
					acompanha em cada momento de sua história, responsável pela construção de uma
					mentalidade geral hegemônica e por criar um efeito espelho nas sociedades onde
					penetra, capaz de despertar um sentimento de aceitação e pertencimento nos povos
					dominados pelo capital imperialista.</p>
				<p>John <xref ref-type="bibr" rid="B22">Hobson (1902)</xref>, liberal inglês e autor
					da primeira sistematização teórica do imperialismo, obra lida e citada por Lenin
					e Bukharin em suas interpretações sobre o tema, já alertava que a ação
					imperialista era acompanhada de uma “ilusão” ou de “justificações” que
					disfarçavam as motivações reais do imperialismo. Citando a superioridade racial,
					moral ou religiosa, o patriotismo, o nacionalismo, a filantropia, a defesa dos
					ideais de liberdade e a necessidade da política colonial, ele via que tais
					“forças sociais” guardavam uma considerável importância relativa na construção
					do “fenômeno complexo e multifacetado” que era o imperialismo.</p>
				<p>Tratava-se de um conjunto de ideias que, segundo ele, mascarava a razão
					essencial, ou, como ele denominava, a <italic>raiz do imperialismo</italic>, que
					eram os ganhos econômicos e financeiros advindos da empreitada imperialista. Por
					mais autênticos que fossem aqueles sentimentos morais, por mais forte que se
					instalasse o espírito de uma época, as verdadeiras “forças propulsoras do
					capitalismo”, para ele, estavam nas indústrias que se uniam em torno de trustes
					e cartéis e partiam em busca de novas zonas de interesse. Em várias passagens de
					sua obra, ele deixa claro o apelo das forças imperialistas à formação de uma
					racionalidade que justificasse moralmente o ganho imperialista.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>As forças industriais e financeiras do imperialismo, operando através do
						partido, da imprensa, da igreja, da escola, moldam a opinião pública e a
						política pública pela idealização daqueles desejos primitivos de luta,
						dominação e ganância que sobreviveram ao longo do tempo (<xref
							ref-type="bibr" rid="B22">Hobson, 1902</xref>, p. 233, tradução
						nossa).</p>
					<p>(...) a igreja, a imprensa, as escolas e colégios, a máquina política, os
						quatro principais instrumentos da educação popular, estão acomodados ao
						serviço da dominação imperialista. (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Hobson,
							1902</xref>, p. 228, tradução nossa).</p>
					<p>(...) as classes “cultas” ou semi-cultas são doutrinadas com a grandeza
						intelectual e moral do imperialismo. Para as massas, há um apelo mais
						grosseiro ao culto do herói e à glória sensacional, à aventura e ao espírito
						esportivo (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Hobson, 1902</xref>, p. 234,
						tradução nossa).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B21">Hobsbawm (1988)</xref>, mais de oito décadas
					depois de Hobson, também não desconsiderou a importância do advento de uma
					mentalidade social que amparasse a expansão imperialista. Criticando uma versão
					determinista do materialismo, apresenta diversas determinações ideais para o
					fenômeno do imperialismo.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>Neste sentido, mesmo o homem de negócios mais limitado à procura do lucro em,
						digamos, minas sul-africanas de ouro e diamantes, jamais pode ser tratado
						exclusivamente como uma máquina de ganhar dinheiro. Ele não ficava imune aos
						apelos políticos, emocionais, ideológicos, patrióticos ou mesmo raciais
						associados de modo tão patente à expansão imperial (<xref ref-type="bibr"
							rid="B21">Hobsbawm, 1988</xref>. p. 60).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Mas, apesar de reconhecer a importância desses ideais, ele salienta a necessidade
					primeira da dimensão material como forma de se “discutir realisticamente” a
					tendência imperialista do capitalismo.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>(...) torna-se muito menos plausível imputar todo o peso da explicação do
						imperialismo a motivos que não tenham uma conexão intrínseca com a
						penetração e a conquista econômicas do mundo não-ocidental. E mesmo os que
						parecem ter, como os cálculos estratégicos das potências rivais, devem ser
						analisados tendo em mente a dimensão econômica. Nem a política atual no
						Oriente Médio, que está longe de ser explicável apenas em termos econômicos,
						pode ser discutida realisticamente sem levar em conta o petróleo (Hobsbabwm,
						1988, p. 61).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>David Harvey, em pleno século XXI, também ressalta que “nenhum modo de pensamento
					se torna dominante sem propor um aparato conceitual que mobilize nossas
					sensações e nossos instintos, e que tal aparato conceitual, se bem-sucedido,
					acaba por se incorporar ao senso comum de modo que passamos a crer ser “certo e
					livre de questionamento”. Desse modo, os formadores de tais ideias dominantes,
					ou,</p>
				<p><disp-quote>
					<p>As figuras fundadoras do pensamento neoliberal consideravam fundamentais os
						ideais políticos da dignidade humana e da liberdade individual, tomando-os
						como “os valores centrais da civilização”. Assim agindo, fizeram uma sábia
						escolha, porque esses certamente são ideais bem convincentes e sedutores
						(...) Os conceitos de dignidade e de liberdade individual são por si mesmos
						profundamente valiosos e comoventes, a ponto de conferirem vigor aos
						movimentos dissidentes no Leste Europeu e União Soviética, e aos movimentos
						estudantis na França, China, EUA, Tailândia e México (<xref ref-type="bibr"
							rid="B20">Harvey, 2008</xref>, p. 7).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Mas, para o autor, tal aparato conceitual brota como ideal da classe dominante e
					se objetiva por meio de um núcleo de poder incumbido de criar as condições
					materiais, institucionais, jurídicas, ou seja, o Estado.</p>
				<p><disp-quote>
					<p>(...) o que o imperialismo norte-americano objetiva com tal discurso e chega
						a impor com mão pesada ao Iraque é um tipo particular de aparelho de Estado
						cuja missão fundamental foi criar condições favoráveis à acumulação
						lucrativa de capital pelos capitalistas domésticos e estrangeiros. Dou a
						esse tipo de aparelho de Estado o nome de Estado neoliberal. As liberdades
						que ele encarna refletem os interesses dos detentores de propriedade
						privada, dos negócios, das corporações multinacionais e do capital
						financeiro (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Harvey, 2008</xref>, p. 16).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Os exemplos acima citados têm a intenção exclusiva de mostrar diferentes análises
					que se utilizam da categoria teórica do imperialismo para explicar a forma
					particular assumida pelo capitalismo neoliberal. Poderíamos juntar a eles
					semelhantes e ricas análises, como as presentes em <xref ref-type="bibr"
						rid="B1">Anderson (1995)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B7">Brenner
						(1999</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B8">2006</xref>), <xref
						ref-type="bibr" rid="B40">Panitch (2014)</xref>, <xref ref-type="bibr"
						rid="B23">Katz (2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">2011</xref>),
					Boron (2002), <xref ref-type="bibr" rid="B14">Duménil e Lévy (2007)</xref>,
					Saad-Filho (2015), <xref ref-type="bibr" rid="B16">Fontes (2008)</xref>, <xref
						ref-type="bibr" rid="B41">Petras e Veltmeyier (2001)</xref>, os quais
					abordam a expansão imperialista do capitalismo na contemporaneidade, em suas
					dimensões econômica, geopolítica, jurídica, cultural, e de como ela se configura
					na expressão ideal das relações materiais dominantes.</p>
				<p>Em nosso entendimento, as condições materiais para a expansão do imperialismo são
					acompanhadas da expressão ideal das relações materiais de dominação, que se
					irradiam para o mundo por meio de vários mecanismos institucionais e
					informacionais e que encontram na geografia da fome, da miséria, do desemprego e
					do subemprego, do abandono e da violência um ambiente propício para a sua
					propagação. O chamado <italic>espírito geral</italic> surge, em cada tempo
					histórico, a partir de um lócus específico de poder econômico e político
					mundial, seja em reuniões, encontros ou consensos organizados pela classe
					dominante. São, portanto, desdobramentos sociais de ações objetivadas a um
					determinado fim ou interesse. Tal poder hegemônico emana do “centro de gravidade
					mundial”, expressão usada por Marx para denominar a força hegemônica do
					capitalismo (Marx; Engels, 1976).</p>
				<sec>
					<title>4.1 O imperialismo em sua forma neolieral</title>
					<p>Diante do até aqui exposto, podemos afirmar que o imperialismo é a essência
						da expansão do capitalismo, guardando, pois, características peculiares a
						esse modo de produção, como a dominação e a exploração (<xref
							ref-type="bibr" rid="B45">Salama; Valier, 1975</xref>, p. 133). Como
						fenômeno histórico, a relação de dominação empregada se modifica em cada
						quadro do desenvolvimento das forças produtivas deste modo de produção,
						encontrando assim uma nova e adequada forma de exploração e apropriação do
						excedente produzido pela classe trabalhadora mundial. Para tanto, o processo
						apoia-se em um discurso capaz de articular a dimensão sócio-histórica do
						capitalismo a uma consciência social adequada àquele estágio de seu
						desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que são produzidas pela classe dominante,
						as impressões simbólicas da realidade presentes em tal discurso
						retroalimentam e garantem a reprodução do próprio processo de acumulação
						para benefício da classe dominante.</p>
					<p>Sob a forma de empréstimos, investimentos diretos e em carteira, compras de
						títulos e ativos públicos e privados, monopólios de tecnologias, especulação
						no mercado mundial de <italic>commodities</italic>, fusões e aquisições de
						empresas privadas e públicas, apropriações de terras e de fontes de recursos
						naturais em outros países, exploração de jazidas minerais e fontes
						energéticas, a ação do grande capital transnacional conta com a participação
						ativa dos estados nacionais, tanto o hegemônico quanto o subalterno, pois em
						ambos os casos caberá a eles a acomodação dos interesses, uma vez que
						guardam como primazia o monopólio da violência e da legalidade.</p>
					<p>Utilizando estratégias antigas e incorporando novas, o capital necessita de
						seu braço de poder para imposição da força, o qual encontra no aparato
						estatal. Com este, interfere ou exerce influência sobre as economias
						estrangeiras, seja por meio de instituições intergovernamentais que
						estabelecem o ordenamento no domínio econômico internacional, como a OCDE, o
						FMI e a OMC, ou das que se dedicam às alianças e pressões militares, como a
						OTAN; seja por meio de <italic>lobbies</italic> e outros tipos de pressão do
						capital sobre parlamentares e governantes, propondo políticas
						macroeconômicas fiscais, monetárias, cambiais e tributárias; forjando
						controles diplomáticos, alianças, acordos bilaterais e multilaterais de
						comércio; ditando sanções, ameaças e intervenções militares com o intuito de
						garantir a segurança jurídica e institucional para o capital; exigindo
						marcos legais para a garantia de direitos de propriedade e patentes, da
						produção intelectual e do monopólio de novas tecnologias e processos. Além
						de intervenções na administração das dívidas públicas dos países e em seus
						dispositivos constitucionais de proteção social.</p>
					<p>Por vias legais ou fraudulentas, aparentes ou não, o resultado dessas ações é
						a transferência de valor para as economias capitalistas avançadas e a
						apropriação da riqueza mundial por parte do capital imperialista. <xref
							ref-type="bibr" rid="B19">Harvey (2005</xref>, p. 121-123) apresenta
						algumas das formas violentas, e, por vezes, fraudulentas, como opera o
						imperialismo na contemporaneidade que parecem mesmo retomar, sob nova
						roupagem, práticas comuns da “assim chamada acumulação primitiva”. Sob o
						nome de <italic>acumulação por espoliação</italic>, menciona a grilagem de
						terras e a expulsão de populações camponesas e indígenas de suas áreas
						nativas, a especulação imobiliária articulada e coordenada, a extração
						ilegal e o contrabando de recursos naturais, a privatização de recursos
						hídricos e mananciais, a valorização fraudulenta de ações, a montagem de
						esquemas ilícitos de enriquecimento imediato, a fraude corporativa e o
						desvio de fundos de pensão, além dos esquemas enganosos em derivativos e
						fundos de <italic>hedge</italic>.</p>
					<p>Somamos a estas, a poluição predatória e intencional de leitos de rios na
						extração de minérios e outros produtos da natureza, os crimes ambientais e a
						utilização indiscriminada e hedionda de agrotóxicos e defensivos agrícolas
						de alta toxicidade em terras estrangeiras, bem como a criação de fundações e
						entidades filantrópicas, as quais se incumbem da prática de desvios de
						impostos e da disseminação da razão neoliberal, utilizando-se, para isso, de
						recursos públicos. Uma longa lista de modalidades que resultam em elevados
						ganhos pecuniários.</p>
					<p>A título de ilustração, apontamos agora alguns indicadores dos resultados
						materiais que a expansão imperialista em sua fase neoliberal vem produzindo
						para o centro hegemônico do sistema. Em seguida, analisamos como o
						imperialismo opera a partir do discurso da classe dominante, dando origem a
						uma mentalidade social formada por um conjunto ideal de representações
						simbólicas adequadas aos interesses materiais da classe de poder hegemônico,
						utilizando nessa análise alguns dos desdobramentos do imperialismo
						neoliberal sobre o mundo do trabalho.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.2 Os resultados materiais do imperialismo para o centro hegemônico do
						capitalismo</title>
					<p>Tomando como exemplo o caso dos EUA, são fortes os indícios do desdobramento
						econômico favorável do processo de expansão imperialista para o centro do
						sistema mundial. O final dos anos 1960 marcou o início da crise econômica
						que começava a ameaçar o capitalismo, mais especificamente, os interesses da
						grande indústria e das finanças dos capitalistas dos países centrais. <xref
							ref-type="bibr" rid="B9">Carcanholo (2017</xref>, p. 28), baseando-se na
						tese de <xref ref-type="bibr" rid="B36">Mendonça (1987)</xref>, afirma que,
						em nível mundial, a chamada crise dos anos 1970, na verdade, já mostrava
						seus sinais nos anos 1968/69, especialmente nas economias centrais, com a
						redução dos indicadores de produção e do nível de atividade, a queda das
						taxas de lucro, a forte diminuição dos investimentos em capital fixo, a
						elevação dos índices de inflação e o aumento do desemprego. O imperialismo,
						em sua forma neoliberal, manifesta-se a partir desse momento e os resultados
						materiais desse processo, ao longo das últimas cinco décadas, mostram-se
						positivos para economia estadunidense.</p>
					<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B10">Chesnais (1996</xref>; <xref
							ref-type="bibr" rid="B11">2001</xref>), com a economia mundial
						desregulamentada e desregulada, num processo ampliado de mundialização
						financeira que toma impulso aparente sob os governos Thatcher e Reagan,
						formas cada vez mais concentradas de capital industrial e financeiro
						encontraram mecanismos inovadores para drenarem a riqueza e a renda criadas
						por outrem e desmantelar direitos e avanços sociais até então conquistados.
						Para ilustrar, vale apresentar alguns dados relativos à economia
						estadunidense.</p>
					<p>No início da década de 1980, a taxa de juros praticada pelo <italic>Federal
							Reserve</italic> oscilava, ainda como efeito da crise da década
						anterior, entre 8,5 e 11,5% ao ano, sendo que após o início da implementação
						mundial do receituário neoliberal, a taxa despencou, na média das quatro
						décadas posteriores, para próximo de zero, ou seja, em torno de 0,25% ao
								ano<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></sup>. Tal política
						de juros criou o ambiente monetário de grande liquidez na economia
						norte-americana. Porém, contrariamente ao teorizado pela ortodoxia
						econômica, a enxurrada de dinheiro na economia decorrente dessa política
						monetária expansiva trouxe queda da inflação, cuja taxa, que de meados dos
						anos 1960 até final dos anos 1970 ameaçava a economia dos EUA, momento em
						que o índice ultrapassou várias vezes a casa dos dois dígitos, despencou
						após 1980, mantendo-se, na média, próxima à casa dos 2% ao ano durante a
						maior parte do período, quando analisada até 2020 e, em várias ocasiões
						aproximando-se de zero, segundo o <italic>Bureau of Labor
							Statistics</italic><sup><xref ref-type="fn" rid="fn4"
						>4</xref></sup>.</p>
					<p>Esse ambiente macroeconômico no campo monetário e seu reflexo no nível médio
						de preços abriram caminho para outros resultados positivos na economia real
						estadunidense. Em análise de longo prazo, de acordo com dados do
							<italic>U.S. Bureau of Labor Statistics</italic>, a taxa média de
						desemprego, apesar de alguns espasmos temporários, estabilizou-se em torno
						de 5,6% da população ativa para o período que vai de 1984 a 2022, algo muito
						próximo ao que a ortodoxia econômica denomina de taxa de “desemprego
								natural”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup>. Enquanto
						isso, o nível da atividade, como um todo, também dava sinais de recuperação.
						O PIB americano, a partir de meados dos anos 1970, passa a crescer em termos
						reais até 2020, como demonstra o gráfico abaixo elaborado por nós a partir
						dos dados disponibilizados pelo <italic>Bureau of Economic
						Analysis</italic>, do Departamento de Comércio dos EUA<sup><xref
								ref-type="fn" rid="fn6">6</xref></sup>.</p>
					<p>
						<fig id="f1">
							<label>Gráfico 1</label>
							<caption>
								<title>PIB real - EUA (Real GDP) (em bilhões de dólares de
									2009)</title>
							</caption>
							<graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e265794-gf01.png"/>
							<attrib>Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis. Elaboração
								própria.</attrib>
						</fig>
					</p>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B14">Duménil e Lévy (2007)</xref>, em trabalho
						que se apoia em séries temporais para a economia estadunidense e parte da
						Europa, afirmam que o imperialismo neoliberal, ou como eles denominam,
						neo-imperialismo, capitaneado pelos capitalistas do centro hegemônico do
						sistema mundial, resultou em grande sucesso. Segundo dados disponibilizados
						também pelo <italic>U.S. Bureau of Economic Analysis</italic>, os autores
						apontam que, de meados dos anos 1970 até os anos 2000, a razão entre os
						fluxos de renda recebidos do resto do mundo e os lucros domésticos dos EUA
						após os impostos, aproxima-se da unidade, o que significa que o capital
						norte-americano, durante esse período histórico, captou do restante do mundo
						quase o mesmo fluxo de renda gerado sob a forma de lucros no interior do
						próprio país.</p>
					<p>Sem falar no resultado sobre os investimentos financeiros dos agentes
						econômicos dos EUA, como as famílias, sociedades por ações, seguradoras,
						fundos de pensão, fundos mútuos, etc., realizados no resto do mundo, pois a
						parcela de juros, dividendos e lucros retidos das sociedades transnacionais
						resultaram num fluxo de renda para os EUA cujo montante, em meados dos anos
						2000, correspondia a mais de 60% de todo o lucro obtido pelas sociedades por
						ações em operação nos EUA durante o mesmo período de análise. Ou seja, é
						como se o resto do mundo contribuísse para aumentar, no agregado, a renda do
						capital nos EUA (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Duménil; Lévy, 2007</xref>,
						p. 8-10).</p>
					<p>Em razão da diferença de percentuais em favor dos ativos detidos por agentes
						residentes nos EUA em outros países, contra os ativos detidos por
						estrangeiros (não residentes) nos EUA, o capital norte-americano remunera os
						capitais estrangeiros investidos nos EUA a taxas mais baixas do que as que
						recebem os investidores norte-americanos residentes por seus ativos no
						exterior. Segundo os autores,</p>
					<p><disp-quote>
						<p>Esse é um indicador bem revelador do poder do imperialismo estadunidense
							(...) constitui um indicador inequívoco da relação assimétrica entre a
							economia dos EUA e o resto do mundo. Eles beneficiam-se de uma
							posição-chave no processo assimétrico de pagar uma renda baixa aos
							capitais estrangeiros investidos no exterior. Os EUA agem,
							internacionalmente, como um intermediário financeiro, coletando
							financiamento a um custo inferior àquele que eles mesmos recolhem a
							partir dos seus investimentos no exterior (<xref ref-type="bibr"
								rid="B14">Duménil; Lévy, 2007</xref>, p. 10-11).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Para os dois autores, as vantagens não param por aí. O neo-imperialismo
						significou ainda, para a economia estadunidense, o aumento na distribuição
						de lucros e dividendos para empresários e acionistas, a elevação excepcional
						das cotações nas bolsas de valores, o restabelecimento da política de
						pagamento de altas taxas de salário ao nível da diretoria e dos altos
						escalões, além de aumentar substancialmente o fluxo de renda com destino aos
						EUA. Portanto, para a economia dos EUA, mais Alemanha, França e Reino Unido,
						o imperialismo, em sua fase neoliberal, reverteu a tendência da crise que se
						instalou no centro do capitalismo mundial no final dos anos 1960, e durante
						a década seguinte e representou a recuperação da produtividade do capital
						nos EUA e nas taxas de lucratividade do capital privado nos quatro países
						citados (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Duménil; Lévy, 2007</xref>).</p>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B7">Brenner (1999</xref>, p. 12) acrescenta ainda
						que, como resposta à incapacidade das políticas keynesianas de manter a
						lucratividade das empresas e restaurar as taxas de acumulação em queda no
						final dos anos 1960 e início de 1970, a expansão capitalista nos moldes
						neoliberais, pautada inicialmente no alinhamento às recomendações de
						equilíbrio orçamentário e restrição de crédito, levou à precarização das
						condições de trabalho e forçaram um rearranjo do padrão de acumulação,
						resultando num processo seletivo de empresas em que o domínio do mercado
						ficou por conta daquelas cuja lógica se pautava em custos baixos e lucros
						altos, beneficiando sobremaneira o centro do sistema capitalista
						mundial.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.3 O convencimento e a criação de uma nova mentalidade</title>
					<p>As ações concretas que dão forma à expansão do capitalismo na era neoliberal
						têm resultado no aprofundamento acelerado das contradições sistêmicas e da
						destruição da vida no planeta, num processo contínuo que traduz a essência
						da própria lógica desmesurada de autorreprodução do capital. Assim, os seres
						vivos e a natureza, as relações sociais, a interação do ser humano com o
						meio ambiente visando ao aumento da produção obedecem aos anseios do capital
						e não a uma suposta preocupação em atender às necessidades humanas de
						valores de uso. Tal processo leva, em sua essência, à ocorrência de crises
						periódicas, as quais, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B37">Mészáros
							(1998</xref>, p. 5), refletem o caráter essencialmente antagônico do
						sistema do capital, enquanto sistema de controle do metabolismo social,
						devido a sua estrutura hierárquica de subordinação do trabalho ao capital,
						uma vez que este usurpa o poder de tomar decisões. Logo, no sistema do
						capital, a produção e o consumo visam tão somente atender ao imperativo
						abstrato da “realização” do capital (<xref ref-type="bibr" rid="B39"
							>Mészáros, 2011</xref>, p. 677, destaque no original).</p>
					<p>Mas, para o marxista húngaro, escrevendo no apagar das luzes do século XX, a
						atual crise do capitalismo é de cunho sistêmico e estrutural (<xref
							ref-type="bibr" rid="B38">Mészáros, 2009</xref>), diferente, portanto,
						das crises cíclicas anteriores, quando a “intromissão do Estado no processo
						socioeconômico de reprodução parecia resolver os problemas e superar as
						dificuldades”, ultrapassando temporariamente os obstáculos impostos à plena
						reprodução ampliada do capital.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>Vivemos na era de uma crise histórica sem precedentes. Sua severidade
							pode ser medida pelo fato de que não estamos frente a uma crise cíclica
							do capitalismo mais ou menos extensa, como as vividas no passado, mas a
							uma crise estrutural, profunda, do próprio sistema do capital. (...) E
							deverá tornar-se mais profunda ainda, reverberando através do planeta
							até os mais remotos cantos do mundo, afetando cada aspecto da vida,
							desde as dimensões reprodutivas diretamente materiais às mais mediadas
							dimensões intelectuais e culturais (<xref ref-type="bibr" rid="B37"
								>Mészáros, 1998</xref>, p. 1, 9).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Sabe-se que o século XX foi palco de soluções contingenciais às desmesuras do
						capital e que ficaram longe de se apresentarem como soluções estruturais
						viáveis. Para <xref ref-type="bibr" rid="B37">Mészáros (1998</xref>, p. 3-4,
						destaques no original), “do keynesianismo ao Estado intervencionista de tipo
						soviético, às guerras e aos conflitos militares e políticos que eles
						provocaram”, nenhuma solução duradoura brotou, mas o sistema continuava
						requerendo a administração do Estado como forma de garantir a expansão do
						capital na escala requerida, “ainda que os ideólogos representantes da
						‘direita radical’ continuassem a fantasiar sobre o “recuo das fronteiras do
						Estado”.</p>
					<p>Portanto, em cada época de crise do capital “as personificações do capital”
						podem assumir formas muito diferentes, momento em que os seus ideólogos se
						apresentam para espalhar a mistificação de um interesse geral na continuação
						da dominação do capital (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Mészáros,
							1998</xref>, p. 9). Tomemos um exemplo: para o período de acumulação que
						vai do final dos anos 1930 aos anos 1970, marcado pela consolidação de
						conquistas coletivas no mundo do trabalho, como a construção do arcabouço da
						seguridade social, a aposta no <italic>welfare state</italic> e nas
						políticas fiscais ativas, constrói-se a ideia do capitalismo com proteção
						social, o ideal social-democrata, onde o capital domina, porém com regulação
						e controle do Estado; a partir dos anos 1970, era da contratação flexível,
						do ataque ao contrato de trabalho formal e permanente, do desmantelamento
						das garantias coletivas até então conquistadas, da necessidade de disciplina
						fiscal por parte do Estado, desmancham-se todas as pseudo-soluções erguidas
						no período imediatamente anterior e, em seu lugar, passa a dominar outro
						discurso, outra forma de mistificação, a do individualismo, do
						empreendedorismo, do Estado-mínimo.</p>
					<p>Como parte desse processo que se inicia na última quadra do século XX, a
						ideia que se promoveu, e continua a se disseminar, é a da redução da ação do
						Estado no que tange à condução de políticas sociais ativas e permanentes,
						pois fazer o contrário seria cair no amplamente condenável “populismo”. Em
						meio ao crescente desemprego e às condições de subemprego, informalidade,
							<italic>uberização</italic>, e precarização das condições de trabalho em
						nível mundial, a mistificação construída pelos ideólogos da classe
						dominante, a qual se firma como vontade geral e como ideia dominante, é a da
						minimização dos programas básicos de combate à pobreza, ao ataque aos
						sistemas públicos de saúde, educação e aposentadoria, à defesa da
						privatização, à proposição de reformas trabalhistas e tributárias
						condizentes com os “interesses nacionais”, para citar apenas os
						desdobramentos que se alinham entre aqueles que afetam diretamente a
						condição dos trabalhadores. As condutas assim identificadas são coloridas
						pelo discurso da responsabilidade fiscal, da ineficiência inconteste da
						coisa pública e da corrupção endêmica dos agentes do Estado.</p>
					<p>As ideias dominantes encontram terreno profícuo em cenários econômicos de
						crise, uma vez que se revestem de supostas alternativas capazes de criar uma
						ilusão otimista na classe trabalhadora em relação ao futuro dentro dos
						marcos possíveis do capitalismo. Momentos econômicos onde impera o caos,
						marcados por graves consequências sociais, tornam-se especialmente benéficos
						para as grandes corporações (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Klein,
							2008</xref>), justamente por serem oportunos para a disseminação de
						novas ideias e interpretações.</p>
					<p>Durante as crises econômicas, em que se manifestam o isolamento, a segregação
						e a ausência de garantias sociais, as formas de convencimento, adaptação e
						justificação moral passam por uma modificação necessária, justamente quando
						as formas tradicionais e habituais de vida, de envolvimento social, de
						compreensão do mundo são violenta e rapidamente arrancadas ou modificadas.
						Portanto, uma nova razão nasce das cinzas deixadas pelo avanço capitalista.
						A compreensão do discurso do imperialismo torna-se, portanto, essencial para
						nos desvencilharmos das concepções idealistas e trazer a análise do
						capitalismo para o campo real das classes sociais.</p>
					<p>A partir do aprofundamento da crise de lucratividade do capital dos anos
						1970, o imperialismo neoliberal se manifesta, entre outras frentes, no
						intenso ataque ao mundo do trabalho, geralmente disfarçado sob as expressões
						de reestruturação produtiva ou acumulação flexível (<xref ref-type="bibr"
							rid="B1">Anderson, 1995</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11"
							>Chesnais, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Antunes,
							2002</xref>). Diante desse quadro, o discurso dominante passa a se
						concentrar nos ideais de liberdade e subjetividade para uma classe
						trabalhadora cada vez mais fragmentada, heterogênea e dessocializada (<xref
							ref-type="bibr" rid="B3">Antunes, 2002</xref>, p. 42). O discurso
						pautado na autoconfiança, proatividade, adaptabilidade e na lógica
						esforço/recompensa alimenta a fetichização das formas subjetivas de ação,
						dando força a argumentos como o da perda da centralidade do trabalho diante
						da sociedade informacional, o da figura do empresário de si, o do fim do
						patronato. Emerge daí o conjunto ilusório construído no imaginário das
						massas trabalhadoras.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>A dimensão do novo convencimento só se torna plenamente compreensível se
							não perdermos de vista o contexto socialmente regressivo no qual se
							implanta, a começar pelo desemprego e pela perda de direitos.
							Generaliza-se uma extensa requalificação dos trabalhadores, que devem
							introjetar a necessidade de uma autoempregabilidade, em condições de
							concorrência extrema (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Fontes,
								2008</xref>, p. 31)</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Fontes (2008) salienta que as atuais formas de convencimento, como o
						empreendedorismo, o voluntariado, a responsabilidade social, são
						capitaneadas pelo empresariado, os detentores dos meios de produção,
						especialmente em momentos de crise econômica, e acabam se disseminando entre
						a população trabalhadora como pretensas e plausíveis soluções aparentes para
						o estado de profundo abandono e ausência de expectativas. Além disso,
						destaca a importância do papel desempenhado pelo Estado no apoio ideológico
						e financeiro para a disseminação desse novo “espírito”.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>Enormes massas de trabalhadores desprovidos de direitos, muitas vezes sem
							contrato formal de trabalho, não estão mais contidos pela disciplina
							despótica no interior das fábricas. Seguem, entretanto, sendo educados,
							adestrados e disciplinados pelo capital, através tanto das
							“requalificações para a empregabilidade” quanto através da
							“responsabilidade social” empresarial a qual, levada a termo de forma
							focalizada, mas amplíssima, atua em grande parte com recursos públicos
								(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Fontes, 2008</xref>, p. 31).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>A mentalidade laboral que brota a partir desse cenário, pautada na ilusão da
						liberdade, na ausência de coação patronal, da cooperação e do voluntariado,
						cria e se retroalimenta no imaginário da classe trabalhadora como
						alternativa histórica para esse específico momento do capitalismo.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>Sequer deverão perceber-se como trabalhadores, como mão-de-obra
							disponível para o capital: devem ver-se como empresários de si mesmos,
							“empreendedores” formados em cursos de empreendedorismo social,
							vendedores de sua “capacidade” de trabalho sob quaisquer condições,
							“voluntários” de sua própria necessidade. Em outros termos, à construção
							de um “capital social anônimo”, corresponde a formação de “trabalhadores
							anônimos” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Fontes, 2008</xref>, p.
							32).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Assim, para <xref ref-type="bibr" rid="B16">Fontes (2008</xref>, p. 32-34),
						“estamos diante de um formidável impulso da acumulação capitalista, a cada
						dia mais destruidor, e sua destruição primeira incide sobre as formas de
						luta da própria classe trabalhadora”. Para isso, o capital necessita que a
						força de trabalho seja “disponibilizada, liberada”, fazendo incidir sobre
						ela um conjunto de “coerção e convencimento”. A desconstrução da ideia de
						classes sociais, a hierarquia nas empresas num contexto de “cascatas de
						subcontratação”, ou mesmo a “rígida separação em bairros”, o discurso da
						filantropia e do voluntariado na proliferação das entidades não
						governamentais, especialmente as chamadas organizações da sociedade civil de
						interesse público, a “expansão de novas igrejas e o acirramento da
						concorrência entre elas”, as fundações e laboratórios de ideias e
						estratégias estão, para a autora, entre os mecanismos que corroboram a
						construção desse novo convencimento, dando sustentação ideal ao
						imperialismo.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>Os <italic>think tanks</italic> e fundações empresariais estadunidenses,
							acompanhados de seus congêneres europeus, estendiam sua atuação pelo
							mundo, absorvendo grupos locais, financiando projetos, supervisionando
							atividades (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Fontes, 2010</xref>, p.
							271).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Para a historiadora brasileira, a classe empresarial do centro imperialista
						do capitalismo mundial, movida por interesses de lucro e com apoio umbilical
						da mídia dominante, é a principal responsável pela disseminação de uma visão
						de mundo a-histórica, na qual predominam a negação da luta de classes, a
						subjetivação das reivindicações e a competição individual. Tal mentalidade
						substitui os sentimentos de pertencimento e de engajamento social.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>(...) o mosaico do senso comum difundido pela grande mídia mescla,
							enviesadamente, uma irredutível e isolada singularidade a uma cultura
							congelada e ahistórica, agregando retalhos de solidariedade impotente,
							em uma costura na qual se destaca um fio grosseiro de competição
							exacerbada (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Fontes, 2010</xref>, p.
							18).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Uma autêntica “pedagogia da hegemonia”, difundida por entidades empresariais,
						governamentais, escolas, igrejas, sindicatos, entidades associativas e
						culturais e toda a grande mídia, espraia o discurso do capitalismo e
						reverbera seus pretensos benefícios em todos os espaços organizativos (<xref
							ref-type="bibr" rid="B17">Fontes, 2010</xref>, p. 264). Assim, a nova
						ideia dominante se assume como válida universalmente e parece vir de todos e
						de nenhum lugar simultaneamente.</p>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B19">Harvey (2005</xref>, p. 122) assevera que o
						processo de proletarização, característico da constituição do capitalismo e
						cujo desenvolvimento é a essência do imperialismo, envolve um “conjunto de
						coerções e apropriações de capacidades, relações sociais, conhecimentos,
						hábitos de pensamento e crenças pré-capitalistas da parte dos que são
						proletarizados”. Para esse processo, entram como partícipes, desde
						“estruturas de parentesco, organizações familiares e domésticas, relações de
						gênero e autoridade (incluindo as exercidas por meio da religião e de suas
						instituições)”, uma vez que cada um tem seu papel a desempenhar. A violência
						e a coerção, características do imperialismo para reprimir estruturas
						produtivas preexistentes e reticentes à lógica do capital, são, muitas
						vezes, como é o caso na atualidade, substituídas por outras técnicas de
						persuasão, visando a cooptação tácita, numa “tentativa de se forjar uma base
						consensual, em vez de coercitiva, de formação ou mesmo adaptação da classe
						trabalhadora” aos moldes desejados pela burguesia em determinado momento
						histórico.</p>
					<p>Se investigarmos a miríade de processos essenciais ao avanço do imperialismo
						capitalista, além dos relacionados ao mundo do trabalho, perceberemos que
						cada um deles deixa, como resultado necessário, um tipo de desconstrução
						social a partir da qual ergue-se todo um conjunto ideal para ocupar o espaço
						vazio, que tende ao convencimento e à conformação dos indivíduos frente às
						novas regras exigidas para subsistência material. É o momento em que as
						ideias dominantes se revestem de universalidade e autodeterminação.
						Portanto, a classe detentora dos meios de produção, a partir de um tipo de
						relação de dominação adequado às condições sócio-históricas vigentes em
						determinado estágio do desenvolvimento do capitalismo, constrói um discurso
						normativo e moral que, uma vez disseminado, emergirá como ideia
						universalmente válida. Uma nova razão de mundo se ergue, em dado momento
						histórico do capitalismo, como sustentação ideal de um movimento que é,
						primeira e materialmente, conduzido pela classe dominante</p>
					<p>O estudo do imperialismo nos permite manter a análise do neoliberalismo no
						campo concreto, da luta de classes, sem por isso perder toda a amplitude de
						seus desdobramentos nos demais âmbitos da vida humana. Nesse sentido,
						citamos o filósofo francês, Michel Pêcheux, quando envolvido nos debates dos
						anos 1960/70 com Foucault, e na tentativa de aderir sua <italic>teoria do
							discurso</italic> à proposta central do materialismo histórico pela via
						estruturalista althusseriana da leitura de Marx, visando evidenciar o
						caráter discursivo e prático da ideologia, afirmou, naquele momento, ser
						necessária uma “mudança de terreno”, que permitisse</p>
					<p><disp-quote>
						<p>(...) se desvencilhar da problemática subjetivista centrada no indivíduo
							[...] e compreender que o tipo de concreto com que lidamos e em relação
							ao qual é preciso pensar, é precisamente o que o materialismo histórico
							designa pela expressão relações sociais, que resulta de relações de
							classe características de uma formação social dada (através do modo de
							produção que a domina, a hierarquia das práticas de que este modo de
							produção necessita (...) e as representações ideológico-teóricas e
							ideológico-políticas que delas dependem) (Pêcheux, 1971 apud <xref
								ref-type="bibr" rid="B15">Fontana, 2014</xref>, p. 2).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>E a retomada da perspectiva teórica do imperialismo se faz oportuna na fase
						neoliberal do desenvolvimento capitalista, especialmente na periferia do
						sistema. <xref ref-type="bibr" rid="B6">Borón (2002</xref>, p. 38), numa
						alusão à Leo Panitch, destacado teórico do imperialismo, esboça semelhante
						impressão.</p>
					<p><disp-quote>
						<p>(...) enquanto o termo “imperialismo” caiu em desuso, as realidades do
							imperialismo estão mais intensas e impressionantes do que nunca. Este
							paradoxo é ainda mais acentuado na América Latina, onde não só o termo
							“imperialismo”, mas também a palavra “dependência”, foram expulsos da
							linguagem acadêmica e do discurso público, precisamente quando a
							sujeição de nossos países às forças econômicas transnacionais alcançou
							níveis sem precedentes em nossa história (<xref ref-type="bibr" rid="B6"
								>Borón, 2002</xref>, p. 38, aspas no original).</p>
					</disp-quote></p>
					<p>Portanto, a retomada da perspectiva marxista do imperialismo nos permite
						captar “os aspectos econômicos, sociológicos, institucionais, políticos,
						jurídicos, culturais e ideais do neoliberalismo” (<xref ref-type="bibr"
							rid="B43">Saad Filho, 2015</xref>) e, dessa forma, centrando-se
						objetivamente nas relações sociais e de classe, se apresenta como
						alternativa teórica e política às concepções baseadas na construção das
						racionalidades subjetivas ou no advento de um novo espírito do
						capitalismo.</p>
				</sec>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Vimos que, desde os primeiros estudos sobre o tema, datados ainda do final do século
				XIX, as teorias do imperialismo, marxistas ou não, bem como as referências
				parlamentares e jornalísticas ao termo, apresentavam-se como profícuo instrumento de
				análise dos fenômenos econômicos e sociais oriundos do desenvolvimento mundial do
				capitalismo. E na fase neoliberal do capitalismo imperialista, que para efeitos
				deste trabalho demarcamos como tendo iniciado a partir dos anos 1970 e se estendido
				até os dias atuais, a abordagem teórico-metodológica do imperialismo se faz ainda
				mais oportuna, útil e efetiva na tarefa de entender a sociedade contemporânea.</p>
			<p>Lançando mão do apoio e da violência do Estado, da espoliação via processos de
				privatização; da desconstrução do mundo do trabalho por meio de reformas
				constitucionais; do abandono da coordenação de políticas sociais em áreas onde as
				contradições do capitalismo se manifestam de forma mais aparente; destruindo
				comunidades e modos de vida tradicionais, especialmente rurais e indígenas, por meio
				do processo de desapossamento e especulação imobiliária; desalojando populações
				inteiras em estado de vulnerabilidade econômica; utilizando a dívida pública como
				forma de valorização do capital financeiro e potencializando a reprodução do capital
				fictício por meio da securitização das dívidas públicas; desconstruindo as relações
				afetivas e de vizinhança; enfim, em todas essas frentes, a adaptação dos indivíduos
				à realidade material estabelece novos padrões comportamentais e ideais que conformam
				as expectativas individuais e as fazem se adaptar às privações impostas pela
				dinâmica reprodutiva do capital.</p>
			<p>O esforço teórico aqui empreendido se justifica, a nosso ver, devido à recorrência de
				trabalhos nas duas últimas décadas cujos autores realizam a análise do capitalismo
				contemporâneo a partir do enfoque das mentalidades e do advento de uma nova
				racionalidade humana, mantendo o pilar fundamental do sistema neoliberal no primado
				da construção da subjetividade. De acordo com essa linha de interpretação, estaria
				em curso, desde os anos 1970, a construção de uma nova razão de mundo, ou o advento
				de um novo espírito do capitalismo, responsável pela materialização de uma nova
				sociedade e um novo sujeito, incapazes de serem investigados e apreendidos em sua
				totalidade pelas teorias críticas tradicionais.</p>
			<p>Após realizar uma breve crítica pontual a tais abordagens, tarefa para a qual nos
				apropriamos do pensamento de Marx e Engels contido n’ A ideologia Alemã, no que diz
				respeito à produção das ideias dominantes em determinado tempo histórico por parte
				da classe detentora dos meios materiais de produção, procuramos demonstrar que,
				alternativamente, a abordagem do imperialismo mostra-se como importante e atual
				ferramenta teórica para apreensão dos mecanismos pelos quais operam a acumulação do
				capital na era neoliberal, como estes engendram formas violentas e renovadas de
				exploração e apropriação e como ela nos permite entender também a expressão ideal do
				processo como parte indissociável do imperialismo, concepção que vimos estar
				presente desde os primeiros escritos sobre o imperialismo.</p>
			<p>A breve análise de alguns desdobramentos do neoliberalismo sobre a economia mundial e
				sobre o mundo do trabalho teve o intuito de demonstrar como a burguesia do centro do
				sistema capitalista desempenha seu papel dominante na construção e disseminação das
				ideias e das ações que abrem os caminhos para as forças de seus capitais, aplainando
				os terrenos, reduzindo a resistência popular, forjando a mentalidade idêntica aos
				seus interesses. Dessa forma, o estudo do imperialismo nos permite manter a análise
				do neoliberalismo no campo concreto, da luta de classes, sem por isso perder toda a
				amplitude de seus desdobramentos nos demais âmbitos da vida e da consciência
				humanas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>(1)</label>
				<p><italic>Sauver Marx? Empire, multitude e travail inmatériel</italic> é uma obra
					escrita por Pierre Dardot, Christian Laval e El Mouhoub Mouhoud, publicada em
					2007.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>(2)</label>
				<p> O Seminário Question Marx é um grupo de estudos e pesquisa, iniciado em 2004 e
					coordenado por Christian Laval e Pierre Dardot, na Universidade Paris-Ouest
					Nanterre-La Defense (França).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>(3)</label>
				<p> Dados e análises gráficas detalhadas podem ser obtidas em: <ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://br.investing.com/central-banks/fed-rate-monitor"
						>https://br.investing.com/central-banks/fed-rate-monitor</ext-link>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>(4)</label>
				<p> Dados e análises gráficas detalhadas podem ser obtidas em: <ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.inflation.eu/pt/taxas-de-inflacao/estados-unidos/inflacao-historica/ipc-inflacao-estados-unidos.aspx"
						>https://www.inflation.eu/pt/taxas-de-inflacao/estados-unidos/inflacao-historica/ipc-inflacao-estados-unidos.aspx</ext-link>
					e <ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://graficos.poder360.com.br/KsRej/2/"
						>https://graficos.poder360.com.br/KsRej/2/</ext-link>.</p>
			</fn>
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